São João da Tapera a Lagoa do Carneiro

Região do Distrito de Lagoa do Carneiro, 1969.

Esse artigo aborta a região do distrito de Lagoa do Carneiro, em Acaraú, abrangendo várias localidades, como Celsolandia, Baia e Alpargatas. Essa região guarda uma relação estreita com Bela Cruz, tendo muitos de seus habitantes, ancestrais oriundos desse município. Essa relação é bastante antiga, aparecendo já em 1890, quando da criação do distrito policial de Santa Cruz, que se estendia para o leste até o de Almofala, partindo da Lagoa dos Negros (Jornal O Libertador, 23 de setembro de 1890). Como fontes de informações, recorri principalmente aos trabalhos de divulgação dos memorialistas e pesquisadores locais, como Totó Rios, Valderi Silveira e Marcos Aurélio da Silveira. Além disso, trato das localidades de Lagoa dos Negros, Telhas e Queimadas, originalmente ocupadas por índios tremembés vindos Almofala, a partir da narrativa colhida pelo pesquisador Ronaldo Lopes.

Celsolandia

A localidade de Celsolandia, em Acaraú, localiza-se a margem da estrada que liga a sede do município a Fortaleza, passando pelo Triângulo do Marco. Sua denominação está ligada a Francisco Celso Silveira. Segundo o memorialista Totó Rios, originalmente chamada de Tapera, o novo topônimo teria sido dado pelo escritor Nicodemos Araújo em referência direta ao nome de Francisco Celso (Rios, 2017). Apesar da denominação constar nos mapas oficiais, muitos moradores locais se referem a região simplesmente como Lagoa do Canema, em referência ao corpo d'água existente nesse rio.

Sobre Francisco Celso da Silveira, sabemos que nasceu em Acaraú, a 8 de julho de 1901, filho de João da Silveira Araújo e Cristina Emília Ribeiro. Aos 25 anos, casou-se com Rita Alzira de Araújo, nascida em 6 de outubro de 1906, filha de Sabino Lopes de Araújo Costa e Beatriz Ibiapina de Araújo, em 29 de dezembro de 1926. Nicodemos nos informa que Francisco Celso atuou no ramo de panificação, pelo menos desde 1940, existindo, inclusive uma pararia chamada "Celsolandia", associada, em 1971, a Francisco Jeri da Silveira, possível descendente do patriarca (Araújo, 1940, p. 168; 1971, p. 183).

Francisco Celso e D. Rita Alzira

O casal descende diretamente diretamente do Capitão Diogo Lopes de Araújo Costa, sendo as terras de Celsolandia localizadas nos limites da antiga Fazenda Lagoa Grande, do Capitão português José de Araújo Costa, pai de Diogo Lopes. Esta situava-se ao sul da antiga Fazenda Tapera, que pertenceu originalmente ao Coronel João Vieira Passos, talvez motivando seu antigo topônimo de Celsolandia.

Ainda segundo Totó Rios, em 1902, foi construída em Celsolandia uma capela, consagrada a São João Batista, localizada às margens do Riacho Canema, braço do Rio Acaraú. A obra teria sido realizada pelo Capitão Sabino Lopes de Araújo, sogro de Francisco Celso, e seu irmão Carolino Lopes de Araújo Costa, no paroquiato de Antônio Tomaz (Rios, 2017). No Censo de 1920, Sabino consta como proprietário do lugar São João da Tapera, em provável alusão ao orago do templo, juntamente com Carolino. Consta no Anuário Estatístico do Ceará de 1924 que, nessa época, já havia uma escola na localidade de São João da Tapera, em Acaraú (Ceará, 1928, p. 143).

Além da Capela, havia também um antigo campo santo, referido pela população como Cemitério das Cruzinhas. Segundo a tradição oral, a primeira pessoa a ser enterrada nesse cemitério teria sido uma mulher desconhecida, possivelmente fugindo da seca, que teria morrido de fome aos pés de uma grande árvore de Oiticica existente no local. Foi então sepultada pelos moradores, sagrando o lugar com essa finalidade. O local caiu em desuso e até pelo menos o final de 2021, suas ruínas ainda eram visíveis, bem como o toco remanescente da antiga Oiticica (São João Batista Cesolandia, 2021).

Local da Antiga Capela de Celsolandia (por Totó Rios)

Em 1940, com a criação da Paróquia de Bela Cruz, a capela ficou ligada a mesma, sendo assistida pelo pároco Odécio Loiola Sampaio. Em novembro de 1953, o Vale do Acaraú recebeu a visita da imagem peregrina de N. S. de Fátima, vinda de Portugal. Como ato de fé, a Sra. Neide Moura construiu uma coluna comemorativa, alusiva a Virgem Maria (São João Batista Cesolandia, 2021)

Entretanto, em 1966, devido as enchentes do Rio Acaraú, toda essa região foi inundada pela água. Os moradores contam que na ocasião a imagem de São João Batista foi retirada de dentro do rio para as margens da estrada. Essa imagem, assim como outras existentes na Capela, pertenceram ao oratório do Alferes Vicente Lopes de Araújo Costa, filho do Capitão Diogo Lopes. Capitão Sabino Lopes, instituidor da capela e genro de Vicente Lopes, posteriormente doou algumas dessas imagens ao Museu Diocesano de Sobral, a pedido do vigário de Acaraú (Rios, 2011).

Assim, passada a cheia, Pe. Odécio mandou demolir o que restou da capela para que os materiais fossem aproveitados na construção de um novo prédio, mais amplo, situado em terreno mais alto, próximo a estrada de rodagem, atual BR-403. Empenharam-se nos trabalhos de construção da nova capela os senhores Epitácio Rodrigues Araújo, Manoel Gonçalves de Carvalho e Antônio Geraldir Silveira. Sua bênção solene foi realizada a 2 de agosto de 1970 (Araújo, 1985, p. 70). 

Conforme Nicodemos Araújo, o local escolhido, cerca de um quilômetro e meio ao sul da anterior, chamava-se a época arraial de Belo Horizonte, que já em 1967 encontrava-se praticamente conurbado com Celsolândia (Araújo, 1967, p. 48). Ressalta-se que no Censo de 1920, consta como proprietário de Belo Horizonte, Pedro Antônio Alves. Não encontrei maiores informações sobre ele, apenas que possivelmente era casado com Maria do Carmo Freitas.

Celsolancia, 2003

A partir de 2001, com o início do funcionamento do Projeto de Irrigação do Vale do Acaraú, houve um influxo populacional para a região, o que motivou a Diocese a criar a Área Pastoral de Celsolandia, no dia 16 de julho 2009, sendo a mesma erigida a 9 de agosto do mesmo ano, agregando as capelas de Vila Progresso, Caboclinhos e Cajueiro do Boi, pertencentes a paróquia de Acaraú, e outras nove capelas de Bela Cruz (São José, Bom Jesus, Lagoa do Carneiro, Capão, Alpargatas, Pedrinhas e Varjota), além de três comunidades pertencentes ao município de Acaraú: Telhas, Queimadas e Córrego dos Fernandes (Rios, 2017).

Segundo o memorialista Totó Rios, na ocasião, a praça da capela de Celsolândia ficou repleta de fiéis vindos das quatorze comunidades pertencentes à nova Área Pastoral e da matriz de Acaraú para receber o seu primeiro administrador. Na ocasião foi lida a ata de referência da nomeação do recpem padre João Robson Cabral para o cargo de Vigário Paroquial da Área:

“Atendendo a necessidade de nomear um Vigário Paroquial para a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição da cidade de Acaraú e Diocese de Sobral, e tendo em vista as qualidades que concorrem na pessoa do revmo. Pe. João Robson Cabral havemos por bem nomeá-lo, como, de fato, por esta nossa provisão. O nomeamos Vigário Paroquial da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição para a Área Pastoral de Celsolândia, em conformidade com o Cânon 545, do Código de Direito Canônico” (Rios, 2017).

Padre Robson permaneceu a frente da paróquia até o dia 29 de janeiro de 2017.

Taboleirinho e Macajuba*

Um pouco mais ao norte, cerca de cinco quilômetros a noroeste de Celsolandia, na margem oeste do Riacho Canema, existiu até meados do século XX uma localidade chamada Taboleirinho. Sua origem remonta a fazenda de Manoel de Araújo Costa Júnior, filho de Diogo Lopes de Araújo Costa Junior e Maria Rodrigues de Araújo. Manoel nasceu por volta de 1820 e faleceu em 28 de janeiro de 1907, como consta no seu obituário divulgado no Jornal do Ceará, de 6 de fevereiro do mesmo ano (abaixo). Assim como Francisco Celso, Manoel de Araújo era descendente direto do Capitão Diogo Lopes.

Obituário de Manoel de Araújo Costa, 1907

Em 1974, houve um inverno vigoroso na região do Vale do Acaraú e essa região foi inundada pela cheia do rio Canema, levando a migração repentina da população de Taboleirinho para as terras mais altas, do outro lado do rio, no lugar que ficou conhecido como Macajuba. Contam os antigos moradores, que antes desse deslocamento, havia na região uma casa de prostituição, cujas serventes, em número de três ou quatro, eram referidas pejorativamente como as Macajubas, alcunha que teria levado ao nome ao local.

Anos mais tarde, uma senhora identificada como D. Lurdinha, que transitava frequentemente pela estrada entre Acaraú e Itapipoca, observando o crescimento repentino do número de casas em Macajuba, nomeou a região como Vila Progresso, pelo qual a localidade também é conhecida. Ressalta-se que, de forma análoga ao caso de Celsolândia, apesar dessa denominação Vila Progresso constar nos mapas oficiais, o novo topônimo foi escolhido à revelia dos costumes e tradições das respectivas populações.

*Agradeço pelas informações fornecidas pelo colega Neto Muniz.

Baia

Na direção oposta, cerca de sete quilômetros ao sul de Celsolandia, pela BR-403, existe outra pequena localidade, de nome Baia. Ela se desenvolveu num entroncamento rodoviário da referida BR e a estrada que liga o município de Bela Cruz ao distrito de Lagoa do Carneiro. Segundo Valderi Silveira, grande conhecedor dessa região, "o local recebeu esse nome em homenagem ao Sr. José Maria Rocha, nascido em 1943, conhecido carinhosamente como Sr. Bahia, que durante mais de 50 anos manteve seu comércio nesse ponto, que também funcionava como parada da extinta empresa de ônibus Redenção" (Silveira, 2026).

Ponto de Comércio do Sr. Baia (por Valderi Silveira)

Ainda segundo Valderi, por décadas, o local teve grande movimentação de pessoas de várias comunidades vizinhas, que iam até lá para embarcar nos ônibus da Redenção com destino a Fortaleza e Itapipoca, ou simplesmente para aguardar a chegada de familiares e amigos que viajavam pela região. Essa localidade conta com uma capela dedicada a Sagrado Coração de Jesus.

