Félix da Cunha Linhares, o Primeiro Povoador do Acaraú

Félix da Cunha Linhares nasceu em 1672, na freguesia de Santa Marinha de Linhares, concelho de Paredes de Coura, distrito de Viana do Castelo, Portugal. Era filho de Agostinho da Cunha e Ana de Araújo, neto paterno de Pedro Mendes e Maria Vaz, e neto materno de Diogo de Araújo e Maria Gonçalves, todos humildes camponeses do Alto Minho (Lima, 2016, p. 697).

Segundo Vicente Miranda, seu nome de batismo era, na verdade, Félix da Cunha "Araújo", igual sua mãe, sendo o sobrenome Linhares adotado posteriormente como uma referência ao seu lugar de origem, como era comum na época (Miranda, 2001, p. 131).

Ainda jovem, emigrou para o Brasil, vivendo primeiro em Natal dos Reis Magos, no Rio Grande do Norte, onde chegou a ser proprietário de terras. Posteriormente, transferiu-se para o Ceará, servindo como soldado no Forte de Nossa Senhora da Assunção, atual Fortaleza, no regimento do Coronel Leonardo de Sá, sertanista destemido que se tornaria seu sogro (Araújo, 2000, p. 98).

No ano de 1697, Félix da Cunha partiu para o sertão da ribeira do Acaraú em missão de reconhecimento e de perseguição aos índios. De volta ao Forte, apresentou relatório da incumbência que lhe fora confiada, informando ter encontrado a região despovoada, inclusive de indígenas, que, temerosos da perseguição, haviam-se aldeado na serra da Meruoca. Ressaltou, ainda, a fertilidade do solo banhado pelo rio Acaraú e a vastidão do sertão, propício à criação de rebanhos.

Impressionado com a descrição, o coronel Leonardo de Sá logo concebeu o projeto de ocupar aquelas terras devolutas e, posteriormente, legitimar a posse por meio de sesmarias. Sugeriu, então, que Félix da Cunha se casasse com sua filha, Maria de Sá. Caso aceitasse a proposta, comprometeu-se não apenas a obter para o casal a concessão de uma sesmaria, onde poderiam fixar residência, como também a assegurar-lhe a patente de coronel do Regimento dos Índios da ribeira do Acaraú (Araújo, 2000, p. 98).

Casaram-se em Fortaleza e, em 1700, o casal já residia no Sítio São José (da Mutuca), terras medindo três léguas (19,6 km), recebidas por Maria de seu pai e confirmadas e14 de outubro de 1702 pelo Capitão-mor Francisco Gil Ribeiro (Sesmarias Vol. 2, nº 118). Essa fazenda corresponde ao atual distrito Patriarca, em Sobral. Lá construiu uma boa casa de morada, acomodou seu gado, cultivou lavouras de subsistência, sendo a primeira fazenda rural a se organizar na região. 

Cabe ressaltar que a data exata em que Félix Linhares chegou a Ribeira do Acaraú não é bem determinada, sendo que para alguns autores ele já estaria morando na região desde antes de 1690 (Linhares, 1941, p. 234; Linhares, 1939, p. 15; Miranda, 2001, p. 69). O sesmeiro trouxe ainda para a região seu irmão Francisco da Cunha Araújo e seu sobrinho Domingos da Cunha Linhares, filho de sua irmã Suzana de Araújo com Jacinto Gonçalves, natural de Castela (Miranda, 2001, p. 131). 

E1718, por influência do pároco João de Matos Monteiro, primeiro cura do Acaraú, iniciou a construção de uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, com licença do cabido de Olinda, cuja sede episcopal estava então vacante. Para constituir o patrimônio da dita capela, Félix Linhares doou para a igreja meia légua de terra em quadro e mais 50 vacas (Linhares, 1922, p. 267).

Juntamente com seu sogro Leonardo de Sá, empreenderam bandeiras que alcançaram até o rio Parnaíba, no Piauí, colaborando para consolidar o domínio português sobre a capitania. Como recompensa por seus serviços, obteve, além das terras da Fazenda São José, outras três sesmarias, todas concedidas pelo Capitão-mor Gabriel da Silva do Lago. Nas solicitações Linhares se intitulava como o “primeiro povoador do rio Acaraú”:

  • Em 13 de novembro de 1706, junto com Leonardo de Sá, Antônio Marques Leitão e Bento Coelho, requereu nova sesmaria de três léguas (19,6 km) de terra nos riachos: Arataiaçu e Pacujá, que desagua, um na ribeirado Acaraú e o outro na ribeira do Coreaú (Sesmarias Vol. 3, nº 171, p. 83);
  • Em 16 de maio de 1707 de três léguas (19,6 km) de terra, no riacho do Macaco, no rio Acaraú (Sesmarias Vol. 4, nº 225, p. 16);
  • Em 7 de janeiro de 1708, obteve nova sesmaria de meia légua (3,3 km) de terra nas margens do riacho Cachoeira, no Acaraú, afluente da Serra da Meruoca (Sesmarias, Vol. 5, nº 279, p. 70);

Félix da Cunha Linhares faleceu em dezembro de 1723, aos 51 anos, na fazenda São José, Patriarca, Sobral. Ao que dizem, a morte teria sido causada pela picada de uma cobra venenosa. Em seu testamento, lavrado pelo tabelião Francisco Cardoso Pereira no sitio Muritiapuá a 7 de setembro do mesmo ano, declarava-se dono do incrível patrimônio de de seis fazendas, nas quais havia mais de 8.000 cabeças de bovinos, 150 éguas e 50 cavalos (Girão, 1947, p. 154).

Após sua morte, seu sobrinho Domingos assumiu a administração da fazenda São José e concluiu a construção da capela, que se encontrava "por acabar metade das paredes e com uma imagem" (Arruda, 1998, p. 4). Depois de sucessivas reformas, a capela foi reinaugurada de forma mais permanente em 1764, reconstruída em pedra e cal (Araújo, 2005, p. 72).  Nessa época, Domingos ocupava terras as margens do Riacho Caioca, cuja posse foi confirmada por sesmaria a 2 de setembro de 1750, e que hoje correspondem ao atual distrito de Caioca, em Sobral. Conforme o historiador Raimundo Girão, a fazenda que originou esse distrito pertenceu a Edna Pereira da Cunha em 1776, o que sugere fortemente que ela seja parente de Domingos (Girão, 1983, p. 252). 

Outra propriedade de Félix da Cunha Linhares foi herdada por seu cunhado, o Cel. Sebastião de Sá, que também assumiu uma dívida de trezentos mil réis de Félix com os herdeiros de Manuel Nogueira Cardoso. Essa transação aparece no inventário do Cel. Sebastião de Sá, lavrado a 21 de novembro de 1742, onde o testamenteiro do credor é Antônio Rodrigues do Lago e entre as testemunhas estava João Vieira Passos, que confirmou a existência da dívida, que provavelmente envolvia, entre outras coisa, a compra de gado (Araújo, 2005, p. 196). 

Descendentes de Félix da Cunha Linhares

O casamento de Félix da Cunha Linhares com Maria de Sá não gerou filhos biológicos. Em 1715, acolheram uma recém-nascida exposta, Albina, legitimada como filha em 8 de junho de 1722, no cartório de Aquiraz (Lima, 2016, p. 697).

Albina da Cunha Linhares casou-se em Recife com Antônio Gomes Bittencourt, filho do licenciado cirurgião Antônio Gomes Bittencourt e de Paula Dorneles, naturais da Ilha da Madeira. Fixaram-se na Fazenda Gravatá, às margens do rio Groaíras, deixando vasta descendência:

  1. João Gomes Bittencourt, batizado em 2 de março de 1741. Casou-se em 1º de novembro de 1761, na Capela do Riacho do Guimarães (Groaíras), com Florência Pereira, filha do Capitão Antonio Pereira da Silva e Teodora Fialho.

  2. José Gomes Bittencourt, batizado em 28 de novembro de 1741. Casou-se em 5 de maio de 1765, na Matriz da Caiçara, com Ana Ferreira, filha do mesmo casal Antonio Pereira da Silva e Teodora Fialho.

  3. Manoel, casado em 1º de março de 1778 com Francisca Pereira, também filha de Antonio Pereira da Silva e Teodora Fialho.

  4. Félix da Cunha Linhares Neto, casado em 30 de setembro de 1762, na Matriz da Caiçara, com Luíza Pereira Fialho, também filha de Antonio Pereira da Silva e Teodora Fialho. Assim, quatro irmãos Bittencourt casaram-se com quatro irmãs Pereira Fialho.

