A Colonização do Riacho da Prata [em construção]

Açude da Prata, Cruz.

O Riacho da Prata é um curso d'água que atravessa grande parte do atual município de Bela Cruz, no sentido norte-sul. Nasce em um local chamado Pubas, com a denominação São Gonçalo, e tem sua foz no Poço Doce, no município de Cruz (Araújo, 1967, p. 21). A primeira menção a esse riacho aparece no mapa atribuído a Pero Coelho de Sousa, datado do início do século XVII, com a denominação "saituba", indicando um local onde abundam sais (Brasil-Sobrinho, 1948, p. 158).

Um marco em sua colonização foi a sesmaria obtida pelo Capitão Diogo Lopes de Araújo Costa, em 18 de junho de 1817. Diogo Lopes era o filho homem mais velho do Capitão José de Araújo Costa, proprietário de grande parte das terras situadas ao norte da sede do município de Bela Cruz. Na petição, ele informa ser:

(...) possuidor de huma Sesmaria de terras ha vinte e tantos annos na ribeira do Acaracú, termo da V. do Sobral lugar denominado Lagoa do Matto, onde tem situados seus gados e Cavallares de toda a Sorte, ha meste a este Sitio hum riacho chamado da Prata que corre de Sul a Norte, habitado e lavrado com caza, aviamentos de fazer farinha, rossas, e fruteiras do Suplicante, ha quasi outro tanto tempo qt. o em que possua lagoa do Matto, sem opposição nem contradição de pessoa algúa tendo por hereos seus confinantes, pela parte do Nascente com terras da Cruz, lagoa seca, e Malassombrado de Francisco Ant.º Linhares do mesmo termo do Sobral, e com a dita lagoa do Mato do Suplicante pela parte do Poente com terras da Data do Commandante Ant. da Silva Barros do termo da V.* da Granja, pela parte do Norte com terras do Castilha no termo da Granja, e com terras da timbauba ribeira do Acaracú termo de Sobral, e pela parte do Sul com terras da mesma lagoa do Matto do Suplicante, ficando-lhes mistas as terras sobreditas do Riacho da Prata que quer o Suplicante lhe sejão consedidas por sesmaria de sobras dos sobreditos heréos confinantes, pegando dos limites dos providos do Norte pelo riacho da Prata (Sesmarias nº 728, p. 59).

Ele obteve "tres legoas de comprido e hua de largo, ou legoa e meia em quadro, como na verdade se achar". Segundo a descrição da sesmaria, foi possível localizá-la, conforme descrito abaixo. Ressalta-se que as "terras do Castilha" refere-se Sítio Castelhano, do Coronel Barbosa de Morais, enquanto a Fazenda Timbaúba pertencera a Antônio Correia Peixoto, hoje correspondendo ao distrito de Aranaú, em Acaraú. Ademais, ao oeste, as terras confrontavam com o limite entre os termos das vilas de Granja e Sobral.

Atualmente, essa região corresponde a grande parte do Distrito da Prata, em Bela Cruz, bem como às localidades de Riacho de Cima, Poço do Meio, Riachão da Prata, Grosso, Cambotinha, Lagoa do Alexandre, Santa Teresa, Ema, Pimenteiras, Lagoa dos Caboclos e Cardoso. Já no município de Cruz, a terra compreende as localidades de Baixinha dos Fonteles, Canafístula, Bento Lobo e Poço Doce.

Porque Riacho "da Prata"?

Desconheço qualquer explicação local para o topônimo Prata, sendo um dos primeiros documentos que o registra, o supramencionado pedido de sesmaria. Há, entretanto, uma menção ainda mais antiga, feita no inventário de José Monteiro de Melo, de 1805 [1]:

"Declaro que possuo mais três légoas de terra no Riacho da Prata, as quaes arrematei para pagamento de dividas no juízo de órphãos desta villa, era então escrivam Félix José de Souza e Oliveira, e foi arrematada a terra por execução por mim feita contra João de Deus Caminha" (De Sousa, 2015, p. 153).

José Monteiro de Melo, filho de escravos, foi um rico comerciante da região do Acaraú entre o final do século XIX e início do século XX, tendo, inclusive, deixado em testamento terras para a construção da Igreja N. S. da Conceição de Acaraú. O dono anterior da propriedade, João de Deus Caminha, era neto do sesmeiro Domingos de Aguiar e Oliveira e, portanto, primo de segundo grau de Diogo Lopes. Isso sinaliza que o topônimo já vinha sendo utilizado antes mesmo da data do Capitão.

Tenho uma hipótese intrigante para a origem desse nome. No livro "Velhas Igrejas e Subúrbios Históricos", o autor Flávio Guerra nos conta que existia no Recife antigo uma lagoa e um Riacho da Prata, indicando inclusive a sua suposta origem:

Conta a lenda que Branca Dias, que foi algures uma rica senhora de engenho, nas terras de Camaragibe, também de Apipucos, tendo sido denunciada perante o Tribunal de Santo Ofício por crime de judaísmo, isto pelas alturas de fins do século XVII, ao ser intimada com ordem de prisão, arremessou no açude que por ali corria toda a sua baixela riquíssima de prata, tão grande e tão rara que as águas do rio mudaram de cor e ficaram tão claras e límpidas como a prata. E estando inocente e tendo sido condenada pelo excessivo rigor da Inquisição, logo Branca Dias caiu na piedade popular e o riacho passou a ser chamado de Riacho da Prata.

Até onde vai a veracidade dessa lenda é impossível de determinar-se . Mas que Branca Dias realmente existiu e foi denunciada pelo crime de judaísmo, isto consta documentadamente no livro "Primeira Visitação do Santo Ofício ás Partes do Brasil — Denunciações de Pernambuco". Ela foi realmente remetida presa para Portugal, lá morrendo queimada nas fogueiras da Santa Inquisição, de cujo auto de fé existiu, segundo informações colhidas, até pouco tempo, "um quadro a óleo no Claustro do Convento de S. Francisco na Paraíba, representando Branca Dias com pés de cabra, em alusão ao seu delito. (Guerra, 1970, p. 239).

Sabe-se que muitos dos primeiros habitantes do Baixo Acaraú eram oriundos de Pernambuco, a quem o Ceará permaneceu subordinado até o final do século XVIII. Dessa forma, teria o nome do Riacho da Prata, em Bela Cruz, sido inspirado no seu antigo homônimo recifense? Difícil dizer com certeza. Mas um fator torna essa hipótese instigante é o fato de Manoel Vaz Carrasco, avô do Capitão Diogo Lopes, tio-avô de João de Deus Caminha, e um dos primeiros habitantes da região, ser descendente direto (pentaneto) da dita Branca Dias Coronel.

Os Filhos do Capitão Diogo Lopes

Para compreender o que aconteceu com as terras do Riacho da Prata (e da Lagoa  do Mato), faz-se necessário rastrear a porção que coube aos herdeiros do sesmeiro. Ressalta-se que existe certa mística sobre a numerosa prole do Capitão Diogo Lopes de Araújo Costa. Segundo o historiador Antônio Bezerra, o capitão, apesar de nunca ter se casado, chegou a viver maritalmente com sete mulheres diferentes, que teriam lhe dado 35 filhos, dos quais apenas 20 teriam sobrevivido (Bezerra, 1695, p. 371).

