Esse artigo aborta a região do distrito de Lagoa do Carneiro, em Acaraú, abrangendo várias localidades, como Celsolandia, Baia e Alpargatas. Essa região guarda uma relação estreita com Bela Cruz, tendo muitos de seus habitantes, ancestrais oriundos desse município. Essa relação é bastante antiga, aparecendo já em 1890, quando da criação do distrito policial de Santa Cruz, que se estendia para o leste até o de Almofala, partindo da Lagoa dos Negros (Jornal O Libertador, 23 de setembro de 1890). Como fontes de informações, recorri principalmente aos trabalhos de divulgação dos memorialistas e pesquisadores locais, como Totó Rios, Valderi Silveira e Marcos Aurélio da Silveira. Além disso, trato das localidades de Lagoa dos Negros, Telhas e Queimadas, originalmente ocupadas por índios tremembés vindos Almofala, a partir da narrativa colhida pelo pesquisador Ronaldo Lopes.
Celsolandia
A localidade de Celsolandia, em Acaraú, localiza-se a margem da estrada que liga a sede do município a Fortaleza, passando pelo Triângulo do Marco. Sua denominação está ligada a Francisco Celso Silveira. Segundo o memorialista Totó Rios, originalmente chamada de Tapera, o novo topônimo teria sido dado pelo escritor Nicodemos Araújo em referência direta ao nome de Francisco Celso (Rios, 2017). Apesar da denominação constar nos mapas oficiais, muitos moradores locais se referem a região simplesmente como Lagoa do Canema, em referência ao corpo d'água existente nesse rio.
Sobre Francisco Celso da Silveira, sabemos que nasceu em Acaraú, a 8 de julho de 1901, filho de João da Silveira Araújo e Cristina Emília Ribeiro. Aos 25 anos, casou-se com Rita Alzira de Araújo, nascida em 6 de outubro de 1906, filha de Sabino Lopes de Araújo Costa e Beatriz Ibiapina de Araújo, em 29 de dezembro de 1926. Nicodemos nos informa que Francisco Celso atuou no ramo de panificação, pelo menos desde 1940, existindo, inclusive uma pararia chamada "Celsolandia", associada, em 1971, a Francisco Jeri da Silveira, possível descendente do patriarca (Araújo, 1940, p. 168; 1971, p. 183).
O casal descende diretamente diretamente do Capitão Diogo Lopes de Araújo Costa, sendo as terras de Celsolandia localizadas nos limites da antiga Fazenda Lagoa Grande, do Capitão português José de Araújo Costa, pai de Diogo Lopes. Esta situava-se ao sul da antiga Fazenda Tapera, que pertenceu originalmente ao Coronel João Vieira Passos, talvez motivando seu antigo topônimo de Celsolandia.
Ainda segundo Totó Rios, em 1902, foi construída em Celsolandia uma capela, consagrada a São João Batista, localizada às margens do Riacho Canema, braço do Rio Acaraú. A obra teria sido realizada pelo Capitão Sabino Lopes de Araújo, sogro de Francisco Celso, e seu irmão Carolino Lopes de Araújo Costa, no paroquiato de Antônio Tomaz (Rios, 2017). No Censo de 1920, Sabino consta como proprietário do lugar São João da Tapera, em provável alusão ao orago do templo, juntamente com Carolino. Consta no Anuário Estatístico do Ceará de 1924 que, nessa época, já havia uma escola na localidade de São João da Tapera, em Acaraú (Ceará, 1928, p. 143).
Além da Capela, havia também um antigo campo santo, referido pela população como Cemitério das Cruzinhas. Segundo a tradição oral, a primeira pessoa a ser enterrada nesse cemitério teria sido uma mulher desconhecida, possivelmente fugindo da seca, que teria morrido de fome aos pés de uma grande árvore de Oiticica existente no local. Foi então sepultada pelos moradores, sagrando o lugar com essa finalidade. O local caiu em desuso e até pelo menos o final de 2021, suas ruínas ainda eram visíveis, bem como o toco remanescente da antiga Oiticica (São João Batista Cesolandia, 2021).
Em 1940, com a criação da Paróquia de Bela Cruz, a capela ficou ligada a mesma, sendo assistida pelo pároco Odécio Loiola Sampaio. Em novembro de 1953, o Vale do Acaraú recebeu a visita da imagem peregrina de N. S. de Fátima, vinda de Portugal. Como ato de fé, a Sra. Neide Moura construiu uma coluna comemorativa, alusiva a Virgem Maria (São João Batista Cesolandia, 2021).
Entretanto, em 1966, devido as enchentes do Rio Acaraú, toda essa região foi inundada pela água. Os moradores contam que na ocasião a imagem de São João Batista foi retirada de dentro do rio para as margens da estrada. Essa imagem, assim como outras existentes na Capela, pertenceram ao oratório do Alferes Vicente Lopes de Araújo Costa, filho do Capitão Diogo Lopes. Capitão Sabino Lopes, instituidor da capela e genro de Vicente Lopes, posteriormente doou algumas dessas imagens ao Museu Diocesano de Sobral, a pedido do vigário de Acaraú (Rios, 2011).
Assim, passada a cheia, Pe. Odécio mandou demolir o que restou da capela para que os materiais fossem aproveitados na construção de um novo prédio, mais amplo, situado em terreno mais alto, próximo a estrada de rodagem, atual BR-403. Empenharam-se nos trabalhos de construção da nova capela os senhores Epitácio Rodrigues Araújo, Manoel Gonçalves de Carvalho e Antônio Geraldir Silveira. Sua bênção solene foi realizada a 2 de agosto de 1970 (Araújo, 1985, p. 70).
