Introdução do Café no Ceará por José de Xerez Furna Uchoa

Nem sempre os produtos agrícolas que, em determinada época, constituem a base da riqueza de uma região são nela originários ou ali tiveram seus primeiros cultivos. Com frequência, chegam após diversas experiências realizadas em outras localidades, muitas vezes precedidas de tentativas malsucedidas ou de ensaios limitados em escala e alcance. Ao longo da história econômica dos povos, esse fenômeno tem sido reiteradamente observado.

Os colonizadores portugueses destacaram-se como verdadeiros mestres na introdução e adaptação de grãos e frutos em diferentes territórios. Não raramente, determinadas espécies, transplantadas com êxito, tornaram-se tão abundantes e enraizadas em novos ambientes que passaram a ser consideradas autóctones. Entre as possessões africanas e asiáticas, os navegadores lusos também promoveram trocas botânicas relevantes. A história dessas transferências de culturas ainda está por ser sistematicamente escrita e, quando o for, revelará uma instigante dimensão da obra civilizatória de Portugal no mundo.

Nesse contexto, o caso do café é particularmente emblemático, pois ilustra de maneira clara a tese inicialmente apresentada. Originária da Etiópia, a rubiácea, descrita pelos cronistas como um produto precioso, encontrou no Brasil um terreno fértil para sua expansão, especialmente nas províncias do Centro-Sul — Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo — de onde avançou em direção ao Oeste e, posteriormente, ao Paraná. Contudo, não foi nessa região que a cultura do café se iniciou. Está amplamente documentado que a planta chegou ao Sul a partir do Norte, passando pelo Nordeste, até fixar-se e alcançar seu apogeu econômico.

Em 27 de maio de 1727, aportava em Belém do Pará o capitão-tenente Francisco de Melo Palheta, trazendo clandestinamente de Caiena, na Guiana Francesa, cinco mudas de cafeeiro — as primeiras a serem cultivadas em território brasileiro. Poucos anos depois, em 25 de janeiro de 1751, a Gazeta de Lisboa Ocidental noticiava a chegada, ao porto daquela cidade, de um carregamento proveniente do Norte do Brasil, considerado superior ao café do Levante. A publicação acrescentava que, no local de origem — cujo nome fora prudente omitir —, havia colheitas suficientes para abastecer vinte embarcações.

As primeiras plantações brasileiras prosperaram na Amazônia, sobretudo na região do Rio Branco, no Pará e no Maranhão, após a introdução das mudas de Melo Palheta. Até 1748, segundo registros da referida Gazeta, múltiplos carregamentos chegaram a Lisboa. Contudo, em pouco tempo, esse comércio entrou em declínio em virtude da baixa produtividade das lavouras, até cessar por completo. Foi então que novas experiências de cultivo começaram a ser realizadas no Nordeste, tendo o Ceará como um dos primeiros focos.

Café na Ribeira do Acaraú e no Ceará*

Em 1747, o capitão-mor da vila de Sobral e da ribeira do Acaraú — atual Acaraú —, José de Xerez Furna Uchoa, descendente de tradicional família e figura de prestígio regional, introduziu o cafeeiro em sua propriedade, o sítio Santa Úrsula, na serra da Meruoca. O exemplar por ele plantado teria sobrevivido por 114 anos, segundo o historiador Barão de Studart, ainda existindo em 1861. Dessa planta derivaram as sementes que abasteceram os primeiros cafezais da Meruoca e da vizinha serra da Ibiapaba.

José de Xerez da Furna Uchoa foi homem influente na Ribeira do Acaraú, atuando como Juiz Ordinário e Juiz de Órfãos, bem como político de forte liderança. Ele era natural da Vila de Goiana, filho de Francisco Xerez Furna e de Inês de Vasconcelos Uchoa. Casou-se a 21 de outubro de 1747, às 7 horas da noite, na Igreja Matriz da Caiçara, Sobral, “em presença do Reverendo Doutor Visitador Manoel Machado Freire sendo dispensados os contraentes no terceiro e quarto grau de consanguinidade” com Rosa de Sá e Oliveira (uma das sete irmãs), filha de Manoel Vaz Carrasco e de D. Maria Madalena, (Madalena de Sá e Oliveira), por testemunhas o Reverendo Padre Pedro de Albuquerque Melo e o Sargento Mor Manoel Rodrigues Coelho (Lima, 2016, p. 1940).