  5. Francisco Xavier, casado com Maria da Piedade, filha de Simião Martins e Maria de Ó Bezerra.

  6. Ana Maria, casada em 20 de novembro de 1775, na Fazenda Gravatá, com João Rodrigues Magalhães, viúvo de Ana Gonçalves, filho de João Rodrigues Magalhães e Gracia Ribeiro.

  7. Teresa de Jesus, casada em 11 de setembro de 1750, no sítio Carrasco, com o Capitão Serafim Henriques Gomes da Silva, filho de Antonio Henriques Pinto e Antonia Gomes.

  8. Maria, batizada em 11 de novembro de 1750.

  9. Joaquim, batizado em 19 de outubro de 1756.

Diego Carneiro

24 de novembro de 2025

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. Félix da Cunha Linhares, o Primeiro Povoador do Acaraú. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 24 de novembro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/09/o-patriarca-felix-da-cunha-linhares.html

Referências

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

GIRÃO, Raimundo. História econômica do Ceará. Instituto do Ceará, 1947.

GIRÃO, Raimundo. Os municípios cearenses e seus distritos. Estado do Ceará, Secretaria de Planejamento e Coordenação, Superintendência do Desenvolvimento do Estado do Ceará, Departamento de Recursos Naturais, 1983.

LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, v. 4, 2016.

LINHARES, Fortunato Alves. Notas históricas da Cidade de Sobral. Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza, v. 55, p. 1882-1982, 1922.

LINHARES, Fortunato Alves. Apontamentos para a história e corografia do município e cidade de Sobral. Revista do Instituto Histórico. Fortaleza, Ano LV, p. 234, 1941.

LINHARES, Mário. Os Linhares - Retrospecto Genealógico 1690-1939. Fortaleza, 1939.

MIRANDA, Vicente. Três séculos de caminhada. SM, 2001.

ARRUDA, Francisco de Assis Vasconcelos. Genealogia Sobralense - Os Linhares, Tomo IVFortaleza, CE, IOCE, 1998.

Introdução do Café no Ceará por José de Xerez Furna Uchoa

Nem sempre os produtos agrícolas que, em determinada época, constituem a base da riqueza de uma região são nela originários ou ali tiveram seus primeiros cultivos. Com frequência, chegam após diversas experiências realizadas em outras localidades, muitas vezes precedidas de tentativas malsucedidas ou de ensaios limitados em escala e alcance. Ao longo da história econômica dos povos, esse fenômeno tem sido reiteradamente observado.

Os colonizadores portugueses destacaram-se como verdadeiros mestres na introdução e adaptação de grãos e frutos em diferentes territórios. Não raramente, determinadas espécies, transplantadas com êxito, tornaram-se tão abundantes e enraizadas em novos ambientes que passaram a ser consideradas autóctones. Entre as possessões africanas e asiáticas, os navegadores lusos também promoveram trocas botânicas relevantes. A história dessas transferências de culturas ainda está por ser sistematicamente escrita e, quando o for, revelará uma instigante dimensão da obra civilizatória de Portugal no mundo.

Nesse contexto, o caso do café é particularmente emblemático, pois ilustra de maneira clara a tese inicialmente apresentada. Originária da Etiópia, a rubiácea, descrita pelos cronistas como um produto precioso, encontrou no Brasil um terreno fértil para sua expansão, especialmente nas províncias do Centro-Sul — Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo — de onde avançou em direção ao Oeste e, posteriormente, ao Paraná. Contudo, não foi nessa região que a cultura do café se iniciou. Está amplamente documentado que a planta chegou ao Sul a partir do Norte, passando pelo Nordeste, até fixar-se e alcançar seu apogeu econômico.

Em 27 de maio de 1727, aportava em Belém do Pará o capitão-tenente Francisco de Melo Palheta, trazendo clandestinamente de Caiena, na Guiana Francesa, cinco mudas de cafeeiro — as primeiras a serem cultivadas em território brasileiro. Poucos anos depois, em 25 de janeiro de 1751, a Gazeta de Lisboa Ocidental noticiava a chegada, ao porto daquela cidade, de um carregamento proveniente do Norte do Brasil, considerado superior ao café do Levante. A publicação acrescentava que, no local de origem — cujo nome fora prudente omitir —, havia colheitas suficientes para abastecer vinte embarcações.

As primeiras plantações brasileiras prosperaram na Amazônia, sobretudo na região do Rio Branco, no Pará e no Maranhão, após a introdução das mudas de Melo Palheta. Até 1748, segundo registros da referida Gazeta, múltiplos carregamentos chegaram a Lisboa. Contudo, em pouco tempo, esse comércio entrou em declínio em virtude da baixa produtividade das lavouras, até cessar por completo. Foi então que novas experiências de cultivo começaram a ser realizadas no Nordeste, tendo o Ceará como um dos primeiros focos.

Café na Ribeira do Acaraú e no Ceará*

Em 1747, o capitão-mor da vila de Sobral e da ribeira do Acaraú — atual Acaraú —, José de Xerez Furna Uchoa, descendente de tradicional família e figura de prestígio regional, introduziu o cafeeiro em sua propriedade, o sítio Santa Úrsula, na serra da Meruoca. O exemplar por ele plantado teria sobrevivido por 114 anos, segundo o historiador Barão de Studart, ainda existindo em 1861. Dessa planta derivaram as sementes que abasteceram os primeiros cafezais da Meruoca e da vizinha serra da Ibiapaba.

José de Xerez da Furna Uchoa foi homem influente na Ribeira do Acaraú, atuando como Juiz Ordinário e Juiz de Órfãos, bem como político de forte liderança. Ele era natural da Vila de Goiana, filho de Francisco Xerez Furna e de Inês de Vasconcelos Uchoa. Casou-se a 21 de outubro de 1747, às 7 horas da noite, na Igreja Matriz da Caiçara, Sobral, “em presença do Reverendo Doutor Visitador Manoel Machado Freire sendo dispensados os contraentes no terceiro e quarto grau de consanguinidade” com Rosa de Sá e Oliveira (uma das sete irmãs), filha de Manoel Vaz Carrasco e de D. Maria Madalena, (Madalena de Sá e Oliveira), por testemunhas o Reverendo Padre Pedro de Albuquerque Melo e o Sargento Mor Manoel Rodrigues Coelho (Lima, 2016, p. 1940).

Furna Uchoa pertencia a uma linhagem fidalga e manteve vínculos estreitos com a metrópole portuguesa. Em uma viagem à Europa, entre 1743 e 1746, visitou Paris e, no renomado Jardim das Plantas, conheceu exemplares de cafeeiros oferecidos ao rei Luís XV por navegadores holandeses vindos do Oriente. Decidido a aclimatar a rubiácea em suas terras, obteve, por meio da diplomacia portuguesa, uma recomendação ao duque de Choiseul, então ministro francês e figura de poder comparável ao marquês de Pombal em Portugal. Graças a esse apoio, recebeu duas mudas de café pertencentes originalmente ao rei francês. Apenas uma sobreviveu à travessia atlântica, tornando-se a planta centenária do sítio Santa Úrsula. Assim, o primeiro cafeeiro do Ceará veio diretamente de Paris e remontava ao acervo botânico de Luís XV.

A experiência pioneira de Furna Uchoa, entretanto, não foi imediatamente replicada. Por quase um século, o cultivo do café permaneceu restrito à serra da Meruoca. Somente em 1824, já no período pós-Independência, Antônio Pereira de Queirós, proprietário do sítio Munguaipe, e Filipe Castelo Branco, dono do sítio Bagaço — ambos na serra de Baturité —, retomaram a cultura. Queirós utilizou sementes provenientes do Cariri, região que mantinha contato agrícola com Pernambuco; já Castelo Branco empregou mudas oriundas do Pará. Iniciava-se, assim, o ciclo do café sombreado em Baturité, cujo produto viria a se distinguir pela qualidade e renome, mantendo-se até hoje como tradição agrícola da região. A partir daí, o plantio se espalhou por outras serras próximas, como Aratanha, Pacatuba e Maranguape.

As sementes oriundas do Cariri, por sua vez, tinham origem pernambucana, uma vez que no agreste daquela província já se realizavam experiências com o cultivo cafeeiro desde antes de 1824. Na mesma época, também se registraram plantações na Paraíba, notadamente em Mamanguape, cuja produção conquistou reputação comparável à de Baturité.

