A História Jijoca de Jericoacoara

Jericoacoara, 1980.

A história de Jijoca de Jericoacoara começa com a incipiente ocupação colonial e posterior abandono da Vila de Jericoacoara, já debatida extensamente em outra postagem. Friso apenas que Jericoacoara foi a primeira sede administrativa do atual território municipal, tendo sido transformado em distrito de Acaraú pela Lei municipal nº 94, de 29 de julho de 1923, e elevado à categoria de vila, como "Serrote de Jericoacoara", pelo Decreto Federal nº 311, em março de 1938. Como distrito, possuía os seguintes limites:

Ao Norte, o mar, desde a enseada de Jericoacoara até o travessão de José Júlio Lousada, em Formosa. A Leste, os distritos de Aranaú e Cruz, seguindo pelo aludido travessão, toma a carroçável que de Sto. Estêvão vai à Lagoa do Monteiro, e dali, pela mesma estrada, vai aos limites do município de Bela Cruz. Ao Sul, o município de Bela Cruz, por uma reta que vai ao Córrego de Dentro, até a estrada de igual denominação, pela qual segue, até os limites de Acaraú com Camocim, na fazenda São Joaquim. Ao Poente, o município de Camocim, desde a incidência referida, passando pela Lagoa das Pedras, até a enseada de Jericoacoara (Araújo, 1971, p. 336).

O Serrote teve pouca prosperidade enquanto pertenceu a Acaraú, principalmente em função distância entre o distrito e a sede. Mesmo as terras da lagoa Jijoca distavam cerca de 50 km de Acaraú, percorridos a pé, a cavalo ou de jumento, entre matas, córregos, rios e lagoas, em viagens de mais de um dia. Por isso, era mais atraente a viagem ao Serrote ou a Camocim, em barcos à vela ou a pé, pela beira-mar, para as compras. Nessa época, existia também um incipiente comércio, muito baseado na troca de farinha por peixeEssa realidade perdurou pelo menos até 1985, quando houve a chegada em grande escala do turismo.

Nesse post nos deteremos mais a história da sede de Jjijoca de Jericoacoara e outras localidades do município. Comecemos pelo topônimo indígena "jijoca" (ji = rã ou sapo + oca = casa), que significa algo como "casa das rãs" (Aragão, 1996, p. 133). Considerando que a sede do município se desenvolveu ao redor da lagoa de mesmo nome, parece traduzir um sentido bem concreto do lugar para os povos ancestrais que a nomearam. Memorialistas locais atestam a presença antiga dos índios Tremembés, o que pode ser visto tanto fenótipo da população, como em vestígios materiais, como utensílios domésticos e uma cacimba, localizada nas terras que pertenceram ao Sr. Leôncio Liberato (Baixio de Jijoca, 22/05/2015).

Antigos moradores da região, como o Sr. João Brandão, reproduzem uma explicação folclórica sobre a origem do topônimo "jijoca", ligada a presença indígena: 

"Antigamente aqui viveu uma tribo de índios que governada por um casal onde um deles era "Ji" e o outro era "Joca", aqui viveram por muito tempo, até que o casal faleceu e a tribo resolveu retirar-se”. Como aquele casal ficou enterrado, na saída os retirantes falaram: “adeus Ji e Joca.” Então aquele adeus, originou o nome do povoado que mais tarde se transformaria nesta bela cidade cearense (Baixio de Jijoca, 22/05/2015).

Primeiros Colonizadores

Além dos povos ancestrais, não se sabe ao certo de onde vieram os primeiros colonizadores. O pesquisador Jorge Teixeira do Nascimento especula que teriam vindo do sertão de Martinópole, iniciando a ocupação das terras por volta do século XIX, como retirantes fugidos da grande seca de 1877 a 1879, que empurrou enormes contingentes do sertão em direção ao litoral. O trabalho seminal desse pesquisador foi fonte de grande parte das informações trazidas nesse texto (Do Nascimento, 2013). Outra fonte, baseada na oralidade, foram as postagens da Página Baixio de Jijoca.

O primeiro ocupante identificado é o Sr. Donato José de Sousa, com sua família, provenientes do local "Barra do Garrote", na atual Amontada, fixado à margem da comunidade de Paraguai, na divisa territorial entre os atuais municípios de Jijoca de Jericoacoara e Cruz. Em algum momento, Donato também teria conseguido terras ao redor da Lagoa da Jijoca, dando, sua descendência, origem a várias famílias, como: Brandão, Ferreira, Sousa e Pereira. Praticamente todas as terras da margem oeste do corpo d'água pertenceram aos seus descendentes.

Os familiares do Sr. Donato de Sousa contam que na partilha da herança, um dos genros teria tentado se apossar de algumas braças de terra, que pertenceriam a outro dos herdeiros, o que resultou em um litígio, resolvido por intervenção do procurador, de Itapipoca, de onde teria mandado uma carta, datada de 27 de março de 1887, restituindo a propriedade. Esse terreno corresponde a onde hoje se localiza a Pousada Lagoonde propriedade dos herdeiros de Sergio Herrero Gimenez, primeiro prefeito de Jijoca de Jericoacoara. A venda dessa gleba de terra teria se dado em 1923, segundo escritura de compra e venda:

Declaro eu abaixo assinado, senhor e possuidor de vinte e cinco braças de terra no lugar dominado Carro Quebrado em denominação de Sítio Santo Eliseu, extremando pelo Nascente em terras do senhor Manuel Ferreira de Albuquerque; pelo Poente com terras do senhor Antônio Lulo de Souza, pelo Norte com terras do senhor Antônio Ferreira Brandão, pelo Sul com terras Manuel Sudário de Carvalho e sua mulher D. Maria Ferreira de Carvalho, no centro dos subscritos vinte braças de terra, se acha encravada uma casa de taipa, coberta de telhas, com duas portas e uma janela de frente, tendo por propriedade um cercado em todo o comprimento da referida terra com as benfeitorias dentro do mesmo cercado; e mais; fecha a frente da casa, as cercas de uma rasante velha, tudo junto; terra casa, cercado e benfeitorias tendo como de fato vendido, tenho aos senhores Marques feito a compra pelo preço e quantia certa de Quinhentos mil reis (500.00) que ao passar este papel as mãos dos compradores, recebi em moeda legal e corrente, por estar pago e satisfeito, transfiro as pessoas dos compradores todo o puder, jus e domínio que tinha desta casa e propriedade vendidas para que estes assim usufruam como sua que fica sendo de hoje em diante, obrigando-me a mim e meus sucessores, fazer esta venda boa e firme e valiosa e responder pela evicção e por a par de quaisquer dúvidas futuras. E para clareza, mandei passar este papel que assino com as testemunhas presentes. Serrote de Jericoacoara, 3 de Dezembro de 1923. Raimundo Neves de Araújo. Testemunhas: João Pereira Dutra e João Raimundo Dutra.

Além do Sr. Donato seguem-se, como patriarcas fundadores de Jijoca de Jericoacoara, agricultores e pescadores que tiravam da lagoa e das terras vizinhas as fontes de subsistência: Francisco Bernardino, José Teixeira de Albuquerque, Cesário Pereira, Francisco Guilherme, Marçal, Joaquim Teixeira, Venâncio, José Dionísio de Sousa, Manoel Liberado, Torres e Manoel Ferreira de Albuquerque. São, no essencial, os troncos a partir dos quais se pode tentar reconstruir a genealogia da sede municipal.

Memórias dos Antigos Moradores

Face a recente ocupação no núcleo urbano, Jorge do Nascimento deu grande importância as memórias dos antigos moradores, coletadas através de entrevistas, as quais reproduzo a seguir. Segundo os relatos, a escala do povoado, ainda em meados do século XX, era diminuta. A primeira entrevistada, nascida em 1943, situa o início da relevância do lugar já no eixo religioso, e confirma a primazia administrativa do Serrote sobre Jijoca no começo do século XX:

Por volta de 1920, às relações administrativas de Acaraú para esta região eram com Jericoacoara, que era o distrito da cidade, e era para lá as pessoas partiam em busca de algo. Os padres de Acaraú iam para lá a cavalo. Jijoca só começou a ser notável, a partir dos anos 1960 com a construção de uma capela que atraiu as pessoas, quando esta se tornou o que é hoje (op. cit., p. 57).

Outra testemunha, um agricultor nativo, nascido em 1956, descreve a Jijoca desse período:

Só existiam 23 casas, em propriedades (terrenos, sítios) individuais, desde a parte Leste da lagoa (Parque Matusa) até o Oeste (atual comunidade de Córrego Perdido) em uma área de aproximadamente 3 km de extensão e ainda não havia ruas, somente um grande beco (estrada) no qual os carros só passariam um de cada vez (op. cit., p. 57).

A Lagoa de Jijoca é apresentada como um fator decisivo para a fixação: garantia terra agricultável, água e peixe em abundância, sobretudo o cará (tilápia). A base alimentar era a farinha de macaxeira e a goma, complementadas por extração de frutas silvestres, feijão e milho nos períodos chuvosos, e pela criação de bovinos, ovinos, suínos e aves — variedade a que, no entanto, nem todos tinham acesso.