Furna Uchoa pertencia a uma linhagem fidalga e manteve vínculos estreitos com a metrópole portuguesa. Em uma viagem à Europa, entre 1743 e 1746, visitou Paris e, no renomado Jardim das Plantas, conheceu exemplares de cafeeiros oferecidos ao rei Luís XV por navegadores holandeses vindos do Oriente. Decidido a aclimatar a rubiácea em suas terras, obteve, por meio da diplomacia portuguesa, uma recomendação ao duque de Choiseul, então ministro francês e figura de poder comparável ao marquês de Pombal em Portugal. Graças a esse apoio, recebeu duas mudas de café pertencentes originalmente ao rei francês. Apenas uma sobreviveu à travessia atlântica, tornando-se a planta centenária do sítio Santa Úrsula. Assim, o primeiro cafeeiro do Ceará veio diretamente de Paris e remontava ao acervo botânico de Luís XV.

A experiência pioneira de Furna Uchoa, entretanto, não foi imediatamente replicada. Por quase um século, o cultivo do café permaneceu restrito à serra da Meruoca. Somente em 1824, já no período pós-Independência, Antônio Pereira de Queirós, proprietário do sítio Munguaipe, e Filipe Castelo Branco, dono do sítio Bagaço — ambos na serra de Baturité —, retomaram a cultura. Queirós utilizou sementes provenientes do Cariri, região que mantinha contato agrícola com Pernambuco; já Castelo Branco empregou mudas oriundas do Pará. Iniciava-se, assim, o ciclo do café sombreado em Baturité, cujo produto viria a se distinguir pela qualidade e renome, mantendo-se até hoje como tradição agrícola da região. A partir daí, o plantio se espalhou por outras serras próximas, como Aratanha, Pacatuba e Maranguape.

As sementes oriundas do Cariri, por sua vez, tinham origem pernambucana, uma vez que no agreste daquela província já se realizavam experiências com o cultivo cafeeiro desde antes de 1824. Na mesma época, também se registraram plantações na Paraíba, notadamente em Mamanguape, cuja produção conquistou reputação comparável à de Baturité.

Dessa trajetória de difusão, depreende-se que foram os povos do Norte e do Nordeste os verdadeiros pioneiros da cafeicultura no Brasil: no Pará, a partir de 1727, e no Ceará, duas décadas depois. No início do século XIX, a rubiácea finalmente alcançaria o Sul, região onde encontrou condições para o seu mais expressivo desenvolvimento econômico.

É interessante que tenhamos devido as primeiras mudas de café à França: as de Caiena e a de Paris.

*Adaptado de Gustavo Barroso, na obra A Margem da História do Ceará (Barroso, 1962, p. 221-224).

José de Xerez Furna Uchoa

Nascido a 16 de setembro de 1722 em Goiana, Pernambuco, filho de Francisco de Xerez Furna e Inês de Vasconcelos Uchoa, José de Xerez migra para o Ceará provavelmente entre os anos de 1731 e 1742, estabelecendo-se inicialmente em Bela Cruz. O motivo para a migração é incerto, sendo uma hipótese plausível, de que D. Inês de Vasconcelos, então viúva, teria problemas de saúde que poderiam ser amenizados pelo clima litorâneo (Almeida, 2016, p. 171). Já a escolha do local, muito provavelmente se deveu ao fato desta ser sobrinha de Manoel Vaz Carrasco, dono da Fazenda Lagoa Seca.

Uma hipótese mais intrigante, é que a família tenha vindo fugida da Guerra dos Mascates ou mesmo das devassas que ocorreram em Pernambuco e Paraíba no período de 1729 a 1741. A família de José de Xerez, assim como a de Manoel Carrasco possuía ascendência de cristãos-novos, judeus convertidos a força pelo estado Português. Esse grupo muitas vezes era perseguido injustamente pela supostas práticas judaizantes, o que poderia resultar na prisão, confisco dos bens e até mesmo a pena capital (Souza, 2007, p. 160).

Após uma breve permanência em Bela Cruz, Xerez transferiu-se para Caiçara por volta de 1743, onde adquiriu terras e consolidou um prestígio notável. Em 5 de abril de 1758, foi designado almotacé da freguesia da ribeira do Acaraú, com atuação prevista para os meses de julho a setembro do mesmo ano. Pouco depois, em 26 de julho de 1758, foi eleito oficial da Câmara de Fortaleza para a mesma ribeira, tomando posse em 17 de agosto como juiz ordinário, função que exerceu durante o ano seguinte. Ao longo de sua carreira pública, ocupou ainda os cargos de juiz de órfãos e vereador da Câmara, vindo a ser nomeado capitão-mor das Entradas do Acaraú e capitão-mor das ordenanças (Linhares, 1901).

