A Formação da Freguesia de Acaraú

Para compreender como se deu a formação do atual Município de Acaraú, é importante saber que o rio que dá nome à cidade, após um percurso de 320 km, alcança o mar por dois braços, Cacimbas e Mosqueiro, formando um pequeno delta, cuja bifurcação ocorre a cerca de 6 km do litoral (Braga, 1964, p. 31). Essa configuração no litoral de Acaraú já é conhecida desde os primórdios da colonização portuguesa, figurando em mapas e cartas náuticas desde o início do século XVI.

A versão mais aceita para o topônimo Acaraú é a de que signifique "Rio das Garças", o que se justificaria pela presença da grande quantidade dessas aves no litoral e nas gamboas da região (Araújo, 1971, p. 14). Em livros e documentos antigos, esse topônimo assume variações como Caracú, Acaracú, Acarauh, entre outras. A adoção oficial do nome Acaraú se deu apenas em 1879. Segundo o historiador Renato Braga, isso teria acontecido para evitar que, nas correspondências endereçadas à localidade, a estampa de D. Pedro II viesse acompanhada do antigo nome, Acaracú, o que poderia soar desrespeitoso ao Imperador (Braga, 1964, p. 14).

Originalmente, as terras do litoral de Acaraú eram habitadas por índios da etnia Tremembé, que foram, em sua grande maioria, aldeados no início do século XVIII na Missão do Acarati-Mirim. No que se refere ao povoamento por europeus, uma hipótese é a de que teria ocorrido inicialmente por pescadores vindos do Sul, atraídos pela fartura dos bancos pesqueiros. Estes teriam primeiro se estabelecido na localidade Ponta do Presídio e depois migrado mais para o interior do delta do rio, onde hoje se ergue a cidade (Studart, 2010, p. 301).

Essa opinião provavelmente foi influenciada pelo fato de a atividade pesqueira ser atualmente forte na região, além de uma interpretação alternativa do próprio topônimo Acaraú, que poderia significar "Rio dos Peixes Grandes". Entretanto, essa versão é contestada por Nicodemos Araújo, segundo o qual o litoral e as praias da região não são naturalmente propícios para a pesca tradicional, tendo esta se intensificado apenas após a adoção dos currais (Araújo, 1971, p. 34).

Portanto, podemos concluir que, embora seja plausível alguma presença de homens brancos atraídos pela atividade pesqueira, esse vetor foi minoritário na ocupação da região, que se intensificou apenas com a vinda dos criadores de gado, que povoaram a Ribeira do Acaraú no fim do século XVII e início do XVIII. Nesse sentido, as sesmarias concedidas na região, voltadas para a criação de gado, foram:

  • 1683 – Rio Acaraú – Manoel de Góes;
  • 1705 – Jacoca / Rio Acaraú – Cel. João Pereira Veras;
  • 1710 – Entre Acaraú e Aracati-Mirim – Amador Correia de Oliveira e Agostinho da Cruz (não efetivada);
  • 1716 – Lagoa da Água das Velhas – João de Sá;
  • 1735 – Água das Velhas – Ten.-Cel. José Bernardo Uchoa e Manoel da Guarda Monteiro; 
  • 1735 – Entre Aracati-Mirim e Acaraú – Ten.-Cel. José Bernardo Uchoa e Manoel da Guarda Monteiro;
  • 1736 – Rio Acaraú ao Córrego do Falcão – Antônio Correia Peixoto;
  • 1737 – Córrego do Tanque ao Castelhano – Ten.-Cel. Manoel Barbosa de Morais; 
  • 1760 – Marco do Guarda à Porteira Velha – Joana Correia da Silva;
  • 1817 – Cruz / Castelhano / Timbaúba / Lagoa do Mato – Cap. Diogo Lopes de Araújo Costa; 
  • 1823 – Fazenda Tapera (Ribeira do Acaraú) – Francisco Antônio Linhares.

Esse núcleo inicial, assentado na Barra do Acaraú, viveu anonimamente por certo tempo, até que se instalou no Cacimbas um ancoradouro para as embarcações que transitavam pelo rio, acessível apenas a barcos pequenos, a depender do regime das marés (Braga, 1964, p. 40). Esse local passou então a ser conhecido como "Porto dos Barcos" e chegou a ter certa relevância em função do serviço de cabotagem de mercadorias entre a região e as demais capitanias.

Segundo Nicodemos Araújo, as primeiras habitações construídas na sede de Acaraú foram erguidas no limiar do século XVIII, inicialmente no atual bairro "Outra Banda", em função da proximidade do rio e para "atender às frequentes visitas de barcos de pequeno calado que chegavam até ali, nas marés de preamar, em serviço de cabotagem" (Araújo, 1971, p. 48). Diferentemente de outros municípios da região, a aglomeração urbana precedeu a instalação da capela, o que só foi feito algum tempo depois. Ao que parece, em 1724 já havia casas o bastante para a localidade ser caracterizada como um povoado.