O cotidiano de escassez aparece com força nos depoimentos. Uma dona de casa nativa, nascida em 1942, relata a economia de trocas e a busca do sal em Guriú:

Muitas vezes meu marido ia para a lagoa com nossos filhos para tentar fazer a mistura do feijão ou da farinha, passavam horas e chegavam em casa com o urú vazio nos dias ruins para pesca, e todos ficávamos tristes, mas comíamos o que tinha. Carne de gado era gostosa, porque era como uma fruta, pois era difícil aparecer. [...] Arroz também era uma comida difícil, às vezes só aparecia em acontecimentos muito importantes. Muitos itens da alimentação eram buscados longe, o sal era buscado no Guriú (Camocim), era em pedra e precisava ser quebrado com pilão de madeira para ser usável em comida. Aproveitava a viagem pela praia para vender frutas, farinha e/ou trocar com/ou comprar peixes (op. cit., p. 60).

Outra dona de casa, nascida em 1941, reforça o quadro:

A comida era basicamente o feijão, preparado em fogão à lenha em panelas de barro. Arroz só nos domingos, dias santos ou feriados. As viagens eram a pé ou a lombo de cavalos e/ou jumentos. Eram percursos a trabalho, onde era vendido os produtos das comunidades, na maioria trocados por pequenos animais e pescados (op. cit., p. 60).

Um agricultor e pescador da lagoa, nativo, nascido em 1935, fornece um dos poucos dados demográficos concretos da tradição oral — cerca de 23 famílias e algo próximo de 230 pessoas nos anos 1960:

Pescávamos em muitas partes da Lagoa. Havia enorme diversidade de peixes, desde a piaba, cará (tilápia) até mesmo peixes de grandes como camurupim, sendo um modo de providenciar a mistura do feijão ou da farinha. As famílias eram bem numerosas, em torno da média de 10 filhos por cada uma das vinte e três famílias que lembro que havia por aqui (Jijoca) nos anos 1960, mais ou menos 230 pessoas misturando tudo (op. cit., p. 60).

Saúde e lazer eram igualmente precários. Não havia hospital nem posto; a medicina popular — chás de ervas, benzeduras, rezas, promessas e ritos afrodescendentes — fazia as vezes de assistência. Uma dona de casa de 71 anos descreve o peso da distância e da doença:

As pessoas não ficavam muito doentes na época como ficam hoje [...]. Se desse alguma doença mais séria, às vezes sarava sozinho ou senão, ia para Acaraú ou Camocim, ou morria mesmo. [...] Os partos eram difíceis, eu mesmo quase morri no parto de uma das minhas filhas [...]. Minha filha mesmo teve que ser levada a cavalo para Acaraú para se tratar de uma paralisia infantil, sofremos muito (op. cit., p. 61).

O lazer era raro: a comunidade organizava, com raridade, forró pé de serra aos domingos à tarde, pois as moças não tinham permissão de sair à noite; o banho na lagoa não era lazer, mas pesca de sobrevivência.

A Igreja de Santa Luzia e a formação do Núcleo Urbano

No fim dos anos 1950, o padre celebrava missas em Jijoca nas casas de populares, incomodado pela falta de igreja; as missas eram atribuídas a Monsenhor José Edson Magalhães. Em 1962, aceita a ideia da construção de uma capela, os moradores iniciaram a arrecadação de fundos.

O terreno vem da família Teixeira de Albuquerque. O patriarca Manoel Ferreira de Albuquerque, apelidado de Manoel Teixeira, concordou com a doação, mas, já tendo repartido as heranças, dependeu da anuência dos filhos empossados: Felina Teixeira de Albuquerque, Francisco Teixeira de Albuquerque, Maria Teixeira de Albuquerque e Pedro Teixeira de Albuquerque. Com alguma resistência ao pai, os herdeiros cederam terras à igreja.

As relações de propriedade merecem atenção: Pedro Teixeira de Albuquerque havia adquirido a herança da irmã Felina e ampliou sua posse; Maria Teixeira de Albuquerque, casada com José Marçal de Sousa, teve sua herança vendida pelo marido a Paulo Valdemar, excetuado o espaço doado à igreja. Foi também Pedro Teixeira de Albuquerque quem impôs a escolha da padroeira: Santa Luzia, nome de sua filha; conforme a altura da menina se confeccionou a imagem da santa, em pagamento de promessa, após a cura de um filho que liderava o movimento de arrecadação e adoecera de hemorragia.

Igreja Santa Luzia, 1970.

Para lotear e vender terrenos do entorno, o padre orientou dois homens de sua confiança, Gabriel Brandão de Souza e Eliézer Marques, e é dessas transações que nasce o centro urbano e comercial de Jijoca: o dinheiro ia para a obra da igreja, e as pessoas compravam lotes para morar perto. Uma dona de casa, nascida em 1931, recorda os leilões: "todos os sábados aconteciam leilões em Jijoca após a missa. Saíam pelas casas e comunidades vizinhas em busca de doações(op. cit., p. 65). A área da igreja se ampliou com doações de fiéis, chegando a corresponder aos quarteirões do Mercado Público Municipal, dos Correios e da Matriz.

A igreja de Santa Luzia, primeiro monumento público de caráter religioso da comunidade, foi edificada nos anos 1960 e inaugurada em 13 de dezembro de 1963, com a bênção, pelo Pe. José Edson Magalhães, durante os festejos da padroeira (Araújo, 1989, p. 73). A paróquia foi criada por Portaria assinada por Dom Valfrido Teixeira Vieira, desmembrada da Paróquia de Cruz, a pedido do Pe. Manoel Valdery da Rocha, Vigário de Cruz, elevando a Capela de Santa Luzia a condição de Matriz. A instalação ocorreu apenas no ano seguinte, a 27 de outubro de 1988, sendo o primeiro pároco, o Pe. José Edmilson Eugênio Nascimento.

Os limites da paróquia foram estabelecidos da seguinte maneira:

Ao NORTE: Com o Oceano Atlântico, partindo do travessão que divide as terras de Guriú com as de Lago Grande, nos limites da Paróquia de Camocim, até o travessão que divide as terras de José Júlio Lousada, em Formosa. Ao SUL: Com a Paróquia de Bela Cruz. Partindo da Fazenda Solidão (de Domingos Muniz), inclusive, seguindo pela estrada que vai à Fazenda São João (inclusive), passando pelas Fazendas de Isaias Malaquias, João Elias, José de Paula, Baixa dos Vieiras e Fazenda Santa Maria, de Doca Rocha. A LESTE: Com a Paróquia de Cruz. Começando no Oceano Atlântico e seguindo pelo travessão de José Júlio Lousada até a Fazenda Santo Estêvão, indo daí até a entrada da estrada Monteiros-Caiçara, no encontro do travessão de João Batista da Richa pelo qual, em direção ao Sul, vai até os limites da Paróquia de Bela Cruz, em Solidão. A OESTE: Com as Paróquias de Granja e Camocim, pelo Rio Inhanduba, com início nas Fazendas São João e seguindo pelo mesmo rio até o Oceano, no travessão que divide as terras de Guriú (Araújo, 1989, p. 84). 

Décadas depois, já na década de 2000, passou por reforma em parceria com a prefeitura, sob o prefeito franco-espanhol naturalizado brasileiro Sérgio Herrero Gimenez, que lhe imprimiu traços ditos góticos.

A Escola José Teixeira de Albuquerque

A primeira instituição pública de vulto foi a escola. O governo municipal de Acaraú, sob a administração estadual de Faustino de Albuquerque e Sousa, construiu a escola José Teixeira de Albuquerque — assim nomeada em homenagem ao doador do terreno, um dos patriarcas fundadores. Foi inaugurada em 9 de outubro de 1950 pelo prefeito de Acaraú, Manoel Duca da Silveira (avô do deputado estadual Manoel Duca da Silveira Neto). A estrutura resumia-se a uma sala de aula, pátio e residência anexa para o docente.

Sua gestão passou por várias mãos: administrada por professora estadual entre 1952 e 1956, transferida à Prefeitura de Acaraú em 1957, retomada pelo Estado em 1966 e convertida em escola particular a partir de 1978. O ensino ia até o 4º ano primário, com ênfase em Português e Matemática, refletindo a exigência social de então — saber assinar o nome e fazer contas. A partir de 1984, atendendo a pedidos da população ao deputado da região, Domingos Fontes, foram contratadas três professoras, e a comunidade custeou mais duas.

E.E.M. José Teixeira de Albuquerque, 1980.

Em 1986 a escola foi recriada por decreto (nº 18.132, publicado depois no D.O.E.) como Escola de 1º Grau José Teixeira de Albuquerque, recebendo o sistema de Telensino para as 5ª e 6ª séries, e no ano seguinte as 7ª e 8ª séries, mantida pelo município de Cruz. Por concurso, recebeu quadro efetivo em 1998; no mesmo ano instalou-se o Ensino Médio, e desde junho de 2000 passou a ter direção eleita pela comunidade escolar. Já como E.E.M. José Teixeira de Albuquerque, tornou-se referência na CREDE 3, com premiações no SPAECE.

