De Serrote a João Cordeiro

Esboço da Casa-Grande da Fazenda Pau Caído (Carneiro, 1979)

Consoante registra Mons. Sadoc de Araújo, as terras que hoje integram o distrito de João Cordeiro pertenceram originalmente a sesmaria concedida, em 10 de dezembro de 1750, ao Tenente Coronel Manoel Pereira Pinto (1694-1785), medindo três léguas no riacho das Cacimbas que desagua no Riacho das Rolas. Na petição, informa residir na região há 36 anos, ou seja, desde 1714 (Sesmarias, Vol. 7, nº 549, p. 109). Em julho de 1730 ele já havia obtido duas outras concessões na região, pegando um olho d'agua ao pé do morro das Rolas nas proximidades de suas terras, e outra que recebeu como dote do seu sogro, Capitão Bento Coelho de Morais há mais de 15 anos [~1714] (Sesmarias, Vol. 12, nº 8 e 9, p. 11-13).

Pereira Pinto, nascido na Freguesia de São Martinho de Cedofeita, Porto, era casado com Floriana Coelho de Morais, filha de Bento Coelho de Morais e Vitória Teixeira (Lima, 2016, p. 1992). Essa terra provavelmente integra a data de sesmaria obtida por Bento Coelho em 12 de agosto de 1706, juntamente com João Mis Barradas, na Ribeira do Acaraú (Sesmarias, Vol. 3, nº 134, p. 5). Uma das filhas de Pereira Pinto, Maria da Assunção Pereira, casada com Hilário Pereira Cordeiro, declarou em 1788 a Câmara de Sobral ser proprietária de uma fazenda no Riacho das Rolas com a seguinte descrição:

"Três quartas de terra de comprido, no dito sitio com meia légua de largo para uma só banda do denominado riacho, que principia nas testadas das terras dos herdeiros do defunto Cláudio de Sá Amaral e finda com terras dos herdeiros do defunto seu pai Manoel Pereira Pinto" (Frota, 1974, p. 325).

As terras de Claudio de Sá correspondem a aproximadamente onde hoje está edificado a sede municipal de Santana do Acaraú. Também declararam terras no Riacho das Rolas em 1788: José Rodrigues Pantoja (p. 299), José Antônio Pinto, neto de Manoel Pereira Pinto (p. 335) e Pantaleão Pereira (p. 327).

Área aproximada da sesmaria do Riacho das Rolas

O local da Vila de João Cordeiro deriva da primitiva Fazenda Serrote, que pertenceu ao Ajudante Manoel Carneiro da Costa (Girão, 1983, p. 305). Em 1788, Carneiro da Costa declarou possuir a Fazenda Serrote medindo "duas léguas de terra de comprido por uma só banda do Riacho das Rolas que principia com terras do Capitão Antônio Coelho de Albuquerque [Fazenda Baia, hoje distrito de Santana] e finda com terras do Tenente Ignácio da Cunha Araújo" (Frota, 1974, p. 325).

Em 21 de fevereiro de 1857, na Fazenda Curral Grande, Antônio da Costa Carneiro declarou pertencer aos seus filhos uma posse de terra na Fazenda Serrote (Livro de Terras da Freguesia de Santana, nº 449, fl. 50v.). O Capitão Antônio Carneiro da Costa era filho do Ajudante Manoel Carneiro da Costa, de quem possivelmente herdou a Fazenda Serrote. Casou-se com Ana Bezerra de Araújo, filha de Inácio Bezerra de Meneses e Maria Madalena de Sá, em 21 de setembro de 1797, sendo pais de  nove filhos conhecidos. Mas Ana Bezerra faleceu em 1823 e Antônio casou-se novamente, com Luísa Araújo Costa, filha de Custódio da Costa Araújo e Bárbara Maria da Soledade, com quem teve mais três filhos.

A Capela do Serrote

Capela de Nossa Senhora de Fátima, situada na localidade de Serrote, sede do distrito de João Cordeiro, teve sua construção iniciada em 1956, por iniciativa de Antônio Rios, proprietário de terras na região e descrito como um católico devoto e dedicado à religião. A história da edificação foi registrada em versos por Luís Júnior de Farias, conhecido como “O Juniôr”, morador de Sapó de Baixo que, durante muitos anos, atuou voluntariamente como celebrante em Serrote. Seu poema, intitulado Construção da Capela da Serrote, foi escrito em 2 de setembro de 2006 (Gomes, 2011).

Segundo o relato poético, Antônio Rios teria procurado vigário de Santana do Acaraú, padre Joviniano Loiola Sampaio, a quem apresentou a intenção de construir o templo. O sacerdote acolheu favoravelmente a proposta e divulgou a iniciativa entre os paroquianos, dando início à campanha para a realização da obra. Antônio Rios assumiu papel central na organização dos trabalhos, dedicando tempo e esforços ao empreendimento. Entre suas primeiras providências, instalou uma olaria destinada à fabricação de tijolos e telhas e providenciou o transporte de madeiras provenientes de lugares distantes. Paralelamente, mobilizou amigos e conhecidos em busca de auxílio financeiro e organizou leilões para arrecadar recursos. Destaca-se a participação do Sr. Caetano Xavier.

Mons. Joviano Loiola Sampaio (1917-1997)

O sacerdote, acompanhado de um oficial e mediante autorização do bispo diocesano, dirigiu-se à localidade para demarcar o terreno e estabelecer a implantação do novo templo. De acordo com os versos de Luís Júnior de Farias, esse ato ocorreu em 17 de agosto de 1956. Em setembro daquele ano, os oficiais responsáveis pelos trabalhos assentaram a primeira pedra do edifício, tendo Nossa Senhora de Fátima sido escolhida como padroeira. O templo foi projetado com nove metros de largura e vinte metros de comprimento. Inicialmente, foram executados os alicerces, seguidos pela elevação das paredes, em uma obra que mobilizou trabalhadores e contou com o acompanhamento do padre e a participação da população local.

Conforme a cronologia apresentada no poema, no final de 1956 a construção já se encontrava praticamente concluída. A cerimônia de inauguração ocorreu em 1º de janeiro de 1957, data descrita como um momento de grande alegria para a população de Serrote. Pessoas provenientes de diferentes lugares deslocaram-se até a capela a pé, em carros e montadas em animais. O poema estima que mais de mil pessoas se reuniram no local para participar das solenidades. Junior descreve a ocasião:

Às oito horas do dia
Foi chegando em procissão
Nossa Senhora de Fátima
Para tomar posse então
Do Templo que lhe ergueram
Naquele pleno sertão

Se ouvia cânticos e vivas
Em louvor à Padroeira
Fogos no ar explodiam
Há! Que hora prazenteira
Uma imitação dos anjos
Louvando a mãe verdadeira

Então a Virgem de Fátima
Foi no altar colocada
Sendo logo em seguida
Pelo padre batizada
Como também a Capela
Para sempre inaugurada

Às nove e meia ouviu-se
Uma Missa celebrada
Pelo povo que ajudou
Na obra tão sublimada
Recebendo gratidão
De Maria Imaculada

Naquela Missa o Vigário
Fez importante sermão
Elogiando e louvando
O povo por sua ação
E que a Virgem de Fátima
Daria recompensação

De forma que terminou
A cerimônia importante
Ficando o povo contrito
Satisfeito e radiante
Levando lembrança viva
Do quadro impressionante

Após a inauguração, a capela passou a constituir um espaço permanente de devoção a Nossa Senhora de Fátima em Serrote.

