A Capela de São Manuel do Marco

Capela São Manuel no Sec. XIX

Uma vez que as primeiras residências do povoamento de Marco surgiram ao redor da Capela São Manuel, desvelar a história de sua construção é um bom ponto de partida para determinar o início do adensamento populacional dessa localidade. Para tanto, primeiro, analisaremos a peculiar escolha do santo que dá nome a capela e, durante certo tempo, ao município.

Segundo a tradição católica, São Manuel foi um mártir dos primeiros séculos do cristianismo, sendo o principal relato de sua vida as Acta Sanctorum, compiladas pelo jesuíta, Jean Bolland (1596-1665). Segundo este relato, Manuel e os seus irmãos, Sabel e Ismael, cristãos persas, teriam sido enviados no ano de 362 pelo seu rei, Baltano, à corte romana para negociar uma paz entre a Pérsia e Roma.

Nessa época o império romano já era majoritariamente cristão, mas o imperador Juliano, o apóstata (331-363), teria decidido voltar ao paganismo, obrigando os embaixadores a participarem de sacrifícios pagãos. Como estes se recusaram, teriam sido martirizados. Manuel foi condenado a ter um cravo de ferro espetado em cada lado do peito e um cravo atravessando-lhe a cabeça de ouvido a ouvido, castigos por não ouvir a voz do imperador, acabando por falecer no dia 17 de junho de 362.

Existem várias versões para a incomum veneração a São Manuel por parte dos habitantes de Marco. Nesse sentido, o memorialista José Alfredo Silva (Mestre Zé) em seu livro Breve História do Município de Marco, apresenta quatro versões diferentes para a criação da capela dedicada a São Manuel. A seguir estas serão analisadas pormenorizadamente.

1ª Versão: Primeiros Colonizadores

Na primeira delas, a imagem de São Manuel teria vindo de Portugal, junto aos primeiros colonizadores que, em meio a uma tempestade, teriam prometido ao santo erigir uma capela em seu nome no local onde se fixassem, caso todos se salvassem (Silva 2002, p. 45). Nesse caso, pode-se supor que a devoção a São Manuel teria vindo de Nicolau da Costa Peixoto ou do próprio Manuel Ferreira Fonteles, dado que foram os primeiros imigrantes da região, aos quais pertenciam as terras que viriam a se tornar a Fazenda Marco, onde a capela são Manuel foi construída.

Entretanto, a história mostra-se pouco plausível por alguns motivos. Primeiro, que tanto Nicolau quanto Fonteles faleceram mais de cem anos antes do período tradicionalmente apontado para surgimento da referida capela e da povoação de Marco. Além disso, seria mais plausível assumir que, caso a história fosse verdadeira, teriam erigido o templo nos locais onde residiam, o que de fato aconteceu. Nicolau Peixoto doou terras para constituir o patrimônio da Capela de Santa Cruz, dedicada à Nossa Senhora da Conceição, no ano de 1732. Já Manoel Fonteles ajudou na construção da capela de Santana do Acaraú, dedicada à Nossa Senhora de Sant’Anna, cuja benção se realizou em 1739.

Apesar disso, não passa despercebido o fato de Manuel Fonteles compartilhar o nome com o santo, o que poderia ser um sinal de devoção ao mesmo por parte de sua família. Entretanto, o nome Manuel provavelmente não tem relação direta com São Manuel mártir, tendo se popularizado em Portugal principalmente a partir do reinado Dom Manuel I (1469-1521), o venturoso. Na verdade, não descarto a situação oposta, que a simpatia pelo santo tenha se dado, em parte, pela coincidência entre os nomes.

2ª Versão: Os Retirantes da Seca de 1809

As demais versões para a fundação da capela envolvem personagens mais diretamente ligados às origens do município de Marco: Francisco Ferreira (Fonteles) Rios e seu tio Ignacio Ferreira Fonteles. Em uma destas versões, a imagem de São Manuel teria sido dada a Francisco Ferreira Fonteles Rios por flagelados da seca de 1809, em retribuição por ter-lhes fornecido alimentação no momento de grande necessidade. O memorialista conta que os retirantes fugiam da seca indo ao município do Acaraú para receber auxílio que teria sido mandado pelo imperador (Silva, 2002, p. 47).

Essa segunda versão também tem elementos contraditórios. Inicialmente, como dito anteriormente, Francisco Ferreira Rios nasceu por volta de 1810, o que afasta a possibilidade de ele ter protagonizado a história. O mais plausível nesse caso é que se tratasse de seu avô de mesmo nome, Franciso Ferreira Fonteles (1747-1815). Outro aspecto relevante é a afirmação de que o auxílio seria dado pelo “imperador”. 

