A história de Jijoca de Jericoacoara começa com a incipiente ocupação colonial e posterior abandono da Vila de Jericoacoara, já debatida extensamente em outra postagem. Friso apenas que Jericoacoara foi a primeira sede administrativa do atual território municipal, tendo sido transformado em distrito de Acaraú pela Lei municipal nº 94, de 29 de julho de 1923, e elevado à categoria de vila, como "Serrote de Jericoacoara", pelo Decreto Federal nº 311, em março de 1938. Como distrito, possuía os seguintes limites:
Ao Norte, o mar, desde a enseada de Jericoacoara até o travessão de José Júlio Lousada, em Formosa. A Leste, os distritos de Aranaú e Cruz, seguindo pelo aludido travessão, toma a carroçável que de Sto. Estêvão vai à Lagoa do Monteiro, e dali, pela mesma estrada, vai aos limites do município de Bela Cruz. Ao Sul, o município de Bela Cruz, por uma reta que vai ao Córrego de Dentro, até a estrada de igual denominação, pela qual segue, até os limites de Acaraú com Camocim, na fazenda São Joaquim. Ao Poente, o município de Camocim, desde a incidência referida, passando pela Lagoa das Pedras, até a enseada de Jericoacoara (Araújo, 1971, p. 336).
O Serrote teve pouca prosperidade enquanto pertenceu a Acaraú, principalmente em função distância entre o distrito e a sede. Mesmo as terras da lagoa Jijoca distavam cerca de 50 km de Acaraú, percorridos a pé, a cavalo ou de jumento, entre matas, córregos, rios e lagoas, em viagens de mais de um dia. Por isso, era mais atraente a viagem ao Serrote ou a Camocim, em barcos à vela ou a pé, pela beira-mar, para as compras. Nessa época, existia também um incipiente comércio, muito baseado na troca de farinha por peixe. Essa realidade perdurou pelo menos até 1985, quando houve a chegada em grande escala do turismo.
Nesse post nos deteremos mais a história da sede de Jjijoca de Jericoacoara e outras localidades do município. Comecemos pelo topônimo indígena "jijoca" (ji = rã ou sapo + oca = casa), que significa algo como "casa das rãs" (Aragão, 1996, p. 133). Considerando que a sede do município se desenvolveu ao redor da lagoa de mesmo nome, parece traduzir um sentido bem concreto do lugar para os povos ancestrais que a nomearam. Memorialistas locais atestam a presença antiga dos índios Tremembés, o que pode ser visto tanto fenótipo da população, como em vestígios materiais, como utensílios domésticos e uma cacimba, localizada nas terras que pertenceram ao Sr. Leôncio Liberato (Baixio de Jijoca, 22/05/2015).
Antigos moradores da região, como o Sr. João Brandão, reproduzem uma explicação folclórica sobre a origem do topônimo "jijoca", ligada a presença indígena:
"Antigamente aqui viveu uma tribo de índios que governada por um casal onde um deles era "Ji" e o outro era "Joca", aqui viveram por muito tempo, até que o casal faleceu e a tribo resolveu retirar-se”. Como aquele casal ficou enterrado, na saída os retirantes falaram: “adeus Ji e Joca.” Então aquele adeus, originou o nome do povoado que mais tarde se transformaria nesta bela cidade cearense (Baixio de Jijoca, 22/05/2015).
Primeiros Colonizadores
Além dos povos ancestrais, não se sabe ao certo de onde vieram os primeiros colonizadores. O pesquisador Jorge Teixeira do Nascimento especula que teriam vindo do sertão de Martinópole, iniciando a ocupação das terras por volta do século XIX, como retirantes fugidos da grande seca de 1877 a 1879, que empurrou enormes contingentes do sertão em direção ao litoral. O trabalho seminal desse pesquisador foi fonte de grande parte das informações trazidas nesse texto (Do Nascimento, 2013). Outra fonte, baseada na oralidade, foram as postagens da Página Baixio de Jijoca.