A informação obtida por Bezerra advém de uma lista, elaborada a 17 de outubro de 1872, pelo Major João de Araújo Costa, filho de Diogo Lopes. Entretanto, o memorialista Nicodemos Araújo, que escreveu um livro biográfico sobre Diogo Lopes, sustenta, com base no seu inventário, que o mesmo teria "apenas" 16 herdeiros, de três mulheres diferentes (Araújo, 1978, p. 23). De fato, constam dezesseis nomes no inventário, aberto a 22 de junho de 1833, como é possível ver na foto abaixo [2].

Trecho do Inventário do Capitão Diogo Lopes, 1843*
São eles:

"Filho reconhecido de Antónia Maria do Rosário: 
1 - João Bento de Araújo Costa
Filhos reconhecidos de Maria Rodrigues de Sousa:
2 - Diogo Lopes de Araújo Costa Júnior (falecido em 1825)
3 - Manoel de Araújo Costa
4 - António de Araújo Costa
5 - Lúcio de Araújo Costa
6 - Félix de Araújo Costa
7 - Bernardino de Araújo Costa
8 - Antônia Balbina de Araújo Costa
9 - Inácia Sabina de Araújo Costa, casada com João Nepomuceno de Araújo Costa
Filhos reconhecidos de Maria Siciaca da Fonseca:
10 - João de Araújo Costa
11 - José Lopes de Araújo Costa
12 - Venâncio Meireles de Araújo Costa
13 - Raimundo Nonato de Araújo Costa
14 - Simplício de Araújo Costa
15 - Vicente Lopes de Araújo Costa
16 - Beatriz Geracina de Araújo Costa, casada com Francisco Joaquim da Silveira” (Araújo, 1967, p. 23).

Dentre estes, foi possível localizar como proprietário do Riacho da Prata os irmãos José Lopes de Araújo e Venâncio de Araújo Costa. Isso consta no Livro de Registro de Terras da Freguesia da Barra do Acaraú, referente ao ano de 1857 (abaixo).

Registro de Terras de Venâncio Meireles de Araújo e José de Araújo Costa

Número seiscentos e noventa e sete - Declaro que sou possuidor de três posses de terra nesta Freguesia, sendo duas no Riacho da Prata e uma no Falcão, as quais quero registrar. Acaracú, nove de março de mil oitocentos e cinquenta e sete. Por Venâncio Meireles de Araújo e José de Araújo Costa. Apresentada. Pagam trezentos e cinquenta réis e cento e oitenta e cinco letras. Barra, dezoito de março de mil oitocentos e cinquenta e sete. Vigário Antônio Xavier de Castro e Silva.

Têm-se pouca informação sobre Venâncio e José, fora o fato de que foram militares de média patente. Venâncio foi Capitão da Guarda Nacional, patente recebida a 14 de novembro de 1866 (Araújo, 1978, p. 66). Também foi vereador na Vila Granja, eleito no ano de 1854, e delegado na mesma vila, entre os anos 1856 a 1858 (França, 2024, p. 10). Já José, foi tenente da mesma corporação, tendo sido reconhecido nessa posição em 3 de abril de 1856, sendo depois promovido a Major.

Século XX

No censo agropecuário de 1920 constam como proprietários na "Prata", Livino José da Silveira, seu filho, Raimundo Pinto da Silveira e seu genro, Daniel José da Silveira. Todos eles descendem do Tenente Albano José da Silveira, político de grande prestígio e proprietário abastado do termo da Vila de Acaraú. O Tenente Albano aparece em 1855 como proprietário das terras da Cruz e da Timbaúba, herdadas de seus pais (Livro de Terras da Freguesia do Acaraú, nº 178).

Já no inventário de Livino, lavrado em 1935, consta o seguinte sobre o Riacho da Prata:

Inventário de Livino José da Silveira, 1935 [4].

Um corpo de terras, com duzentas braças de largura, com os fundos correspondentes no lugar "Córrego da Prata", deste Município, limitando-se ao norte com terras de Raimundo Pinto da Silveira, ao sul com as de Urbano José da Silveira; ao poente com os apossados de Manoel Louzada Gonçalves, e ao nascente onde der meia légua a partir do meio do córrego com as terras das Jelargas (?) [...] e benfeitorias havidas pelo inventariado Levino José da Silveira, em maior porção, por herança em mil oitocentos e noventa e cinco de sua mãe Dona Isabel Franklina do Carmo e por compra a Antônio Graciano da Silveira e sua mulher Maria Magdalena da Silveira e Luiz José de Farias e sua mulher Maria Cândida de Farias, Francisco José da Silveira, Miguel Albano da Silveira e sua mulher.

Portanto, as terras estavam na família desde pelo menos três gerações, dado que Livino era filho de Tenente Albano e as outras pessoas citadas, seus irmãos. Essa propriedade, próxima da divisa entre os municípios de Cruz e Bela Cruz, provavelmente originou o povoado que, mais tarde se transformaria na Vila da Prata, sede do distrito de mesmo nome. 

A Capela de N. S. do Livramento

Capela de Nossa Senhora do Livramento, na Vila de Prata, Bela Cruz.

Segundo Nicodemos Araújo, a primeira capela construída nessa área, foi a de N. S. do Livramento, na Vila de Prata. Essa igreja teve sua construção iniciada a 3 de agosto de 1936, sendo inaugurada, pelo Pe. Sabino de Lima, a 14 de dezembro de 1940. Sendo a bênção da imagem de sua Padroeira, foi dada, pelo mesmo sacerdote, no dia seguinte.

O patrimônio da capela foi doado por Minervino José de Vasconcelos e sua mulher, D. Silvina Maria de Vasconcelos, conforme escritura lavrada em 10 de janeiro de 1936, nos seguintes termos:

Trecho do termo de doação a N. S. do Livramento [3].

Um quadro de terra no lugar Prata, deste termo, medindo cem braças de frente por cem de fundos, limitando-se: ao poente com o Riacho de Prata; ao Nascente, aonde der cem braças. com os vendedores; ao norte, no travessão existente, com terra de Luiz Pereira Brandão, e ao Sul, onde der as cem braças, finda  com os vendedores, havidas por estes nas quantidades de duzentas e trinta e cinco braças e três quartos de braça, por uma légua de fundos (meia para cada banda do Riacho da Prata), sendo oitenta braças por feita a José Antônio de Carvalho e sua mulher, dezoito braças e três quartos de braças, por compra a Alberto Rodrigues de Azevedo e sua mulher, vinte e cinco braças, por compra a Francisco das Chagas Rocha, sua mulher e  outros, sessenta e sete braças por compra a Luiz José de Farias, e outros trinta e três braças por compra a Raimundo Nonato de Vasconcelos e sua mulher e doze braças por compra a José Muniz Rodrigues e sua mulher, tudo conforme documento registrado no Cartório de Imóveis deste Termo.