Conforme Nicodemos Araújo, o local escolhido, cerca de um quilômetro e meio ao sul da anterior, chamava-se a época arraial de Belo Horizonte, que já em 1967 encontrava-se praticamente conurbado com Celsolândia (Araújo, 1967, p. 48). Ressalta-se que no Censo de 1920, consta como proprietário de Belo Horizonte, Pedro Antônio Alves. Não encontrei maiores informações sobre ele, apenas que possivelmente era casado com Maria do Carmo Freitas.
A partir de 2001, com o início do funcionamento do Projeto de Irrigação do Vale do Acaraú, houve um influxo populacional para a região, o que motivou a Diocese a criar a Área Pastoral de Celsolandia, no dia 16 de julho 2009, sendo a mesma erigida a 9 de agosto do mesmo ano, agregando as capelas de Vila Progresso, Caboclinhos e Cajueiro do Boi, pertencentes a paróquia de Acaraú, e outras nove capelas de Bela Cruz (São José, Bom Jesus, Lagoa do Carneiro, Capão, Alpargatas, Pedrinhas e Varjota), além de três comunidades pertencentes ao município de Acaraú: Telhas, Queimadas e Córrego dos Fernandes (Rios, 2017).
Segundo o memorialista Totó Rios, na ocasião, a praça da capela de Celsolândia ficou repleta de fiéis vindos das quatorze comunidades pertencentes à nova Área Pastoral e da matriz de Acaraú para receber o seu primeiro administrador. Na ocasião foi lida a ata de referência da nomeação do recpem padre João Robson Cabral para o cargo de Vigário Paroquial da Área:
“Atendendo a necessidade de nomear um Vigário Paroquial para a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição da cidade de Acaraú e Diocese de Sobral, e tendo em vista as qualidades que concorrem na pessoa do revmo. Pe. João Robson Cabral havemos por bem nomeá-lo, como, de fato, por esta nossa provisão. O nomeamos Vigário Paroquial da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição para a Área Pastoral de Celsolândia, em conformidade com o Cânon 545, do Código de Direito Canônico” (Rios, 2017).
Padre Robson permaneceu a frente da paróquia até o dia 29 de janeiro de 2017.
Taboleirinho e Macajuba*
Um pouco mais ao norte, cerca de cinco quilômetros a noroeste de Celsolandia, na margem oeste do Riacho Canema, existiu até meados do século XX uma localidade chamada Taboleirinho. Sua origem remonta a fazenda de Manoel de Araújo Costa Júnior, filho de Diogo Lopes de Araújo Costa Junior e Maria Rodrigues de Araújo. Manoel nasceu por volta de 1820 e faleceu em 28 de janeiro de 1907, como consta no seu obituário divulgado no Jornal do Ceará, de 6 de fevereiro do mesmo ano (abaixo). Assim como Francisco Celso, Manoel de Araújo era descendente direto do Capitão Diogo Lopes.
Em 1974, houve um inverno vigoroso na região do Vale do Acaraú e essa região foi inundada pela cheia do rio Canema, levando a migração repentina da população de Taboleirinho para as terras mais altas, do outro lado do rio, no lugar que ficou conhecido como Macajuba. Contam os antigos moradores, que antes desse deslocamento, havia na região uma casa de prostituição, cujas serventes, em número de três ou quatro, eram referidas pejorativamente como as Macajubas, alcunha que teria levado ao nome ao local.
Anos mais tarde, uma senhora identificada como D. Lurdinha, que transitava frequentemente pela estrada entre Acaraú e Itapipoca, observando o crescimento repentino do número de casas em Macajuba, nomeou a região como Vila Progresso, pelo qual a localidade também é conhecida. Ressalta-se que, de forma análoga ao caso de Celsolândia, apesar dessa denominação Vila Progresso constar nos mapas oficiais, o novo topônimo foi escolhido à revelia dos costumes e tradições das respectivas populações.
*Agradeço pelas informações fornecidas pelo colega Neto Muniz.
Baia
Na direção oposta, cerca de sete quilômetros ao sul de Celsolandia, pela BR-403, existe outra pequena localidade, de nome Baia. Ela se desenvolveu num entroncamento rodoviário da referida BR e a estrada que liga o município de Bela Cruz ao distrito de Lagoa do Carneiro. Segundo Valderi Silveira, grande conhecedor dessa região, "o local recebeu esse nome em homenagem ao Sr. José Maria Rocha, nascido em 1943, conhecido carinhosamente como Sr. Bahia, que durante mais de 50 anos manteve seu comércio nesse ponto, que também funcionava como parada da extinta empresa de ônibus Redenção" (Silveira, 2026).
Ainda segundo Valderi, por décadas, o local teve grande movimentação de pessoas de várias comunidades vizinhas, que iam até lá para embarcar nos ônibus da Redenção com destino a Fortaleza e Itapipoca, ou simplesmente para aguardar a chegada de familiares e amigos que viajavam pela região. Essa localidade conta com uma capela dedicada a Sagrado Coração de Jesus.
