O Alto da Genoveva e a Santa Cruz do Acaraú

 
Ilustração Imaginada da Mulata Genoveva

Toda sociedade tem seus mitos fundadores, não sendo o município de Bela Cruz a exceção. Nicodemos Araújo, em seu livro Santa Cruz do Acarahú, de 1935, nos conta sobre a origem do nome Alto da Genoveva, que seria o primeiro topônimo do referido município. Segundo a tradição oral, a primeira habitante do local onde hoje encontra-se sede do município de Bela Cruz teria sido uma velha mulata de nome Genoveva, a qual teria mandado construir uma casa sobre a colina ao noroeste da povoação por volta do ano de 1730 (Araújo, 1935, p. 18; Araújo, 1985, p. 17).

Nicodemos relata que Genoveva seria uma espécie de bruxa ou curandeira capaz de proferir “mil variedades de benzeduras e bruxedos”, o que a teria feito ganhar fama na região, atraindo toda sorte de “clientes”. Dessa forma, em função de sua proeminência, o local onde residia a mulata e o povoado que se desenvolveu ao seu redor teria sido primitivamente chamado de Alto da Genoveva.

Segundo o historiador Airton de Farias, as populações sertanejas era profundamente místicas, sendo comum as crenças em fórmulas mágicas, rezas fortes, os ensalmos e simpatias para curar quebrantos, mau olhado, espinhela caída, feitiços, etc., tudo realizado por benzedeiras e adivinhos, resquícios de tradições medievais europeias (De Farias, 2018, p. 94).

Em uma obra mais recente denominada o Município de Bela Cruz, o Nicodemos cita ainda como fontes para a existência de Genoveva os historiadores Álvaro Gurgel de Alencar ("Dicionário Geográfico, Histórico e Descritivo do Estado do Ceará", p. 345), Renato Braga (Dicionário Geográfico e Histórico do Ceará", p. 85) e Raimundo Girão ("Os Municípios Cearenses e seus Distritos", p. 51) (apud Araújo, 1985, p.17).

Entretanto, o escritor Vicente Freitas em seu livro Famílias Endogâmicas do Vale do Acaraú, nos informa que a referida Genoveva se tratava de Genoveva Maria de Jesus, neta de José de Araújo Costa, filha do Alferes Anselmo de Araújo e de Francisca dos Santos Xavier, naturais de Recife. Segundo o autor, Genoveva casou-se com Martinho do Prado Leão, neto de Manoel Vaz Carrasco, em 22 de julho de 1793, indo morar nas proximidades da Capela de Santa Cruz (Freitas, 2021, p. 27). Vicente considera improvável que o topônimo Alto da Genoveva tenha sido empregado para se referir ao povoado como um todo, mas tão somente do local onde Genoveva residia (Freitas, 2012, p. 51).

Portanto, fica claro que Genoveva não foi a primeira habitante de Bela Cruz, mas sim que teria se mudado posteriormente para o nascente povoado. É provável que o povoado tenha se desenvolvido a partir das famílias dos próprios sesmeiros Nicolau da Costa Peixoto e Domingos Aguiar de Oliveira, os quais foram os doadores do patrimônio da Capela de Nossa Senhora da Conceição da Santa Cruz. A doação, realizada em 12 de setembro de 1732, consistiu em 40 vacas, seis éguas e meia légua (3,3 km) de terras (Cavalcante, 1909, p.168).

Importante destacar que na própria escritura de doação, o local já é referido como Sítio Santa Cruz, reforçando que essa foi a sua primeira denominação (Freitas, 2012, p. 51). Esse topônimo provavelmente foi empregado durante todo o século XVIII, visto que a mesma denominação foi utilizada pelo Padre José de Almeida Machado ao reportar sua visita a Sobral, em 7 de abril de 1806, na qual informou existir na freguesia sete capelas, sendo uma delas, distante da vila quinze léguas (99 km), a de Nossa Senhora da Conceição no Sitio da Santa Cruz (Machado, 1997, p. 201).

Sobre isso, acrescenta-se que, com base nas descrições das sesmarias, é bem provável que as terras doadas pertenciam integralmente a Nicolau Peixoto, sendo possivelmente os gados a contrapartida de Domingos Aguiar de Oliveira.

