Manoel de Góes e seus Companheiros

Ilustração da jornada de Manoel Góes e seus companheiros até o Rio Acaraú

Segundo Pe. Sadoc Araújo, no dia 20 de setembro de 1683 foram concedidas pelo Capitão-mor Bento de Macedo, as primeiras sesmarias na Ribeira do Acaraú aos requerentes Manoel de Góes, seu irmão Fernando Góes e mais cinco companheiros, a saber: Francisco Pereira Lima, Manuel de Almeida Arruda, Pe. Amaro Fernandes de Abreu, Estevão de Figueiredo e Simão de Góes de Vasconcelos, este último filho de Manoel de Góes, todos moradores da Capitania de Pernambuco (Araújo, 2005, p.55). 

As sesmarias consistiam em três léguas (19,8 km) de terra para cada um pelo Rio Acaraú acima, perfazendo o total vinte e uma léguas (138,6 km), por duas léguas (13,2 km) de largura, estendendo-se do litoral até o local onde foi edificada povoação do Riacho dos Guimarães, hoje o município de Groaíras (Linhares, 1922, p. 254-293).

Sobre Manoel de Góes de Figueredo, sabe-se que era pernambucano, nascido por volta do ano de 1660, tendo, portanto, pouco mais de vinte anos na época de sua solicitação de sesmaria na Ribeira do Acaraú. Tratava-se de um homem rico e grande pecuarista, visto que na solicitação das sesmarias, datada do ano anterior, 1682, ele e seus companheiros alegaram não haver terras na Capitania de Pernambuco próprias para a criação da quantidade de gado de que dispunham, o que os teria motivado a buscar algum local onde pudessem desenvolver essa atividade. O mesmo argumento foi utilizado em outras solicitações de terras realizadas por ele, como a que fez, dois anos antes, em 15 de maio de 1680.

Em um outro pedido, datado de 28 de abril de 1708, Manoel de Góes afirma ter povoado a suas custas, com seus gados e escravos, as terras que descobrira na Ribeira do Jaguaribe e ter ajudado a reconstruir o Forte São Francisco Xavier. Na mesma solicitação, informou possuir cabedais para povoar as dez léguas de terras requeridas, sendo que somente ele possuía dez currais de gado bem providos (Documento Histórica Pernambucana, Sesmarias Vol. 1, 1954, p. 161).

Também era um homem religioso, tendo adquirido a Capela do Capítulo do Convento de Santo Antônio do Recife para servir de sepultura para sua família. Ademais, em 1704, determinou em testamento a doação de quantias significativas aos franciscanos, garantindo a celebração diária de missas em sua memória e vinculando o rendimento de uma de suas casas à manutenção desse compromisso, sob a administração de seu filho, o Coronel Simão de Góes de Vasconcelos (Jaboatão, 1859, p. 452).


Convento de Santo Antônio do Recife (esquerda), em 1640, por Frans Post.

Conforme a solicitação da sesmaria de 1682, teriam conduzido o gado pela distância de duzentas léguas (1.320 km), enfrentando matas fechadas e terras de tapuias selvagens. Originalmente, eles planejavam se instalar na capitania do Maranhão, quando se depararam com o Rio Acaraú, o qual consideraram propício para o desenvolvimento da pecuária (Cfr. Sesmaria, vol. 1, p. 90).

A lei vigente à época determinava o prazo de cinco anos para a efetiva ocupação das terras concedidas, após o qual as Sesmarias seriam prescritas. Dos sete solicitantes, inicialmente apenas dois, de fato, teriam efetivado a ocupação, perfazendo a distância de seis léguas (39,6 km) a partir do mar, onde foi fixado o marco de limites, formado por três pedras empilhadas. Daí surgiu o nome Marco dado à cidade de São Manuel, nas margens do rio (Araújo, 2005, p.56).

Padre Sadoc, como relata em seu livro História da Cultura Sobralense, afirma não ter encontrado nos termos de batismo, casamento ou óbito do Curato de Acaraú, cujos livros registram dados desde 1725, menção a Francisco Pereira Lima, Manuel de Almeida Arruda e Estevão de Figueiredo, o que o levou a concluir que os mesmos não chegaram a tomar posse de suas sesmarias. O mesmo vale para o Pe. Amaro Fernandes de Abreu, provido na igreja de Nossa Senhora da Assunção de Fortaleza em 1863 (Araújo, 1978, p. 22). Portanto, é provável que apenas os irmãos Manoel e Francisco Góes e Simão, filho de Manoel, tenham vindo reivindicar suas sesmarias, sendo que uma delas não foi de fato ocupada.