O balneário, a energia elétrica e a visita de Virgílio Távora

Um momento decisivo para o desenvolvimento turístico da sede foi a doação de um terreno à beira da lagoa para a construção do primeiro balneário da região, idealizado por um empresário vindo de fora. Curiosamente, o Sr. Paulo Valdemar, proprietário do terreno, quando questionado se o venderia para a instalação do empreendimento foi categórico "não vendo, mas se você fizer o balneário, lhe faço a doação do terreno" (op. cit., p. 66).

O beneficiário da doação descreve a obra da seguinte forma: "feita a doação, no dia seguinte, comecei a "limpar" o terreno com ajuda de algumas pessoas amigas. Contratei um homem que possuía carro para trazer pedras e finalmente (materiais de construção) e inaugurei o balneário, sem energia elétrica" (op. cit., p. 67).

O balneário virou ponto de encontro, com festas animadas por música regional. O empresário recorda que "para animar, eu contratava os conjuntos, uns tocadores de violas de Fortaleza-CE, e fazia festas em Jijoca, que eram frequentadas por toda a sociedade jijoquense. Eram festas que não tinham briga, nem drogas ilícitas, naquela época, os bêbados respeitavam muito" (op. cit., p. 67).

No início dos anos 1970, o empresário do balneário conseguiu levar a Jijoca o então governador Virgílio Távora (que administrou o Ceará em dois mandatos, 1963-1966 e 1979-1982), acompanhado da primeira-dama Luiza Távora e de uma filha do casal, Tereza Maria Távora Ximenes. Diante de cerca de três mil pessoas — a maioria sem saber quem era o governador —, o anfitrião aproveitou o discurso para pedir energia elétrica.

Segundo a Jorge do Nascimento, o governador prometeu, no ato: "dentro de 90 dias os postes da COELCE chegarão a Jijoca(op. cit., p. 67). A energia elétrica de fato chegou em 1979, embora muitos a rejeitassem de início, para não pagar consumo; por volta de 1984, com a chegada dos aparelhos de televisão, o acesso se generalizou. Manoel Marques, comerciante de Jijoca, convidava a população para assistir novelas em sua casa — cena que dá nome, aliás, à avenida hoje ocupada pelos festejos.

O hospital e a passagem para Cruz

Primeiro Hospital de Jijoca de Jericoacoara, 1980.

O mesmo líder que construiu o balneário mobilizou a população, logo após a visita do governador, para erguer um hospital. Comprou terreno barato — na verdade, obteve nova doação do mesmo proprietário — e narra o empreendimento:

Quando o Governador foi embora, convidei a população que permanecia no balneário, cerca de 1.500 pessoas, para falar com o dono das terras, para ele vender um terreno, para construir um hospital na Jijoca. Ao ver que tinha feito o balneário, disse: Não vou vender o local do hospital, vamos lá ao local que você quer que eu faça a doação (op. cit., p. 69).

A obra chegou a estágio avançado, mas não foi concluída pelo próprio líder:

[...] lá cavamos um buraco, colocamos a pedra fundamental, uma ata dizendo que ali seria construído o hospital da Jijoca. Usamos 140 mil tijolos. Cobri todo o prédio, com madeira de boa qualidade, fizemos os apartamentos para berçários, para os médicos, lavanderia, caixa d'água, e então apareceu o empresário Afonso Henrique Fontes Neto, (que seria assassinado em 1986). Afonso Fontes como era conhecido, com o irmão, o deputado Domingo Fontes [...] Procurou-me e perguntou se eu não poderia fazer uma doação daquele prédio que eles terminariam e inauguraria o hospital [...] Fiz a doação, porém no cartório, esqueci-me de lavrar que o hospital pertenceria a Fundação Afonso Fontes até quando tivesse funcionando [...] (op. cit., p. 69).

Esse detalhe cartorial — a doação sem cláusula de reversão — teve consequências. Com o assassinato de Afonso Henrique Fontes Neto e a emancipação de Cruz, o prefeito de Cruz, João Muniz Sobrinho, apelidado Jonas Muniz, esvaziou o hospital:

[...] levou todo equipamento do hospital, (raios-X, mesa de parto, ar condicionado, etc.), para o hospital da sede do município, que também pertencia a Fundação Afonso Fontes. Jonas Muniz trocou o prédio do hospital de Jijoca, fazendo com que voltasse para Paulo Valdemar, ao preço de um carregamento de castanha (amêndoa) de caju (op. cit., p. 70).

O empreendedor do balneário e do hospital converteu seu prestígio em capital político, sendo eleito vereador duas vezes representando Jijoca no município de Cruz — episódio que a dissertação lê como formação de liderança política regional a partir de obras de infraestrutura.

De Acaraú a Cruz e a emancipação de Jijoca de Jericoacoara

Emancipação Política de Cruz, 1985.

A emancipação política de Cruz, desmembrando-se de Acaraú, deu-se em 14 de janeiro de 1985, pela Lei estadual nº 11.002, unindo a Cruz o povoado de Jijoca, demais comunidades e o distrito de Jericoacoara. Com a emancipação, foi criado o Distrito de Caiçara, ficando o então distrito de Jericoacoara com os seguintes limites:

Ao NORTE — Começando no Riacho Doce até a enseada de Jericoacoara, nos limites do Município de Camocim. AO LESTE — Começando no travessão de João Batista da Rocha, desde a Estrada de CAIÇARA, rumando ao Sul, até os limites do Município de Bela Cruz, em Solidão. Ao OESTE — Com o Município de Camocim, desde a enseada de Jericoacoara, passando pela Lagoa das Pedras, até encontrar a Fazenda São Joaquim, nos limites dos Municípios de Bela Cruz e Camocim. Ao SUL — Começando na Fazenda São Joaquim, nos limites de Bela Cruz e Cruz, até encontrar o travessão de João Batista da Rocha, em Solidão.

Foi nesse novo enquadramento que Jijoca cresceu, impulsionada pela paisagem, pela lagoa, pela festa de Santa Luzia e pela emergência midiática de Jericoacoara nos anos 1980. Em pouco tempo — "apenas seis anos, dois meses e vinte dias" anexada a Cruz, nas palavras do autor —, Jijoca se emancipou. A sequência legislativa relatada é a seguinte: as Leis 50/1990 e 60/1990, esta de 4 de julho, transferiram o distrito de Jericoacoara ao distrito de Jijoca, ambos territórios de Cruz; e a Lei nº 11.796, de 6 de março de 1991, criou o município de Jijoca de Jericoacoara, incorporando Jericoacoara como seu único distrito, em grande parte constituído como Área de Preservação Ambiental. Por essa lei, os limites do município são:

a) Ao Norte com o Oceano Atlântico: É a faixa do litoral compreendida entre a foz do Riacho Guriú e a foz do Riacho Doce no Oceano Atlântico. b) A Leste com o Município de Cruz: Começa na foz do Riacho Doce no Oceano Atlântico, sobe por este Riacho até a lagoa de Jijoca, de onde pelo meio desta vai a foz do córrego do Mourão e sobe por este córrego atá a sua incidência sobre a reta tirada do ponto onde o córrego do Paraguai corta a estrada carroçável Aroeira-Lagoinha para a confluência do córrego de Dentro dos Ferreira com o córrego de Dentro dos Salvino. c) Ao Sul com o Município de Bela Cruz: Começa no ponto no final da alínea anterior e pela referida reta vai até a confluência do córrego de Dentro dos Ferreira com o córrego de Dentro dos Salvino. d) A Oeste com o Município de Camocim: Começa no ponto referido no final da alínea anterior, desce pelo córrego de Dentro até a sua foz no lago do córrego da Forquilha, continua pelo meio deste lago até sua embocadura no Riacho Guriú e desce por este Riacho até a sua foz no Oceano Atlântico.

APAs e o Parque Nacional

Ainda sob Acaraú, foi criada a APA de Jericoacoara pelo Decreto Federal nº 90.379, de 29 de outubro de 1984, a primeira reserva ecológica de praia do Brasil, com área ora indicada como 5.430 ha. Seguiram-se a APA da Lagoa de Jijoca, criada pelo Decreto nº 25.975, de 10 de agosto de 2000, abrangendo 3.995,61 ha entre Cruz e Jijoca de Jericoacoara; e o Parque Nacional de Jericoacoara, criado pelo Decreto de 04 de fevereiro de 2002, que reduziu a APA anterior. Em 15 de junho de 2007, a Lei nº 11.486 redefiniu os limites do Parque, acrescentando um manguezal de 400 ha nos limites de Jijoca e Camocim e incorporando ao Parque a comunidade de Guriú (Camocim), ao extremo oeste, elevando a unidade a 8.850 ha. Em 12 de julho de 2007 foram oficializados três acessos por guaritas: em Mangue Seco e Lagoa Grande (Jijoca de Jericoacoara) e no Preá (Cruz). O território municipal é de 204,792 km², dos quais cerca de 18% em área de proteção ambiental.

Mangue Seco e o assentamento Guriú

Entre os núcleos litorâneos, Mangue Seco recebe tratamento à parte como "pequeno e histórico lugar". Situa-se a 5 km a sudoeste da praia de Jericoacoara e a 18 km da sede, fazendo divisa com Guriú (Camocim) e com o Córrego da Forquilha. Os primeiros ocupantes teriam vindo da comunidade de Pedra Branca, morando em casas de taipa e palha; parte da população deslocava-se a Camocim para estudar. O nome tem explicação atribuída aos índios e, também, uma versão dos pescadores: o rompimento de barragens naturais entre a água salgada e a água doce do córrego teria alagado e depois secado a parte baixa do mangue, esbranquiçando a vegetação morta, que servia de referência para o retorno à terra.

