Ilustração da instalação de uma fazenda agropastoril
O processo de ocupação de uma sesmaria envolvia, em geral, a construção de uma casa, com cobertura de palha, a instalação de currais e a aquisição de centenas de cabeças de gado. Segundo o professor Gisafran Jucá, a mão de obra utilizada era formada, em sua maioria, por indígenas e mestiços, além de fugitivos e criminosos em busca de refúgio, totalizando, no máximo, doze pessoas (Souza, 1994, p.16).
Dessa forma, muitas das sesmarias mencionadas anteriormente deram origem a fazendas agropastoris e nesses espaços, além da família dos proprietários, viviam escravos e outros trabalhadores (Souza, 2015, p. 65). Nesse sentido, Nicolau da Costa Peixoto vendeu parte de suas terras ao português Manoel Ferreira Fonteles por volta do ano de 1725, as quais originaram a célebre Fazenda Tucunduba, que abrange boa parte dos atuais municípios de Marco e Morrinhos.
O topônimo da fazenda significa abundância de Tucum, um tipo de palmeira, cujas fibras são muito utilizadas pelas populações tradicionais. Lá, Fonteles viveu como homem influente na região (Araújo, 2000, p. 70; 2005, p. 59). A Fazenda Tucunduba ficou famosa na historiografia cearense pelo caso envolvendo o Ouvidor Loureiro, já apresentado em outra postagem.
O "Adão" do Vale Acaraú
Manoel Ferreira "Velho" nasceu em 7 de março de 1687, no lugar chamado Fontelo , freguesia de Meixomil, região de Entre Douro e Minho, Portugal, filho de Domingos Velho da Cruz e Maria Ferreira Pinto. Teria imigrado para o Brasil por volta de 1715, juntamente com seu irmão mais novo Domingos Ferreira Pinto, tendo desembarcado inicialmente em Pernambuco, quando passou a adotar o sobrenome Fonteles, em referência ao seu local de nascimento, cujo topônimo remete a uma pequena fonte lá existente. Em Olinda estabeleceu fortes laços de amizade com um seu patrício de nome Francisco Ferreira Brandão, cuja filha, ainda menor de idade, lhe foi prometida em casamento quando esta alcançasse a puberdade (Araújo, 2000, p. 70).
Nesse ínterim, Manoel veio para o Ceará, estabelecendo-se inicialmente na Vila de Aquiraz, onde se elegeu vereador (O Município de Sant'Anna, 1926, p. 54). Lá se relacionou com uma índia tapuia de nome Maria Fernandes, com quem teve sua primeira filha, chamada Luísa Ferreira, nascida em 1718. Chegada a idade núbil de sua prometida, Manoel Fonteles rompeu sua relação com Maria Fernandes. A índia não reagiu bem ao término, passando a ameaçar Fonteles, que conseguiu que ela fosse presa na cadeira de Aquiraz até após realização do casamento (Araújo, 2000, p.70-72).
Buscando evitar maiores constrangimentos, tratou de adquirir a referida Fazenda Tucunduba, distante dos problemas adquiridos em Aquiraz. Para lá mudou-se com sua filha e sua futura esposa Maria Pereira da Rocha, casando-se por volta de 1728, com quem teve seis filhos. Sua numerosa descendência é de tal importância para o povoamento da região que Pe. Sadoc concedeu-lhe a alcunha de “Adão” do Vale do Acaraú.
Manuel Fonteles foi um dos pioneiros da atividade agropecuária na região, alcançando proeminência social e influência política, chegando ao elevado posto de Tenente-Coronel, como consta no registro de casamento de uma de suas filhas, de quem foi testemunha em 1743 (Lima, 2016, p. 2084). No campo religioso, ajudou na construção da capela de Santana do Acaraú, cuja benção se realizou no dia 9 de agosto de 1739. Também atuou como Juiz ordinário da Câmara de Fortaleza em 1741 e da Ribeira do Acaraú em 1745. Fundou a primeira escola a funcionar nos sertões do Vale do Acaraú. Segundo testemunho da época, “era peão e mecânico e exercitava o ofício de vaqueiro e todos os atos mecânicos dele”. (Araújo, 2000, p.73).
Dona Maria Pereira faleceu a 28 de dezembro de 1747, de parto dos dois gêmeos, o Tenente Manoel Ferreira Fonteles casou, em segundas núpcias, com Rosaura Maria de Mendonça, a 28 de maio de 1752, viúva de Bento de Barros, falecido a 7 de janeiro de 1752. Deste segundo matrimônio não houve descendência.
