A atividade agropastoril iniciou seu desenvolvimento na Ribeira do Acaraú de forma concomitante à própria ocupação do território. Desde as primeiras solicitações de sesmarias concedidas na região, encontra-se como motivação econômica a criação de gado. É o que alegam, por exemplo, Manoel de Goes e seus companheiros em 1682, ao afirmarem não existir terras suficientes na capitania de Pernambuco para criar seus gados, os quais haviam conduzido por mais de duzentas léguas por terras de tapuias selvagens. Assim foram surgindo as primeiras rudimentares fazendas.
Para a instalação da fazenda, após a aquisição da terra, o rebanho precisava ser adaptado ao novo pasto, tarefa que demandava tempo e grande esforço coletivo. Em seguida, cabia ao vaqueiro cuidar do gado: amansar e ferrar bezerros, tratar doenças, controlar queimadas, combater animais nocivos, abrir cacimbas e vigiar o rebanho, especialmente nas madrugadas chuvosas, quando nascia a maioria dos bezerros. Ele também identificava vacas prestes a parir para evitar perdas. A remuneração do vaqueiro vinha após quatro ou cinco anos: de cada quatro crias, uma ficava com ele, possibilitando formar seu próprio rebanho e, eventualmente, fundar fazendas.
Quando em idade de abate, o gado era conduzido a pé, em comboios de 100 a 300 cabeças, pelas estradas das boiadas até outras capitanias, onde era vendido vivo nas feiras. A condução normalmente era realizada por homens livres e pobres de qualquer etnia, prevalecendo mulatos e índios, aos quais denominavam “tangerinos”, pois tangiam os animais. As viagens costumavam ser longas, com paragens a cada quatro a seis léguas, mas, quando não havia água, podiam chegar a quinze ou vinte léguas, feitas dia e noite, quase sem parar (Abreu, 1907, p. 144).
Em função dessa atividade, algumas fazendas alcançaram certa prosperidade, com casas amplas, currais, açudes, engenhocas, teares, capela e até capelão, além de cavalos de luxo e escravos africanos usados mais como símbolo de status do que como força de trabalho. Esse conforto e ostentação deram origem a uma aristocracia rural que buscava, sem sucesso, se igualar à nobreza dos engenhos. A base de toda essa riqueza era o boi, que servia ao mesmo tempo como mercadoria, transporte e moeda de troca nas feiras da Bahia, Pernambuco e Minas (Abreu, 1907, p. 146).
Entretanto, os criadores cearenses perceberam que estavam em desvantagem em relação aos seus concorrentes do Rio Grande e da Paraíba, mais próximos dos grandes centros de consumo. As longas travessias e os impostos diminuíam significativamente o lucro, o que motivou o desenvolvimento de métodos de beneficiamento da carne que, uma vez cortada em mantas, salgada e seca, tornava-se resistente às viagens. O produto logo teve boa aceitação entre os comandantes de barcos, que o distribuíam pelas capitanias vizinhas, onde eram utilizadas na alimentação pelas classes mais populares e escravizados. Com o tempo, tornou-se mais prático instalar salgadeiras nos próprios portos para o abate e preparo da carne.
As primeiras instalações das charqueadas eram simples: galpões cobertos de palha, varais para secar a carne salgada e tachos de ferro para extrair a pouca gordura dos ossos. O sal era usado apenas para o charque, o couro era seco ao sol, o sebo lavado e moldado em blocos, enquanto os ossos eram queimados ou aproveitados em cercas. As demais partes do boi não tinham valor e eram descartadas (Anais da Biblioteca Pública Pelotense, v. 2, p. 106). Relatos da época dão conta da imundície das oficinas, com restos de animais, forte fedor e presença de moscas , favorecendo a propagação de doenças (De Farias, 2018, p. 53)
Saint-Hilaire descreve charqueadas mais aperfeiçoadas: fileiras de paus com varões para secar a carne e um edifício para salgá-la, com tanques próprios. A carne era preparada em tassalho (mantas do pescoço, costelas e flancos) ou em posta (quartos, com seis postas por boi), seca e armazenada em tabuleiros antes de ser embarcada. Um navio podia transportar a produção de cerca de 2.000 bois, totalizando aproximadamente 80.000 kg de carne seca, considerando rendimento médio de 20% (Pena, 1935, p. 85). E tamanho foi o êxito dessas fábricas, também designadas pelo nome de charqueadas ou oficinas, que, pelo resto do século, seu produto constituiu o principal e quase exclusivo comércio da Capitania.