A dimensão mais relevante para a história política do município, porém, é a organização comunitária de Mangue Seco. Em 1985, ainda no tempo de vinculação a Acaraú, um conflito de terras resultou na desapropriação de área para reforma agrária e na criação do Assentamento Guriú, composto pelas comunidades de Mangue Seco (Jijoca de Jericoacoara), na divisa com Guriú, e do Córrego do Braço (Camocim). A comunidade, detentora do maior número de eleitores, teve participação direta na emancipação de Jijoca de Jericoacoara e na eleição de seu primeiro prefeito, o já citado Sérgio Herrero Gimenez — franco-espanhol residente na região desde a década de 1970, explorador de amêndoa de caju e um dos pioneiros do turismo de Jericoacoara.

O acordo político é documentado por Holanda (2006):

No processo de negociação de apoio à candidatura do espanhol, ficou acertado que o mesmo apoiaria a campanha de um membro da comunidade ao cargo de vereador. O escolhido pela comunidade foi Araújo Marques Ferreira, presidente da Associação Comunitária, que foi eleito vereador com 219 votos [...] Sérgio Herrero foi eleito [...] com 1.921 votos. A eleição foi em 1992 e o espanhol, ainda, fez a maioria dos vereadores. A comunidade de Mangue Seco na época tinha a fama de ser a mais organizada da região [...] Araújo Marques Ferreira logo se tornou o primeiro assentado no Ceará a presidir uma câmara de vereadores.

Com a lei de 1996 que vedava a reeleição e tornava inelegíveis parentes até o segundo grau, o prefeito Sérgio Herrero lançou Araújo Marques Ferreira como sucessor.

Jericoacoara: de colônia de pescadores a destino turístico

Enquanto a sede se formava em torno da igreja e da lagoa, o antigo Serrote seguia como colônia de pescadores. Em 1984, o povoado tinha 580 habitantes, com 48,8% da população com até 15 anos, e os jovens emigravam por falta de emprego. A pesca artesanal — com caçoeira, tarrafa, linha de mão, canoa e, para poucos, o dispendioso curral — era a principal atividade, complementada pela agricultura de coco, feijão e raízes. A divisão da renda da pesca era desigual: 25% ao dono da embarcação, 37,5% ao dono da rede e o restante repartido entre quatro pescadores, cada um ficando com 9 a 10% do pescado; e os donos das canoas eram, em geral, os próprios comerciantes de farinha e goma, o que revela exploração já entre os nativos.

A "descoberta" externa foi rápida e midiática. O interesse turístico inseriu Jericoacoara em roteiro internacional em 1983; naquele ano, o Decreto Municipal nº 03, de 31 de julho de 1983, declarou a praia área de interesse público para desapropriação e preservação paisagística. Em dezembro de 1984, a Revista Geografia Universal publicou a reportagem "Jericoacoara: Um Paraíso no Ceará", de Nass. Sob o slogan "Salve Esta Praia", veio o Decreto Federal nº 90.379, de 29 de outubro de 1984, criando a APA. Em 15 de março de 1987, o The Washington Post classificou Jericoacoara entre as dez praias mais bonitas do mundo. A Rede Globo exibiu o lugar no Fantástico nos anos 1990 e ambientou ali cenas da novela Tropicaliente, em 1994 — marcos da explosão da demanda turística, então sem qualquer infraestrutura. Associa-se esse momento a um uso instrumental do diagnóstico ambiental: encomendado por um vereador de Cruz para preservar o lugar, o estudo teria acabado por divulgá-lo.

Diego Carneiro

21 de julho de 2026 

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. A História de Jijoca de Jericoacoara. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 21 de julho de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/07/as-terras-da-jijoca.html

Referências

ARAGÃO, R. Batista. Cronologia dos municípios cearenses. Barraca do Escritor Cearense, 1996.

ARAÚJO, Nicodemos. Município de Acaraú, Notas para sua história. Acaraú, 1971.

ARAÚJO, Nicodemos. O Município de Cruz. Acaraú: Editora Esteves Tiprogresso, 1989.  

HOLANDA, Francisco Uribam Xavier. Capital social e desenvolvimento. A participação política dos trabalhadores rurais de Mangue Seco. Em publicación: La construcion de La democracia em El campo latino americano. De Grammont, Hubert C. CLACSO, Consejo Latino americano de Ciências Sociales, Buenos Aires. Marzo. 2006.

NASCIMENTO, Jorge Teixeira do. Mudanças e embates no município de Jijoca e no núcleo indutor do turismo de Jericoacoara-CE. 2013. 169 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Gestão de Negócios Turísticos) – Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2013.

De Matheus Mendes de Vasconcellos a João Baptista de Vasconcellos

Imagem plausível de Matheus Mendes de Vasconcellos (1706-1793).

Mateus Mendes de Vasconcelos nasceu no mês de agosto de 1706, em Travanca, Amarante, Porto, Portugal, filho do Capitão-mor Mateus Mendes de Vasconcelos e Maria Ferreira Pinto Brandão (abaixo).

Transcrição:

Matheus, filho de Anna Carvalho, solteira. do lugar do Bouço desta freguesia e couto de Travanca, foi baptisado por mim o Pe. Coadjutor Manoel Careiro Garcias em os quinze dias do mês de agosto de mil setecentos e seis, Foram padrinhos Marcel da Cunha, do lugar de Bouço e Catharina Carvalho, filha de outra Catharina Carvalho do mesmo lugar e freguesia de Travanca, e lhe pus os sanctos óleos, de que fiz este termo e assingnei. Pe. Mangel Cameiro Garcias, coadjutor (Livro Misto nº 3, Freg. de Travanca, Amarante, 1690-1738, fl. 52).

Mateus emigrou para o Brasil após a morte de sua mãe, em 1735, encontrando-se na Ribeira do Acaraú já no início da década de 1740. Aqui casou-se com Maria Ferreira Pinto Brandão, filha do Tenente Manoel Ferreira Fonteles e de sua mulher Maria Pereira, em 19 de setembro de 1743. Foram residir na Fazenda Curralinho.

Termo de Casamento:

Aos dezenove do mês de setembro de mil setecentos e quarenta e três annos, feitas as diligências necessárias e corridos os banhos sem se descobrir impedimento algum canonnico como consta da certidão delles que fica em meu poder, em minha presença e das testemunhas o Rdo. Pe. Mestre Frey Luiz Barreto e o tenente-coronel Manoel Ferreira Fonteles, pessoas conhecidas, se receberam solenemente por palavras de presente na forma do Sagrado Concílio Tridentino, Matheus Mendes de Vasconcelos, filho legítimo de Matheus Mendes de Vasconcelos e de sua molher Anna Carvalho, natural da freguesia de Refoljos, arcebispado de Braga, e assistente nesta freguesia do Acaracu, com Maria Ferreira Pinto Brandão, filha do tenente Manoel Ferreira Fonteles e de sua molher Maria Pereira, natural desta freguesia de N. Sra. da Conceição do Acaracu, Bispado de Pernambuco, e logo receberam as bênçãos nupciais, de que fis este assento e assigni. Pe. Lourenço Gomes Lelou, cura e vigário da Vara do Acaracu. Pe. Frei Luiz Barreto. Ten.-Cel. Manoel Ferreira Fonteles.” (Livro de Casamentos de Sobral, 1742-1779, fl. 86 v. apud Araújo, 2000, p. 85) 

Em 1788, Mateus Mendes declarou a Câmara de Sobral as seguintes propriedades (Frota, 1974, apud Araújo, 2000, p. 86-87):

  • Fazenda Curralinho, medindo "duas léguas de terra de comprido com uma de largo, às margens do rio Acaraú, tudo de uma só banda, que principia das extremas de Agostinho Moreira Moura (São Joaquim) e finda com terras de Caetano Soares Monteiro (Lagoa do Olho d'Água)".
  • Sitio Sobrado, de plantar lavoura,... Sousa e findam com terras de José Ferreira Brandão, seu filho.
  • Fazenda Salgado, medindo “meia légua de terra de comprido por uma de largo para uma só banda do rio Acaraú, que principia das terras do filho Manuel Francisco de Vasconcelos (Marco) e finda com terras do capitão Manoel Ferreira Fonteles no sítio denominado Tucunduba”.
  • Fazenda Pedras de Fogo, “medindo meia légua de comprido e 600 braças de largo, de uma só banda do rio Acaraú, que principia nas testadas das terras de Manuel Carneiro da Costa (Sapó) e finda com terras dos herdeiros do defunto Cláudio de Sá Amaral” (Santana).

Mateus Mendes de Vasconcelos e Maria Ferreira Pinto Brandão foram pais de:

1. Sargento-mor Manuel Francisco de Vasconcelos, c.c. Maria Joaquina da Conceição, filha de Luís de Sousa Xerez e Ana Teresa de Albuquerque, em 26/11/1767. O casal foi residir na fazenda Marco, hoje sede da cidade, e posteriormente no Salgado.