Em 1808 o Brasil se tornou sede do Reino de Portugal, Brasil e Algarves, quando o então Príncipe Regente de Portugal, João VI, reagiu à invasão napoleônica de Portugal estabelecendo a si mesmo e seu governo no Rio de Janeiro. Entretanto, o título de imperador só passou a ser utilizado de maneira corrente para se referir ao monarca reinante a partir de 1822, com a independência do Brasil. Outra possibilidade, que será discutida mais adiante, é que o ano de 1809 esteja incorreto.

3ª Versão: Serra da Ibiapaba

A terceira versão, também trazida por Silva (2002), informa que Francisco Ferreira Fonteles Rios teria tido contato com a adoração a São Manuel por intermédio de uma senhora de nome Bernarda que o hospedava quando este ia à Serra da Ibiapaba comprar rapaduras. Em certa ocasião, durante uma caçada, Francisco teria ficado preso em uma cova feita para capturar “catetus”, um tipo porco selvagem, na qual teria ficado por três dias sem conseguir sair. Então fez uma promessa para São Manuel que se conseguisse sair daquela situação ergueria uma capela em seu nome, graça a qual foi atendida, ensejando o cumprimento da promessa (Silva 2002, p. 48).

Ao contrário do que acontece no município de Marco, durante esta pesquisa não foi localizada nenhuma capela ou igreja dedicada a São Manuel nos municípios da diocese de Tianguá, que compreende a região da Serra da Ibiapaba. Também não foi identificada a presença de ruas, praças, escolas ou outros estabelecimentos dedicados ao santo na região serrana. Portanto, não parece haver qualquer evidência da presença relevante de devotos de São Manuel nos municípios da Ibiapaba.

4ª Versão: Frei Vidal da Penha

A última versão trazida pelo Sr. José Alfredo Silva para a origem da Capela de São Manuel guarda semelhanças com outra, contada pela senhora Conceição (Tenora) Fonteles. As duas histórias apontam a origem da fé em São Manuel como decorrente das pregações do Frei Vidal da Penha, já mencionado anteriormente.

Na versão do Sr. José Alfredo, Francisco Ferreira Rios teria ido a Sobral por volta do ano de 1793, quando teria tido contato com as pregações de Frei Vidal sobre a vida e os milagres de São Manuel. Francisco teria então adquirido uma imagem do santo pelo significativo valor de Rs 1.200$000 (Um conto e duzentos mil réis), consagrando-a em um oratório de vidro em sua residência, sendo esta, objeto de adoração por parte dos moradores da comunidade (Silva 2002, p. 46).

Um elemento sugestivo do ano de 1793 como sendo a origem dos eventos narrados é o fato deste ano ter marcado o fim de uma severa seca iniciada em 1790. Sobre isso, Joaquim Alves, no livro História das Secas dos sec. XVII a XIX, citando o livro “O Município de Santanna”, afirma que:

No Ceará a seca de 1790 a 1793 foi tão rigorosa que na ribeira do Acaraú, algumas senhoras ainda mesmo abastadas, dando à luz nesse ano, se viram obrigadas a manter-se com alimentação de jacús, mel de abelha e carne de veado, na ausência absoluta de cereais, galinhas e outras carnes tragáveis. Diversos fazendeiros perderam todos os seus gados, outros, três partes destes. À população menos favorecida, sem auxílio do governo que, então, não tinha meios de proporcionar-lhe socorro, dispersara-se, procurando, parte a Ibiapaba e parte a margem do Parnahiba.

Pernambuco, era governado, então, por D. José Thomaz de Melo que, atendendo a um requerimento do Governador da Capitania do Ceará, “remeteu 600 alqueires de farinha que se dividiram em igual parte para Fortaleza e Aracati, por diminuta a poucos, e para pouco tempo pode chegar; e daqui resultou expedir eu, desta Capitania a cidade do Maranhão um pequeno barco que acaso aqui se achou, deprecando-se ao Exmo. Sr. General daquele Estado o seu auxilio para carregar com brevidade o mesmo barco, de farinha, arroz e mais legumes e, finalmente, tendo conseguido este socorro, ainda que pequeno, vendo já ancorado e em descarga neste Porto o tal Barco e esperando nas promessas de um Negociante da Villa da Parnahiba a quem dirigi outra simte. deprecação, que mandará equi uma sumaca com viveres o mais breve que lhe for possível (Alves, 1953, p. 57)

O relato acima dialoga diretamente com a segunda versão da história apresentada por José Alfredo Silva, segundo a qual a imagem de São Manuel foi dada por retirantes da seca que buscavam ajuda na cidade de Acaraú, local cujo porto possivelmente receberia os mantimentos vindos da Capitania do Maranhão. Ademais, também são trazidos elementos comuns à terceira história como a necessidade de recorrer a caça e a Serra da Ibiapaba como alternativa para obtenção de alimentos. Episódios como esse certamente se repetiram em estiagens posteriores ao longo do século XIX. Dessa forma, pode-se especular que todos esses elementos podem ter sido incorporados às tradições orais ao longo do tempo.

