Como relatamos em um post anterior, o lendário Frei Cristóvão de Lisboa teria percorrido em missão a região da Ribeira do Acaraú no distante ano de 1626. Nesta ocasião, fugindo de ataques dos índios que pretendia aldear, deparou-se com uma elevação rochosa, contendo uma gruta, onde teria se abrigado e jurado erguer uma capela a N. S. de Santana, única imagem que sobrevivera a perseguição.
Segundo a tradição católica, Santa Ana (ou Sant’Ana) era mãe de Maria, esposa de Joaquim e, portanto, avó materna de Jesus. A devoção aos pais de Maria remonta aos primeiros séculos do cristianismo, tendo surgido no Oriente e sido introduzida na Europa a partir das cruzadas de 710 d.C. Em Portugal, a veneração a Sant’Ana aparece em pinturas dos séculos XVI e XVII e chega ao Brasil com os primeiros colonizadores, onde adquire o caráter de matrona e catequizadora nos engenhos do Nordeste, sendo plausível sua associação à figura do missionário.
A promessa de Frei Cristóvão de Lisboa foi então registrada em uma carta, que também apontaria a localização de uma suposta mina de prata, cuja exploração poderia financiar a construção do templo. Segundo a lenda, após o decurso de um século, esta carta foi parar nas mãos do Ouvidor Loureiro, o qual entrou em disputa com o Cel. Sebastião de Sá, então proprietário das terras da referida mina, conflito que resultou na prisão de ambos (Município de Santana, 1926).
No decurso dessa contenda, em 1735, o Coronel Sebastião de Sá e, posteriormente, seu irmão Antônio venderam parte da propriedade, correspondendo a uma légua e meia (9,9 km) de terra, para o Padre Antônio dos Santos Silveira, no lugar denominado Olho D'Água. Padre Silveira, presbítero do hábito de São Pedro (clérigo secular), era natural de Pernambuco e teria vindo para a ribeira no final do ano de 1733, assumindo a posição de coadjutor do Pe. Elias Pinto de Azevedo no curato do Acaraú, onde também exerceu também a função de escrivão de vara (Araújo, 2005, p. 242).
Além disso, por ser dotado de boa formação humanística, atuou ocasionalmente como professor, oferecendo aulas particulares aos filhos dos fazendeiros mais abastados. Embora não tenha mantido uma escola regular, foi um dos primeiros a exercer, ainda que de maneira rudimentar, o magistério na região (Araújo, 1978, p. 118).
Tomando conhecimento da lenda do Frei Cristóvão, o sacerdote teria se inspirado a levar a diante a promessa e erguer nas terras adquiridas o templo dedicado a Santana. Para tanto, requereu licença as autoridades eclesiásticas para erigir no seu sítio uma capela sob a invocação de N. S. Santana do Olho d'Agua e Almas. Conseguida a licença, deu início a construção do templo em 9 de novembro de 1738, assentando-o em terreno elevado, não longe da casa da fazenda onde morava, tendo os trabalhos sido finalizados em 31 de julho do ano seguinte (De Menezes, 1889, p. 74). Essa construção teria contado com a colaboração dos moradores da região, entre eles o Capitão Manoel Ferreira Fonteles (Araújo, 2000, p. 73).
A benção do templo e das quatro imagens contidas nele, Cristo, Santana, S. Joaquim e Sta. Rita, foi realizada em 9 de agosto do mesmo ano, pelo próprio Pe. Silveira, auxiliado pelo Pe. Dionísio da Cunha Araújo, e autorizado pelo Rev. Antônio de Aguiar Pereira, vigário geral da capitania (Araújo, 2005, p.168). No dia seguinte foi celebrada a primeira missa com assistência dos moradores da região.
Para constituir o patrimônio da Capela de Santana, Pe. Silveira doou meia légua (3,3 km) de terra, cinquenta vacas; e um touro reprodutor, tendo sido lavrada a escritura de doação a 6 de outubro de 1739, tendo como testemunhas o padre Miguel Gonçalves Marágoa e Arnaud de Holanda e Vasconcelos (Araújo, 1985, p. 14). Nessas terras do entorno da capela e imediações formou-se um povoado, denominado primitivamente de Curral Velho, a partir do qual se originaria o atual município de Santana do Acaraú.
