O território de Amontada integrou originalmente as terras dos índios Tremembés, primeiros registros de contato com os colonizadores remontam a 1607, quando os padres Francisco Pinto e Luís Figueiras iniciaram os trabalhos de catequese. No decorrer do século XVII, missionários jesuítas e membros da Ordem de São Pedro também atuaram na região, procurando atrair os Tremembés ao projeto colonial. A ocupação luso-espanhola consolidou-se no século XVIII, momento em que surgiram os primeiros colonos registrados em documentos oficiais (Montenegro, 2023, p. 55).
Conforme os registros de sesmarias, os primeiros a receberem concessões de terras na região foram os portugueses Manuel Pinto Correia, Gonçalo Correia, João Pinto Correia e Antônio Álvares Correia. O registro dessa doação, datado de 7 de outubro de 1683, refere-se a uma área de três léguas, situada às margens dos rios Mundaú, Aracati-Mirim e Aracatiaçu, estendendo-se até as cabeceiras dos dois últimos (Sesmarias Vol. 1, nº 39). Tal concessão marca a presença dos primeiros europeus no território correspondente aos atuais municípios de Itapipoca e Amontada (Pinheiro e Pinheiro, 2022, p. 38).
Posteriormente, em 20 de junho de 1694, novas áreas de três por duas léguas foram concedidas a Agostinho Alves de Oliveira, Antônio de Oliveira Maciel, João Fernandes de Sousa, João Costa de Aguiar, Fulgência Rodrigues, Antônia Ferreira, Inês Alves e Ana de Sousa Jesus (Sesmarias Vol. 1, nº 9). Essas terras situavam-se na margem ocidental do Rio Mundaú e na margem oriental dos rios Aracatiaçu e Aracati-Mirim, ficando estes cursos d’água como limites naturais entre as propriedades (Pinheiro e Pinheiro, 2022, p. 39).
Com a expansão da pecuária, o território passou a ser ponto de repouso para vaqueiros oriundos da serra de Uruburetama, que transitavam pelas margens do rio Aracatiaçu (Montenegro, 2023, p. 56). Um núcleo inicial de povoamento, denominado São Bento da Ribeira do Aracatiaçu, já existia antes mesmo da chegada dos primeiros colonos portugueses conhecidos, embora não haja registros seguros de sua fundação (De Castro, 2015, p. 13).
O topônimo “Amontada” deriva do termo “Montado”, referência à cadeia de pequenas elevações que conecta o maciço da Serra das Matas à Ibiapaba (Braga, 1964, p.119). Essa região, composta por campos abertos e serrotes, mostrou-se adequada à criação de gado e à formação de fazendas, que se estabeleceram ao longo dos rios Aracatiaçu e Aracatimirim. As variações toponímicas ao longo do tempo refletem a dinâmica histórica da localidade: São Bento da Amontada, São Bento da Ribeira do Aracatiaçu, São Bento e, finalmente, Amontada, denominação oficial desde 1936.
Em meados do século XVIII, o português Tomé Pires de Queiroz, estabeleceu um criatório de gado nas margens do rio Aracatiaçu, cerca de 15 km distante da sede do atual município de Amontada. Sobre Tomé Pires, sabe-se muito pouco, apenas que foi um dos membros fundadores da Irmandade do Santíssimo Sacramento de Sobral, criada em 15 de setembro de 1752, ao lado de pessoas ilustres da região, como o Capitão Mateus Mendes de Vasconcelos (Araújo, 2005, p. 244). Ele também aparece ao lado de Luis Antonio Teixeira como testemunha do casamento de Domingos Rodrigues Linhares e Maria da Soledade Araújo, na matriz da Caiçara em 16 de setembro de 1762 (Araújo, 2000, p.140).
Ao redor da fazenda de Tomé Pires, formou-se uma pequena povoação (Amontada Velha), a partir da qual surgiu a solicitação para a construção de uma capela, dirigida a Dom José Fialho, da Ordem de São Bernardo de Alcobaça, então sexto bispo de Olinda (Pinheiro e Pinheiro, 2022, p. 42). Os moradores alegavam a grande distância da matriz mais próxima, localizada Caiçara (Sobral), sede do curato de Acaraú, a mais de 25 léguas dali. Naquele tempo, morava na fazenda de Amontada outro português, o Capitão-mor Antônio José dos Santos, o qual teria sido o responsável pela ereção do templo. Poucos anos depois, a capela começou a funcionar como posto espiritual, atendendo às primeiras necessidades religiosas da comunidade (De Castro, 2015).
Existe outra versão para a construção da Capela de Almofala Velha, segundo a qual sugere o templo, na verdade, teria sido construído por "uma missão religiosa que antecedeu a chegada dos colonizadores com vistas à catequese e ao aldeamento, num primeiro passo do projeto de colonização" (Pinheiro e Pinheiro, 2022, p. 39). Entretanto, essa versão é menos crível, uma vez que a dita capela não aparece nas listagens dos primeiros visitadores do curato do Acaraú, como Pe. Felix Machado Freire, que visitou as capelas da região em 1732, sendo provável que tenha sido erguida posteriormente a essa data (Araújo, 2005, p. 157).