Dessa trajetória de difusão, depreende-se que foram os povos do Norte e do Nordeste os verdadeiros pioneiros da cafeicultura no Brasil: no Pará, a partir de 1727, e no Ceará, duas décadas depois. No início do século XIX, a rubiácea finalmente alcançaria o Sul, região onde encontrou condições para o seu mais expressivo desenvolvimento econômico.

É interessante que tenhamos devido as primeiras mudas de café à França: as de Caiena e a de Paris.

*Adaptado de Gustavo Barroso, na obra A Margem da História do Ceará (Barroso, 1962, p. 221-224).

José de Xerez Furna Uchoa

Nascido a 16 de setembro de 1722 em Goiana, Pernambuco, filho de Francisco de Xerez Furna e Inês de Vasconcelos Uchoa, José de Xerez migra para o Ceará provavelmente entre os anos de 1731 e 1742, estabelecendo-se inicialmente em Bela Cruz. O motivo para a migração é incerto, sendo uma hipótese plausível, de que D. Inês de Vasconcelos, então viúva, teria problemas de saúde que poderiam ser amenizados pelo clima litorâneo (Almeida, 2016, p. 171). Já a escolha do local, muito provavelmente se deveu ao fato desta ser sobrinha de Manoel Vaz Carrasco, dono da Fazenda Lagoa Seca.

Uma hipótese mais intrigante, é que a família tenha vindo fugida da Guerra dos Mascates ou mesmo das devassas que ocorreram em Pernambuco e Paraíba no período de 1729 a 1741. A família de José de Xerez, assim como a de Manoel Carrasco possuía ascendência de cristãos-novos, judeus convertidos a força pelo estado Português. Esse grupo muitas vezes era perseguido injustamente pela supostas práticas judaizantes, o que poderia resultar na prisão, confisco dos bens e até mesmo a pena capital (Souza, 2007, p. 160).

Após uma breve permanência em Bela Cruz, Xerez transferiu-se para Caiçara por volta de 1743, onde adquiriu terras e consolidou um prestígio notável. Em 5 de abril de 1758, foi designado almotacé da freguesia da ribeira do Acaraú, com atuação prevista para os meses de julho a setembro do mesmo ano. Pouco depois, em 26 de julho de 1758, foi eleito oficial da Câmara de Fortaleza para a mesma ribeira, tomando posse em 17 de agosto como juiz ordinário, função que exerceu durante o ano seguinte. Ao longo de sua carreira pública, ocupou ainda os cargos de juiz de órfãos e vereador da Câmara, vindo a ser nomeado capitão-mor das Entradas do Acaraú e capitão-mor das ordenanças (Linhares, 1901).

Entretanto, em meio a essa trajetória de ascensão, enfrentou acusações de um desafeto, que o acusava de descender de cristãos-novos. Essa acusação, motivou-o a empreender um extenso estudo genealógico visando provar (em vão) não constar entre seus ancestrais máculas de sangue "índio, mouro, judeu ou qualquer outra raça reprovável em direito". Infelizmente esse preciosíssimo estudo, que demorou cerca de 12 anos para ficar pronto encontra-se perdido, havendo apenas referências indiretas ao mesmo (Linhares, 1901, p. 70).

Em 21 de outubro de 1746, José de Xerez casa-se com Rosa de Sá e Oliveira, sua prima de 3º grau, e filha de Manoel Vaz Carrasco. O casal teve sete filhos (Araújo, 2005, p. 226):

1. Padre Miguel Lopes Madeira Uchoa, nascido a 2 de abril de 1762.

2. Ana América Uchoa, batizada a 20 de setembro de 1749, c.c. Manoel José do Monte, viúvo de Luzia da Costa Maciel, filho de segundo matrimônio de Gonçalo Ferreira da Ponte com Maria da Conceição. Ana América casou-se a 30 de novembro de 1769.

3. Francisca Xavier de Mendonça, batizada a 2 de outubro de 1751, c.c. o Capitão Antonio Manuel da Conceição, filho de Manoel José do Monte e Luzia da Costa Maciel, no dia 21 de setembro de 1778, mesmo dia em que se casou sua irmã Mariana.

4. Mariana de Lira Pessoa, c.c. o Capitão Antonio Alvares de Olanda, filho de Domingos Alves Ribeiro e Ana de Sá Cavalcante, a 21 de setembro de 1778.

5. Maria Manuela, nascida a 6 de dezembro de 1768, c.c. o Sargento-mor Francisco Antonio Linhares, filho de Antonio Alvares Linhas e Inês Madeira de Vasconcelos, a 22 de maio de 1787, na Matriz.

6. Maria José Mendonça, c.c. Joaquim José Madeira de Matos, filho de Manoel Madeira de Matos e Francisca de Albuquerque Melo, a 8 de fevereiro de 1781. Maria José Mendonça faleceu a 3 de dezembro de 1786, com 36 anos. O viúvo Joaquim José casou-se, em segundas núpcias, com Caetana Maria da Assunção, filha de Alexandre Fernandes de Vasconcelos e Caetana Maria, a 16 de fevereiro de 1806.

7. José de Lira Pessoa, nascido a 4 de setembro de 1766, casou-se duas vezes. À primeira, com Inácia Cavalcante de Albuquerque, filha do Capitão-mor Bento Pereira Viana e Bernarda Cavalcanti de Albuquerque. A segunda, com Maria Pereira Viana, filha natural de Bento Pereira Viana e Tereza Maria de Jesus, a 26 de agosto de 1828.

Ao que parece, a acusação não teve maiores consequências sobre sua reputação, visto que continua a ocupar posições de prestígio até o final de sua vida. No ápice de sua atuação pública, em 2 de setembro de 1778, é nomeado Capitão-mor da Vila Distinta e Real de Sobral. Faleceu José de Xerez da Furna Uchoa a 1º de abril de 1797 e foi sepultado na Matriz de Sobral.

Referências

ALMEIDA, Nilton Melo. Cristãos-novos e seus descendentes no Ceará Grande: a Inquisição nos sertões de fora. 2016. Tese de Doutorado. Universidade NOVA de Lisboa (Portugal).

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

BARROSO, Gustavo. À margem da história do Ceará. Imprensa Universitária do Ceará, 1962.

LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, v. 4, 2016.

LINHARES, Manoel do N. Alves. “Traços biograpficos do capitão-mor José de Xerez Furna Uchoa: o introdutor do café no Ceará”. In Revista do Instituto do Ceará, tomo XV. Fortaleza, 1901, pp. 68-76.

SOUZA, Francisco Ésio de. “Capitão-mor José de Xerez Furna Uchoa. O homem de seu tempo (17221797)”. Revista do Instituto do Ceará, tomo CXXI. Fortaleza, 2007

A Origem da Freguesia de São Bento da Amontada


O território de Amontada integrou originalmente as terras dos índios Tremembésprimeiros registros de contato com os colonizadores remontam a 1607, quando os padres Francisco Pinto e Luís Figueiras iniciaram os trabalhos de catequese. No decorrer do século XVII, missionários jesuítas e membros da Ordem de São Pedro também atuaram na região, procurando atrair os Tremembés ao projeto colonial. A ocupação luso-espanhola consolidou-se no século XVIII, momento em que surgiram os primeiros colonos registrados em documentos oficiais (Montenegro, 2023, p. 55).

Conforme os registros de sesmarias, os primeiros a receberem concessões de terras na região foram os portugueses Manuel Pinto Correia, Gonçalo Correia, João Pinto Correia e Antônio Álvares Correia. O registro dessa doação, datado de 7 de outubro de 1683, refere-se a uma área de três léguas, situada às margens dos rios Mundaú, Aracati-Mirim e Aracatiaçu, estendendo-se até as cabeceiras dos dois últimos (Sesmarias Vol. 1, nº 39). Tal concessão marca a presença dos primeiros europeus no território correspondente aos atuais municípios de Itapipoca e Amontada (Pinheiro e Pinheiro, 2022, p. 38).

Posteriormente, em 20 de junho de 1694, novas áreas de três por duas léguas foram concedidas a Agostinho Alves de Oliveira, Antônio de Oliveira Maciel, João Fernandes de Sousa, João Costa de Aguiar, Fulgência Rodrigues, Antônia Ferreira, Inês Alves e Ana de Sousa Jesus (Sesmarias Vol. 1, nº 9). Essas terras situavam-se na margem ocidental do Rio Mundaú e na margem oriental dos rios Aracatiaçu e Aracati-Mirim, ficando estes cursos d’água como limites naturais entre as propriedades (Pinheiro e Pinheiro, 2022, p. 39).

