Os Tremembés constituem um povo indígena que ocupava uma extensa faixa litorânea, desde a baía de São José, no Maranhão, até as margens do rio Curú, no Ceará, alcançando também as ribeiras do Acaraú e a Serra Grande. De acordo com Batista Aragão, foram expulsos de seu território de origem, no Maranhão, e deslocaram-se para o Ceará a partir de 1671, estabelecendo-se inicialmente na barra do Timonha, depois em Camocim e, posteriormente, na bacia do rio Acaraú (Aragão, 1994, p. 102).
Essas disputas são sintetizadas pelo historiador Gustavo Barroso, no seu livro A Margem da História do Ceará:
Em 1671, o capitão-mor do Ceará Jorge Correia da Silva mandou contra eles o ajudante Francisco Martins. Em 1673, o tenente Manuel Pereira da Silva capitaneou outra expedição para acalmá-los e, graças ao missionário frei Francisco de Sá, conseguiu um tratado de paz e aliança. Todavia, em 1688 se reedificava a fortaleza de Piara, a fim de contê-los e dar avisos aos navios que buscassem o Maranhão (Barroso, 1962, p. 112).
Eram tradicionalmente pescadores, embora também consumissem carne de caça. Suas técnicas materiais incluíam o uso cerâmica rudimentar, cabaças, além da confecção de machados de pedra, punções, raspadeiras, cestos e esteiras de carnaúba. Eram seminômades, sendo que suas habitações consistiam de palhoças construídas com folhas de palmeira (De Farias, 2018, p. 70).
Os cronistas Berredo e Bettendorf descrevem-nos como robustíssimos, valentes, consumados nadadores, pescadores hábeis e difíceis de serem civilizados. Eram de língua travada, como se dizia dos Tapuias, dos silvícolas que não falavam a língua geral, o tupi. Por isso foram algum tempo tidos como Cariris. Hoje é opinião assentada que também não pertenceram a essa raça e constituem grupo à parte (Barroso, 1962, p. 111).
A denominação Tremembé significa terreno encharcado, pantanoso, coberto de vegetação aquática, uma possível alusão aos manguezais bastante frequentes no seu território habitual. Variantes do nome incluem ainda Teremembés, Taramembés e Tramaambés, entre outras. Studart Filho os descreve como “gentios que muito se distinguiram por suas ações hostis aos brancos” (Martins-Filho e Girão, 1966, p. 40).
De fato, o relacionamento com os portugueses foi marcado por alternância entre momentos de paz e conflitos. Embora tivessem amizade com figuras como Soares Moreno e com os jesuítas, mantiveram resistência tanto à colonização portuguesa quanto, em certa medida, à invasão holandesa (Girão, 1986, p. 17).
Existe certa controvérsia na historiografia quanto à possibilidade dos Tremembés serem praticantes da antropofagia. São partidários dessa tese o Pe. Ivo d’Evreux, que os denominava "Canibaliers", além do historiador Pedro Theberge, para quem "eram valorosos guerreiros e praticavam a antropofagia, não obstante se aplicarem à cultura do milho e da mandioca" (Theberge, 1869).
Por outro lado, autores como Carlos Studart Filho contestam essa visão, argumentando que escritores lusitanos, “sempre interessados em deprimir os nativos”, propagaram relatos de que, em 1674, alguns náufragos teriam sido devorados pelos Tremembés (Studart-Filho, 1977). Segundo esse autor, ao menos após o aldeamento na Missão do Aracati-mirim, “não consta que os Tremembés comessem carne humana”, o que põe em xeque as acusações de canibalismo comumente repetidas em fontes coloniais.
A Missão de Aracati-mirm
A origem da Missão de Aracati-mirim remonta à Carta Régia de 8 de janeiro de 1697, que ordenava ao Governador do Maranhão a concessão, por sesmaria, das terras necessárias aos aldeamentos indígenas, inclusive os Tremembés, situadas entre a barra dos rios Aracati-mirim e Timonha, na divisa com o estado do Piauí (Braga, 1964). A iniciativa partiu de solicitação do Pe. Assenso Gago, Superior da Missão Jesuítica da Ibiapaba, que havia atuado na Ribeira do Acaraú em 1693 (Araújo, 1979, p. 27).
Em resposta a essa determinação régia, foi expedido alvará em forma de lei a 23 de novembro de 1700, concedendo a cada Missão uma légua (6,6 km) de terra em quadro para sustentação dos índios e respectivo missionário, com a declaração que cada aldeia deveria ser composta de ao menos de cem casais (Studart, 2001, p. 126).
