O Cura, o Coronel e os Jesuítas: Conflitos no primeiro Curato do Acaraú

O Padre João de Matos Monteiro, mais conhecido como Padre Matinhos, foi figura central na implantação do primeiro curato no Vale do Acaraú. Natural de Lisboa e formado em Cânones pela Universidade de Coimbra, chegou ao Brasil na primeira década do século XVIII, estabelecendo-se inicialmente na Bahia. Em 1712 ao tentar regressar para Portugal, foi capturado por franceses na barra de Salvador. Após libertar-se, deslocou-se para Pernambuco e, em 1716, veio ao Ceará com seu tio, o também lisboeta Padre João de Matos Serra, vigário-geral da Capitania (Studart, 1896, p. 143,150)

Nesse mesmo ano, Pe. Matinhos foi enviado à ribeira do Acaraú para atender aos fiéis durante a Quaresma. A pedido da população, decidiu fixar-se com intenção de estabelecer um curato, que abrangeria as vertentes dos três principais rios da região, inclusive áreas onde já existiam missões indígenas. Com isso, Matinhos pretendia que as três missões seculares e a missão jesuíta da Ibiapaba ficassem sob sua jurisdição.

Cabe destacar que, de forma geral, haviam muitos interesses em torno dos aldeamentos, que não apenas religiosos. Os índios aldeados eram utilizados como mão de obra em diversos tipos de atividade, fosse nas próprias missões, gerando riquezas para os jesuítas, fosse através de trabalhos compulsórios prestados aos fazendeiros ou autoridades coloniais. Além disso, podiam ser utilizados como força militar, tanto na defesa das vilas e plantações quanto em ofensivas contra indígenas mais resistentes ou inimigos europeus (De Farias, 2018, p. 85).

Essa ambição desencadeou um sério conflito com a Companhia de Jesus, que administrava a missão da Ibiapaba desde o século anterior. Ao contrário das outras missões, esta encontrava-se vincula a casa Provincial do Maranhão e, portanto, julgavam-se isenta de qualquer prestação de contas ao Pe. Matinhos. Os jesuítas então denunciaram a intenção do sacerdote ao Bispado de Olinda, obtendo, em 7 de outubro de 1718, do vigário-geral de Pernambuco, Pe. Nicolau Paes Sarmento, um mandato proibindo Matinhos de se intrometer na vida missionária da Ibiapaba, sob pena de excomunhão (Farias, 1995, p. 42).

Cabe ressaltar que nessa época, só existiam duas capelas na Ribeira do Acaraú, muito distantes uma da outra, correspondente as missões de Almofala e da Ibiapaba. Dessa forma, Pe. Matinhos obteve licença para a construção de mais dois templos, um no Sítio São José, do Capitão Félix da Cunha Linhares, em 1718, e a Capela de N. Sra. do Livramento do Pará (Parazinho), cujo instituidor foi o Capitão Domingos Machado Freire, em 1719. Deixou ainda em fase de construção as capelas de Santo Antônio de Ibuaçú e do Olho D'Água (Coreaú). Durante sua estadia levantou ainda fundos para a construção da futura matriz, que planejava ser erguida no Riacho dos Guimarães (Groaíras) (Araújo, 2000, p. 42).

Quanto ao curato, mesmo com a proibição, Pe. Matinhos resolveu levar a ideia adiante, dirigindo uma petição ao seu tio, que, ignorando o mandado monitório de 1718, assinou a provisão, com data de 28 de março de 1722, pela qual o licenciado Pe. João de Matos Monteiro foi nomeado cura da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Ribeira do Acaraú (Studart, 1896, p. 157). Dessa foram surge o Curato e a organização hierárquica dele decorrente, a qual o aldeamento jesuíta estaria submetido. Cabe destacar que para viabilizar financeiramente a implantação do curato, se obrigaram os moradores da ribeira a doar um boi por fazenda (Araújo, 1971, p. 97).

A provisão de Pe. Matinhos foi ratificada pelo Cabido de Olinda, então sede vacante, em 16 de setembro de 1722. Além disso, no mesmo dia ele foi nomeado Vigário da Vara da Ribeira do Acaraú, por um mandato de três anos, com jurisdição sobre a ação pastoral de todos os sacerdotes do vasto território (Studart, 1896, p. 158)Mas o conflito com os jesuítas tornou-se intenso e cheio de acusações mútuas. Os missionários o acusavam de incentivar colonos a não respeitar determinações eclesiásticas, instigar indígenas a deixar as aldeias e elaborar petições contra os jesuítas. Matinhos, por sua vez, acusava os padres da Companhia de restringir liberdades dos fiéis e de difamar sua conduta.

O cerne da contenda residia na rígida condenação dos missionários ao rapto de índias do aldeamento por colonos, que, por tais atitudes, foram ameaçados de excomunhão. Por outro lado, o padre João de Matos Monteiro tranquilizou os moradores quanto a aplicação da penalidade canônica, por não parecer bem que os homens, por falta de mulheres, se “fizesse em risco de usar do pecado bestial" (Cruz, 2019, p. 142).

Contraditoriamente, segundo Pe. Sadoc, Matinhos se envolveu em uma acirrada disputa com o influente Coronel Sebastião de Sá — um dos maiores proprietários de terras da região — devido ao seu relacionamento extraconjugal com a índia Madalena Saraiva, com quem tinha dois filhos. O pároco teria insistido para que o coronel regularizasse sua situação, o que acabou resultando no casamento deste com a branca Cosma Ribeiro França. Apesar disso, o coronel jamais perdoou o padre pela imposição (Araújo, 2000, p. 42).