Com a expansão da pecuária, o território passou a ser ponto de repouso para vaqueiros oriundos da serra de Uruburetama, que transitavam pelas margens do rio Aracatiaçu (Montenegro, 2023, p. 56). Um núcleo inicial de povoamento, denominado São Bento da Ribeira do Aracatiaçu, já existia antes mesmo da chegada dos primeiros colonos portugueses conhecidos, embora não haja registros seguros de sua fundação (De Castro, 2015, p. 13).

O topônimo “Amontada” deriva do termo “Montado”, referência à cadeia de pequenas elevações que conecta o maciço da Serra das Matas à Ibiapaba (Braga, 1964, p.119). Essa região, composta por campos abertos e serrotes, mostrou-se adequada à criação de gado e à formação de fazendas, que se estabeleceram ao longo dos rios Aracatiaçu e Aracatimirim. As variações toponímicas ao longo do tempo refletem a dinâmica histórica da localidade: São Bento da Amontada, São Bento da Ribeira do Aracatiaçu, São Bento e, finalmente, Amontada, denominação oficial desde 1936.

Em meados do século XVIII, o português Tomé Pires de Queiroz, estabeleceu um criatório de gado nas margens do rio Aracatiaçu, cerca de 15 km distante da sede do atual município de Amontada. Sobre Tomé Pires, sabe-se muito pouco, apenas que foi um dos membros fundadores da Irmandade do Santíssimo Sacramento de Sobral, criada em 15 de setembro de 1752, ao lado de pessoas ilustres da região, como o Capitão Mateus Mendes de Vasconcelos (Araújo, 2005, p. 244). Ele também aparece ao lado de Luis Antonio Teixeira como testemunha do casamento de Domingos Rodrigues Linhares e Maria da Soledade Araújo, na matriz da Caiçara em 16 de setembro de 1762 (Araújo, 2000, p.140).

Ao redor da fazenda de Tomé Pires, formou-se uma pequena povoação (Amontada Velha), a partir da qual surgiu a solicitação para a construção de uma capela, dirigida a Dom José Fialho, da Ordem de São Bernardo de Alcobaça, então sexto bispo de Olinda (Pinheiro e Pinheiro, 2022, p. 42)Os moradores alegavam a grande distância da matriz mais próxima, localizada Caiçara (Sobral), sede do curato de Acaraú, a mais de 25 léguas dali. Naquele tempo, morava na fazenda de Amontada outro português, o Capitão-mor Antônio José dos Santos, o qual teria sido o responsável pela ereção do templo. Poucos anos depois, a capela começou a funcionar como posto espiritual, atendendo às primeiras necessidades religiosas da comunidade (De Castro, 2015).

Existe outra versão para a construção da Capela de Almofala Velha, segundo a qual sugere o templo, na verdade, teria sido construído por "uma missão religiosa que antecedeu a chegada dos colonizadores com vistas à catequese e ao aldeamento, num primeiro passo do projeto de colonização" (Pinheiro e Pinheiro, 2022, p. 39). Entretanto, essa versão é menos crível, uma vez que a dita capela não aparece nas listagens dos primeiros visitadores do curato do Acaraú, como Pe. Felix Machado Freire, que visitou as capelas da região em 1732, sendo provável que tenha sido erguida posteriormente a essa data (Araújo, 2005, p. 157).

Capitão-mor Antônio José dos Santos

Antônio José dos Santos nasceu no dia 26 de dezembro de 1764, na Rua Direita, do lugar Matosinhos, Freguesia de São Salvador de Bouças, atual Matosinhos, Porto. Filho de Bento Antônio dos Santos e de Mariana Francisca dos Santos.  Casou-se a 31 de maio de 1787, de manhã, na Fazenda Taperinha, Freguesia da Amontada, Ceará, com Rita Maria do Nascimento, filha de Gregório Pires Chaves, provável parente de Tomé Pires, e de Ana Maria da Anunciação. O casal, que passou a residir na Fazenda Amontada, teve 10 filhos (Lima, 2016, p. 240-241):

1. Inês Maria dos Santos casada com João de Agrela Jardim. 

2. Joaquim José dos Santos n. 22 de agosto de 1789, e b. a 30 do dito mês e ano, na Igreja Matriz de N. Senhora da Conceição da Amontada, pelo Padre Francisco Moreira de Souza. Capitão Mor de Itapipoca, por Carta Patente de 14 de março de 1827. Casou-se a 18 de novembro de 1834, com Margarida de Castro Viana, filha de Ponciano José de Oliveira e Maria José.

3. Maria Francisca da Conceição nasceu a 02 de agosto de 1813. Casou-se com Francisco Lourenço Gomes, n. na Freguesia de Sobral, filho de Domingos da Cunha Linhares e de Ana Maria do Espírito Santo.

4. Maria de São Pedro dos Santos faleceu já viúva a 13 de março de 1873. Casou-se com o Comendador Antônio Teles de Menezes, filho de Joaquim Teles de Menezes e de Luíza Soares de Vasconcelos. Neto paterno de Gabriel Cristóvão de Menezes e de sua primeira mulher, Bernarda Correia de Araújo.

5. Francisca Maria dos Santos que faleceu solteira. 

6. Joana Maria dos Santos nasceu a 29 de dezembro de 1804. Casou-se a 26 de fevereiro de 1824, com o Capitão Manoel Tomé Rodrigues, filho de Manoel Tomé Rodrigues, n. Portugal, e de Eugênia Barbosa das Virgens. 

7. Bento Antônio dos Santos nasceu a 15 de março de 1807. Casou-se a 10 de maio de 1834, com Ana Pires Chaves, filha de Gregório Pires Chaves e de Maria de Jesus Aguiar. 

8. Vicente José dos Santos nasceu no ano de 1808 e faleceu a 22 de novembro de 1839. Casou-se a 05 de novembro de 1835, com Maria Antônia Álvares, filha de Antônio Manoel Álvares, n. Braga, e de Inês Maria de Jesus Álvares. 

9. Antônio José dos Santos nasceu no ano de 1809. Casou-se a 05 de novembro de 1835, com Margarida Antônia Álvares, filha de Antônio Manoel Álvares, n. Braga, e de Inês Maria de Jesus Álvares. 

10. José Antônio dos Santos nasceu no ano de 1810. Casou-se a 05 de novembro de 1835, com Teodora Álvares, filha de Antônio Manoel Álvares, n. Braga, e de Inês Maria de Jesus Álvares. Casou-se novamente com Luíza Antônia Cordeiro, viúva do Capitão Joaquim Manoel Álvares.

A Criação da Freguesia de Amontada

Com o crescimento populacional e a dispersão dos habitantes para áreas ainda mais distantes, os moradores recorreram a Dom Francisco Xavier de Aranha, também português, natural de Arronches e pertencente à Ordem de São Pedro, que exercia o cargo de oitavo bispo de Olinda. Atendendo ao pedido da população da ribeira do Aracatiaçu, em 1757 ele promoveu a divisão do curato de Acaraú em quatro freguesias, uma delas com sede em Amontada (Velha). Essa criação foi confirmada por provisão do visitador-geral do Nordeste, Frei Manoel de Jesus Maria, consolidando a estrutura eclesiástica da região.

Contudo, uma vez que o terreno sob o qual estava construída a capela da povoação não teria sido formalmente doado à Igreja, havia um impedimento canônico para que esta funcionasse como sede paroquial. Apesar disso, registros de casamentos e sepultamentos confirmam a atuação de três vigários na freguesia nas três décadas subsequentes, período em que não existiam outras capelas na região (De Castro, 2015, p. 14).

A disputa pela sede paroquial acirrou-se a partir de 1788, quando o Capitão Manuel Gomes do Nascimento e sua esposa, D. Antônia do Ó Correia Araújo Menezes, doaram à Igreja meia légua (3,3 km) de terra à margem direita do rio Aracatiaçu, na Lagoa do Barbatão, atual sede municipal (Lira, 1984, p. 36). Essa propriedade encontrava-se dentro dos limites da sesmaria concedida ao pai de Antônia, Capitão Gabriel Cristóvão Teles de Menezes, de três léguas (19,8 km), obtida em 20 de janeiro de 1746, e foi dada ao casal como dote, juntamente com o significativo rebanho de mil cabeças de gado (De Castro, 2015, p. 14).