Lagoa do Carneiro
Se Cesolandia é o núcleo religioso da região, a Vila de Lagoa do Carneiro representa a sede do distrito. Quanto a sua origem, segundo o pesquisador local Marcos Aurélio da Silveira, na segunda metade do século XIX um jovem morador da região, chamado Antônio Carneiro da Cunha, teria encontrado, durante uma caçada, uma lagoa, até então desconhecida. Ele teria então negociado com o dono dessas terras, não identificado por Silveira, a compra dessa propriedade. Portanto, o topônimo Lagoa do Carneiro teria sido uma alusão ao sobrenome do seu descobridor (Silveira, 2024).
Ainda segundo Marcos Aurélio, sua avó paterna, Francisca Alayde de Araújo (1911-2011), bisneta de Antônio Carneiro da Cunha, contava que ainda chegou a conhecê-lo, já muito idoso, amarrado a uma mesa. Supõe-se que, dado sua idade avançada, os familiares temiam que o mesmo se perdesse na mata, e por isso o mantinham preso. Revelou ainda que Carneiro poderia ser uma alcunha, derivado de seu temperamento opinioso, e não necessariamente um sobrenome.
Esse história é corroborada por outros depoimentos, com pequenas variações. Dizem que eram, na verdade, três caçadores, compadres entre si, que saíram para caçar nas chamadas "matas de cima". Durante a caça, perseguindo uma presa, acabaram por se distanciar demasiadamente de casa e decidiram pernoitar na mata para tentar a sorte, novamente, no dia seguinte. Durante a noite teriam ouvido o coaxar de sapos, indicando a presença de água próxima e, ao amanhecer, depararam-se com a lagoa, ao qual deram o nome de Carneiro em referência ao sobrenome que compartilhavam (Araújo, 2011).
Antônio Carneiro da Cunha, declarou, em 11 de fevereiro de 1857, possuir uma posse de terras no Araticum (Livro de Terras da Freguesia da Barra do Acaraú, 1855-1857, nº 444, fl. 72). Essa região, compreendida entre os atuais municípios de Marco e Bela Cruz, foi outrora parte do Sitio Araticum de Nicolau da Costa Peixoto. Ressalta-se que Araticum fica a cerca de oito quilômetros a oeste de Lagoa do Carneiro.
Ademais, analisando a genealogia conhecida das famílias da região, localizei um tal João Carneiro da Cunha, natural da Freguesia de Amontada, nascido a 14 de junho de 1787, filho de outro Antônio Carneiro da Cunha e de Maria do Carmo. Ressalta-se que a Lagoa do Carneiro fica há menos de oito quilômetros da divisa entre Acaraú e Itarema, que anteriormente serviu de demarcação entre as Freguesias de Acaraú e Amontada. É plausível que tenham alguma relação.
No Censo Agropecuário de 1920, constam como proprietários das terras da Lagoa do Carneiro, Raphael Arcângelo de Freitas e o Patrimônio de N. S. da Conceição. Rafael nasceu em 1865, sendo filho de Manoel Alves Pereira e Francisca Maria da Conceição. Casou-se duas vezes, a primeira com Raimunda Maria da Conceição, filha de Miguel Alves de Medeiros e Hermina Augusta Freire, e a segunda, com sua cunhada, Francisca de Assis Alves de Medeiros. Rafael descende diretamente de Pedro Serafim de Jesus, dono da Várzea Feia, vizinha a Araticum.
Quanto a propriedade atribuída a N. S. da Conceição, surge certa ambiguidade, uma vez que tanto a paróquia de Acaraú quando a de Bela Cruz servem ao mesmo orago. Entretanto, é provável que nessa época, inclusive em função da distância, a região estivesse sobre maior influência de Bela Cruz, uma vez que, quando houve a criação dessa segunda paróquia, em 29 de dezembro de 1941, a localidade ficou eclesiasticamente vinculada a mesma.
Em 1937, iniciou-se a construção de uma capela no arraial de Lagoa do Carneiro, dedicada a São Pedro, iniciada por Mons. Sabino de Lima Feijão, pároco de Acaraú (Araújo, 1940, p. 210; Araújo, 1985, p. 183). Sendo esta inaugurada em 29 de junho de 1943. Sua conclusão deveu-se aos esforços do primeiro pároco de Bela Cruz, Pe. Odécio Loiola, com a colaboração dos Srs. Raimundo Rodrigues Araújo, Manoel Frutuoso Freitas, João Luiz de Farias e outros, e de D. Maria Expedita Araújo e Franciné Araújo (Araújo, 1967, p. 48).
