João Vieira Passos nasceu no ano de 1692 na Freguesia do Porto, Portugal, filho de João Vieira e Joana Pereira. Emigrou para a Ribeira do Acaraú, ainda menor de idade, no início da segunda década do século XVIII, onde foi homem influente, sendo mencionado em documentos da época como um dos "principais dessa Ribeira" (Araújo, 2005).
Em 20 de abril 1730, Vieira Passos casou-se com Maria de Jesus Milanez, paraibana, filha natural do Capitão Luis da Fonseca Milanez e Margarida Rabelo. A cerimônia foi realizada na Fazenda Tapera, onde o novo casal fixou residência. Tal propriedade, cujo nome remete a casa ou povoação abandonada, ficava localizada no território do atual município de Acaraú, na divisa com Bela Cruz.
Serviram de testemunhas o Sargento-mor José da Costa e Sá, Domingos da Costa de Sá, o Coronel Antonio Teixeira de Carvalho e o Coronel Antonio Monteiro. O fato de o noivo possuir a elevada patente de Tenente-coronel, provavelmente de milícias, explica a presença de tão graduadas testemunhas em seu casamento.
Na condição de grande proprietário de terras, João Vieira Passos teve participação ativa na vida pública dos primórdios da ribeira, sendo chamado frequentemente como testemunha em processos administrativos e inventários. Por exemplo, no inventário de Francisca da Fonseca, mulher de Domingos Ferreira Pinto, lavrado na própria Fazenda Tapera em 1732. Ou ainda no inventário do Cel. Sebastião de Sá, datado de 23 de novembro de 1742, quando João diz saber que Sebastião de Sá era devedor a Antônio Fernandes da quantia de trezentos mil réis por herdar a metade da fazenda do Cel. Felix da Cunha Linhares e que parte dessa quantia ficara em sua mão na forma de gado (Araújo, 2005).
Ademais, neste último inventário consta que o Cel. Sebastião de Sá possuía uma légua (6,6 km) de terra no Sítio Tapera, em litígio com Manuel Francisco de Oliveira, no valor de 30$000. Não fica claro se trata da mesma propriedade supramencionada.
João Vieira Passos faleceu a 24 de novembro de 1745 na sua Fazenda Tapera, deixando viúva D. Maria de Jesus e cinco filhos. Seu inventário foi feito a 2 de setembro de 1746, perante o Juiz de Órfãos Barnabé Vieira Coelho e o escrivão Manoel da Fonseca Lima.
No livro Datas para a História do Ceará, do Barão de Studart, é mencionado que João Vieira Passos também fora eleito juiz de Acaraú, entretanto a data apontada, 26 de julho de 1748, é posterior ao seu falecimento, desse modo ou a data está incorreta ou trata-se de um homônimo (Studart, 1896). Essa segunda possibilidade é plausível, pois sabe-se que, de fato, houve outro João Vieira Passos, que emigrou para a Ribeira do Coreaú por volta de 1740, gerando grande descendência no Sertão de Pirapuruca, Piauí (Miranda, 2001, p.181).
Descendência de João Vieira Passos e Maria de Jesus Milanez
1. Damaso Vieira Passos, n. ~1732, c.c. Rita Teresa de Jesus
2. José Vieira Passos, batizado a 10 de abril de 1735 pelo Pe. Antonio dos Santos Silveira, fundador de Santana do Acaraú, c.c. Maria Madalena, filha de Antônio de Sá Moraes e Maria Gomes de Aguiar
3. Ana Passos, batizada a 3 de agosto de 1738 e casada com Inácio Machado Portela, filho de João Machado Portela e Francisca Rodrigues, a 24 de maio de 1752.
4. Maria, nascida em 1741.
5. Joaquim Pereira Passos, nascido em 1744, c.c. Ana Maria da Conceição, filha do português Hilário Pereira Cordeiro e Maria Assunção.
Após a morte de João Vieira Passos, a viúva Maria de Jesus casou-se, em segundas núpcias, com Floriano da Silva Tinoco, natural do Capibaribe, Pernambuco, a 15 de maio de 1746, na Fazenda Tapera. Ele era filho do Alferes Alexandre da Silva Tinoco e Maria de Abreu. Presente, o Padre Antônio Carvalho de Albuquerque, Cura do Acaraú, as testemunhas, Manoel da Silva, solteiro, e Manoel Gomes, casado, moradores nesta Freguesia (Lima, 2016, p. 1238). Deste casamento nasceu:
6. Manoel da Silva Tinoco nasceu na Vila da Fortaleza. Casou-se a 06 de fevereiro de 1769, na Capela de São José, filial da Igreja Matriz de N. Senhora da Conceição da Caiçara, Sobral, com Eugênia Maria de Jesus, filha de Hilário Pereira Cordeiro, natural de Santarém, e de Ana Maria da Assunção, Ceará, Fortaleza. Presentes, o Padre Manoel da Cunha Linhares, as testemunhas, o Capitão Antônio Coelho de Albuquerque, viúvo, Manoel Ferreira Pinto, João Pereira da Silva, casados, e outras pessoas.
