Manoel Vaz Carrasco e as Sete Irmãs

Ilustração de Manoel Carrasco e as Sete irmãs

Manoel Vaz Carrasco e Silva nasceu em Ipojuca, Pernambuco, no ano de 1673, filho de Francisco Vaz Carrasco e de Brites de Vasconcelos. Seu pai foi Capitão de Ordenanças em Ipojuca e ordenou-se sacerdote após a morte de sua mãe, Brites, que era filha de Gaspar da Costa Coelho, cavalheiro de Cristo e capitão de Infantaria no tempo da guerra holandesa (Da Costa, 1952, p. 3; Araújo, 2005, p. 42).

Manoel Vaz migrou para o Ceará no primeiro terço do século XVIII, se estabelecendo na Fazenda Lagoa Seca, no atual município de Bela Cruz. Manoel é o pai das célebres Sete Irmãs, as quais deixaram grande descendência no Vale do Acaraú (Araújo, 2005, p. 46). Segundo Jarbas Aragão, no seu livro Colonizadores do Nordeste, as sete filhas de Carrasco, "através de importantes casamentos, lançaram em suas respectivas fazendas, os fundamentos de várias cidades das ribeiras do Acaraú" (Aragão, 1969, p.45).

Sobre Manoel Carrasco, sabe-se que era um homem letrado, uma vez que atuou como escrivão da capela de Olinda, onde teria lavrado em 1707 a certidão do testamento de João Fernandes Vieira, um dos heróis da Insurreição Pernambucana, movimento que culminou com a expulsão dos holandeses da capitania em 1654. Segundo Pe. João Mendes Lira, em seu livro De Caiçara a Sobral, Manoel Carrasco teria vindo para a então povoação de Caiçara a fim de supervisionar os trabalhos de arrecadação provincial (Lira, 1971, p. 35).

No mesmo trecho, Pe. Lira conta também que Manoel Carrasco teria vindo para o Ceará ainda viúvo de seu primeiro casamento, e que seu superior, residente em Fortaleza, teria lhe prometido sua filha em casamento, promessa que foi cumprida apenas um ano e meio depois. Desse relato, deduz-se que Carrasco veio para o Ceará por volta de 1714, se instalando inicialmente na povoação de Caiçara, onde teria trabalhado com seu sogro, Nicácio Aguiar e Oliveira, no já referido trabalho de arrecadação, e somente após seu casamento teria mudado para a Fazenda Lagoa seca.

Conforme Pe. Sadoc, a família Carrasco é de linhagem distinta, ostentando brasão de armas desde o século XVII — um indicativo de nobreza e elevada estirpe — com vínculos diretos à aristocracia da Holanda, de Portugal e da Espanha (Araújo, 2005, p. 46). Entre as figuras ilustres que o antecedem, destacam-se seus tetravós Arnaud de Holanda, distinto do fidalgo holandês e Brites Mendes de Vasconcelos (Aragão, 1969, p.127). Ressalta-se ainda que Manoel Carrasco é descendente direto de cristão novos, judeus perseguidos pela inquisição e pelo governo Português, forçados a se converterem ao catolicismo (Lima, 2014, p. 111).

Manoel casou duas vezes, sendo a primeira com Luiza de Souza, natural de Goiana, Pernambuco, por volta de 1696. Com ela teve três filhos: Maria de Goes (1ª irmã), Sebastiana de Vasconcelos (2ª irmã) e Manoel Vaz da Silva. Após o falecimento de sua primeira esposa, Manoel teria migrado para o Ceará, casando-se em segundas núpcias com Maria Magdalena de Sá e Oliveira em 1715, irmã do sesmeiro Domingos Aguiar de Oliveira e sobrinha de Leonardo de Sá.

Ressalta-se que Madalena de Sá e Oliveira era viúva de Francisco Bezerra de Meneses, filho do Capitão Bento Rodrigues Pereira e Da. Petronila Meneses, com quem teve dois filhos, Gonçalo João Coimbra e Amaro Lopes de Meneses. Uma vez que ambos os filhos eram pequenos quando houve o segundo casamento da mãe, provavelmente moraram com ela e Manoel Carrasco na Fazenda Lagoa Seca.