Assim, no ano seguinte, em 1701, chegou ao Ceará o padre secular da Ordem de São Pedro, José Borges de Novais, natural de Alfarela, Portugal, primeiro missionário a residir entre os Tremembés. Foi ele quem iniciou a construção da capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, em torno da qual se formou a povoação, chamada primitivamente de Aldeia do Cajueiro. A edificação era simples, feita em taipa e coberta de palha, sendo benzida e inaugurada em 19 de outubro de 1712 — a primeira capela da Ribeira do Acaraú (Araújo, 2005, p. 93).
Conforme a tradição oral, a imagem de Nossa Senhora da Conceição, padroeira dos Tremembés, teria sido encontrada na praia por membros da tribo durante uma pescaria. Levada com reverência para uma oca, a imagem desapareceu e foi misteriosamente achada no dia seguinte sobre a areia, a certa distância do mar — o que os indígenas interpretaram como um sinal divino, erguendo no local uma palhoça para sua veneração. Seria nesse mesmo local que Pe. José Borges de Novais teria erguido capela definitiva (Araújo, 1981, p.47).
Em 3 de janeiro 1707, Pe. José de Borges Novais e seu irmão Alexandre conseguiram, para cada um, datas de três léguas (19,8 km) de comprimento por uma (6,6 km) de largura situadas entre os rios Aracati-mirim e Aracati-açu (Sesmarias, Vol. 4, nº 189, p. 5). Não resta claro, entretanto, se essas terras também foram empregadas na referida missão, mas é provável que os indígenas tenham trabalhado nelas. Com a morte do Pe. José Novais, em 1721, foi designado para assumir a missão, Pe. Agostinho de Castro Moura.
O Pe. Antônio Tomás registra a existência de uma Irmandade de Nossa Senhora da Conceição, possivelmente fundada ainda pelo Padre Novais, à qual a igreja permaneceu vinculada. A confraria reunia pessoas abastadas, inclusive de localidades distantes, e era sustentada por doações em gado e dinheiro, o que lhe garantiu expressivos recursos para a manutenção do templo e das cerimônias religiosas (Duarte, 1972, p. 44). Entre suas propriedades figurava a fazenda “Tanque de Baixo”, situada a oeste da atual Itarema.
A administração desse patrimônio era fiscalizada por visitadores eclesiásticos, que exigiam prestação de contas. Entre eles destacam-se Pe. Manoel Machado Freire (1747), Pe. Dr. José de Aranha (1750), Frei Manoel Jesus de Maria (1753), Pe. Luiz Fernandes da Cunha (1757), Pe. Veríssimo Rodrigues Rangel (1760) e Pe. José de Almeida Machado (1806). Um dos primeiros registros da irmandade data de 1740, quando os confrades decidiram suspender os ofícios religiosos em razão de uma dívida de 308$040 com o Pe. Agostinho do Castro Moura. A medida foi revertida meses depois pelo visitador José de Aranda (Studart, 2001, p. 202).
No ano de 1754, a irmandade buscava adquirir novas propriedades, possivelmente para expandir sua criação de gado. Em ata de 27 de junho, na presença do visitador Frei Manoel de Jesus Maria, resolvem adquirir o Sitio Mulungu, medindo uma légua e meia (9,9 km), do vigário Agostinho de Moura Castro, pelo valor de 280$000. Entretanto, a operação foi frustrada pela constatação que o vigário anterior, Pe. Novais, já havia vendido a propriedade para Antônio Nogueira (Studart, 2001, p. 262). Deduz-se que essa propriedade se tratava de ao menos parte da sesmaria supramencionada.
No dia seguinte a anulação da compra, a Irmandade adquiriu o Sitio Bom Jesus do Capitão Manuel da Cunha Linhares, por 270$000. Em 1766, outra propriedade, justaposta a essa, do mesmo capitão, medindo uma légua (6,6 km) de terra na Ribeira do Aracati-mirim foi adquirida pela Irmandade, tendo por extremo o Sítio do Macaco, João da Silveira Dutra (Studart, 2001, p. 313). Esse período marca provavelmente o apogeu dessa econômico dessa organização.
A Reconstrução da Igreja
Atribui-se à Irmandade de N. S. da Conceição a reconstrução da igrejinha em alvenaria, o que teria ocorrido, possivelmente, entre os anos de 1745 e 1757 (Araújo, 1981, p. 54). Grande parte dos materiais usados na obra teria vindo da Bahia, trazidos nas embarcações que chegavam ao porto de Oficinas, no rio Acaraú, para carregar carne-seca. De lá, esses insumos eram transportados em carros de bois até o local da construção. O historiador Renato Braga sugere que arquitetos baianos provavelmente teriam colaborado na construção do templo, o que explicaria sua arquitetura pouco usual para a região (Braga, 1964). Segundo Pe Thomaz, todo o serviço da construção da capela foi dirigido pelo capitão-mor Manoel Rodrigues Ribeiro da Costa.