Em 1991, Lagoa do Carneiro é elevado a categoria de distrito do Município de Acaraú por meio da Lei Municipal nº 731, de 14 de setembro, com os seguintes limites:
I - Entre o distrito de Lagoa do Carneiro e a Sede, inicia no cruzamento do Riacho Juritianha com a estrada Junco / Belo Horizonte. Daí por este Riacho a montante até a sua nascente mais ao sul de onde em reta sentido a sudeste vai a Estrada "Jumento Assado" na Estada Marco / Lagoa do Carneiro, de onde segue pela estrada Jumento Assado até o entroncamento na Estrada Lagoa do Carneiro / Oriente / Córrego do Arroz e por esta última, segue até a fronteira intermunicipal Acaraú / Itarema; II - Entre os distritos de Lagoa do Carneiro e Juritianha. Inicio no cruzamento do Riacho Juritianha com a estrada Junto / Belo Horizonte, por este para o sul até as extremas da Fazenda Junco, com as terras de João Francisco dos Santos (João Nerêncio). Seguindo em linha reta pelas estremas das Terras do Cedro com terras da Aroeira até a fronteira intermunicipal de Acaraú / Itarema
Já a Vila de Lagoa do Carneiro possuía a seguinte delimitação: Início na casa de Antônio Neide, na estrada para Acaraú, daí reta para o campo de Futebol; deste reta ao cemitério, de onde em nova reta, vai a Lagoa do Carneiro, de onde contorna esta até a casa de Antônio Neide na estrada para Acaraú. Ademais, a Lei Municipal nº 1683, de 3 de abril de 2017, designa as ruas da vila como:
Horácio Simão de Oliveira, Paulina Soares de Sousa, Raimundo Júnior Araújo, Odécio Loiola Sampaio, Vicente Ancelmo de Paulo, João Batista da Silva, Expedito Ricardo Ferreira, José Felipe Sena de Araújo, José Dias de Sena, João Freire de Souza, Leôncio Alves de Oliveira, José Alves de Abreu, Manuel Vilmar da Silveira Filho, Rafael Arcanjo de Freitas, Geraldo Magela Silveira, Manoel Baltar da Silveira, Teófilo Lopes Araújo.
Igreja Adventista em Lagoa do Carneiro
A presença da Igreja Adventista do Sétimo Dia em Lagoa do Carneiro teve origem em 1994, a partir da conversão do comerciante Marino Silveira, na cidade de Acaraú. Após ouvir uma mensagem sobre a guarda do sábado, Marino Silveira sentiu-se tocado, e decidiu iniciar, junto a sua família, os estudos bíblicos, sob orientação Manuel Bento. Decidiram então pelo batismo, realizado ainda em 1994 pelo então presidente da Missão Costa Norte, pastor Samuel (Araújo, 2014).
Em 1996, Marino mudou-se com a família para Lagoa do Carneiro, iniciando o adventismo na localidade. Foi construído um pequeno templo no centro da comunidade, onde o pastor João Evangelista realizou cursos, entre eles programas para abandono do tabagismo e séries de estudos bíblicos. A iniciativa resultou na adesão de novos membros e culminou na inauguração de um novo templo em 15 de agosto de 1999, em cerimônia que reuniu mais de 150 pessoas e contou com a presença do pastor Isaías Cardoso, então presidente da Missão Costa Norte, responsável pela região do Ceará e Piauí.
Ao completar 15 anos, em agosto de 2014, a igreja registrava aproximadamente 100 pessoas batizadas e desenvolvia atividades voltadas não apenas aos membros adventistas, mas também à comunidade local, independentemente de religião. Ao longo de sua trajetória, estiveram à frente da congregação os pastores João Evangelista, Moisés José da Silva, Ezequias Sampaio de Souza, Hélio Braúna Bittencourt, Bass da Costa Lima e Vilson da Silva Vieira, então dirigente da igreja.
A Capela Abandonada de Aroeira Velha
Existe a margem da estrada que liga Lagoa do Carneiro a localidade de Aroeira Velha uma pequena capela totalmente abandonada. Sua história foi relatada por Edileuton Alves, outrora coordenador da igreja junto ao Padre Ailton Ramos da Silva, de Juritianha. Segundo Edileuton, o terreno onde foi erguida a capela, construída em 2009, foi doado por uma família, que sempre esteve a frente das decisões relativas ao templo. Mas, em 2016 houve uma mudança no conselho que administrava a capela, que teria promovido eventos, como uma procissão dedicada a Santa Rita, o que atraiu um grande número de fieis (Alves, 2024).
Vendo a necessidade de ampliar o templo, o padre teria ido consultar a D. Rita de Cássia Nascimento Alves, esposa de Damião Acácio Alves (Sr. Bião), que havia doado o terreno, sobre até onde iam os limites da propriedade. Mas, segundo Edileuton, foram informados pela mesma que o terreno se limitava a área onde a mesma foi construída, sem margem para expansões. Já D. Rita, em entrevista concedida a Valderi Silveira, afirmou que teria que consultar a família sobre o assunto (Silveira, 2024).
Então, dado o impasse e em vista da necessidade de expansão, a comunidade decidiu por construir uma nova capela, dedicada a São João Batista, e retirar da antiga tudo aquilo que havia sido comprado coletivamente. O caso foi levado ao bispo, que veio pessoalmente até Aroeira para abençoar a nova igreja. A partir de então, a antiga capela deixou de ser utilizada pela comunidade e foi fechada, passando a ser referida popularmente como "Capela da Confusão".
A Queda do Avião em Alpargatas
Um episódio curioso marcou um das localidades do distrito de Lagoa do Carneiro, em Acaraú. Segundo o memorialista belacrusense Marcos Aurélio da Silveira, em março de 1943, ainda durante a Segunda Guerra Mundial, ocorreu a queda de uma aeronave norte-americana na localidade de Alpargatas (Silveira, 2022). Com a tecnologia disponível na época, a travessia direta entre os Estados Unidos e o teatro europeu era inviável, dada a autonomia limitada das aeronaves, frente à extensão do Atlântico Norte. Assim, a alternativa encontrada foi a rota do Atlântico Sul, que aproveitava o estrangulamento oceânico entre o Nordeste brasileiro e a costa ocidental africana.