Capitão-mor Antônio José dos Santos
Antônio José dos Santos nasceu no dia 26 de dezembro de 1764, na Rua Direita, do lugar Matosinhos, Freguesia de São Salvador de Bouças, atual Matosinhos, Porto. Filho de Bento Antônio dos Santos e de Mariana Francisca dos Santos. Casou-se a 31 de maio de 1787, de manhã, na Fazenda Taperinha, Freguesia da Amontada, Ceará, com Rita Maria do Nascimento, filha de Gregório Pires Chaves, provável parente de Tomé Pires, e de Ana Maria da Anunciação. O casal, que passou a residir na Fazenda Amontada, teve 10 filhos (Lima, 2016, p. 240-241):
1. Inês Maria dos Santos casada com João de Agrela Jardim.
2. Joaquim José dos Santos n. 22 de agosto de 1789, e b. a 30 do dito mês e ano, na Igreja Matriz de N. Senhora da Conceição da Amontada, pelo Padre Francisco Moreira de Souza. Capitão Mor de Itapipoca, por Carta Patente de 14 de março de 1827. Casou-se a 18 de novembro de 1834, com Margarida de Castro Viana, filha de Ponciano José de Oliveira e Maria José.
3. Maria Francisca da Conceição nasceu a 02 de agosto de 1813. Casou-se com Francisco Lourenço Gomes, n. na Freguesia de Sobral, filho de Domingos da Cunha Linhares e de Ana Maria do Espírito Santo.
4. Maria de São Pedro dos Santos faleceu já viúva a 13 de março de 1873. Casou-se com o Comendador Antônio Teles de Menezes, filho de Joaquim Teles de Menezes e de Luíza Soares de Vasconcelos. Neto paterno de Gabriel Cristóvão de Menezes e de sua primeira mulher, Bernarda Correia de Araújo.
5. Francisca Maria dos Santos que faleceu solteira.
6. Joana Maria dos Santos nasceu a 29 de dezembro de 1804. Casou-se a 26 de fevereiro de 1824, com o Capitão Manoel Tomé Rodrigues, filho de Manoel Tomé Rodrigues, n. Portugal, e de Eugênia Barbosa das Virgens.
7. Bento Antônio dos Santos nasceu a 15 de março de 1807. Casou-se a 10 de maio de 1834, com Ana Pires Chaves, filha de Gregório Pires Chaves e de Maria de Jesus Aguiar.
8. Vicente José dos Santos nasceu no ano de 1808 e faleceu a 22 de novembro de 1839. Casou-se a 05 de novembro de 1835, com Maria Antônia Álvares, filha de Antônio Manoel Álvares, n. Braga, e de Inês Maria de Jesus Álvares.
9. Antônio José dos Santos nasceu no ano de 1809. Casou-se a 05 de novembro de 1835, com Margarida Antônia Álvares, filha de Antônio Manoel Álvares, n. Braga, e de Inês Maria de Jesus Álvares.
10. José Antônio dos Santos nasceu no ano de 1810. Casou-se a 05 de novembro de 1835, com Teodora Álvares, filha de Antônio Manoel Álvares, n. Braga, e de Inês Maria de Jesus Álvares. Casou-se novamente com Luíza Antônia Cordeiro, viúva do Capitão Joaquim Manoel Álvares.
A Criação da Freguesia de Amontada
Com o crescimento populacional e a dispersão dos habitantes para áreas ainda mais distantes, os moradores recorreram a Dom Francisco Xavier de Aranha, também português, natural de Arronches e pertencente à Ordem de São Pedro, que exercia o cargo de oitavo bispo de Olinda. Atendendo ao pedido da população da ribeira do Aracatiaçu, em 1757 ele promoveu a divisão do curato de Acaraú em quatro freguesias, uma delas com sede em Amontada (Velha). Essa criação foi confirmada por provisão do visitador-geral do Nordeste, Frei Manoel de Jesus Maria, consolidando a estrutura eclesiástica da região.
Contudo, uma vez que o terreno sob o qual estava construída a capela da povoação não teria sido formalmente doado à Igreja, havia um impedimento canônico para que esta funcionasse como sede paroquial. Apesar disso, registros de casamentos e sepultamentos confirmam a atuação de três vigários na freguesia nas três décadas subsequentes, período em que não existiam outras capelas na região (De Castro, 2015, p. 14).
A disputa pela sede paroquial acirrou-se a partir de 1788, quando o Capitão Manuel Gomes do Nascimento e sua esposa, D. Antônia do Ó Correia Araújo Menezes, doaram à Igreja meia légua (3,3 km) de terra à margem direita do rio Aracatiaçu, na Lagoa do Barbatão, atual sede municipal (Lira, 1984, p. 36). Essa propriedade encontrava-se dentro dos limites da sesmaria concedida ao pai de Antônia, Capitão Gabriel Cristóvão Teles de Menezes, de três léguas (19,8 km), obtida em 20 de janeiro de 1746, e foi dada ao casal como dote, juntamente com o significativo rebanho de mil cabeças de gado (De Castro, 2015, p. 14).