Embora as afirmações do renomado historiador mereçam consideração, uma análise mais detalhada da edificação permite reconhecer a clara influência da arquitetura barroca, com elementos característicos do Nordeste setentrional brasileiro. A fachada da igreja exibe abundância de curvas e ornamentos, incluindo volutas, pináculos e um óculo central, típicos dos estilos joanino e rococó. A torre alta, unilateral, com remates em forma de bulbo, remete aos conventos franciscanos da região, especialmente os da Paraíba e de Pernambuco.
Entre os exemplos mais notáveis estão o Convento de Santo Antônio, em João Pessoa, e o Convento de Igarassu, em Pernambuco, que guardam marcante semelhança com a Igreja de Almofala. Por outro lado, esse padrão decorativo aparece com menos frequência nas igrejas baianas da segunda metade do século XVIII, como é o caso da Igreja do Bomfim, em Salvador, cuja arquitetura difere significativamente da cearense. Essa opinião é corroborada pelo historiador Gustavo Barroso (Barroso, 1962, p. 118)
Ademais, há registros que comprovam a participação local na construção da Capela de Nossa Senhora da Conceição. Em recibo datado de 30 de abril de 1758, o pedreiro José Lopes Barbalho declarou ter sido contratado pela Irmandade para erguer a igreja, incluindo paredes, madeiramento e um corredor em torno da edificação, pelo valor de 260 mil réis, pagos em parte em animais e parte em dinheiro. O documento ainda registra que o administrador Elias Pinto de Azevedo arcou com as despesas do presbitério, enquanto o Capitão Ignácio João e Luís Vieira custearam o arco da Capela-mor, o Pe. Agostinho encomendou o cruzeiro e os portais laterais, e o Tenente Francisco Coelho de Carvalho, junto ao mesmo Capitão Ignácio João Coimbra, financiou a porta principal e as janelas do coro. O recibo foi redigido em Caiçara, no mesmo dia, com a presença de testemunhas e do vigário da Vara, uma vez que o mestre de obras se encontrava gravemente enfermo e impossibilitado de registrar pessoalmente no Livro de Contas da Irmandade (Araújo, 2005).
Durante muito tempo, a igreja foi a única construção de alvenaria do povoado, cujas casas, dispostas em apenas duas ruas, eram todas feitas de taipa e cobertas de palha, ou completamente de palhas de coqueiro ou carnaúba, com o chão de barro batido, não havendo cercas para dividir a terra ou formar quintal. Além da reforma da Igreja, coube também à Irmandade de Nossa Senhora da Conceição, a responsabilidade pela construção do cemitério de Almofala, que teria ocorrido em meados do Século XVIII (De Souza, 1983, p. 32-33).
A expulsão e o realdeamento dos Tremembés
Como mencionado anteriormente, a convivência entre os indígenas e os colonizadores no Ceará não foi sempre pacífica. Em agosto de 1713, a Capitania do Ceará foi alvo de um levante de várias nações indígenas, o que levou o capitão-mor Francisco Duarte de Vasconcelos a organizar uma campanha militar, comandada pelo coronel João de Barros Braga. Durante os combates, cerca de 400 índios foram capturados, sendo 140 Tremembés entregues à Missão de Aracati-mirim (De Mello, 1859, p. 211).
Em 16 de junho de 1749 o Capitão-mor Manuel da Rocha de Almeida vai pessoalmente ao Palácio das Duas Torres, sede do poder da capitania de Pernambuco, para solicitar que os Tremembés fosse transferidos a força para a vila de Source, atual Caucaia, onde poderiam ser melhor vigiados. Para persuadir os indígenas, o diretor daquela vila mandou incendiar as casas em que viviam. Entretanto, a intervenção mostrou-se contraproducente, uma vez que os indígenas se recusavam a todo custo a obedecer, indo se refugiar em Tutóia, no Maranhão, o acabou por demoveu os colonizadores de seus intentos (Studart-Filho, 1963, p. 109).
Segundo o historiador Carlos Studart, em 1766, o Governador Borges da Fonseca, compadecido da miserável existência que curtiam os Tremembés, desamparados de toda assistência material e moral, vivendo como verdadeiros brutos, reuniu-os novamente na antiga missão da margem do Aracati-mirim e deu-lhes um cabo de esquadra do Presídio, de reconhecida capacidade e prudência, para os dirigir, e um soldado de boas letras para que ensinasse os seus meninos a ler e escrever (Studart-Filho, 1963, p. 110).