5ª Versão: A Promessa

Por outro lado, na versão de D. Conceição Tenora, o protagonista da história foi Ignácio Francisco Ferreira Fonteles (bisavô de Tenora e tio de Francisco Ferreira Rios) e o fato teria acontecido ao redor do ano de 1846. Ademais, conta que Ignacio teria sido acometido por um câncer na língua, e que teria prometido a São Manuel que em caso de cura construir-lhe-ia uma capela e doar-lhe-ia parte das terras que possuía. Apesar de ter a graça alcançada, Ignácio não cumpriu a promessa em vida, incumbindo seu filho mais velho, Joaquim Ferreira Fonteles, de construir a dita capela. Joaquim, por sua vez, teria contratado em Bela Cruz a construção de tijolos e possivelmente construtores para a execução do trabalho, sendo o primeiro nicho erguido em 1870, na esquina que fica aos fundos da atual igreja matriz, do lado direito.

Quanto à plausibilidade dessas duas últimas versões, pesa contra a de D. Tenora o fato de ter se passado no ano de 1846, distante do período que se supõe ter sido o de atuação do Frei Vidal, 1780 a 1820. Esse período seria compatível com a versão do Sr. José Alfredo, ainda mais considerando que, como já demonstrado, existem registros de que Frei Vidal esteve na Ribeira do Acaraú no final do século XVIII. Entretanto, Francisco Ferreira Fonteles Rios nasceu provavelmente apenas entre a primeira e segunda décadas do século XIX, de modo que ele também não poderia ser o protagonista dos eventos.

6ª Versão: A imagem que tinha

Encontrei ainda uma outra versão da história de D. Conceição Tenora, trazida no livro Igrejas do Ceará, de Francisco de Andrade Barroso, que não faz menção direta a Frei Vidal da Penha, dizendo apenas que Ignácio teria se inspirado em pregações em Sobral, que teriam ocorrido por volta do ano de 1846, quando teria adquirido a imagem de São Manuel, “talvez até por não ter encontrado outra” (Barroso, 1999, p. 263). Uma vez que Ignacio Francisco Ferreira Fonteles nasceu por volta de 1780, teria entre 60 e 70 anos no episódio, o que seria perfeitamente compatível.

A Minha Versão

Considerando todos os elementos trazidos, acho plausível que a aquisição da imagem e construção do primeiro oratório de vidro tenha sido feita de fato por Ignácio Francisco Ferreira Fonteles por volta do ano de 1846. A imagem teria então sido inicialmente venerada junto à comunidade local na residência dos Ferreira Fonteles, tendo o nicho sido erguido pouco tempo depois. É ponto pacífico que este já existia em 1853, quando o Presidente da Província, Joaquim Vilela de Castro Tavares sancionou a Lei nº 631, de 22 de dezembro, que definiu os limites da Freguesia da Barra do Acaraú:

Art 1º — A Freguesia da Barra do Acaraú fica, de ora em diante, com as freguesias limítrofes, pela maneira seguinte com a de Granja, pela barra do Rio Guriú; com a de Santana pelo lugar Marco, na ribeira do Acaraú, por um e outro lado, exclusive o nicho de S. Manoel; com a de Imperatriz, pela margem ocidental do rio Aracati-Assu, até a fazenda S. Fran. cisco, no Aracati-Mirim (grifo nosso).

Já quanto a construção da Capela, também devemos dar credibilidade a versão de D. Conceição Tenora, no que se refere a promessa de Ignácio e o papel de sei filho, Joaquim na construção do templo, exclusive a parte que se refere a influência de Frei Vidal da Penha. Entretanto, quanto ao ano de 1870, considero-o impreciso, visto que existem registros anteriores a essa data que já se referem a construção como Capela do Marco. Por exemplo, o batizado de Maria José Vasconcelos, neta de Francisco Ferreira Rios, ocorrido na noite de 20 de novembro de 1860, realizado pelo padre Francisco Xavier Nogueira. Portanto, esse seria o período mais provável de sua construção.

É possível que tenha sido um templo modesto no início, como todos da região, o que levou as pessoas, através da tradição oral a considerarem sua existência apenas a partir do momento em que houveram ampliações e reformas que o deixaram com mais "cara de igreja", digamos assim.


Batismo de Maria José Vasconcelos na Capela do Marco, 1860.

O Patrimônio da Capela

Convém dedicar algumas linhas para delimitar as terras que originaram o patrimônio da Capela de São Manuel, uma vez que foram nessas terras que se aglomeraram as primeiras residências formadoras do município. Infelizmente, não tivemos acesso aos documentos de doação como foi o caso da capela de Santa Cruz, de modo que tivemos que realizar algumas inferências para chegar a um veredito.

Primeiro, é certo que parte das terras foi doada pelo próprio construtor da capela, Joaquim Ferreira Fonteles, atendendo ao desejo de seu falecido pai. Um texto publicado na página Acervo Histórico do Marco, de autoria desconhecida, informa que “um homem de grande devoção prometeu a São Manuel que, caso ficasse curado de uma enfermidade doaria 300 braças (660 m) de terras para construir uma capela em agradecimento ao santo”. Conforme descrito anteriormente, esse trecho se refere a Ignácio Francisco Ferreira Fonteles.