Na ocasião do acidente de Alpargatas, moradores de Bela Cruz teriam observado a aeronave sobrevoando a região em condições anormais. Segundo o testemunho, o avião produzia um ruído intenso e liberava fumaça antes de ocorrer uma explosão e a queda. Pessoas da região deslocaram-se até o local e encontraram uma cena descrita como extremamente violenta, com os corpos das vítimas gravemente fragmentados em consequência da explosão e do impacto. Uma testemunha ocular, o Sr. Manoel Miguel Sobrinho (Mané Vei), então com 92 anos, morador de Celsolandia, informou em entrevista colhida por Valderi Silveira:
"Eu fui ver esse avião caído, só a carcaça do avião, pegando fogo, e as tripas dos aviador trepadas nos pés de pau, queimando. Aí estralava uma bala e a negada correu tudo com medo. Ele levava essas balas, era um avião de guerra, mas era um avião pequeno, não era grande não. Tinha quatro pessoas, morreu todos os quatro. Esses corpos, tomaram de conta, fizeram um a borda de um chiqueiro, daí cavaram um buraco e enterraram, os corpos. Depois, com muitos dias, veio uns caras ver esse avião, pegou e cavou o buraco e levou os corpos, botou dentro do carro, só as ossadas. [Era na propriedade] do Pedro Domingos. Eles se arranchavam na propriedade do Pedro Domingos quando vinham pra ir pra lá, numa varanda. O povo que vinha buscar os restos mortais do avião. Hoje não tem mais nada, hoje é lote. Eu nasci e fui criado capinando lá, vendo o tanque do avião e hoje não acerto conhecer..." (Silveira, 2025)
Sobre os destroços, moradores da região afirmam que foram recolhidos e deixados em frente a casa do Sr. Luiz Cordeiro, sendo depois recolhidos por um caminhão. Mas vários fragmentos menores foram guardados por moradores, como relíquias do ocorrido. Um desses fragmentos, descrito como um pedaço de ferro da aeronave, posteriormente foi incorporado ao acervo de um museu local, administrado por Marcos Aurério.
O índice dos relatórios de acidente da United States Army Air Forces relativos a ocorrências no exterior registra, sob a data de 3 de março de 1943, a perda de um Douglas A-20B Havoc, número de série 41-2794, tendo como piloto Franklin James Byrd, no Brasil, em localidade grafada como "Agarau" — corruptela evidente de Acaraú (AAIR, 2026). Tratava-se de um exemplar alocado à Força Aérea Soviética no âmbito do programa Lend-Lease, jamais entregue (Warbirds Resource Group, 2026). O A-20B 41-2794 seguia em voo de translado pela chamada rota do Atlântico Sul, itinerário que partia de Miami e alcançava o Golfo Pérsico passando por Belém e Natal. Esse último trecho acompanhava a linha de costa e passava exatamente sobre o Baixo Acaraú, o que explica a presença da aeronave a poucos quilômetros do litoral.
Lagoa dos Negros
A localidade de Lagoa dos Negros situa-se cerca de nove quilômetros a sudeste da Vila de Lagoa do Carneiro, na divisa com Itarema, e tem sua ocupação ligada ao deslocamentos dos índios Tremembé, vindos de Almofala. Antônio Félix, um dos anciãos da comunidade resume assim essa história: Minha família, do meu pai, do meu avô, do meu bisavô eles vieram de Almofala. Quando foi em 1888 foi uma seca muito horrorosa. Ai eles destacaram de lá pelos matos, caçando raiz de pau para comer, saíram lá da Almofala aí encostaram na Lagoa dos Negros (Patrício, 2010, p. 27). Teriam partido da localidade de Gerais, na grande Almofala.
Além da severa estiagem de 1888-1889, comumente rememorada como seca dos três oito, certamente colaborou para a dispersão dos Tremembés de Almofala o posterior deslocamento das dunas que culminaram como o soterramento da vila na última década do século XIX, como relata Pe. Antônio Tomás:
Seguindo o mesmo teor da vida, já por ali haviam passado sucessivamente muitas gerações desde as remotas eras do seu povoamento até a última década do século passado, quando sobreveio a catastrophe que, destruindo a aldêa, fez fugir os seus últimos moradores para longinquas paragens, à cata de novos abrigos, como um bando de passaros bravios aos quaes houvessem desmantellado os ninhos (Ramos, 1981, p. 139).
Como vimos no início desse texto, o topônimo Lagoa dos Negros já era corrente em 1890, quando foi utilizando como demarcador do distrito policial de Santa Cruz.
Ademais, segundo a tradição oral, no final do século XIX, o velho João Cosmo, pajé dos tremembés a época, teria executado um "trabalho", que permitiu, não apenas a localização da Lagoa dos Negros, mas o seu desencantamento, possibilitando que a mesma fosse ocupada pelos novos moradores (Lopes, 2014, p. 51). João Cosmo tornou-se uma figura mítica entre os moradores dessa localidades, deixando, inclusive grande descendência.
