O Falso Padre e a criação da Freguesia de Santana do Acaraú

Como abordamos em um post anterior, com a construção da Capela de Sant'Anna do Olho D'Água em 1739, iniciou-se um processo de adensamento populacional nas terras ao redor da mesma, sendo seus chãos alugados para os foreiros que desejassem construir suas residências. Entretanto, após a saída de Padre Silveira, o templo caiu em descuido por parte de seus administradores, o que levou a sua significativa deterioração.

Essa situação foi agravada pelas secas 1777 e principalmente de 1791-93, esta última conhecida como Seca Grande, que levou ao encolhimento do patrimônio agropecuário que sustentava o templo. Apenas vários anos depois, sob a administração do Major José Ferreira da Costa, iniciou-se em 1818 a reedificação do antigo templo, agora em cal e tijolo, sendo os trabalhos concluídos em 31 de julho de 1819 (O Município de Santana, p. 97).

No dia 28 de Janeiro de 1826, o visitador Antônio Gomes Coelho, vigário colado na Igreja Paroquial da vila das Alagoas, visitou a capela de Sant'Ana e declarou por termo, a folha 25 do livro de receita, que a achou com os paramentos necessários e a sua obra adiantada devida ao zelo e eficácia do seu administrador.

A pequena concentração de cerca de 30 casas que se formara no núcleo urbano primitivo motivou a elevação da localidade à condição de distrito, em 11 de junho de 1833, por decisão da Câmara de Sobral. Seus limites foram definidos como: toda a área desde o Morro dos Tucanos, acompanhando o rio Acaraú em ambas as margens até a fazenda Unha de Gato, inclusive; e, no sentido poente e nascente, até a Capela de São José, exclusive, seguindo em linha reta até a Serra da Meruoca (Araújo, 2005, p. 257).

O Falso Padre

Em 1832 chega a Sobral José Rodrigues Lira, um homem negro, proveniente do Maranhão, que afirmava ser padre. Ele portava um passaporte firmado pelo presidente daquela província afirmando que o mesmo estava livre de qualquer impedimento. Tal documento foi aceito como suficiente pelo pároco local José Gonçalves, que havia sido incumbido pela Câmara de Sobral para fiscalizá-lo. Com base nesse parecer, não obstante alguma objeção, na seção do dia 26 de abril daquele ano a Câmara ratifica a validade do clericato (Frota, 1974, p. 241).

Após prestar serviços em diversas cidades da região, Zé Rodrigues Lira foi designado para substituir o Pe. José Gomes Ferreira Torres, na Capelania de Sant'Ana do Olho D'Água, onde ficou até o ano de 1835. Entretanto, os modos do padre, tanto na condução de seu ofício quanto na vida particular pareciam destoar da vida clerical. Além do clericato, ele exercia também a medicina, por meio exclusivamente da venda da "Água de Jericó", um miraculoso líquido que curava a todos indistintamente (Frota, 1974, p. 242).

A menção à “Água de Jericó” encontra-se no Segundo Livro dos Reis (2Rs 2,19-22), em episódio no qual os moradores da cidade solicitam a intervenção do profeta Eliseu diante da impropriedade das águas locais, que comprometiam tanto o consumo humano quanto a fertilidade da terra. Em resposta, Eliseu dirige-se à fonte, lança sal sobre ela e proclama a restauração de sua qualidade, simbolizando a purificação e a renovação da vida comunitária a partir da intervenção divina.

Tal panaceia despertou grande interesse da população, que percorria longas distâncias apenas para obtê-lo, pagando um bom preço por cada garrafa vendida por Pe. Lira. Isso provocou desconfiança entre os locais que o denunciaram as autoridades eclesiásticas (O Município de Santana, p. 103). Alegaram que certa vez, por alta madrugada, foram encontrar o "Padre" em "traje e Adão", a encher nas cacimbas do Acaraú, as garrafas de Água de Jericó, que nunca mais curaram pois, ato contínuo, o falso padre anoitecera e não amanhecera (Frota, 1974, p. 242).

A investigação revelou que, na verdade, tratava-se de um escravizado que havia fugido após roubar os documentos e a batina de eu antigo senhor depois de sua morte. Ele seria proveniente da Bahia, de onde teria migrado para o Maranhão e depois para Sobral (Araújo, 2005, p. 225).

A Freguesia de Santana

O constrangimento causado episódio do falso padre gerou revolta na população da localidade, dando argumentos e catalisando o desejo se tornarem independentes de Sobral no campo religioso. A pressão popular levou a aprovação da Lei Provincial nº 139, de 10 de setembro de 1838, criando a Freguesia de Santana, tendo como Matriz a Capela de Santana, ao mesmo tempo em que extinguia a Matriz do Acaraú e recriava a de Almofala.

Os seus limites eram os seguintes: Ao Norte até o litoral, desde o córrego do Falcão até o de Juritanha inclusive. Ao Sul até o riacho Caioca, desde as suas nascentes, até onde faz confluência com o rio Acaraú e daí em rumo direto até a fralda da serra Meruoca, na ladeira do Agreste. Ao Nascente até os extremos da freguesia da Amontada e Almofala. Ao Poente até a boca da Picada do Gavião e extremas da freguesia de Granja (O Município de Santana, p. 104).

Contudo, o antigo vigário de Acaraú e agora pároco na Freguesia de Santana, Antônio Xavier, de orientação conservadora, enfrentou oposição dos novos paroquianos, de inclinações mais liberais, que contestavam sua autoridade sobre a nova freguesia. Para encerrar a disputa, ele obteve a confirmação da colação da nova matriz em 1840. Contudo, persistiram tensões, pois a freguesia abrangia dois povoados de inclinações políticas opostas: Sant’Ana, de maioria liberal, e Acaraú, de predominância conservadora (O Município de Santana, p. 105).

Desgostoso com os conflitos, Xavier conseguiu transferir a sede da matriz de Sant’Ana para a Barra do Acaraú em 1842, o que ampliou o prestígio da nova sede, mas feriu o orgulho dos moradores de Sant’Ana, que viam frustradas suas expectativas de progresso local. A decisão provocou acirrada disputa política, marcada por ressentimentos e violência verbal, que só se encerrou após seis anos, com a separação das Freguesias através da Lei nº 465, de 29 de agosto de 1848.

Diego Carneiro
01 de setembro de 2025
Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. O Falso Padre e a criação da Freguesia de Santana do Acaraú. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 01 de setembro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/09/falso-padre-freguesia-santana.html

Referências

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

ARAÚJO, Nicodemos. Santana do Acaraú. Acaraú, 1985.

FROTA, D. José Tupinambá da Frota. História de Sobral. Fortaleza: Editora Henriqueta Galeno, 1974.

O Município de Sant'Anna: um pouco de histórico sobre o Ceará de 1608 a 1738. Santana do Acaraú: Pap. e Typ. Correio da Semana, 1926.

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