Essa fazenda que na verdade chamava-se São Bento, também era conhecida por Barbatão, por existirem muitos bois não domesticados, criados na mata (Pinheiro e Pinheiro, 2022, p. 41)Ali foi erguida uma nova capela, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, que progressivamente assumiu a centralidade religiosa e política do território. Entre o final do século XVIII e o início do XIX, instaurou-se forte rivalidade entre os moradores de Amontada Velha e os de São Bento, marcada inclusive por disputas em torno da posse da imagem da padroeira.

Ruínas das Antiga Igreja de Amontada Velha

A instabilidade prolongou-se durante o século XIX. Pela Lei nº 364, de 29 de julho de 1846, a sede da freguesia foi transferida para Arapari, e em 1868 para Imperatriz (atual Itapipoca). Apenas em 21 de abril de 1874 foi criada novamente a Paróquia de São Bento de Amontada, tendo como vigário o padre Joaquim Teodoro de Araújo (1875–1915). Em definitivo, a freguesia consolidou-se em 1873 na atual sede.

Evolução Administrativa

A trajetória político-administrativa do município foi marcada por constantes oscilações. Criado como distrito em 1757, subordinado a Itapipoca, Amontada foi suprimido em 2 de setembro de 1838 (Lei nº 150) e restaurado em 19 de setembro de 1842 (Lei nº 253). Em 30 de agosto de 1876, alcançou emancipação municipal (Lei nº 1.735), mas foi extinto em 26 de novembro de 1878 (Lei nº 1.776). Restaurado em 29 de agosto de 1884 (Lei nº 2.082), voltou a ser suprimido em 1º de agosto de 1905 (Lei nº 6.447). Diversos atos normativos posteriores definiram sua condição instável: Decreto nº 43, de 13 de agosto de 1890; Decreto nº 14, de 23 de março de 1892; Lei nº 424, de 29 de setembro de 1897; até que em 1938 seu nome foi simplificado para São Bento (Lei nº 791). Pelo Decreto nº 1.117, de 30 de dezembro de 1943, passou a se chamar definitivamente Amontada.

O município foi novamente extinto pela Lei nº 11.010, de 5 de janeiro de 1985, e reinstalado em 1º de janeiro de 1986, quando se emancipou em caráter definitivo de Itapipoca, junto com os distritos de Icaraí e Aracatiara. Posteriormente, em 1988, foram criados os distritos de Moitas e Sabiaguaba (desmembrados de Icaraí e Aracatiara) e o distrito de Nascente (resultado da divisão do distrito-sede e parte de Aracatiara). A formação territorial, assim, reflete tanto a fragmentação administrativa quanto os diferentes fluxos migratórios que contribuíram para a ocupação, oriundos de municípios vizinhos, de outros estados nordestinos e de Portugal.

Do ponto de vista urbano, o núcleo inicial da atual cidade desenvolveu-se tardiamente. Até a década de 1960, a área ao redor da Praça Coronel Antônio Belo, onde se encontra a Igreja Matriz, concentrava a ocupação mais regular, com edificações datadas do final do século XIX e sobrados das décadas de 1940 e 1950. Mesmo em 1985, quando da emancipação definitiva, o núcleo urbano ainda carecia de infraestrutura administrativa e de serviços básicos, apresentando-se como um tecido disperso, mesclando usos rurais e urbanos (De Castro, 2015, p. 19).

A economia local se estruturou na comercialização de produtos agrícolas — algodão, farinha, cera e palha de carnaúba, castanha de caju, oiticica, feijão, coco e milho — embora sofresse forte concorrência da vizinha Itapipoca. Nas últimas décadas, porém, Amontada conheceu expressivo dinamismo, resultado tanto da diversificação de atividades econômicas quanto do crescimento da infraestrutura e do impacto do turismo no litoral, especialmente em Icaraí de Amontada, com efeitos já perceptíveis em Moitas e Sabiaguaba (Montenegro, 2023, p. 57).

Atualmente, o município apresenta uma rede distrital heterogênea: enquanto sedes como Aracatiara, Nascente, Poço Comprido, Garças, além da sede urbana e de Icaraí, exibem maior dinamismo, outras localidades mantêm feição predominantemente rural, baseadas na agricultura de subsistência e em pequenos núcleos de comércio varejista. Essa combinação de trajetórias históricas, conflitos fundiários, instabilidade político administrativa e transformações recentes conforma o processo singular de formação e desenvolvimento de Amontada.

Diego Carneiro

28 de setembro de 2025

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. A Origem da Freguesia de São Bento da Amontada. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 28 de setembro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/09/origem-sao-bento-amontada.html

Referências

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

BRAGA, Renato. Dicionário geográfico e histórico do Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1964.

DE CASTRO, Gerson Vidal. Amontada, Aspectos Políticos Econômicos e Históricos. Amontada, 2015.

LIRA, Pe. João Mendes. Subsídios para a História Eclesiástica e Política do Ceará. Rio de Janeiro: Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1984.

MONTENEGRO, Seridião Correia. Perfil Histórico, Geográfico e Antropológico do Municípios do Ceará. Fortaleza: INESP, 2023.

PINHEIRO, Jonas Rabelo;  PINHEIRO,  Gabriel Lopes. História Política de Amontada. Fortaleza: INESP, 2022.

Gonçalo Ferreira da Ponte*

 

O coronel Gonçalo Ferreira da Ponte, primeiro membro da família a fixar residência na região de Sobral, traz em seus sobrenomes a marca de sua descendência lusitana. Tanto Ferreira quanto Ponte remetem a concelhos portugueses — Paços de Ferreira e Ponte de Lima —, prática comum entre os colonos vindos do Reino. Era habitual transformar topônimos em antropônimos, gesto interpretado como forma de preservar a memória da terra natal e reafirmar os vínculos com a pátria distante.

Até meados do século XVIII, a norma entre os portugueses consistia em adotar apenas dois nomes: o prenome de batismo e o sobrenome paterno. Ao chegarem ao Brasil, contudo, muitos acrescentavam o topônimo da localidade de origem como sobrenome suplementar. Assim surgiram apelidos que atravessaram gerações: Porto, Lisboa, Viana, Lima, Ponte, Ferreira, Braga, entre tantos outros. Nesse contexto, Gonçalo Ferreira da Ponte insere-se em uma tradição amplamente documentada.

Nascido em 1697, na freguesia da Boa Vista do Recife, era filho de Cosme de Freitas Pereira e Joana de Barros Rego Coutinho, descendente de Arnaud de Holanda. O sobrenome Ferreira advinha do avô paterno Rodrigo da Costa Ferreira, casado com sua parenta Marusa de Freitas. Segundo a Nobiliarquia Pernambucana de Borges da Fonseca, Gonçalo recebeu o apelido de “Cachaço”, provavelmente em razão de um pescoço volumoso, possivelmente causado por enfermidade da tireoide.

De temperamento inquieto e vida atribulada, Gonçalo mudou-se diversas vezes e enfrentou provações familiares, como a morte de duas esposas e o desgosto com o destino errante do filho primogênito, Francisco Ferreira da Ponte, que fugiu ainda jovem para as Minas Gerais, levando vida irregular e mantendo-se por anos sem contato com o pai.

Ainda adolescente, transferiu-se para Natal, no Rio Grande do Norte, onde, aos 17 anos, casou-se pela primeira vez com Maria de Matos Coutinho. Dessa união nasceram Francisco e Maria de Matos, ambos no Recife. Francisco, como dito, seguiu para as Minas, onde teve filhos com Maria da Costa; em 1737, estabeleceu-se no Vale do Acaraú, casando-se no ano seguinte com Maria Madalena de Sá, uma das célebres “Sete Irmãs”, filhas de Manoel Carrasco. Já Maria de Matos contraiu matrimônio no Recife com Sebastião de Arruda Coelho, mas nada mais se sabe sobre sua trajetória.

O segundo casamento de Gonçalo ocorreu em 1736, na matriz da Boa Vista do Recife, com Maria da Conceição do Monte e Silva, natural da Ilha da Madeira. Dessa união nasceram:

  • Pe. José Ferreira da Costa, cura da Missão Velha dos Cariris Novos (sul do Ceará);

  • Capitão-mor Manoel José do Monte;

  • Maria do Livramento, que se casou na matriz da Caiçara, atual Sobral.

Seu terceiro matrimônio deu-se com Rosaura (ou Rosária) do Ó Mendonça, irmã do capitão-mor José de Xerez Furna Uchoa, sem deixar descendência.

