Em 28 de novembro de 1736 foi concedida pelo Capitão-mor Domingos Simões Jordão, a Antônio Correia Peixoto uma sesmaria de três léguas (19,8 km) de comprimento, por meia de largura, entre a barra do rio Acaraú e lagamar do Uruanahu (atual Aranaú), margeando a costa, indo ao encontro do Córrego do Falcão (Sesmarias, Vol. 13, nº 61, p. 122). Essa propriedade está compreendida nos atuais municípios de Cruz e Acaraú.
Sobre Antônio Correia Peixoto, sabe-se que nasceu no ano de 1685, “nas partes” de Portugal, tendo migrado para o Ceará provavelmente em meados da segunda década do século XVIII, tendo se casado com a cearense Maria da Silva Moraes, filha de Manoel da Costa Resplandes e de Maria José da Conceição, por volta de 1718. Em função do sobrenome, é provável que tenha algum grau de parentesco com os também sesmeiros Antônio da Costa Peixoto e seu filho, Nicolau da Costa Peixoto.
No Ceará, Antônio teve relevante atuação política nos primórdios da capitania, tendo sido eleito em 1723 como vereador da Câmara de Aquiraz, tomando posse a 6 de janeiro do ano seguinte (Pinheiro, 2008, p. 102). Atuou também como Juiz ordinário da Câmara de Fortaleza no ano de 1740 (Studart, 1896, p. 205).
Ocupava-se também da criação de gado, como muitos no seu tempo. Na petição de sua sesmaria, Antônio afirma que, sendo morador da Capitania do Ceará Grande, não possui terras para criar seus gados "vacuns e cavalares", e dessa forma solicita as terras nas ilhargas do Sítio Timbaúba, do Comissário geral Domingos de Aguiar [Oliveira], que se achavam devolutas (Sesmarias, Vol. 13, nº 61, p. 122).
Além das terras que obteve como sesmaria, Antônio adquiriu a um terço da já mencionada Fazenda Timbaúba, de Domingos de Aguiar Oliveira (Souza, 2015, p. 123). Assim, consta em seu inventário três quartos de légua de terra referente a essa fazenda, com casas de palha e coqueiros, avaliadas em 100$000 réis, além de três léguas de terra no Córrego do Falcão, avaliadas em 40$000 réis. Consta ainda a posse de 50 vacas parideiras, 25 novilhos, 25 garrotes, 25 bezerros, 40 bois, 12 novilhos, 38 garrotes e 25 bezerros, todos avaliados em 257$060 réis; bem como 7 burros, 8 poldros, 13 poldras, 3 poldrinhos, 3 cavalos mansos e 2 cavalos brabos, avaliados em 74$840 réis.
A partir dessa descrição foi possível traçar a localização aproximada das terras da Fazenda Timbaúba, como pode ser visto na figura abaixo.
Homem branco, Antônio Correia Peixoto faleceu a 28 de abril de 1755, com idade de 70 anos, pouco mais ou menos, com todos os sacramentos, sem deixar testamento, tendo sido sepultado na Capela da Santa Cruz, atual Bela Cruz (Lima, 2016, p. 114).
Além dos bens já citados, o inventário de Antônio Peixoto revela ainda o emprego de mão de obra escravizada em sua propriedade, constando ao todo sete cativos:
- Matias, negro de Angola, já de idade avançada e com limitações físicas, avaliado em 70$000;
- José, também de Angola e de idade avançada, avaliado em 60$000;
- Maria, também de Angola e ainda nova, avaliada em 60$000;
- Margarida, já idosa, avaliada em 15$000;
- João, mestiço, ainda jovem, avaliado em 65$000;
- Batião, mesticinho, avaliado em 45$000
- Antônia, mestiça, filha da referida tapuia, avaliada em 40$000.
Conforme o professor Raimundo de Souza, o escravo José era casado com Margarida, a tapuia mencionada, cuja etnia específica não foi identificada nos documentos. Os mesticinhos, ao que tudo indica, seriam, portanto, filhos do casal e provavelmente nasceram na Fazenda Timbaúba (Souza, 2015, p. 125).
Origem do sobrenome Correia
O sobrenome Correia, de origem ibérica antiga, pode ter vindo de um topônimo ou do latim corrigia (tira de couro, cinto, cadarço), relacionado a artesãos e comerciantes desses objetos. A forma primitiva era Corrêa/Correa, mas Correia se tornou a mais comum. Seu ramo mais antigo conhecido remonta ao cavaleiro português dom Paio Ramires, senhor de Farelães, em Braga, e a seu filho dom Soeiro Paes Corrêa, no século XI. Entre os descendentes notáveis estão Diogo Fernandes Corrêa, feitor nos Flandres e agraciado com brasão de armas em 1488, e Antônio Corrêa (1488–1566), combatente nas Índias e contra o rei do Barein, que recebeu brasão em 1540. Seu pai, Aires Corrêa, participou da frota de Pedro Álvares Cabral em 1500.
