A Carnaúba no Vale do Acaraú

Uma das atividades econômicas mais tradicionais dos municípios do Vale do Acaraú é o extrativismo da Carnaúba, um palmeira típica da região. Nela tudo se aproveita, desde a raiz, utilizada na medicina popular, até a palha, de onde se extrai o pó que produz a cera. Essa palha também é amplamente utilizada em trabalhos artesanais, na cobertura de casas humildes e como adubo para as plantas (Araújo, 1971, p. 176). 

Ademais, sua madeira era muito utilizada na confecção de móveis e como vigas e pilares na construção de residências. Trata-se de uma árvore esguia e comprida, podendo chegar a 15 metros de altura e, no máximo, 25 cm de diâmetro, desenvolvendo-se bem em terrenos argilosos e alagadiços, característicos das vazantes do Rio Acaraú.

A carnaúba já era mencionada por escritores e naturalistas há muito tempo. Segundo Humberto de Andrade, sua beleza sempre chamou a atenção dos viajantes: um tronco alto e esguio, coroado por uma copa verde que se abre ao vento, oferecendo um alívio visual em meio à paisagem árida do sertão. Em 1648, os naturalistas Macgrave e Piso já se referiam a essa palmeira como uma planta útil do Brasil (Girão e Martins Filho, 2011, p. 55). 

Quanto a sua catalogação, o botânico Manoel de Arruda Câmara afirmou ter sido o primeiro a apresentar ao mundo a cera extraída das folhas da carnaúba em 1796, entretanto, alguns autores atribuem-na ao Dr. Marcos Antônio de Macêdo, conforme menção feita em relatório do Instituto de Tecnologia do Ministério do Trabalho, segundo o qual a descoberta teria ocorrido por volta de 1810 (Girão e Martins Filho, 2011, p. 56).

O fato é que alguns de seus usos já eram conhecidos muito cedo na colonização do estado. A carnaubeira produz frutos comestíveis semelhantes a azeitonas, que serviam como alimentação das classes mais humildes durante os períodos de seca. Além disso, durante a estiagem as árvores mais jovens eram cortadas para que o palmito servisse de alimento ao gado ou aos próprios sertanejos (Araújo, 1971, p. 176).

Em 1836 já se fazia a extração da cera para a fabricação de velas, as quais começaram a ser usadas nas casas do sertão cearense para iluminação (Girão e Martins Filho, 2011, p. 56)Conforme Nicodemos Araújo, a extração de cera de Carnaúba só começou de forma significativa no Vale do Acaraú na segunda metade do século XVIII, e mesmo assim, em pequenas quantidades, usadas principalmente para fabricação de velas domésticas (Araújo, 1971, p. 176)

Havia dois métodos de fabricação, com moldes, geralmente utilizadas pelas famílias mais ricas; ou por imersão, mergulhando sucessivamente um pavio de algodão na cera derretida, até formar a vela (Frota, 1974, p. 34)Ainda no século XIX, teve início a venda da cera para exportação, tornando-se uma importante fonte de renda para a região. Tendo sua venda iniciada em 1845 e ampliada na década de 1850, a commodity alcançou seu auge em termos de valor agregado no biênio 1867-68 (De Farias, 2018, p. 207)

Muitas vezes a extração das palhas da Carnaúba, através das quais era obtida a cera, não era realizada diretamente pelos proprietários dos carnaubais, mas por meio de um sistema de arrendamento ou parceria. Nesse consórcio o arrendatário ficava responsável pela colheita, transporte, por meio de jumentos, e beneficiamento e/ou venda do vegetal, dividindo os lucros com o proprietário das terras arrendadas.

Por volta de 1860, o querosene (então chamado de “gás”) começou a ser usado em Sobral, sucedendo o azeite de mamona como combustível das candeias de bronze ou barro. Com a sua popularizaçãoo uso das velas foi diminuindo, até quase desaparecer (Frota, 1974, p. 34)Entretanto, como ressaltado anteriormente, a planta possui muitos outros usos além da confecção de velas. 

Após a extração da cera, as palhas da palmeira são utilizadas como matéria prima na manufatura de objetos, tais como chapéus, esteiras, vassouras, entre outros. Os artesãos costumavam trabalhar em suas próprias casas e comercializar seus produtos nas feiras locais (Souza et al).

Com o passar do tempo, esse comércio se avolumou, principalmente dos chapéus de palha, item amplamente utilizado pela maioria da população, tendo como polo local a cidade de Sobral. Nesse contexto, os demais municípios do Vale do Acaraú passam a ser fornecedores da matéria prima, integrando de forma periférica esse arranjo produtivo, que persiste em menor escala até hoje (Parente, 1967, p. 14).

