Os memorialistas João e Maria Silveira contam em seu livro sobre a história de Morrinhos que em 1869, o senhor José Lourenço de Vasconcelos juntamente com Miguel Francisco da Silveira e José Hermínio de Vasconcelos teriam construído aquela que seria a primeira capela do futuro município. Tratava-se de um nicho numa pequena sala de oração de tijolo, medindo quatro metros de comprimento por dois de largura, sem reboco, e coberta de palhas de carnaubeira, no mesmo local que hoje existe Igreja Matriz Sagrado Coração de Maria (Silveira e Silveira, 2009, p.63).
Ressalta-se que todos as pessoas envolvidas são descendentes diretos dos primeiros povoadores da região. José Lourenço de Vasconcelos (1851-1941) e José Hermínio de Vasconcelos (1860-1938) são trinetos de Mateus Mendes de Vasconcelos, enquanto que Miguel Francisco da Silveira (1809-?) é neto de João da Silveira Dutra.
Ainda segundo os autores, o Sr. José Lourenço também teria ainda adquirido um quadro com estampa do Sagrado Coração de Maria, o qual foi pendurado na parede dos fundos da sala de oração, dando início a devoção aquela que se tornaria padroeira do futuro município. O culto ao Coração de Maria tem origem bíblica, tendo sido desenvolvido por teólogos e místicos medievais, e organizado liturgicamente por São João Eudes no século XVII. Apesar da resistência inicial da Santa Sé, a devoção se expandiu nos séculos seguintes, fortalecida pela simbologia da Medalha Milagrosa a partir de 1830, pelo dogma da Imaculada Conceição e pela ação dos claretianos, até consolidar-se oficialmente na Igreja sob esse título.
Em tom de anedota, conta-se que, contrastando com a rusticidade do humilde templo, bem à frente, o Sr. João Oquendo Vasconcelos havia mandado alvejar com esmero o seu quarto de comércio, situado ao lado de sua residência. Assim, os raros viajantes que vinham de Sobral ou Santana a caminho de Acaraú, ao passarem pelo local e sabendo da existência da capela, tiravam respeitosamente o chapéu e se benziam diante do estabelecimento comercial (Barroso, 1999, p. 270).
Segundo o historiador Raimundo Girão, o patrimônio da capela Sagrado Coração de Maria consistiu de terras doadas, em 1870, por Maria Alves Pereira, seu filho Miguel Francisco da Silveira e José Bomfim de Maria e Silva (Girão, 1983). Maria Alves Pereira era filha de Antônio Mendes de Vasconcelos, filho de Mateus Mendes de Vasconcelos, e dono da antiga Fazenda Areal, cujas terras em parte hoje dão lugar à sede do município de Morrinhos. Como dito em outro post, essas terras foram acrescidas posteriormente pelas doadas por Joaquim Coriolano da Rocha, em 1933.
A casa de oração funcionou como se uma igreja fosse até 13 de maio de 1874, quando o Padre Joaquim Severiano, vigário da paróquia de Santana, em uma passagem pela região, benzeu a estampa de Nossa Senhora e realizou a primeira missa. Nessa ocasião também teria oferecido sacramentos, batizando algumas crianças, realizando confissões e ofertando a comunhão (Silveira e Silveira, 2009, p.64).
No ano de 1878 deu-se início, pelos moradores locais, à construção de uma nova capela no lugar da antiga sala de oração. O novo templo foi feito de alvenaria e coberto com telhas, tendo o trabalho sido concluído apenas três anos depois, em 1880. Destacaram-se nessa iniciativa, além daqueles envolvidos na construção da primeira capela, José Coriolano da Rocha, dono da (nova) Fazenda Areal, Manoel Joaquim de Maria Silveira, descendente de portugueses, e Manoel Peregrino de Vasconcelos, filho de José Lourenço, e sua esposa D. Maria Camí Araújo (Silveira e Silveira, 2009, p. 65).