Lagoa do Carneiro

Se Cesolandia é o núcleo religioso da região, a Vila de Lagoa do Carneiro representa a sede do distrito. Quanto a sua origem, segundo o pesquisador local Marcos Aurélio da Silveira, na segunda metade do século XIX um jovem morador da região, chamado Antônio Carneiro da Cunha, teria encontrado, durante uma caçada, uma lagoa, até então desconhecida. Ele teria então negociado com o dono dessas terras, não identificado por Silveira, a compra dessa propriedade. Portanto, o topônimo Lagoa do Carneiro teria sido uma alusão ao sobrenome do seu descobridor (Silveira, 2024).

Ainda segundo Marcos Aurélio, sua avó paterna, Francisca Alayde de Araújo (1911-2011), bisneta de Antônio Carneiro da Cunha, contava que ainda chegou a conhecê-lo, já muito idoso, amarrado a uma mesa. Supõe-se que, dado sua idade avançada, os familiares temiam que o mesmo se perdesse na mata, e por isso o mantinham preso. Revelou ainda que Carneiro poderia ser uma alcunha, derivado de seu temperamento opinioso, e não necessariamente um sobrenome.

Esse história é corroborada por outros depoimentos, com pequenas variações. Dizem que eram, na verdade, três caçadores, compadres entre si, que saíram para caçar nas chamadas "matas de cima". Durante a caça, perseguindo uma presa, acabaram por se distanciar demasiadamente de casa e decidiram pernoitar na mata para tentar a sorte, novamente, no dia seguinte. Durante a noite teriam ouvido o coaxar de sapos, indicando a presença de água próxima e, ao amanhecer, depararam-se com a lagoa, ao qual deram o nome de Carneiro em referência ao sobrenome que compartilhavam (Araújo, 2011).

Antônio Carneiro da Cunha, declarou, em 11 de fevereiro de 1857, possuir uma posse de terras no Araticum (Livro de Terras da Freguesia da Barra do Acaraú, 1855-1857, nº 444, fl. 72). Essa região, compreendida entre os atuais municípios de Marco e Bela Cruz, foi outrora parte do Sitio Araticum de Nicolau da Costa Peixoto. Ressalta-se que Araticum fica a cerca de oito quilômetros a oeste de Lagoa do Carneiro.

Ademais, analisando a genealogia conhecida das famílias da região, localizei um tal João Carneiro da Cunha, natural da Freguesia de Amontada, nascido a 14 de junho de 1787, filho de outro Antônio Carneiro da Cunha e de Maria do Carmo. Ressalta-se que a Lagoa do Carneiro fica há menos de oito quilômetros da divisa entre Acaraú e Itarema, que anteriormente serviu de demarcação entre as Freguesias de Acaraú e Amontada. É plausível que tenham alguma relação.

No Censo Agropecuário de 1920, constam como proprietários das terras da Lagoa do Carneiro, Raphael Arcângelo de Freitas e o Patrimônio de N. S. da Conceição. Rafael nasceu em 1865, sendo filho de Manoel Alves Pereira e Francisca Maria da Conceição. Casou-se duas vezes, a primeira com Raimunda Maria da Conceição, filha de Miguel Alves de Medeiros e Hermina Augusta Freire, e a segunda, com sua cunhada, Francisca de Assis Alves de Medeiros. Rafael descende diretamente de Pedro Serafim de Jesus, dono da Várzea Feia, vizinha a Araticum.

Quanto a propriedade atribuída a N. S. da Conceição, surge certa ambiguidade, uma vez que tanto a paróquia de Acaraú quando a de Bela Cruz servem ao mesmo orago. Entretanto, é provável que nessa época, inclusive em função da distância, a região estivesse sobre maior influência de Bela Cruz, uma vez que, quando houve a criação dessa segunda paróquia, em 29 de dezembro de 1941, a localidade ficou eclesiasticamente vinculada a mesma.

Capela de São Pedro, Lagoa do Carneiro.

Em 1937, iniciou-se a construção de uma capela no arraial de Lagoa do Carneiro, dedicada a São Pedro, iniciada por Mons. Sabino de Lima Feijão, pároco de Acaraú (Araújo, 1940, p. 210; Araújo, 1985, p. 183). Sendo esta inaugurada em 29 de junho de 1943. Sua conclusão deveu-se aos esforços do primeiro pároco de Bela Cruz, Pe. Odécio Loiola, com a colaboração dos Srs. Raimundo Rodrigues Araújo, Manoel Frutuoso Freitas, João Luiz de Farias e outros, e de D. Maria Expedita Araújo e Franciné Araújo (Araújo, 1967, p. 48).

Em 1991, Lagoa do Carneiro é elevado a categoria de distrito do Município de Acaraú por meio da Lei Municipal nº 731, de 14 de setembro, com os seguintes limites:

I - Entre o distrito de Lagoa do Carneiro e a Sede, inicia no cruzamento do Riacho Juritianha com a estrada Junco / Belo Horizonte. Daí por este Riacho a montante até a sua nascente mais ao sul de onde em reta sentido a sudeste vai a Estrada "Jumento Assado" na Estada Marco / Lagoa do Carneiro, de onde segue pela estrada Jumento Assado até o entroncamento na Estrada Lagoa do Carneiro / Oriente / Córrego do Arroz e por esta última, segue até a fronteira intermunicipal Acaraú / Itarema; II - Entre os distritos de Lagoa do Carneiro e Juritianha. Inicio no cruzamento do Riacho Juritianha com a estrada Junto / Belo Horizonte, por este para o sul até as extremas da Fazenda Junco, com as terras de João Francisco dos Santos (João Nerêncio). Seguindo em linha reta pelas estremas das Terras do Cedro com terras da Aroeira até a fronteira intermunicipal de Acaraú / Itarema

Lagoa do Carneiro, 2003.

Já a Vila de Lagoa do Carneiro possuía a seguinte delimitação: Início na casa de Antônio Neide, na estrada para Acaraú, daí reta para o campo de Futebol; deste reta ao cemitério, de onde em nova reta, vai a Lagoa do Carneiro, de onde contorna esta até a casa de Antônio Neide na estrada para Acaraú. Ademais, a Lei Municipal nº 1683, de 3 de abril de 2017, designa as ruas da vila como:

Horácio Simão de Oliveira, Paulina Soares de Sousa, Raimundo Júnior Araújo, Odécio Loiola Sampaio, Vicente Ancelmo de Paulo, João Batista da Silva, Expedito Ricardo Ferreira, José Felipe Sena de Araújo, José Dias de Sena, João Freire de Souza, Leôncio Alves de Oliveira, José Alves de Abreu, Manuel Vilmar da Silveira Filho, Rafael Arcanjo de Freitas, Geraldo Magela Silveira, Manoel Baltar da Silveira, Teófilo Lopes Araújo.

Igreja Adventista em Lagoa do Carneiro

A presença da Igreja Adventista do Sétimo Dia em Lagoa do Carneiro teve origem em 1994, a partir da conversão do comerciante Marino Silveira, na cidade de Acaraú. Após ouvir uma mensagem sobre a guarda do sábado, Marino Silveira sentiu-se tocado, e decidiu iniciar, junto a sua família, os estudos bíblicos, sob orientação Manuel Bento. Decidiram então pelo batismo, realizado ainda em 1994 pelo então presidente da Missão Costa Norte, pastor Samuel (Araújo, 2014).

Em 1996, Marino mudou-se com a família para Lagoa do Carneiro, iniciando o adventismo na localidade. Foi construído um pequeno templo no centro da comunidade, onde o pastor João Evangelista realizou cursos, entre eles programas para abandono do tabagismo e séries de estudos bíblicos. A iniciativa resultou na adesão de novos membros e culminou na inauguração de um novo templo em 15 de agosto de 1999, em cerimônia que reuniu mais de 150 pessoas e contou com a presença do pastor Isaías Cardoso, então presidente da Missão Costa Norte, responsável pela região do Ceará e Piauí.

Igreja Adventista de Lagoa do Carneiro, 1999.

Ao completar 15 anos, em agosto de 2014, a igreja registrava aproximadamente 100 pessoas batizadas e desenvolvia atividades voltadas não apenas aos membros adventistas, mas também à comunidade local, independentemente de religião. Ao longo de sua trajetória, estiveram à frente da congregação os pastores João Evangelista, Moisés José da Silva, Ezequias Sampaio de Souza, Hélio Braúna Bittencourt, Bass da Costa Lima e Vilson da Silva Vieira, então dirigente da igreja.

A Capela Abandonada de Aroeira Velha

Existe a margem da estrada que liga Lagoa do Carneiro a localidade de Aroeira Velha uma pequena capela totalmente abandonada. Sua história foi relatada por Edileuton Alves, outrora coordenador da igreja junto ao Padre Ailton Ramos da Silva, de Juritianha. Segundo Edileuton, o terreno onde foi erguida a capela, construída em 2009, foi doado por uma família, que sempre esteve a frente das decisões relativas ao templo. Mas, em 2016 houve uma mudança no conselho que administrava a capela, que teria promovido eventos, como uma procissão dedicada a Santa Rita, o que atraiu um grande número de fieis (Alves, 2024).

Capela antiga de Aroeira Velha, 2026

Vendo a necessidade de ampliar o templo, o padre teria ido consultar a D. Rita de Cássia Nascimento Alves, esposa de Damião Acácio Alves (Sr. Bião), que havia doado o terreno, sobre até onde iam os limites da propriedade. Mas, segundo Edileuton, foram informados pela mesma que o terreno se limitava a área onde a mesma foi construída, sem margem para expansões. Já D. Rita, em entrevista concedida a Valderi Silveira, afirmou que teria que consultar a família sobre o assunto (Silveira, 2024).

Então, dado o impasse e em vista da necessidade de expansão, a comunidade decidiu por construir uma nova capela, dedicada a São João Batista, e retirar da antiga tudo aquilo que havia sido comprado coletivamente. O caso foi levado ao bispo, que veio pessoalmente até Aroeira para abençoar a nova igreja. A partir de então, a antiga capela deixou de ser utilizada pela comunidade e foi fechada, passando a ser referida popularmente como "Capela da Confusão".

A Queda do Avião em Alpargatas

Um episódio curioso marcou um das localidades do distrito de Lagoa do Carneiro, em Acaraú. Segundo o memorialista belacrusense Marcos Aurélio da Silveira, em março de 1943, ainda durante a Segunda Guerra Mundial, ocorreu a queda de uma aeronave norte-americana na localidade de Alpargatas (Silveira, 2022). Com a tecnologia disponível na época, a travessia direta entre os Estados Unidos e o teatro europeu era inviável, dada a autonomia limitada das aeronaves, frente à extensão do Atlântico Norte. Assim, a alternativa encontrada foi a rota do Atlântico Sul, que aproveitava o estrangulamento oceânico entre o Nordeste brasileiro e a costa ocidental africana.