O primeiro ocupante identificado é o Sr. Donato José de Sousa, com sua família, provenientes do local "Barra do Garrote", na atual Amontada, fixado à margem da comunidade de Paraguai, na divisa territorial entre os atuais municípios de Jijoca de Jericoacoara e Cruz. Em algum momento, Donato também teria conseguido terras ao redor da Lagoa da Jijoca, dando, sua descendência, origem a várias famílias, como: Brandão, Ferreira, Sousa e Pereira. Praticamente todas as terras da margem oeste do corpo d'água pertenceram aos seus descendentes.
Os familiares do Sr. Donato de Sousa contam que na partilha da herança, um dos genros teria tentado se apossar de algumas braças de terra, que pertenceriam a outro dos herdeiros, o que resultou em um litígio, resolvido por intervenção do procurador, de Itapipoca, de onde teria mandado uma carta, datada de 27 de março de 1887, restituindo a propriedade. Esse terreno corresponde a onde hoje se localiza a Pousada Lagoon, de propriedade dos herdeiros de Sergio Herrero Gimenez, primeiro prefeito de Jijoca de Jericoacoara. A venda dessa gleba de terra teria se dado em 1923, segundo escritura de compra e venda:
Declaro eu abaixo assinado, senhor e possuidor de vinte e cinco braças de terra no lugar dominado Carro Quebrado em denominação de Sítio Santo Eliseu, extremando pelo Nascente em terras do senhor Manuel Ferreira de Albuquerque; pelo Poente com terras do senhor Antônio Lulo de Souza, pelo Norte com terras do senhor Antônio Ferreira Brandão, pelo Sul com terras Manuel Sudário de Carvalho e sua mulher D. Maria Ferreira de Carvalho, no centro dos subscritos vinte braças de terra, se acha encravada uma casa de taipa, coberta de telhas, com duas portas e uma janela de frente, tendo por propriedade um cercado em todo o comprimento da referida terra com as benfeitorias dentro do mesmo cercado; e mais; fecha a frente da casa, as cercas de uma rasante velha, tudo junto; terra casa, cercado e benfeitorias tendo como de fato vendido, tenho aos senhores Marques feito a compra pelo preço e quantia certa de Quinhentos mil reis (500.00) que ao passar este papel as mãos dos compradores, recebi em moeda legal e corrente, por estar pago e satisfeito, transfiro as pessoas dos compradores todo o puder, jus e domínio que tinha desta casa e propriedade vendidas para que estes assim usufruam como sua que fica sendo de hoje em diante, obrigando-me a mim e meus sucessores, fazer esta venda boa e firme e valiosa e responder pela evicção e por a par de quaisquer dúvidas futuras. E para clareza, mandei passar este papel que assino com as testemunhas presentes. Serrote de Jericoacoara, 3 de Dezembro de 1923. Raimundo Neves de Araújo. Testemunhas: João Pereira Dutra e João Raimundo Dutra.
Além do Sr. Donato seguem-se, como patriarcas fundadores de Jijoca de Jericoacoara, agricultores e pescadores que tiravam da lagoa e das terras vizinhas as fontes de subsistência: Francisco Bernardino, José Teixeira de Albuquerque, Cesário Pereira, Francisco Guilherme, Marçal, Joaquim Teixeira, Venâncio, José Dionísio de Sousa, Manoel Liberado, Torres e Manoel Ferreira de Albuquerque. São, no essencial, os troncos a partir dos quais se pode tentar reconstruir a genealogia da sede municipal.
Memórias dos Antigos Moradores
Face a recente ocupação no núcleo urbano, Jorge do Nascimento deu grande importância as memórias dos antigos moradores, coletadas através de entrevistas, as quais reproduzo a seguir. Segundo os relatos, a escala do povoado, ainda em meados do século XX, era diminuta. A primeira entrevistada, nascida em 1943, situa o início da relevância do lugar já no eixo religioso, e confirma a primazia administrativa do Serrote sobre Jijoca no começo do século XX:
Por volta de 1920, às relações administrativas de Acaraú para esta região eram com Jericoacoara, que era o distrito da cidade, e era para lá as pessoas partiam em busca de algo. Os padres de Acaraú iam para lá a cavalo. Jijoca só começou a ser notável, a partir dos anos 1960 com a construção de uma capela que atraiu as pessoas, quando esta se tornou o que é hoje (op. cit., p. 57).