2. Alferes José Ferreira Brandão, c.c. Francisca de Sousa, filha de Tomás da Silva Porto e Nicácia Alves Pereira, em 02/03/1767, na Matriz da Caiçara. O casal foi residir na fazenda Pedras de Fogo.

3. Antônio Mendes de Vasconcelos, b. 05/1756. c.c. Ana Joaquina de Jesus, filha de Domingos Ferreira Gomes e Maria Alvares Pereira, em 05/02/1777, na fazenda Jaibaras de Cima, propriedade do sogro. O casal foi residir no Areal, onde Ana Joaquina f. 27/08/1795. Antonio Mendes c.c. (2) Teodora Inácia de Menezes, viúva de Antônio Soares Apoliano Bulcão, em Uruburetama. Antonio Mendes f. 06/01/1816, de tuberculose.

4. Joaquim Ferreira de Vasconcelos, n. 1757. c.c. Ana Maria do Espírito Santo, filha de Manuel Ferreira Fonteles Filho e Ana Maria da Conceição, na capela de Santana do Acaraú, em 29/07/1793. O casal passou a residir no Curralinho. f. 03/10/1800.

5. Tenente Alexandre Pereira da Rocha, n. 25/02/1760. c.c. Tomásia Ferreira Fonteles, filha de Manuel Ferreira Fonteles Filho e Ana Maria da Conceição, em 09/09/1792, na capela de Santa Cruz (Bela Cruz). O casal passou a residir no Curralinho. Tomásia f. 28/10/1798. Alexandre c.c. (2) Francisca Maria de Jesus, filha do capitão Antônio de Sousa Carvalho e Maria do Nascimento, em 26/11/1801. Francisca Maria f. 14/05/1826. Alexandre c.c. (3) Inácia de Menezes, filha de Inácio Bezerra de Menezes e Maria Madalena de Sá. O termo de casamento não foi encontrado.

6. Rosa Maria da Conceição. c.c. ajudante Manoel Carneiro da Costa, natural de Jaboatão, filho de João Carneiro da Costa e Teresa de Jesus, em 09/01/1766. O casal foi residir na fazenda Sapó. Deste matrimônio provém a numerosa família Carneiro. Manoel Carneiro f. 17/12/1811. Rosa Maria f. 1814.

7. Ana Maria de Vasconcelos, b. 27/12/1750. c.c. português Manoel Lourenço da Costa, filho de Manoel Lourenço da Costa e Suzana Lourenço da Costa, em 05/10/1767, na capela de Santana do Acaraú. O casal foi residir na fazenda Olho d'Água. Ana Maria f. 14/04/1786. É tronco da família Lourenço.

Mateus Mendes de Vasconcelos faleceu no dia 7 de janeiro de 1793, aos 90 anos de idade:

"Aos sete de janeiro de mil setecentos e noventa é trás faleceo com os sacramentos Matheos Mendes de Vasconcelos, de noventa annos de idade pouco mais ou menos, cazado que foi com Maria Ferreira Pinto, foi o Corpo sepultado na Capela de Santa Anna, filial desta Malriz do Sobral em habito da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, de que era Irmão Terceiro, do que para constar liz este termo e assignei. Bazilio Francisco dos Santos. Cura & Vigario da Vara de Sobral” (Livro de Óbitos de Sobral. 1774-1798, fl. 199 v apud Araújo, 2000, p. 88).


Manoel Lourenço da Costa

Manoel Lourenço da Costa nasceu a três de março de 1737, no lugar da Casa Nova, Freguesia de Duas Igrejas, Concelho de Penafiel, Porto, filho de Manoel Lourenço da Costa e de Suzana Lourenço da Costa, natural da Freguesia de São João de Guilhufe, Penafiel. Neto paterno de Manoel Correia e de Catarina Lourença. Neto materno do Abade de Real, o Reverendo Tomás Pereira do Lago, e de Angélica de Matos, esta filha de Manoel de Matos e de Isabel Garcia (Lima, 2016, p. 1934).

Termo de batismo de Manoel Lourenço da Costa:

Transcrição:

Manoel, filho legítimo de Manoel Lourenço e de sua mulher Suzana da Costa, do lugar da Casa Nova, desta Freguesia de Santo Adrião de Canas de Duas Igrejas, nasceu aos três dias do mês de março de 1737, foi batizado aos cinco dias do mesmo mês em esta Igreja Paroquial de seus pais, por mim Antônio Coelho, Reitor desta Freguesia; foram padrinhos, Antônio de Souza, viúvo, do lugar dos Quintais, e Joana, solteira, do lugar da Casa Nova, ambos desta Freguesia; foram testemunhas, Simão da Rocha, do lugar do Eiro, e Manoel de Souza, do lugar da Castanheira de Cima, ambos desta Freguesia, de que fiz este assento no mesmo dia em que assinei, Padre Reitor Antônio Coelho” (Livro de Batismos, Matrimônios e Óbitos, Santo Adrião, Duas Igrejas. 1588/1805, fl. 52).

Manoel Lourenço da Costa, de idade 30 anos e sete meses, casou-se, a 05 de outubro de 1767, de manhã, na Capela de Santana do Acaraú, dispensado no impedimento de consanguinidade, com Ana Maria de Vasconcelos, batizada a 27 de dezembro de 1750, 27 anos de idade, filha de Mateus Mendes Vasconcelos, e de Maria Ferreira Pinto Fonteles (Lima, 2016, p. 1934). Segundo Pe. Sadoc, o casal foi residir na fazenda Olho d'Água.

Transcrição:

Aos cinco dias do mês de outubro de mil setecentos e sessenta e sete, de manhã, na Capela de Sant'Anna, filial desta Matriz de Nossa Senhora da Conceição da Caiçara, feitas as denunciações, na forma do Sagrado Concílio Tridentino, na dita Matriz onde os nubentes são moradores, é a nubente na natural, e o nubente firmados banhos do Recife, onde morou, a certidão de batismo, onde sua naturalidade a Freguesia das Duas Igrejas, do Bispado do Porto, e juizando ambos perante o Reverendo Doutor, livrados o impedimento de consanguinidade, sem impedimento, como tudo consta dos banhos encomendados de casamento que ficam em meu poder, em presença de mim, cura João Ribeiro Pessoa e das testemunhas o Capitão Manoel José Mendes, Luiz de Souza Xerez e Francisco do Rego Baldaia, casados, moradores desta freguesia, receberão em... igreja solenemente por... Manoel Lourenço da Costa, filho legítimo de Manoel Lourenço da Costa e de Suzana Lourença da Costa, naturais da dita Freguesia de Duas Igrejas, com Ana Maria de Vasconcelos, filha legítima de Matheus Mendes, natural da Freguesia do Arcebispado de Braga e de Maria Ferreira Pinto, natural desta freguesia.... (Livro de Casamentos de Sobral, 1741-1769, fl. 127).

Foram pais de:

1. Rosa Maria de Vasconcelos c.c. José Gomes de Albuquerque, filho de Antônio Gomes de Albuquerque e Maria Teresa de Jesus, em 28/10/1806, na Igreja Matriz de Sobral.

2. Quitéria Maria da Encarnação c.c. Antônio José do Espírito Santo, filho de João da Silveira Dutra e sua segunda mulher Maria da Conceição, em 28/07/1800, no sítio Mucambo.

3. Maria Lourença da Costa c.c. Joaquim Carneiro da Costa, filho do ajudante Manoel Carneiro da Costa e Rosa Maria da Conceição, em 30/04/1804, na Igreja Matriz de Sobral.

4. Ana Maria do Espírito Santo c.c. Domingos da Cunha Linhares (Neto), filho de Francisco Lourenço Gomes e Suzana Maria de Araújo, em 12/08/1788, na Fazenda Curralinho.

5. José Francisco de Vasconcelos c.c. Teresa Maria da Soledade, filha do capitão Domingos Rodrigues Lima e Maria da Soledade Linhares, em 22/02/1797, na Fazenda Caraúbas. c.c. (2) Rita Francisca Frota Cavalcante, filha de João Nepomuceno de Albuquerque (Cavalcante) e Caetana Gomes da Frota, em 23/09/1819, na Igreja Matriz de Sobral.

6. Manoel Lourenço da Costa Júnior c.c. Ana Maria da Soledade, filha do capitão Domingos Rodrigues Lima e Maria da Soledade Linhares, em 22/02/1797, na Fazenda Caraúbas.

7. Francisco José de Vasconcelos c.c. Nicácia Alves Pereira, filha de Tomás da Silva Porto Júnior e Teresa Maria de Jesus, em 26/08/1805, na Igreja Matriz de Sobral.

8. Inácio José de Vasconcelos c.c. Joana da Costa Medeiros, filha de Tomás da Silva Porto Júnior e Teresa Maria de Jesus, em 26/08/1805, na Igreja Matriz de Sobral.

9. Gonçalo José de Vasconcelos c.c. Maria Joaquina Mendes Vasconcelos, filha de Joaquim Pereira Dutra e Angélica Maria de Jesus.

10. Tomásia Maria do Espírito Santo, n. 18/10/1768.

11. Vicente Ferreira da Rocha, n. 19/12/1780. Casou-se duas vezes, sendo a primeira com Teresa de Jesus da Comemoração, filha de João de Sousa Uchoa e Anna Maria de Jesus, em 07/01/1805. A segunda com Alexandrina Alves da Costa, filha de Manoel da Silveira Dutra e Maria Álvares Pereira, em 02/02/1831. Também teve filhos com Rita Maria de Jesus.