Sobre as pessoas citadas, Luiz Pereira Brandão era casado com Raimunda Marques de Araújo. Ele era neto de João Pereira Brandão, possuidor, em 1855, de terras na Timbaúba e no Falcão. Já ela era filha de Bernardo Marques da Costa, possivelmente descendente do Capitão Diogo Lopes. Já José Muniz Rodrigues é descendente do casal José Muniz Rodrigues (Zé Muniz) e Maria Antônia da Conceição, genearcas da família Muniz do Baixo Acaraú. Segundo a memorialista Maria Elizabeth Albuquerque, eles são provavelmente oriundos dos "Muniz Farrapo", de Santa Quitéria (Albuquerque, 2009, p. 91). Em 1856, Zé Muniz aparece como proprietário de terras compradas e herdadas na Cruz e na Timbaúba. Tanto a mãe, quanto a esposa de José Muniz (neto), também eram descendentes do Capitão Diogo Lopes.

Distrito da Prata

Em 1958, por meio da Lei Estadual nº 4439, de 30 de dezembro, foi criado o Distrito da Prata, no recém-criado município de Bela Cruz. O mesmo tinha como limites:

a) Ao sul, com o distrito sede: Parte da casa principal da Fazenda Santo Izidio, nas proximidades dos limites intermunicipais com Camocim; segue daí para alcançar o travessão divisório das terras de propriedade de José de Paula Pessoa e Manuel Vieira: segue pelo mesmo travessão até o lugar São Geraldo, onde termina: daí segue por uma reta até encontrar o travessão divisório entre as terras de Miguel Dias e João Lopes Sobrinho pelo qual segue até o término; segue daí até encontrar o rio Acaraú.
b) Ao nascente, ainda com o distrito sede: Parte do rio Acaraú, no lugar onde ele recebe o riacho Canema: desce o rio Acaraú até alcançar os limites intermunicipais entre Acaraú e Bela Cruz.

Dentro dessa área, avaliada em 300 quilômetros quadrados, existem várias localidades como Correguinho, Lagoa de Belém, Riacho da Prata, Lagoa do Nazário, Baixio, Solidão, entre outras, muitas das quais originadas dos sítios e fazendas dos descendentes do Capitão Diogo Lopes. Já a Vila da Prata, sede do distrito, teve seu quadro urbano delimitado pela Lei Municipal nº 14, de 23 de julho de 1959, com a seguinte descrição:

Partindo do ponto em que fica situada a casa residencial de Israel Graciano da Silveira, até a residência de Geraldo Hermeto de Sousa, ao Norte; ao Sul, desde a residência de Sebastião Malaquias do Nascimento, até a casa de morada de Esaú Francisco Malaquias; ao Nascente, a Rua Leste do Mercado Publico, ainda em construção, ao Poente, desde a casa residencial de Raimundo Nonato de Vasconcelos, até a residência de Geraldo Pereira Brandão.



Diego Carneiro

05 de junho de 2026 

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A Colonização do Riacho da Prata. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 05 de junho de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/05/a-colonizacao-do-riacho-da-prata-em.html

Referências

ALBUQUERQUE, Maria Elizabeth. Era uma vez na Cruz: Genealogia da Família Cruz. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2009.
ARAÚJO, Nicodemos. Bela Cruz: De Prédio Rústico a Cidade. Edições A Fortaleza. Fortaleza, 1967.
ARAÚJO, Nicodemos. Capitão Diogo Lopes: Notas Bibliográficas. Acaraú, 1978.
BEZERRA, Antônio. Notas de viagem. Imprensa Universitária do Ceará, 1965.
BRASIL SOBRINHO, Thomaz Pompeu de Sousa. O mapa de Pero Coelho: considerações gerais, autoria, data, toponímia. Revista do Instituto do Ceará, Fortaleza, ano LXII, p. 139-165, 1948.
FRANÇA, Mavignier. Guia de Contexto, Pesquisa e Leitura do Primeiro Registro das Terras de Granja Ceará ( 1854 A 1857). Coreaú: Associação Memória Salva, 2024.
GUERRA, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios históricos. Recife, 1970.

[1] Inventário post-mortem de José Monteiro de Melo, 1805, caixa 40. NEDHIS/UVA.

[2] APEC: Acaraú / Inventários / 1833 / PAC 3 / Diogo Lopes de Araújo Costa / PROC. 4.  Divulgado por Ângela Ferreira na plataforma Family Search. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/memories/KGKJ-J6W

[3] Cartório do Segundo Ofício de Acaraú, 18 de março de 1936. Agradecimento ao pesquisador Marcos Aurélio da Silveira.

[4] APEC: Acaraú / Inventários / 1935 / PAC 30 / Levino José da Silveira / PROC. 8.


A História do Sítio Araticum

O Sitio Araticum foi, possivelmente, a primeira propriedade rural instalada em Bela Cruz, e uma das primeiras de todo o Vale do Acaraú. Pertenceu, originalmente, ao português Nicolau da Costa Peixoto, o qual a recebeu em sesmaria, confirmada no dia 14 de outubro de 1702, cuja petição informa que:

Dizem Maria de Sá e Nicolau da Costa Peixoto, moradores no Ceará que o Capitão-mor Francisco Gil Ribeiro lhes concedeu a data de terras que oferecem na Ribeira do Rio Acaraú [goacoracu], e porquê a querem confirmar, pedem a Vossa Senhoria que seja servido mandar-lhes passar a confirmação das ditas terras e receber a mercê. Informe o provedor da fazenda real ouvindo o Procurador da Coroa. Recife, treze de fevereiro de mil setecentos e dois. Rubrica Informe o procurador da coroa [João Rego de] Barros [Braga] (Sesmarias Vol. 2, nº 118, p. 103).

Ressalta-se que Maria de Sá era esposa do Coronel Félix da Cunha Linhares e cunhada de Nicolau, irmã de sua esposa Paula de Sá, ambas filhas do lendário Coronel Leonardo de Sá. A resposta a petição teve o seguinte teor:

Hei por bem de lhes fazer mercê dar aos suplicantes acima nomeados, como pela presente dou de sesmaria, em nome de sua Majestade, nos mesmos lugares pontes testadas que confrontam em sua petição e lhes foi concedida pelo Capitão-mor do Ceará duas léguas de terra de comprido e uma de largo, meia para cada banda do dito Rio Acaraú [goacoracu], pagando de foro por cada légua quatro mil reis, os quais povoarão dita terra no termo de cinco anos aliás se darão por devolutas (...). (Sesmarias Vol. 2, nº 118, p. 103).

A partir da descrição da sesmaria, e de outras próximas, como a de Domingos de Aguiar Oliveira, mencionada em outra postagem, conclui-se que as terras de Nicolau Peixoto englobavam a totalidade dos perímetros urbanos dos atuais municípios de Marco e Bela Cruz. Segundo Pe Sadoc, essa porção de terra preencheria os vazios não ocupados por Manuel de Góes e seus companheiros (Araújo, 2005, p. 81).

Sesmaria de Nicolau da Costa Peixoto, segunda a descrição histórica.