No Brasil, o sobrenome Correia aparece a partir do período colonial, ligado a figuras de destaque no Rio de Janeiro do século XVII, como Salvador Correia de Sá, o Velho, Martim Correia de Sá e Salvador Correia de Sá e Benevides. Embora raro entre cristãos-novos, houve registros de portadores no século XVIII, como Diogo e Francisco Correa, denunciados à Inquisição em Minas Gerais (1729), e Francisco Correa, morador do Rio (1723). Outro caso emblemático foi o de João Correa Ximenes, judeu, tabelião e senhor de engenho no Rio, condenado em 1713 ao hábito e cárcere perpétuo pelo Santo Ofício, mesmo após ser resgatado de um convento carioca pela Coroa quando fora capturado pelo corsário francês René Duguay-Trouin.
Sobre o sobrenome Peixoto, ver Nicolau da Costa Peixoto.
Descendência de Antônio Correia Peixoto (Lima, 2016, p. 114)
1. Joana Correia da Silva casou-se a 05 de outubro de 1735, no Sítio Castelhano, com Manoel Carlos de Vasconcelos, n. Basto, Cabeceiras de Basto, Braga, filho de Carlos Manoel de Vasconcelos e de Antônia Maria Luíza, ambos de Braga.
Segundo Nicodemos Araújo, em 1760 foi confirmada uma data de sesmaria para Joana, possivelmente uma extensão da do seu pai, medindo 2 léguas e compreendida desde o Marco do Guarda, na divisa entre os atuais municípios de Cruz e Bela Cruz, até a Porteira Velha, já na orla marítima (Araújo, 1971, p. 51).
2. Maria Correia da Silva casou-se a 31 de outubro de 1747, no Sítio da Timbaúba, Freguesia de Sobral, com Manoel de Moraes Valcacer, n. no ano de 1709, em João Pessoa, Paraíba, morador na Várzea Feia, Freguesia de Sobral, filho de Gregório Valcacer e de Domingas da Costa. Testemunhas, João Carneiro da Costa e Mateus Mendes Vasconcelos.
3. Custódia Correia casou-se a 14 de setembro de 1767, de manhã, na Capela da Beruoca, Capela da Meruoca, com José Pereira de Almeida nasceu na Freguesia de São Sebastião, Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores, filho de Matias Pereira e de Ana Mariana Durão, naturais da citada Freguesia de São Sebastião. O Padre João Salvador de Aranda realizou o casamento, e foram testemunhas, o Capitão Manoel José do Monte e Pedro de Moraes Valcacer.
4. Margarida Correia da Silva, natural da Freguesia da Fortaleza. Casou-se a 07 de janeiro de 1778, de manhã, na Capela da Meruoca, com Domingos da Costa Teixeira, natural da Freguesia de Monte Mor de Mamanguape, Paraíba, filho de Gregório Valcacer de Moraes e de Domingas da Costa Teixeira. Presentes, o Padre Frei João Félix de Santa Teresa, as testemunhas, Manoel de Moraes Valcacer, Pedro de Moraes Valcacer, o Ajudante Manoel do Ó Coutinho, casados, e mais pessoas conhecidas.
5. Teresa de Jesus Maria dos Prazeres casou-se a 15 de agosto de 1780, de manhã, na Capela de Santa Cruz, Bela Cruz, Ceará, dispensada no 3º grau de consanguinidade, com José Rodrigues Resplandes, filho de Sebastião Barbosa de Moraes e de Ana de Santiago, naturais da Fortaleza do Ceará.
6. Joaquim, batizado a 04 de junho de 1727, em casa, na Freguesia de Fortaleza, pelo Padre Alexandre da Fonseca. Padrinhos, Domingos Francisco e Leonarda Correia.
7. Manoel Antônio Correia natural da Freguesia do Forte, Fortaleza. Casou-se com Isabel Maria, n. na Freguesia da Amontada, filha de Manoel de Moura Vasconcelos, da Amontada, e de Helena Gomes Linhares, Acaraú. Neta paterna de José de Moura Negrão e de Ana de Jesus. Neta materna de Aurélio Gomes Linhares e de Maria de Brito Freire.
Diego Carneiro
27 de agosto de 2025
ARAÚJO, Nicodemos. Município de Acaraú, Notas para sua história. Acaraú, 1971.
LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 4 volumes, 2016.
SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues de. Minha riqueza é fruto do meu trabalho: negros de cabedais no Sertão do Acaraú (1709-1822). 2015.
STUDART, Guilherme Studart. Datas e factos para a história do Ceará. Typographia Studart, 1896.
Inventário post-mortem de Antônio Correia Peixoto, 1755, caixa 07. NEDHIS/UVA.
Perfil de Antônio Correia Peixoto no FamilySearch. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/details/KLBD-NNZ


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