Outra testemunha, um agricultor nativo, nascido em 1956, descreve a Jijoca desse período:
Só existiam 23 casas, em propriedades (terrenos, sítios) individuais, desde a parte Leste da lagoa (Parque Matusa) até o Oeste (atual comunidade de Córrego Perdido) em uma área de aproximadamente 3 km de extensão e ainda não havia ruas, somente um grande beco (estrada) no qual os carros só passariam um de cada vez (op. cit., p. 57).
A Lagoa de Jijoca é apresentada como um fator decisivo para a fixação: garantia terra agricultável, água e peixe em abundância, sobretudo o cará (tilápia). A base alimentar era a farinha de macaxeira e a goma, complementadas por extração de frutas silvestres, feijão e milho nos períodos chuvosos, e pela criação de bovinos, ovinos, suínos e aves — variedade a que, no entanto, nem todos tinham acesso.
O cotidiano de escassez aparece com força nos depoimentos. Uma dona de casa nativa, nascida em 1942, relata a economia de trocas e a busca do sal em Guriú:
Muitas vezes meu marido ia para a lagoa com nossos filhos para tentar fazer a mistura do feijão ou da farinha, passavam horas e chegavam em casa com o urú vazio nos dias ruins para pesca, e todos ficávamos tristes, mas comíamos o que tinha. Carne de gado era gostosa, porque era como uma fruta, pois era difícil aparecer. [...] Arroz também era uma comida difícil, às vezes só aparecia em acontecimentos muito importantes. Muitos itens da alimentação eram buscados longe, o sal era buscado no Guriú (Camocim), era em pedra e precisava ser quebrado com pilão de madeira para ser usável em comida. Aproveitava a viagem pela praia para vender frutas, farinha e/ou trocar com/ou comprar peixes (op. cit., p. 60).
Outra dona de casa, nascida em 1941, reforça o quadro:
A comida era basicamente o feijão, preparado em fogão à lenha em panelas de barro. Arroz só nos domingos, dias santos ou feriados. As viagens eram a pé ou a lombo de cavalos e/ou jumentos. Eram percursos a trabalho, onde era vendido os produtos das comunidades, na maioria trocados por pequenos animais e pescados (op. cit., p. 60).
Um agricultor e pescador da lagoa, nativo, nascido em 1935, fornece um dos poucos dados demográficos concretos da tradição oral — cerca de 23 famílias e algo próximo de 230 pessoas nos anos 1960:
Pescávamos em muitas partes da Lagoa. Havia enorme diversidade de peixes, desde a piaba, cará (tilápia) até mesmo peixes de grandes como camurupim, sendo um modo de providenciar a mistura do feijão ou da farinha. As famílias eram bem numerosas, em torno da média de 10 filhos por cada uma das vinte e três famílias que lembro que havia por aqui (Jijoca) nos anos 1960, mais ou menos 230 pessoas misturando tudo (op. cit., p. 60).
Saúde e lazer eram igualmente precários. Não havia hospital nem posto; a medicina popular — chás de ervas, benzeduras, rezas, promessas e ritos afrodescendentes — fazia as vezes de assistência. Uma dona de casa de 71 anos descreve o peso da distância e da doença:
As pessoas não ficavam muito doentes na época como ficam hoje [...]. Se desse alguma doença mais séria, às vezes sarava sozinho ou senão, ia para Acaraú ou Camocim, ou morria mesmo. [...] Os partos eram difíceis, eu mesmo quase morri no parto de uma das minhas filhas [...]. Minha filha mesmo teve que ser levada a cavalo para Acaraú para se tratar de uma paralisia infantil, sofremos muito (op. cit., p. 61).
