Nesse post dedicaremos um pouco mais de atenção a um personagem já mencionado algumas vezes neste blog, direta ou indiretamente, e cuja descendência originou dois numerosos troncos familiares no Baixo Vale do Acaraú. Falo de Mateus Mendes de Vasconcelos, português, natural de Travanca, freguesia do concelho de Amarante, distrito do Porto, onde foi balizado a 15 de agosto de 1706, filho do Matheus Mendes de Vasconcelos e Ana Carvalho Fernandes.
Importante ressaltar que no termo de batismo não consta o nome de pai de Mateus, sugerindo que o casamento teria ocorrido após o nascimento do mesmo. Existe ainda uma hipótese de que Matheus (pai) fosse, na verdade, um religioso do Mosteiro de Travanca (Araújo, 2000, p. 86). É primo legítimo de Manoel Carlos de Vasconcelos, outro importante tronco dessa família na região, sendo que ambos são netos paternos de Antônio Leite Pereira, tendo provavelmente emigrado juntos.
Segundo Pe. Sadoc, o sobrenome Mendes remete ao local de origem da sua mãe, Bouço Mendo, que por sua vez é patronímico da cidade francesa de Mende, capital do Departamento de Lozère, em função influência franca, povo que dominou a região antes da formação do estado nacional português (Araújo, 2000, p. 80). Já o sobrenome Vasconcelos, também remete a uma região, tendo sido utilizado para designar o feudo da Freguesia de Ferreiros, no conselho de Amares, no Entre Douro e Minho, atual distrito de Braga.
Mateus emigrou para o Brasil após a morte de sua mãe, em 1735, encontrando-se na Ribeira do Acaraú já no início da década de 1740. Lá chegando, foi recepcionado por seu conterrâneo, Manoel Ferreira Fonteles, na Fazenda Tucunduba, onde também passou a residir. Nessa época, Manoel Fonteles já possuía três filhos, Maria, com 11 anos, Ana com 8 e Manoel, recém nascido. Cerca de três anos depois, em 19 de setembro e 1743, aos 37 anos, Mateus Mendes de Vasconcelos desposou Maria Ferreira Pinto Brandão, quando esta completou a idade núbil, de 14 anos.
Desse casamento nasceram nove filhos:
1. Capitão José Ferreira Brandão, c.c. o Francisca de Sousa, filha do português Sargento-mor Tomás da Silva Porto e Nicácia Álvares Pereira. O casal foi residir na Fazenda Pedras de Fogo.
2. Rosa Maria da Conceição Vasconcelos, c.c. o Ajudante Manoel Carneiro da Costa, filho do Tenente João Carneiro da Costa e Teresa de Jesus Vasconcelos, em 9 de janeiro de 1766. O casal foi residir na fazenda Sapó.
3. Coronel Manoel Francisco de Vasconcelos, c.c. Maria Joaquina da Conceição Uchoa, filha de Luís de Sousa Xerez e Anna Theresa de Albuquerque, em 26 de novembro de 1767. O casal foi residir na Fazenda Marco, hoje sede da cidade, e posteriormente na Fazenda Salgado.
4. Capitão Manoel Ferreira Pinto Brandão, c.c. Luciana Pereira Barros, filha do português Antônio Pereira Barros e Maria Ayres Ferreira.
5. Ana Maria Ferreira de Vasconcelos, batizada a 27 de dezembro de 1750, c.c. Manoel Lourenço da Costa Junior, filho do português Manoel Lourenço e Suzana da Costa, em 5 de outubro de 1767. O casal foi residir na Fazenda Olho D'Água. Ana Maria faleceu em 14 de abril de 1786.
6. Antônio Mendes de Vasconcelos, nascido em maio de 1756, casou-se duas vezes. A primeira, com Ana Joaquina de Jesus, filha de Domingos Ferreira Gomes e Maria Alvares Pereira, a 5 de fevereiro de 1777, na fazenda Jaibaras de Cima, propriedade do sogro. O casal foi residir na Fazenda Areal, desmembrada da Fazenda Curralinhos, onde faleceu Ana Joaquina a 27 de agosto de 17950. O viúvo Antônio Mendes casou, em segundas núpcias com Teodora Inácia de Menezes, filha de Antônio Soares Apoliano Bulcão, em Uruburetama, Antônio Mendes faleceu de tuberculose a 6 de janeiro de 1816.