Em 1709 foram feitos tombamentos das sesmarias concedidas no Ceará. No Acaraú foram medidas as nove léguas chamadas dos Góes, em substituição às vinte e uma concedidas em 1683, e que na sua maior parte não tinham sido ocupadas por aqueles primeiros sesmeiros, mas por outros posteriores que alegavam estarem devolutas. Houve resistência por parte dos interessados, pelo que uma Ordem Régia datada de dezembro de 1710 autorizava ao Ouvidor Reimão sufocar os descontentes (Araújo, 2005, p.91).

Sobre isso, o memorialista Nicodemos Araújo nos conta como teria se dado a medição dessas terras:

(...) o sesmeiro Dr. [Manoel] Góes, recebendo autorização para medir o imóvel requerido, montou um cavalo bom estradeiro e partiu do "Marco do Guarda", em rumo do sul. Adiantam que esse cidadão conduziu à mão um relógio de tábua, e, ao fim de cada hora decorrida, marcava uma légua (6,6 km), até que a sesmaria de nove légua (59,4 km) que lhe fora concedida, foi terminar no lugar "Pau Ferrado", hoje pertencente ao município de Santana do Acaraú (Araújo, 1967, p.15).

O “Marco do Guarda” provavelmente remete a atual localidade de nome Guarda, na divisa dos municípios de Cruz e Bela Cruz. Assim, depreende-se desse relato que essa porção de nove léguas (59,4 km) corresponderia ao quinhão total dos três sesmeiros na nova medição.

Corrobora com isso o fato de D. Mariinha de Araújo Vasconcelos, mulher de Manoel de Góes, ter residido em uma fazenda de nome Vaca Seca, onde faleceu em 5 de janeiro de 1763. A dita Fazenda ficava localizada na margem direita do Rio Acaraú (Araújo, 2005, p. 45, 345). No mesmo sentido, em alguns documentos antigos, Manoel de Góes aparece como morador no Sitio dos Tucuns, na Ribeira do Acaraú (De Souza e Duque, 2018, p. 18).

Buscando localizar a propriedade, verificou-se que existe uma localidade chamada Tucuns em Santana do Acaraú, distante cerca de 4 km a direita do Rio Acaraú, na altura do distrito de Parapuí, portanto, dentro dos limites da sesmaria de Manoel Góes. Na mesma direção, ainda perpendicular ao rio, 24 km a diante, já no município de Senador Sá, existe uma lagoa de nome Vaca Seca. Finalmente, verificou-se existirem no cadastro do IDACE, datado do ano de 2014, propriedades denominadas Tucuns e Vaca Seca no município de Santana do Acaraú.

Localização estimada da Sesmaria de Manoel de Góes após o tombamento e da Fazenda Tucuns.

Portanto, é provável que Manoel Góes tenha se estabelecido no extremo sul de sua sesmaria, onde fundou a referida fazenda. Contudo, mesmo com essa segunda medição, várias porções das terras solicitadas inicialmente e não ocupadas já haviam sido concedidas a outros sesmeiros.


Descendência de Manoel Góes de Vasconcelos e Maria de Araújo Vasconcelos

1. Simão de Góes de Vasconcelos, nascido em Pernambuco, c.c. Feliciana Soares da Costa, dividiu sesmarias com o pai no Ceará e no Rio Grande do Norte.

2. Leonarda de Sá e Vasconcelos, nascida em Pernambuco, c.c. Marcos da Costa em 8 de maio de 1740.

3. Pascoal Leitão de Abreu, cearense, c.c. Sebastiana Saraiva, filha do Cel. Sebastião de Sá Barroso e Madalena Saraiva.

4. Fernando Dias de Ataíde, cearense, c.c. Apolinaria Fernandes em 24 de fevereiro de 1747, filha de João Fernandes Neto e Maria Fiesca.

5. Inês de Araújo Vasconcelos, nascida em Pernambuco, c.c. Sargento-Mor Antonio de Sá Barroso em 9 de fevereiro de 1733, filho do Cel. Leonardo Ribeiro de Sá, residentes na Fazenda Curral Grande em Santana do Acaraú.

Diego Carneiro

08 de outubro de 2025


Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. Manoel Góes e seus Companheiros. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 08 de outubro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/07/manoel-goes-e-seus-companheiros.html

Referências

ARAÚJO, Nicodemos. Bela Cruz: de prédio rústico a cidade, 1730-1967. Edições A Fortaleza, 1967.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

JABOATÃO, Antônio de Santa Maria. Novo orbe serafico brasilico ou Chronica dos frades Menores da provincia do Brasil. Typ. brasiliense de M. Gomes Ribeiro, 1859.

LINHARES, Fortunato Alves, Pe. Notas históricas da cidade de Sobral. Revista do Instituto do Ceará, ANNO XXXVI, 1922.

DE SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues; DUQUE, Adauto Neto Fonseca. As Disputas Políticas na Ribeira do Acaraú em torno da Morte e dos Bens do Coronel Sebastião Pinheiro Raposo (1720-1737). Revista Historiar, v. 10, n. 19, p. 5-32, 2018.

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