Em 19 de agosto de 1726 é feito o registro da data de sesmaria de Domingos de Aguiar Oliveira, em cuja petição endereçada ao Capitão-mor Manoel Francês, o beneficiário alega ter descoberto na Ribeira do Acaraú terras devolutas ao lado das terras de Nicolau da Costa Peixoto, em um córrego chamado dos Tucuns, que desemboca na Lagoa do Mato. A sesmaria media uma légua (6,6 km) de terra córrego acima, e a largura de meia légua (3,3 km) de cada de cada lado do riacho. Essa região pertence ao atual município de Bela Cruz.
Domingos de Aguiar nasceu em Pernambuco por volta de 1705, filho de Nicacio de Aguiar e Oliveira e de Madalena de Sá, irmã de Leonardo de Sá. Longe de qualquer vínculo com a nobreza, a ascendência de Domingos está enraizada nos segmentos mais populares e heterogêneos da sociedade colonial. Segundo a classificação de Cândido Koren Lima, entre seus ancestrais, figuram desde raízes indígenas a muçulmanos das correntes negro-rramita, de origem africana e árabe semita (Lima, 2014, p. 161).
Essa herança muçulmana possivelmente remonta à influência dos mouros durante a ocupação de Portugal, entre os séculos VIII e XV. Ademais, Koren identificou em sua árvore genealógica origens bastardas, inclusive envolvendo membros do clero, além de ligações com cristãos novos, os quais foram perseguidos pela igreja católica.
No Ceará, Domingos casou-se com Francisca do Canto Almeida, viúva de Antônio Álvares de Sá, em 16 de novembro de 1736, na Capela de Almofala (Liv. Missão Velha de Almofala, fl . 132 apud Araújo, 2005, p.159). O casal teve uma única filha, de nome Maria Patrícia Lopes Madeira, nascida em 1747, de cujo parto faleceu sua mãe.
Sobre ele, sabe-se que foi um grande proprietário de terras, onde criava gado e plantava lavouras, como expresso no pedido de solicitação de sua sesmaria (Livro de Sesmarias Vol. 11, Nº 150). Domingos de Aguiar pode ser considerado um dos fundadores da cidade de Bela Cruz, tendo doado juntamente com Nicolau Peixoto meia légua de terra, quarenta vacas e seis éguas para compor o patrimônio da Capela de Santa Cruz, em 12 de setembro de 1732. Consta também que também esteve envolvido, talvez como testemunha, na doação de terras para a constituição do patrimônio da Capela da Meruoca, feita pelo Coronel Sebastião de Sá e sua esposa, Cosma Ribeiro em 1734 (Nobre, 1978, p. 1).
Ademais, Domingos exerceu funções de destaque tanto no âmbito militar quanto no administrativo nos primórdios da capitania. Conforme registra o Pe. Sadoc, em 1730 já detinha o título de Capitão, provavelmente de ordenanças, indício de elevado prestígio social e de proximidade com as autoridades locais (Araújo, 2005, p. 128). Poucos anos depois, em 1736, é referido como Comissário Geral, cargo que o situava como representante da Coroa, encarregado da arrecadação de tributos, da fiscalização do comércio e do exercício de atribuições militares e policiais voltadas à manutenção da ordem na capitania (Sesmarias, vol. 13, nº 61, p. 122). Essa trajetória no serviço público dialoga com seu histórico familiar, já que tanto seu pai, Nicacio Aguiar, quanto seu cunhado, Manoel Vaz Carrasco, teriam igualmente atuado na arrecadação de impostos (Lira, 1971, p. 35).
Além da sesmaria já mencionada, no mesmo ano de 1736, Domingos de Aguiar consta como o primeiro proprietário da Fazenda Timbaúba, na atual localidade de Aranaú, em Acaraú (Sesmarias, vol. 13, nº 61, p. 122). O topônimo Timbaúba é de origem tupi e significa "árvore da espuma", em referência à Stryphnodendron guianense, uma das árvores de maior porte da caatinga. Essa propriedade foi posteriormente vendida a Antônio Correia Peixoto, constando em seu inventário de 1755.
Outra propriedade de nome Sitio "Saucóca" (Caioca ?), medindo uma légua e meia (9,9 km) de comprimento no Rio Acaraú, foi colocada a leilão e arrematada por Manoel Leite de Távora. Manoel Leite descreve a transação quando realizou um pedido de sesmarias nas ilhargas desse propriedade, acrescentando-lhe uma légua (6,6km) de comprimento rio abaixo, confirmada a 18 de novembro de 1738 (Sesmarias, Vol. 14, nº 121, p. 36). Conforme o pedido, o sítio localizava-se próximo a sesmaria do Cel. Simão de Góes, de 1724 (Sesmarias Vol. 11, nº 123, p. 194), e teria sido comprada por Domingos de Aguiar ao Cel. Sebastião de Sá, que, a obteve de Félix da Cunha Linhares, que, por sua vez, a recebeu de seu sogro, Leonardo de Sá, por sesmaria em 1702.