Nesse mesmo ano, a 12 de novembro, foi expedida uma provisão do Bispo de Pernambuco criando a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Almofala, até então conhecida como Missão do Acarati-mirim dos Tremembés, agora desmembrada da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Caiçara. A mudança de nome ocorre no contexto das reformas pombalinas, período em que antigos topônimos indígenas são substituídos por nomes europeus. O termo “Almofala” tem origem árabe, derivado de al-mahalla, que significa “acampamento” ou “parada temporária”, e provavelmente foi incorporado à toponímia portuguesa durante as invasões mouras — tanto que ainda existem freguesias com esse nome em Portugal (Barroso, 1962).
O Declínio de Almofala
A prosperidade econômica da vila que permitiu a construção de um templo tão requintado para os padrões da época é subitamente interrompida pela grande seca de 1790-1793, que leva consigo grande parte dos rebanhos da ribeira e o outrora lucrativo comércio de charque que dava vida aos portos da região. A partir de então a vila, que em 1808 já contava com aproximadamente mil habitantes, inicia um lento processo de estagnação e esvaziamento (Menezes, 1997, p. 53).
Nesse período, como informa Pe. Antônio Tomás, a Irmandade de N. S. da Conceição, que administrava o patrimônio da capela se vê em difícil situação financeira. Na sessão de 25 de outubro de 1795, a diretoria autorizou a venda de diversas fazendas, visto que não havia mais gados para povoá-las, marcando o declínio da outrora abastada confraria. Em 1830, alguns membros ainda tentaram reerguê-la, mas os esforços mostraram-se infrutíferos, levando à sua extinção definitiva nos anos seguintes (Araújo, 1981, p. 60).
A desorganização financeira veio acompanhada de transformações na estrutura religiosa e civil, com o fortalecimento da presença e do controle estatal. A primeira década do século XIX foi marcada por sucessivas mudanças no comando paroquial e pela formalização da Diretoria dos Índios da povoação, inicialmente sob a liderança de Pedro Luiz Pereira e, posteriormente, de Vicente José Leitão, ambos nomeados pela autoridade provincial. Na década de 1820, foram designados almotacés — fiscais responsáveis por supervisionar mercados, preços e medidas — e verificou-se a presença de religiosos acumulando funções civis, caso do Pe. Bernardo Clemente da Cruz Oliveira, que exercia simultaneamente a vigararia e o cargo de juiz de paz. Já nos anos 1830, surgiram reivindicações ligadas à ordem pública, como a solicitação de construção de uma cadeia, destinada a coibir abusos e desordens (Araújo, 2005).
Em 5 de setembro de 1832, um Decreto Imperial remove a sede da Freguesia de Almofala para o povoado Barra do Acaraú, atual município de Acaraú, criando assim a Freguesia N. S. da Conceição da Barra do Acaraú em substituição a primeira. O primeiro pároco nomeado foi o Pe. Bernardo Clemente da Cruz Oliveira. Poucos anos depois, em 10 de setembro de 1838, durante a administração de Manoel Felizardo de Sousa Melo, a freguesia de Almofala foi momentaneamente restaurada em sua área original e recebeu um vigário, cujo nome não foi registrado. No entanto, em 5 de dezembro de 1842, o então presidente da Província, Brigadeiro José Joaquim Coelho, sancionou uma lei que novamente extinguiu a freguesia.
Inconformados, os moradores de Almofala enviaram em 1844 um memorial ao presidente da Província, Brigadeiro José Maria Silva Bitencourt, solicitando a restauração da freguesia. O pedido, entretanto, foi submetido ao parecer do vigário de Acaraú, padre João Francisco Dias Nogueira, que relatou as condições precárias da capela de Almofala, carente de alfaias e materiais para o culto. Com base nesse parecer, o governo provincial decidiu indeferir a solicitação (Araújo, 1981, p. 82).
Em 1847, o cônego Antônio Pinto de Mendonça visitou a povoação e recomendou melhorias na conservação da igreja e na aquisição de ornamentos litúrgicos. Após essa data, as visitas pastorais tornaram-se raras, e a assistência religiosa passou a ser prestada pelo vigário de Acaraú, que visitava a comunidade apenas uma ou duas vezes por ano, aumentando o isolamento local. Politicamente, o povoado permaneceu sob a jurisdição de Sobral até 31 de julho de 1849, quando Acaraú foi elevada a vila e município. Em 1851, a Câmara criou os distritos da sede e de Almofala, mas este último foi extinto no mesmo ano pela Lei nº 873, sendo restaurado em 1863 e permanecendo assim por 27 anos, até ser novamente extinto em 1890 com a criação do distrito de Tanque do Meio, que o absorveu (De Souza, 1983, p. 32-33).
