A Febre do Ouro e o Capitão Inácio Gomes Parente

No final do século XVII e, sobretudo, ao longo do século XVIII, várias jazidas de ouro foram descobertas no interior do Brasil, na região hoje pertencente ao estado de Minas Gerais. Isso provocou um intenso fluxo migratório para a região, o que a transformou no principal polo de riqueza da América portuguesa. Milhares de homens de diferentes estratos sociais e de variadas partes do reino foram atraídos pela possibilidade de ascensão econômica rápida. Entre eles estava um que viria a ser uma figura de destaque na sociedade colonial da Ribeira do Acaraú. Me refiro ao Capitão-mor Inácio Gomes Patente.

Inácio nasceu por volta de 1742, no Bispado de Lamego, distrito de Viseu, filho de Manoel Gomes e Catarina Lopes, ambos também naturais do Bispado de Lamego (Lima, 2016, p. 988). Segundo Monsenhor Francisco Sadoc de Araújo, Inácio nasceu na Freguesia de São Martinho de Mouros, do Concelho de Resende (Araújo, 2000, p. 201). Essa freguesia está situada na margem esquerda do rio Douro, descrita como um vale fértil, com foral concedido em 1111 e matriz edificada sobre antiga mesquita moura. Isso ajuda a explicar a tradição segundo a qual Inácio seria moçárabe e teria sido aprisionado por sarracenos nas costas da África durante sua primeira viagem ao Brasil. Diz-se que teria sido levado ao litoral da Mauritânia, de onde conseguiu fugir, prosseguindo viagem até o Brasil (Arruda, 1998, p. 11).

Chegou ao país ainda em tenra idade, no contexto da “febre do ouro”, dirigindo-se inicialmente para Minas Gerais, onde se estabeleceu na região de Cachoeira do Campo, próximo a Vila Rica, associando-se ao patrício Antônio da Costa Cordeiro, natural de Lordelo do Ouro. Ambos prosperaram com a mineração, mas teriam sido acusados de sonegar o quinto, imposto correspondente a 20% do ouro extraído, que deveria ser pago as casas de fundição. Nesse período, o declínio das receitas de exploração levou a coroa portuguesa a intensificar essa cobrança, recorrendo inclusiva a derrama, apreensão e confisco de parte da produção, quando havia suspeitas de sonegação. Esse foi inclusive um dos principais estopins da Inconfidência Mineira, ocorrida em 1789.

Para fugir dessa repressão, a dupla retirou-se para o Norte do Brasil, indo inicialmente para a Bahia, e de lá desembarcando nas praias do Acaraú, por volta do ano de 1776 (Pessoa, 1976, p. 26; Arruda, 1998, p. 11)Segundo a tradição oral recolhida pelo Mons. Sadoc, quando o navio aportou, Inácio desembarcou e fugiu, não retornando à embarcação (Araújo, 2005, p. 199). Ele e Antônio Cordeiro refugiaram-se na Serra da Meruoca, onde estariam mais protegidos da perseguição policial. Conforme Wicar Paula Pessoa, Inácio Gomes Parente integrava os "Gomes de Lamego", que teriam atuado no setor açucareiro na Bahia, onde administraram por algum tempo o engenho Santa Cruz (Pessoa, 1976, p. 26).

Antônio da Costa Cordeiro, casado com Úrsula Maria das Virgens, vivia sobretudo de agiotagem, atividade comprovada por seu inventário de 1789, no qual estão relacionados mais de cento e oitenta devedores ao viúvo, com renda superior a três contos de réis, somados o capital emprestado e os respectivos juros a dois por cento ao mês. Era esta sua maior fortuna. Já Inácio Gomes Parente trouxe consigo muito mais dinheiro, mas preferiu aplicá-lo na aquisição de imóveis e em atividades comerciais. Foi dele, inclusive, o primeiro sobrado construído na Vila de Sobral, datado de 1814 (Rocha, 2025, p. 123). Do inventário de sua mulher, Francisca de Araújo Costa, falecida a 08 de abril de 1826, consta o total de sua fazenda no valor de mais de sessenta e quatro contos de réis, soma fabulosa para o padrão da época no pobre interior do Ceará. Documentos manuscritos coevos os identificam como “mineiros viandantes” (Arruda, 1998, p. 11).

Sobrado do Cel. Inácio Gomes Parente, 1814 (Rocha, 2025, p. 124).