A sede da propriedade, muito provavelmente, deu nome a localidade Araticum, situada na divisa entre os dois municípios. Segundo Márlio Falcão (1999, p. 150), Araticum (ou Araticuns ou Araticus) é um palavra indígena que designa uma fruta da família das Anonáceas, semelhante a graviola. Sua tradução literal seria algo como "fruto do céu" ou "fruto mole".

Por volta de 1725, sabe-se que Nicolau vendeu parte de suas terras para Manoel Ferreira Fonteles, que passariam a integrar a Fazenda Tucunduba (Araújo, 2005, p. 59). Não está claro, entretanto, a localização e o tamanho da porção vendida, mas considerando que a Fazenda do Marco, parte derivada da Tucunduba, pertenceu a Francisco Ferreira Fonteles, filho de Manoel Fonteles, deduz-se que teria sido a porção do terreno onde hoje está localizada a sede do município de Marco (Avelino, 2020, p. 108).

Ademais, em 12 de setembro de 1732, Nicolau da Costa Peixoto, juntamente com seu vizinho Domingos de Aguiar Oliveira doaram terras e gado para constituir o patrimônio da Capela de N. S. da Conceição. Como já analisado anteriormente em outra postagem, muito provavelmente as terras doadas (meia légua) derivam integralmente da sesmaria de Nicolau Peixoto, sendo o gado a contrapartida de Domingos Aguiar.

Porções de terra doadas (azul) e/ou vendidas (roxo) por Nicolau da Costa Peixoto.

No inventário de Nicolau da Costa Peixoto, datado de 20 de agosto de 1746,consta, segundo transcreve Pe. Sadoc, "uma légua de terra no Corgo junto ao sítio Araticus e duas léguas de largo por uma de comprido no sítio Araticus onde residia" (Araújo, 2005, p. 219). Ou seja, as terras de Nicolau mediam metade do comprimento obtido como sesmaria (duas léguas), o que leva a conclusão que ele se desfez das mesmas, em vida, das quais se supõe que metade (meia légua) por doação a igreja e o restante (meia légua) teria sido vendida a Manoel Ferreira Fonteles.

Estranhamente, os limites de largura declarados, de duas léguas, são maiores do que consta na conceção original da sesmaria, de apenas uma. Não encontrei explicação satisfatória para essa contradição, sendo uma possibilidade, a de que ele tenha adquirido (ou se apossado) as terras contíguas as suas, das quais não temos conhecimento.

Após a morde de Nicolau, é provável que parte de sua propriedade, tenha sido distribuída entre os herdeiros e posteriormente vendida e novamente dividida. Sabe-se que, em 28 de janeiro de 1750, Antônio Ribeiro Guimarães, marido de Cecília da Costa Peixoto, filha de Nicolau, prestou constas de sua tutoria dos cunhados menores de idade. O mesmo acontece com Sebastião Dias Madeira, casado com Maximiana da Costa Peixoto, outra filha de Nicolau, em 10 de novembro de 1755. Portanto, estima-se que Paula de Sá tenha falecido antes de 1750, deixando os filhos órfãos menores aos cuidados dos genros.

No inventário de Paula de Sá, lavrado apenas em 1788, décadas após sua suposta morte, consta o seguinte:

Declarou o dito inventariante haver deixado a defunta, sua mãe, meia légua e cem braças de terras de criar gados na margem do Rio Acaraú, e uma de largo para cada banda do dito rio, livre de foro e pensão, que confronta, digo que extrema, da parte de cima do rio com o Capitão José de Araújo Costa e pela parte debaixo do dito rio extrema com Pedro Serafim de Jesus pela parte do nascente com terras Jaruty (?) e do poente na mesma forma, que avaliada pela essa... e quantia de duzentos e vinte mil reis.

Terras constantes no Inventário de Paula de Sá, 1788.

Para situar o leitor, uma braça de terra equivalia de 2,2 metros, portanto, uma légua, ou 6,6 km, equivaliam a 3000 braças. O inventariante de Paula de Sá foi seu filho, Luís de Sá Costa, que vendeu várias porções dessas terras ao dito Capitão José de Araújo Costa, como consta em seu inventário, datado de 25 de setembro de 1792:

- 250 braças de terra de comprido nas margens do rio Acaraú, com duas léguas de largo, uma para cada banda do dito rio, pegando o seu comprimento da ponta do nascente com terras do Alferes Luis de Sousa Xerez até testar com terras dos possuidores do Sítio Araticuns, cuja terra houve por compra a Luis de Sá Costa, como consta da escritura que apresentou passada pelo tabelião Roque Correia Marreiros, avaliadas por 80$000.

- 250 braças de terra, de criar gado, de comprido no Sítio Corgo, com huma légua de largo, meia para cada banda do dito Corgo, pegando da parte de baixo com terras do Alferes João de Sousa Xerez e pela parte de cima com terras do mesmo João de Sousa, que houveram por compra a Luis de Sá Costa, como consta da escritura que apresentou passada pelo tabelião Roque Correia Marreiros, avaliados por 25$000.  

- 400 braças de terra de comprido nas margens do rio Acaraú, de criar gado, com uma légua de largo para cada banda do rio Acaraú, pegando seu comprimento das terras do mesmo casal até testar com terras do Sargento-mor Manoel Francisco de Vasconcelos, cuja terra houve por compra a Luis de Sá Costa, avaliadas em 200$000 (Araújo, 2000, p. 163).

As demais figuras mencionadas, os alferes Luis de Sousa Xerez e seu filho João de Sousa Xerez, eram parentes Manoel Vaz Carrasco, pessoas de grande relevo nos primórdios da Ribeira do Acaraú. Luís foi juiz ordinário e um dos signatários da ata de criação da Vila de Sobral, juntamente com José de Araújo Costa, também era irmão do Capitão-mor José de Xerez Furna Uchoa, ambos sobrinhos de Carrasco. Já o Coronel Manuel Francisco de Vasconcelos era filho de Mateus Mendes de Vasconcelos e genro de Luis de Sousa Xerez.

O Sitio Várzea Feia

Pedro Serafim de Jesus, mencionado no testamento de Paula de Sá, é outro pioneiro da região. Em 1788 declarou a Câmara do Sobral ser proprietário da Fazenda Várzea Feia (Vargem Feia), nas margens do Rio Acaraú, com a seguinte descrição:

Um quarto de terra de comprido no dito sítio com uma légua de largo para cada banda do dito rio que principia nas testadas da terra de Santa Cruz e finda com terras da Fazenda dos Araticuns (Frota, 1974, p. 191).

Originário do Rio Grande do Norte, casou-se com Rosaura Maria do Carmo, filha do paraibano Alferes Manoel de Moraes Valcácer. O Casal residia no Sítio Várzea Feia, "numa casa velha de telha tapada de barro com quatro portas com suas fechaduras", como consta em seu inventário, datado de 1835 [1]. O inventário do casal traz mais detalhes sobre a propriedade:

[...] a margem do Rio Acaracú, da parte do poente, com o comprimento de seiscentas braças com uma légua de largura e no cumprimento pela parte do Norte extremavam com terras de Nossa Senhora no Marquinho, e subindo rio acima até onde completava as sobreditas seiscentas braças a extremar com terras de Araticuns pela parte do nascente, na sua largura extremava no lado com Rio Acaracú e na mesma largura pela parte do poente até completar a legoa de largura nas Caatingas, terras que se julgavam devolutas, que existiam entre os Rios Acaracú e Coriaú, as quais terras a saber mais quanto de legoa foi dado ao finado testador em dote de casamento por seu finado sogro Manoel de Moraes Valcacer e sua mulher Maria Correia da Silva, avaliadas em 1835 pelo preço de 400$000 réis.