O lazer era raro: a comunidade organizava, com raridade, forró pé de serra aos domingos à tarde, pois as moças não tinham permissão de sair à noite; o banho na lagoa não era lazer, mas pesca de sobrevivência.
A Igreja de Santa Luzia e a formação do Núcleo Urbano
No fim dos anos 1950, o padre celebrava missas em Jijoca nas casas de populares, incomodado pela falta de igreja; as missas eram atribuídas a Monsenhor José Edson Magalhães. Em 1962, aceita a ideia da construção de uma capela, os moradores iniciaram a arrecadação de fundos.
O terreno vem da família Teixeira de Albuquerque. O patriarca Manoel Ferreira de Albuquerque, apelidado de Manoel Teixeira, concordou com a doação, mas, já tendo repartido as heranças, dependeu da anuência dos filhos empossados: Felina Teixeira de Albuquerque, Francisco Teixeira de Albuquerque, Maria Teixeira de Albuquerque e Pedro Teixeira de Albuquerque. Com alguma resistência ao pai, os herdeiros cederam terras à igreja.
As relações de propriedade merecem atenção: Pedro Teixeira de Albuquerque havia adquirido a herança da irmã Felina e ampliou sua posse; Maria Teixeira de Albuquerque, casada com José Marçal de Sousa, teve sua herança vendida pelo marido a Paulo Valdemar, excetuado o espaço doado à igreja. Foi também Pedro Teixeira de Albuquerque quem impôs a escolha da padroeira: Santa Luzia, nome de sua filha; conforme a altura da menina se confeccionou a imagem da santa, em pagamento de promessa, após a cura de um filho que liderava o movimento de arrecadação e adoecera de hemorragia.
Igreja Santa Luzia, 1970.Para lotear e vender terrenos do entorno, o padre orientou dois homens de sua confiança, Gabriel Brandão de Souza e Eliézer Marques, e é dessas transações que nasce o centro urbano e comercial de Jijoca: o dinheiro ia para a obra da igreja, e as pessoas compravam lotes para morar perto. Uma dona de casa, nascida em 1931, recorda os leilões: "todos os sábados aconteciam leilões em Jijoca após a missa. Saíam pelas casas e comunidades vizinhas em busca de doações" (op. cit., p. 65). A área da igreja se ampliou com doações de fiéis, chegando a corresponder aos quarteirões do Mercado Público Municipal, dos Correios e da Matriz.
A igreja de Santa Luzia, primeiro monumento público de caráter religioso da comunidade, foi edificada nos anos 1960 e inaugurada em 13 de dezembro de 1963, com a bênção, pelo Pe. José Edson Magalhães, durante os festejos da padroeira (Araújo, 1989, p. 73). A paróquia foi criada por Portaria assinada por Dom Valfrido Teixeira Vieira, desmembrada da Paróquia de Cruz, a pedido do Pe. Manoel Valdery da Rocha, Vigário de Cruz, elevando a Capela de Santa Luzia a condição de Matriz. A instalação ocorreu apenas no ano seguinte, a 27 de outubro de 1988, sendo o primeiro pároco, o Pe. José Edmilson Eugênio Nascimento.
Os limites da paróquia foram estabelecidos da seguinte maneira:
Ao NORTE: Com o Oceano Atlântico, partindo do travessão que divide as terras de Guriú com as de Lago Grande, nos limites da Paróquia de Camocim, até o travessão que divide as terras de José Júlio Lousada, em Formosa. Ao SUL: Com a Paróquia de Bela Cruz. Partindo da Fazenda Solidão (de Domingos Muniz), inclusive, seguindo pela estrada que vai à Fazenda São João (inclusive), passando pelas Fazendas de Isaias Malaquias, João Elias, José de Paula, Baixa dos Vieiras e Fazenda Santa Maria, de Doca Rocha. A LESTE: Com a Paróquia de Cruz. Começando no Oceano Atlântico e seguindo pelo travessão de José Júlio Lousada até a Fazenda Santo Estêvão, indo daí até a entrada da estrada Monteiros-Caiçara, no encontro do travessão de João Batista da Richa pelo qual, em direção ao Sul, vai até os limites da Paróquia de Bela Cruz, em Solidão. A OESTE: Com as Paróquias de Granja e Camocim, pelo Rio Inhanduba, com início nas Fazendas São João e seguindo pelo mesmo rio até o Oceano, no travessão que divide as terras de Guriú (Araújo, 1989, p. 84).