Destaca-se que antes da instituição do curato e a designação de um vigário permanente, a vida religiosa dos colonos dependia das missões evangélicas que poderiam ser bastante espaçadas no tempo. Dessa forma, prevalecia a irregularidade na distribuição dos sacramentos, em particular do matrimônio, sendo rara a presença de homens casados na freguesia. Ademais, como vimos em outras postagens, era comum o concubinado, bem como a existência de relações extraconjugais com parceiras oriundas dos povos nativos, em contradição com os ditames da igreja.

Assim, como forma de retaliação, o Coronel aliou-se aos jesuítas na campanha para afastar Pe. Matinhos, lançando mão de toda sorte de artifícios para tanto, o que levou a ser acusado de induzir falsos testemunhos para incriminá-lo, inclusive espalhando boatos de que solicitava mulheres na confissão. A crise se agravou ainda em 1722, quando o Pe. João Guedes superior da Missão de Viçosa, foi intimado pelo Pe. Matinhos a se retirar da Serra, sob protestos de Sebastião de Sá  (Farias, 1995, p. 42).

O caso foi parar na Corte, resultando na prisão do coronel e no afastamento o Pe. Matinhos, que viria a ser substituído pelo Pe. Pedro da Cunha de Andrade, coadjutor da freguesia da Fortaleza do Ceará desde 1717. Entretanto, Pe. Pedro não conseguiu tomar posse imediatamente, em função de protestos movidos pela populaçãoNesse interim, vários abaixo-assinados foram dirigidos ao Rei contra o comportamento moral de Sebastião de Sá e pela absolvição de Pe. Matinhos.

Entretanto, segundo Pe Serafim Leite, tais petições, que teciam duras críticas aos membros da ordem jesuíta, eram eivadas de manipulações:

"... o Cura de Acaraú pedia aos moradores que assinassem certidões para enviar a El-Rei. Apresentava duas, uma correta, outra com as calúnias correntes. Lia a primeira, a correta, e depois fazia-as assinar ambas, dizendo que a segunda era duplicado da primeira. Naquele tempo tudo era possível." (Leite, 1938, p. 68)

Diante do vácuo de poder deixado por esse impasse, o Frei José da Madre de Deus, carmelita que se encontrava na Ribeira do Acaraú, aliado de Pe. Matinhos, tratou de providenciar a construção de uma Igreja sobre a Serra dos Cocos, a fim de limitar a jurisdição dos jesuítas na Ibiapaba. Frei José procurou o Capitão José de Araújo Chaves, grande proprietário local, que recebeu a ideia com entusiasmo e propôs a construção de duas capelas — uma na serra e outra no sertão —, tendo como oragos São Gonçalo e Nossa Senhora da Conceição, respectivamente (Farias, 1995, p. 42).

Em 16 de março de 1725, um grupo de moradores do Acaraú enviou ao rei uma representação denunciando Sebastião de Sá como soberbo, homicida — acusado de sete mortes, inclusive a de uma filha —, corruptor de testemunhas e perturbador da ordem. Apesar dessas acusações, nada aconteceu de imediato ao coronel, que manteve-se influente por por um bom tempo, até que acabou sendo preso por motivos políticos e enviado para a cadeia da Relação da Bahia, onde morreu em outubro de 1741.

Padre Matinhos, embora tenha recebido apoio de muitos moradores e de outros sacerdotes, acabou sendo afastado do curato cerca de um ano e meio antes do fim de seu tumultuado mandato, no início de 1724, quando foi finalmente substituído pelo Pe. Pedro. Em 1726 Matinhos regressou a Lisboa junto a seu tio. Lá fez um requerimento de mercê ao Conselho Ultramarino em função de seus serviços prestados a coroa portuguesa, pedido que foi prontamente negado. O conselho determinou ainda a proibição de que Matinhos voltasse ao Brasil, sob pena de ser desnaturalizado (Leite, 1938, p. 68).

Atendendo a determinação, o religioso passou seus últimos anos de vida em Lisboa, onde morreu em 1730 (Studart, 1896, p. 182). Já o jesuíta Pe. João Guedes, outro protagonista da disputa, morreu em 11 de fevereiro de 1743, no Real Hospício do Ceará.

Assim, a trajetória de Matinhos, marcado por conquistas, mas também por controvérsias, ficou  ligada às disputas de poder entre clero secular e jesuítas e às rivalidades pessoais com a elite local, sobretudo com o Coronel Sebastião de Sá. Seu legado combina pioneirismo pastoral com uma vida pública cercada por processos, acusações e intrigas, refletindo o clima turbulento do sertão cearense na primeira metade do século XVIII.

Diego Carneiro

11 de agosto de 2025

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. O Cura, o Coronel e os Jesuítas: Conflitos no primeiro Curato do Acaraú. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 11 de agosto de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/08/cura-coronel-jesuitas.html


Referências

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

ARAUJO, Nicodemos. Município de Acaraú, notas para sua história. Acaraú, 1971.

CRUZ, Carlos Henrique. A escola do diabo: indígenas e capuchinhos italianos nos sertões da América (1680-1761). Firenze University Press, 2019.

DE FARIAS, Airton. História do Ceará. Fortaleza: Armazém da Cultura, 2018

FARIAS, F. Araújo. Araújos e Feitosas: Colonizadores do Alto e Médio Acaraú. Fortaleza: Fundação Cultural de Fortaleza, 1995.

LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Lisboa: Livraria Portugália, 1938

STUDART, Guilherme Studart. Datas e factos para a história do Ceará. Typographia Studart, 1896.

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