A Criação do Distrito

Poucos anos após a inauguração da igreja, em 27 de dezembro de 1963, é criado o Distrito de João Cordeiro, em homenagem ao ilustre abolicionista santanense, pela Lei n.º 7022, com sede na povoação de Serrote (Girão, 1983, p. 304). João Cordeiro nasceu em 31 de agosto de 1842, em Santana do Acaraú, filho de João Cordeiro da Costa e Floriana Angélica de Vera Cruz Cordeiro. Neto paterno de Antônio da Costa Cordeiro e Rita Maria da Conceição e, neto materno de Tomás Pereira Dutra e Mariana Angélica de Vera Cruz.

Iniciou sua trajetória profissional no comércio, trabalhando nas firmas de Severino Ribeiro da Cunha & Irmão, em Fortaleza e Mossoró, no Rio Grande do Norte, antes de estabelecer sua própria empresa, a J. Cordeiro & Cia. Alcançou destaque na vida econômica cearense, exercendo a direção da Associação Comercial do Ceará entre 1872 e 1877, sua presidência no biênio 1877–1878 e a presidência da Junta Comercial em 1884. Também dirigiu a Caixa Econômica provincial em 1875 e, durante a seca de 1877–1879, foi nomeado para atuar no serviço de socorro público à população atingida pela calamidade.

João Cordeiro (1842-1931)

João Cordeiro destacou-se sobretudo por sua participação no movimento abolicionista cearense, sendo um dos fundadores e o primeiro presidente da Sociedade Cearense Libertadora, organização que atuou na mobilização contra a escravidão e teve no jornal Libertador um importante instrumento de divulgação de suas ideias. Também participou do movimento republicano e integrou a comissão executiva que atuou na administração do Ceará durante a transição do Império para a República, iniciada em novembro de 1889. Nesse período, esteve ligado à condução dos assuntos fazendários do estado, exercendo funções administrativas na Secretaria da Fazenda. Sua trajetória política, portanto, esteve associada tanto à campanha abolicionista quanto à reorganização institucional do Ceará nos primeiros anos do regime republicano.

Na vida parlamentar, João Cordeiro representou o Ceará no Senado Federal entre 1892 e 1905, participando de comissões relacionadas ao comércio, à agricultura, à indústria e às obras públicas. Posteriormente, foi eleito deputado federal, exercendo mandatos a partir de 1906. Em 1910, renunciou ao mandato parlamentar para assumir um cargo administrativo no Departamento do Alto Juruá, no Acre, conforme o registro biográfico da Câmara dos Deputados. João Cordeiro faleceu em Fortaleza, em 12 de maio de 1931 (Girão, 1992, p. 67-68; Souza, 1968, p. 31; Studart, 1910, p. 429-430).

A Fazenda Pau Caído

Dentre as diversas propriedades resultantes do desmembramento da Fazenda Serrote, destaca-se por sua documentação a Fazenda Pau Caído. Ela é referida no livro Crônica da Casa dos Carneiros, escrito por Manoel de Castro Carneiro em 1979. No Livro de Terras da Freguesia de Santana 1857-1859, constam como proprietários da Fazenda Pau Caído: Manoel Teles de Menezes, Porfírio Carneiro da Costa, Antônio Teles de Menezes e Francisco José de Menezes. São descendentes do casal José Carneiro da Costa, filho do Ajudante Manoel Carneiro da Costa, e Ana Teodora de Menezes.

A sede da fazenda, atual localidade de Pau Caído, ao que tudo indica, permaneceu com o Tenente Porfírio Carneiro da Costa, que em 7 de janeiro de 1845 casou-se com Maria Teresa de Araújo, sendo pais de Martiniano Carneiro da Costa, avô do mencionado autor. O topônimo já era empregado em 1772, quando, em 20 de maio, nasceu ali José Mariano de Albuquerque Cavalcante, filho do Cap. Antônio Coelho de Albuquerque e Maria da Conceição do Bonfim. Mariano foi o quinto Presidente do Ceará, tendo governado também as províncias de Santa Catarina e Sergipe (Araújo, 2005, p. 357-358). Conforme o memorialista Manoel de Castro Carneiro traz a seguinte explicação para o topônimo Pau Caído:

"há muitos e muitos anos, quando os campos eram imensos e sem dono, ou pelo menos sem muitos donos, por ali, às margens do valente riacho Cacimbas, corriam os vaqueiros nas suas loucas tropeladas à cata dos barbatões. E num desses dias, depois de luta incessante atrás do marrudo novilhote, conseguiram laçá-lo já quase noite, Pressentindo que não alcançariam o destino ainda com o claro do dia, mascararam e entamancaram o bicho, amarrando-o em seguida num enorme pau caído. Ao chegarem em casa informaram ao patrão, o legendário Ajudante Carneiro, que o bicho ficara preso perto do riacho Cacimbas, num morrote onde havia um grande pau caído. E a referência ficou. E foi aí, no mesmo lugar onde amarraram a barbatão que meu trisavô ou antes dele seu paí ou seu avô, fincaram a sua tenda" (Carneiro, 1979, p. XII-XIII).

A casa-grande da fazenda foi reconstruída em 1845, provavelmente por Porfírio, substituindo uma residência anterior que apresentava sinais de envelhecimento. Edificada com tijolos, cal e carnaúba, tornou-se o núcleo da propriedade, que contava também com armazém, dois açudes e instalações relacionadas à criação de animais e à produção agrícola. Ainda segundo o autor, o açude menor teria sido escavado por trabalhadores escravizados (Carneiro, 1979, p. 5).

Entre os marcos da paisagem estavam um antigo tamarindeiro, uma carnaubeira que, segundo a memória familiar, foi plantada em 22 de novembro de 1883, dia do nascimento de Zacarias Carneiro, pai do autor, e uma cruz de madeira situada no caminho para Lagoa Seca. No final do século XIX e início do XX, Martiniano Carneiro da Costa, filho de Porfirio e avô do memorialista, destacou-se como patriarca e administrador da propriedade, cuja economia era baseada principalmente na pecuária e na agricultura.

Existe uma história curiosa envolvendo Manoel de Castro Carneiro, o autor do livro supramencionado. Em 1933, quando tinha apenas 14 anos, ele desenhou um altar na casa de seu tio Francisco Carneiro (1890-1935), na Fazenda Carnaúbas. Quase 50 anos depois, em 1980, pela ocasião do casamento de Manoel Carneiro de Casto Junior (Dr. Carneirinho), filho de Manoel, a família decidiu preservar a pintura. Para tanto, recortam a parede onde foi feita e levaram-na até a região Pau Caído, construindo ao seu redor uma capela. Infelizmente, a capela encontra-se em total abandono já há muitos anos (AmicsTV, 2025).

Capela de Pau Caído

A Igreja Abandonada de Bartolomeu

A Igreja do Sagrado Coração de Jesus, localizada em Bartolomeu, no distrito de João Cordeiro, município de Santana do Acaraú, constitui um marco da história religiosa local. Visível a partir da estrada que dá acesso a localidade, o edifício ficou conhecido na imprensa como a Igreja Perdida de Santana do Acaraú em razão do prolongado período em que permaneceu fechada, em estado de abandono. Além disso, a construção chama atenção por sua imponência e arquitetura de inspiração gótica e pé-direito superior a dezesseis metros.

Igreja de Bartolomeu

Conforme o radialista Edwalcyr Santos, a obra teria sido uma iniciativa do empresário Mariano Liberato Damasceno (1902-1975), proprietário da maior parte das terras de Bartolomeu, que mobilizou os moradores para construir um templo dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. Para tanto, comunidade levantou doações e organizou leilões para arrecadar recursos destinados à obra (Santos, 2021). Uma moradora local, identificada como Dona Mírian, informou que os participantes doaram vacas, bens destinados a prendas de leilão e outros itens para contribuir com a construção (Santana do Acaraú, 2013).