Não se sabe ao certo quando surgiram as primeiras charqueadas do Ceará, mas é provável que sejam anteriores a 1740, tendo aparecido primeiramente no pequeno arraial de São José do Porto dos Barcos, depois elevado à categoria de vila, em 1748, com o nome de Santa Cruz do Aracati (Girão, 1986, p. 139). Entretanto, algum tempo depois da elevação de Aracati a vila, suas oficinas começaram a declinar, enquanto outros centros iniciavam suas atividades. Esse declínio foi atribuído a fatores como restrições impostas pela Câmara, inundações do rio Jaguaribe e exigências das novas autoridades, provocando insatisfação entre os comerciantes (Nobre, 1977, p. 103-104).
Oficinas na Ribeira do Acaraú
No médio e baixo Acaraú as feitorias desenvolveram-se logo depois daquelas do Jaguaribe, situando-se nos locais da embarque do antigo povoado da Barra do Acaraú, núcleo inicial da cidade do mesmo nome, conhecido inicialmente por "Oficina", em consequência do serviço de cabotagem naquela barra, estendendo-se às povoações de Granja, Camocim e Sobral (Girão, 1984, p. 116). De acordo com o historiador Renato Braga, a posição geográfica privilegiada fez com que esse lugarejo se tornasse o centro da indústria da carne seca no norte da capitania (Braga, 1964).
É após 1751 que se intensifica o beneficiamento da carne seca em Acaraú, embora seja possível que antes desse período já existisse alguma atividade de carnagem na ribeira, esta provavelmente se deu em pequena escala e com técnicas mais rudimentares do que as empregadas em Aracati. O historiador Geraldo Nobre especula que a inovação poderia ter chegado à região através de fabricantes que, insatisfeitos com as posturas da Câmara, teriam procurado outros locais para desenvolver sua atividade (Nobre, 1977, p. 105).
Inicialmente, as boiadas saíam de Sobral em direção ao Porto do Acaraú, acompanhadas por carros de bois carregados de carne, couro e sola, mas com o tempo, os abastados sobralenses perceberam a vantagem de instalar indústrias de abate, salgamento e secagem de carne nas proximidades dos embarcadouros (Brasil, 1972, p. 111). Dali, essas mercadorias eram embarcadas em sumacas com destino aos principais portos da Colônia, sobretudo Pernambuco. Os barcos que levavam os produtos pastoris regressavam trazendo grandes novidades: pratarias, porcelanas, cristais, móveis de jacarandá e outros objetos raros — inclusive materiais de construção — o que contribuiu significativamente para o embelezamento da Vila de Sobral (Girão, 1984, p. 117).
Ao que parece, na época havia também um incipiente comércio por via fluvial entre os portos litorâneos e Sobral, aproveitando os períodos de cheia do Acaraú, quando o rio se tornava navegável a pequenas embarcações (Araújo, 1990, p. 23). A 25 de junho de 1768 um desses barcos pertencente ao comerciante Antônio Xavier naufraga no leito do rio, levando a morte de duas pessoas, um marinheiro e um escravo de Lourenço Francisco Banhos, residente no Recife. Coincidentemente, ambos atendiam pelo nome Miguel, tendo o marinheiro sido sepultado na capela de Santa Cruz, ao passo que o escravizado foi enterrado no campo (Araújo, 2005, p. 343).
Em Acaraú, as oficinas teriam sido instaladas inicialmente no Porto dos Barcos e, posteriormente, também no local conhecido como “Outra Banda”, situado a cerca de cinco quilômetros da barra do rio (Girão, 1947, p. 166). Isso é corroborado por Nicodemos Araújo, segundo o qual no município de Acaraú foram instaladas duas fábricas de charque: a primeira, em 1745, no atual bairro de “Outra Banda”; e a segunda, alguns anos depois, na atual Rua Santo Antônio, próxima ao ponto onde foi edificado o prédio de residência e comércio do major Domingos Alves Ferreira. No porto de Cacimbas embarcava-se para Pernambuco, Bahia e outros destinos não apenas a carne preparada em Acaraú, mas também toda a produção da zona de Sobral (Araújo, 1971, p. 179).