Esse "trabalho" é descrito por Elias Carneiro do Nascimento, morador da Lagoa dos Negros e neto de uma das discípulas de João Cosmo:
Elias – a minha avó, essa que era discípula dele, contava pra nós que na Almofala ele invocou-se e disse que tinha essa lagoa aqui. Então eles juntaram um povo, a minha avó sendo discípula dele e essas Camilo, quer dizer, elas eram discípulas porque ele trabalhava e elas trabalhavam também, nessas prece que trabalha, baixa caboclo e ele sendo pajé como era. Aí tentaram descobrir a lagoa e juntaram um bocado de gente. Vamos supor, aqui fazia um terreiro, fazia um terreiro e ele botava a mesinha dele ali e fazia o trabalho dele ali. Então, tinha um mestre balizador, ta entendendo? Aquele mestre balizador chegava e apontava; apontava o canto pra onde era. Aí quando terminava o serviço de noite, bem cedo os homem metia a foice no mato abrindo travessão. Trabalhavam o dia todim; era uns trabalhando e outros buscando munição pra comerem, se alimentarem. Trabalhava o dia todim. Quando terminava o dia, ali fazia outro terreiro e ia trabalhar de novo. Aí quando este caboco chegava aí balizava. Quando amanhecia o dia os homens metia a foice no mato que tinha balizado, até chegarem aqui (Elias Carneiro, Lagoa dos Negros, 03/01/2014 apud Lopes, 2014, p. 52).
Segundo Ronaldo Lopes, no universo simbólico-religioso dos Tremembé, a manipulação de certos elementos da natureza se dá por intermédio dos "encantados", entidades sobrenaturais que auxiliam os índios de diversos modos. Entretanto, somente os iniciados na ciência do índio podem vê-los e se comunicar com eles. Sobre o topônimo Lagoa dos Negros, a moradora Rita França esclarece "aqui de primeiro só morava nêgo e aí era só os nêgo mesmo! Era os... sem terra, sem morada, era tudo era casinha de palha [...] tudo tinha suas casinha, mas era tudo assim" (Lopes, 2014, p. 74). É possível que essa população negra que se aglomerou nessa região seja remanescente de escravizados, que na época da descoberta da lagoa seriam recém libertos. É provável que, na visão dos brancos, não existisse grande distinção social entre negros e indígenas, sendo referidos como um único grupo, mais marginalizado.
Em 1920, houve um conflito do grupo estabelecido em Lagoa dos Negros e o fazendeiro Doca Sales, de Acaraú. De acordo com Patrício (2010), Sales teria comprado uma primeira parte da Lagoa dos Negros diretamente dos indígenas, usando como moeda de troca farinha, fumo, café em caroço, rapadura, tecidos entre outros itens de primeira necessidade. Em seguida teria proposto as famílias a instalação de currais de gado no local, que seria cuidado pelas mesmas. Entretanto, visando expulsá-los, Sales teria soltado o gado, que invadiu os roçados dos moradores, forçando-os a deixar o local. O processo de expulsão foi completado pouco tempo depois, com a chegada de Manoel Gomes Sales, conhecido como Déo Sales, filho de Doca.
Como explica Ronaldo Lopes, a saída da Lagoa dos Negros leva a divisão dos grupos familiares entre diversas localidades próximas:
O primeiro se deslocam para Gameleira, um lugarejo próximo a Lagoa dos Negros e que pouco tempo depois foi tomado por Déo Sales, que os obrigou a partir novamente. Da Gameleira um grupo se destaca alguns poucos quilômetros a oeste, fixando-se em Pedrinhas. Esta área tinha aproximadamente uma légua em quadra e fora dividida em sete pedaços referentes a sete grupos da família Carneiro. Um segundo grupo ocupa uma pequena área de 400 braças ao norte de Pedrinhas e denominam de Córrego dos Fernandes. Destes, algumas famílias avançam e se fixam em Aroeira. O terceiro grupo, se desloca para Queimadas, enquanto o pajé João Cosmo foi para o Córrego da Onça, pequena localidade encravada entre Pedrinhas, Telhas e Queimadas, de lá saindo apenas para o Lameirão, em Almofala (Lopes, 2014, p. 59).
Em Lagoa dos Negros funcionou a fazenda até a década de 1990, quando entra em decadência e seu último proprietário, Joaci Pinto da Cunha, vende para o INCRA. Em 1997, após uma ocupação pelos descendentes dos tremembés e outras pessoas da região, a Lagoa dos Negros foi desapropriada e transformada em Projeto de Assentamento – PA. Inicialmente projetado para abrigar 92 famílias, em 2014, o assentamento possuía 79 famílias. Mais de 90% dos assentados vieram de Pedrinhas e Córrego dos Fernandes.
Telhas
Cerca de cinco quilômetros a sudoeste da Lagoa dos Negros está a localidade de telhas, uma das que recebeu os indígenas expulsos no primeiro assentamento Tremembé. Os dois ramos familiares que se fundiram para formar essa comunidade derivam das famílias de Manoel Rufino dos Reis, vindo de Almofala, e, posteriormente, Luis Paulo do Nascimento, que ficou mais conhecido como Luis Sabino, vindo da Lagoa dos Negros. Os dois ramos se juntam quando Manoel Rufino oferece sua filha para casar com Luis Sabino "para que os dois ficassem governando a terra em Telhas". Desta união, constitui-se a linhagem das famílias que até hoje ocupam o local, os Nascimento. A terra que ocuparam media 1.200 braças de frente por meia légua de fundo (Silva, 1999).
Como explica Ronaldo Lopes, logo após a chegada de Sabino, é a vez de seu primo Francisco Chicute, filho de João Cosmo, se juntar à nascente comunidade familiar ao casar-se com Benvinda, irmã da esposa de Luis Sabino. Portanto, os dois primos casam-se com duas irmãs. Como Chicute também morou no Córrego dos Fernandes, deixando descendência neste lugar, este segmento familiar de Telhas faz parte de uma unidade maior denominada "Os Chicute", cujas ramificações, além dos dois lugares citados, se estendem á Lagoa dos Negros, onde mora um de seus netos.