Na ocasião do acidente de Alpargatas, moradores de Bela Cruz teriam observado a aeronave sobrevoando a região em condições anormais. Segundo o testemunho, o avião produzia um ruído intenso e liberava fumaça antes de ocorrer uma explosão e a queda. Pessoas da região deslocaram-se até o local e encontraram uma cena descrita como extremamente violenta, com os corpos das vítimas gravemente fragmentados em consequência da explosão e do impacto. Uma testemunha ocular, o Sr. Manoel Miguel Sobrinho (Mané Vei), então com 92 anos, morador de Celsolandia, informou em entrevista colhida por Valderi Silveira:

"Eu fui ver esse avião caído, só a carcaça do avião, pegando fogo, e as tripas dos aviador trepadas nos pés de pau, queimando. Aí estralava uma bala e a negada correu tudo com medo. Ele levava essas balas, era um avião de guerra, mas era um avião pequeno, não era grande não. Tinha quatro pessoas, morreu todos os quatro. Esses corpos, tomaram de conta, fizeram um a borda de um chiqueiro, daí cavaram um buraco e enterraram, os corpos. Depois, com muitos dias, veio uns caras ver esse avião, pegou e cavou o buraco e levou os corpos, botou dentro do carro, só as ossadas. [Era na propriedade] do Pedro Domingos. Eles se arranchavam na propriedade do Pedro Domingos quando vinham pra ir pra lá, numa varanda. O povo que vinha buscar os restos mortais do avião. Hoje não tem mais nada, hoje é lote. Eu nasci e fui criado capinando lá, vendo o tanque do avião e hoje não acerto conhecer..." (Silveira, 2025)

Sobre os destroços, moradores da região afirmam que foram recolhidos e deixados em frente a casa do Sr. Luiz Cordeiro, sendo depois recolhidos por um caminhão. Mas vários fragmentos menores foram guardados por moradores, como relíquias do ocorrido. Um desses fragmentos, descrito como um pedaço de ferro da aeronave, posteriormente foi incorporado ao acervo de um museu local, administrado por Marcos Aurério.

Fragmento do avião de Alpargatas (por Valderi Silveira) 

O índice dos relatórios de acidente da United States Army Air Forces relativos a ocorrências no exterior registra, sob a data de 3 de março de 1943, a perda de um Douglas A-20B Havoc, número de série 41-2794, tendo como piloto Franklin James Byrd, no Brasil, em localidade grafada como "Agarau" — corruptela evidente de Acaraú (AAIR, 2026). Tratava-se de um exemplar alocado à Força Aérea Soviética no âmbito do programa Lend-Lease, jamais entregue (Warbirds Resource Group, 2026). O A-20B 41-2794 seguia em voo de translado pela chamada rota do Atlântico Sul, itinerário que partia de Miami e alcançava o Golfo Pérsico passando por Belém e Natal. Esse último trecho acompanhava a linha de costa e passava exatamente sobre o Baixo Acaraú, o que explica a presença da aeronave a poucos quilômetros do litoral.

Lagoa dos Negros

A localidade de Lagoa dos Negros situa-se cerca de nove quilômetros a sudeste da Vila de Lagoa do Carneiro, na divisa com Itarema, e tem sua ocupação ligada ao deslocamentos dos índios Tremembé, vindos de Almofala. Antônio Félix, um dos anciãos da comunidade resume assim essa história: Minha família, do meu pai, do meu avô, do meu bisavô eles vieram de Almofala. Quando foi em 1888 foi uma seca muito horrorosa. Ai eles destacaram de lá pelos matos, caçando raiz de pau para comer, saíram lá da Almofala aí encostaram na Lagoa dos Negros (Patrício, 2010, p. 27). Teriam partido da localidade de Gerais, na grande Almofala.

Além da severa estiagem de 1888-1889, comumente rememorada como seca dos três oito, certamente colaborou para a dispersão dos Tremembés de Almofala o posterior deslocamento das dunas que culminaram como o soterramento da vila na última década do século XIX, como relata Pe. Antônio Tomás:

Seguindo o mesmo teor da vida, já por ali haviam passado sucessivamente muitas gerações desde as remotas eras do seu povoamento até a última década do século passado, quando sobreveio a catastrophe que, destruindo a aldêa, fez fugir os seus últimos moradores para longinquas paragens, à cata de novos abrigos, como um bando de passaros bravios aos quaes houvessem desmantellado os ninhos (Ramos, 1981, p. 139).

Como vimos no início desse texto, o topônimo Lagoa dos Negros já era corrente em 1890, quando foi utilizando como demarcador do distrito policial de Santa Cruz.

Ademais, segundo a tradição oral, no final do século XIX, o velho João Cosmo, pajé dos tremembés a época, teria executado um "trabalho", que permitiu, não apenas a localização da Lagoa dos Negros, mas o seu desencantamento, possibilitando que a mesma fosse ocupada pelos novos moradores (Lopes, 2014, p. 51). João Cosmo tornou-se uma figura mítica entre os moradores dessa localidades, deixando, inclusive grande descendência.

Esse "trabalho" é descrito por Elias Carneiro do Nascimento, morador da Lagoa dos Negros e neto de uma das discípulas de João Cosmo:

Elias – a minha avó, essa que era discípula dele, contava pra nós que na Almofala ele invocou-se e disse que tinha essa lagoa aqui. Então eles juntaram um povo, a minha avó sendo discípula dele e essas Camilo, quer dizer, elas eram discípulas porque ele trabalhava e elas trabalhavam também, nessas prece que trabalha, baixa caboclo e ele sendo pajé como era. Aí tentaram descobrir a lagoa e juntaram um bocado de gente. Vamos supor, aqui fazia um terreiro, fazia um terreiro e ele botava a mesinha dele ali e fazia o trabalho dele ali. Então, tinha um mestre balizador, ta entendendo? Aquele mestre balizador chegava e apontava; apontava o canto pra onde era. Aí quando terminava o serviço de noite, bem cedo os homem metia a foice no mato abrindo travessão. Trabalhavam o dia todim; era uns trabalhando e outros buscando munição pra comerem, se alimentarem. Trabalhava o dia todim. Quando terminava o dia, ali fazia outro terreiro e ia trabalhar de novo. Aí quando este caboco chegava aí balizava. Quando amanhecia o dia os homens metia a foice no mato que tinha balizado, até chegarem aqui (Elias Carneiro, Lagoa dos Negros, 03/01/2014 apud Lopes, 2014, p. 52).

Segundo Ronaldo Lopes, no universo simbólico-religioso dos Tremembé, a manipulação de certos elementos da natureza se dá por intermédio dos "encantados", entidades sobrenaturais que auxiliam os índios de diversos modos. Entretanto, somente os iniciados na ciência do índio podem vê-los e se comunicar com eles. Sobre o topônimo Lagoa dos Negros, a moradora Rita França esclarece "aqui de primeiro só morava nêgo e aí era só os nêgo mesmo! Era os... sem terra, sem morada, era tudo era casinha de palha [...] tudo tinha suas casinha, mas era tudo assim" (Lopes, 2014, p. 74). É possível que essa população negra que se aglomerou nessa região seja remanescente de escravizados, que na época da descoberta da lagoa seriam recém libertos. É provável que, na visão dos brancos, não existisse grande distinção social entre negros e indígenas, sendo referidos como um único grupo, mais marginalizado.

Em 1920, houve um conflito do grupo estabelecido em Lagoa dos Negros e o fazendeiro Doca Sales, de Acaraú. De acordo com Patrício (2010), Sales teria comprado uma primeira parte da Lagoa dos Negros diretamente dos indígenas, usando como moeda de troca farinha, fumo, café em caroço, rapadura, tecidos entre outros itens de primeira necessidade. Em seguida teria proposto as famílias a instalação de currais de gado no local, que seria cuidado pelas mesmas. Entretanto, visando expulsá-los, Sales teria soltado o gado, que invadiu os roçados dos moradores, forçando-os a deixar o local. O processo de expulsão foi completado pouco tempo depois, com a chegada de Manoel Gomes Sales, conhecido como Déo Sales, filho de Doca.

Como explica Ronaldo Lopes, a saída da Lagoa dos Negros leva a divisão dos grupos familiares entre diversas localidades próximas:

O primeiro se deslocam para Gameleira, um lugarejo próximo a Lagoa dos Negros e que pouco tempo depois foi tomado por Déo Sales, que os obrigou a partir novamente. Da Gameleira um grupo se destaca alguns poucos quilômetros a oeste, fixando-se em Pedrinhas. Esta área tinha aproximadamente uma légua em quadra e fora dividida em sete pedaços referentes a sete grupos da família Carneiro. Um segundo grupo ocupa uma pequena área de 400 braças ao norte de Pedrinhas e denominam de Córrego dos Fernandes. Destes, algumas famílias avançam e se fixam em Aroeira. O terceiro grupo, se desloca para Queimadas, enquanto o pajé João Cosmo foi para o Córrego da Onça, pequena localidade encravada entre Pedrinhas, Telhas e Queimadas, de lá saindo apenas para o Lameirão, em Almofala (Lopes, 2014, p. 59).

Em Lagoa dos Negros funcionou a fazenda até a década de 1990, quando entra em decadência e seu último proprietário, Joaci Pinto da Cunha, vende para o INCRA. Em 1997, após uma ocupação pelos descendentes dos tremembés e outras pessoas da região, a Lagoa dos Negros foi desapropriada e transformada em Projeto de Assentamento – PA. Inicialmente projetado para abrigar 92 famílias, em 2014, o assentamento possuía 79 famílias. Mais de 90% dos assentados vieram de Pedrinhas e Córrego dos Fernandes.

Telhas

Cerca de cinco quilômetros a sudoeste da Lagoa dos Negros está a localidade de telhas, uma das que recebeu os indígenas expulsos no primeiro assentamento Tremembé.  Os dois ramos familiares que se fundiram para formar essa comunidade derivam das famílias de Manoel Rufino dos Reis, vindo de Almofala, e, posteriormente, Luis Paulo do Nascimento, que ficou mais conhecido como Luis Sabino, vindo da Lagoa dos Negros. Os dois ramos se juntam quando Manoel Rufino oferece sua filha para casar com Luis Sabino "para que os dois ficassem governando a terra em Telhas". Desta união, constitui-se a linhagem das famílias que até hoje ocupam o local, os Nascimento. A terra que ocuparam media 1.200 braças de frente por meia légua de fundo (Silva, 1999).

Luis Sabino e Antônia Maria do Nascimento.

Como explica Ronaldo Lopes, logo após a chegada de Sabino, é a vez de seu primo Francisco Chicute, filho de João Cosmo, se juntar à nascente comunidade familiar ao casar-se com Benvinda, irmã da esposa de Luis Sabino. Portanto, os dois primos casam-se com duas irmãs. Como Chicute também morou no Córrego dos Fernandes, deixando descendência neste lugar, este segmento familiar de Telhas faz parte de uma unidade maior denominada "Os Chicute", cujas ramificações, além dos dois lugares citados, se estendem á Lagoa dos Negros, onde mora um de seus netos.