As razões que motivaram sua vinda do Recife ao Ceará permanecem incertas. O genealogista Soares Bulcão, em manuscrito preservado no Instituto do Ceará, sugere que Gonçalo teria acompanhado o filho padre José à Missão Velha, vindo posteriormente para o Vale do Acaraú. Outra versão sustenta que teria migrado ao saber do retorno de Francisco das Minas, já estabelecido com dois filhos bastardos na ribeira do Acaraú. Ambas as hipóteses são plausíveis e talvez complementares.

O autor da fonte consultada não registrou a descendência dos filhos ilegítimos de Francisco — José e Perpétua —, ambos casados na matriz de Sobral.

No Vale do Acaraú, Gonçalo prosperou economicamente, alcançando o posto de coronel de milícias. Fixou residência no sítio Santa Úrsula, na serra da Meruoca, próximo à chácara do cunhado José de Xerez. Ali faleceu repentinamente em 23 de junho de 1762, aos 65 anos. Em testamento, declarou: “como não tem herdeiros forçados, institui por sua herdeira a Nossa Senhora da Conceição desta matriz” (Sobral), onde foi sepultado.

*Adaptado de Pe Sadoc de Araújo em Arruda (1997), p. 15-16.

Referências

ARRUDA, Assis. Genealogia Sobralense: Os Ferreira da Ponte Vol. IV - Tomo I. Fortaleza, CE, IOPMS, 1997.

Famílias Endogâmicas do Vale do Acaraú*

No Ceará dos séculos XVIII e XIX, os casamentos endogâmicos entre as principais famílias eram prática recorrente. Tais uniões visavam preservar o prestígio social, assegurar os interesses econômicos do clã e, sobretudo, manter a pretensa pureza da linhagem — a chamada “branquidade” — tão valorizada pelos grupos dominantes, imbuídos dos preconceitos de cor e casta. Rejeitava-se, por essa razão, a miscigenação com indivíduos de origem incerta, frequentemente associados a ascendência mestiça ou a extratos sociais considerados inferiores.

Esse padrão resultava diretamente da organização da sociedade patriarcal e escravocrata vigente. Muitas das famílias tradicionais cearenses, especialmente as que desbravaram o vale do Acaraú, eram de ascendência portuguesa e, por isso, buscavam evitar alianças inter-raciais. Esse projeto foi favorecido tanto pelo baixo contingente de população negra na Província quanto pela quase completa eliminação da população indígena local. Assim, negros, índios e seus descendentes mestiços permaneceram à margem da ascensão social e econômica, confinados à chamada “classe baixa”, sem acesso às famílias de prestígio por meio do casamento.

É certo que ocorreram exceções. Em alguns casos, a decadência econômica de membros da elite branca — frequentemente agravada pelas crises climáticas — levava-os a contrair matrimônio com pessoas de cor. Noutras situações, mestiços socialmente favorecidos, sobretudo filhos naturais de grandes proprietários, alcançavam certo reconhecimento e conseguiam integrar-se à esfera das famílias brancas. Isso se verificava, sobretudo, no período inicial do povoamento, quando a escassez de mulheres brancas levou muitos colonizadores a unirem-se, de forma legítima ou não, com índias classificadas como “catequizadas”.

Apesar dessas exceções, as chamadas “boas famílias”, zelosas de seu nome e tradição, cultivaram o hábito de casar filhas e filhos entre primos e aparentados, ou ao menos com descendentes de famílias amigas do mesmo nível social. Essas uniões, em regra, eram previamente ajustadas pelos pais, preservando uma estrutura de sociabilidade fechada.

Esse modelo de família endogâmica começou a se alterar a partir do último quartel do século XIX, quando as transformações sociais, políticas e econômicas desencadeadas no Brasil — intensificadas pela difusão do ensino e da imprensa, pela melhoria dos transportes e comunicações, bem como pela democratização das estruturas sociais derivada da Revolução Industrial e das ideias liberais — fragilizaram velhos tabus e tradições seculares. O conceito de casta social, outrora fortemente atrelado à cor, passou a adquirir sentido predominantemente econômico. Dessa forma, indivíduos de origem humilde ou de moral contestada, mas respaldados por certo nível educacional e econômico, conquistaram acesso às camadas superiores da sociedade por meio da convivência e do casamento.

Feitas essas considerações, propõem-se demonstrar a validade da tese exposta a partir de exemplos concretos de interligações parentais entre famílias tradicionais do vale do Acaraú, conforme é possível constatar em pesquisas genealógicas. Com efeito, a endogamia foi característica comum, em maior ou menor grau, a praticamente todas as famílias antigas do sertão cearense, confinadas à vida rural e sem grande contato com o exterior, dada a precariedade dos transportes — restritos ao cavalo de sela e ao carro de bois.

Assim, no baixo Acaraú — a partir de Sobral e Santana do Acaraú — o casamento entre parentes constituiu a regra. O fenômeno é amplamente documentado entre descendentes dos Carrasco, Ferreira da Ponte, Xerez Uchoa, Monte, Ribeiro da Silva, Fonteles, Mendes de Vasconcelos, Souza Vasconcelos, Soares Bulcão, Menezes, Lourenço da Costa, além de famílias ligadas aos Linhares, Rodrigues Lima, Frota, Araújo Costa, Ferreira da Costa, Figueira de Melo, Viriato de Medeiros, Sabóia, Carneiro, Pereira Dutra, Ferreira Gomes, Brandão Rodrigues, Almeida, Albuquerque, Melo, Ximenes de Aragão, Gomes Parente, Lira, Holanda Cavalcanti, Madeira de Matos, Lopes Freire, Furtado de Mendonça, Aguiar, Rocha, Andrade, Paula Pessoa, Arruda, Prado, Coelho, Nogueira, entre muitas outras.

Essas sucessivas alianças familiares, especialmente em certos grupos, como os Ferreira da Ponte, Ribeiro da Silva, Ferreira Gomes, Gomes Parente e Frota, formaram uma rede de laços consanguíneos complexa e intricada, cuja reconstituição exige tempo e paciência minuciosa, semelhante ao labor de um genealogista beneditino.

*Adaptado de Ponte (1972)

Referências

PONTE, José Fernando da. Famílias endogâmicas do Vale do Acaraú. Revista do Instituto do Ceará, v. 86, p. 97-102, 1972.

De Caiçara a Sobral


Muito já foi escrito sobre a origem de Sobral, de modo que tenho pouco a avançar frente aos competentes esforços dos pesquisadores que me precederam. Ademais, apesar de Sobral estar fora do escopo original desta pesquisa, que tem como objeto principalmente o Baixo Vale do Acaraú, são incontáveis as referências a Princesa do Norte e seus primeiros colonizadores, de modo que a obra não estaria completa sem abordá-la, mesmo que brevemente. Portanto, essa postagem visa tão somente apresentar as principais referências sobre o tema, de modo a contextualizar aos leitores, dada sua importância.

A Lenda de Frei Cristóvão

Existe uma lenda transmitida oralmente, segundo a qual a primeira presença europeia na região do atual município de Sobral teria se dado por meio de uma expedição missionária vinda do Maranhão nas primeiras décadas do século XVII. Composta por quatro clérigos e quinze soldados, essa missão teria por objetivo inicial levar o evangelho aos indígenas que habitavam a região da Ibiapaba. Sob seu comando estava o lendário Frei Cristóvão de Lisboa (Lira, 1971, p. 15).

Entretanto, um desentendimento conflituoso com os indígenas teria levado o grupo a desviar-se do caminho. Perseguidos pelos nativos hostis, e após percorridas muitas léguas, foram guiados por um indígena amigo ao arredores da serra da Meruoca, onde hoje situa-se o município de Sobral (Município de Santana, 1926, p. 28).

Ao atingirem a região sobralense, foram mais uma vez atacados pelos Tabajaras próximo a um afloramento rochoso na região que hoje corresponderia a antiga fábrica de tecidos, atual campus da Universidade Federal do Ceará. O local, que ficou por algum tempo conhecido como Fortaleza, ostentava até 1893 marcadas com tinta vermelha onde se viam pintados rostos humanos e outros sinais (Frota, 1974, p. 46).

Nesse conflito, um dos padres da missão teria sido alvejado e morto, tendo sido enterrado as pressas. Sobre a sepultura desse dito padre anônimo, anos mais tarde teria sido erguida a a primitiva capela que deu origem a povoação de Caiçara, atual Catedral de N. S. da Conceição  (Linhares, 1922, p. 264). Em outra versão, a comitiva, fugindo do conflito, foi parar em Santana do Acaraú, o que já foi abordado em outra postagem.