E o outro meio quarto que lhe inteira um quarto de legoa houveram os finados testadores por compra que lhes fizeram à Francisco Antonio Pereira e sua mulher Joanna Maria da Conceição pelo valor dado no inventário, duzentas braças na dita terra, cada uma braça em preço de mil reis, que importam na quantia de duzentos mil réis (200$000). (fls. 33 e 80 do inventário de Pedro Serafim e Rosaura).

Joanna Maria da Conceição, casada com o Alferes Francisco Antônio Pereira, é cunhada de Pedro Serafim, também filha de Manoel de Moraes Valcácer, de quem também possivelmente herdou as terras. Manoel Valcácer residia da Várzea Feia desde pelo menos novembro de 1755, quanto testemunhou na justificação de Domingos de Sousa Carvalho, tutor dos filhos de Luis Quaresma Coutinho (Araújo, 2005, p. 258). Em seu inventário consta o seguinte [2]:

Declara mais o dito inventariante... trezentas braças de terras de criar gados na margem do Rio Acaraú ... de comprido com uma légua, digo, com meia légua de largo para cada banda... a qual confronta pela parte com terras do Capitão José de Araújo Costa, do nascente ao norte com terras de Nossa Senhora de Santa Cruz, avaliada pelo avaliador em cinquenta mil réis (Inventário de Manoel de Moraes Valcáver, 1782).

Essas provavelmente foram as terras remanescentes após transferências em vida. A análise das descrições das propriedades sugere fortemente que Manoel Valcácer tenha comprado terras de Nicolau Peixoto ou de algum de seus herdeiros. Ressalta-se também que o Alferes era casado com Maria Correia Silva, filha de Antônio Correia Peixoto, sesmeiro da foz do Acaraú e possível parente de Nicolau Peixoto, o que pode ter motivado a compra. O local do antigo sítio Várzea Feia corresponde hoje a uma localidade de mesmo nome na cidade Bela Cruz.

Terras do Araticum em 1746 (total) e porção do Sítio Várzea Feia em 1835 (vermelho)

O Marquinho da Santa

No Livro de Registro de Terras da Freguesia da Barra do Acaraú, levantamento realizado no período de 1855/57, ainda constam como moradores da Região da Várzea Feia e Araticum, os descendentes de Pedro Serafim de Jesus (Joaquim Pereira de Vasconcelos [neto],Inácio José de Morais [neto], Francisco José de Morais [neto], Maria Angélica da Conceição [neta] e Florêncio José de Morais [neto], todos filhos de Manoel José de Jesus). Uma descrição comum nesse registro é que as propriedades encontravam-se "encravadas na légua entre o Marco e Marquinho".

O Marquinho, outrora localidade, hoje é um bairro nos limites do perímetro urbano de Bela Cruz. Ignora-se o motivo desse topônimo, mas é provável que esteja relacionado a alguma demarcação de terras, no sentido que pode ter havido lá algum "pequeno marco" divisório. Ademais, depreende-se do supramencionado testamento de Pedro Serafim, que este delimitasse o fim das terras da igreja, o que é compatível com as nossas medições.

Destaca-se outra figura relevante dessa região, José Romão de Carvalho, genro de Manoel José de Jesus, que hoje dá nome a uma rua no bairro. Seus filhos foram grandes agricultores e comerciantes em Santa Cruz, com destaque para Antônio e Francisco Romão de Carvalho, que também atuaram, em comissão, como administradores do patrimônio da Capela de N. S. da Conceição entre 1918 e 1924 (Araújo, 1967, p. 40).

Ainda no livro de Registro de Terras de 1855-57, consta também como proprietários das terras do Araticum, os filhos do Capitão Manoel Mendes da Costa (José Mendes Carneiro, Ricardo Mendes Carneiro e Joaquim Mendes Carneiro), além dos tutelados de seu irmão, Vicente Carneiro da Costa. Manoel e Vicente são bisnetos de João Carneiro da Costa, tronco dos Carneiro do Vale Acaraú.

Diego Carneiro

28 de maio de 2026 

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A História do Sítio Araticum. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 28 de maio de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/05/a-historia-do-sitio-araticum.html

Referências

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.
AVELINO, Fábio Júnior. Ocupação Colonial e Escravidão Negra nas terras que hoje fazem parte do Município de Morrinhos (1725-1889). Monografia. Sobral: Universidade Vale do Acaraú, 2020.

FALCÃO, Márlio Fábio Pelosi. Ciará Terra do Sol. Gráfica Folha. Fortaleza: APRECE, 1999.

FROTA, Luciara S. Aragão (Org). Estudo sobre o Remanejamento da Pecuária na Zona Norte do Ceará. Fortaleza: SUDEC, 1974b, 2 volumes.

[1] Acaraú, Inventário Pedro Serafim e Rosaura Maria, Ano 1835, PAC 10/Caixa 03, Arquivo Público do Estado do Ceará). Informações coletadas por Ângela Ferreira, na plataforma Family Search. Disponível me: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/memories/LTYS-YDD

[2] Inventário de Manoel de Moraes Valcácer. NEDHIS/UVA, Dossiê 04, Caixa 22. Referência: BR.BR.NEDHIS.UVA.CH.FM.P.INV.07*

*Agradecimentos a Pedro Henrik Morais Rocha

A História do Sítio Santa Cruz

Esse texto busca reconstruir a história do Sítio Santa Cruz, propriedade seminal que deu nome a localidade que, mais tarde, se transformaria no município de Bela Cruz. Sua trajetória remonta ao sesmeiro Domingos de Aguiar e Oliveira, provavelmente fundador e primeiro proprietário da área. As terras lhe foram concedidas como sesmaria em 19 de agosto de 1726. Na petição de concessão consta que:

Diz Domingos de Aguiar de Oliveira morador na Ribeira do Acaracú que elle Suplicante descubrio na dita Ribeira citio de terras nas Ilhargas das terras de Niculáo da Costa, em hum corgo chamado dos tucuns que desemborca na Lagoa que chamão do matto, cujo corgo fica pella parte das terras do dito Niculão da Costa ao Sul, e a outra beirada pella parte do norte, e como elle Suplicante não tem terras Bastantes p.* criar seus gados a Sy vacuns como Cavallares, e plantar suas Lavouras, e estas de que fas mençans se acham devolutas e desaproveitadas sem serem pedidas de pessoa algúa, por tanto; Pede a vossa merce Seja Servido conçederlhe em nome de sua Magestade que Deos guarde por data e sismaria na parage a sima nomeada húa Legoa de terra de Comprido pello dito corgo asima, e a largura de meya Legoa de cada banda [...] (Sesmarias Vo. 11, nº 150, p. 235)

A Lagoa do Mato é um corpo hídrico localizado a cerca de três quilômetros da sede Bela Cruz, cujo topônimo faz referência ao significativo acúmulo de vegetação sobre suas águas (Aurélio, 2012, p. 38). Já o córrego que a alimenta remete a uma espécie de palmeira de onde são extraídas fibras utilizadas pelos povos tradicionais para a confecção de cordas e redes. A partir da descrição da sesmaria, tomando como referência o riacho do Tucuns e projetando meia légua para cada margem, perpendicularmente ao rio Acaraú, chega-se com notável precisão aos limites da atual sede municipal de Bela Cruz.