Sabemos ainda que no recenseamento realizado em 1 de setembro de 1920, constam as terras da localidade de Salinas, localizada 2 km a leste da sede, como pertencentes ao patrimônio de São Manoel. Dessa forma, pode-se concluir que as terras que originalmente integravam o patrimônio da capela, e que hoje dão lugar a sede do município de Marco, consistiram de uma faixa de aproximadamente 660 metros de largura na margem esquerda do Rio Acaraú, limitado ao sul pela atual Rodovia CE-402, que delineia o perímetro urbano, por ao menos 2 km de comprimento, chegando até a localidade de Salinas.

Localização estimada do Patrimônio de S. Manuel de Marco no fim do Sec. XIX

Além dessas terras, Francisco de Andrade Barroso nos informa que o patrimônio da capela foi acrescido por doações feitas por Raimundo de Freitas Rios, que não teve filhos e deixou suas propriedades Juncuman (Junco Manso), Tapera Velha, Estreito (Parapuí) e Maracanã, as quais foram entregues à igreja por seu curador e sobrinho-neto, Artur Cialdini Silveira, também benfeitor pelo donativo que fez da fazenda chamada Almas (Barroso, 1999, p. 265). Ressalta-se que todas essas propriedades hoje são localidades dos municípios de Marco, Morrinhos e Santana do Acaraú. Essas doações provavelmente foram relativamente recentes, considerando que Artur Cialdini nasceu apenas em 1908.

Diego Carneiro
28 de agosto de 2025
Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A Capela de São Manuel do Marco. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 28 de agosto de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/08/a-capela-de-sao-manuel-do-marco.html

Referências

ALVES, Joaquim. História das secas (séculos XVII a XIX). Edições do Instituto do Ceará, 1953.

BARROSO, Francisco de Andrade. Igrejas do Ceará: crônicas histórico descritivas. Fortaleza, 1999.

SILVA, José Alfredo et al. Breve história do município de Marco. INESP, Instituto de Estudos e Pesquisas sobre o Desenvolvimento do Estado do Ceará, 2002.

O Município de Sant'Anna: um pouco de histórico sobre o Ceará de 1608 a 1738. Santana do Acaraú: Pap. e Typ. Correio da Semana, 1926.

O Areal de Joaquim Coriolano da Rocha

Ilustração de Joaquim Coriolano da Rocha

Em 5 de fevereiro de 1777, casaram-se Antônio Mendes de Vasconcelos, neto de Manoel Ferreira Fonteles, filho de Maria Ferreira Pinto Brandão, com Ana Joaquina de Jesus. O casal passa então a residir em uma faixa de terra adquirida por Antônio junto ao seu pai, Mateus Mendes de Vasconcelos, a qual denominou Fazenda Areal (Araújo, 2000, p. 89). Recebeu esse nome em função da grande quantidade de areia que se acumulava as margens do Rio Acaraú na altura da referida fazenda (Avelino, 2020, p. 52).

A Fazenda Areal era inicialmente uma faixa de terra de 900 braças (1,98 km) de comprimento, por 452 (994,4 m) de largura, entre as Fazendas Morrinho e Curralinho (Avelino, 2020, p. 52). Uma vez que a Fazenda Curralinho também pertencia a Mateus Mendes de Vasconcelos, é plausível supor que as terras vendidas ao seu filho foram um desmembramento dessa propriedade. Assim como a Curralinho, a sede da fazenda Areal originou uma localidade nos arredores de Morrinhos, de mesmo nome. Essa propriedade atravessou gerações, sendo dividida sucessivas vezes entre os herdeiros de Antônio Mendes, muitos dos quais preservaram o topônimo original.

Em 27 de agosto de 1795, Antônio Mendes de Vasconcelos ficou viúvo, contraindo no mesmo ano segundas núpcias com Teodora Ignacia de Menezes (Araújo, 2000, p. 89). Desse segundo casamento nasceram sete filhos, dentre os quais Rosa Maria da Conceição Vasconcelos, que se casou com José Ignácio de Vasconcelos em 3 de agosto de 1826. O casal, por sua vez, teve sete filhos, dentre eles Maria José Vasconcelos, nascida em 1828, esposa de Joaquim Coriolano da Rocha (Avelino, 2020, p. 58).

Assim, como nos informam os memorialistas João e Maria Silveira, Joaquim Coriolano da Rocha, nascido em 19 de janeiro de 1865, é filho de José Coriolano da Rocha, conhecido como “Cafim”, que, por sua vez, é originário de Santa Cruz, atual Bela Cruz, de onde teria vindo fixar residência em uma fração das terras da antiga Fazenda Areal, de mesmo nome, no ano de 1862 (Silveira e Silveira, 2009, p. 37-39). Sobre suas raízes em Bela Cruz, sabe-se os pais de José Coriolano eram Joaquim Coriolano da Rocha e Maria da Rocha.