É difícil precisar o que há de verdade nessa história. Ao que parece, existem evidências de que Frei Cristóvão de Lisboa de fato veio ao Ceará no ano de 1626 (Studart, 1896, p. 37). Segundo o relato de Bernardo Berredo (1749), nesse ano Frei Cristóvão de Lisboa deixou Belém para visitar o Ceará. Ao chegar ao Maranhão, sem conseguir uma embarcação mais adequada, organizou sua comitiva em duas canoas e partiu no dia 18 de maio. Entretanto, o mar revolto os obrigou a seguir por terra, enfrentando mais de um mês de marcha com fome e cansaço.

Na véspera do dia de São João, foram atacados por cerca de 90 índios tapuias. Apesar de mal armados e em menor preparo, resistiram bravamente, com Frei Cristóvão empunhando espada e escudo e animando os companheiros. Perderam a bagagem e alguns aliados, mas obrigaram os inimigos a negociar paz. Finalmente, em 25 de junho de 1626, chegaram ao Presídio do Ceará, acolhidos pelo capitão Martim Soares (Berredo, 1988).

D. José Tupinambá da Frota é cético quanto a se os acontecimentos narrados de fato poderiam ter se dado em Sobral. Nessa época os sertões do Ceará eram totalmente desconhecidos e despovoados e todas as comunicações ao norte se faziam pelo litoral, através de Jericoacoara. Além disso, há certa incoerência temporal, visto que a batalha teria acontecido na véspera do dia de São João (23 de junho) e achegada ao Presídio, apenas três dias depois, em 26 de junho. Portanto, é mais provável que o evento narrado tenha se dado no litoral próximo a Fortaleza, e não em Sobral (Frota, 1974, p. 48).

Ademais, Berredo menciona os nomes dos três padres que acompanharam Frei Cristóvão de Lisboa, feridos no ataque, eram eles os freis João e Baltazar João Correia e o padre secular João Pereira, o qual havia sido vigário da Matriz do Pará. Anos mais tarde, em 1612, padre Baltazar João Correia foi designado como vigário do Presídio do Ceará, sendo considerado um dos primeiros da igreja cearense (Leal, 1993, p. 41).

Primeiros Colonizadores*

Segundo Pe. Sadoc Araújo, o território onde hoje encontra a cidade de Sobral pertencia a sesmaria confirmada em 14 de outubro de 1702, pelo capitão-mor Francisco Gil Ribeiro a dois vereadores da Câmara da recém-criada Vila de Aquiraz: Antônio da Costa Peixoto e Leonardo de Sá (Araújo, 1978, p. 23). A referida sesmaria media três léguas de comprimento por uma de largura, abrangendo igualmente as margens do rio (Cfr. Livro de Sesmarias, nº 117). À margem direita do rio, em terras desta sesmaria, foram construídas as Fazendas Várzea Grande e Marrecas, e à margem esquerda as Fazendas Caiçara, Cruz do Padre e Pedra Branca (Araújo, 2005, p. 75).

Antônio da Costa Peixoto, natural de Portugal, chegou ao Ceará por volta de 1676, fixando residência junto ao Forte no qual serviu como soldado. Aí constituiu família, conseguindo também ter grande influência social e política nos primórdios da organização da Colônia, tendo sido eleito vereador na primeira eleição realizada no Ceará, em Iguape, a 25 de janeiro de 1700. Em 1694 conseguiu sesmaria às margens do rio Siupé onde posteriormente fixou residência (Araújo, 2005, p. 75). Foi ele o primeiro proprietário das terras em que se edificaria a Fazenda Caiçara, núcleo originário da futura cidade de Sobral.

O termo “Caiçara”, de origem tupi, significa “cerca feita de mato” e, por extensão, tapume, trincheira ou arraial. A palavra deriva de caá (mato) + yçá (cerca, estaca) + ara (sufixo). Segundo Teodoro Sampaio, havia diferentes tipos de cercas utilizadas nas aldeias indígenas, como estacadas unidas, de troncos espaçados, de rede ou de ramagem, sendo esta última chamada kaiçã, que evoluiu para caiçara. Esses cercados protegiam casas, criações e roçados, e deram origem a diversos topônimos no Nordeste. No caso de Sobral, o nome “Caiçara” designou a localidade até sua elevação à categoria de vila e sede de município (Araújo, 2000, p. 21).

Tem-se conhecimento de dois filhos de Antônio Peixoto: Nicolau da Costa Peixoto e Apolônia da Costa. O primeiro, casado com Paula de Sá, filha do outro sesmeiro Leonardo de Sá, fixou residência no baixo Acaraú, região onde hoje se encontra a cidade de Bela CruzQuanto à Apolônia, sabemos que herdou terras de seu pai nesta Ribeira, exatamente onde se encontra a cidade de Sobral, sendo portanto a segunda proprietária destas terras. Casou-se com o Sargento-mor Antônio Marques Leitão, natural de Óbidos, Portugal, e residente no Siupé.

Deste casal nasceram sete filhos, três dos quais vieram residir na Ribeira do Acaraú para ocupar e administrar as terras da sesmaria da família. Foram eles:

1. Antônio da Costa Leitão, sapateiro, casado a 6 de junho de 1740, na Capela da Santana, com Maria Barbosa, filha legítima de Domingos Rodrigues Peniches e Inês Barbosa. Residia na Fazenda Cruz do Padre, distante dois quilômetros da Caiçara, onde faleceu a 8 de julho de 1773, exatamente dois dias antes da criação da Vila de Sobral.

2. João Marques da Costa, criador, casado, a 1º de março de 1745 na Capela de Almofala, com Ana Maria Josefa de Barros, filha legítima do escrivão Luís Vieira de Barros e Rosaura Gomes de Oliveira, Residia na Fazenda Marrecas, onde faleceu a 18 de abril de 1785, deixando numerosa prole de 14 filhos.

3. Quitéria Marques de Jesus que foi a terceira proprietária da Fazenda Caiçara. Casou-se, à 5 de março de 1733, com o Capitão Antônio Rodrigues Magalhães, natural do Natal dos Reis Magos, Rio Grande do Norte, filho legitimo de Luís de Oliveira Magalhães, e Isabel Gonçalves. O casal, Antônio Rodrigues Magalhães e Quitéria Marques de Jesus, residiram durante muito tempo no Siupé onde nasceu a maioria de seus filhos. Pelo ano de 1750, o casal se transferiu-se definitivamente para a Fazenda Caiçara, berço e Sobral, onde fez doação de cem braças de terras em quadro para a constituição do patrimônio da Capela de Nossa Senhora da Conceição da Ribeira do Acaraú. Dona Quitéria faleceu a 31 de agosto de 1758 e foi sepultada na Matriz da Caiçara. 

Falecendo Dona Quitéria, a Fazenda Caiçara tocou por herança à sua filha caçula Bárbara Maria, que foi, assim, a quarta proprietária destas terras. Bárbara Maria foi batizada a 7 de janeiro de 1755 na Matriz da Caiçara e se casou, a 9 de setembro de 1786, com Antônio José Marinho, filho legítimo de João Machado do Rego e Maria Francisca. Até aqui, as terras da Caiçara pertenceram à mesma família. Por esta tempo, já havia um povoado relativamente adiantado centro que era de toda a região.

O casal Antônio José Marinho e Bárbara Maria arrendou as terras a Luís Soares Ferraz Porto pela quantia de oito mil réis por ano, e logo após as vendeu a José Mendes Machado que foi assim o quinto proprietário. Com estas vendas, a Fazenda saiu das mãos da primeira família. José Mendes Machado era filho do Capitão Cosme Frazão de Figueroa e D Maria Coelho de Vasconcelos, residentes na Fazenda Sapó hoje município de Santana do Acaraú, e se casou, à 2 de setembro de 1747, com Antônia Maria Lopes, filha legítima de José Leitão Arnoso e Maria Lopes Leitão.

No inventário de José Mendes Machado feito na Caiçara, no dia 18 de dezembro de 1772, diz-se que “possuía uma sorte de terra de criar gados neste próprio lugar chamado a Caiçara, com uma légua de comprido pelo rio Acaraú acima e meia de largo para fora dele, tudo somente para a parte do poente, pegando no comprimento das testadas da Fazenda Pedra Branca do Capitão Francisco Cunha de Araújo até contestar com terras da Fazenda Corgo da Onça, do Capitão Vicente Lopes Freire; e na largura pegando da beira do mesmo rio Acaraú, buscando a serra chamada Beruoca, até contestar com as terras do Capitão Antônio Miguel Pinheiro, excetuando-se cem braças de terras que dentro da referida povoação pertencem a N. S. da Conceição, a qual légua de terra houve por título de compra que dela fez ao Alferes Antônio José Marinho e sua mulher Bárbara Maria de Jesus”.