A origem dos conflitos que sucederam a uma série de negociações tem início com a chegada de dois irmãos, Manoel Antônio e Manoel Joaquim Pereira, oriundos do município de Bela Cruz, que pedem "um pontinho para colocar do gado" (Silva, 1999, p. 51). Com a permissão de Rufino, os dois irmãos e suas respectivas famílias vão gradativamente se estabelecendo no local e fazendo benfeitorias. Em 1938, José Vicente, sogro de Manoel Joaquim Pereira, vende as benfeitorias (a cacimba e alguns pés de cajueiro) para José Jorge de Vasconcelos. Este último era genro de Manoel Antônio.

No mesmo ano, comprador e vendedor vão ao cartório oficializar a negociação, juntamente com Luis Sabino, que após a morte de seu sogro se constitui como proprietário da terra de Telhas. As 1.200 braças são então divididas em duas partes, tendo como marco o leito do Córrego das Telhas. Luis Sabino e sua família ficam na parte de cima do córrego, cabendo a José Jorge a parte de baixo. Alguns anos mais tarde, José Jorge, ao vender as terras para o Pe. Odécio Loiola, pároco de Bela Cruz, contesta a divisa de 1938, afirmando que, ao invés do rio, a estrada delimitaria a fronteira entre os terrenos.

Luis Sabino teria aceitado abrir mão de 200 braças em respeito à posição religiosa do padre. Mas, segundo o relato de seus descendentes, entre 1938 e a década de 1950, o Padre tenta se apropriar do restante da terra, exigindo que Luis Sabino pague renda pelo usufruto da terra. Sabino resistiu e se negou a pagar renda e, após várias viagens à pé para a capital do estado, consegue, finalmente, o registro das 500 braças de terra em 1955 no Cartório do 2º Ofício de Acaraú.

A partir de 1985, as terras da comunidade de Telhas voltaram a ser alvo do interesse de fazendeiros e comerciantes, desencadeando novos conflitos fundiários marcados por violência e opressão. Em 1986, o comerciante e tabelião de Acaraú Francisco Felipe da Rocha, o “Sassico”, alegou ter comprado as 500 braças de terra ocupadas pelas famílias e, valendo-se de sua influência cartorial, promoveu ações judiciais para obter a posse, embora os moradores afirmassem possuir documento de 1955. Após decisões desfavoráveis na Justiça de Acaraú, ocorreram duas incursões violentas contra a comunidade, envolvendo policiais militares e familiares de Sassico, com prisões, agressões, destruição de casas e a morte posterior da esposa de uma das lideranças em decorrência das agressões sofridas.

As famílias, contudo, permaneceram na terra e receberam lonas do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Acaraú, que constituiu uma das poucas instituições a apoiá-las naquele período. Posteriormente, Sassico vendeu a propriedade ao fazendeiro de Marco Francisco Assis de Souza, o “Chico Jovino”, que restringiu os moradores a 100 braças e passou a cobrar renda pelo cultivo nas demais áreas, além de apropriar-se dos mais de 400 cajueiros existentes. Durante a década de 1990, a cobrança de renda, as ameaças e o controle sobre a produção agrícola intensificaram a exploração dos moradores, contribuindo para o surgimento da luta pela retomada da terra e pelo reconhecimento da comunidade como indígena Tremembé.

Queimadas

Queimadas é outra localidade originada através dos Tremembés que habitavam a Lagoa dos Negros. A família do Sr. Manoel Ferreira do Nascimento teria sido a última a deixar a região, após serem expulsos por Doca Sales, que mobilizou a polícia de Acaraú para expulsá-los. O episódio é narrado pelo Sr. Cecídio Ferreira do Nascimento, então com 86 anos:

"... vimo a polícia chegando dois soldados, um sargento e ele Doca Sales , veio chegou, nesse tempo quem sabia o que era polícia, ninguém sabia. Ai o que ele faz, os outros quando viram a polícia correu gente pra tudo quanto é lado. Eram muitos tudo tinha filhos, já filho grande, espirrô todo mundo e o papai com onze filhos como é que iam me carregar, eu ainda estava nos cueiros e minha mãe contava tudo pra gente. Tínhamos uma roça grande, o milho já bonecando, contando o que ele faz, o meu pai suspendeu a cabeça e foi e disse: é seu Doca Sales uma andorinha só não faz verão, os outros tudo correram e eu não posso correr, porque se eles tivessem tudo aqui cada qual tinha dado uma opinião e todo mundo podia ter ficado. Mas ele ficou sozinho com onze filhos ia fazer o quê? Se cobrindo com um cesto? E disse ainda meu pai: só tenho uma palavra pro senhor, o senhor é rico e pode pagar a polícia pra por nós pra fora, mas saiba disso a terra não é sua, se fosse sua o senhor tinha executado nela, como nós achamos esse rio, a lagoa que bota os bichos pra dentro, o suor que derramei pra dar de comer pros meus filhos, se o bicho comeu o que é meu, ele lhe come também, ai ele baixou a cabeça e foi embora" (Patrício, 2010, p. 28)

Concretizada a saída das famílias, em número de sete, da Lagoa dos Negros, se inicia um percurso até chegarem a Queimadas. Antes passaram curtos períodos de tempo em Gameleira e Pedrinhas, relativamente próximas a Queimadas. Esses dois lugares, além do Córrego dos Fernandes e Aroeira, abrigavam os primeiros grupos que haviam deixado a Lagoa dos Negros, iniciando o segundo período das dispersões. Alguns grupos, inclusive, permaneceram nessas localidades citadas, consolidando sua ocupação.

Após percorrerem um trajeto não muito distante, os Tremembé se fixam num local onde presenciaram uma grande queimada, de causas desconhecidas, que segundo eles, findou apenas na ribeira do rio Acaraú e devastou toda a vegetação existente. Incidente acabou com os recursos naturais disponíveis, dificultando, inclusive a construção de habitações, por não haver materiais disponíveis. Contam que um morador das redondezas chamado Antônio Frutuoso, proprietário de um carnaubal na ribeira do Marco, permitiu que retirassem palhas para construir seus casebres. Esses eventos teriam ocorrido por volta de 1927. Os mais velhos não esclarecem o motivo de seus pais e avós terem decidido se fixar num local tão inóspito, levando em consideração que nas Telhas, por exemplo, onde tinham parentes, o fogo parece não ter chegado.

Nesta época, o grupo era conhecido como Os Camilo, em referência aos irmãos Rita, Teresa, França, Joana, Lió e Silivino Camilo, a maioria com seus respectivos cônjuges. As gerações que vivem em Queimadas descendem predominantemente de Rita Camilo e Chico Barba. É desta união que nascerá os três principais troncos familiares. Das cinco filhas, Maria da Conceição casou-se com Manoel Ferreira do Nascimento, dando início ao núcleo dos Custoso; Maria dos Anjos e seu esposo Félix Francisco dos Santos formam o núcleo dos Félix. Com a morte de Maria dos Anjos, sua irmã Paulina assume a criação de seus filhos e passa a ser a matriarca desta família. Por fim, Maria Carneiro casa-se com João Carneiro daí surgindo o núcleo dos Carneiro. Rosa Condorosa, a outra filha, casa-se com Chico Condorosa, mas não permanece em Queimadas, partindo para a Pindoba, vizinho a Aroeira. Antonio Mariano, um dos sete, regressa com sua família para Almofala (Lopes, 2014, p. 112).

Na década de 1940, com a morte dos três principais chefes de família que chegaram à Fundação de Queimadas, as três viúvas assumem a responsabilidade de conduzir o controle da terra, além de suas respectivas famílias. Maria Conceição, Maria Carneiro e Maria Paulina do Nascimento foram as responsáveis por definirem a organização das unidades domésticas e, posteriormente, a divisão sócio-espacial da terra. Com a ajuda de duas pessoas identificadas por Napoleão e João Bião, do Acaraú, as três matriarcas conseguem a “Escritura Pública de convenção de limites de uma posse de terras no lugar Queimadas”, emitida pelo Cartório de Acaraú em 15 de julho de 1957:

“[...] domiciliadas e residentes no lugar, Baixa dos Carneiros ou Queimadas, desta Comarca pelas outorgantes reciprocamente outorgadas me foi simultaneamente dito o seguinte: (...) que desde o ano de 1927 se apossaram primitivamente e vem ocupando mansa e pacificamente, sem interrupção de uma faixa de terra de criar e plantar, no lugar já reconhecido por Queimadas desta Comarca, que então tinha as seguintes confrontações, ao Nascente com a antiga estrada carroçável Acaraú-Fortaleza; ao Poente com a posse de Antonio Monteiro da Costa, hoje de Romuldo de tal; ao Norte, com terra de Manoel Duca da Silveira, hoje de José Gutemberg Rios, e ao Sul com terra de José Emiliano de Freitas em cuja faísca de terra desde aquela época fincaram suas moradias em casas de taipa, coberta de telhas, abriram cacimbas, e, anualmente vem plantando roçados e fazendo outras culturas, praticando enfim, todos os demais atos inerentes a qualidade de legítimos donos da terra mencionada [...]. 2˚Tabelião Francisco Felipe Rocha" (Patrício, 2010, p. 38-39).

Com os estudos para a instalação do perímetro irrigado do Baixo Acaraú, iniciado em 1983 pelo DNOCS, inicia-se um conflito entre a comunidade de Queimadas e o governo pela posse das terras. De acordo com as lideranças da época, o discurso dos técnicos do DNOCS inicialmente era o de as famílias não seriam removidas. Algum tempo depois o discurso muda e os técnicos passam a argumentar que as famílias seriam indenizadas. Doze famílias receberam uma pequena quantia, segundo dizem, como sinal de que elas não seriam removidas do local. Entretanto, oficialmente isso implicou na venda das terras para a união.

A partir daí, a implantação do perímetro irrigado avançou sobre as terras de Queimadas, especialmente entre 2001 e 2003, com a abertura de estradas, desmatamentos e instalação da infraestrutura hidráulica, reduzindo significativamente a área ocupada pelas famílias. Diante da ameaça de perda do território, as 17 famílias que viviam na comunidade buscaram apoio da Missão Tremembé, da FUNAI e de outras instituições, passando a reivindicar o reconhecimento de sua identidade indígena. Essa mobilização foi influenciada pelas experiências de comunidades Tremembé vizinhas, especialmente Córrego João Pereira, Telhas e Capim Açu, que já articulavam suas demandas territoriais com base no reconhecimento étnico. Em 2003, uma ordem de despejo determinou a retirada das famílias em apenas 72 horas, mas a mobilização de missionários, indígenas, FUNAI, Ministério Público Federal e imprensa conseguiu suspender a ação e, posteriormente, as obras.

Diego Carneiro
05 de setembro de 2026

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. São João da Tapera a Lagoa do Carneiro. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 05 de setembro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/09/sao-joao-da-tapera-lagoa-do-carneiro.html

Referências:

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LOPES, Ronaldo Santiago. “A cultura de índio, seu menino, vem de longe aqui”: formação histórica e territorialização dos Tremembé/CE. 2014. 189 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2014.