A origem dos conflitos que sucederam a uma série de negociações tem início com a chegada de dois irmãos, Manoel Antônio e Manoel Joaquim Pereira, oriundos do município de Bela Cruz, que pedem "um pontinho para colocar do gado" (Silva, 1999, p. 51). Com a permissão de Rufino, os dois irmãos e suas respectivas famílias vão gradativamente se estabelecendo no local e fazendo benfeitorias. Em 1938, José Vicente, sogro de Manoel Joaquim Pereira, vende as benfeitorias (a cacimba e alguns pés de cajueiro) para José Jorge de Vasconcelos. Este último era genro de Manoel Antônio.
No mesmo ano, comprador e vendedor vão ao cartório oficializar a negociação, juntamente com Luis Sabino, que após a morte de seu sogro se constitui como proprietário da terra de Telhas. As 1.200 braças são então divididas em duas partes, tendo como marco o leito do Córrego das Telhas. Luis Sabino e sua família ficam na parte de cima do córrego, cabendo a José Jorge a parte de baixo. Alguns anos mais tarde, José Jorge, ao vender as terras para o Pe. Odécio Loiola, pároco de Bela Cruz, contesta a divisa de 1938, afirmando que, ao invés do rio, a estrada delimitaria a fronteira entre os terrenos.
Luis Sabino teria aceitado abrir mão de 200 braças em respeito à posição religiosa do padre. Mas, segundo o relato de seus descendentes, entre 1938 e a década de 1950, o Padre tenta se apropriar do restante da terra, exigindo que Luis Sabino pague renda pelo usufruto da terra. Sabino resistiu e se negou a pagar renda e, após várias viagens à pé para a capital do estado, consegue, finalmente, o registro das 500 braças de terra em 1955 no Cartório do 2º Ofício de Acaraú.
A partir de 1985, as terras da comunidade de Telhas voltaram a ser alvo do interesse de fazendeiros e comerciantes, desencadeando novos conflitos fundiários marcados por violência e opressão. Em 1986, o comerciante e tabelião de Acaraú Francisco Felipe da Rocha, o “Sassico”, alegou ter comprado as 500 braças de terra ocupadas pelas famílias e, valendo-se de sua influência cartorial, promoveu ações judiciais para obter a posse, embora os moradores afirmassem possuir documento de 1955. Após decisões desfavoráveis na Justiça de Acaraú, ocorreram duas incursões violentas contra a comunidade, envolvendo policiais militares e familiares de Sassico, com prisões, agressões, destruição de casas e a morte posterior da esposa de uma das lideranças em decorrência das agressões sofridas.
As famílias, contudo, permaneceram na terra e receberam lonas do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Acaraú, que constituiu uma das poucas instituições a apoiá-las naquele período. Posteriormente, Sassico vendeu a propriedade ao fazendeiro de Marco Francisco Assis de Souza, o “Chico Jovino”, que restringiu os moradores a 100 braças e passou a cobrar renda pelo cultivo nas demais áreas, além de apropriar-se dos mais de 400 cajueiros existentes. Durante a década de 1990, a cobrança de renda, as ameaças e o controle sobre a produção agrícola intensificaram a exploração dos moradores, contribuindo para o surgimento da luta pela retomada da terra e pelo reconhecimento da comunidade como indígena Tremembé.
Queimadas
Queimadas é outra localidade originada através dos Tremembés que habitavam a Lagoa dos Negros. A família do Sr. Manoel Ferreira do Nascimento teria sido a última a deixar a região, após serem expulsos por Doca Sales, que mobilizou a polícia de Acaraú para expulsá-los. O episódio é narrado pelo Sr. Cecídio Ferreira do Nascimento, então com 86 anos:
"... vimo a polícia chegando dois soldados, um sargento e ele Doca Sales , veio chegou, nesse tempo quem sabia o que era polícia, ninguém sabia. Ai o que ele faz, os outros quando viram a polícia correu gente pra tudo quanto é lado. Eram muitos tudo tinha filhos, já filho grande, espirrô todo mundo e o papai com onze filhos como é que iam me carregar, eu ainda estava nos cueiros e minha mãe contava tudo pra gente. Tínhamos uma roça grande, o milho já bonecando, contando o que ele faz, o meu pai suspendeu a cabeça e foi e disse: é seu Doca Sales uma andorinha só não faz verão, os outros tudo correram e eu não posso correr, porque se eles tivessem tudo aqui cada qual tinha dado uma opinião e todo mundo podia ter ficado. Mas ele ficou sozinho com onze filhos ia fazer o quê? Se cobrindo com um cesto? E disse ainda meu pai: só tenho uma palavra pro senhor, o senhor é rico e pode pagar a polícia pra por nós pra fora, mas saiba disso a terra não é sua, se fosse sua o senhor tinha executado nela, como nós achamos esse rio, a lagoa que bota os bichos pra dentro, o suor que derramei pra dar de comer pros meus filhos, se o bicho comeu o que é meu, ele lhe come também, ai ele baixou a cabeça e foi embora" (Patrício, 2010, p. 28)
Concretizada a saída das famílias, em número de sete, da Lagoa dos Negros, se inicia um percurso até chegarem a Queimadas. Antes passaram curtos períodos de tempo em Gameleira e Pedrinhas, relativamente próximas a Queimadas. Esses dois lugares, além do Córrego dos Fernandes e Aroeira, abrigavam os primeiros grupos que haviam deixado a Lagoa dos Negros, iniciando o segundo período das dispersões. Alguns grupos, inclusive, permaneceram nessas localidades citadas, consolidando sua ocupação.