Inácio tornou-se figura de grande destaque regional, sendo tronco da numerosa família Gomes Parente que povoou a Ribeira do Acaraú (Araújo, 2005, p. 199). Foi Capitão-Mor do Distrito de São Domingos da Ribeira do Acaraú, por patente concedida por Luiz da Mota Féo Torres, Professo da Ordem de CristoFidalgo Cavalheiro da Casa de Sua Majestade, a Rainha Dona Maria I, por patente de 4 de julho de 1790 (Arruda, 1998, p. 13). Em 5 de junho de 1821, a Câmara de Sobral registrou um voto de louvor ao Capitão Inácio Gomes Parente por ter aplicado, sem cobrar juros, mais de três contos de réis, com pagamento a longo prazo, na construção da Casa do Mercado Público de Sobral, afirmando que “nenhum outro exporia o seu dinheiro com tão longas demoras” (Araújo, 2005, p. 117).

Um ano depois, a 3 de junho de 1822, Inácio Gomes Parente recebeu uma sesmaria de três léguas (19,8 km) no termo da Vila de Sobral, provavelmente no atual município de Santa Quitéria. Na petição, Inácio informa que:

...entre as suas terras da Fazenda Victoria, Vargens, e as terras das Lages, Cobras, e Santa Maria do Capitão Vicente Alves da Fonseca, nos limites dos termos da Villa Nova de El Rey (Guaraciaba do Norte) e da Villa do Sobral há terras devolutas e desaproveitadas pelo Riacho do Gado a cima cujo Riacho Serve de extrema entre o Suplicante e dito capitão Vicente Alves e por que ditas terras compreendidas do Riacho para a parte do Poente se acha nas ilhargas, e testadas das ditas suas Fazendas lhe são de absoluta necessidade para refrigério de seus gados Vacuns e Cavalares ali situados quer o Suplicante haver por Data e Sesmaria três léguas de comprido pelo dito Riacho a cima dele para o Poente pegando no comprimento nas testadas ou ilhargas dos Providos do Rio Macaco correndo o rumo que o Riacho traz para ele acima até inteirar das três léguas com uma de largo ou o que na verdade se achar do Riacho para o Poente a encostar nas terras do Suplicante (Sesmarias Vol. 9, nº 770, p. 149).

Descendência de Inácio Gomes Parente

Inácio casou-se duas vezes, sendo a primeira vez em 24 de novembro de 1777, “pela manhã”, no Sítio Santo Antônio, Serra da Meruoca, freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Vila de Sobral, com Francisca de Araújo Costafilha de José de Araújo Costa, e de Brites de Vasconcelos (uma das sete irmãs)O casamento foi celebrado pelo Padre João Ribeiro Pessoa. Estiveram presentes: Ajudante João Barreiros Rangel, solteiro; Manoel da Costa FarrapoInácio Bezerra de Menezes, casados; além de outras “pessoas todas conhecidas, moradores nesta Freguesia” (Lima, 2016, p. 988). Tiveram nove filhos:

1. José Inácio Gomes Parente, Coronel, natural da Freguesia de Sobral. Casou-se a 18 de janeiro de 1804, na Igreja Matriz de N. Senhora da Assunção da Vila da Fortaleza, com Maria do Nascimento Pontes, n. a 25 de dezembro de 1778, e foi batizada a 06 de janeiro de 1779, na Igreja Matriz da Vila da Fortaleza. Padrinhos: Antônio de Castro Viana, Capitão Mor, e sua mulher Isabel Francisca Xavier, moradores na Vila da Fortaleza. Presentes à cerimônia religiosa de casamento, o Pároco, Padre Cláudio Álvares da Costa, e as testemunhas, João Carlos Augusto von Oyenhausen-Gravenburg, Governador da Capitania do Ceará e Vicente Ferreira Forte. Maria do Nascimento Pontes faleceu a 20 de setembro de 1829, e era filha do Capitão Mor Gregório Álvares Pontes, da Freguesia de São Tiago do Prado, e de Teresa de Jesus de São Silvestre. Viúvo, o Coronel José Inácio Gomes Parente casou-se (2) com Ana Rita Neta, viúva de Joaquim Carneiro da Costa. Ana Rita Neta, viúva, casou-se a 05 de janeiro de 1847, com Joaquim Casemiro de Araújo. 

2. Luzia Teresa de Jesus casou-se a 14 de janeiro de 1808, na Igreja Matriz de Sobral com Francisco Alves Pontes, filho de Gregório Álvares Pontes e de Teresa de Jesus de São Silvestre. 