Localização aproximada da Sesmaria de Domingos de Aguiar de 1726.

Ressalta-se que Domingos de Aguiar já residia em Santa Cruz antes de ter a data confirmada. Uma evidência nesse sentido é o registro de dois casamentos realizados na Fazenda Santa Cruz, alguns meses antes da concessão da sesmaria, em 25 de fevereiro de 1726:

O cura Pe. João da Costa Ribeiro está na Fazenda Santa Cruz onde assiste à cerimônia religiosa de dois casamentos: Um de José Ferreira da Fonseca, natural da cidade da Parahiba, filho legítimo de João Loureiro e Leonor Tavares, com a célebre mulata Andreza, filha de João de Sá e Joana de Sá, preta forra, moradores nesta freguezia. Serviram de testemunhas Domingos de Aguiar, Domingos de Sousa e Manuel da Guarda. Outro de Francisco Dias das Chagas, natural da freguezia de N. Sra. dos Prazeres de Mamanguape, filho de Manuel Dias e Joana Nunes, com Antônia Rodrigues, filha de Manuel Rodrigues e Joana Rodrigues. Serviram de testemunhas os mesmos do matrimônio anterior, além de Nicolau da Costa Peixoto (Liv. 1, fl . 100 apud Araújo, 2005, p. 112).

Esse registro é particularmente interessante, pois revela alguns daqueles que provavelmente foram os primeiros moradores da região.

O Patrimônio da Capela de Santa Cruz

Seis anos depois, em 12 de setembro de 1732, Domingos de Aguiar e seu vizinho Nicolau da Costa Peixoto — estabelecido, desde 1702, do Sítio Araticuns, atual localidade homônima — doaram meia légua de terra, quarenta vacas e seis éguas para compor o patrimônio da Capela de Nossa Senhora da Conceição. A escritura de doação, transcrita por Nicodemos Araújo (1967, p. 32), foi lavrada no próprio Sítio Santa Cruz.

Escriptura de duação que faz o Capitão Domingos d'Aguiar e Nicolau da Costa a Nossa Senhora da Conceição da Ribeira do Acaracú, etectera.

Saibão quantos este publico instrumento de duação como para sua validade e melhor nome e lugar haja a dizer se passou que sendo no anno do Nosso Senhor Jesus Christos de mil setecentos e trinta e dois annos, aos dose dias do mez de setembro do dito anno neste Sitio de Santa Cruz Ribeira do Acaracú termo da Villa de Fortaleza de Nossa Senhora da Assumpção Capitania do Ciará Grande, ahonde eu Tabellião ao diante nomeado fui vindo aqui sendo alli appareceu o capitão Domingos d'Aguiar e Nicolau da Costa, pessôas que reconheço pelos proprios do que se trata do que dou minha fé e faço menção por elles me foi dito em minha presença tistimunhas ao diante nomeadas que elles duavão como de facto logo duarão quarenta vacas e seis egoas e meia legua de terras que pega do norte da Capella para sima da Capella que elles ditos duadores fazem a Nossa Senhora da Conceição para que dos lucros dos ditos gados e bestas faça patrimonio da dita Capella, e mais que para ella lhe for necessário a qual duação fazia a dita Senhora da Conceição deste dia para todo o sempre sem constrangimento de pessoa alguma e sim do seo moto proprio e desde logo desistirão de todo puder e domínio que tinhão na dita terra e nos mais bens nomeados, por meio desta duação e pelos ditos duadores, foi dito que para fazer esta duação firme e valiosa obrigavão suas pessôas havidas e por haver e os mais bens amparados de sua fasenda e se compremetião a não vir em tempo algum contra este instrumento, que requeriam fosse feito nestas notas e mencionado ausente, a quem a favor deste possa tirar como pessôa publica estipulante e aceitante que o estipulei e aceitei, sendo presentes por testemunhas Luiz Martins Gonçalves e José Pereira pessôas que reconheço pelos proprios de que dou fé e que todos assignarão. Eu, Manoel d'Araújo Ferreira Tabelião de notas que o escrevi .

Domingos Aguiar d'Oliveira
Luiz Martins Gonçalves 
José Pereira Silva

O documento registra que os doadores entregavam "terras que pega do norte da Capella para sima da Capella", indicando que a Capela localizava-se na porção norte do terreno, que se estende meia légua rio acima, ou seja, para o sul. Essa informação ganha força quando comparada ao traçado urbano posterior de Bela Cruz, desenvolvido justamente sobre as chamadas “terras da santa”, áreas aforadas pela Igreja.

Tudo leva a crer que as terras doadas pertenciam integralmente à sesmaria de Nicolau da Costa Peixoto, enquanto os animais poderiam representar a contribuição de Domingos de Aguiar. Tal hipótese é coerente com a lógica econômica da época: os rebanhos possuíam elevado valor patrimonial, ao passo que a terra, abundante no sertão colonial, tinha valor relativamente reduzido.

Localização aproximada das terras doadas a N. S. da Conceição em 1732.

O ano de 1732 é comumente aceito como sendo o de conclusão da capela, fato corroborado por uma "escritura no primeiro Livro da capela, de ordem do R. Dr. Visitador Manoel Machado Freire, no ano de 1747" (Cavalcante, 1909, p.167). Quanto a bênção da capela, existem duas versões, sendo a primeira delas a de que teria sido realizada ainda em 1732 pelo Padre Visitador Sebastião Vogado Souto Maior, missionou na Ribeira do Acaraú entre 26 de novembro de 1731, partindo de Almofala e chegando a São José (Patriarca) a 1º de janeiro de 1732 (Araújo, 2005, p. 133-134). Outra hipótese é de que a bênção teria sido realizada por um frade franciscano denominado apenas como Frei João de Maria, a 25 de março de 1733 (Araújo, 1935, p. 21).

De fato, a primeira menção explícita que encontrei sobre a capela refere-se ao dia 20 de maio de 1734. Trata-se do casamento dos mamelucos Paulo e Antônia Ferreira, assistido pelo Pe. Mestre Frei Luis Barreto e o termo é assinado pelo cura Pe. Isidoro Rodrigues Resplandes, tendo como testemunha Manoel Vaz Carrasco (Araújo, 2005, p. 148-149). Por outro lado, no registro de batizado de Maximiana, filha de Nicolau da Costa Peixoto, ocorrido em 8 de novembro de 1733, menciona-se apenas que ocorreu no Sítio de Santa Cruz, sem menção a capela, como pode ser visto abaixo.