Ana Maria de Vasconcelos faleceu em 14 de abril de 1786, deixando Manoel Lourenço, então com 49 anos de idade, viúvo.

Transcrição:

"Aos catorze dias do mês de abril de mil setecentos e oitenta e seis anos, faleceu desta vida para outra, Ana Maria, mulher que foi de Manoel Lourenço da Costa, foi sepultada na Igreja Nossa Senhora do Carmo, de que mandei fazer esse termo" (Livro de Óbitos de Sobral 1776-1827, fl. 31).

Manoel Lourenço da Costa, de idade 51 anos, casou-se em segunda núpcias a 12 de novembro de 1788, no Sítio Santo Inácio, Serra da Meruoca, Ceará, com Sebastiana Inácia Ximenes Aragão, n. Meruoca, filha de Tomé Ximenes Madeira Aragão, n. Pernambuco, e de Margarida Nunes Barbosa, de Igarassu, Pernambuco. Filhos por Manoel Lourenço da Costa e Sebastiana Inácia Ximenes Aragão. Foram pais de:

12. Antônio, n. 15/05/1793, b. 10/08/1793, na Fazenda Mucambo, pelo padre Basílio Francisco dos Santos, cura e vigário da Vara de Sobral. Padrinhos: José Ferreira Brandão e sua filha Maria.

13. Rita Lourença da Costa c.c. Alexandre José Soares, filho de Antonio Soares Apoliano Bulcão e Teodora Inácia (Teles) de Meneses, em 24/12/1812.

Manoel Lourenço da Costa faleceu a 28 de agosto de 1815, e foi sepultado na Capela de Santana do Acaraú, 78 anos de idade.


Gonçalo José de Vasconcelos

Gonçalo José de Vasconcelos, filho de Manoel Lourenço da Costa e Ana Maria de Vasconcelos, nasceu a 6 de dezembro de 1779, conforme seu termo de batismo (abaixo).

Transcrição:

"Gonçalo, filho legítimo de Manoel Lourenço da Costa, natural da Freguesia de Duas Igrejas, do Bispado do Porto, e de sua mulher Ana Maria de Vasconcelos, natural desta de Nossa Senhora da Conceição da Vila de Sobral, ambos moradores, neto paterno de Manoel Lourenço da Costa e de sua mulher Suzana Lourenço da Costa, naturais da dita Duas Igrejas, e materno de Matheus Mendes de Vasconcelos, natural de Travanca, Bispado de Braga, e Ana Ferreira Pinto, desta freguesia. Nasceu a seis de dezembro de mil setecentos e setenta e nove, foi batizado nos santos óleos a dezesseis de janeiro de mil oitocentos e oitenta na Fazenda Mucambo, desta Freguesia, pelo Padre Luiz Pereira... de minha licença, foram padrinhos Francisco Ferreira Fonteles e e sua mulher Maria Ignacia Ferreira do Espírito Santo, moradores desta Freguesia..." (Livro de Batismos de Sobral 1777-1783, fl. 122).

Gonçalo casou-se com Maria Joaquina Mendes Vasconcelos, filha de Joaquim Pereira Dutra e Angélica Maria de Jesus (ver termo de casamento do filho Manoel). Foram pais de:

1. Manoel José de Vasconcelos

2. Pacífica, n. 17/08/1824.

3. Maria José Benvinda, f. 29/04/1902.

4. João Mendes de Vasconcelos, n. 27/12/1835.

5. Isabel Armenia de Vasconcelos.

6. Izabel, n. 18/06/1844.

7. José Gonçalves de Vasconcelos.

8. Alexandre Mendes de Vasconcelos.


Manoel José de Vasconcelos

Manoel José de Vasconcelos, filho de Gonçalo José de Vasconcelos e Maria Joaquina Mendes Vasconcelos, casou-se com Theodora Ignacia de Menezes, filha de João de Araújo e de Joaquina Maria de Jesus, em 25 de outubro de 1842 (abaixo).

Transcrição:

"Aos vinte e cinco de outubro de mil oitocentos e quarenta e dois na Igreja de Santa [Cruz] termo da Freguesia de Sant'Anna, nuberam-se em matrimônio os nubentes Manoel José de Vasconcelos, filho legítimo de Gonçalo José de Vasconcelos e Maria Joaquina, com Theodora Ignacia de Menezes, filha legitima de João de Araújo e de Joaquina Maria de Jesus, com assistência do Rdo. Joaquim Alves da Nóbrega, do licenciado Rdo. Padre... Antônio dos Santos de..., sendo testemunhas José Pereira de Vasconcelos, Ignacio José de Vasconcelos..."  (Livro de Casamentos de Acaraú, 1843-1865, fl. 14).

Consta no Livro de Registro de Terras da Freguesia de Santana 1857-1859, as seguintes propriedades declaradas por Manoel José de Vasconcelos

  • Duas posses de terras, uma no Taboleiro Alto e outra na Ilha em nome do órfão José, seu irmão (nº 543, fl. 57);
  • Quatro posses de terra de plantar no Riacho Santa Rita, na Meruoca, em nome de seus irmãos órfãos José, Alexandre, Maria e Isabel (nº 544, fl. 58);
  • Sete posses de terra, sendo uma no Mucambo, outra no Areal, outra no Antonico, pé da Serra do Mucuripe, e quatro no Taboleiro Alto e Ilha (nº 545, fl. 58);
  • Três posses de terra, sendo duas em cima da Serra do Mucuripe e uma no pé da mesma, no lugar Antonico (nº 773, fl. 83).

Manoel José de Vasconcelos e Theodora Ignacia de Menezes foram pais de:

1. Manoel Joaquim Araújo, n. ~1832, c.c. Maria Joana da Rocha Frota, filha de José Inácio Ferreira da Rocha e Rita Reginalda de Vera Cruz, em abril de 1850.

2. Raimundo Araújo de Vasconcelos, n. 09/09/1843, f. 18/02/1931, c.c. Thereza Maria de Jesus, filha de Antônio Faustino da Silveira e Bárbara Félix da Purificação.

3. Maria José do Espírito Santo, n. 1848, c.c. Antônio Herminio de Araújo, filho de José Pedro de Araújo e Ana Jesuína da Conceição, em 12/11/1876. 

4. Ana Joaquina de Maria, n. 27/02/1851, f. 04/12/1876, c.c. (terceira mulher) Alexandre Ferreira de Vasconcelos, filho de Joaquim Ferreira de Vasconcelos e Francisca do Espírito Santo, em 31/07/1875. Alexandre Ferreira de Vasconcelos foi casado duas vezes. À primeira, com Maria das Graças de Vasconcelos e a segunda com Francisca Umbelina de Souza.

5. Rafael Hermano Vasconcelos, n. 12/10/1857, c.c. Maria Petronilha de Vasconcelos, filha de Raimundo Lopes Cavalcante e Maria José Benvinda, em 12 de janeiro de 1882.

6. Joana Jesuína de Vasconcelos, n. 02/06/1860.

7. Francisco de Vasconcelos, n. 21/04/1864.

8. Miguel de Araújo Vasconcelos, n. 05/05/1852, c.c. Francisca Cândida Dias, filha de João Dias de Carvalho e Theresa Maria de Jesus.

9. Maria Lourença de Araújo, c.c. Manoel Ferreira Vasconcelos de Maria, filho de Manoel Antônio Fonteles Junior e Maria Antônia do Espírito Santo, em 14/01/1869.

10. Francisca Teodora de Vasconcelos, c.c. Manoel Ferreira Vasconcelos de Maria, filho de Manoel Antônio Fonteles Junior e Maria Antônia do Espírito Santo, 16/06/1880.

11. Isabel Inácia de Menezes, c.c. (segunda mulher) José Firmino Soares (viúvo de Ana Umbelina, filha de Francisco Anastácio de Sousa e Umbelina do Espírito Santo), e filho de Manoel Policarpo e Francisca Maria de Carvalho, em 13/09/1880.

12. José Joaquim de Vasconcelos, c.c. Maria Catarina Alves, filha de José Mendes de Vasconcelos e Francisca Teodora de Menezes, em 08/01/1881.

13. Antônio Evangelista de Vasconcelos, c.c. Maria do Carmo Vasconcelos, filha de Manoel Ferreira de Vasconcelos e Maria Lourença de Araújo, em 27/02/1886.


Raimundo Araújo de Vasconcelos

Raymundo Araújo Vasconcelos, filho de Manoel José de Vasconcelos e Theodora Ignacia de Menezes (ver termo de Batismo), casou-se com Thereza Maria de Jesus, filha de Antônio Faustino da Silveira e Bárbara Félix da Purificação (registro do neto João Batista).


Transcrição:

"Raimundo, filho legítimo de Manoel José de Vasconcelos e Theodora Ignacia de Menezes, nasceu a vinte e nove de agosto de mil oitocentos e quarenta e três e de minha licença foi solenemente batizado em santos óleos pelo Rdo. João Alves da Nóbrega a vinte e nove de setembro do dito ano. Foram padrinhos João de Araújo Costa e Joana Mª do Nascimento... (Livro de Batismos de Acaraú 1843-1849, fl. 41).