3. Cel. Diogo Gomes Parente ocupou em Sobral, os cargos de Delegado de Polícia, substituto do Juiz Municipal de Direito, Vereador da Câmara Municipal, Comandante Superior da Guarda Nacional e Oficial da Ordem Rosa. Líder do Partido Conservador durante o Império. Foi nomeado no dia 15/12/1812 para o cargo de Capitão da 8ª Companhia do Regimento de Cavalaria Miliciana da Vila de Sobral. Veio a falecer no dia 30 de outubro de 1890, aos 64 anos de idade, vítima de uma dilatação da Aorta. Casou-se com Joana Francisca do Espírito Santo, filha do português Manoel da Silva Sampaio, o qual serviu o cargo de Diretor dos Índios na Serra da Ibiapaba e o de Capitão de Ordenanças, e Antônia Maria Assunção. 

4. Florência Maria de Jesus casou-se a 09 de fevereiro de 1806, na Igreja Matriz de Sobral, com Joaquim Domingues da Silva, nasceu a 15 de agosto 1777, no lugar das Regadas, Freguesia de Santa Marinha, Vila Nova de Gaia, Porto, filho de Luís Domingues da Silva e de Josefa Francisca, naturais do Porto. 

5. Quitéria Gomes Parente casou-se às 20 horas de 1° de fevereiro de 1814, na Igreja Matriz de Sobral com Francisco Machado Freire, filho de Manoel José Álvares e de Custódia Maria Machado, natural de São Salvador, Freguesia de Cerdeira, Portugal. 

6. Vicente Gomes Parente casou-se a 24 de janeiro de 1811, com Maria Teresa Bernarda, filha de Felipe Ribeiro da Silva e de Maria Bernardina do Monte. 

7. Antônio Gomes Parente casou-se (1) a 07 de janeiro de 1803, na Igreja Matriz de Sobral, com sua prima Inês Madeira de Vasconcelos, filha do Capitão José Álvares Linhares e de Rita Teresa de Jesus. Casou-se, (2) com Porcina Ribeiro da Silva, filha do Coronel Joaquim Ribeiro da Silva e de Francisca Ribeiro da Silva. 

8. Francisco Gomes Parente, Padre. Nascido em novembro de 1791. Fez seus primeiros estudos em Sobral, com os padres Manoel Pacheco e João José de Noronha. Concluiu Filosofia e Teologia no Seminário de Olinda, onde foi ordenado em 1816. Trabalhou nas freguesias de Sobral e Santa Quitéria. Foi suspenso de ordens por viver em concubinato com Isabel Carolina da Hungria, filha de Ignácio de Castro e Silva e D. Rosa Maria. Desta união nasceram: Dr. Esmerino Gomes Parente, Dr. Ermeto Gomes Parente e Francelina Gomes Parente, mãe do Pe. João José de Castro. Foi Vereador da Câmara de Sobral, várias vezes. Deputado Provincial. Faleceu, em 1835, readmitido às ordens sacras (Silveira, 2004, p. 11-12)

9. Joaquim Gomes Parente.

Francisca faleceu em 08 de abril de 1826. Então o viúvo casou-se em segundas núpcias em 19 de agosto de 1830, “às nove horas da noite”, na residência do pai da nubente, na Vila de Sobral, com Maria Joaquina da Silvafilha de Luís da Silva Fialho e Inês Maria de JesusEste casamento não teve sucessãoO Capitão Inácio Gomes Parente faleceu em Sobral, aos 18 de abril de 1838, com 96 anos de idade (Lima, 2016, p. 988).

Diego Carneiro

08 de dezembro de 2025

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A Febre do Ouro e o Capitão Inácio Gomes Parente. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 08 de dezembro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/12/febre-ouro-cap-inacio-gomes-paente.html

Referências

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense. 2ª edição. 5 Volumes. Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

ARRUDA, Assis. Genealogia Sobralense. Vol. II: Os Gomes Parente. Sobral: Edições UVA, 1998.

LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2016.

PESSOA, Wicar Parente de Paula. Algo sobre a História de Sobral. Revista do Instituto do Ceará. v. 95, n. 90, Janeiro de 1976, p. 19-28.

ROCHA, Herbert. O Lado Esquerdo do Rio. 2 ed. Fortaleza: Edições INESP, 2025.

SILVEIRA, Aureliano Diamantino. Ungidos do Senhor na Evangelização do Ceará, vol. II. Fortaleza: Editora Premius, 2004.

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