Ademais, segundo Nicodemos Araújo, a Família Rocha passou a integrar a comunidade de Santa Cruz no último quartel do século XVIII, através dos irmãos Capitão José Alexandre da Rocha e Capitão Manoel Ferreira da Rocha, ambos filhos de Manoel Ferreira Fonteles Filho. José Alexandre casou-se com Maria Manoela de Vasconcelos, neta de Mateus Mendes de Vasconcelos, em 15 de novembro de 1795. Em 14 de julho de 1819, foi nomeado Comandante do Distrito de Santa Cruz, pelo então Presidente Manoel Inácio de Sampaio (Araújo, 1985, p. 38). Já Manoel, casou-se com Maria Joaquina da Conceição, neta de João Carneiro da Costa, em 13 de outubro de 1788.

Portanto, é bastante provável Joaquim Coriolano seja aparentado dos dois irmãos, suspeita que é corroborada pela existência de dispensas de consanguinidade entre José Coriolano e sua mulher, Francisca Benvinda de Maria que é trineta de Manoel Ferreira Fonteles Filho (Dispensas Matrimoniais 1880, Diocese de Fortaleza, p. 133, nº 8).

João e Maria Silveira aventam que Joaquim Coriolano teria adquirido de seu pai uma faixa de terra, junto a (nova) Fazenda Areal. Entretanto, em função dos intrincados laços de parentesco supracitados, também é plausível que essas terras tenham sido obtidas, ao menos em parte, por dote ou herança sua ou de sua mulher, Maria José Vasconcelos (Avelino, 2020, p. 58).

No inventário de Joaquim Coriolano, realizado em vida, em 1933, quando este tinha 68 anos, o proprietário teria distribuído entre os seus herdeiros terras num total de 715 braças (1,57 km) por 6 km de comprimento, cabendo a cada um de seus 9 filhos a porção de 65 braças (143 m). Além disso, doou 130 braças (286 m), na região central do povoado, para compor o patrimônio da Capela Sagrado Coração de Maria, a qual ele também teria ajudado a construir (Avelino, 2020, p. 47).

Atualmente, a antiga propriedade de Joaquim Coriolano da Rocha compreende grande parte da zona urbana do município de Morrinhos, assim como um bairro periférico denominado Areal, topônimo da Antiga Fazenda (Avelino, 2020, p. 59). Portanto, muitos o consideram fundador do município de Morrinhos (Silveira e Silveira, 2009, p. 47). Joaquim Coriolano da Rocha faleceu em 28 de junho de 1955, aos 90 anos de idade.

Descendência de Joaquim Coriolano da Rocha

Com Ana Benvinda de Jesus, com a qual casou em 24 de novembro de 1887, filha de Antônio Ferreira da Rocha e Maria Benvinda de Jesus:

1. José Ibiapina da Rocha, n. 12 de julho de 1892, c.c. Maria José da Rocha, filha de José Hermínio da Frota Vasconcelos e Maria Filomena Vasconcelos, em 30 de junho de 1911;

2. Manuel Artur da Rocha, n. ~1893, c.c. Maria José de Jesus, filha de João Peregrino da Rocha e Ana Amélia da Rocha, em 6 de novembro de 1920;

3. João Evangelista da Rocha, n. 28 de julho de 1893, c.c. Maria de Adelaide de Araújo, filha de Miguel Addis de Araújo e Francisca Adelina de Araújo Frota;

4. Antônio Coriolano da Rocha, n. ~1896, c.c. Maria Hermínia Soares, filha de Antônio Soares de Araújo e Maria José Soares, em 15 de julho de 1916;

5. Francisco Coriolano da Rocha, n. 11 de julho de 1897, c.c. Maria Iraci Vasconcelos Soares, filha de Francisco Raimundo Soares e Rira Amélia Soares em 11 de novembro de 1920;

6. Maria, n. 11 de março de 1899;

7. Miguel Aristides da Rocha, n. ~1899, c.c. Rita de Cássia Araújo, filha de Manoel Peregrino de Maria Vasconcelos e Maria Carmen de Araújo;

8. Maria José Vasconcelos, n. 11 de maio de 1902, c.c. Francisco Plínio Vasconcelos, filho de Manoel Capistrano de Vasconcelos e Maria da Natividade Peregrino, em 27 de junho de 1918;

9. Maria, n. 7 de janeiro de 1908;

10. Maria do Carmo Rocha, c.c. João Oquendo de Vasconcelos, filho de Manoel Capistrano de Vasconcelos e Maria da Natividade Peregrino;

11. Maria Maximina Rocha. c.c. Miguel Avelino de Vasconcelos, filho de Miguel Gervásio de Vasconcelos e Maria do Carmo Araújo.