Além disso, os próprios moradores também participaram da fabricação dos materiais de construção: tijolos e telhas eram produzidos no local e depois empregados na edificação do templo. Entre as pessoas envolvidas nesse trabalho, os moradores recordam de Chico Torrado, Gerardo Duarte e Luiz Duarte. A construção do templo teria iniciado no ano de 1951, ficando concluída apenas doze anos depois, em 1963 (Santos, 2021). Entretanto, mesmo antes de sua conclusão, o local já era utilizado para a realização de atividades religiosas, como missas, casamentos, batizados e outras celebrações, pelo menos desde o ano de 1959. Nos meses de junho e julho eram realizados os festejos em honra ao Sagrado Coração de Jesus.

O Fechamento da Igreja

Mas a história da localidade e do templo sofreria um revés no início da década de 1970, quando o Sr. Mariano Damasceno, já idoso e sem condições de continuar administrando a fazenda, decidiu vender suas terras ao empresário sobralense Plínio Carneiro Liberato e sua esposa, D. Maria Júlia Dias. Ainda conforme Edwalcyr Santos, Mariano não teria realizado o desmembramento do terreno onde a igreja foi construída, ficando a doação baseada apenas em um acordo verbal. Entretanto, após a morte de Mariano, o novo proprietário cercou a área que incluía a igreja, restringindo o acesso dos moradores ao templo (Santos, 2021).

Outra versão, publicada em 2013 pelo portal Nas Ruas de Sobral, sugere que quando Plínio decidiu cercar a igreja, esta já se encontrava em mal estado de conservação o que os informantes interpretaram como falta de fé católica dos moradores. A reportagem ainda associa a decisão a uma suposta mudança de religião do proprietário. Essas afirmações são atribuídas a informantes locais, segundo os quais, o proprietário teria oferecido a desapropriação pelo valor de R$ 90.000,00, enquanto a prefeitura, durante a gestão do então prefeito José Aldenir Farias, teria oferecido R$ 10.000,00 para ajudar a efetuar o pagamento (Santana do Acaraú, 2013).

Tombamento e Restauração

Ao menos desde a década de 1990, a comunidade católica de João Cordeiro tentava reaver o acesso a igreja. Nem a paróquia de Santana, nem o poder público, a época, conseguiram chegar a um acordo por falta de recursos. Assim em meio ao impasse, e após tentativas frustradas de reativar o templo, a professora Delci Carneiro reuniu-se com outros moradores e participou da construção de uma capela menor, dedicada a Mãe Rainha, destinada a atender a comunidade local (Souza, 2014).

Em 2011, o vereador Edinardo Uchoa Costa Filho apresentou um projeto de lei voltado ao tombamento histórico e cultural de diversos prédios do município, incluindo a Igreja do Sagrado Coração de Jesus. A questão foi levada ao Judiciário e originou o processo nº 0004421-76.2012.8.06.0161, no Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, em que figuram o Município de Santana do Acaraú e Plínio Carneiro Liberato e Maria Júlia Dias Liberato (TJCE, 2023).

Enquanto a ação tramitava, no início de 2021, o então prefeito Francisco das Chagas Mendes, conhecido como “Meu Deus”, visitou o terreno acompanhado de Plínio Liberato. Na ocasião, demarcaram a área correspondente ao espaço da igreja segundo o projeto atribuído a Mariano Damasceno, com superfície total de 4.808 metros quadrados. Em 1º de abril de 2021, foi registrada no cartório municipal a matrícula nº 3.140, Livro 2, Registro Geral, referente a esse terreno. O documento identifica Plínio Carneiro Liberato e Maria Júlia Dias Liberato entre os antigos proprietários e associa a transferência ao processo judicial nº 0004421-76.2012.8.06.0161. Faz referência ainda a assentamento anterior identificado como AV 10-103, Livro 2-A, o que indica uma etapa prévia na cadeia documental do imóvel (Santana do Acaraú, 2021).

A transferência da propriedade para o município permitiu que a recuperação do templo avançasse. A reinauguração efetivamente documentada ocorreu em 23 de julho de 2022, durante as festividades relacionadas à Festa de Senhora Sant'Ana. No dia 30 de junho daquele ano, a prefeitura havia divulgado a programação da missa inaugural e da Cavalgada Dr. Luciano Arruda Coelho, prevista para 23 de julho. A notícia diocesana publicada no Correio da Semana em 31 de julho de 2022 confirmou a realização da cerimônia naquela data (Correio da Semana, 2022).

Na cerimônia de 23 de julho, o padre Agnaldo Temóteo da Silveira, vigário-geral da Diocese de Sobral, realizou a bênção da Capela do Sagrado Coração de Jesus e de seu altar. Segundo a notícia diocesana, ele estava devidamente delegado pelo bispo diocesano e conduziu o rito litúrgico apropriado diante dos fiéis reunidos para a celebração (Correio da Semana, 2022).

A matéria registra a presença do padre Raimundo Nonato Leonardo Bastos, identificado em associação à cidade de Santana do Acaraú; da então governadora do Ceará, Maria Izolda Cela; do prefeito municipal, Francisco das Chagas Mendes; e da primeira-dama municipal, Katia Gislaine Ferreira Mesquita. Também estiveram presentes deputados, vereadores, secretários e grande número de fiéis. 

Lendas e Crenças Populares

Como em outras postagens, trarei aqui um pouco das lendas que permeiam o imaginário popular em Santana do Acaraú. Sem sombra de dúvida, o ponto místico de convergência dos relatos fantásticos da região giram principalmente em torno do Serrote das Rolas ou Serrote do Olho d'água, elevação que se destaca na paisagem como um marco de referência e orientação. Um levantamento de relatos sobre as lendas locais foi feito pelo pesquisador Igo Braga, disponibilizado em seu blog. Segundo o autor, essas histórias, que resumirei a seguir, foram coletadas com moradores de regiões próximas aos locais mencionados, escritas entre os anos de 2009 a 2011.

Os relatos, assim como em outras regiões, envolvem frequentemente a presença de sons e luzes inexplicáveis. Uma região de particular interesse é a chamada Pedra do Letreiro, que traz um rico conjunto de pinturas rupestres, vestígios da presença indígena na região. Os moradores próximos trazem uma série de relatos sobre luzes misteriosas que apareceriam nesse local, assim como especulações sobre o significado dessas inscrições. Uma dessas lendas afirma que existiria uma cidade secreta no serrote, cujo acesso seria, de alguma maneira, indicado pela inscrições.

Pedra do Letreiro, Santana do Acaraú (por Igo Braga).

É notável a semelhança dos relatos com outras lendas de cidades encantadas trazidas por nós em outra postagem, referente a região da Tatajuba. Igo Braga nos informa ainda que pinturas como estas existem em outros locais de Santana, como nas cachoeiras do açude carnaúbas e na localidade de Ipueirinha. Nessa última localidade, está situado o chamado Serrote Branco, onde também foram registrados relatos dos moradores envolvendo a escuta vozes misteriosas, aparições e sons que descrevem como semelhantes a um tambor.

Mas a história mais curiosa trazida por Braga sobre o Serrote Branco envolve supostas covas que teriam sido encontrados por um antigo proprietário de terras. Segundo o relato, o proprietário teria desenterrado certo número de espadas antigas de um desses buracos, cujo paradeiro é ignorado. Alguns moradores acreditam que tais valas seriam o local onde os donos de escravos depositavam os corpos de cativos que morriam, ou que eram por eles assassinados. Indicam também a existência de uma "pedra dos escravos", local onde os escravos seriam levados para serem castigados por seus donos.

Uma figura sui generis, mencionada por Braga é o tal Vicente Mocozeiro, um eremita que residia em uma caverna no Serrote das Rolas. Talvez indígena, talvez escravizado, sua origem é incerta. Dizem que era caçador (de mocós?) e que negociava na sede do município os animais abatidos. Quase autossuficiente, rondam entre os moradores a lenda de que teria acumulado considerável quantia, que manteve enterrada em um botija. Essa prática de enterrar dinheiro também é corrente no imaginário da região.