Foram pais de:

1. Maria José da Purificação

2. Pedro Gonzaga de Vasconcelos

3. Ana Perolina de Vasconcelos

4. Francisca Perolina de Vasconcelos

5. José Esmerino de Vasconcelos

6. Antônio Theodoro de Vasconcelos

7. Francisco das Chagas de Vasconcelos

8. Isabel Perolina da Silveira

9. João Evangelista Vasconcelos Silveira

10. Manoel José de Vasconcelos


Antônio Theodoro de Vasconcelos

Antônio Theodoro de Vasconcelos, filho de Raymundo Araújo Vasconcelos e de Thereza Maria de Jesus, viúvo de Maria José Vasconcelos, casou-se em segundas nupcias com sua cunhada, Maria da Conceição de Vasconcelos, filha de Antônio Faustino da Silveira e Bárbara Félix da Purificação (registro do filho João Batista). Ambos eram naturais e moradores da povoação de São Manoel do Marco, sendo Antônio Theodoro marceneiro, profissão que legou ao filho João Batista. Posteriormente, Antônio Theodoro foi também sub delegado de polícia do Marco, como consta na ata que assinou, em 9 de outubro de 1926, em função da instalação do "barracão" do mercado público da Povoação de São Manoel do Marco, como publicado na edição, de 4 de novembro do mesmo ano, do jornal A Imprensa.

Foram pais de:

1. Maria, n. 08/03/1906, b. 13/06/1906 no Marco (Padrinhos: Antônio Ferreira de Sousa e Isabel Lousinda de Araújo);

2. João Batista de Vasconcelos, n. 05/1907, b. 13/08/1907 (Padrinhos: Raimundo Araújo de Vasconcelos e Thereza de Jesus);

3. Francisco de Vasconcelos, n. 18/06/1908, b. 09/07/1908 no Marco (Padrinhos: Antônio Faustino da Silveira e Bárbara Félix da Silveira);

4. Francisco Assis Vasconcelos, n. 12/12/1912;

5. José Patromarte Vasconcelos, n. 22/04/1914, b. 01/09/1914 na Capela do Marco (Padrinhos: Pedro de Vasconcelos e Ana Laura de Vasconcelos);

6. Miguel de Vasconcelos, n. 13/07/1917, b. 22/07/1917 na Capela do Marco (Padrinhos: José Teófilo Fonteles e Francisca Perolina Fonteles);


Vicente Ferreira da Rocha

Vicente Ferreira da Rocha, filho de Manoel Lourenço da Costa e Ana Maria de Vasconcelos, viúvo de Teresa Jesus da Comemoração, casou-se, em segundas núpcias com Alexandrina Alves da Costa, filha de Manoel da Silveira Dutra e Maria Álvares Pereira, em 2 de fevereiro de 1831 (abaixo). 

Transcrição:

Aos dois de fevereiro de mil oitocentos e trinta e um, feitas as diligências do estilo de que não resultaram impedimento algum, cujos papéis ficão em meu poder, na presença do Reverendo Miguel Francisco Mendes de licença minha, se receberão em matrimônio Vicente Ferreira da Rocha, viúvo por falecimento de Thereza de Jesus da Comemoração, sepultada na Capela de Santa Cruz, com Alexandrina Alves da Conceição, filha legítima de Manoel da Silveira Dutra, já falecido e de Maria Alves Pereira, todos naturais desta freguesia de Sobral e foram dispensados do parentesco em que estavam ligados, e para constar mandei fazer este assento e o assinei. O Vigário José Gonçalves de Araújo (Livro de Matrimônios de Sobral 1825-1834, fl. 270).

Registra-se que Vicente Ferreira da Rocha declarou possuir, conforme registrado no Livro de Terras da Freguesia de Santana 1857-1859, as seguintes propriedades:

  • Um quarto de terra no Vermelho, três posses de terra em São Joaquim, uma no Morrinho, duas posses de terra no Areal, três posse de terra no Buraco d'Arara, um posse no Mucambo, uma posse no Olho d'Água, tido ao nascente do Rio Acaraú.  (nº 524, fl. 58);
  • Seis posses de terra, uma no Salgado, outra no Córrego, outra na Volta Redonda, e as outras em São Lourenço, em cima da Serra do Mucuripe, todo ao poente do Rio Acaraú (nº 525, fl. 58);
  • Uma posse de terra na Fazenda do Morro [do Gadelhudo] (nº 528, fl. 58);


Miguel Gervásio de Vasconcelos

Vicente Ferreira da Rocha e Alexandrina Alves da Costa foram pais de Miguel Gervásio de Vasconcelos, nascido a 9 de março de 1845, que se casou com Maria do Carmo Araújo, filha de João Pedro de Araújo e Maria José de Meneses, em 18 de julho de 1870.

Transcrição:

Aos quatorze de julho de mil oitocentos e setenta, na Fazenda Poço d'Araras, feitas as denunciações, sem impedimento, em minha presença e das testemunhas Manoel Lourenço de Maria Costa, Manoel Carneiro de Maria, contraiu matrimônio Miguel Gervásio de Maria Vasconcelos, filho legítimo de Vicente Ferreira da Rocha, falecido, e de D. Alexandrina Alves de Lourenço, com Maria do Carmo de Araújo, filha legítima de João Pedro de Araújo e de D. Maria José de M., ambos naturais e moradores desta freguesia. Estão dispensados dos impedimentos que os ligavam, do que para constar fiz este assento que assino. O Vigário Francisco Xavier Vianna (Livro de Matrimônios de Santana 1852-1885, fl. 266).

Miguel Gervásio de Vasconcelos faleceu em 5 de fevereiro de 1922, na Fazenda Curralinho. Reportagem do Jornal A Lucta, de 11 de fevereiro de 1922, traz o seguinte obituário:

Obituário de Miguel Gervásio de Vasconcelos, 1922.


Antônio Minervino de Vasconcelos

Entre os filhos de Miguel Gervásio estava Antônio Minervino Vasconcelos, tataravô deste que vos escreve. Antônio Minervino de Vasconcelos casou-se com Maria José de Jesus em 8 de janeiro de 1898 na Capela da Mutambeira, Santana do Acaraú (abaixo).

Transcrição:

Aos oito dias do mês de janeiro de mil oitocentos e noventa e oito, na Capela da Mutambeira, nesta freguesia do Bispado do Ceará, de minha licença em presença do Reverendo Francisto Teótime de Maria Vasconcelos, contraentes Antônio Minervino de Vasconcelos e Maria José de Jesus, em tudo habilitados, ele filho de legítimo de Miguel Gervásio de Maria Vasconcelos e Maria do Carmo de Vasconcelos, esta filha de legítima de Antônio Lourenço de Maria Costa e de Ana Profetiza do Amor de Maria, naturais e moradores desta Freguesia de Sant'Anna, ele com vinte e dois anos e ela com dezenove, estando dispensada do parentesco de consanguinidade que os ligavam, os quais receberam por marido e mulher, com palavras de presença segundo o direito, e lhe dou as bençãos nupciais segundo o rito da Santa Igreja Católica, sendo testemunhas Francisco Tobias das Chagas e José Gregório de Maria Vasconcelos, os quais foram conhecidos pelos próprios. E para constar, mandei lavrar este termo que assino. O Vigário Francisco Xavier Nogueira. (Livro de Matrimônios de Santana 1895-1902, fl. 156).

Sabe-se que no começo do século XX ele viveu na região do distrito de São Gonçalo da Mutambeira, onde chegou a ocupar o cargo de sub delegado de polícia, do qual foi exonerado por ato do dia 3 de setembro de 1914, conforme publicado no Diário Oficial do Ceará, Ano 1, Num. 5. No Censo Agropecuário de 1920, ele consta com proprietário da Fazenda Curralinho, provavelmente herdada de seu pai (Brasil, 1920, Sant'Anna nº 66, p. 220).

Mas Antônio Minervino tornou-se conhecido mesmo por sua atuação como médico prático na região de Marco e Morrinhos. É referido também como farmacêutico homeopata, um sistema terapêutico criado pelo médico alemão Samuel Hahnemann no final do século XVIII. Seu princípio fundamental é o da "lei dos semelhantes" (similia similibus curentur), segundo a qual uma substância capaz de produzir determinados sintomas em uma pessoa saudável poderia, quando administrada em doses extremamente diluídas, tratar sintomas semelhantes em uma pessoa doente. Além de Minervino, outro "médico" conhecido, atuante na região era o Sr. João da Mata, de Bela Cruz.

Rua Antônio Minervino Vasconcelos, Marco-CE

Em muitas localidades do interior, onde o acesso a médicos formados era escasso, a população recorria a uma combinação de diferentes formas de cuidado, que iam da medicina acadêmica, homeopatia, fitoterapia (as garrafadas), além, é claro, de curandeiros, benzedeiras e práticas religiosas. Minervino é descrito por testemunhas coevas como um "bom velhinho", possuidor de uma longa barba branca. Sabe-se também que ele atuava como parteiro, sendo, segundo dizem, por sua vasta experiência, capaz até mesmo de determinar o mês de gestação apenas segurando os pulsos da moça. Por seus serviços prestados, há hoje uma rua com seu nome no município de Marco.