Diego Carneiro
28 de agosto de 2025
Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. O Areal de Joaquim Coriolano da Rocha. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 28 de agosto de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/08/o-areal-de-joaquim-coriolano-da-rocha.html

Referências

ARAÚJO, Nicodemos. Município de Bela Cruz. Acaraú, 1985.

AVELINO, Fábio Júnior. Ocupação Colonial e Escravidão Negra nas terras que hoje fazem parte do Município de Morrinhos (1725-1889). Monografia. Sobral: Universidade Vale do Acaraú, 2020.

SILVEIRA, João Leonardo; SILVEIRA, Maria Luiza Rocha. Morrinhos: Sua História e sua Gente. Fortaleza: Realce, 2009.

Antônio Correia Peixoto e a Fazenda Timbaúba

Em 28 de novembro de 1736 foi concedida pelo Capitão-mor Domingos Simões Jordão, a Antônio Correia Peixoto uma sesmaria de três léguas (19,8 km) de comprimento, por meia de largura, entre a barra do rio Acaraú e lagamar do Uruanahu (atual Aranaú), margeando a costa, indo ao encontro do Córrego do Falcão (Sesmarias, Vol. 13, nº 61, p. 122). Essa propriedade está compreendida nos atuais municípios de Cruz e Acaraú.

Sobre Antônio Correia Peixoto, sabe-se que nasceu no ano de 1685, “nas partes” de Portugal, tendo migrado para o Ceará provavelmente em meados da segunda década do século XVIII, tendo se casado com a cearense Maria da Silva Moraes, filha de Manoel da Costa Resplandes e de Maria José da Conceição, por volta de 1718. Em função do sobrenome, é provável que tenha algum grau de parentesco com os também sesmeiros Antônio da Costa Peixoto e seu filho, Nicolau da Costa Peixoto

No Ceará, Antônio teve relevante atuação política nos primórdios da capitania, tendo sido eleito em 1723 como vereador da Câmara de Aquiraz, tomando posse a 6 de janeiro do ano seguinte (Pinheiro, 2008, p. 102). Atuou também como Juiz ordinário da Câmara de Fortaleza no ano de 1740 (Studart, 1896, p. 205).

Ocupava-se também da criação de gado, como muitos no seu tempo. Na petição de sua sesmaria, Antônio afirma que, sendo morador da Capitania do Ceará Grande, não possui terras para criar seus gados "vacuns e cavalares", e dessa forma solicita as terras nas ilhargas do Sítio Timbaúba, do Comissário geral Domingos de Aguiar [Oliveira], que se achavam devolutas (Sesmarias, Vol. 13, nº 61, p. 122). 

Além das terras que obteve como sesmaria, Antônio adquiriu a um terço da já mencionada Fazenda Timbaúba, de Domingos de Aguiar Oliveira (Souza, 2015, p. 123). Assim, consta em seu inventário três quartos de légua de terra referente a essa fazenda, com casas de palha e coqueiros, avaliadas em 100$000 réis, além de três léguas de terra no Córrego do Falcão, avaliadas em 40$000 réis. Consta ainda a posse de 50 vacas parideiras, 25 novilhos, 25 garrotes, 25 bezerros, 40 bois, 12 novilhos, 38 garrotes e 25 bezerros, todos avaliados em 257$060 réis; bem como 7 burros, 8 poldros, 13 poldras, 3 poldrinhos, 3 cavalos mansos e 2 cavalos brabos, avaliados em 74$840 réis. 

A partir dessa descrição foi possível traçar a localização aproximada das terras da Fazenda Timbaúba, como pode ser visto na figura abaixo.

Localização aproximada da Fazenda Timbaúba, a partir da descrição histórica

Homem branco, Antônio Correia Peixoto faleceu a 28 de abril de 1755, com idade de 70 anos, pouco mais ou menos, com todos os sacramentos, sem deixar testamento, tendo sido sepultado na Capela da Santa Cruz, atual Bela Cruz (Lima, 2016, p. 114).

Além dos bens já citados, o inventário de Antônio Peixoto revela ainda o emprego de mão de obra escravizada em sua propriedade, constando ao todo sete cativos:

  • Matias, negro de Angola, já de idade avançada e com limitações físicas, avaliado em 70$000;
  • José, também de Angola e de idade avançada, avaliado em 60$000;
  • Maria, também de Angola e ainda nova, avaliada em 60$000;
  • Margaridajá idosa, avaliada em 15$000; 
  • João, mestiço, ainda jovem, avaliado em 65$000; 
  • Batião, mesticinho, avaliado em 45$000
  • Antônia, mestiça, filha da referida tapuia, avaliada em 40$000. 

Conforme o professor Raimundo de Souza, o escravo José era casado com Margarida, a tapuia mencionada, cuja etnia específica não foi identificada nos documentos. Os mesticinhos, ao que tudo indica, seriam, portanto, filhos do casal e provavelmente nasceram na Fazenda Timbaúba (Souza, 2015, p. 125).