Após percorrerem um trajeto não muito distante, os Tremembé se fixam num local onde presenciaram uma grande queimada, de causas desconhecidas, que segundo eles, findou apenas na ribeira do rio Acaraú e devastou toda a vegetação existente. Incidente acabou com os recursos naturais disponíveis, dificultando, inclusive a construção de habitações, por não haver materiais disponíveis. Contam que um morador das redondezas chamado Antônio Frutuoso, proprietário de um carnaubal na ribeira do Marco, permitiu que retirassem palhas para construir seus casebres. Esses eventos teriam ocorrido por volta de 1927. Os mais velhos não esclarecem o motivo de seus pais e avós terem decidido se fixar num local tão inóspito, levando em consideração que nas Telhas, por exemplo, onde tinham parentes, o fogo parece não ter chegado.
Nesta época, o grupo era conhecido como Os Camilo, em referência aos irmãos Rita, Teresa, França, Joana, Lió e Silivino Camilo, a maioria com seus respectivos cônjuges. As gerações que vivem em Queimadas descendem predominantemente de Rita Camilo e Chico Barba. É desta união que nascerá os três principais troncos familiares. Das cinco filhas, Maria da Conceição casou-se com Manoel Ferreira do Nascimento, dando início ao núcleo dos Custoso; Maria dos Anjos e seu esposo Félix Francisco dos Santos formam o núcleo dos Félix. Com a morte de Maria dos Anjos, sua irmã Paulina assume a criação de seus filhos e passa a ser a matriarca desta família. Por fim, Maria Carneiro casa-se com João Carneiro daí surgindo o núcleo dos Carneiro. Rosa Condorosa, a outra filha, casa-se com Chico Condorosa, mas não permanece em Queimadas, partindo para a Pindoba, vizinho a Aroeira. Antonio Mariano, um dos sete, regressa com sua família para Almofala (Lopes, 2014, p. 112).
Na década de 1940, com a morte dos três principais chefes de família que chegaram à Fundação de Queimadas, as três viúvas assumem a responsabilidade de conduzir o controle da terra, além de suas respectivas famílias. Maria Conceição, Maria Carneiro e Maria Paulina do Nascimento foram as responsáveis por definirem a organização das unidades domésticas e, posteriormente, a divisão sócio-espacial da terra. Com a ajuda de duas pessoas identificadas por Napoleão e João Bião, do Acaraú, as três matriarcas conseguem a “Escritura Pública de convenção de limites de uma posse de terras no lugar Queimadas”, emitida pelo Cartório de Acaraú em 15 de julho de 1957:
“[...] domiciliadas e residentes no lugar, Baixa dos Carneiros ou Queimadas, desta Comarca pelas outorgantes reciprocamente outorgadas me foi simultaneamente dito o seguinte: (...) que desde o ano de 1927 se apossaram primitivamente e vem ocupando mansa e pacificamente, sem interrupção de uma faixa de terra de criar e plantar, no lugar já reconhecido por Queimadas desta Comarca, que então tinha as seguintes confrontações, ao Nascente com a antiga estrada carroçável Acaraú-Fortaleza; ao Poente com a posse de Antonio Monteiro da Costa, hoje de Romuldo de tal; ao Norte, com terra de Manoel Duca da Silveira, hoje de José Gutemberg Rios, e ao Sul com terra de José Emiliano de Freitas em cuja faísca de terra desde aquela época fincaram suas moradias em casas de taipa, coberta de telhas, abriram cacimbas, e, anualmente vem plantando roçados e fazendo outras culturas, praticando enfim, todos os demais atos inerentes a qualidade de legítimos donos da terra mencionada [...]. 2˚Tabelião Francisco Felipe Rocha" (Patrício, 2010, p. 38-39).
Com os estudos para a instalação do perímetro irrigado do Baixo Acaraú, iniciado em 1983 pelo DNOCS, inicia-se um conflito entre a comunidade de Queimadas e o governo pela posse das terras. De acordo com as lideranças da época, o discurso dos técnicos do DNOCS inicialmente era o de as famílias não seriam removidas. Algum tempo depois o discurso muda e os técnicos passam a argumentar que as famílias seriam indenizadas. Doze famílias receberam uma pequena quantia, segundo dizem, como sinal de que elas não seriam removidas do local. Entretanto, oficialmente isso implicou na venda das terras para a união.
A partir daí, a implantação do perímetro irrigado avançou sobre as terras de Queimadas, especialmente entre 2001 e 2003, com a abertura de estradas, desmatamentos e instalação da infraestrutura hidráulica, reduzindo significativamente a área ocupada pelas famílias. Diante da ameaça de perda do território, as 17 famílias que viviam na comunidade buscaram apoio da Missão Tremembé, da FUNAI e de outras instituições, passando a reivindicar o reconhecimento de sua identidade indígena. Essa mobilização foi influenciada pelas experiências de comunidades Tremembé vizinhas, especialmente Córrego João Pereira, Telhas e Capim Açu, que já articulavam suas demandas territoriais com base no reconhecimento étnico. Em 2003, uma ordem de despejo determinou a retirada das famílias em apenas 72 horas, mas a mobilização de missionários, indígenas, FUNAI, Ministério Público Federal e imprensa conseguiu suspender a ação e, posteriormente, as obras.
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