O Artesanato dos Chapéus de Palha em Sobral*

Antes do surgimento da técnica de trançar palhas que originou o atual artesanato do chapéu em Sobral, já existiam na região duas atividades artesanais de pequena relevância econômica. A primeira era o trançado de chapéus rústicos, conhecidos como “casco de peba”, feitos com técnicas rudimentares herdadas dos indígenas. A segunda era a renda de bilros, de origem portuguesa, muito apreciada pelas classes dominantes pela delicadeza de sua execução.

A introdução do artesanato moderno do chapéu de palha em Sobral remonta ao início do século XX e há diferentes versões sobre sua origem. Uma delas afirma que um benfeitor local trouxe de Aracati uma família de artesãos do baixo Jaguaribe para ensinar o trançado às famílias da ribeira do Acaraú. Outra versão atribui o feito a Ernesto Deocleciano de Albuquerque, comerciante sobralense que, por volta de 1900, após uma viagem a Aracati, trouxe seis chapéus de palha com trançado desconhecido na Zona Norte. Os chapéus foram expostos em sua loja e atraíram a atenção de engenheiros que trabalhavam na ferrovia Sobral–Ipu, os quais preferiram o modelo por ser mais adequado ao clima quente.

Percebendo o potencial do produto, Ernesto contratou um hábil artesão da Serra da Meruoca, que conseguiu reproduzir os chapéus tomando um deles como modelo. Ele ensinou a técnica a cinco irmãs sobralenses, responsáveis pelos primeiros exemplares vendidos nas feiras locais. A nova técnica rapidamente se espalhou entre as mulheres da comunidade, que passaram a abandonar a renda de bilros, dada a crescente aceitação dos chapéus de palha no comércio. O novo produto também substituiu os chapéus rústicos “casco de peba” e “coringa”, de baixo valor comercial e difícil confecção.

Com o tempo, o artesanato se consolidou. Inicialmente, os chapéus eram simples e grosseiros, mas a qualidade melhorou à medida que os artesãos aperfeiçoaram suas habilidades. Vendedores ambulantes e intermediários começaram a levar o produto para feiras distantes. A seca, por sua vez, impulsionou a migração de sertanejos para outras regiões, levando consigo o chapéu de palha, que se popularizou nos seringais do Norte e nos cafezais do Sul.

Já em 1910, comerciantes sobralenses exportavam chapéus para Belém do Pará, e o mercado se expandiu para o Maranhão e o Piauí. O aumento da demanda impulsionou a produção e o aperfeiçoamento das técnicas. Em 1950, o exportador Guilherme Ehrich instalou em Sobral a primeira fábrica de acabamento industrial de chapéus, seguindo o exemplo de empresas paulistas como Prado e Ramenwoni.

A partir daí, estruturou-se um sistema de aperfeiçoamento técnico e distribuição do produto. Atualmente, Sobral é reconhecida como o principal centro de produção e comercialização de chapéus de palha do Nordeste, movimentando um volume econômico superior ao de produtos que antes dominavam o cenário artesanal regional.

*Adaptado de Parente (1967), p.11-13.

Diego Carneiro
06 de outubro de 2025
Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A Carnaúba no Vale do Acaraú. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 06 de outubro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/08/a-carnauba-no-vale-do-acarau.html

Referências
ARAÚJO, Nicodemos. Município de Acaraú - Notas para sua História. Acaraú, 1971.
DE FARIAS, Airton. História do Ceará. Fortaleza: Armazém da Cultura, 2018
FROTA, D. José Tupinambá da. História de Sobral. 2a Edição. Fortaleza: Editora Henriqueta Galeno, 1974.
GIRÃO, Eduardo e MARTINS FILHO, Antônio. O Ceará. Fortaleza: Fundação Waldemar Alcântara, 2011.
PARENTE, João José de Sá. O artesanato do chapéu de palha na Área de Influência de Sobral. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1967.
SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues de; FONSECA DUQUE, Adauto Neto; REINALDO, Maria Rejane. Palha da Carnaúba: na arte de tecer (re)conhecemos a história de Sobral. Sobral, CE: [s.d.]. Disponível em: https://www.digitalmundomiraira.com.br/Patrimonio/Artesanato/TiposDeArtesanato/ArtesantoEmPalha/Sobral%20-%20Palha%20da%20carnauba.pdf

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