Origem do sobrenome Correia

O sobrenome Correia, de origem ibérica antiga, pode ter vindo de um topônimo ou do latim corrigia (tira de couro, cinto, cadarço), relacionado a artesãos e comerciantes desses objetos. A forma primitiva era Corrêa/Correa, mas Correia se tornou a mais comum. Seu ramo mais antigo conhecido remonta ao cavaleiro português dom Paio Ramires, senhor de Farelães, em Braga, e a seu filho dom Soeiro Paes Corrêa, no século XI. Entre os descendentes notáveis estão Diogo Fernandes Corrêa, feitor nos Flandres e agraciado com brasão de armas em 1488, e Antônio Corrêa (1488–1566), combatente nas Índias e contra o rei do Barein, que recebeu brasão em 1540. Seu pai, Aires Corrêa, participou da frota de Pedro Álvares Cabral em 1500.

No Brasil, o sobrenome Correia aparece a partir do período colonial, ligado a figuras de destaque no Rio de Janeiro do século XVII, como Salvador Correia de Sá, o Velho, Martim Correia de Sá e Salvador Correia de Sá e Benevides. Embora raro entre cristãos-novos, houve registros de portadores no século XVIII, como Diogo e Francisco Correa, denunciados à Inquisição em Minas Gerais (1729), e Francisco Correa, morador do Rio (1723). Outro caso emblemático foi o de João Correa Ximenes, judeu, tabelião e senhor de engenho no Rio, condenado em 1713 ao hábito e cárcere perpétuo pelo Santo Ofício, mesmo após ser resgatado de um convento carioca pela Coroa quando fora capturado pelo corsário francês René Duguay-Trouin.

Sobre o sobrenome Peixoto, ver Nicolau da Costa Peixoto.

Descendência de Antônio Correia Peixoto (Lima, 2016, p. 114)

1. Joana Correia da Silva casou-se a 05 de outubro de 1735, no Sítio Castelhano, com Manoel Carlos de Vasconcelos, n. Basto, Cabeceiras de Basto, Braga, filho de Carlos Manoel de Vasconcelos e de Antônia Maria Luíza, ambos de Braga.

Segundo Nicodemos Araújo, em 1760 foi confirmada uma data de sesmaria para Joana, possivelmente uma extensão da do seu pai, medindo 2 léguas e compreendida desde o Marco do Guarda, na divisa entre os atuais municípios de Cruz e Bela Cruz, até a Porteira Velha, já na orla marítima (Araújo, 1971, p. 51). 

2. Maria Correia da Silva casou-se a 31 de outubro de 1747, no Sítio da Timbaúba, Freguesia de Sobral, com Manoel de Moraes Valcacer, n. no ano de 1709, em João Pessoa, Paraíba, morador na Várzea Feia, Freguesia de Sobral, filho de Gregório Valcacer e de Domingas da Costa. Testemunhas, João Carneiro da Costa e Mateus Mendes Vasconcelos.

3. Custódia Correia casou-se a 14 de setembro de 1767, de manhã, na Capela da Beruoca, Capela da Meruoca, com José Pereira de Almeida nasceu na Freguesia de São Sebastião, Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores, filho de Matias Pereira e de Ana Mariana Durão, naturais da citada Freguesia de São Sebastião. O Padre João Salvador de Aranda realizou o casamento, e foram testemunhas, o Capitão Manoel José do Monte e Pedro de Moraes Valcacer.

4. Margarida Correia da Silva, natural da Freguesia da Fortaleza. Casou-se a 07 de janeiro de 1778, de manhã, na Capela da Meruoca, com Domingos da Costa Teixeira, natural da Freguesia de Monte Mor de Mamanguape, Paraíba, filho de Gregório Valcacer de Moraes e de Domingas da Costa Teixeira. Presentes, o Padre Frei João Félix de Santa Teresa, as testemunhas, Manoel de Moraes Valcacer, Pedro de Moraes Valcacer, o Ajudante Manoel do Ó Coutinho, casados, e mais pessoas conhecidas.

5. Teresa de Jesus Maria dos Prazeres casou-se a 15 de agosto de 1780, de manhã, na Capela de Santa Cruz, Bela Cruz, Ceará, dispensada no 3º grau de consanguinidade, com José Rodrigues Resplandes, filho de Sebastião Barbosa de Moraes e de Ana de Santiago, naturais da Fortaleza do Ceará.

6. Joaquim, batizado a 04 de junho de 1727, em casa, na Freguesia de Fortaleza, pelo Padre Alexandre da Fonseca. Padrinhos, Domingos Francisco e Leonarda Correia.

7. Manoel Antônio Correia natural da Freguesia do Forte, Fortaleza. Casou-se com Isabel Maria, n. na Freguesia da Amontada, filha de Manoel de Moura Vasconcelos, da Amontada, e de Helena Gomes Linhares, Acaraú. Neta paterna de José de Moura Negrão e de Ana de Jesus. Neta materna de Aurélio Gomes Linhares e de Maria de Brito Freire.