Ao término da obra, D. Maria Carmí de Araújo, nora de José Lourenço Vasconcelos e moradora de uma das fazendas próximas, doou uma nova imagem do Sagrado Coração de Maria, benta em 1880, medindo 60 cm, esculpida em madeira com incrustações de pedras semi-preciosas e uma coroa de ouro, trazida de Portugal por seus familiares (Silveira e Silveira, 2009, p.65). D. Carmí era filha de João Pedro Araújo, neta de Joaquim Araújo da Costa e bisneta de Pedro Araújo da Costa, dono da antiga Fazenda Morrinhos. Seu marido, Manoel Peregrino de Vasconcelos, consta no censo de 1920 como sendo proprietário de uma das frações da Fazenda Areal.
A capela de Morrinhos foi erguida ao sopé de um morro, hoje denominado Alto da Boa Vista (ou Alto dos Estudantes), que nos períodos de inverno ficava coberto de flores e plantas nativas, chamando atenção dos que por ali passavam. Esse fenômeno fez com que o mesmo ficasse conhecido como Alto das Flores, denominação que se confundia com o próprio nome da localidade (Silveira e Silveira, 2009, p.37). Assim, em seus primórdios, o topônimo Morrinho se referia especificamente ao já mencionado Serrote do Cafim, sendo que a vila, propriamente dita, era conhecida por Alto das Flores (Montenegro, 2023, p. 174).
Segundo conta José Adrião Souza em matéria ao Jornal Voz de Morrinhos datada de 14 de junho de 1953, houve uma permuta entre proprietários, sem o devido registro em cartório, dos lotes de terra que continham os dois morros. Isso teria causado certa confusão entre os moradores, de modo que, por algum tempo, a localidade passou a ter dois nomes: Morrinho e Alto das Flores. O impasse teria sido então solucionado por João Peregrino da Rocha, genro de José Lourenço, que popularizou a denominação Morrinhos, no plural, fazendo referência aos dois montículos.
Ademais, o autor se refere aos proprietários do lote contendo o Morro do Cafim como “os Romãos” e aos do Alto das Flores como “os Antoninos”. Os “Romãos” provavelmente se referem à família de José Romão de Carvalho (1834-1910), enquanto os “Antoninos” provavelmente se referem à família de Antonino Ferreira da Rocha (1821-1896), sogro de Joaquim Coriolano da Rocha, dono da (nova) Fazenda Areal.
Apesar de o autor não precisar as datas que teriam ocorrido esses episódios, pode-se tirar algumas conclusões por fontes indiretas. Sabe-se que em 19 de julho de 1897, um ato estadual criou o distrito de Morrinho (no singular), atrelado a Santana do Acaraú, permanecendo com esse topônimo, ao menos oficialmente, até a emancipação do município em 6 de setembro de 1957, quando o mesmo é alterado para Morrinhos (no plural). Ademais, no Projeto Legislativo n° 21, de 15 de Março de 2022, da Câmara Municipal de Morrinhos, que dá nome à praça Mário Ursulino de Maria, consta que Ursulino teria mudado para “Morrinhos, ora Alto das Flores, em meados de 1922”. Portanto, conclui-se que os eventos citados por José Adrião se passaram no intervalo entre 1922, quando ainda era empregado a denominação Alto das Flores e a publicação da matéria em 1953.
BARROSO, Francisco de Andrade. Igrejas do Ceará: crônicas histórico descritivas. Fortaleza, 1999.
GIRÃO, Raimundo. Os municípios cearenses e seus distritos. Estado do Ceará, Secretaria de Planejamento e Coordenação, Superintendência do Desenvolvimento do Estado do Ceará, Departamento de Recursos Naturais, 1983.
MONTENEGRO, Seridião Correia. Perfil Histórico, Geográfico e Antropológico do Municípios do Ceará. Fortaleza: INESP, 2023.
SILVEIRA, João Leonardo; SILVEIRA, Maria Luiza Rocha. Morrinhos: Sua História e sua Gente. Fortaleza: Realce, 2009.
SOUZA, José Adrião. Morrinho não, Morrinhos. Jornal Voz de Morrinhos, Morrinhos, 14 jun. 1953.

Nenhum comentário:
Postar um comentário