Outro conjunto de lendas tratam de figuras femininas. Esse é o caso do chamado "Olho d'água da Visagem", um aquífero situado na propriedade de Sr. João Batista Ponte, ao pé do Serrote das Rolas. Segundo o relato, algumas pessoas que iam à fonte para lavar roupas ou tomar banho avistaram um vulto que aparentava ser de uma mulher, sentada à beira do olho d'água penteando os cabelos e cantando. Quando ela sentia a presença das pessoas se aproximando saia correndo em direção as pedras e desaparecia.

Também próximo a Pedra do Letreiro, existe uma caverna em torno da qual existe outra figura mítica feminina, como descreve o autor:

A lenda conta que: quando as pessoas entram na caverna do nada uma enorme sala repleta de lindas armas começa aparecer e aos poucos a Meia Mulher também vai aparecendo, sempre ela aparece só da cintura pra cima, por esse motivo foi batizada Meia Mulher. Quando a pessoa chega perto ela pede para parar e faz algumas perguntas, depois pede para que a pessoa escolha a arma, se a armar escolhida for a certa o restante do seu corpo aparece e ela revela todos os segredos do serrote e entrega sua riqueza. Ao escolher a armar ela ainda pede para que saia da caverna e deixa bem claro que se a armar escolhida for à errada a pessoa não pode e não deve contar para ninguém o que tinha acontecido. Se a escolhida for à errada quando as pessoas chegam fora da caverna a armar se transforma num pedaço de pau seco, alguns ainda voltavam novamente para dentro, mas não viam mais nada (Braga, 2011).

Mais uma vez, existe certa semelhança entre essa lenda e outra que tratamos na postagem sobre o morro de Jericoacoara. Essa tradição de figuras femininas em contextos lendários dialoga diretamente com as lendas ibéricas envolvendo o chamado ciclo das mouras, como destaca o folclorista Câmara Cascudo.

Por fim, Braga traz duas histórias envolvendo a religiosidade popular. A primeira delas diz respeito a chamada "Cruzinha da Liduina", um túmulo de estrada, localizado na região de Equitós, também na zona rural de Santana do Acaraú. Em 11 de janeiro de 1972, essa mulher de nome Liduína estava gravemente enferma e a família teria decidido transportá-la em uma rede para um local onde pudesse receber tratamento médico. Entretanto, infelizmente, ela acabou por falecer durante o trajeto, sendo sepultada na beira da estrada. Em função da morte trágica, algumas pessoas começaram a frequentar o túmulo e a fazer e pagar promessas para ela. Segundo os relatos, foram realizadas verdadeiras romarias até a Cruzinha, e uma missa foi, inclusive, celebrada no local. A estrada em questão, que levava a comunidade, não existe mais, tendo sido tomada pelo mato.

Finalmente, ainda na linha da religiosidade popular, Braga traz uma história, de certa forma, cômica. Conforme o autor, num passado não determinado, dois jovens que trabalhavam numa olaria em Santana do Acaraú tiveram a ideia de fazer um boneco de barro para enfeitar a olaria, o qual batizaram de "Piçarra", em referência ao material de que era feito. Mas depois de algum tempo ocorreu uma enchente que atingiu o local onde os jovens trabalhavam e Piçarra foi levado pelas águas. Passados alguns dias, moradores da região encontraram o dito boneco de barro, que acreditaram se tratar de um Santo. Fizeram então um altar na beira da estrada, onde o colocaram. O santuário ganhou enfeites e passou a ser bastante frequentado pelas pessoas da região, onde muitos realizavam romarias e iam rezar e fazer promessas.

Certo dia os jovens que fizeram o boneco passaram pelo local e viram aquelas pessoas orando no pé do altar, para o Piçarra. Comentaram entre eles: “olha fulano onde está o Piçarra sendo Santo, agora ele é um Santo”. Mas eles, por um bom tempo, não falaram nada para ninguém. Mas a verdade aos pouco foi surgindo e as pessoas descobrindo a verdadeira origem daquele boneco de barro foram perdendo a fé e deixaram de frequentar o oratório do Santo Piçarra, que chegou a desaparecer misteriosamente, mas sua estória é lembrada na tradição oral.

 Diego Carneiro
19 de outubro de 2026

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. De Serrote a João Cordeiro. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 19 de outubro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/10/de-serrote-joao-cordeiro.html

Referências

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO CEARÁ. Ata da sessão ordinária da 3ª Câmara de Direito Público, realizada em 28 de novembro de 2022. Fortaleza: TJCE, 2023. Documento referente ao julgamento da Apelação Cível nº 0004421-76.2012.8.06.0161. Disponível em: https://portal.tjce.jus.br/uploads/2023/01/ATA-28.11.2022.pdf. Acesso em: 12 out. 2026.

As Terras de São Gonçalo

São Gonçalo, Bela Cruz

Esse artigo traz algumas informações sobre a formação da localidade de São Gonçalo, em Bela Cruz. A principal fonte para tanto é o livreto São Gonçalo de Ontem e de Hoje, escrito por Sebastião Benício Marques, o seu Sé, em 3 de março de 1983. O autor declara ter colhido essas informações com amigos e moradores da região de São Gonçalo. Além disso, recorri a preciosa obra do pesquisador Marcos Aurélio da Silveira sobre os topônimos da cidade de Bela Cruz. Como sempre, tentei enriquecer a narrativa com outras fontes bibliográficas e documentais.

A localidades de São Gonçalo situa-se a aproximadamente 16 km ao oeste da sede municipal, à margem de um riacho de mesmo nome, que alimenta o Riacho da Prata. O Riacho São Gonçalo tem dois braços principais, sendo que o maior deles nasce no lugar chamado Pubas, onde existe um açude, construído em 1945 por Francisco Romão de Carvalho, do qual falaremos mais adiante, com capacidade para 400.000 m³ (Araújo, 1967, p. 23). O topônimo Puba deriva da chamada farinha puba, variedade resultante do processo de fermentação da mandioca por imersão.

Segundo o pesquisador Marcos Aurélio da Silveira, na ausência de tanques, o preparo desse farináceo era realizado do próprio açude, o que motivou sua denominação. Na margem esquerda do açude, existe a localidade de Veado Branco, cujo topônimo é atribuído a um animal com essas características flagrado pelo caçador Tomé Mariano, provavelmente no início do século XX (Silveira, 2012, p. 27, 41). O outro braço que alimenta o Riacho São Gonçalo recebe o nome Córrego Maria Velha, que atravessa a localidade de Matriz ou Carrasco, da qual trataremos mais adiante.

A Descoberta

Seu Sé atribui a descoberta da região onde hoje encontra-se a localidade de São Gonçalo aos irmãos Raimundo Bernardo da Costa e João Bernardo da Costa, e mais dois companheiros da família Severiano. Conforme o autor, eles:

"... saíram de Bela Cruz por volta de duas horas da manhã equipados de água e comida, foram executar uma de suas caçadas apanharam uma vereda que vinha até onde hoje é o Mil Passos, ali chegando continuaram a vereda para a frente com os facões que levavam. Sempre direto para o lado poente às oito horas da manhã chegaram em um baixio no meio do mato, era a Baixa Nova de hoje" (Marques, 1983, p. 5).

Entre os locais mencionados, Mil Passos é uma localidade situada a cerca de oito quilômetros a oeste da sede de Bela Cruz. Conforme Marcos Aurélio, sua denominação deriva de um antigo sistema de medição, onde um passo equivalia a um metro de comprimento. Assim, os mil passos (10 x 100 passos) foram medidos pelo Capitão José Lopes da Silveira (1854-1943), para a implantação de um roçado. Esse local teria sido anteriormente chamado Riacho do São Gonçalo.