Décadas depois, já na década de 2000, passou por reforma em parceria com a prefeitura, sob o prefeito franco-espanhol naturalizado brasileiro Sérgio Herrero Gimenez, que lhe imprimiu traços ditos góticos.
A Escola José Teixeira de Albuquerque
A primeira instituição pública de vulto foi a escola. O governo municipal de Acaraú, sob a administração estadual de Faustino de Albuquerque e Sousa, construiu a escola José Teixeira de Albuquerque — assim nomeada em homenagem ao doador do terreno, um dos patriarcas fundadores. Foi inaugurada em 9 de outubro de 1950 pelo prefeito de Acaraú, Manoel Duca da Silveira (avô do deputado estadual Manoel Duca da Silveira Neto). A estrutura resumia-se a uma sala de aula, pátio e residência anexa para o docente.
Sua gestão passou por várias mãos: administrada por professora estadual entre 1952 e 1956, transferida à Prefeitura de Acaraú em 1957, retomada pelo Estado em 1966 e convertida em escola particular a partir de 1978. O ensino ia até o 4º ano primário, com ênfase em Português e Matemática, refletindo a exigência social de então — saber assinar o nome e fazer contas. A partir de 1984, atendendo a pedidos da população ao deputado da região, Domingos Fontes, foram contratadas três professoras, e a comunidade custeou mais duas.
O balneário, a energia elétrica e a visita de Virgílio Távora
Um momento decisivo para o desenvolvimento turístico da sede foi a doação de um terreno à beira da lagoa para a construção do primeiro balneário da região, idealizado por um empresário vindo de fora. Curiosamente, o Sr. Paulo Valdemar, proprietário do terreno, quando questionado se o venderia para a instalação do empreendimento foi categórico "não vendo, mas se você fizer o balneário, lhe faço a doação do terreno" (op. cit., p. 66).
O beneficiário da doação descreve a obra da seguinte forma: "feita a doação, no dia seguinte, comecei a "limpar" o terreno com ajuda de algumas pessoas amigas. Contratei um homem que possuía carro para trazer pedras e finalmente (materiais de construção) e inaugurei o balneário, sem energia elétrica" (op. cit., p. 67).
O balneário virou ponto de encontro, com festas animadas por música regional. O empresário recorda que "para animar, eu contratava os conjuntos, uns tocadores de violas de Fortaleza-CE, e fazia festas em Jijoca, que eram frequentadas por toda a sociedade jijoquense. Eram festas que não tinham briga, nem drogas ilícitas, naquela época, os bêbados respeitavam muito" (op. cit., p. 67).
No início dos anos 1970, o empresário do balneário conseguiu levar a Jijoca o então governador Virgílio Távora (que administrou o Ceará em dois mandatos, 1963-1966 e 1979-1982), acompanhado da primeira-dama Luiza Távora e de uma filha do casal, Tereza Maria Távora Ximenes. Diante de cerca de três mil pessoas — a maioria sem saber quem era o governador —, o anfitrião aproveitou o discurso para pedir energia elétrica.
Segundo a Jorge do Nascimento, o governador prometeu, no ato: "dentro de 90 dias os postes da COELCE chegarão a Jijoca" (op. cit., p. 67). A energia elétrica de fato chegou em 1979, embora muitos a rejeitassem de início, para não pagar consumo; por volta de 1984, com a chegada dos aparelhos de televisão, o acesso se generalizou. Manoel Marques, comerciante de Jijoca, convidava a população para assistir novelas em sua casa — cena que dá nome, aliás, à avenida hoje ocupada pelos festejos.
