O coronel Gonçalo Ferreira da Ponte, primeiro membro da família a fixar residência na região de Sobral, traz em seus sobrenomes a marca de sua descendência lusitana. Tanto Ferreira quanto Ponte remetem a concelhos portugueses — Paços de Ferreira e Ponte de Lima —, prática comum entre os colonos vindos do Reino. Era habitual transformar topônimos em antropônimos, gesto interpretado como forma de preservar a memória da terra natal e reafirmar os vínculos com a pátria distante.
Até meados do século XVIII, a norma entre os portugueses consistia em adotar apenas dois nomes: o prenome de batismo e o sobrenome paterno. Ao chegarem ao Brasil, contudo, muitos acrescentavam o topônimo da localidade de origem como sobrenome suplementar. Assim surgiram apelidos que atravessaram gerações: Porto, Lisboa, Viana, Lima, Ponte, Ferreira, Braga, entre tantos outros. Nesse contexto, Gonçalo Ferreira da Ponte insere-se em uma tradição amplamente documentada.
Nascido em 1697, na freguesia da Boa Vista do Recife, era filho de Cosme de Freitas Pereira e Joana de Barros Rego Coutinho, descendente de Arnaud de Holanda. O sobrenome Ferreira advinha do avô paterno Rodrigo da Costa Ferreira, casado com sua parenta Marusa de Freitas. Segundo a Nobiliarquia Pernambucana de Borges da Fonseca, Gonçalo recebeu o apelido de “Cachaço”, provavelmente em razão de um pescoço volumoso, possivelmente causado por enfermidade da tireoide.
De temperamento inquieto e vida atribulada, Gonçalo mudou-se diversas vezes e enfrentou provações familiares, como a morte de duas esposas e o desgosto com o destino errante do filho primogênito, Francisco Ferreira da Ponte, que fugiu ainda jovem para as Minas Gerais, levando vida irregular e mantendo-se por anos sem contato com o pai.
Ainda adolescente, transferiu-se para Natal, no Rio Grande do Norte, onde, aos 17 anos, casou-se pela primeira vez com Maria de Matos Coutinho. Dessa união nasceram Francisco e Maria de Matos, ambos no Recife. Francisco, como dito, seguiu para as Minas, onde teve filhos com Maria da Costa; em 1737, estabeleceu-se no Vale do Acaraú, casando-se no ano seguinte com Maria Madalena de Sá, uma das célebres “Sete Irmãs”, filhas de Manoel Carrasco. Já Maria de Matos contraiu matrimônio no Recife com Sebastião de Arruda Coelho, mas nada mais se sabe sobre sua trajetória.
O segundo casamento de Gonçalo ocorreu em 1736, na matriz da Boa Vista do Recife, com Maria da Conceição do Monte e Silva, natural da Ilha da Madeira. Dessa união nasceram:
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Pe. José Ferreira da Costa, cura da Missão Velha dos Cariris Novos (sul do Ceará);
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Capitão-mor Manoel José do Monte;
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Maria do Livramento, que se casou na matriz da Caiçara, atual Sobral.
Seu terceiro matrimônio deu-se com Rosaura (ou Rosária) do Ó Mendonça, irmã do capitão-mor José de Xerez Furna Uchoa, sem deixar descendência.
As razões que motivaram sua vinda do Recife ao Ceará permanecem incertas. O genealogista Soares Bulcão, em manuscrito preservado no Instituto do Ceará, sugere que Gonçalo teria acompanhado o filho padre José à Missão Velha, vindo posteriormente para o Vale do Acaraú. Outra versão sustenta que teria migrado ao saber do retorno de Francisco das Minas, já estabelecido com dois filhos bastardos na ribeira do Acaraú. Ambas as hipóteses são plausíveis e talvez complementares.
O autor da fonte consultada não registrou a descendência dos filhos ilegítimos de Francisco — José e Perpétua —, ambos casados na matriz de Sobral.
No Vale do Acaraú, Gonçalo prosperou economicamente, alcançando o posto de coronel de milícias. Fixou residência no sítio Santa Úrsula, na serra da Meruoca, próximo à chácara do cunhado José de Xerez. Ali faleceu repentinamente em 23 de junho de 1762, aos 65 anos. Em testamento, declarou: “como não tem herdeiros forçados, institui por sua herdeira a Nossa Senhora da Conceição desta matriz” (Sobral), onde foi sepultado.
*Adaptado de Pe Sadoc de Araújo em Arruda (1997), p. 15-16.
Referências
ARRUDA, Assis. Genealogia Sobralense: Os Ferreira da Ponte Vol. IV - Tomo I. Fortaleza, CE, IOPMS, 1997.

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