Outra versão trazida por Silveira é de que João Batista Fonteles (1871-?) teria aberto uma estrada entre as localidades de Tibira e Aguiar em 1899, que depois foi estendida até a atual Baixa do Meio. Mas durante a abertura desse segundo trecho, notaram que a estrada estava indo na direção errada e, então, fizeram uma curva que, posteriormente ficaria conhecida como Volta do Carneiro, em função de um ovino que haviam encontrado no lugar. A distância entre a curva e a baixa foi de exatos mil passos, passando então a ser conhecida como Baixa dos Mil Passos (Silveira, 2012, p. 39-40).

De volta a jornada dos irmãos Bernardo e Severiano:

"Prosseguiram a mesma vereda, às doze horas da manhã eles chegaram em baixo de um grande pé de cajazeiro ali chegando acharam que seria bom fazer almoço, José Bernardo dá uma volta ao redor da árvore a fim de colher lenha para fazer o fogo, depararam-se com um lindo boné de soldado! Tendo escrito na frente a seguinte frase: SÃO GONÇALO, o qual cheio de espanto vai mostrar aos companheiros, os quatro juntos depois de muito debate acharam que aquele nome devia ser dado ao lugar que eles tinham encontrado, depois do almoço servido Raimundo Bernardo dá uma volta para o lado do sul da árvore, vislumbra por baixo da mata uns arbustos muito verde, olha com mais atenção percebe que tem um corrente d'água, verifica melhor, era um riacho com água limpa e boa era o São Gonçalo que acabara de ser descoberto por estes heróis caçadores. Com essa aventura de encontrar nova terra ficaram sempre zelando pela nova terra" (Marques, 1983, p. 6).

Os bonés ou quepes foram introduzidos pela primeira vez nos uniformes da Guarda Nacional do Império, no Corpo de Cavalaria do Rio de Janeiro, através do Decreto nº 4.331, de 30 de janeiro de 1869. Eram do estilo boné a Cavaignac, em referência a um general francês, sendo popularmente referidos como "cavanhaque". Com a proclamação da república, os quepes foram incluídos também nos uniformes militares por meio do Decreto nº 21, de 28 de novembro de 1889. Portanto, é provável que o artefato encontrado seja do final do século XIX, sendo a inscrição São Gonçalo, uma possível alusão a cidade fluminense, talvez onde foi confeccionado.

Quepe "Cavanhaque" usado na Guerra do Paraguai

Não consegui identificar exatamente quem seriam as pessoas envolvidas na descoberta de São Gonçalo, mas sobre a família Severiano de Bela Cruz, até onde pude levantar, esta deriva do patriarca Severiano Bernardino da Costa, filho de José Bernardino da Costa e Rufina Maria da Conceição. Severiano, que além de líder comunitário foi subdelegado de polícia e fiscal do município, nasceu por volta de 1880 e casou-se com Isabel Francisca das Chagas, filha de Urbino Pontes de Maria e Altina Maria de Oliveira, em 1 de setembro de 1906. Portanto, pode-se situar esses acontecimentos no final do século XIX.

Uma filha de Severiano, Francisca Severiano da Costa, casou-se com Sebastião Bernardo da Costa, filho de José Raimundo da Costa e Alexandrina Maria Rachel, em 1934. Pela construção do sobrenome é possível que Sebastião possua algum parentesco com os irmãos Bernardo da Costa. Aliás, considerando a elevada endogamia da época, não acharia estranho se todos descendessem do mesmo tronco Bernardo/Bernardino Costa.

Ainda sobre esse grupo familiar, consta no arrolamento de bens de Manoel Faustino Filho, datado de 30 de julho de 1936, a seguinte propriedade:


Transcrição:

Uma posse de terra com quinhentas braças no lugar Baixa Nova, deste termo, que se limita ao Norte com terras que foram de Paulo José Rodrigues, hoje Alfredo Silveira, ao sul com terras que foram de Severiano Bernardino da Costa, hoje Antônio Faustino de Maria, ao Nascente, com um travessão existente com terras de Manoel Duca da Silveira, e ao poente, num pau d'olho velho, com terras do Riacho São Gonçalo, havida por compra que fez a Manoel Bernardo da Costa, conforme escritura pública devidamente registrada sob nº 1748, que estimam em cinco mil réis a braça - dois contos e quinhentos mil réis. - 2:500$000 (fl. 9).

Isso atesta documentalmente a presença do núcleo familiar "Bernardo Costa" nessa região desde, ao menos o início do século XX.

Ademais, consta no Arrolamento de Partilha de Gabriel Florêncio de Vasconcelos, aberto em 3 de novembro de 1939, um terreno de seiscentas braças de terra na Baixa Nova, obtido em parceria com seus irmãos e cunhado, Manoel Benício de Vasconcelos e Manoel José de Vasconcelos, com a seguinte confrontação:

"... ao norte com um terreno que foi apossado por Manoel Bernardo da Costa e hoje pertence ou pertenceu a Severiano Bernardino da Costa, em um caminho existente; ao sul, com outro terreno apossado por Francisco Romão de Carvalho, no ponto onde completar seiscentas braças medidas em linha reta e que começam no travessão do mesmo Romão com as de João Aristides da Rocha; ao Nascente com terras de Manoel Duca da Silveira e Manoel Marques de Vasconcelos, no travessão que ali existe, a ao Poente, com terras do lugar São Gonçalo, no limite onde der meia légua de comprimento, que começa da denominada Baixa Nova..." (fl. 19). 

Isso comprova a ligação entre Manoel Bernardo e Severiano. No mesmo documento, cita ainda, uma posse de terra no Córrego Grande, nos fundos da Fazenda Marquinho e por ele apossado desde 1880. Ambos os locais são hoje bairros da cidade de Bela Cruz.

Vicente Vieira e Major Paulino

Dando continuidade a narrativa de Seu Sé, ele sugere que os companheiros de descoberta teriam se instalado na região, construindo barracos e fazendo roçados de arroz, milho e feijão. A prosperidade econômica dos mesmos teria atraído pessoas de outras regiões, entre eles o Sr. Vicente Vieira de Sousa, que seria proveniente da Serra da Meruoca, e teria se mudado para o local com sua mulher, Francisca Maria da Conceição, e filhos. A região ocupada por Vicente Vieira corresponde ao atual São Gonçalo de Cima, em contraposição ao São Gonçalo de Baixo, dos irmãos Bernardo Costa.

A partir daqui há uma quebra significativa de cronologia, pois o autor informa que a chegada de Vieira teria se dado em 1830, sendo que em 1838, um criador de Sobral, de nome Major Paulino, teria solicitado uma parte das terras de Vieira emprestadas para fazer "um retiro para o gado", que sofria com a seca. Mas Paulino morre sem ter devolvido as terras a Vieira, e os filhos daquele se negam a devolvê-la, vendendo as terras a terceiros. O autor informa ainda que, na época da escrita do panfleto, os descendentes de Vicente Vieira ainda residiam em São Gonçalo, citando especificamente um neto, já idoso, de nome Pedro Vieira.

Não sabemos exatamente a data de nascimento de Vicente Vieira, mas seu filho mais velho documentado, Florêncio, nasceu em 1870, sendo batizado no mesmo ano, já em Bela Cruz, de modo que é razoável situar seu nascimento entre as décadas de 1840 e 1850. Apesar de não ser matematicamente impossível, me parece muito improvável que os fatos narrados tenham acontecido na primeira metade do século XIX. Ressalta-se também que existe em Bela Cruz uma localidade chamada Baixa dos Vieiras, associada a essa família, na figura do Sr. Raimundo Vieira, que seria o primeiro morador (Silveira, 2012, p. 41).