O hospital e a passagem para Cruz
O mesmo líder que construiu o balneário mobilizou a população, logo após a visita do governador, para erguer um hospital. Comprou terreno barato — na verdade, obteve nova doação do mesmo proprietário — e narra o empreendimento:
Quando o Governador foi embora, convidei a população que permanecia no balneário, cerca de 1.500 pessoas, para falar com o dono das terras, para ele vender um terreno, para construir um hospital na Jijoca. Ao ver que tinha feito o balneário, disse: Não vou vender o local do hospital, vamos lá ao local que você quer que eu faça a doação (op. cit., p. 69).
A obra chegou a estágio avançado, mas não foi concluída pelo próprio líder:
[...] lá cavamos um buraco, colocamos a pedra fundamental, uma ata dizendo que ali seria construído o hospital da Jijoca. Usamos 140 mil tijolos. Cobri todo o prédio, com madeira de boa qualidade, fizemos os apartamentos para berçários, para os médicos, lavanderia, caixa d'água, e então apareceu o empresário Afonso Henrique Fontes Neto, (que seria assassinado em 1986). Afonso Fontes como era conhecido, com o irmão, o deputado Domingo Fontes [...] Procurou-me e perguntou se eu não poderia fazer uma doação daquele prédio que eles terminariam e inauguraria o hospital [...] Fiz a doação, porém no cartório, esqueci-me de lavrar que o hospital pertenceria a Fundação Afonso Fontes até quando tivesse funcionando [...] (op. cit., p. 69).
Esse detalhe cartorial — a doação sem cláusula de reversão — teve consequências. Com o assassinato de Afonso Henrique Fontes Neto e a emancipação de Cruz, o prefeito de Cruz, João Muniz Sobrinho, apelidado Jonas Muniz, esvaziou o hospital:
[...] levou todo equipamento do hospital, (raios-X, mesa de parto, ar condicionado, etc.), para o hospital da sede do município, que também pertencia a Fundação Afonso Fontes. Jonas Muniz trocou o prédio do hospital de Jijoca, fazendo com que voltasse para Paulo Valdemar, ao preço de um carregamento de castanha (amêndoa) de caju (op. cit., p. 70).
O empreendedor do balneário e do hospital converteu seu prestígio em capital político, sendo eleito vereador duas vezes representando Jijoca no município de Cruz — episódio que a dissertação lê como formação de liderança política regional a partir de obras de infraestrutura.
De Acaraú a Cruz e a emancipação de Jijoca de Jericoacoara
A emancipação política de Cruz, desmembrando-se de Acaraú, deu-se em 14 de janeiro de 1985, pela Lei estadual nº 11.002, unindo a Cruz o povoado de Jijoca, demais comunidades e o distrito de Jericoacoara. Com a emancipação, foi criado o Distrito de Caiçara, ficando o então distrito de Jericoacoara com os seguintes limites:
Ao NORTE — Começando no Riacho Doce até a enseada de Jericoacoara, nos limites do Município de Camocim. AO LESTE — Começando no travessão de João Batista da Rocha, desde a Estrada de CAIÇARA, rumando ao Sul, até os limites do Município de Bela Cruz, em Solidão. Ao OESTE — Com o Município de Camocim, desde a enseada de Jericoacoara, passando pela Lagoa das Pedras, até encontrar a Fazenda São Joaquim, nos limites dos Municípios de Bela Cruz e Camocim. Ao SUL — Começando na Fazenda São Joaquim, nos limites de Bela Cruz e Cruz, até encontrar o travessão de João Batista da Rocha, em Solidão.