Mas a lenda da mina de prata voltaria para perseguir Pe. Silveira. Por volta de 1740, iniciou-se na Serra da Ibiapaba uma expedição voltada à prospecção de metais preciosos, sob a liderança de Antônio Gonçalves de Araújo, superintendente da exploração. A iniciativa tinha como base relatos lendários acerca da suposta existência de prata na região onde hoje se localiza o município de Ubajara. Contudo, a empreitada revelou-se um completo fracasso: as análises realizadas em 1745 não identificaram prata alguma, mas apenas vestígios insignificantes de outros metais sem valor econômico (Girão, 2000, p. 139).
Por meios ignorados, talvez através dos registros do processo movido contra o Cel. Sebastião de Sá, de que falamos anteriormente, Antônio Gonçalves de Araújo tomou conhecimento do relato descrito por Frei Cristóvão mais de um século antes. Tentando contornar o revés que tivera na Ibiapaba, Araújo teria interpelado Pe. Silveira sobre a mina de prata que existiria em sua propriedade. Sentindo-se ameaçado, o sacerdote decide vender sua propriedade para um terceiro e mudar-se para Pernambuco, em 15 de novembro de 1751, onde teria morrido pouco tempo depois (Araújo, 1978, p. 118).
A légua de terra restante após a construção da capela foi então adquirida pelo Capitão Cláudio de Sá Amaral, em Recife, a 30 de janeiro de 1761. Como consta em seu inventário, a 7 de março de 1781, tratava-se de “uma légua de terra de comprido, de criar gados, neste sítio de Santa Anna, margens do rio Acaraú, com meia légua de largo por uma só banda do rio, parte do nascente, a qual comprou ao Pe. Antônio dos Santos Silveira, avaliada em 460$000” (Araújo, 2005, p. 409).
Com a partida do Pe. Silveira, a capela passou a ser administrada por Antônio Coelho de Albuquerque, a quem o sacerdote confiara também o segredo sobre a localização da suposta mina. Mais tarde, com a aquisição da propriedade por Cláudio de Sá, este assumiu a gestão do patrimônio de Santana e, em razão de sua amizade com Coelho, tomou conhecimento da lenda atribuída a Frei Cristóvão. Movido pela curiosidade e pela expectativa de encontrar o metal precioso, Cláudio de Sá dirigiu-se ao local indicado por Coelho, situado cerca de uma légua (6,6 km) ao sul do Serrote da Rola. Após uma jornada penosa, chegou ao ponto assinalado e deparou-se com um mineral branco e reluzente que, no entanto, revelou-se ser apenas antimônio — metal de baixo valor comercial. Assim, desfez-se a crença na existência da lendária mina de prata (O Município de Santana, p. 85).
Amostras de AntimônioA capela de Santana foi bastante frequentada nesse período pelos primeiros moradores da Ribeira, conforme nos conta o livro Município de Santana, "desde meia até cinco léguas de distância e dela se diziam fregueses por devoção", entre outros, os seguintes cidadãos: Capitão Mateus Mendes de Vasconcelos, Mateus Conde Barreto d'Almeida, Ajudante Manuel Carneiro da Costa, Capitão Francisco Ferreira da Ponte, Gonçalo Ferreira da Ponte, Pedro Ferreira da Ponte, Capitão José de Xerez Fuma Uchoa, João de Lima Raposo, João da Silveira Dutra, José Henriques de Araújo, Capitão Antônio Henriques de Araújo, Manuel José de Farias e Caetano José Soares, casado com D. Luiza Ferreira, filha do Capitão Manuel Ferreira Fonteles (p. 82). Essa relação é atestada por farta documentação eclesiástica, sendo que muitas das pessoas mencionadas foram inclusive enterras nos chãos da capela.
Diego Carneiro
13 de setembro de 2025
Referências
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc. História da cultura sobralense. Sobral: Imprensa Universitária UVA, 1978.
ARAÚJO, Nicodemos. Santana do Acaraú. Acaraú, 1985.
DE MENEZES, Antonio Bezerra Provincia do Ceará: notas de viagem, parte do norte Typ. Economica, 1889.
GIRÃO, Raimundo. História Econômica do Ceará. 2ª edição. Fortaleza: UFC–Casa de José de Alencar/Programa Editorial, 2000.
O Município de Sant'Anna: um pouco de histórico sobre o Ceará de 1608 a 1738. Santana do Acaraú: Pap. e Typ. Correio da Semana, 1926.


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