Manoel Ferreira Fonteles faleceu a 30 de abril de 1761, com 74 anos de idade, "de doença que Deus lhe deu". Em seu testamento, cujo resumo foi transcrito no próprio livro paroquial da freguesia da Caiçara, determina a realização de missas por sua alma e de seus pais e faz doação de animais a matriz de Sant'Anna, a sua mulher e aos seus afilhados. Estipula ainda como herdeiros do restante de suas terras, seus filhos Tomé, Francisco e Bibiana e Manoel Ferreira da Rocha a quem responsabilizou por fazer cumprir seu testamento juntamente com seu genro Caetano Soares Monteiro. Destaca-se que Manuel Ferreira da Rocha é muito provavelmente um nome alternativo para Manoel Ferreira Fonteles Filho, que transmitiu essa alcunha a seu primogênito. O corpo de Manoel Fonteles foi sepultado, com todos os sacramentos, envolto em hábito franciscano, na capela de Santana do Acaraú (Livro de Óbitos, Sobral, 1774, fl. 26v. apud Araújo, 2000, p. 88-89).
A Localização da Fazenda Tucunduba
Segundo Padre Sadoc, a sede da Fazenda Tucunduba era localizada perto da serra de mesmo nome, em território hoje pertencente ao município de Marco, distrito de Panacui (Araújo, 2000, p. 70; 2005, p. 59). Entretanto, o historiador Fábio Junior Avelino argumenta que, na verdade, a sede da fazenda localizava-se no território do atual município de Morrinhos, em uma localidade de mesmo nome. Tal afirmação se baseia na descrição da propriedade feita por Mateus Mendes Vasconcelos, genro de Manoel Ferreira Fonteles, a câmara de Sobral em 1788, bem como em depoimentos de moradores da região, e nos nomes das fazendas fronteiriças, que hoje correspondem a localidades de Morrinhos. Ademais, Adelino considera improvável que Panacui fosse a sede da fazenda pelo fato do distrito ficar a 40 km da margem do rio Acaraú, portanto fora da demarcação conhecida da propriedade (Avelino, 2020, p. 40).
Apesar de não terem sido localizados registros claros sobre o tamanho da porção de terra vendida por Nicolau Peixoto a Fonteles, pode-se inferir que se tratou de ao menos parte das três léguas (19,6 km) correspondentes a sesmaria obtida por seu pai, Antônio da Costa Peixoto e seu sogro, Leonardo de Sá Ribeiro em 1702, possivelmente recebida como herança ou dote. Uma evidência nesse sentido, deve-se ao fato de Manoel Ferreira Fonteles ter obtido, em 10 de outubro de 1726, a concessão de uma sesmaria de três léguas (19,8 km) na Ribeira do Acaraú, vizinho às terras que já lhe pertenciam e que se chamam “Olhos d’Água das picadas do Chora” (Araújo, 2005, p. 113).
É importante esclarecer que nesse período, legalmente, não era permitida a venda de terras recebidas como sesmarias. Entretanto essa era uma prática comum, sendo que após efetivada a ocupação pelo comprador, este deveria pleitear a confirmação da posse junto ao governo provincial (Figueiredo Filho, 1964). Dessa forma, é provável que as terras concedidas a Manoel Ferreira Fonteles em 1726 sejam parte da terras adquiridas de Nicolau da Costa Peixoto.
Ademais, corrobora com isso o fato de que atualmente ainda existem duas localidades próximas entre si chamadas Olho d’Água e Chora, situadas no município de Santana do Acaraú, distantes cerca de 20 km, pelo rio Acaraú, do município de Marco, que demarcava a fronteira das terras de Nicolau da Costa Peixoto.
Dessa forma, pode-se inferir que a Fazenda Tucunduba foi composta por três partes:
- A porção adquirida de Nicolau da Costa Peixoto por volta de 1725;
- Um sesmaria de três léguas (19,8 km) de extensão, por uma (6,6 km) de largura, metade para cada lado do Rio Acaraú, obtida por Fonteles em 10 de outubro de 1726, possivelmente correspondente a mesma de Antonio Peixoto e Leonardo de Sá de 1702;
- A fazenda “Olhos d’Água das picadas do Chora”, vizinhas a sesmaria;
Sobre a primeira parte, sabe-se que Francisco Ferreira Fonteles, filho de Manoel Ferreira Fonteles, herdou a Fazenda do Marco, na sede do atual município (Avelino, 2020, p. 63). Portanto, é plausível que essa área, pertencente originalmente a sesmaria de Nicolau Peixoto, tenha sido aquela vendida a Manuel Ferreira Fonteles e integrado a Fazenda Tucunduba.