7. Joaquim Ferreira Vasconcelos, nascido em 1757, c.c. Ana Maria do Espírito Santo, filha do Capitão Manoel Ferreira Fonteles Filho e Anna Maria da Conceição, em 29 de julho de 1793. O casal passou a residir no Curralinho. Faleceu a 3 de outubro de 1800.
8. Tenente Alexandre Mendes de Vasconcelos, nascido em 25 de fevereiro de 1760, c.c. Tomásia Ferreira da Rocha, filha do Capitão Manoel Ferreira Fonteles Filho e Anna Maria da Conceição, em 9 de setembro de 1792. O casal passou a residir no Curralinho. Tomásia faleceu a 28 de outubro de 1798, tendo o viúvo Alexandre casado, em segundas núpcias, com Francisca Maria de Jesus filha do Capitão Antônio de Sousa Carvalho e Maria do Nascimento, a 26 de novembro de 1801. Falecendo Francisca Maria a 14 de maio de 1826, Alexandre convolou terceiras núpcias com Inácia de Menezes, filha de Inácio Bezerra de Menezes e Maria Madalena de Sa.
9. Ana Maria Vasconcelos, nascida em 25 de fevereiro de 1760, c.c. Manuel Lourenço da Costa Junior, filho de Manoel Lourenço e Suzana da Costa, em 5 outubro de 1767.
A Fazenda Curralinho
Após o casamento, o casal foi residir na Fazenda Curralinho, desmembrada da Tucunduba, e recebida como dote de casamento. Apesar do topônimo diminutivo da propriedade, tratava-se de uma grande faixa de terra, medindo, em 1788, duas léguas (13,2 km) de comprido, por uma (6,6 km) de largura, na margem esquerda do rio Acaraú. Conforme a descrição da época, principiava das extremas de Agostinho Moreira Moura (São Joaquim) até as terras de Caetano Soares Monteiro (Olhos D´água). Declarou possuir um grande número de criações, somando, entre outras, 280 caprinos e 170 cabeças de gado vacum (Frota, 1974b, p. 214).
Além da atividade agropecuária, desenvolvida na Fazenda Curralinhos, Mateus adquiriu outras propriedades. Uma delas de nome Sobrado, na serra da Meruoca, vizinho a seu filho José Ferreira Brandão, onde mandou plantar roças de algodão, mandioca, milho e feijão, como consta na declaração que prestou a Câmara Municipal de Sobral em 1788 (Fronta, 1974b, p. 445).
Na Ribeira do Acaraú teria adquirido ainda a Fazenda Salgado, também desmembrada da Fazenda Tucunduba, medindo meia légua (3,3 km) de comprimento na margem direita do Acaraú, indo da porção remanescente da referida fazenda até as terras de seu filho, Manuel Francisco de Vasconcelos (Fazenda Poço), possivelmente desmembrada da dita Fazenda Salgado. Declarou possuir ainda a Fazenda Pedras de Fogo, no atual município de Santana do Acaraú, medindo 600 braças (1,32 km) de largura na margem esquerda do rio Acaraú, entre a Fazenda Sapó, de Manoel Carneiro da Costa, e as terras dos herdeiros do defunto Claudio de Sá Amaral (Curral Velho, atual Santana do Acaraú).
Portanto, fica claro que nessa época já era um grande proprietário de terras. Nesse contexto, chama atenção o fato de que a porção da antiga Fazenda Tucundunba obtida por Mateus e sua esposa ter sido significativamente maior do aquela destina aos demais herdeiros de Manoel Ferreira Fonteles, como já demonstramos em outro post, o que pode sugerir uma predileção deste para com aqueles. É possível também que, além do dote de casamento, Mateus tenha adquirido ao longo do tempo, por meio de compra, porções da Fazenda de seu sogro. A partir da descrição das propriedades, é possível esboçar a localização das mesmas em 1788.