Desse segundo casamento, nasceram sete filhos, a saber: Nicácio de Aguiar Oliveira, Maria Madalena de Sá (3ª irmã), Inês Madeira de Vasconcelos (4ª irmã), Rosa de Sá e Oliveira (5ª irmã), Brites de Vasconcelos (neta) (6ª irmã), Ana Maria de Vasconcelos (7ª irmã) e Sebastiana de Sá e Oliveira, que faleceu sem deixar descendentes.

Não encontrei informações sobre como Manoel Vaz Carrasco obteve a Fazenda Lagoa Seca, entretanto, sabe-se que esta deu origem a uma localidade de mesmo nome, que se desenvolveu ao redor de um córrego que deságua na lagoa que motivou esse topônimo (Araújo, 1990, p.17). Esse curso d’água corre paralelo ao Riacho Tucuns, distanciando-se do mesmo por cerca de 2,5 km (0,38 léguas) ao Norte, portanto, dentro da sesmaria de Domingos Aguiar de Oliveira, cunhado de Manoel Vaz Carrasco. Dessa forma, pode-se inferir que Manoel tenha adquirido as terras de seu cunhado ou as recebido como dote de casamento.

Área da Fazenda Lagoa Seca, em laranja, possivelmente adquirida de Domingos de Aguiar

Entretanto, é importante destacar que, além dessa propriedade, deve ter possuído muitas outras terras. Segundo Jarbas Aragão, Manoel Carrasco teria recebido muitas sesmarias na Ribeira do Acaraú, sendo um homem de grande prestígio na região (Aragão, 1969, p. 126-127). Em que pese a plausibilidade dessas afirmações, não consegui localizar menções diretas a ele nos arquivos das sesmarias cearenses, de modo que é possível que estas tenham sido concedidas, por seu intermédio, diretamente a seus genros.

Manoel Vaz Carrasco faleceu em 23 de novembro de 1753, aos oitenta anos, "de doença que Deus lhe deu", sem deixar testamento, tendo sido sepultado envolto em hábito franciscano na Capela de Santa Cruz, em Bela Cruz, pelo Padre Felis de Azevedo (Livro 3º de óbitos de Sobral, fl. 5 apud Frota, 1974).

Origem dos Sobrenomes

O sobrenome Vaz é patronímico ibérico de origem basca, derivado do nome Vasco, ligado ao étimo basa (“lugar de vegetação viscosa” ou “campo”), e aparece em formas antigas como Veaz ou Vaaz. Por ser patronímico, surgiu em várias famílias sem parentesco entre si. Entre os portadores mais célebres estão Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Cabral, e Luís Vaz de Camões, maior nome da literatura portuguesa. No Brasil, aparece desde o século XVI com figuras como Fernão Vaz da Costa, capitão-mor da Bahia, e outros administradores coloniais. Também foi adotado por cristãos-novos, como Digo Vaz, preso pela Inquisição em 1667.

O sobrenome Carrasco também é toponímico ibérico, derivado do arbusto carrasco (Quercus coccifera), associado a terrenos pedregosos, com origem provável no vocábulo ibero-romano karr (“pedra”). Surgiu como sobrenome no século XIV na região de Burgos, Espanha, chegando a Portugal no século seguinte, e também pode ter se originado como alcunha. Tornou-se sinônimo de “algoz” devido a Belchior Nunes Carrasco, executor de penas capitais em Lisboa no século XV. No Brasil, está presente desde o século XVII com Miguel Garcia Carrasco, sertanista e bandeirante de São Vicente, e com o próprio Francisco Vaz Carrasco, pai de Manoel Vaz Carrasco.

Finalmente, o sobrenome Silva (ou da Silva) é toponímico, vindo do latim silva (“selva”, “floresta”), já usado na Roma antiga, mas que reapareceu na Península Ibérica entre os séculos XI e XII, ligado à Torre da Silva, em Valença do Minho, e à figura de dom Guterre Alderete da Silva. No Brasil, chegou no século XVII com figuras como o conde de São Lourenço e o alfaiate Pedro da Silva, espalhando-se rapidamente. Sua ampla adoção se deve não só a descendentes de portugueses, mas também a cristãos-novos, degredados, fugitivos e, mais tarde, a indígenas e africanos escravizados que recebiam o sobrenome de seus senhores, contribuindo para torná-lo o mais comum do país.