Uma explicação para tanto é que, nessa época, a maior aglomeração populacional da região se dava no atual distrito de Almofala, distante 33 km de Acaraú, então sede da Missão do Aracati-Mirim, onde foi erguida a primeira capela de toda a Ribeira, em 1712. Em outra localidade um pouco mais próxima, no Sítio Santa Cruz, atual Bela Cruz, também foi erguida uma capela já no início do século XVIII, em 1732. Portanto, pode-se deduzir que esses templos eram frequentados pelos primeiros moradores do primitivo povoado.

Apenas em 1748, por influência do Pe. Agostinho de Castro Moura, então dirigente da Missão de Almofala, teria sido escolhido o terreno para a construção da primeira capela, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, no mesmo local onde hoje se ergue a Igreja Matriz da Paróquia de Acaraú (Araújo, 1971, p. 49). Seu patrimônio, constituído muitos anos depois, consistiu em uma légua de terra doada em 1806 por José Monteiro Melo.

Como explicamos em outras postagens, a criação dos templos representava não apenas um avanço no sentido religioso, mas também no sentido civil, uma vez que, enquanto colônia, as divisões administrativas e eclesiásticas se confundiam, sendo este o primeiro passo para pleitear uma emancipação no futuro. Além disso, os terrenos doados para constituir o patrimônio da igreja eram arrendados para foreiros, que erguiam residências, levando a um maior adensamento populacional.

Ao longo da segunda metade do século XVIII, intensificou-se a atividade de charqueamento na Ribeira do Acaraú, levando à instalação de oficinas de beneficiamento de carne próximo ao porto fluvial (Brasil, 1972, p. 111). Nelas, os animais eram abatidos e sua carne preparada em mantas, as quais eram salgadas e secas. Além da carne, aproveitava-se o couro, que era igualmente seco ao sol, e o sebo, moldado em blocos (Anais da Biblioteca Pública Pelotense, v. 2, p. 106).

Dali, essas mercadorias eram embarcadas em sumacas com destino aos principais portos da Colônia, sobretudo Pernambuco, dos quais traziam pratarias, porcelanas, cristais, móveis de jacarandá e outros objetos raros (Girão, 1984, p. 117). Esse movimento impactou de tal maneira a vida econômica do povoamento, que o mesmo passou a ser conhecido pelo topônimo "Oficinas". Esse ciclo econômico atingiu o seu auge no final do século XVIII, quando foi bruscamente interrompido pela Grande Seca de 1790 a 1793, que devastou os rebanhos da região. Entretanto, esse interstício de quarenta anos foi o bastante para acelerar o crescimento do povoado, fazendo-o inclusive rivalizar com Almofala em termos de relevância.

Em 12 de novembro de 1766 havia sido criada a Freguesia de N. S. da Conceição da Almofala, com sede nessa localidade. Nos tempos do padroado, a denominação freguesia era equivalente ao atual bairro, portanto, eclesiasticamente, Acaraú encontrava-se subordinado a Almofala. Ressalta-se que seu crescimento populacional deve ter se dado de forma lenta, visto que Acaraú não aparece no levantamento dos povoados da capitania, realizado em setembro de 1782, pelo Capitão-mor João Batista Montaury, ao contrário de localidades próximas, como Almofala e Amontada (Aragão, 1990, p. 170).

Mas, no dia 21 de setembro de 1799, uma provisão firmada pelo então primeiro presidente da província, Bernardo Manoel de Vasconcelos, elevou a localidade à condição de Distrito dessa freguesia, provavelmente em reconhecimento ao desenvolvimento trazido pelas charqueadas. Em 1816, no relato atribuído a Silva Paulet, a Barra do Acaraú é descrita como um lugarejo com capela (Paulet, 1898, p. 19).

Daí inicia-se uma disputa entre Acaraú e Almofala. Em 5 de setembro de 1832, um Decreto Imperial removeu a sede da Freguesia de Almofala para o povoado Barra do Acaraú, criando assim a Freguesia N. S. da Conceição da Barra do Acaraú em substituição à primeira. No ano seguinte, em 14 de agosto, a Câmara de Sobral já havia deliberado pela criação do Distrito da Barra do Acaraú "compreendendo a Fazenda Boca do Corgo, exclusive, até a pancada do mar e por limites da parte de cima os do distrito de Mutambeira, e da parte de baixo, olhando para o nascente, até contestar com os limites da freguesia da vila da Granja" (Araújo, 2005, p. 246). Na época, Acaraú contava com o razoável montante de 363 casas habitadas.