D. Maria de Jesus faleceu de problemas pós parto a 23 de maio de 1753.
Outros Moradores da Fazenda Tapera
Com a morte de João Vieira Passos e D. Maria de Jesus, não se sabe ao certo o que aconteceu com a Fazenda Tapera. Em 10 de novembro de 1755, é lavrado um termo de justificação atestando que houve uma severa seca entre os anos de 1752 e 1754, o que levou a enorme mortandade de gado na região. Nela consta que entre as testemunhas Domingos de Sousa Carvalho, homem branco, casado, 57 anos, morador no Sítio Tapera (Araújo, 2005, p. 258).
Sobre Domingos, sabe-se que era casado com Antônia da Costa, provavelmente parente de Nicolau da Costa Peixoto. Esse casal tinha um filho de nome Manoel de Sousa da Costa, n. ~1705, c.c. Maria do Nascimento, filha do paraibano Luís Quaresma Coutinho e de Lourença Romana. Domingos era tutor dos filhos menores de seu cunhado, também chamado Luís Quaresma Coutinho.
Em 30 de junho de 1762 casa-se Manuel Pereira Passos, morador na Fazenda Tapera, filho de João Pereira da Fonseca e Dionisia Pereira Passos, com Rosa Maria, filha natural de Antônio de Sá de Morais e Damiana de França, cuja cerimônia religiosa foi realizada na Matriz da Caiçara às nove horas da manhã, servindo de testemunhas Inácio Machado Portela e José Vieira da Fonseca (Lima, 2016).
Pelo sobrenome, infere-se que Dionísia Pereira Passos, natural de Ipojuca, Pernambuco, mãe de Manuel, seja parente de João Vieira Passos, cuja mãe também tem o sobrenome Pereira. Quanto ao pai de Manuel, João Pereira da Fonseca, da Vila de Goiana, Pernambuco, era filho de Jorge Camelo Valcacer, da Freguesia de N. Senhora das Neves, da cidade da Paraíba, João Pessoa, e de Esperança do Rego, natural de Angola. Pelo sobrenome Fonseca e a procedência da Paraíba, infere-se que o pai de Manuel Pereira Passos era parente do Capitão Luis da Fonseca Milanez, sogro de João Vieira Passos.
Dezesseis anos depois, em 1788, o Alferes Luís Joaquim Correia informou à Câmara de Sobral que era proprietário do Sítio Tapera, nas margens do Acaraú, e que tinha nesta propriedade: “04 escravos, cria 70 ovelhas, 20 éguas, 10 cavalos de fábricas, 6 poldros, 11 bois de açougue, 40 vacas parideiras, 16 novilhos, 18 garrotes, 30 bezerros”. Em 1797, por ocasião da morte de sua mulher Felipa de Sá e Oliveira, legou aos seus herdeiros "460 braças de terras de criar gado no Sítio Tapera", entre outras propriedades (Souza, 2015, p. 139).
A Sesmaria de Francisco Antônio Linhares
No fim de 1819, Francisco Antônio Linhares faz uma solicitação de sesmaria ao então Governador Manoel Ignácio de Sampaio, de uma légua e meia de terras (9,9 km) de comprimento por uma légua (6,6 km) de largura nos fundos de sua Fazenda Tapera. O pedido é analisado pelo junta provisória de governo do estado. As terras ficavam ao nascente da sesmaria do Capitão Diogo Lopes, sendo concedidas no dia 3 de setembro de 1823 (Livro de Sesmarias Vol. 9, nº 775, p. 160).
Ignora-se como Francisco Antônio adquiriu a Fazenda Tapera. Sobre ele, sabe-se que nasceu em 25 de junho de 1765, sendo filho de Antônio Álvares Linhares e Inês Madeira de Vasconcelos (uma das sete irmãs). Casou-se em 22 de março de 1787 com sua prima legítima Maria Manoel da Conceição Uchoa, filha de José de Xerez Furna Uchoa e Rosa de Sá e Oliveira (outra das sete irmãs).
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, v. 4, 2016.
MIRANDA, Vicente. Três séculos de caminhada. Teresina, 2001
SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues de. “Minha Riqueza é Fruto do meu Trabalho”: negros de cabedais no Sertão do Acaraú (1709-1822). 2015. 223 f. (Tese Doutorado).
STUDART, Guilherme Studart. Datas e factos para a história do Ceará. Typographia Studart, 1896.

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