Segundo o escritor belacruzense Vicente Freitas, no dia 21 de fevereiro de 1943, Antônio Minervino teria sido chamado as pressas para atender seu saudoso amigo, o líder comunitário Emílio Fonteles da Silveira, que havia sido diagnosticado por outro médico como portador pneumonia. A examinar o Sr. Emílio Fonteles, que já estava desenganado, tendo recebido até o sacramento, Minervino constatou que o diagnostico anterior estava equivocado, e que o paciente sofria, na verdade, de sarampo. O tratamento consistiu na administração de doses homeopáticas trazidas do Marco e na monitoração rigorosa das "biscas" (erupções cutâneas), incluindo a restrição de banhos até a estabilização do quadro. Sob os cuidados de Minervino, Emílio Fonteles obteve a cura definitiva após cinquenta e quatro dias de prostração (Freitas, 2017, p. 188).

Antônio Minervino e Maria José foram pais da minha bisavó paterna, Francisca Minervina de Vasconcelos, nascida a 29 de maio de 1907, no Morrinhos (abaixo).

Transcrição:

Aos vinte e dois de junho de mil novecentos e sete, na Mutambeira, Freguesia de Sant'Ana, Bispado do Ceará, batizei solenemente Francisca, nascida a vinte e nove de maio do dito ano, filha de Antônio Minervino de Vasconcelos e Maria José de Vasconcelos. Foram padrinhos Antônio Soares de Araújo e Maria José de Araújo. Para constar fiz este assento que assino. O Vigário Francisco Theótime de Maria Vasconcelos (Livro de Batismos de Santana 1904-1911, fl. 83).


João Batista de Vasconcelos (João Capoeiro)

João Batista Vasconcelos (1907-1976).

João Batista Vasconcelos, filho de Antônio Teodoro de Vasconcelos e Maria da Conceição de Vasconcelos, nasceu em 21 maio de 1907, na povoação de São Manoel do Marco, segundo o seu termo de batismo (abaixo).


Transcrição:

"A treze de agosto de mil novecentos e sete, no Marco, da Freguesia de Sant'Anna, Bispado do Ceará, batizo solenemente João, nascido a vinte e um de maio do dito ano, filho de Antônio Theodoro de Vasconcelos e de Maria da Conceição. Foram padrinhos Raimundo Araújo de Vasconcelos e Thereza de Jesus. E para constar fiz este assento. O Vigário Francisco Theotime de Maria Vasconcelos" (Livro de Batismos de Santana 1904-1911, fl. 92).

Foi registrado tardiamente, junto com seus irmãos, a 30 de setembro de 1922, já com 15 anos de idade (abaixo).

Transcrição:

"Aos trinta dias do mês de setembro de mil novecentos e vinte e dois, nesta povoação de São Manoel do Marco, do termo de Sant'Anna, da comarca do Acaraú, do Estado do Ceará, em meu cartório compareceu Antônio Theodoro de Vasconcelos e em minha presença e das testemunhas abaixo mencionadas e assinadas, [declarou que as... horas... aos vinte e um dias] do mês de maio de mil novecentos e sete, nesta povoação, em domicílio próprio, nasceu uma criança do sexo masculino que tomou o nome João Batista de Vasconcelos, filho legítimo dele, declarante e de sua mulher, Maria da Conceição de Vasconcelos, casados nesse distrito de onde são naturais, residentes nesta povoação, onde exerce a profissão de marceneiro. Sendo avós paternos da criança Raymundo Araújo de Maria Vasconcelos e Thereza Maria de Jesus, falecidos nesta povoação, e maternos Antônio Faustino da Silveira e Bárbara Feliz da Purificação, residentes nesta povoação. E para constar lavrei o presente termo que vai assinado pelo declarante e as testemunhas José Helvecio da Silveira e Francisco Eduardo Rios, aqui residentes. Eu, José Machabeu Cysne, escrivão o escrevi e assino".

Em 6 de junho de 1928, quando tinha 21 anos, João Batista casou-se com Francisca Minervina de Vasconcelos, também conhecida como Francisca Adalgisa Minervino, da mesma idade, filha de Antônio Minervino de Vasconcelos e Maria José de Vasconcelos, na Capela do Marco.

Transcrição:

"Aos seis de julho de mil novecentos e vinte e oito, feitas as denunciações de direito, das quais não resultou aparecer impedimento algum, em minha presença e das testemunhas Raymundo Nonato de Vasconcelos e Raymundo Nonato da Silveira, na Capela do Marco, receberam-se em matrimônio João Batista de Vasconcelos e Francisca Minervina de Vasconcelos, ambos naturais e moradores nesta freguesia. Ele, filho legítimo de Antônio Theodoro de Vasconcelos e Maria da Conceição de Vasconcelos, ela filha legítima de Antônio Minervino de Vasconcelos e Maria José de Vasconcelos. E logo lhes dei as bençãos nupciais. Para constar, fiz este termo que assino. O Vigário Padre Francisco Arakem da Frota" (Livro de Matrimônios de Santana 1919-1928, fl. 197).

Foram pais da minha avó paterna Maria José Minervino Vasconcelos, nascida em 1937, casada com meu avô Geraldo Frederico Carneiro. Infelizmente, não cheguei a conhecer meu bisavô, mas meu pai conta que era um senhor de fala mansa e católico fervoroso. João Capoeiro, como ficou conhecido, trabalhava como marceneiro no Marco, assim como seu pai. Sua especialidade era fazer baús, na época muito utilizados para guardar roupas. Para saber se a peça era de qualidade, observava o som que esta fazia ao fechar, sendo desejável que fosse abafado e silencioso. Para ilustrar o tamanho de sua devoção a igreja, sabe-se que costumava consultar o pároco local, Padre Apoliano, para determinar se o valor cobrado pelo seu ofício era justo ou não.

Em reportagem do Jornal O Povo, de 30 de janeiro de 1958, quando um estranho fenômeno luminoso foi visto nos céus do Marco, João Capoeiro foi arrolado como testemunha do ocorrido pelo jornalista José Alfredo Silva (Mestre Zé, autor de um livro sobre a história do Marco e que hoje dá nome ao Museu), juntamente com Sebastião Helvécio da Silveira, e Manoel Alpes Rios, por serem considerados "homens que não mentem".

Baixa do Meio.

Sabe-se que, além da atividade como marceneiro, exercia também a pecuária, ainda que para subsistência. Meu pai me conta que, na ocasião do casamento de sua filha, João Capoeiro teria dado ao meu avô Geraldo "uma olaria de fazer tijolos e duas vacas", para que este começasse a vida. Também me disse que João Capoeiro possuía terras na localidade Baixa do Meio, no Marco, cuja procedência não consegui mapear ainda.

Quanto ao epíteto "Capoeiro", não foi possível identificar com certeza o que o teria motivado. Conforme o dicionário DICIO, a palavra Capoeiro se refere ao indivíduo que vive nas capoeiras (no mato), matuto. Também existe o veado capoeiro (mazama americana), cujo couro era muito utilizado na confecção de gibões. Dessa forma, é possível que haja alguma associação.

Entretanto, sabe-se que é de origem familiar, uma vez que seus primos José Valdomiro Vasconcelos (n. 02/11/1928, f. 14/11/2018) e João Ibiapina Vasconcelos (pai do "Loiro Capoeiro"), também eram conhecidos por Zé e João Capoeiro, respectivamente. Outro primo, José Wilson Vasconcelos (n. 22/10/1904, f. 14/01/1987), era conhecido por "Capoeirinho", o que sugere que o pai também fosse conhecido por esse nome. Ademais, um dos filhos de João Batista, Manoel Otacílio Vasconcelos (n. 14/08/1940, f. 25/11/2017), herdou o apelido do pai, sendo conhecido por "Del Capoeiro". Isso indica que a alcunha provavelmente veio do patriarca desse ramo familiar, o já citado Raimundo Araújo de Vasconcelos.

Por volta de 1938, faleceu Dona Francisca Minervina, deixando João Batista, então com cerca de 31 anos, viúvo. Pouco depois, ele casa novamente com Maria da Conceição Silva, filha de Manoel Jacinto da Silva e Anna Odulina na Silva, com quem teve, ao menos quatro filhos conhecidos: Manuel Otacílio (Deo Capoeiro), José, Maria e Socorro. João Batista de Vasconcelos, o João Capoeiro, faleceu no ano de 1976, com 69 anos, sendo sepultado no Cemitério São Roque, no Marco.

Diego Carneiro

21 de julho de 2026 

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. De Matheus Mendes de Vasconcellos a João Baptista de Vasconcellos. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 21 de julho de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/07/mateus-mendes-joao-batista-vasconcelos.html

Referências

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

BRASIL. Directoria Geral de Estatística. Recenseamento do Brazil: realizado em 1º de setembro de 1920. Rio de Janeiro: Typographia da Estatística, 1922–1929. (Resultados do Estado do Ceará).

FREITAS, Vicente. Bela Cruz—Biografia Do Município. Clube de Autores, 2017.

LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, v. 4, 2016.

LIMA, Cândido Pinheiro Koren de. Branca Dias. Tomo III. Recife: Fundação Gilberto Freyre, 2016b. (Coleção Borges da Fonseca)