Entretanto, poucos anos depois, em 10 de setembro de 1838, durante a administração de Manoel Felizardo de Sousa Melo, a freguesia de Acaraú foi desmembrada, restaurando-se a de Almofala, ao mesmo tempo em que se criou a Freguesia de Santana. Esta última estendia-se originalmente até a "Passagem do Urubu", por onde transitavam os carros de Sobral, englobando inclusive a capela de Santa Cruz (Araújo, 1971, p. 86).

Mas em 5 de dezembro de 1842, o então presidente da Província, Brigadeiro José Joaquim Coelho, sancionou uma lei que novamente extinguiu a freguesia de Almofala, restabelecendo a de Acaraú. Nicodemos Araújo conta que, nos bastidores dessa contenda, houve a atuação do Vigário da Freguesia de Acaraú, Pe. Antônio Xavier de Castro e Silva, que havia sido eleito deputado provincial e intercedeu junto ao governador para o restabelecimento do distrito (Araújo, 1971, p. 52).

Inconformados, os moradores de Almofala enviaram, em 1844, um memorial ao presidente da Província solicitando a restauração da freguesia, mas o pedido foi indeferido após o Padre João Francisco Dias Nogueira, vigário de Acaraú, emitir um parecer atestando as condições precárias da capela de Almofala (Araújo, 1981, p. 82). Assim, deu-se por encerrada a hegemonia exercida por Almofala na região, que enfrentou o declínio de sua influência, como já relatamos detalhadamente em outro post.

Apesar do relativo desenvolvimento no século anterior, nessa época a então Barra do Acaraú encontrava-se bastante atrasada em termos de desenvolvimento urbanístico. Conforme relato do historiador Antônio Bezerra, "no ano de 1846, todas as suas casas eram de taipa, inclusive a igreja que lhe servia de Matriz" (Bezerra, 1965, p. 369). Apesar disso, pouco tempo depois, em 1849, pela Lei nº 480, de 31 de julho, a localidade foi elevada à categoria de vila, com o nome de Vila do Acaraú, desmembrada do território do município de Sobral. Sua instalação se deu dois anos depois, no dia 5 de fevereiro de 1851.

Pela Lei nº 631, de 22 de dezembro de 1853, foram redefinidos os limites entre as freguesias de Acaraú e Santana, que passou a ter como divisa o riacho Boca do Córrego, na atual fronteira entre os municípios de Marco — na época São Manuel, pertencente a Santana — e Santa Cruz, atual Bela Cruz, pertencente a Acaraú. Entretanto, nessa época, administrativamente, ambas as freguesias pertenciam ao termo da Vila de Acaraú, sendo que Santana se emanciparia apenas em 1862. A Lei nº 1.814, de 22 de janeiro de 1879, art. 1º, §6º, mudou o nome para o atual Acaraú. Finalmente, em 1882, em função da Lei nº 2.019, de 19 de setembro, a Vila do Acaraú foi elevada à categoria de cidade (Girão, 1983, p. 20).

O território original da Freguesia de Acaraú é a delimitação geográfica desse estudo, sendo que deste originaram-se todos os municípios do que classificamos como Baixo Acaraú.

Diego Carneiro

13 de outubro de 2025

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A Formação da Freguesia de Acaraú. História e Genealogia do Baixo Acaraú
[recurso eletrônico]. Fortaleza, 13 de outubro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/08/a-formacao-da-freguesia-de-acarau.html

Referências

ARAGÃO, Raimundo Batista. História do Ceará - Vol. 1. 3 ed., 1990.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

ARAÚJO, Nicodemos. Almofala e os Tremembés, Fortaleza Secretaria de Cultura e Desporto, 1981.

ARAÚJO, Nicodemos. Município de Acaraú, Notas para sua história. Acaraú, 1971.

BEZERRA, Antônio. Notas de viagem. Imprensa Universitária do Ceará, 1965.

BRAGA, Renato. Dicionário geográfico e histórico do Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1964.

BRASIL, João Pompeu. Sobral: tentativa de interpretação histórica de sua ação polarizadora sobre a região. Revista de Ciências Sociais: RCS, v. 3, n. 2, p. 105-121, 1972.

GIRÃO, Raimundo. Os municípios cearenses e seus distritos. Estado do Ceará, Secretaria de Planejamento e Coordenação, Superintendência do Desenvolvimento do Estado do Ceará, Departamento de Recursos Naturais, 1983.

GIRÃO, Valdelice Carneiro. As oficinas ou charqueadas no Ceará. Secretaria de Cultura e Desporto, 1984.

PAULET, Antônio Silva. Descripção Abreviada da Capitania do Ceará. Revista do Intituto do Ceará, vol. XII, 1898, pp. 05-33.

STUDART,  Barão de. Geographia do Ceará. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2010.

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