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De Juritianha à Água das Velhas

Este artigo tem por objetivo trazer elementos sobre a história da região de Juritianha, em Acaraú, e Itarema. Para tanto, utilizei desde fontes primárias documentais, em particular, no que se refere ao processo de ocupação colonial, mas também da memória oral contida na fundamentação do plebiscito de emancipação do distrito de Juritianha (Ceará, 2010) e do memorialista José de Fátima Silva, além de blogs da região.

A Região de Água das Velhas

A ocupação colonial das terras do atual distrito de Juritianha remonta à concessão feita ao Pe. Felipe Pais Barreto e Maria da Costa, realizada a 12 de março de 1725, conhecida como "Data da Juritianha". O topônimo, juriti = uma espécie de pombo + anga = ajuntamento, pode significar algo como abrigo ou ajuntamento de juritis. Na petição, o sacerdote explica que:

Diz o Pe. Phelipe Pais Barretto e Maria da Costa que elles alcançaram húas datas de terras nas agoas das Velhas e dellas tirou o Dezembargador Christovão Soares Reimão húa Legoa de terra p.º a missam do tapuya Tramanbe, em reconpença dar outra aonde a ouvesse, e p.º hisso pede as Ilhargas da Yurihanga [Juritianha] e testadas e sobras das suas datas, pera nellas prantarem suas prantas e lavouras, e pagarem dizimo a sua Magestade que Deos guarde. Por tanto pedem a vossa merce seja servido conçederlhe a Legoa de terra e duas mais de comprido, e húa de largo meya p.* cada banda, e reçeber a merce (Sesmarias, Vol. 11, nº 132, p. 208).

A sesmaria da Água das Velhas a qual se refere Barreto, foi obtida quase 20 anos antes, em 12 de setembro de 1706, medindo uma légua no rio Aracati-mirim [Acaracu-mirim], com meia para cada lado, juntamente com o Capitão Pedro de Mendonça e demais companheiros (Sesmarias, Vol. 3, nº 154, p. 49). Nesse contexto, "Água das Velhas" se refere ao lagamar ao norte do atual município de Itarema, assim como a região de Almofala, entre o referido lagamar e o Rio Aracati-mirim. Para fins de localização, é importante destacar que o referido rio desembocava bem mais a oeste do que sua posição atual, tendo seu curso alterado pelas dunas que, séculos depois, soterraram essa localidade.

Em 1709, o Desembargador Cristóvão Soares Reimão realizou o tombamento das sesmarias concedidas no Ceará, revertendo as concessões que não tivessem sido ocupadas dentro do prazo legal de cinco anos (Araújo, 2005, p. 91). Durante esse processo, o desembargador também demarcou as terras da missão do Aracati-mirim, em atendimento a lei régia de 23 de novembro de 1700, que concedeu a cada missão um légua de terra em quadro, desde que fosse composta de ao menos cem casais (Studart, 2001, p. 126). Para tanto, confiscou as terras de Pe. Felipe, que, como compensação, pediu novas terras na Juritianha.

Na mesma região, foi concedida em 30 de setembro de 1735 uma sesmaria de seis léguas de terras ao Coronel José Bernardo Uchoa e Manoel da Guarda Monteiro. O peticionantes alegam que:

... na agoa das Velhas nas Ilhargas do Padre Philippe Paiz Barretto, se acham terras devolutas e dezaproveitadas athe o prezente e, caso fossem pedidas por alguma Pessoa, e nam tem sido cituadas e juntamente as querem haver por prescripção, concedendolhes vossa mercê em nome de Sua Magestade as ditas Sobras com seis Legoas de Comprido pellas Ilhargas do dito Padre, tres pera cada um, e huma de largo, portanto (Sesmarias, Vol. 13, nº 7, p. 16).

Para a historiadora Leiliane Magalhães, essa sesmaria corresponderia a porção não ocupada por Maria da Costa, companheira de terras do Pe. Felipe Barreto. Destaca-se que não é clara a relação entre Maria da Costa e o sacerdote, mas eles pediram ao menos outras três sesmarias juntos. Sabe-se porém que ela era casada com Gabriel Barbosa Mendes, que fora vereador da Vila de São José de Ribamar em 1704 (Magalhães, 2023, p. 128-129).

O Porto de Itapagé

A atual fronteira entre os municípios de Acaraú, na região do distrito de Juritianha, e Itarema foi herdada da divisão do antigo Curato do Acaraú, em 1757. Nesse processo, foram criadas as freguesias de Caiçara e de Amontada, que juntas vieram a constituir o termo da Vila de Sobral, criada em 1773. Conforme D. José Tupinambá da Frota, o limite entre essas duas freguesias era dado pela chamada "picada do Itapagé", com 34 léguas (~224 km) de comprimento (Frota, 1974, p. 62). Em 12 de novembro de 1766, foi criada a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Almofala, desmembrada da Freguesia de Amontada, como pode ser visto no Mapa Geográfico da Capitania do Ceará, de 1800 (abaixo).

Recorte do Mapa Geográfico da Capitania do Ceará, 1800.

O extremo norte dessa picada era conhecida como ponta de Itapajé, existindo nessa região um porto, pelo menos desde 1762, quando, segundo Geraldo Nobre, por edital de 10 de setembro, o capitão-mor João Batista de Quevedo Homem de Magalhães instituiu os distritos para a defesa dos portos, um dos quais “... do Aracatiassu acima até o rio Jaybaras, no porto de Itapagé, comandante o Capitão de Auxiliares Inácio João Coimbra...” (Nobre, 1977, p. 151). Sabe-se que residia no referido porto, Leonardo Correia de Sá, cujo inventário foi feito no dia 1 3 de novembro de 1735, tendo como louvados Manoel Vaz Carrasco e Antônio Paes Barreto (Araújo, 2005, p. 156). Era irmão do Tenente João de Sá, tratado em outra postagem.

Não existe um consenso sobre a localização exata desse porto, situando-o a historiadora Luciara de Aragão Frota na chamada enseada dos Patos, na margem oriental do Aracati-mirim, o que é contestado por Geraldo Nobre, citando Álvaro Gurgel, que localiza o porto no litoral de Itarema (Frota, 1974, XXX; Nobre, 1977, p. 152). Particularmente, acredito tratar-se da atual localidade de Porto dos Barcos, em Itarema, localização compatível com as descrições e convenientemente próxima a antiga Missão do Aracati-mirim, em Almofala, a qual esteve certamente ligado.

Essa opinião é compartilhada pelo geógrafo Francisco de Assis Bezerra Filho, baseado nas características fisiográficas do porto e na própria tradição local. Conforme o pesquisador:

"Este local [Porto dos Barcos], segundo moradores e pescadores nativos, é de uma ocupação histórica que já consta seu tricentenário [...], pois de acordo com os relatos orais dos nativos do período histórico retratado (transmitido para as gerações atuais), a área foi considerada “um local da baía mais fundo” estando regulamentada pela influência das marés. No qual essa localidade podia receber embarcações de médio a grande porte (para aquela época da inicial ocupação/exploração europeia) nos momentos de marés cheias. O recebimento deste nome data do início da construção da igreja de Nossa Senhora da Conceição de Almofala dos Tremembés". (Bezerra-Filho, 2017, p. 56).

Embora não se possa levar ao pé da letra a opinião dos moradores, é um indício indireto da longevidade do porto. A menção mais antiga que encontrei ao Porto dos Barcos foi feita por Thomaz Pompeo de Sousa Brasil, no Ensaio Estatístico da Província do Ceará, de 1863, onde trata da relação de portos da freguesia do Acaraú (De Sousa Brasil, 1863, p. 38).

Ademais, no manuscrito "Idea da população da capitania de Pernambuco", do Governador José Cezar de Menezes, consta que na década de 1770 havia apenas três portos na Ribeira do Acaraú, sendo um deles o de Camocim e os demais, deduz-se, Oficinas, em Acaraú e Itapagé. Nesse mesmo documento, o governador descreva o limite entre as freguesias de Sobral e Amontada como sendo a "barra" do Itapagé (fl. 17). No dicionário Dicionário da Língua Brasileira, publicado em 1832, consta no verbete barra a seguinte definição: "Entrada de um bom porto de mar com terra de hum, e outro lado" (Pinto, 1832).

Isso corresponde precisamente a descrição geográfica da região de Porto dos Barcos, em Itarema. Corrobora ainda com isso, a Carta topographica da Capitania do Seará, de 1812, onde o porto de Itapagé aparece ligado ao Lagamar da Água das Velhas (abaixo). 

Carta topographica da Capitania do Seará, 1812.

A Capela de Santa Cruz da Água das Velhas

Consta na relação das primeiras capelas do curado do Acaraú, uma cuja localização original é, até então, ignorada, referida como Capela de Santa Cruz da Água das Velhas. O registro mais antigo que a menciona foi um batizado realizado por Pe. Felipe, em 13 de janeiro de 1726. A criança, de nome João, era filha de Nicolau da Costa Peixoto e Paula de Sá, sesmeiros de Bela Cruz, sendo padrinhos o Ajudante Antônio de Sousa e Serafina da Silva (Liv. a, fl. 2v apud Araújo, 2005). Entretanto, nessa época, a capela deveria existir apenas de forma rudimentar e improvisada, visto que quatro anos depois, a 3 de agosto de 1730, a Fazenda Água das Velhas recebeu a visita de Pe. Isidoro Rodrigues Resplandes, cura da Ribeira do Acaraú, que registrou a existência de uma capela ainda em construção (Araújo, 2005, p. 128).

Nessa ocasião, Resplandes batizou duas crianças: José, filho de José Ferreira e Andresa da Costa e Manoel, filho de Pedro Álvares e Joana Pereira. Os padrinhos de ambas as crianças foram o Capitão Domingos de Aguiar e Oliveira e sua irmã, Maria Madalena, mulher do Cap. Manoel Vaz Carrasco (Cfr. Liv. 1, fl. 17 apud Araújo, 2005). Tanto Domingos de Aguiar quanto Manoel Vaz Carrasco foram proprietários de terras no atual município de Bela Cruz, onde o primeiro foi o instituidor, juntamente com Nicolau da Costa Peixoto, do patrimônio de outra Capela de Santa Cruz (de Bela Cruz), em 1732.

Sobre sua origem, consta no pedido de sesmaria de José de Barros, concedida a 14 de novembro de 1744, a seguinte descrição:

Diz José de Barros Barreto, morador na Ribeira do Aracati-mirim, sítio da Água das Velhas desta Capitania, como ... do defunto Reverendo Padre Estevão Pais Barreto e administrador da Capela de Santa Cruz, situada no mesmo lugar, instituída pelo Reverendo Padre Estevão Pais Barreto, já defunto, que este, em sua vida, era senhor possuidor de três léguas na dita Ribeira, por compra que fez ao primeiro donatário delas, Jacinto da Costa, pela data que oferece, e delas fez venda de uma légua e, para melhor dizer, a doação a um seu neto chamado Manoel Lopes Lima, que passou a Ignácio João Coimbra, e este, depois, fazendo testamento com que faleceu, deixou outra légua chamada a Pedrinha de Nossa Senhora do Desterro de Roma, e terceira légua a deixou à sua capela instituída de Santa Cruz, a qual légua é a que chamam o Castelo (Sesmarias, Vol. 14, nº 220, p. 240).