Foi nesse novo enquadramento que Jijoca cresceu, impulsionada pela paisagem, pela lagoa, pela festa de Santa Luzia e pela emergência midiática de Jericoacoara nos anos 1980. Em pouco tempo — "apenas seis anos, dois meses e vinte dias" anexada a Cruz, nas palavras do autor —, Jijoca se emancipou. A sequência legislativa relatada é a seguinte: as Leis 50/1990 e 60/1990, esta de 4 de julho, transferiram o distrito de Jericoacoara ao distrito de Jijoca, ambos territórios de Cruz; e a Lei nº 11.796, de 6 de março de 1991, criou o município de Jijoca de Jericoacoara, incorporando Jericoacoara como seu único distrito, em grande parte constituído como Área de Preservação Ambiental. Por essa lei, os limites do município são:
a) Ao Norte com o Oceano Atlântico: É a faixa do litoral compreendida entre a foz do Riacho Guriú e a foz do Riacho Doce no Oceano Atlântico. b) A Leste com o Município de Cruz: Começa na foz do Riacho Doce no Oceano Atlântico, sobe por este Riacho até a lagoa de Jijoca, de onde pelo meio desta vai a foz do córrego do Mourão e sobe por este córrego atá a sua incidência sobre a reta tirada do ponto onde o córrego do Paraguai corta a estrada carroçável Aroeira-Lagoinha para a confluência do córrego de Dentro dos Ferreira com o córrego de Dentro dos Salvino. c) Ao Sul com o Município de Bela Cruz: Começa no ponto no final da alínea anterior e pela referida reta vai até a confluência do córrego de Dentro dos Ferreira com o córrego de Dentro dos Salvino. d) A Oeste com o Município de Camocim: Começa no ponto referido no final da alínea anterior, desce pelo córrego de Dentro até a sua foz no lago do córrego da Forquilha, continua pelo meio deste lago até sua embocadura no Riacho Guriú e desce por este Riacho até a sua foz no Oceano Atlântico.
APAs e o Parque Nacional
Ainda sob Acaraú, foi criada a APA de Jericoacoara pelo Decreto Federal nº 90.379, de 29 de outubro de 1984, a primeira reserva ecológica de praia do Brasil, com área ora indicada como 5.430 ha. Seguiram-se a APA da Lagoa de Jijoca, criada pelo Decreto nº 25.975, de 10 de agosto de 2000, abrangendo 3.995,61 ha entre Cruz e Jijoca de Jericoacoara; e o Parque Nacional de Jericoacoara, criado pelo Decreto de 04 de fevereiro de 2002, que reduziu a APA anterior. Em 15 de junho de 2007, a Lei nº 11.486 redefiniu os limites do Parque, acrescentando um manguezal de 400 ha nos limites de Jijoca e Camocim e incorporando ao Parque a comunidade de Guriú (Camocim), ao extremo oeste, elevando a unidade a 8.850 ha. Em 12 de julho de 2007 foram oficializados três acessos por guaritas: em Mangue Seco e Lagoa Grande (Jijoca de Jericoacoara) e no Preá (Cruz). O território municipal é de 204,792 km², dos quais cerca de 18% em área de proteção ambiental.
Mangue Seco e o assentamento Guriú
Entre os núcleos litorâneos, Mangue Seco recebe tratamento à parte como "pequeno e histórico lugar". Situa-se a 5 km a sudoeste da praia de Jericoacoara e a 18 km da sede, fazendo divisa com Guriú (Camocim) e com o Córrego da Forquilha. Os primeiros ocupantes teriam vindo da comunidade de Pedra Branca, morando em casas de taipa e palha; parte da população deslocava-se a Camocim para estudar. O nome tem explicação atribuída aos índios e, também, uma versão dos pescadores: o rompimento de barragens naturais entre a água salgada e a água doce do córrego teria alagado e depois secado a parte baixa do mangue, esbranquiçando a vegetação morta, que servia de referência para o retorno à terra.
A dimensão mais relevante para a história política do município, porém, é a organização comunitária de Mangue Seco. Em 1985, ainda no tempo de vinculação a Acaraú, um conflito de terras resultou na desapropriação de área para reforma agrária e na criação do Assentamento Guriú, composto pelas comunidades de Mangue Seco (Jijoca de Jericoacoara), na divisa com Guriú, e do Córrego do Braço (Camocim). A comunidade, detentora do maior número de eleitores, teve participação direta na emancipação de Jijoca de Jericoacoara e na eleição de seu primeiro prefeito, o já citado Sérgio Herrero Gimenez — franco-espanhol residente na região desde a década de 1970, explorador de amêndoa de caju e um dos pioneiros do turismo de Jericoacoara.
