Félix da Cunha Linhares nasceu em 1672, na freguesia de Santa Marinha de Linhares, concelho de Paredes de Coura, distrito de Viana do Castelo, Portugal. Era filho de Agostinho da Cunha e Ana de Araújo, neto paterno de Pedro Mendes e Maria Vaz, e neto materno de Diogo de Araújo e Maria Gonçalves, todos humildes camponeses do Alto Minho (Lima, 2016, p. 697).
Segundo Vicente Miranda, seu nome de batismo era, na verdade, Félix da Cunha "Araújo", igual sua mãe, sendo o sobrenome Linhares adotado posteriormente como uma referência ao seu lugar de origem, como era comum na época (Miranda, 2001, p. 131).
Ainda jovem, emigrou para o Brasil, vivendo primeiro em Natal dos Reis Magos, no Rio Grande do Norte, onde chegou a ser proprietário de terras. Posteriormente, transferiu-se para o Ceará, servindo como soldado no Forte de Nossa Senhora da Assunção, atual Fortaleza, no regimento do Coronel Leonardo de Sá, sertanista destemido que se tornaria seu sogro (Araújo, 2000, p. 98).
No ano de 1697, Félix da Cunha partiu para o sertão da ribeira do Acaraú em missão de reconhecimento e de perseguição aos índios. De volta ao Forte, apresentou relatório da incumbência que lhe fora confiada, informando ter encontrado a região despovoada, inclusive de indígenas, que, temerosos da perseguição, haviam-se aldeado na serra da Meruoca. Ressaltou, ainda, a fertilidade do solo banhado pelo rio Acaraú e a vastidão do sertão, propício à criação de rebanhos.
Impressionado com a descrição, o coronel Leonardo de Sá logo concebeu o projeto de ocupar aquelas terras devolutas e, posteriormente, legitimar a posse por meio de sesmarias. Sugeriu, então, que Félix da Cunha se casasse com sua filha, Maria de Sá. Caso aceitasse a proposta, comprometeu-se não apenas a obter para o casal a concessão de uma sesmaria, onde poderiam fixar residência, como também a assegurar-lhe a patente de coronel do Regimento dos Índios da ribeira do Acaraú (Araújo, 2000, p. 98).
Casaram-se em Fortaleza e, em 1700, o casal já residia no Sítio São José (da Mutuca), terras medindo três léguas (19,6 km), recebidas por Maria de seu pai e confirmadas em 14 de outubro de 1702 pelo Capitão-mor Francisco Gil Ribeiro (Sesmarias Vol. 2, nº 118). Essa fazenda corresponde ao atual distrito Patriarca, em Sobral. Lá construiu uma boa casa de morada, acomodou seu gado, cultivou lavouras de subsistência, sendo a primeira fazenda rural a se organizar na região.
Cabe ressaltar que a data exata em que Félix Linhares chegou a Ribeira do Acaraú não é bem determinada, sendo que para alguns autores ele já estaria morando na região desde antes de 1690 (Linhares, 1941, p. 234; Linhares, 1939, p. 15; Miranda, 2001, p. 69). O sesmeiro trouxe ainda para a região seu irmão Francisco da Cunha Araújo e seu sobrinho Domingos da Cunha Linhares, filho de sua irmã Suzana de Araújo com Jacinto Gonçalves, natural de Castela (Miranda, 2001, p. 131).
Em 1718, por influência do pároco João de Matos Monteiro, primeiro cura do Acaraú, iniciou a construção de uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, com licença do cabido de Olinda, cuja sede episcopal estava então vacante. Para constituir o patrimônio da dita capela, Félix Linhares doou para a igreja meia légua de terra em quadro e mais 50 vacas (Linhares, 1922, p. 267).
Juntamente com seu sogro Leonardo de Sá, empreenderam bandeiras que alcançaram até o rio Parnaíba, no Piauí, colaborando para consolidar o domínio português sobre a capitania. Como recompensa por seus serviços, obteve, além das terras da Fazenda São José, outras três sesmarias, todas concedidas pelo Capitão-mor Gabriel da Silva do Lago. Nas solicitações Linhares se intitulava como o “primeiro povoador do rio Acaraú”:
- Em 13 de novembro de 1706, junto com Leonardo de Sá, Antônio Marques Leitão e Bento Coelho, requereu nova sesmaria de três léguas (19,6 km) de terra nos riachos: Arataiaçu e Pacujá, que desagua, um na ribeirado Acaraú e o outro na ribeira do Coreaú (Sesmarias Vol. 3, nº 171, p. 83);
- Em 16 de maio de 1707 de três léguas (19,6 km) de terra, no riacho do Macaco, no rio Acaraú (Sesmarias Vol. 4, nº 225, p. 16);
- Em 7 de janeiro de 1708, obteve nova sesmaria de meia légua (3,3 km) de terra nas margens do riacho Cachoeira, no Acaraú, afluente da Serra da Meruoca (Sesmarias, Vol. 5, nº 279, p. 70);
Félix da Cunha Linhares faleceu em dezembro de 1723, aos 51 anos, na fazenda São José, Patriarca, Sobral. Ao que dizem, a morte teria sido causada pela picada de uma cobra venenosa. Em seu testamento, lavrado pelo tabelião Francisco Cardoso Pereira no sitio Muritiapuá a 7 de setembro do mesmo ano, declarava-se dono do incrível patrimônio de de seis fazendas, nas quais havia mais de 8.000 cabeças de bovinos, 150 éguas e 50 cavalos (Girão, 1947, p. 154).