Já quanto a segunda parte, considerou-se três léguas pelo rio acima, contíguas às de Nicolau da Costa Peixoto, indo até a fronteira entre os municípios de Morrinhos e Santana do Acaraú. Por fim, para a terceira parte, considerou-se o fato do Ajudante Francisco de Faria Almeida, genro de Manuel Ferreira Fonteles, ter declarado em 1788 ser proprietário da Fazenda Estreito, atual distrito de Panacuí, possivelmente recebido como dote de casamento, desmembrado da Fazenda Tucunduba (Girão, 1983).
A partir dessa descrição, construiu-se o diagrama abaixo:
Localização aproximada da Fazenda Tucunduba em 1726
Descendência de Manoel Ferreira Fonteles e Maria Ferreira Pinto:
1. Maria Ferreira Pinto Brandão, c.c. Mateus Mendes de Vasconcelos, filho de Mateus Mendes de Vasconcelos e Ana Carvalho, naturais de Travanca, Portugal, na Fazenda Tucunduba, a 19 de setembro de 1743. Mateus faleceu a 7 de janeiro de 1793 e sua mulher faleceu a 2 de julho de 1795.
2. Ana Ferreira do Espírito Santo, c.c. Francisco de Faria Almeida, filho dos portugueses Francisco Faria de Almeida e Emerência de Jesus Magalhães, a 22 de julho de 1753. Moravam na Fazenda Morro Gadelhudo. Francisco de Faria Almeida faleceu a 10 de julho de 1795.
3. Manoel Ferreira Fonteles Filho, batizado a 5 de julho de 1740, c.c. Ana Dias Leitão, filha de Ângelo Dias Leitão e Rosa Maria Ferreira , na Capela de Santa Cruz, a 12 de novembro de 1755. Faleceu a 18 de julho de 1795.
4. Bibiana Ferreira Fonteles, batizada 16 de dezembro de 1742, c.c. Quintiliano Dias Leitão, filho de Ângelo Dias Leitão e Rosa Maria Ferreira, a 20 de agosto de 1756.
5. e 6. Os gêmeos Francisco Ferreira Fonteles e Tomé Ferreira Fonteles, nascidos em 1747, e casados no dia 27 de novembro de 1764. Francisco casou-se com Inácia Ferreira de Verçosa e Tomé casou-se com Maria José de Verçosa, ambas filhas de Ângelo Dias Leitão e Rosa Maria Ferreira.
*Luiza Ferreira Fonteles, nascida por volta de 1712, filha natural de Maria Fernandes, c.c. Caetano Soares Moreiro, filho de Simão Marques Leitão e Catarina Soares Monteiro, em 26 de novembro de 1733.
Diego Carneiro
27 de julho de 2025
Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. Manoel Ferreira Fonteles e a Fazenda Tucunduba. História e Genealogia do Baixo Acaraú, Fortaleza [recurso eletrônico]. 27 de julho de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/07/manoel-ferreira-fonteles-e-fazenda.html
Referências
AVELINO, Fábio Júnior. Ocupação Colonial e Escravidão Negra nas terras que hoje fazem parte do Município de Morrinhos (1725-1889). Monografia. Sobral: Universidade Vale do Acaraú, 2020.
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
FIGUEIREDO FILHO, J. D. História do Cariri. Crato: Faculdade de Filosofia do Crato, v. I, 1964.
GIRÃO, Raimundo. Os municípios cearenses e seus distritos. Estado do Ceará, Secretaria de Planejamento e Coordenação, Superintendência do Desenvolvimento do Estado do Ceará, Departamento de Recursos Naturais, 1983.
LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, v. 4, 2016.
O Município de Sant'Anna: um pouco de histórico sobre o Ceará de 1608 a 1738. Santana do Acaraú: Pap. e Typ. Correio da Semana, 1926.
SOUZA, Simone. História do Ceará. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 1994.
SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues de. “Minha Riqueza é Fruto do meu Trabalho”:
negros de cabedais no Sertão do Acaraú (1709-1822). 2015. 223 f. (Tese Doutorado).



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