Em 1884 o local recebe a visita do historiador Antônio Bezerra, que traz uma descrição do templo setecentista: no espaço compreendido entre duas ruas, do lado leste, situa-se a igrejinha, uma verdadeira joia arquitetônica, que distingue-se de todas as demais igrejas da Província, tanto pelo gosto quanto pela construção. Quem a visita não pode deixar de notar o evidente traço do estilo jesuítico em cada detalhe, cuja perspectiva remete aos antigos templos de Portugal (Bezerra, 1965, p. 379).
Apesar da descrição romântica de Bezerra, nessa época a capela encontrava-se bastante deteriorada. Sobre isso, Padre Antônio Xavier registrou em 01 de dezembro de de 1886 no livro de tombo da paróquia de Acaraú: Capela de Almofala, no seio de antiga e decadente povoação, patrimônio constituído em 14.08.1730, na presença do Pe. Elias Pinto de Azevedo. Já foi elegante e bem ornada, hoje se acha em ruínas - apenas possui duas posse posses de terra, sem designação de braças e 4 ou 5 cabeças de gado” (Barroso, 1999, p. 239).
Declínio, Soterramento e Redescoberta
Em 1897, uma duna começou a avançar sobre a área próxima à capela de Almofala, espalhando areia pelas casas vizinhas. No início do ano seguinte, o vigário de Acaraú, padre Antônio Tomás, observou que a areia já invadia residências e ameaçava a estrutura da igreja. Preocupado, comunicou a situação ao bispo Dom Joaquim José Vieira, que autorizou a transferência das imagens sacras para a capela de Nossa Senhora dos Navegantes, em Tanque-do-Meio (atual Itarema).
Ciente da religiosidade do povo de Almofala, o padre avisou previamente que precisava cumprir a difícil missão. Ao chegar, encontrou o templo em ruínas e celebrou uma última missa ao amanhecer, com cerca de três mil fiéis presentes. Durante a cerimônia, suas palavras de despedida causaram grande comoção, com fiéis chorando e cantando benditos à Virgem. Quando os andores começaram a ser preparados, surgiram rumores de que um grupo armado tentaria impedir a retirada das imagens (Braga, 1964, p. 95).
Dois líderes locais, José Caboclo e Pedro Duro, confrontaram o padre e se recusaram a permitir a remoção, mas foram presos pelo subdelegado para evitar confronto. A situação se agravou quando uma mulher, Joana Camelo, tentou fugir com a imagem de Nossa Senhora do Rosário, provocando tumulto e brigas. Após a contenção dos ânimos, a população seguiu em procissão por 12 quilômetros até a capela do Tanque do Meio, levando as imagens e objetos da igreja. Pouco depois, o povoado e a antiga igreja de Almofala foram soterrados pelas areias, e seus habitantes, em grande parte descendentes dos Tremembés, se dispersaram, muitos fixando-se na praia da Lagoa Seca (De Souza, 1983, p. 32-33).
Após cerca de 45 anos soterrada, em 1943 a duna deslocou-se e revelou novamente o templo, ainda de pé, embora com sérios danos em partes de madeira e ferro. O sino voltou a soar, e antigas moradias começaram a ser recuperadas. Nesse mesmo ano, o padre Sabino de Lima celebrou missa no local e incentivou a restauração da igreja.
Entre 1943 e 1947, a comunidade de Almofala mobilizou-se para reconstruir o templo. Campanhas populares — como leilões e quermesses — foram organizadas para arrecadar recursos. A capela foi limpa, recebeu nova cobertura, portas, coro e um cruzeiro no adro. Em janeiro de 1944, as imagens retornaram em procissão solene da capela de Itarema, em um evento marcado pela ampla participação dos fiéis. As obras prosseguiram até 1947, quando, apesar das dificuldades financeiras, a restauração foi concluída.
Em 12 de janeiro de 1979 a Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Almofala foi reconhecida e tombada pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), mas sua reforma definitiva iniciou apenas três anos depois, em 1983, por pressão da população e após a publicação de uma matéria de grande impacto no jornal Diário do Nordeste. Foi reinaugurada em 17 de fevereiro de 1984, na presença de autoridades nacionais e locais (Barroso, 1999, p. 240).
Diego Carneiro
06 de outubro de 2025
Referências
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