Domingos Aguiar não parece ter terminado sua vida de forma tranquila, uma vez que teve sua falência decretada em 25 de fevereiro de 1739, o que levou ao sequestro dos seus bens por dívida com Mateus Luis das Chagas (Araújo, 2005, p. 170). Dessa forma, Domingos faleceu em maio de 1747, falido, nas Serra dos Cocos, deixando a viúva grávida de sua única filha, a qual ficou órfã logo após o nascimento (Araújo, 2005, p. 159,224). Seu inventário foi feito na Fazenda Tucunduba, de Manoel Ferreira Fonteles, perante o Juiz de Órfãos Barnabé Vieira Coelho e seu escrivão Manoel Matos Pessoa em 2 de julho de 1749 (Araújo, 2005, p. 235).
Cabe esclarecer aqui o topônimo "Serra dos Cocos" utilizado pelo Pe. Sadoc refere-se a região que formaria a freguesia de São Gonçalo da Serra dos Cocos, desmembrada da freguesia do Acaraú em 1757, cuja sede corresponde ao atual município do Ipú (Farias, 2013, p. 78; Machado, 1997, p. 204).
Não se sabe exatamente quando, se antes ou após sua morte, mas as terras da sesmaria de Domingos Aguiar de Oliveira foram parar nas mãos de sua irmã Maria Madalena de Sá e Oliveira e de seu marido, Manoel Vaz Carrasco, pais das Sete Irmãs. Este casal se estabeleceu na Fazenda Lagoa Seca, dentro da área da dita sesmaria e, a após a morte de Carrasco, Madalena vendeu parte dessas terras a José de Araújo Costa, como consta em seu inventário (Araújo, 2000, p. 162).
Com base na descrição da sesmaria, foi possível localizá-la como sendo a região adjacente a sede do atual município de Bela Cruz, conforme representado a seguir.

Origem dos sobrenomes
O sobrenome Aguiar, de origem toponímica portuguesa, vem do senhorio de Aguiar, em Trás-os-Montes, derivando do latim aquila (“águia”), possivelmente ligado a locais onde havia ou se criavam essas aves. O primeiro a usá-lo foi dom Mendo Peres de Aguiar, no tempo de dom Afonso Henriques, com descendência que também originou o ramo espanhol Aguilar, formado por dom Gonçalo Anes de Aguiar no século XIII, após se estabelecer na Andaluzia. Há ainda origens espanholas mais antigas associadas à força e agilidade da águia. No Brasil, destacam-se figuras como Antônio Coelho de Aguiar, governador-geral (1587–1591), e Rafael Tobias de Aguiar (1795–1857), marido da marquesa de Santos.
Já o sobrenome Oliveira (ou de Oliveira) é toponímico português, ligado ao Paço da Oliveira, em Arcos de Valdevez, e teve como primeiro portador Pedro de Oliveira, no século XIII. Seu filho, dom Martim Pires de Oliveira, arcebispo de Braga, instituiu o morgado de Oliveira em 1350. No Brasil, está presente desde 1532, com o fidalgo Antônio de Oliveira, capitão-mor de São Vicente, e rapidamente se popularizou, inclusive entre famílias sem origem nobre. Também foi adotado por judeus — convertidos ou não —, com origem no rabino Abraham Benveniste, ligado à localidade espanhola de Oliva no século XV, de onde o nome se difundiu para a Europa e as Américas.
Descendência de Domingos de Aguiar Oliveira
Como dissemos, Domingos Aguiar e Francisca do Canto tiveram apenas uma filha, Maria Patrícia Lopes Madeira, que ficou órfã em decorrência da morte dos pais. Patrícia casou-se com o pernambucano Francisco Xavier Caminha, filho de Caetano Pereira de Brito e Teresa de Jesus Pereira. O Casal teve quatro filhos conhecidos:
1. Ana Patrícia de Jesus, nascida por volta de 1768, c.c. Miguel Rodrigues dos Anjos, indo o casal possivelmente residir na região do atual município de Amontada.
2. Caitano Caminha, nascido em 20 de agosto de 1768, em Sobral
3. Córdula de Sá Oliveira, nascida por volta de 1780, c.c. Alexandre José da Silveira, filho de Victorino José da Silveira e Thereza Maria de Jesus, em 24 de abril de 1800 na igreja N. Senhora da Conceição em Sobral.
4. João Dias Caminha, nascido em 8 de março de 1870, em Sobral.
Diego Carneiro
09 de outubro de 2025
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.
FARIAS, Fernando Araújo. Solar da Caiçara: História e Genealogia. 2 ed. Fortaleza: Primus, 2013.
LIMA, Cândido Pinheiro Koren de. O crime de Simões Colaço. 1. ed. Recife: Fundação Gilberto Freire, 2014.
LIRA, João Mendes. De caiçara a Sobral. Sobral-Ce: Departamento de Imprensa Oficial, 1971.
MACHADO, José Almeida. Descrição geográfica abreviada da capitania do Ceará. Documentação primordial sobre a capitania autônoma do Ceará, 2ª ed. fac-similar de separatas da Revista do Instituto do Ceará Fortaleza: Fundação Waldermar Alcântara, 1997.
NOBRE, Geraldo. Documentos sobre Capelas do Antigo Curato do Acaraú. Revista do Instituto do Ceará, 1978.

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