Cabe ressaltar um evento sinistro envolvendo uma das testemunhas que assinaram o termo de doação para constituição do patrimônio da Capela de Santa Cruz. José Pereira da Silva, natural de Goiana, Pernambuco, mudou-se para a Ribeira do Acaraú na primeira metade do século XVIII. Casou-se, a 20 de agosto de 1756, com Inácia Maria de Jesus, jovem viúva de João Machado Teixeira, que falecera um ano antes de uma queda de cavalo. Dois anos após o casamento, em 18 de dezembro de 1758, José assassina sua esposa a facadas, em um crime que chocou a sociedade local (Araújo, 2005, p. 284). Entretanto, apesar da violência perpetrada, sua esposa parece tê-lo perdoado no leito de morte, deixando-lhe em testamento uma gleba de terra no sítio Jacoca, "pelo muyto amor que lhe tem". Inácia foi então enterrada junto com seu primeiro esposo na Capela de Santa Cruz (Liv. Óbitos de Sobral, 1752- 1774, fl . 16v).

A Falência de Domingos de Aguiar e Oliveira

Em 25 de fevereiro de 1739, Domingos de Aguiar teve sua falência decretada, ocasião em que seus bens foram sequestrados em razão de dívida contraída com Mateus Luís das Chagas (Araújo, 2005, p. 170). Poucos dias antes, em 19 de fevereiro, Nicolau Peixoto solicitara uma cópia da escritura de doação, alegando que "não estava assignado na dita escriptura mas fizera a duação na forma dita e que não se achou presente ao fazer da dita escriptura(Araújo, 1967, p. 32). É plausível supor que buscasse assegurar a regularidade jurídica do patrimônio da capela, evitando que os litígios envolvendo o vizinho atingissem os bens da instituição religiosa.

Pouco mais de oito anos depois, em maio de 1747, Domingos faleceu, deixando viúva grávida de sua única filha, que acabaria órfã logo após nascer (Araújo, 2005, p. 159, 224). Seu inventário foi realizado em 2 de julho de 1749, na Fazenda Tucunduba, propriedade de Manoel Ferreira Fonteles, perante o Juiz de Órfãos Barnabé Vieira Coelho e o escrivão Manoel Matos Pessoa (Araújo, 2005, p. 235).

Não dispomos de mais detalhes sobre o que motivou a derrocada financeira de Domingos de Aguiar Oliveira. Entretanto, sabendo que sua riqueza advinha em grande parte da criação de gado, pode-se especular que os motivos da inadimplência estivessem ligados a problemas com a pecuária. Segundo o historiador Joaquim Alves, a primeira metade do século XVIII foi marcado por grandes secas, que se asseveraram, entre outros, nos biênios de 1736-1737 e 1745-1746 (Alves, 1953, p. 31). Portanto, não seria estranho imaginar que as perdas de rebanho causadas por esses eventos climáticos tenham colaborado para dilapidar o patrimônio do sesmeiro. Corrobora com isso o fato de Domingos ter morrido da serra dos cocos (atual Ipu), uma refúgio natural para o rebanho durante as estiagens.

A Divisão da Sesmaria

Não se sabe exatamente em que momento — se antes ou após sua morte — mas as terras da sesmaria de Domingos de Aguiar passaram para sua irmã, Maria Madalena de Sá e Oliveira, e para o marido desta, Manoel Vaz Carrasco, pais das chamadas Sete Irmãs. Alguns anos antes da morte de Domingos, o casal já havia se estabelecido na Fazenda Lagoa Seca, situada dentro da antiga sesmaria. O nome da propriedade se refere a outro corpo d'agua, desta vez temporário, que também dá nome a uma localidade situada onde se supõe ter sido a sede da antiga fazenda. 

Após a morte de Carrasco, em 23 de novembro de 1753, Madalena vendeu parte dessas terras a seu genro, José de Araújo Costa, conforme consta em seu inventário, lavrado em 25 de setembro de 1792:

Hum quanto de terra de comprido, nas margens do rio Acaraú, com uma légua de largo, tudo da parte do nascente, de criar gado, pegando seu cumprimeénto das testadas das terras da Lagoa Grande, até extremar com terras da Fazenda Tapera que houve por compra à defunta sua sogra Dona Madalena de Sá e Oliveira, como constada escritura que apresentou passada pelo tabelião Antônio Carlos da Cunha, avaliado em 100$000 (cem mil réis). (Araújo, 2000, p. 161-162).

Também derivado da sesmaria de Domingos de Aguiar de Oliveira foi o Sítio Malassombrado, entregue como dote de casamento de Ana Maria de Vasconcelos, a sétima irmã, com Miguel do Prado Leão, filho de Cosme do Prado Leão e Luzia da Assunção de Oliveira, a 1º de novembro de 1753. Em seu inventário, feito em 9 de julho de 1771, consta um quarto de légua de terra chamado Malassombrado, entre a Lagoa Seca e a Lagoa do Mato, avaliado em cem mil reis” (Araújo, 2005, p. 48, 355). Uma hipótese para esse topônimo inusitado é a existência de uma cruzinha na estrada que passa pela localidade, possivelmente indicando o túmulo de algum retirante das secas que teria sucumbido no local (Aurélio, 2024, p. 113).

O restante da Lagoa Seca, aqui entendida num sentido amplo, abrangendo todas as terras da sesmaria original, teria sido herdada ou recebida como dote por Maria Madalena de Sá, terceira das Sete Irmãs. Essa hipótese decorre de seu testamento, lavrado em 16 de março de 1743, no qual declarou possuir “dous citios de terra a saber huma legoa chamada Curral Grande e meya na Alagoa Sêca todos nesta Ribeyra do Acaracu” (Araújo, 2005, p. 201).

Maria Madalena casou-se em 20 de setembro de 1738 com o então coronel Francisco Ferreira da Ponte e Silva, com quem teve ao menos quatro filhos conhecidos, entre eles Pedro Ferreira da Ponte, batizado em 5 de junho de 1741. Tudo indica que Pedro herdou as terras maternas e posteriormente também as vendeu ao seu tio, capitão José de Araújo Costa. O inventário deste último menciona:

Meia légua de terra, de criar gado, de comprido, com meia de largo, nas margens do rio Acaraú, tudo da parte do poente, denominada Santa Cruz, cuja terra houve por compra ao Sargento-mor Pedro Ferreira da Ponte, como consta da escritura, que apresentou, passada pelo tabelião Antônio Carlos da Cunha, a qual pega o seu comprimento da esquina da Igreja Velha de Santa Cruz para baixo até o marco da lagoa do Mato, avaliada em 300$000 (trezentos mil réis) (Araújo, 2000, p. 161-162).

Aqui abro um parêntese para ressaltar um fato curioso, a menção a "Igreja Velha" sugere que a essa época, 1792, um novo templo já havia sido erguido na região em outro lugar, possivelmente já na localização atual. Mas isso parece contradizer a tradição, segundo a qual a mudança teria sido capitaneada por Frei Vidal da Penha, que esteve no Ceará apenas quatro anos depois, em 1796 (Araújo, 1967, p. 27).

Lagoa Seca ou Santa Cruz?