As Sete Irmãs*

1. Maria de Goes Vasconcelos c.c. Nicácio Aguiar de Oliveira, irmão do sesmeiro Domingos Aguiar de Oliveira, filho de Nicácio Aguiar de Oliveira e Madalena de Sá. Nicácio, seu marido, faleceu a 3 de novembro de 1761, com 65 anos, “pobre que vivia de esmola”, segundo atesta o registro de óbito. Foi sepultado na Capela de Santa Cruz.

2. Sebastiana de Vasconcelos c.c. João da Soledade, também chamado João Dias Ximenes de Galegos, filho de Domingos de Santiago Montenegro e Lourença de Aguiar Dias Ximenes.

3. Maria Madalena de Sá c.c. Francisco Ferreira da Ponte, filho do primeiro matrimônio de Gonçalo Ferreira da Ponte com Maria de Barros Coutinho, a 20 de setembro de 1738. Maria Madalena foi a primeira das Sete Irmãs a falecer, fato que ocorreu a 16 de março de 1743, em consequência de melindroso parto. Francisco Ferreira da Ponte faleceu a 1º de novembro de 1758, com 61 anos de idade.

4. Inês Madeira de Vasconcelos que casou duas vezes. A primeira, com o Capitão Luis Gonçalves de Matos, filho de Luis Gonçalves e Ana Peralta, naturais de Igarassu, a 14 de setembro de 1739. A segunda, com Antonio Álvares Linhares, filho de Dionísio Alves Linhares e Rufina Gomes de Sá, a 31 de julho de 1758. D. Inês faleceu a 13 de agosto de 1802. Antonio Alves Linhares, doente há muitos anos de tuberculose pulmonar, faleceu com hemoptizes a 10 de outubro de 1785.

5. Rosa de Sá e Oliveira c.c. Capitão José de Xerez da Furna Uchoa, filho de Francisco de Xerez Furna e Inês de Vasconcelos Uchoa, a 21 de outubro de 1747, na Matriz da Caiçara. Dona Rosa faleceu a 10 de fevereiro de 1812, com 96 anos. José de Xerez faleceu a 1º de abril de 1797, com 75 anos de idade.

6. Brites de Vasconcelos c.c. José de Araújo Costa, filho de Pedro de Araújo Costa e Maria de Sá, a 31 de julho de 1747. Dona Brites faleceu a 10 de fevereiro de 1814, com 90 anos. José de Araújo Costa faleceu a 4 de agosto de 1791, com 74 anos. Moravam na Fazenda Lagoa Grande.

7. Ana Maria de Vasconcelos c.c. Miguel do Prado Leão, filho de Cosme do Prado Leão e Luzia da Assunção de Oliveira, a 1º de novembro de 1753, na Capela da Santa Cruz (hoje Bela Cruz). Ana Maria faleceu no mês de julho de 1770 e Miguel do Prado faleceu a 11 de julho de 1794, com 83 anos, sendo sepultado na Capela de Santa Cruz.

*Trecho retirado na íntegra de Araújo (2005, p. 47-48)

Diego Carneiro

11 de agosto de 2025

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. Manoel Vaz Carrasco e as Sete Irmãs. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 11 de agosto de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/07/manoel-vaz-carrasco-e-as-sete-irmas.html

Referências
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
ARAÚJO, Nicodemos. Cronologia de Bela Cruz. Acaraú, 1990.

ARAGÃO. Jarbas Cavalcante de. Colonização do Nordeste: Os Ximenes de Aragão no Ceará. Rio-Guanabara: Editora Laudes S/A, 1969.

DA COSTA, Francisco Augusto Pereira. Anais pernambucanos: 1666-1700. Arquivo Público Estadual de Pernambuco, 1952.

FROTA, D. José Tupinambá da Frota. História de Sobral. Fortaleza: Editora Henriqueta Galeno, 1974.

LIMA, Cândido Pinheiro Koren de. O crime de Simões Colaço. 1. ed. Recife: Fundação Gilberto Freire, 2014.

LIRA, João Mendes. De caiçara a Sobral. Sobral-Ce: Departamento de Imprensa Oficial, 1971.

Revista do Instituto Archeológico e Geográphico Pernambucano. N. 60 - Tomo XI, 1904.

Revista do Instituto Archeológico e Geográphico Pernambucano. 3º ano - Tomo 1, 1865.

Perfil de Manoel Vaz Carrasco no FamilySearch. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/L8GK-F55

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