José Mendes Machado doou um quarto de légua desta terra, exatamente o sítio Cruz do Padre, para dote de casamento de sua filha Inácia Maria que, a 2 de agosto de 1768, contraiu núpcias com Francisco Rodrigues da Cruz. Com a morte de José Mendes Machado, ocorrida a 26 de dezembro de 1771, os restantes três quartos de terra foram herdados por seus outros filhos Matias, Antônio, José e Vitorino. 

A parte central, exatamente cercando as casas da Povoação, tocou ao filho Matias Mendes Machado que era soldado servindo na guarnição do Forte de N. S. da Assunção, Fortaleza, que foi assim o sexto proprietário. Por residir em Fortaleza, impossibilitado de ocupar e administrar estas terras, o soldado Matias as vendeu ao preto forro Manoel de Sousa Leal, que foi o sétimo proprietário. Manoel de Sousa Leal era negro natural da África, nascido na costa de Mina casado com Vitorina de Sousa Dorneles, filha do preto Antônio, natural de Angola e escravo do CapitãoAntônio Coelho de Albuquerque.

Apesar de ser homem de cor, Manoel de Sousa foi pessoa influente na Vila de Sobral, não só por possuir as terras circunvizinhas da Vila, como também por ter sido, por muito anos, arrendatário do contrato da venda de carnes verdes e responsável pelo açougue público. Esta função lhe deu oportunidade de fazer economias e acumular relativa fortuna com que conseguiu comprar o terreno.

Neste tempo, a Capela de N. S. do Rosário dos Pretinhos, situada hoje no centro comercial de Sobral, servia aos homens e famílias de cor, tendo à frente de sua administração o Alferes Eusébio de Sousa Farias. Para garantir o sustento do culto desta Capela, o administrador propôs compra das terras a Manoel de Sousa Leal, com o fim de constituir bom patrimônio. Realmente assim aconteceu, a venda foi feita e as terras passaram a pertencer ao patrimônio da Capela de Nossa Senhora do Rosário, em 1795.

A partir desta data, tornou-se terreno foreiro, de quando então começou a ser retalhado em palmos para edificação do casario da florescente Vila e atual cidade moderna de Sobral. E assim, ainda hoje, quase toda cidade de Sobral está edificada em terrenos aforados pertencentes ao patrimônio da Capela de Nossa Senhora do Rosário.

* Adaptado de Araújo (1978, p. 19-27)

Organização Política e Administrativa

Uma confluência de fatores colaborou para que Sobral despontasse como maior adensamento urbano da Região Norte do Ceará. Entre eles, pode-se destacar a posição geográfica privilegiada, ao lado do rio Acaraú, em posição quase central entre sua nascente e sua desembocadura no Oceano Atlântico, o que permitia um acesso fácil aos portos do Acaraú e de Camocim, bem como às missões da Ibiapaba e de Almofala.

Com o desenvolvimento da pecuária, inicialmente através do gado vivo e, posteriormente, por meio do charque, consolidaram-se as chamadas estradas de boiada, interligando entre si e ao mercado consumidor as distantes fazendas da região. Dois desses caminhos, ligando o litoral e o sertão, se cruzavam precisamente na antiga Fazenda Caiçara, o que fazia dessa localidade um natural entreposto comercial.

Mas foi com a chegada do primeiro vigário, Padre Matinhos, e a posterior instalação do curato do Acaraú em 1722 que a região ganha mais centralidade (Brasil, 1972, p. 108). Como descrito em outro post, a jurisdição do curato compreendia uma ampla área, deste o rio Mundaú até a Serra da Ibiapaba, que agora estavam eclesiasticamente subordinadas a Caiçara, a ela vinha em busca dos serviços espirituais.

Em 1748 os vereadores da Câmara de Aquiraz encaminharam um ofício a corte solicitando a transferência da capital da província da Vila de Fortaleza para a "Ribeira do Acaraú, lugar chamado Caiçara" (Frota, 1974, p. 271). Apesar de o pedido ter sido negado em função de um parecer emitido por Pernambuco, reconheceu-se que o povoamento já possuía aspectos de uma vila colonial.

Em 1757, o Curato do Acaraú foi dividido em quatro freguesias, sendo Sobral a sede de uma delas. Nesse período, em função das reformas pombalinas, houve um esforço administrativo para criar novas vilas em toda a colônia, o que também alcançaria a Caiçara (Costa e Rocha, 2008, p. 13). Conforme relatório do Padre João Ribeiro Pessoa, em 1768 Sobral contava com 75 casas, sendo 53 cobertas com telhas (Frota, 1974, p. 273).

Após uma visita do então Governador Capitão-mor Borges da Fonseca, que decidiu-se criar na povoação de Caiçara a Vila Distinta e Real de Sobral, no ano de 1772, sendo a mesma instituída no dia 5 de julho de 1773 pelo Ouvidor Geral João da Costa Carneiro e Sá. Aparentemente, o nome Sobral foi uma homenagem do Ouvidor a sua terra natal, visto que o mesmo era originário do Distrito de Sobral, Freguesia de Viseu, ao norte de Portugal (Frota, 1974, p. 284).

Para marcar a criação da vila foi construído o pelourinho, símbolo da supremacia local, que consistia em uma coluna de pedras erguida em local público, onde eram pregados os editais e castigados (ou mortos) os contraventores (Araripe, 1867, p. 350). No mesmo dia também foram empossados os membros da primeira Câmara de Vereadores de Sobral, que deveriam exercer o cargo até o fim do referido ano. Foram eleitos para Juízes, o Sargento-mor Sebastião de Albuquerque Melo e Capitão Manoel José do Monte; Juiz de Órfãos, Gregórios Pires Chaves; Vereadores: Capitão Vicente Ferreira da Ponte e Manoel Coelho Ferreira.

Assinaram a ata de criação da Vila de Sobral:

Bernardo Pereira Gomes Pessoa (Escrivão), João da Costa Carneiro e Sá (Ouvidor Geral), Bento Pereira Vianna, Jeronimo Machado Freire, José Xerez Furna Uchoa, Sebastião de Albuquerque Mello, Luiz de Souza Xerez, Alexandre Holanda Correia, Vicente Ferreira da Ponte, Manoel Coelho Ferreira, José de Araújo Costa, Manoel da Cunha, Antônio Miguel Pinheiro, João Marques da Costa, Feliciano José de Almeida, Manoel Ferreira Torres, André José Moreira da Costa Cavalcante, Manoel de Souza de Carvalho, Miguel Alves de Lima, Antônio de Carvalho Souza e José da Costa Souza.

Diego Carneiro

22 de setembro de 2025

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. De Caiçara a Sobral. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 22 de setembro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/09/de-caicara-sobral.html

Referências

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ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

ARARIPE, Tristão de Alencar. História da província do Ceará. Desde os tempos primitivos até 1850. Fortaleza, 1867.

BERREDO, Bernardo Pereira de et al. Anais históricos do Estado do Maranhão. São Luis, Alumar, 1988.

FROTA, D. José Tupinambá da Frota. História de Sobral. Fortaleza: Editora Henriqueta Galeno, 1974.

LEAL, Vinícius Barros. A colonização portuguesa no Ceará: o povoamento. UFC, Casa de José de Alencar, Programa Editorial, 1993.

LINHARES, Padre Fortunato Alves. Notas Históricas da cidade de Sobral. Revista do Instituto Histórico do Ceará, Fortaleza, tomo XXXVI, 1922, p. 256-257.

LIRA, João Mendes. De caiçara a Sobral. Sobral-Ce: Departamento de Imprensa Oficial, 1971.

POMPEU, João. Sobral: tentativa de interpretação histórica de sua ação polarizadora sobre a região. Revista de Ciências Sociais: RCS, v. 3, n. 2, p. 105-121, 1972.

COSTA, Antônio Carlos Campelo; ROCHA, Herbert de Vasconcelos. Sobral da origem dos distritos. Sobral-CE, Sobral Gráfica e Editora Ltda, 2008.

STUDART, Guilherme Studart. Datas e factos para a história do Ceará. Typographia Studart, 1896.