Para reforçar a hipótese de que Lagoa Seca era a denominação de todas essas terras da antiga sesmaria, recorre-se a Publicação Estudo do Remanejamento da Pecuária na Zona Norte do Ceará, que compila declarações feitas à Câmara de Sobral no ano de 1788. Nessa relação, o já mencionado Capitão José de Araújo Costa declarou possuir a Fazenda Lagoa Seca, com a seguinte descrição:

Duas léguas de terra na fazenda do dito rio Acaraú de comprido por uma outra parte do dito rio com légua de largo para cada banda que principia nas testadas das terras do patrimônio de Nossa Senhora da Conceição da capela da Santa Cruz e finda nas testadas dos herdeiros da defunta Dona Ana de Vasconcelos (Frota, 1974b, p. 108).

Nessa época, quatro anos antes da realização do inventário do Capitão, é provável que a fazenda já tivesse a mesma dimensão declarada. A citada D. Ana de Vasconcelos refere-se provavelmente a esposa de Manoel Pereira de Vasconcelos, filho primogênito de Manoel Carlos de Vasconcelos e Joana Correia da Silva, proprietários da Fazenda Cruz. Seu nome de solteira era Anna Maria da Conceição, sendo neta do Coronel João Vieira Passos, que fora proprietário da Fazenda Tapera.

O "Novo" Sítio Santa Cruz

A partir desse ponto, a documentação se torna fragmentária. Mais de 60 anos separam o inventário de José de Araújo Costa das informações posteriores sobre a posse do antigo Sítio Santa Cruz. Com base na cartografia atual é possível identificar que a área correspondente à antiga propriedade — meia légua a partir da antiga igreja de Bela Cruz, situada no Alto da Genoveva — abrange as localidades de Timbira e Tabubas. Segundo o pesquisador Marcos Aurélio, o topônimo Timbira ou Tibira, é uma expressão utilizada para denominar vacas leiteiras de baixa produção (Aurélio, 2012, p. 42). Já Tabuba é o nome popular de uma planta aquática comum em áreas de brejo ou ainda, do tupy, água que desagua nas pedras.

Localização aproximada do "Novo" Sitio Santa Cruz (roxo) em 1792.

No livro de registro de terras da Freguesia da Barra do Acaraú, levantamento realizado entre os anos de 1855 e 1857, constam proprietários dessa região, Manoel de Araújo Costa, casado com Luduvina Jesuína de Araújo Costa, filho e neta do Capitão Diogo Lopes de Araújo Costa, filho de José de Araújo Costa; e Francisco Joaquim da Silveira [1]. Portanto, deduz-se que ao menos parte das terras de Santa Cruz foram herdadas pelo Capitão Diogo Lopes, que a repartiu entre seus herdeiros.

O Capitão foi uma figura ilustre na região, residindo na Lagoa do Mato, onde atuava como médico prático. Também foi uma liderança comunitária, tendo sido eleito vereador da Câmara de Sobral, caminho seguido por vários de seus filhos. Confirmando essa hipótese, em 18 de junho de 1817, Diogo Lopes recebeu uma sesmaria no Riacho da Prata, justaposta a suas terras, tendo como confrontantes "[...] pela parte do nascente, com terras da Cruz, Lagoa Seca e Malassombrado, de Francisco Antônio Linhares, do mesmo Termo de Sobral e com a dita Lagoa do Mato do suplicante" (Sesmarias Vol. 13, p. 325).

O supramencionado Francisco Antônio Linhares, assim como sua mulher e prima legítima, Maria Manuela da Conceição Uchoa, eram netos de Manoel Vaz Carrasco, filhos de Inês Madeira de Vasconcelos (4ª irmã) e Rosa de Sá e Oliveira (5ª irmã), respectivamente. Aparentemente, elas também receberam terras da Lagoa Seca e Malassombrado, as quais foram transmitidas aos seus descendentes. No levantamento de 1855, constam como donos dessas terras, além de descendentes do Capitão Diogo Lopes (Manoel de Araújo Costa Junior e Estêvão Ribeiro de Araújo Costa), o Capitão Inácio Gomes Parente, genro de José de Araújo Costa. Aparecem ainda como proprietários, Antônio Alves da Rocha (Malassombrado) e Antônio Ferreira da Rocha (Lagoa Seca).


Século XX

Ademais, consultando os nomes dos antigos proprietários dessas localidades no censo agropecuário de 1920, conclui-se que nessa época a Timbira pertencia a família Fonteles (João Batista Fonteles [tio] e Emílio Fonteles da Silveira [sobrinho]) e Tabubas a família Leitão (João Facundo Leitão [pai], Francisco Álvaro Leitão [filho], Modesto Euclides Leitão [filho] e Manoel Zacharias Adriano [genro], casado com Maria Luiza Leitão). No mesmo censo, consta também propriedades que preservam o nome Santa Cruz, pertencentes a família Silveira (João Batista Silveira e Manoel Pereira da Silveira), intimamente relacionada a família Fonteles.

O estudo genealógico dessas famílias conduz, invariavelmente, à figura de Pedro de Araújo Costa, irmão do capitão José de Araújo Costa. Os Fonteles descendiam de Miguel Ferreira Fonteles e Ana Joaquina da Silveira, neta de Pedro de Araújo; os Leitão, por sua vez, descendiam de João Facundo Leitão e Maria do Carmo de Araújo, bisneto e trineta do mesmo personagem. Dessa forma, tudo indica que outra parte do antigo Sítio Santa Cruz acabou transferida para Pedro de Araújo Costa, sendo posteriormente fragmentada entre seus descendentes ao longo das gerações.

Diego Carneiro

27 de maio de 2026 

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A História do Sítio Santa Cruz. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 27 de maio de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/05/a-historia-do-sitio-santa-cruz.html

Referências

ALVES, Joaquim. História das secas (séculos XVII a XIX). Edições do Instituto do Ceará, 1953.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

ARAÚJO, Nicodemos. Santa Cruz do Acarahú. Acaraú, 1935.

ARAÚJO, Nicodemos. Bela Cruz: De Prédio Rústico a Cidade. Edições A Fortaleza. Fortaleza, 1967.

AURÉLIO, Marcos. Bela Cruz: Seus Incríveis Topônimos. Bela Cruz: Gráfica Nova Cruz, 2012.

AURÉLIO, Marcos. Aureliando: A Enciclopédia Regional. Bela Cruz: FMR Publicações, 2024.

CAVALCANTE, José Vicente Franca. Notas para a História de Sobral. Revista do Instituto do Ceará, v. 23, p. 160-78, 1909.

FROTA, D. José Tupinambá da Frota. História de Sobral. Fortaleza: Editora Henriqueta Galeno, 1974.

FROTA, Luciara S. Aragão (Org). Estudo sobre o Remanejamento da Pecuária na Zona Norte do Ceará. Fortaleza: SUDEC, 1974b, 2 volumes.

[1] Livro de Registro de terras da Barra do Acaracú (1855 a 1857). Fundo: Vigários das Freguesias do Ceará. Livro 01. Registro nº 695. Caixa 01. Arquivo Público do Estado do Ceará (APEC).