O referido Major, provavelmente trata-se do Major José Paulino da Costa (1845-1928), influente político local entre o final do século XIX e início do século XX. Originário de Santana do Acaraú, onde foi eleito vereador em 1 de julho de 1882 (Município de Santana, 1926, p. 168). Lá atuou como Juiz de Paz e chegou a ser eleito deputado provincial durante os anos de 1888 e 1889. Com a queda do Governador Nogueira Acióli, o Major José Paulino, que era um dos líderes dos apoiadores de Franco Rabelo, foi nomeado Intendente de Massapê entre os anos de 1912 e 1914, onde ainda hoje existe uma rua em sua homenagem. Faleceu aos 83 anos, em 3 de junho de 1928 (De Aguiar, 1969, p. 47).

Esse histórico coloca, mais uma vez, em xeque a cronologia apresentada por Sebastião Marques. Uma vez que o Major faleceu em 1928, é provável que os acontecimentos narrados tenham se passado já no final do século XIX. Durante esse período, uma das maiores secas registradas a de 1888-89, não sendo impossível que tenha sido esta a que motivou o pedido de socorro do Major a Vieira. Isso é compatível com a cronologia apresentada anteriormente. Em outros capítulos vimos que essa e outras estiagens foram fatores de deslocamentos populacionais.

Padre Miguel Francisco da Frota

Continua Seu Sé:

Já em 1840 vagava por longe do novo lugar foi aí que foi vendido o primeiro lote de terra ao Sr. Miguel Francisco da Frota, residente em Santana do Acaraú com o fim de construir casa de fazenda de gado, já recebendo o nome de São Gonçalo, dados pelos descobridores da nova terra, Miguel Francisco procurou trazer como vaqueiro o Sr. Antônio Vicente procedente da Serra da Meruoca, foi esta a primeira fazenda existente em São Gonçalo, com dois anos depois veio seu genro Francisco Gomes da Meruoca morar na referida fazenda e depois de três anos veio Estevão Gomes, cunhado de Francisco Gomes... (Marques, 1983, p. 7).

Cronologicamente, esse deve ter sido um dos primeiros marcos da ocupação local, antecedendo alguns dos fatos narrados anteriormente. Miguel Francisco da Frota nasceu na Fazenda Salgado, atual município de Morrinhos, a 18 de março 1816. Era filho de Inácio Gomes da Frota e Ana Maria da Conceição. Matriculou-se no Seminário de Olinda em 1840, sendo ordenado em 30 de junho de 1843. Foi Deputado Provincial em três biênios, com intervalos de dez anos entre cada um, quais sejam: 1848-1849, 1858-1859, 1868-1869. Com a criação da freguesia de Santana do Acaraú a 29 de agosto de 1848, foi nomeado seu primeiro vigário, cargo que exerceu até dezembro de 1849 (Araújo, 1985, p. 162).

Padre Miguel Francisco da Frota (1816-1882)

Não consegui maiores informações sobre essa fazenda, mas considerando o período que o sacerdote residiu na região, é provável que a tenha adquirido no final da década de 1840, o que antecede todos os acontecimentos narrados. Não encontrei maiores informações sobre Antônio Vicente e a família Gomes. Ressalta-se, entretanto o fim trágico de Pe. Frota. Em 26 de maio de 1865, ele foi nomeado vigário da Sé de Fortaleza e alguns anos depois, em novembro de 1872, desapareceu misteriosamente, sem qualquer aviso ao Bispo Diocesano. O desenrolar dessa história é narrada por Pe. Sadoc:

Apesar das acuradas investigações, não se tinha notícia de seu paradeiro. Alguns meses depois, tudo ficou esclarecido: Tendo sido chamado a ouvir confissão de um preso em Fortaleza, este lhe teria comunicado que era natural da Bahia, comarca de Orobó, atualmente Itaberaba, onde entrara em desavença com um dos potentados da região, tendo de abandonar aquele lugar às pressas, sob ameaça de morte. Fugiu então para o Ceará. Antes, porém, enterrara grande fortuna em moedas e pediu ao padre para ir descobri-la e trazê-la a Fortaleza. Padre Miguel, sem prévia consulta aos seus superiores, resolveu sigilosamente empreender a fatigante viagem, a pé, tendo deixado a barba crescer, chegando ao local do pretenso tesouro com feições de fanático e de louco. Ali foi assassinado por assaltantes que estranharam sua presença e o tomaram por malfeitor. Tal versão teria sido comunicada ao Bispo Diocesano pelo próprio preso da penitenciária de Fortaleza (Araújo, 1985, p. 163). 

Novos Moradores

De volta a narrativa, o Sr. Benício Marques nos informa que:

... depois veio da Serra do Rosário [atual Jordão, Sobral] o Sr. José Alves [de Lima] com a família sendo a fazenda de Miguel Francisco no São Gonçalo de Baixo e José Alves fixando moradia no São Gonçalo de Cima, vivia estas famílias sem as mínimas condições de quaisquer assistência. Quer no setor da saúde, no setor da educação na higiene, nada dito eles tinham mas viviam felizes. E continuava aparecendo mais famílias. No ano de 1874 chegou aqui o Sr. Francisco Leocádio [de Oliveira] e sua mulher dona Maria Genoveva [da Conceição], procedente da Serra do Rosário e aqui fez moradia criando uma prole de seis filhos. Na mesma época veio outra família de Faustino que hoje é uma das maiores do local. Antônio Faustino [de Maria] foi pai de 15 filhos. Estas famílias foram as que mais atravessaram barreiras difíceis de secas, doenças, mau trato e o grande analfabetismo que reinava sobre eles (Marques, 1983, p. 7).

Especificamente sobre o casal Francisco Leocádio e Maria Genoveva, julgo que tenha havido um pequeno engano do autor, uma vez que Francisco Leocádio do Nascimento é filho de Maria Genoveva da Conceição, sendo seu marido, pai de Francisco, João Leocádio de Oliveira. Francisco Leocádio casou-se, em 14 de outubro de 1917, com Maria Livramento da Conceição, filha de Manoel Marinho de Andrade e de Maria José da Purificação. Portanto, estima-se seu nascimento na última década do século XIX.

Sobre José Alves de Lima, sabe-se apenas que era casado com Maria Joana da Conceição. Já Antônio Faustino de Maria, era natural de Bela Cruz, nascido em 20 de setembro de 1868, filho de Manoel Faustino de Maria e Ana Francisca de Andrade. Casou-se com Maria José do Espírito Santo, filha de Vicente Vieira de Souza e Francisca Maria da Conceição, em 7 de setembro de 1896. Dessas duas famílias, formou-se o casal Raimundo Alves de Lima e Maria José da Conceição, filhos de José Alves e Antônio Faustino, respectivamente. Da mesma forma, Francisco Romão, filho de João Leocádio casou-se com Francisca Maria, outra filha de Antônio Faustino.

Raimundo Ferreira Marques

Continuando a história, Seu Sé nos informa que no dia 7 de setembro de 1930, chegou a São Gonçalo o Sr. Raimundo Ferreira Marques e sua esposa, Dona Maria Marques [ou Teodora] da Cunha, juntamente com seus filhos e genros, assim como seu irmão, Manoel Ferreira Marques, sua esposa Altina Marques da Cunha e o filho do casal Raimundo Nonato Ferreira, todos procedentes da Vila de Aranaú, em Acaraú. Raimundo Marques e seu genro Manoel Ferreira Ramos compraram uma terra do Sr. Joaquim Sátiro [de Paulo?], onde fixaram residência (Marques, 1983, p. 9).