O acordo político é documentado por Holanda (2006):
No processo de negociação de apoio à candidatura do espanhol, ficou acertado que o mesmo apoiaria a campanha de um membro da comunidade ao cargo de vereador. O escolhido pela comunidade foi Araújo Marques Ferreira, presidente da Associação Comunitária, que foi eleito vereador com 219 votos [...] Sérgio Herrero foi eleito [...] com 1.921 votos. A eleição foi em 1992 e o espanhol, ainda, fez a maioria dos vereadores. A comunidade de Mangue Seco na época tinha a fama de ser a mais organizada da região [...] Araújo Marques Ferreira logo se tornou o primeiro assentado no Ceará a presidir uma câmara de vereadores.
Com a lei de 1996 que vedava a reeleição e tornava inelegíveis parentes até o segundo grau, o prefeito Sérgio Herrero lançou Araújo Marques Ferreira como sucessor.
Jericoacoara: de colônia de pescadores a destino turístico
Enquanto a sede se formava em torno da igreja e da lagoa, o antigo Serrote seguia como colônia de pescadores. Em 1984, o povoado tinha 580 habitantes, com 48,8% da população com até 15 anos, e os jovens emigravam por falta de emprego. A pesca artesanal — com caçoeira, tarrafa, linha de mão, canoa e, para poucos, o dispendioso curral — era a principal atividade, complementada pela agricultura de coco, feijão e raízes. A divisão da renda da pesca era desigual: 25% ao dono da embarcação, 37,5% ao dono da rede e o restante repartido entre quatro pescadores, cada um ficando com 9 a 10% do pescado; e os donos das canoas eram, em geral, os próprios comerciantes de farinha e goma, o que revela exploração já entre os nativos.
A "descoberta" externa foi rápida e midiática. O interesse turístico inseriu Jericoacoara em roteiro internacional em 1983; naquele ano, o Decreto Municipal nº 03, de 31 de julho de 1983, declarou a praia área de interesse público para desapropriação e preservação paisagística. Em dezembro de 1984, a Revista Geografia Universal publicou a reportagem "Jericoacoara: Um Paraíso no Ceará", de Nass. Sob o slogan "Salve Esta Praia", veio o Decreto Federal nº 90.379, de 29 de outubro de 1984, criando a APA. Em 15 de março de 1987, o The Washington Post classificou Jericoacoara entre as dez praias mais bonitas do mundo. A Rede Globo exibiu o lugar no Fantástico nos anos 1990 e ambientou ali cenas da novela Tropicaliente, em 1994 — marcos da explosão da demanda turística, então sem qualquer infraestrutura. Associa-se esse momento a um uso instrumental do diagnóstico ambiental: encomendado por um vereador de Cruz para preservar o lugar, o estudo teria acabado por divulgá-lo.
21 de julho de 2026
CARNEIRO, Diego. A História de Jijoca de Jericoacoara. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 21 de julho de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/07/as-terras-da-jijoca.html
Referências
ARAGÃO, R. Batista. Cronologia dos municípios cearenses. Barraca do Escritor Cearense, 1996.
ARAÚJO, Nicodemos. Município de Acaraú, Notas para sua história. Acaraú, 1971.
ARAÚJO, Nicodemos. O Município de Cruz. Acaraú: Editora Esteves Tiprogresso, 1989.
HOLANDA, Francisco Uribam Xavier. Capital social e desenvolvimento. A participação política dos trabalhadores rurais de Mangue Seco. Em publicación: La construcion de La democracia em El campo latino americano. De Grammont, Hubert C. CLACSO, Consejo Latino americano de Ciências Sociales, Buenos Aires. Marzo. 2006.
NASCIMENTO, Jorge Teixeira do. Mudanças e embates no município de Jijoca e no núcleo indutor do turismo de Jericoacoara-CE. 2013. 169 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Gestão de Negócios Turísticos) – Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2013.