Esses terras foram obtidas originalmente por Jacinto da Costa, em 15 de janeiro de 1707 (Sesmarias, Vol. 4, nº 197, p. 20). O trecho evidencia que a dita capela foi instituída pelo Padre Estevão Pais Barreto, muito provavelmente parente de Felipe Pais Barreto, sendo esses sobrenomes ligados a elite açucareira de Pernambuco. Já José de Barros Barreto aparece como possível herdeiro de Estevão, também coincidindo o último sobrenome.

Sobre José, sabe-se que é natural do Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco. Viveu com Margarida de Souza, solteira, índia, nascida na Vila de Viçosa do Ceará, com quem teve João Félix Nepomuceno c.c. Josefa Gomes, filha de Manoel Gomes de Oliveira, n. Ceará, e de Maria Gonçalves, n. Almofala (Lima, 2016, p. 1748). Com com Joana Maria, de Almofala, teve Gonçalo Paes Barreto, c.c. Isabel Dias Leitão, filha de Diogo Verçosa Leitão e Cosma Figueira Linhares em 13 de abri de 1768. Foi eleito vereador da Câmara de Fortaleza em eleição realizada a 26 de julho de 1752 (Studart, 2001, p. 257). Também aparece como Capitão do Regimento de Cavalaria da Ribeira do Acaraú em 01 de julho de 1760 (Gomes, 2009, p. 289).

Em 17 de janeiro de 1750 assistia na Capela de Água das Velhas, Pe. Félix Azevedo de Farias, então com 60 anos, quando atuou como testemunha contra Pe. Vicente Dantas, do Trairi, por quebra do sigilo de confissão (Teixeira, 2025, p. 125). Sabe-se também que com a provisão episcopal de 30 de agosto 1757, que levou ao desmembramento do Curato do Acaraú, ela ficou vinculada a Freguesia de Amontada, existindo registros de cerimônias sendo realizadas na mesma até pelo menos 1782 (Lima, 2016, p. 1215).

Em levantamento realizado pela Câmara de Sobral em 1788, João Félix de Nepomuceno declarou ser proprietário da Fazenda Água das Velhas, medindo "meia quarta de terra de comprido com a mesma largura do dito sítio que principia com terras de Manoel Gomes da Silva [ou de Oliveira, seu sogro] e finda com terras do Patrimônio da Capela de Santa Cruz [da Água das Velhas]" (Frota, 1974, p. 282). No mesmo levantamento, o citado Manoel Gomes também se declarou proprietário do Sítio Água das Velhas, medindo três quartos de légua de comprido com meia légua de largura entre as terras de João Félix e de Joaquim Gomes Diniz (ibidem, p. 294).

A Família Martins

Segundo Nicodemos Araújo:

Em o sítio Riacho, parte da sesmaria do Padre Felipe, se localizou o proprietário Joaquim Martins dos Santos, filho de Caetano Martins dos Santos, genitor da família Martins, que ainda perdura entre nós. Era ele descendente do colono português Manoel Martins dos Santos, domiciliado em Mundaú, que, há mais de dois séculos, adquiria entre nós as terras denominadas Córrego do Fernando.

Em Riacho se erigiu uma capela, precisamente na parte de terra hoje pertencente aos herdeiros de Miguel Martins dos Santos e outros. Por isso mesmo se denominava aquela concessão Terras da Capela — ou, ainda, Terras do Encapelado — do Riacho d’Água das Velhas e Itapagé (Araújo,1940, p. III).

Ainda conforme Araújo, essa capela teria sido erguida no século XIX pelo próprio Miguel Martins dos Santos, "a qual, alguns decênios depois, desapareceu na voragem do tempo" (Araújo, 1971, p. 328). Em consulta a moradores da região, fui informado de que "terras da capela" era uma denominação antiga de Itarema, que ainda hoje possui bairros chamados Riacho e Água das Velhas. Teria esse templo ocupado o lugar da primitiva Capela de Água das Velhas? Infelizmente, não temos elementos suficientes para julgar essa hipótese. Mas essa opinião parece ser corroborada pelo memorialista local José de Fátima Silva.

Para José de Fátima, a capela primitiva da Água das Velhas teria sido concluída em 1732, sendo a primeira missa realizada pelo próprio Pe. Felipe Pais Barreto, em 17 de fevereiro de 1735. Teria sido dedicada a São Julião da Laje, sendo a imagem do orago trazida de Portugal pela esposa de Miguel Joaquim Martins dos Santos, a quem atribui a construção da mesma. Joaquim seria vaqueiro da fazenda da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Almofala, sendo o local onde habitou correspondente ao atual bairro do Riacho (antigo bairro da Fazenda). Ainda segundo Silva, em 1798 a capela original deteriorou-se, coincidindo com o período em que parte da família Martins se transferiu para Acaraú e para a localidade de Olhos d'Água. A imagem de São Julião desapareceu nesse processo e não foi recuperada (Silva, 2023, p. 4).

Em que pese a alegação do respeitável pesquisador, acredito que houve uma confusão quanto a genealogia da família Martins. O primeiro desta a vir para o Ceará foi o já mencionado Caetano Martins dos Santos, natural de Lisboa, e morador do Siupé, onde faleceu com um tiro de espingarda a 5 de novembro de 1751, mesmo ano em que foi reeleito vereador da Câmara de Fortaleza. Ele casou-se com Domingas Marques da Costa, filha de Antônio Marques Leitão e de Apolônia da Costa, donos da Fazenda Caiçara, futura Sobral (Lima 2016, p. 499).

Esse casal foi pai do Capitão Manoel Martins dos Santos, que, a 23 de novembro de 1775, casou-se no Trairi com Ana do Sacramento, filha do Tenente Tomé de Souza Machado e de Ana Maria do Sacramento, ambos pernambucanos. Esses foram pais de Caetano Martins do Santos (Neto), e este, por sua vez, dos ditos Joaquim Martins dos Santos e Miguel Martins dos Santos.

Portanto, se a família Martins foi mesmo a responsável pela construção da primitiva Capela de Água das Velhas, considerando época em que viveram, somente o patriarca Caetano Martins dos Santos poderia tê-lo feito, o que carece de evidências. O que seria mais plausível é que templo erguido na sesmaria de Pe. Felipe tivesse de fato colapsado em algum momento entre o fim do século XVIII e início do século XIX, sendo posteriormente reconstruído por Joaquim Martins dos Santos ou por seu pai Caetano Martins dos Santos (neto). Mas isso é apenas uma especulação.

Quanto ao orago, São Julião da Lage, sabe-se que existiu uma antiga freguesia com essa denominação em Portugal, que pertencia ao concelho de Vila Verde, Distrito de Braga. José de Fátima sugere que essa possa ser a procedência da esposa de Joaquim Martins dos Santos, Maria Tereza de Jesus Pena, filha do Tenente Luiz Antônio Pena. Mas cabe ressaltar que não encontrei qualquer menção a esse santo nos livros paroquiais indexados na plataforma FamilySearch, o que me deixa cético quanto a precisão desses acontecimentos.

A Vila de Juritianha

A vila de Juritianha desenvolveu-se a margem de um antigo caminho que ligava os dois principais povoados da região: Almofala, em Itarema, a Barra do Acaraú. As primeiras casas foram construídas em taipa e cobertas com palhas de carnaubeira. São lembrados como os primeiros moradores, Manoel Alves do Monte, Antônio Graciano da Silveira, Antônio Ramos, Maria do Carmo e João Ribeiro (Ceará, 2010, p. 9).

Existe hoje em Juritianha uma capela dedicada a Santa Rita de Cássia, cuja origem remonta a meados do século XIX. Santa Rita de Cássia foi uma religiosa italiana do século XV, tendo sua devoção difundida pelo mundo católico como expressão de fé associada à esperança, à reconciliação e à intercessão diante de situações consideradas impossíveis. Foi beatificada em 1626 pelo papa Urbano VIII e canonizada quase três séculos depois em 24 de maio de 1900, pelo papa Leão XIII, o que certamente colaborou para sua popularização, principalmente a partir do início do século XX.

Conforme o memorialista Totó Rios, o nicho primitivo foi erigido e mantido pela Irmandade de Santa Rita de Cássia da Juritianha, que teve sua criação aprovada em 7 de outubro de 1875, pelo padre Antônio Xavier Maria de Castro. Segundo Nicodemos Araújo, a irmandade teria sido, de fato, instituída em 14 de novembro de 1880 (Araújo, 1971, p. 108). Ressalta-se, entretanto, que esta irmandade pode ser ainda mais antiga, visto que seu termo de compromisso foi aprovado quase duas décadas antes, pela Lei Provincial nº 1.001, de 2 de setembro de 1861. Quanto ao ano de construção da capela, essa teria ocorrido em 1870 (Araújo, 1940, p. 209).

Entre 1916 e 1922 o templo, originalmente construído em taipa, passou por uma reforma, sendo reconstruído em alvenaria, medindo aproximadamente 26 metros de comprimento por 12 metros de largura. Sobre o processo de reconstrução, contam os antigos moradores que os tijolos eram feitos nos nas comunidades vizinhas, enquanto as vigas de madeira eram trazidas de outros estados, através do Porto de Acaraú. Segundo a tradição, teriam sido levadas a Juritianha nos ombros dos moradores, que trabalharam em forma de mutirão, ao som de foguetes. Já os caibros e linhas eram de carnaubeira, extraídas da própria região (Ceará, 2010).

Igreja Santa Rita de Cássia, Juritianha

Os trabalhos foram chefiados por Livino Graciano da Silveira, homem de confiança dos sacerdotes, que foi procurador da capela mais de 50 anos. Para financiar a reforma, realizava leilões e pedia doações aos devotos e romeiros da Padroeira (Rios, 2009). Livino nasceu em 18 de fevereiro de 1881, filho do Capitão José Graciano de Vasconcelos e Rita Frankalina da Silveira. Casou-se em 29 de setembro de 1906 com Izabel Maria da Silveira, sendo ambos descendentes do açoriano João da Silveira Dutra.

Izabel Maria da Silveira e Livino Graciano da Silveira.

Conta-se ainda que a escolha do orago da igreja se deveu ao fato de terem encontrado uma imagem da mesma em uma mata, em meio aos pés de murici (Ceará, 2010). Em outra versão, a santa achada seria outra, que foi posteriormente substituída, como veremos mais adiante. Como a menção a santa já aparece na lei de 1861, esse episódio teria de ter acontecido ainda em meados do século XIX. Em 1887, a imagem da padroeira foi "reencarnada", ou seja, teve a pintura retocada pelo artista Lourenço Correia da Silva Lima, sendo a nova benção realizada a 22 de outubro do mesmo ano (Araújo, 1940, p. 209).