Raimundo Marques nasceu em 8 de agosto de 1875, filho de Vicente Ferreira Marques e Inácia Maria da Conceição. Casou-se com Maria Teodora da Cunha, filha de Francisco da Cunha Araújo e Theodora Pires Chaves, são pais de Sebastião Marques, autor do livro que referenciamos. O citado Manoel Ferreira Ramos casou-se com Francisca das Chagas Marques, filha de Raimundo Marques, em 14 de novembro de 1945. Ele era filho Abel Ramos do Monte e Ana Ferreira de Freitas. Finalmente, Joaquim Sátiro de Paulo, de quem a família comprou o terreno em São Gonçalo, sabe-se apenas que era casado com Maria José de Paulo.

Segundo o Sr. Sebastião Benício, no ano de 1939, Raimundo Ferreira Marques constrói uma casa de taipa coberta de telha e junto a ela um poço, o primeiro existente no lugar. No mesmo ano, ergue a primeira casa de tijolo e fura o segundo poço. Três anos depois, Antônio Faustino também constrói uma casa de tijolo. Ainda conforme o autor, os Marques possuíam algum grau de instrução formal, o que era raro na região naquele tempo. Assim, Teresa de Jesus Marques, filha de Raimundo Marques, funda um pequena escola na casa de seu pai, a qual era mantida pelos pais dos alunos, ao preço de 10 tostões por mês. Durante os três anos de funcionamento, a escola alfabetizou quinze crianças.

As atividades da escola foram interrompidas pela seca ocorrida em 1942, quando Teresa muda-se com o esposo para a região da Serrota, regressando em 1945. Nesse período, a localidade recebeu um prédio escolar da prefeitura de Acaraú, depois assumida pela Prefeitura de Bela Cruz após a sua emancipação. A professora aposenta-se em meados dos anos 1960, dando fim ao primeiro ciclo educacional de São Gonçalo (Marques, 1983, p. 10).

A Capela de Santo Antônio

Em 1943, logo após a criação da Paróquia de Bela Cruz, e posse de Padre Odécio Loiola, inicia-se um movimento na comunidade para a construção de uma capela. O terreno foi doado pelo Sr. Raimundo Marques, mas por estar muito afastado da estrada de rodagem que liga São Gonçalo a sede de Bela Cruz, a proposta foi rejeitada pelo pároco. Dessa forma, o Sr. Antônio Faustino, em acordo com seus filhos, fez doação de uma parte de sua terra ao Padre Odécio com o fim de construir a Capelinha. Deduz-se do restante do texto, que isso teria acontecido vários anos depois.

Segundo Sebastião Marques, Antônio Faustino teria tido um papel central na construção do templo, nas palavras do autor:

Ele fez campanha tanto em São Gonçalo como na circunvizinhança, todo povo contribuíram com dinheiro e gênero e prenda para leilões, até que conseguiu começar o serviço da capela. Os tijolos foram feitos aqui pelo povo daqui, a contribuição foi muito ligeira. Começaram pelo mês de outubro e dia 12 de janeiro do outro ano foi coberta. Os moradores daqui muitos deles ajudaram no teto e na coberta. As portas foram feitas pelo Sr. Raimundo Marques e Vicente Daniel, os portais foi Raimundo Marques e seu filho, o autor deste pequeno livro [Sebastião Marques] (Marques, 1983, p. 10).

O autor reforça o tamanho do esforço coletivo empenhado em tal empreendimento, considerando o pequeno tamanho do povoado e a severa escassez de recursos materiais. Mais uma vez, a cronologia é confusa, pois Seu Sé afirma que nos anos de 1951-52 ainda estavam realizando os acabamentos do tempo, tendo sido construídos o piso, reboco e pintura. Segundo Nicodemos Araújo, a capela dedicada a Santo Antônio recebeu sua bênção apenas dez anos depois, em 2 de outubro de 1961 (Araújo, 1967, p. 48).

Altar da Capela de Santo Antônio

As igrejas possuem um papel estruturante no desenho urbanístico da localidade, pela formação do chamado Quadro da Rua, ao redor da capela. A primeira casa foi na rua do lado do oeste [Rua João Tomé], a segunda foi na rua do lado norte [Rua Edmar Romão de Carvalho] e depois foram construídas quatro casas do lado sul [Rua do Cemitério], casas estas depois demolidas e construídas outras a fim de diminuir o quadro. Ficando o lado leste [Rua Pedro Vieira de Sousa] limpo de casas. Só depois de 1960 foi que começou a rua do lado leste da igreja.

Em 1966, na gestão do prefeito José Ludugero da Silveira, foi construído um cemitério, em terreno doado pelo Sr. Marciano. Antes disso, segundo Sebastião Marques, os mortos de São Gonçalo eram sepultados na localidade vizinha de Carrasco ou em Bela Cruz, distante 18 km. Posteriormente também foi construída pelo vigário uma casa paroquial, para servir de apoio na realização das celebrações da Capela.

Aspectos Étnicos e Antropológicos

No último capítulo de seu livreto, Sr. Sebastião Marques traz uma curiosa análise sobre os aspectos raciais dos primeiros habitantes da localidade:

Os primitivos moradores de São Gonçalo, eram todos de outros lugares bem distantes da região. Pois sabemos que aqui era desabitado, tudo coberto de mato habitada só por animais, onça, veado, porco do mato etc. Como já frisei nos capítulos anteriores, estes primeiros moradores eram todos da serra. Como fosse: Serra do Rosário, Meruoca e outros lugares mais distantes. Todo este povo eram de cor preta, cabelos encaracolados, pouca barba, eram homens destemidos criaturas que não temiam lutas capazes de morrer ou matar. Só depois do ano de 1937 foi que aparecer outro tipo de homem de outra raça, homens brancos, cabelos finos, olhos azuis ou pretos com bastante barbas e possuidores de mais civilidade. Criaturas mais pensadas e compreendidas. Ainda hoje o nosso povo aqui tem cores desiguais. Tudo isto foi cruzamento de raças diferentes, mais hoje os costumes são o mesmo, só que grande parte do povo optam por outras seitas diferentes, valorizam ciências ocultas, macumbas etc. (Marques, 1983, p. 18).

Por mais que, aos ouvidos do entendimento atual, as palavras do autor possam soar preconceituosas, permitem tecer algumas conjecturas sobre a formação e origem dos colonizadores dessa porção do território do Baixo Acaraú. A descrição dos aspectos físicos dos primeiros moradores sugerem ascendência indígena ou africana, possíveis resquícios do instituto da escravidão. A região da Meruoca e Serra do Rosário, no atual distrito de Jordão, em Sobral, foi primitivamente ocupada pelos índios da etnia Reriú, missionados pelos jesuítas da Ibiapaba ainda no final do século XVII.

Um trecho interessantíssimo do relato de Sebastião Marques é de que existia em São Gonçalo muitos adeptos das "ciências ocultas, macumbas, etc.", o que nada mais são do que traços de religiões tradicionais dos povos indígenas, assim como dos africanos. Em outro capítulo, quando tratamos do povo Tremembé, ficou claro que essas práticas eram correntes no sistema de crenças dos nativos cearenses, existindo traços que persistem até o presente. Também é bastante comum o tratamento marginalizado dado as práticas religiosas que desviam da religião católica, até hoje predominante.

Por outro lado, a chegada do "homem branco" coincide com a chegada da Família Marques, da qual o autor descende. O próprio texto explica que são provenientes da Vila de Aranaú, antiga Timbaúba, sesmaria de Antônio Correia Peixoto. Essa região foi colonizada por luso-brasileiros provenientes do reino e do estado de Pernambuco. Um dos primeiros moradores da região de Aranaú com sobrenome Marques é Vicente Marques de Souza, filho de Cipriano José de Souza, provável descendente de Manoel Carlos de Vasconcelos e Joana Correia Peixoto, filha de Antônio Correia Peixoto.