Essa fazenda que na verdade chamava-se São Bento, também era conhecida por Barbatão, por existirem muitos bois não domesticados, criados na mata (Pinheiro e Pinheiro, 2022, p. 41). Ali foi erguida uma nova capela, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, que progressivamente assumiu a centralidade religiosa e política do território. Entre o final do século XVIII e o início do XIX, instaurou-se forte rivalidade entre os moradores de Amontada Velha e os de São Bento, marcada inclusive por disputas em torno da posse da imagem da padroeira.
A instabilidade prolongou-se durante o século XIX. Pela Lei nº 364, de 29 de julho de 1846, a sede da freguesia foi transferida para Arapari, e em 1868 para Imperatriz (atual Itapipoca). Apenas em 21 de abril de 1874 foi criada novamente a Paróquia de São Bento de Amontada, tendo como vigário o padre Joaquim Teodoro de Araújo (1875–1915). Em definitivo, a freguesia consolidou-se em 1873 na atual sede.
Evolução Administrativa
A trajetória político-administrativa do município foi marcada por constantes oscilações. Criado como distrito em 1757, subordinado a Itapipoca, Amontada foi suprimido em 2 de setembro de 1838 (Lei nº 150) e restaurado em 19 de setembro de 1842 (Lei nº 253). Em 30 de agosto de 1876, alcançou emancipação municipal (Lei nº 1.735), mas foi extinto em 26 de novembro de 1878 (Lei nº 1.776). Restaurado em 29 de agosto de 1884 (Lei nº 2.082), voltou a ser suprimido em 1º de agosto de 1905 (Lei nº 6.447). Diversos atos normativos posteriores definiram sua condição instável: Decreto nº 43, de 13 de agosto de 1890; Decreto nº 14, de 23 de março de 1892; Lei nº 424, de 29 de setembro de 1897; até que em 1938 seu nome foi simplificado para São Bento (Lei nº 791). Pelo Decreto nº 1.117, de 30 de dezembro de 1943, passou a se chamar definitivamente Amontada.
O município foi novamente extinto pela Lei nº 11.010, de 5 de janeiro de 1985, e reinstalado em 1º de janeiro de 1986, quando se emancipou em caráter definitivo de Itapipoca, junto com os distritos de Icaraí e Aracatiara. Posteriormente, em 1988, foram criados os distritos de Moitas e Sabiaguaba (desmembrados de Icaraí e Aracatiara) e o distrito de Nascente (resultado da divisão do distrito-sede e parte de Aracatiara). A formação territorial, assim, reflete tanto a fragmentação administrativa quanto os diferentes fluxos migratórios que contribuíram para a ocupação, oriundos de municípios vizinhos, de outros estados nordestinos e de Portugal.
Do ponto de vista urbano, o núcleo inicial da atual cidade desenvolveu-se tardiamente. Até a década de 1960, a área ao redor da Praça Coronel Antônio Belo, onde se encontra a Igreja Matriz, concentrava a ocupação mais regular, com edificações datadas do final do século XIX e sobrados das décadas de 1940 e 1950. Mesmo em 1985, quando da emancipação definitiva, o núcleo urbano ainda carecia de infraestrutura administrativa e de serviços básicos, apresentando-se como um tecido disperso, mesclando usos rurais e urbanos (De Castro, 2015, p. 19).
A economia local se estruturou na comercialização de produtos agrícolas — algodão, farinha, cera e palha de carnaúba, castanha de caju, oiticica, feijão, coco e milho — embora sofresse forte concorrência da vizinha Itapipoca. Nas últimas décadas, porém, Amontada conheceu expressivo dinamismo, resultado tanto da diversificação de atividades econômicas quanto do crescimento da infraestrutura e do impacto do turismo no litoral, especialmente em Icaraí de Amontada, com efeitos já perceptíveis em Moitas e Sabiaguaba (Montenegro, 2023, p. 57).
Atualmente, o município apresenta uma rede distrital heterogênea: enquanto sedes como Aracatiara, Nascente, Poço Comprido, Garças, além da sede urbana e de Icaraí, exibem maior dinamismo, outras localidades mantêm feição predominantemente rural, baseadas na agricultura de subsistência e em pequenos núcleos de comércio varejista. Essa combinação de trajetórias históricas, conflitos fundiários, instabilidade político administrativa e transformações recentes conforma o processo singular de formação e desenvolvimento de Amontada.
Diego Carneiro
28 de setembro de 2025
Referências
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.
BRAGA, Renato. Dicionário geográfico e histórico do Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1964.
DE CASTRO, Gerson Vidal. Amontada, Aspectos Políticos Econômicos e Históricos. Amontada, 2015.
LIRA, Pe. João Mendes. Subsídios para a História Eclesiástica e Política do Ceará. Rio de Janeiro: Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1984.
MONTENEGRO, Seridião Correia. Perfil Histórico, Geográfico e Antropológico do Municípios do Ceará. Fortaleza: INESP, 2023.
PINHEIRO, Jonas Rabelo; PINHEIRO, Gabriel Lopes. História Política de Amontada. Fortaleza: INESP, 2022.


Nenhum comentário:
Postar um comentário