Também é dedicado a Santa Rita o cemitério local, construído na década de 1940, também pelo Sr. Livino, num terreno doado por seu irmão, Sr. Antônio Graciano da Silveira. Livino teria capitaneado ainda a construção da casa paroquial. Antes da construção do campo santo, o defuntos, assim como os doentes eram levados através das veredas em redes até Acaraú. A Paróquia de Santa Rita de Cássia de Juritianha foi criada apenas em 1990, durante o episcopado de Dom Antônio Roberto Cavuto, então bispo da Diocese de Itapipoca, a qual permanece vinculada. Em 1994, a Diocese transformou a comunidade e adjacência em Área Pastoral de Juritianha.

Infraestrutura e Desenvolvimento do Povoado

As primeiras estradas foram construídas com auxílio de carros de boi e nos lombos de jumentos. A primeira ponte em sistema de manilhas foi a chamada “ponte do cemitério”, tendo à frente o vereador Leocádio Silveira, o primeiro eleito de Juritianha. Já a estrada que corta o lugar, de leste a oeste, foi aberta em 1958, sendo, por isso, conhecida como estrada do “58”. Posteriormente, Pe. Aristides Andrade Sales, na posição de prefeito de Acaraú entre 1973 e 1976, promoveu melhorias na estrada, colocando uma camada de piçarra, e construiu a maior ponte da região, no Riacho Juritianha.

Até a década de 1960, as escolas em Juririanha funcionavam em casas de particulares. Entre os primeiro professores, os moradores recordam de Antônio Ferreira, João Rufino, Aládia Soares, Maria Josefina, Luiz Rodrigues Albuquerque, Maria José e outros. A primeira escola pública foi edificada em alvenaria pelo prefeito Joaquim Rocha de Vasconcelos, na década de 60. Chamava-se Escola Reunida de Juritianha, o chamado “prédio velho”. Na gestão de Pe. Aristides, foi construída a então maior escola de Juritianha, a Escola Hugo Martins dos Santos.

O mercado público, conhecido como barracão, foi construído pelo prefeito Adenor Martins, num terreno doado pelo Sr. Gonzaga Livino. Na gestão do então prefeito Pe. Aristides, houve uma ampliação, quando o mesmo construiu um banheiro público e uma cacimba de tijolos. Depois, o prefeito Manoel Duca da Silveira Neto ampliou o espaço e a área de terra em que o mercado estava ocupando. A energia elétrica, com postes de cimento, funcionava inicialmente por meio de um gerador, sendo a ligação a energia de Paulo Afonso realizada apenas em 1975. Em 1980, o referido prefeito Manoel Duca, através do seu vice Edmundo Silveira, natural de Juritianha, ampliou a rede elétrica e levou-a até o bairro Rodagem. Em 1979, a estrada Acaraú–Itarema recebeu a primeira camada de asfalto e os telefones, com postes de madeira (Ceará, 2010, p. 10).

Na administração Aníbal Gomes, tendo como vice novamente o filho da terra Edmundo Silveira, e o vereador Armando Silveira (1985–1992), o lugar recebeu vários benefícios: Teleceará, hospital-maternidade, calçamento, delegacia de polícia, guarda municipal, ambulância de plantão. A Escola Hugo Martins dos Santos foi ampliada e criado o curso ginasial, hoje Ensino Fundamental II; várias construções de escolas em toda a área; e a criação oficial do distrito de Juritianha, em sessão solene, na Escola Hugo Martins dos Santos, Praça da Matriz. Na administração Francisco José Magalhães Silveira, por meio de um projeto do vereador Armando Silveira, foi construída a escola Hermínia Francisca da Silveira. Mais tarde, na administração Magda Gomes, tendo como vice o filho da terra Edmundo Silveira, a escola foi reformada e ganhou quadra coberta.

A Renda de Bilros em Juritianha

A região de Juritianha destaca-se pela produção artesanal, especialmente pela confecção da renda de bilros, uma importante fonte de renda para as mulheres da comunidade. De origem europeia, esse tipo de renda foi trazida para o Ceará por mulheres portuguesas, sendo posteriormente incorporada às práticas artesanais locais, adquirindo características próprias a partir da adaptação dos materiais disponíveis. Ao longo do tempo, a atividade se difundiu sobretudo pelas comunidades litorâneas, entre famílias de pescadores, tornando-se importante fonte complementar de renda e elemento de identidade cultural (Matsusaki, 2016).

Em Juritianha, o conhecimento relacionado à produção da renda de bilros é tradicionalmente transmitido entre gerações, sobretudo de mães para filhas, contribuindo para a preservação desse ofício. A produção da renda envolve diferentes materiais e instrumentos, entre os quais se encontram a palha de bananeira, utilizada como forro da almofada, os bilros, espinhos, linha, papelão e a “rodia”, utilizada como suporte para a almofada.

A produção, que é realizada também em localidades vizinhas, destina-se, em parte, ao consumo da população local, sendo utilizada na confecção de toalhas de mesa, colchas, roupas, peças íntimas, redes, entre outros produtos. Entretanto, o enfraquecimento da tradição ao longo do tempo suscita preocupações quanto à possibilidade de desaparecimento da atividade. Nesse contexto, foram criadas as chamadas “Associações das mulheres rendeiras”, voltadas ao fortalecimento da produção e comercialização de produtos confeccionados em renda. 

Em entrevista realizada para o portal Elos do Acaraú em 2016, a rendeira Grací Domingues, então com 66 anos, relatou que produz renda desde os seis anos de idade (1950). Segundo seu depoimento, o aprendizado do ofício foi herdado de sua tia, carinhosamente chamada de “Dodô”. A entrevistada afirma que a atividade está presente em sua família há várias gerações. A rendeira relata que chega a comercializar três caixas de renda por mês e que, além de produzir, também adquire peças para revenda. Entre as peças produzidas por Grací encontram-se a “Renda de peça” e o “Caminho de mesa”, sendo os modelos mais comuns a “Castanha”, “Caracol”, “8 traças”, “Ciganas”, “Liso” e “Bumbum de sapo”, todos elaborados a partir de moldes em papelão (Nascimento et al., 2016).

Tanque do Meio a Itarema

Assim como Juritianha, Itarema desenvolveu-se a margem da estrada entre Acaraú e Almofala, com o topônimo primitivo de "Tanque do Meio". Dizia-se do Meio porque existiam outros tanques, o de Cima e o de Baixo, destinados ao abastecimento de água às populações vizinhas e aos gados da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição. Conforme o memorialista José de Fátima Silva, esses tanques foram construídos em 1825, por ordem de Padre Clemente da Cruz Oliveira, vigário de Almofala. O tanque de cima situava-se na localidade de Água das Velhas (atual Caraúbas), enquanto o de baixo situava-se no terreno posteriormente pertencente aos herdeiros de Mundico Ribeiro, cujo vaqueiro era o já citado Miguel Martins (Silva, 2023, p. 3).

O tanque do meio localizava-se próximo à residência de D. Julita, na descida em direção à Praia da Barra, e servia como parada para os viajantes que conduziam comboios vindos de Acaraú e Sobral. Próximo a essa fonte d'água formou-se um pequeno arraial, e em 1870 havia ali construído um pequeno nicho de taipa, em homenagem a Nossa Senhora dos Navegantes, no mesmo local onde hoje encontra-se a Igreja Matriz (Girão, 1983, p. 298). A obra teria sido concebida pelas irmãs Maria do Amparo e Joana de Barros, que doaram o terreno para tanto. A bênção da Capela teria ocorrido no ano de 1885, pelo vigário de Acaraú, Pe. Antônio Xavier Maria de Castro.

Conforme o Sr. José de Fátima, um tio das moças, residente em Juritianha, teria encontrado uma imagem de Nossa Senhora dos Navegantes e levado para Itarema, colocando-a no nicho. Entretanto, a posse da imagem foi questionada, gerando uma disputa entre as famílias de Itarema e Juritianha, que tomavam a imagens uma das outras, deslocando-a entre as duas localidades. A solução do conflito teria vindo da mediação do próprio Pe. Antônio Xavier, que se comprometeu em conseguir uma nova imagem para Juritianha, encomendada de Portugal. Entretanto, chegando a nova imagem, notaram que tratava-se, na verdade, de Santa Rita de Cássia e não de Nossa Senhora dos Navegantes. Com alguma relutância, os juritianhenses aceitaram Santa Rita como sua padroeira, o sendo até hoje (Silva, 2023, p. 4).

A 6 de setembro de 1890, por força de decreto estadual, foi elevado a condição de distrito de Acaraú. Durante muito tempo, Almofala foi o centro mais dinâmico desse território, mas no final do século XIX, mais precisamente a partir do ano de 1897, uma duna começou a avançar sobre este vilarejo, obrigando as pessoas a se deslocarem para as localidades vizinhas, em particular para Tanque do Meio. No final de 1898, Pe. Antônio Tomás, com autorização da diocese, removeu as últimas imagens de Almofala antes de sua icônica igreja ser completamente soterrada e sob protesto da população, marcando o declínio definitivo dessa localidade (Santos, 1987, p. 15).

Conforme Nicodemos Araújo, em 1905 só havia duas casinhas no local onde hoje localiza-se a sede municipal, pertencentes ao Sr. José Manoel de Barros Barreto (Barroso, 1999, p. 244). Mas o influxo populacional possibilitou a reforma e ampliação da capela local, iniciada em 1908, sendo reconstruída em alvenaria. Essa iniciativa teria sido patrocinada pelas famílias mais tradicionais do lugar, como Cazuza, Monteiro, Ribeiro e Silva. A nova bênção foi dada pelo próprio Pe. Antônio Tomás, em 29 de novembro 1909, sob a denominação Nossa Senhora dos Navegantes do Tanque do Meio. Em 1917 já havia uma subdelegacia na vila, estando a frente o Sr. Antônio M. de Vasconcelos (Correio de Ceará, 09/08/1917).

Capela de Nossa Senhora dos Navegantes do Tanque do Meio

Em 13 de junho de 1930, Tanque do Meio recebe a visita de D. José Tupinambá da Frota, acompanhado do vigário Padre João Sabino Lima Feijão, o qual, depois, em 16 de junho de 1934, solicitou nova licença para reconstruir a capela, já muito deteriorada e objeto de críticas pela autoridade episcopal. Em 21 de janeiro de 1937, Padre Sabino dá a bênção ao cemitério de Nossa Senhora dos Navegantes (Barroso, 1999, p. 244). Entretanto, os relatos sugerem que existiu anteriormente outro campo santo em Itarema, sendo conhecido entre os mais antigos o caso de um homem da família Barros que teria contraído hanseníase ("lepra") e que fora impedido de se enterrar no cemitério local pelo Sr. José Fernandes de Sousa (Silva, 2023, p. 12). Existiu ainda um antigo cemitério na localidade de Patos, erigido em 1870, sendo este posteriormente reformado, recebendo o nome de Dr. Antônio Frederico Rodrigues de Andrade, tio do padre Aristides.