Em função da escassa documentação sobre as charqueadas no baixo Acaraú, não é possível saber ao certa a extensão dessa atividade. O historiador Geraldo Nobre buscou evidências indiretas analisando os topônimos das fazendas da região. Identificou a existência de um riacho e duas propriedades chamadas de "Oficinas", o que sugere que tenham sido locais de beneficiamento do charque. O sítio “Porto dos Barcos”, também chamado “Oficinas”, pertencia a Antônio José dos Santos e foi vendido em 1793 a José Monteiro de Melo, que, em testamento, o legou a Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Freguesia de Sobral (Girão, 1947, p. 166).
Essas terras teriam pertencido ao comissário Belchior Correia de Carvalho, que provavelmente adquiriu-as por compra. Ele era casado com dona Úrsula de Albuquerque, com a qual teve a filha Bertoleza Correia de Carvalho, que 1757 casou-se com Domingos Álvares Pereira. Em um levantamento de 1788, Domingos afirmou possuir duas fazendas no riacho das Oficinas, sendo co-herdeiro, junto a Antônio José dos Santos, da fazenda Juazeiro. Outra fazenda no mesmo riacho, também chamada Oficina, pertencia a Angélica Pereira Torres, de quem Domingos era procurador (Nobre, 1977, p. 150).
Seria outra a fazenda também denominada Oficina do capitão-mor Jerônimo Rodrigues Coelho, que confrontava com terras da família Álvares de Sá, dos Rodrigues Coelho e de Gonçalo Antônio Tomás, herdeiro do coronel Matias da Silva Bonito, além da fazenda Itapagé de Ana da Conceição. O nome dessa última propriedade coincidia com o do terceiro porto, onde se fazia o comércio de carnes da região. Sua origem remonta a 1757, com a divisão do Curato da Ribeira do Acaraú, cuja fronteira passava pela picada (ou barra) do Itapajé. O porto se desenvolveu ligado à antiga Missão dos Tremembés, cuja igreja foi construída com materiais trazidos em navios que carregavam carne seca no porto das Oficinas (Nobre, 1977, p. 151).
As charqueadas propiciaram algum desenvolvimento à região do atual município de Acaraú, deixando reflexos na vida econômica local e gerando lucros expressivos para aqueles que as exploraram, tanto na produção quanto na comercialização. Esse ciclo, porém, teve um fim abrupto com a grande seca de 1790-1793, cujos efeitos devastadores dizimaram quase todo o rebanho e destruíram a lucrativa indústria. Durante algum tempo, os mercados consumidores foram abastecidos pelas fábricas do Parnaíba e, posteriormente, passaram a depender do charque proveniente do Rio Grande do Sul, que se mantém até hoje como principal fornecedor (Girão, 1986, p. 145).
Diego Carneiro
08 de outubro de 2025
Referências
ABREU, Capistrano de. Capítulos de história colonial. Rio de Janeiro, 1907.
ARAÚJO, Nicodemos. Município de Acaraú, Notas para sua história. Acaraú, 1971.
ARAÚJO, Nicodemos. Cronologia de Bela Cruz. Acaraú, 1990.
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
BRAGA, Renato. Dicionário geográfico e histórico do Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1964.
BRASIL, João Pompeu. Sobral: tentativa de interpretação histórica de sua ação polarizadora sobre a região. Revista de Ciências Sociais: RCS, v. 3, n. 2, p. 105-121, 1972.
GIRÃO, Raimundo. Evolução histórica cearense. Banco do Nordeste do Brasil SA, Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste, 1986.
GIRÃO, Raimundo. História econômica do Ceará. Instituto do Ceará, 1947.
GIRÃO, Valdelice Carneiro. As oficinas ou charqueadas no Ceará. Secretaria de Cultura e Desporto, 1984.
NOBRE, Geraldo da Silva. As oficinas de carnes do Ceará: uma solução local para uma pecuária em crise. Fortaleza: GEC, 1977.
PENA, Leonam Azevedo - trad. Viagem ao Rio Grande do Sul. S.l., s.ed., 1935.


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