Segundo Pe Sadoc, com a morte de sua sogra, em 1747, Mateus e Maria Brandão teriam ido residir novamente na Fazenda Tucunduba a fim de ajudar Manoel Fonteles na criação dos órfãos, ainda pequenos, inclusive os recém-nascidos, Francisco e Tomé. Essa estadia teria durado até 1757, quando o pai de Maria casou-se novamente, com Rosaura Maria de Barros, que assumiu a direção da casa (Araújo, 2000, p. 87).
Na esteira de sua proeminência econômica, Mateus também se fez um líder político de elevado prestígio na região do atual município de Santana do Acaraú (Araújo, 1989, p. 35). No campo militar, chegou a patente de Capitão do Regimento de Cavalaria, possivelmente por influência e/ou incentivo de seu sogro, que chegou a ocupar o posto de Tenente-Coronel (Avelino, 2020, p. 31; Lima, 2016, p. 2084).
Como muitos do seu tempo, era um homem marcado pela religiosidade, tendo ajudado a fundar a Irmandade do Santíssimo Sacramento, em outubro de 1747, capitaneada pelo Padre Antônio Carvalho de Albuquerque, a qual foi canonicamente reconhecida 25 de setembro de 1752, tendo como sede a Matriz de Sobral (Frota, 1974a, p. 244; Araújo, 2000, p. 85).
Segundo D. José Tupinambá da Frota, essa irmandade era formada por homens de boa reputação, restringindo a entrada a quem não atendesse seus critérios de conduta. Suas principais funções eram organizar as celebrações da Semana Santa e de Corpus Christi e acompanhar, de forma solene, a comunhão levada aos doentes (Frota, 1974a, p. 244).
Mateus Mendes de Vasconcelos faleceu em 7 de janeiro de 1793, com 87 anos de idade, tendo sido sepultado na Capela de Sant'Anna, envolto em hábito de Nossa Senhora do Carmo, de que era Irmão Terceiro, pelo Padre Bazilio Francisco dos Santos, cura e vigário da vara de Sobral (Livro de Óbitos de Sobral. 1774-1798, fl. 199 v). Cumpre destacar que a Ordem Terceira do Carmo é uma confraria de leigos, ligada a Ordem dos Carmelitas, a qual possui raízes medievais.
Esses “terceiros” vivem no mundo — têm família e profissão —, mas seguem, na medida do possível, as regras espirituais e práticas da ordem, participando de suas orações, obras de caridade e compromissos religiosos. A participação nessa ordem religiosa provavelmente levou a suspeita pelo Dr. José Mendes Pereira de Vasconcelos, de que Mateus fosse, na verdade, um sacerdote (Araújo, 2000, p. 85).
No inventário do Capitão datado de 1793, mesmo ano de sua morte, e cuja inventariante foi sua esposa, Maria, constam além das terras e criações já mencionadas, móveis objetos valiosos, de ouro e prata, ferramentas, além de 10 escravizados*. Isso reforça o elevado status socioeconômico de Mateus Mendes de Vasconcelos na Ribeira do Acaraú.
Pouco mais de dois anos após seu falecimento, em 2 de julho de 1795, morre a viúva, Maria Ferreira Pinto Brandão, aos 66 anos. Segundo Pe Sadoc, à margem da folha constava a observação "Pg. Ir. do Orago", significando que a defunta também pertencia a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Matriz de Sobral (Araújo, 2000, p.88).
ARAÚJO, Nicodemos. O Município de Cruz. Acaraú, 1989.
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.
AVELINO, Fábio Júnior. Ocupação Colonial e Escravidão Negra nas terras que hoje fazem parte do Município de Morrinhos (1725-1889). Monografia. Sobral: Universidade Vale do Acaraú, 2020.
FROTA, D. José Tupinambá da. História de Sobral. 2a Edição. Fortaleza: Editora Henriqueta Galeno, 1974a.
FROTA, Luciara S. Aragão (Org). Estudo sobre o Remanejamento da Pecuária na Zona Norte do Ceará. Fortaleza: SUDEC, 1974b, 2 volumes.
LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, v. 4, 2016.
*Inventário post-mortem de Mateus Mendes de Vasconcelos, 1793. BR.CE.NEDHIS.UVA.CH.FM.P.INV.01, CAIXA: 38


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