Em 1936, pela Lei municipal n.º 21, de 18 de dezembro, de iniciativa do vereador da Câmara de Acaraú, José Fernandes de Sousa, foi o topônimo mudado para o atual, confirmado pela Lei n.º 346, de 10 de agosto de 1937. Itarema é uma palavra de origem indígena e teria o significado de pedra de cheiro agradável, de ita pedra e rema cheiro bom ou, ainda, o oposto, pedra fedorenta (Girão, 1983, p. 298). Aproximadamente nessa época, Itarema recebeu as Santas Missões Populares, quando foi erguida uma coluna onde foi instalada a imagem do Sagrado Coração de Jesus, trazida do Rio de Janeiro por encomenda do Sr. João Batista Rios. Essa coluna foi posteriormente demolida pelo pároco local e substituída por uma menor, com cerca de dois metros de altura.

Em 1941, as dunas de Almofala movem-se novamente, revelando o povoado e a antiga igreja de Nossa Senhora da Conceição. Em novembro de 1953 houve a visita da imagem de Nossa Senhora de Fátima, motivando a mudança do orago. A paróquia de Itarema foi fundada a 2 de janeiro de 1954 por D. José, desmembrada de Acaraú e Bela Cruz, sendo posteriormente integrada a Diocese de Itapipoca, criada em 1971. Seu primeiro vigário foi Padre Aristides Andrade Sales, empossado a 6 de janeiro de 1954, ficando quarenta anos a frente da paróquia. O Sr. José de Fátima conta que Pe. Aristides teria encomendado a imagem de N. S. de Fátima, que teria vindo de Portugal, acompanhada de uma redoma de vidro contendo areia Cova da Iria, local da aparição mariana a Francisco, Jacinta e Lúcia, mas a relíquia teria desaparecido em circunstâncias não esclarecidas (Silva, 2023, p. 5). 

Em 1954, Pe. Aristides mandou demolir a capela antiga para dar lugar a atual Igreja Matriz de Itarema. Em 1963, pela lei estadual nº 6.809, de 2 de dezembro, Itarema é elevada a município e vinte dias depois, no dia 23 de dezembro, são criados os distritos de Almofala, Carvoeiro, Olhos d'Água, Patos, Santa Fé e Santo Antônio, integrantes do novo município. Entretanto, apenas dois anos depois, em 14 de dezembro de 1965, extinguiu-se o município, sendo este anexado novamente a Acaraú como simples distrito. Assim permanece até a emancipação definitiva, o corrida pela Lei Estadual nº 11.008, de 05 de fevereiro de 1985.

Educação e Saúde 

A primeira iniciativa educacional na sede de Itarema é atribuída a João Saldanha ("Lira"), migrante da seca proveniente da região do Seridó (Rio Grande do Norte) ou Cabrobó (Pernambuco), que se instalou no local em 1876 e iniciou suas aulas em 1877, em uma casa de barro coberta de palha, que seria a primeira construção residencial da sede, segundo Sr. José Silva. Além de alfabetizar crianças carentes, João Saldanha promovia a Dança de São Gonçalo e fundou uma irmandade católica leiga denominada "Irmão das Almas". Escolas isoladas, mantidas por mães de família, também são registradas: a exemplo de Marta Maria de Souza Rios ("Marieta Rios"), esposa de José Fernandes de Souza, que, no início do século XX, abriu uma escola na praia do Guajiru voltada a crianças sem condições financeiras. No Riacho e na Barra do Riacho funcionaram escolas mantidas, entre outros, pelo juiz de paz Raimundo da Costa Paixão.

No final do século XIX, o governo do Estado do Ceará enviou duas professoras diplomadas para o distrito: a primeira lecionou na residência de Luís Monteiro, na localidade de São Vicente; a segunda instalou-se onde residia José Anastácio dos Reis. Somente em meados do século XX foi construída a primeira escola pública estadual da sede, denominada "Marieta Rios". João Batista Rios, primeiro membro da família Rios a se estabelecer em Itarema, é apontado como o primeiro funcionário público federal do distrito e porta-voz do jornal O Acaraú; ele teria sido pioneiro em enviar os próprios filhos para estudar fora, por via marítima, em Fortaleza. Dedé Rios, primeiro prefeito eleito de Itarema após a emancipação, é apresentado como responsável pela construção de escolas na sede e em todo o território municipal, sendo por isso chamado pelo entrevistado de "pai da educação de Itarema".

Quanto a assistência à saúde em Itarema teve origem, segundo o relato, em rezadeiras, parteiras tradicionais e guardas do serviço de combate a endemias então conhecido popularmente como "SUCAM", que, além de suas funções sanitárias, chegavam a auxiliar partos e ensinar remédios caseiros. O primeiro médico a atender no distrito foi o Dr. Nelson de Andrade Sales, irmão do padre Aristides. A primeira parteira diplomada foi Dona Nazaré Sales (mãe de Dona Helena, esposa de Aurélio), formada pela Escola São Vicente, em Fortaleza, sendo também a primeira parteira diplomada do município de Acaraú antes de se radicar em Itarema. Dona Francisca Sales Regadas, que se estabeleceu em Itarema em 1969, é apontada como fundadora da primeira maternidade/hospital do distrito, inicialmente instalada em sua própria residência (em condições precárias, incluindo o uso improvisado de cestos de cipó como berços) e posteriormente transferida para um terreno doado por Paulo Filó, próximo à localidade da CAJE.

O primeiro médico plantonista dessa instituição foi o Dr. Chaves, de Acaraú. Com o falecimento da fundadora, a instituição original foi desativada; sua neta, Janaína, dá continuidade a iniciativas assistenciais, incluindo atendimento médico trazido de Fortaleza, ações sociais natalinas e manutenção de biblioteca comunitária. O entrevistado também cita, sem identificação nominal precisa, o primeiro farmacêutico do distrito (que realizava pequenas cirurgias e prescrições) e, na sequência, Raimundo Tavares. É mencionado ainda o médico Edson (Edit) Urbano, casado com Dona Eli e pai de Mila, e o médico Tarcísio, radicado em Almofala, proveniente da região de Santa Fé dos Paus Brancos, que trabalhou ao lado do finado Chico Sousa.

Economia, Transporte e Infraestrutura

Entre as atividades econômicas desenvolvidas antigamente em Itarema, destaca-se, além da pesca, a criação de gado e a extração do óleo de mamona (carrapateira), desde pelo menos o final do século XIX. Teve relevância no passado também o extrativismo de carnaúba e a produção de cocos. Entre os primeiros estabelecimentos comerciais, destacam-se o do Sr. José Anastácio dos Reis, na região da matriz, seguido de José Fernandes de Souza, Norberto Rios e José Mauro Rios. A primeira farmácia da sede pertenceu a Sebastião Cajazeira, seguida pela farmácia de Expedito Boa Sorte.

No setor industrial, são citadas fábricas de gelo e o beneficiamento de coco, camarão e carnaúba. Binu Monteiro é apontado como industrial de destaque. Historicamente, houve produção de cachaça em engenhos de propriedade de João Batista Rios, José Maria Monteiro, José Fernandes de Souza e Binu, com rótulos reconhecidos pela Secretaria de Agricultura do Estado do Ceará — entre eles as marcas "Marcelândia" e "Deliciosa".

O primeiro veículo automotor do distrito, apelidado "Xaxado" (em referência ao som que produzia sobre as estradas de areia), pertenceu ao Sr. José Fernandes de Souza e entrou em circulação entre 1951 e 1952. Outros primeiros proprietários de veículos citados são José Pinheiro, Magno, Adonias Alves, Joaquim Rufino (de Almofala), Antônio Alves (pai de Landri), Geraldo Magalhães Rios, Antônio Aires, o padre Aristides e Beija Carneiro (avô de Carlinhos Beija). Por ocasião do primeiro levantamento realizado pelo então prefeito eleito Dedé Rios, contabilizaram-se apenas 27 veículos automotores entre a sede e o interior do município. 

Já o primeiro transporte coletivo regular foi o ônibus da empresa Redenção, que passou a atender o trajeto Fortaleza–Itarema (via Acaraú) a partir de novembro de 1965. A partir de 1966, a linha foi estendida até Almofala. A agência funcionava na residência do Sr. Antônio Barbosa. A Redenção operou por cerca de 40 anos, sendo sucedida por serviços de fretamento e, posteriormente, pela empresa Guanabara.

O fornecimento de energia elétrica em Itarema teve início a partir de um gerador particular instalado em um cômodo do imóvel comercial de José Fernandes de Souza, espaço que, mais tarde, abrigaria o Conselho Tutelar do município. A iluminação, restrita ao centro da cidade, funcionava das 18h às 21h/21h30, horário sinalizado por apitos. Outros proprietários de motores particulares de iluminação eram o padre Aristides e João Elias Brandão. A energia elétrica de concessionária (Coelce, atual Enel) chegou ao município em 1975. Sob a gestão de Dedé Rios, primeiro prefeito de Itarema, a rede elétrica foi ampliada para a totalidade do território municipal.

A agência dos Correios foi instalada em Itarema em 1953, sendo, à data da entrevista, o décimo endereço ocupado pela agência dentro da sede municipal. Sua implantação é atribuída a João Batista Rios, que a obteve diretamente do Rio de Janeiro por intermédio do general Landri Sales, à época presidente nacional dos Correios e seu amigo pessoal.

Ilha do Guajiru

Até meados da década de 1990, a área atualmente conhecida como Ilha do Guajiru, situada no litoral de Itarema, era utilizada principalmente como local de descarga da produção pesqueira, estando sua dinâmica econômica e territorial estreitamente vinculada às atividades dos pescadores. Até o início dos anos 2000, o local era conhecido simplesmente como Praia da Barra, sendo a nova denominação está relacionada à chegada dos primeiros praticantes de kitesurf, que identificaram na extensa formação arenosa e na lagoa adjacente uma paisagem semelhante a uma ilha (Oliveira et al., 2017).

Nesse período, a localidade passou a receber moradores permanentes e, em meados dessa década, iniciou-se um processo de urbanização que se intensificou com a expansão do turismo esportivo e a chegada de praticantes nacionais e estrangeiros de kitesurf. Entre 2009 e 2022, verificaram-se profundas transformações na paisagem e nas funções econômicas do lugar, com a expansão de residências, pousadas, restaurantes e outros serviços destinados aos visitantes. A partir de então, o turismo tornou-se um dos principais agentes de reorganização territorial da Ilha do Guajiru, passando a coexistir com as tradicionais atividades pesqueiras e contribuindo para a valorização imobiliária e para a alteração da paisagem local.

Diego Carneiro
04 de setembro de 2026

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. De Juritianha à Água das Velhas. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 04 de setembro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/08/de-juritianha-agua-das-velhas.html

Referências

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BARROSO, Francisco de Andrade. Igrejas do Ceará: crônicas histórico-descritivas. Fortaleza, 1999.

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CEARÁ. Assembleia Legislativa. Projeto de Decreto Legislativo nº 52, de 2010. Fortaleza: Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, 2010. Disponível em: https://www2.al.ce.gov.br/legislativo/decleg/pdl52010.pdf. Acesso em: 28 ago. 2026.

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