Trecho da Sesmaria de Nicolau Peixoto, em azul, doada para o Patrimônio da Capela de Santa Cruz em 1732

Em sua Tese de Doutorado, o professor Raimundo Nonato de Souza nos explica que alguns senhores concediam esmolas para um santo de sua proteção, especialmente braças de terra para o patrimônio do orago da fazenda, pleiteando junto às autoridades eclesiásticas licenças para edificações de capelas em suas propriedades. Tais capelas foram importantes para formação dos povoados, devido aos seus chãos serem utilizados para construção de casas ao redor e aos donos dos imóveis pagarem foro para o patrimônio da igreja (Souza, 2015, p. 64).

Portanto, determinar o período de surgimento das capelas fornece uma boa noção do início da urbanização e do adensamento populacional de certa localidade. Sobre isso, Nicodemos Araújo nos informa que por volta de 1730 vieram residir na localidade alguns homens abastados como: Bernardo da Silveira, João da Silveira (Dutra), Ignácio de Almeida, Antônio Lisboa da Silveira, Domingos de Aguiar Oliveira e Nicolau da Costa Peixoto. Nesse ano teriam iniciado a construção, em taipa, da primeira capela, vizinho à (futura) casa de Genoveva, onde fixaram residência, tendo o primitivo templo ficado pronto em 1732.

Esboço da primeira Capela de Santa Cruz (Araújo, 1935, p. 88)

Ainda segundo o memorialista, desde sua construção a capela sempre foi dedicada à Nossa Senhora da Conceição, sendo que a primeira imagem da santa teria sido adquirida contemporaneamente a sua fundação, em 1732. Tal imagem, esculpida em madeira, medindo apenas dez centímetros, foi enviada em 1945 para o Museu Diocesano de Sobral, onde permanece até hoje (Araújo, 1985, p. 28, Araújo,1990, p. 27).

Destaca-se que a Imaculada Conceição (ou concepção) é um dogma católico, segundo o qual a Virgem Maria foi preservada de todos os pecados desde o momento de sua concepção. Em Portugal, a devoção a N. S. da Conceição remonta aos primórdios da formação do estado nacional, tendo esta sido reconhecida, em 1646, pelo rei D. João IV, como padroeira de reino e de todos os seus impérios ultramarinos. Essa devoção chegou ao Brasil, e ao Vale do Acaraú, por meio dos imigrantes portugueses, sendo eleita padroeira de várias cidades da região, inclusive de Bela Cruz.

De volta ao templo, são apresentadas duas versões para benção da capela. Na primeira, e mais provável, teria sido abençoada pelo Padre Sebastião Vogado Souto Maior que teria visitado as capelas da ribeira entre o período de 1731 a 1737 (Araújo, 1935, p. 21). Já na segunda versão, a benção teria sido dada por um frei franciscano de nome João de Maria, a 25 de março de 1733, o qual seria responsável pela mudança do nome do lugar para Santa Cruz (Araújo, 1985, p. 15). Isso nos permite concluir que esse foi o período aproximado do início da povoação do núcleo urbano do município de Bela Cruz.

Diego Carneiro

22 de agosto de 2025

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. O Alto da Genoveva e a Santa Cruz do Acaraú. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 22 de agosto de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/07/alto-genoveva-santa-cruz-acarau.html

Referências

ARAÚJO, Nicodemos. Santa Cruz do Acarahú. Acaraú, 1935.

ARAÚJO, Nicodemos. Município de Bela Cruz. Acaraú, 1985.

ARAÚJO, Nicodemos. Cronologia de Bela Cruz. Acaraú, 1990.

CAVALCANTE, José Vicente Franca. Notas para a História de SobralRevista do Instituto do Ceará, v. 23, p. 160-78, 1909.

DE FARIAS, Airton. História do Ceará. Fortaleza: Armazém da Cultura, 2018.

FREITAS, Vicente. Famílias Endogâmicas Do Vale Do Acaraú. Clube de Autores, 2021.

FREITAS, Vicente. Bela Cruz - Biografia do Município. Florianópolis: Bookess Editora, 2012.

MACHADO, José Almeida. Descrição geográfica abreviada da capitania do Ceará. Documentação primordial sobre a capitania autônoma do Ceará, 2ª ed. fac-similar de separatas da Revista do Instituto do Ceará Fortaleza: Fundação Waldermar Alcântara, 1997.

SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues de. “Minha Riqueza é Fruto do meu Trabalho”: negros de cabedais no Sertão do Acaraú (1709-1822). 2015. 223 f. (Tese Doutorado).

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