Após sua morte, seu sobrinho Domingos assumiu a administração da fazenda São José e concluiu a construção da capela, que se encontrava "por acabar metade das paredes e com uma imagem" (Arruda, 1998, p. 4). Depois de sucessivas reformas, a capela foi reinaugurada de forma mais permanente em 1764, reconstruída em pedra e cal (Araújo, 2005, p. 72). Nessa época, Domingos ocupava terras as margens do Riacho Caioca, cuja posse foi confirmada por sesmaria a 2 de setembro de 1750, e que hoje correspondem ao atual distrito de Caioca, em Sobral. Conforme o historiador Raimundo Girão, a fazenda que originou esse distrito pertenceu a Edna Pereira da Cunha em 1776, o que sugere fortemente que ela seja parente de Domingos (Girão, 1983, p. 252).
Outra propriedade de Félix da Cunha Linhares foi herdada por seu cunhado, o Cel. Sebastião de Sá, que também assumiu uma dívida de trezentos mil réis de Félix com os herdeiros de Manuel Nogueira Cardoso. Essa transação aparece no inventário do Cel. Sebastião de Sá, lavrado a 21 de novembro de 1742, onde o testamenteiro do credor é Antônio Rodrigues do Lago e entre as testemunhas estava João Vieira Passos, que confirmou a existência da dívida, que provavelmente envolvia, entre outras coisa, a compra de gado (Araújo, 2005, p. 196).
Descendentes de Félix da Cunha Linhares
Albina da Cunha Linhares casou-se em Recife com Antônio Gomes Bittencourt, filho do licenciado cirurgião Antônio Gomes Bittencourt e de Paula Dorneles, naturais da Ilha da Madeira. Fixaram-se na Fazenda Gravatá, às margens do rio Groaíras, deixando vasta descendência:
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João Gomes Bittencourt, batizado em 2 de março de 1741. Casou-se em 1º de novembro de 1761, na Capela do Riacho do Guimarães (Groaíras), com Florência Pereira, filha do Capitão Antonio Pereira da Silva e Teodora Fialho.
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José Gomes Bittencourt, batizado em 28 de novembro de 1741. Casou-se em 5 de maio de 1765, na Matriz da Caiçara, com Ana Ferreira, filha do mesmo casal Antonio Pereira da Silva e Teodora Fialho.
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Manoel, casado em 1º de março de 1778 com Francisca Pereira, também filha de Antonio Pereira da Silva e Teodora Fialho.
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Félix da Cunha Linhares Neto, casado em 30 de setembro de 1762, na Matriz da Caiçara, com Luíza Pereira Fialho, também filha de Antonio Pereira da Silva e Teodora Fialho. Assim, quatro irmãos Bittencourt casaram-se com quatro irmãs Pereira Fialho.
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Francisco Xavier, casado com Maria da Piedade, filha de Simião Martins e Maria de Ó Bezerra.
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Ana Maria, casada em 20 de novembro de 1775, na Fazenda Gravatá, com João Rodrigues Magalhães, viúvo de Ana Gonçalves, filho de João Rodrigues Magalhães e Gracia Ribeiro.
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Teresa de Jesus, casada em 11 de setembro de 1750, no sítio Carrasco, com o Capitão Serafim Henriques Gomes da Silva, filho de Antonio Henriques Pinto e Antonia Gomes.
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Maria, batizada em 11 de novembro de 1750.
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Joaquim, batizado em 19 de outubro de 1756.
Diego Carneiro
24 de novembro de 2025
Referências
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.
GIRÃO, Raimundo. História econômica do Ceará. Instituto do Ceará, 1947.
GIRÃO, Raimundo. Os municípios cearenses e seus distritos. Estado do Ceará, Secretaria de Planejamento e Coordenação, Superintendência do Desenvolvimento do Estado do Ceará, Departamento de Recursos Naturais, 1983.
LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, v. 4, 2016.
LINHARES, Fortunato Alves. Notas históricas da Cidade de Sobral. Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza, v. 55, p. 1882-1982, 1922.
LINHARES, Fortunato Alves. Apontamentos para a história e corografia do município e cidade de Sobral. Revista do Instituto Histórico. Fortaleza, Ano LV, p. 234, 1941.
LINHARES, Mário. Os Linhares - Retrospecto Genealógico 1690-1939. Fortaleza, 1939.
MIRANDA, Vicente. Três séculos de caminhada. SM, 2001.
ARRUDA, Francisco de Assis Vasconcelos. Genealogia Sobralense - Os Linhares, Tomo IV. Fortaleza, CE, IOCE, 1998.

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