Matriz / Carrasco

Cinco quilômetros a sudoeste de São Gonçalo existe a localidade de Matriz, também conhecida por Carrasco. Esse nome Carrasco remete ao tipo de vegetação predominante na região da caatinga, chamada mata carrasca ou simplesmente carrasco. O nome Matriz teria sido dado anos mais tarde pelo Pe. Odécio. Sua descoberta é atribuída por Marcos Aurélio a Manoel Martins Leitão, que, durante a seca de 1888, após desistir de migrar para o norte do país, teria descoberto, em meio a caatinga, duas lagoas próximas uma a outra, a Lagoa do Carrasco e a Lagoa do Santo. O nome dessa última foi dado pelo fato das terras pertencerem ao padroeiro do lugar (Silveira, 2012, p. 25).

Sobre Manoel Martins Leitão, não consegui determinar sua origem exata, mas sabe-se que ele foi casado com Maria Barbosa de Jesus. Atestando sua presença na região, um neta sua, Dionísia Maria da Conceição, casou-se em 12 de dezembro de 1936, com Raimundo Faustino de Maria, filho do já mencionado Antônio Faustino de Maria. Ademais, segundo o pesquisador Fabiano Farias e coautores, o povoado de Matriz situava-se na antiga fazenda do Sr. Francisco Romão de Carvalho, já mencionado anteriormente. Outro pessoa lembrada como dos primeiros moradores é o Sr. Manoel Quirino [de Sousa?].

Francisco Romão de Carvalho nasceu no povoado de Santa Cruz, atual Bela Cruz, em 6 de abril de 1865, filho de José Romão de Carvalho e Maria Angelita da Glória. Casou-se duas vezes, a primeira com Maria Delfa da Conceição, filha de Inácio Pereira de Vasconcelos e Maria Delfa da Conceição. A segunda, com Rita Ferreira Andrade, filha e Pedro Ferreira da Ponte e Maria José de Sousa. No início do século XX, doou terras para a paróquia de Bela Cruz, onde, em 1938, iniciou a construção da Capela de São Francisco, juntamente os srs. José Adeodato da Rocha, José Manoel de Oliveira e outros (Araújo, 1967, p. 48). Mas a igreja foi concluída somente em 1942, e sua benção foi efetuada em 4 de outubro de 1945, dando novo ímpeto ao desenvolvimento da localidade.

Além de ser um grande proprietário de terras, Romão atuou como líder comunitário, tendo participação direta na campanha para a emancipação de Bela Cruz, iniciada em 1906. Em 1917, integrou uma comissão responsável pela  construção de um novo cemitério em Bela Cruz, localizado no bairro Brasília. Como industrial, instalou no então Sítio Correguinho uma fábrica de aguardente de cana, com engenho acionado a força animal, a qual funcionou até 1918. Francisco Romão de Carvalho faleceu em 5 de abril de 1949, com 84 anos de idade. Há uma rua com seu nome, na cidade de Bela Cruz. Deixou grande descendência: 8 filhos, 59 netos, 157 bisnetos e 24 trinetos até 1990 (Araújo, 1990, p. 48, 52, 77).

Alguns marcos da infraestrutura da localidade de Matriz foram a construção, em 1950, do Açude São Francisco, com recursos da paróquia. Em 1963 foi instalado o primeiro chafariz e anos depois foram construídas a Escola de Ensino Fundamental Francisco Romão, homenageando o referido proprietário, e um Posto de Saúde, construídos em 1979 (Farias et al., 2020 p. 1-2). Em 12 de setembro de 1970, o prefeito José Ludugero da Silveira inaugura o cemitério local (Araújo, 1990, p. 103).

Cajueirinho

A localidade de Cajueirinho originou-se dentro da Fazenda Bom Sucesso, pertencente ao Sr. José Batista da Rocha (Zé Batista). Em 1936, o proprietário construiu em sua fazenda o chamado Açude do Cajueirinho, barrando as águas do riacho Inhanduba, na divisa com o município de Marco. A obra foi realizada por meio de um convênio com o Governo do Estado e os trabalhos foram administrados por seu sobrinho, o agropecuarista Raimundo Magalhães Rocha (Doca Rocha) (Araújo, 1990, p. 65). A comunidade desenvolveu-se à margem do rio represado.

Sobre José Batista Rocha, sabe-se que nasceu em 5 de janeiro de 1890, filho de João Tiburcio da Rocha e Maria José Vasconcelos. Casou-se com Maria de Nazaré Gonçalves Rocha. Além de produtor e líder comunitário, incentivou o cooperativismo, sendo presidente e fundador da Cooperativa de  Consumo do Agrários de Acaraú, fundada em 3 de maio de 1936 (Araújo, 1990, p. 64). Já Doca Rocha, era filho de Francisco das Chagas Rocha, irmão de Zé Batista, e Maria Oliveira Magalhães, tendo nascido em 26 de julho de 1912.

Casou-se duas vezes, sendo a primeira com Maria Benedita da Rocha, filha de José Adeodato da Rocha e Maria José da Rocha, em 7 de janeiro de 1934, e a segunda com D. Teresinha de Jesus Araújo, filha de Bento Alves de Araújo e Maria José de Carvalho. Era proprietário da Fazenda Santa Maria, fundada em 1942. Visando dar educação aos filhos, mudou-se para a Vila de Bela Cruz e em fevereiro de 1957, com a emancipação do município, Doca Rocha foi eleito vereador, sendo o primeiro presidente da Câmara Municipal. Faleceu em 5 de fevereiro de 1990. Entre os seus filhos, destaca-se o ilustre Mons. Francisco Assis de Magalhães Rocha.

Décadas depois, o sr. Zé Batista também doou o terreno para a construção da Capela de São José, cuja bênção solene foi realizada em 14 de novembro de 1965, pelo Mons. Odécio. O Sr. Raimundo Magalhães Rocha também colaborou com a sua construção. Outro marco da localidade foi a construção da primeira escola que homenageia o sr. José Batista, que em 14  de agosto de 1978, também doou o terreno para sua construção (Araújo, 2025, p. 56). Durante a década de 1980, o povoado recebeu um cemitério, construído pela prefeitura municipal, assim como posto de saúde e um centro comunitário.

Cachoeira do Cajueirinho do Zé Batista

A localidade tem entre os seus atrativos o próprio açude que funciona como balneário e a chamada Cachoeira do Cajueirinho, uma queda d'água que verte de sua parece durante o inverno. Infelizmente, ao longo dos anos, vários incidentes foram registrados no local, como afogamentos e até mesmo queda de veículos.

Diego Carneiro
20 de outubro de 2026

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. As Terras de São Gonçalo. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 20 de outubro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/10/as-terras-de-sao-goncalo.html 

Referências:

ARAÚJO, Nicodemos. Bela Cruz, de Prédio Rústico a Cidade. Acaraú, 1967.

ARAÚJO, Nicodemos. Cronologia de Bela Cruz. Acaraú, 1990.

ARAÚJO, Francisco Sadoc. Dicionário biográfico de sacerdotes sobralenses. Secretaria de Cultura e Desporto, 1985.

ARAÚJO, José Edicarlos. Análise documental do Programa de Educação em Tempo Integral de Bela Cruz – CE. 2025. 81 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Avaliação de Políticas Públicas) – Centro de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2025

DE AGUIAR, Osvaldo. Massapê em Foco. Fortaleza, 1969.

FARIAS, Fabiano et al. Diagnóstico Socioambiental da Localidade de Matriz Bela Cruz CE. Sobral: Anais do IV Fórum Brasileiro do Semiárido, 2020.

MARQUES, Sebastião Benício. São Gonçalo do Ontem e de Hoje. Bela Cruz, 03 de março de 1983.

O Município de Sant'Anna: um pouco de histórico sobre o Ceará de 1608 a 1738. Santana do Acaraú: Pap. e Typ. Correio da Semana, 1926.

SILVEIRA, Marcos Aurélio. Bela Cruz - Seus incríveis topônimos. Bela Cruz, 2012.