Entretanto, em meio a essa trajetória de ascensão, enfrentou acusações de um desafeto, que o acusava de descender de cristãos-novos. Essa acusação, motivou-o a empreender um extenso estudo genealógico visando provar (em vão) não constar entre seus ancestrais máculas de sangue "índio, mouro, judeu ou qualquer outra raça reprovável em direito". Infelizmente esse preciosíssimo estudo, que demorou cerca de 12 anos para ficar pronto encontra-se perdido, havendo apenas referências indiretas ao mesmo (Linhares, 1901, p. 70).

Em 21 de outubro de 1746, José de Xerez casa-se com Rosa de Sá e Oliveira, sua prima de 3º grau, e filha de Manoel Vaz Carrasco. O casal teve sete filhos (Araújo, 2005, p. 226):

1. Padre Miguel Lopes Madeira Uchoa, nascido a 2 de abril de 1762.

2. Ana América Uchoa, batizada a 20 de setembro de 1749, c.c. Manoel José do Monte, viúvo de Luzia da Costa Maciel, filho de segundo matrimônio de Gonçalo Ferreira da Ponte com Maria da Conceição. Ana América casou-se a 30 de novembro de 1769.

3. Francisca Xavier de Mendonça, batizada a 2 de outubro de 1751, c.c. o Capitão Antonio Manuel da Conceição, filho de Manoel José do Monte e Luzia da Costa Maciel, no dia 21 de setembro de 1778, mesmo dia em que se casou sua irmã Mariana.

4. Mariana de Lira Pessoa, c.c. o Capitão Antonio Alvares de Olanda, filho de Domingos Alves Ribeiro e Ana de Sá Cavalcante, a 21 de setembro de 1778.

5. Maria Manuela, nascida a 6 de dezembro de 1768, c.c. o Sargento-mor Francisco Antonio Linhares, filho de Antonio Alvares Linhas e Inês Madeira de Vasconcelos, a 22 de maio de 1787, na Matriz.

6. Maria José Mendonça, c.c. Joaquim José Madeira de Matos, filho de Manoel Madeira de Matos e Francisca de Albuquerque Melo, a 8 de fevereiro de 1781. Maria José Mendonça faleceu a 3 de dezembro de 1786, com 36 anos. O viúvo Joaquim José casou-se, em segundas núpcias, com Caetana Maria da Assunção, filha de Alexandre Fernandes de Vasconcelos e Caetana Maria, a 16 de fevereiro de 1806.

7. José de Lira Pessoa, nascido a 4 de setembro de 1766, casou-se duas vezes. À primeira, com Inácia Cavalcante de Albuquerque, filha do Capitão-mor Bento Pereira Viana e Bernarda Cavalcanti de Albuquerque. A segunda, com Maria Pereira Viana, filha natural de Bento Pereira Viana e Tereza Maria de Jesus, a 26 de agosto de 1828.

Ao que parece, a acusação não teve maiores consequências sobre sua reputação, visto que continua a ocupar posições de prestígio até o final de sua vida. No ápice de sua atuação pública, em 2 de setembro de 1778, é nomeado Capitão-mor da Vila Distinta e Real de Sobral. Faleceu José de Xerez da Furna Uchoa a 1º de abril de 1797 e foi sepultado na Matriz de Sobral.

Referências

ALMEIDA, Nilton Melo. Cristãos-novos e seus descendentes no Ceará Grande: a Inquisição nos sertões de fora. 2016. Tese de Doutorado. Universidade NOVA de Lisboa (Portugal).

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

BARROSO, Gustavo. À margem da história do Ceará. Imprensa Universitária do Ceará, 1962.

LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, v. 4, 2016.

LINHARES, Manoel do N. Alves. “Traços biograpficos do capitão-mor José de Xerez Furna Uchoa: o introdutor do café no Ceará”. In Revista do Instituto do Ceará, tomo XV. Fortaleza, 1901, pp. 68-76.

SOUZA, Francisco Ésio de. “Capitão-mor José de Xerez Furna Uchoa. O homem de seu tempo (17221797)”. Revista do Instituto do Ceará, tomo CXXI. Fortaleza, 2007

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