Diego Carneiro

27 de agosto de 2025

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. Antônio Correia Peixoto e a Fazenda Timbaúba. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 27 de agosto de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/08/antonio-correia-peixoto-fazenda-timbauba.html

Referências

ARAÚJO, Nicodemos. Município de Acaraú, Notas para sua história. Acaraú, 1971.

LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 4 volumes, 2016.

SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues de. Minha riqueza é fruto do meu trabalho: negros de cabedais no Sertão do Acaraú (1709-1822). 2015.

STUDART, Guilherme Studart. Datas e factos para a história do Ceará. Typographia Studart, 1896.

Inventário post-mortem de Antônio Correia Peixoto, 1755, caixa 07. NEDHIS/UVA.

Perfil de Antônio Correia Peixoto no FamilySearch. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/person/details/KLBD-NNZ

A Formação da Freguesia de Acaraú

Para compreender como se deu a formação do atual Município de Acaraú, é importante saber que o rio que dá nome à cidade, após um percurso de 320 km, alcança o mar por dois braços, Cacimbas e Mosqueiro, formando um pequeno delta, cuja bifurcação ocorre a cerca de 6 km do litoral (Braga, 1964, p. 31). Essa configuração no litoral de Acaraú já é conhecida desde os primórdios da colonização portuguesa, figurando em mapas e cartas náuticas desde o início do século XVI.

A versão mais aceita para o topônimo Acaraú é a de que signifique "Rio das Garças", o que se justificaria pela presença da grande quantidade dessas aves no litoral e nas gamboas da região (Araújo, 1971, p. 14). Em livros e documentos antigos, esse topônimo assume variações como Caracú, Acaracú, Acarauh, entre outras. A adoção oficial do nome Acaraú se deu apenas em 1879. Segundo o historiador Renato Braga, isso teria acontecido para evitar que, nas correspondências endereçadas à localidade, a estampa de D. Pedro II viesse acompanhada do antigo nome, Acaracú, o que poderia soar desrespeitoso ao Imperador (Braga, 1964, p. 14).

Originalmente, as terras do litoral de Acaraú eram habitadas por índios da etnia Tremembé, que foram, em sua grande maioria, aldeados no início do século XVIII na Missão do Acarati-Mirim. No que se refere ao povoamento por europeus, uma hipótese é a de que teria ocorrido inicialmente por pescadores vindos do Sul, atraídos pela fartura dos bancos pesqueiros. Estes teriam primeiro se estabelecido na localidade Ponta do Presídio e depois migrado mais para o interior do delta do rio, onde hoje se ergue a cidade (Studart, 2010, p. 301).

Essa opinião provavelmente foi influenciada pelo fato de a atividade pesqueira ser atualmente forte na região, além de uma interpretação alternativa do próprio topônimo Acaraú, que poderia significar "Rio dos Peixes Grandes". Entretanto, essa versão é contestada por Nicodemos Araújo, segundo o qual o litoral e as praias da região não são naturalmente propícios para a pesca tradicional, tendo esta se intensificado apenas após a adoção dos currais (Araújo, 1971, p. 34).

Portanto, podemos concluir que, embora seja plausível alguma presença de homens brancos atraídos pela atividade pesqueira, esse vetor foi minoritário na ocupação da região, que se intensificou apenas com a vinda dos criadores de gado, que povoaram a Ribeira do Acaraú no fim do século XVII e início do XVIII. Nesse sentido, as sesmarias concedidas na região, voltadas para a criação de gado, foram:

  • 1683 – Rio Acaraú – Manoel de Góes;
  • 1705 – Jacoca / Rio Acaraú – Cel. João Pereira Veras;
  • 1710 – Entre Acaraú e Aracati-Mirim – Amador Correia de Oliveira e Agostinho da Cruz (não efetivada);
  • 1716 – Lagoa da Água das Velhas – João de Sá;
  • 1735 – Água das Velhas – Ten.-Cel. José Bernardo Uchoa e Manoel da Guarda Monteiro; 
  • 1735 – Entre Aracati-Mirim e Acaraú – Ten.-Cel. José Bernardo Uchoa e Manoel da Guarda Monteiro;
  • 1736 – Rio Acaraú ao Córrego do Falcão – Antônio Correia Peixoto;
  • 1737 – Córrego do Tanque ao Castelhano – Ten.-Cel. Manoel Barbosa de Morais; 
  • 1760 – Marco do Guarda à Porteira Velha – Joana Correia da Silva;
  • 1817 – Cruz / Castelhano / Timbaúba / Lagoa do Mato – Cap. Diogo Lopes de Araújo Costa; 
  • 1823 – Fazenda Tapera (Ribeira do Acaraú) – Francisco Antônio Linhares.

Esse núcleo inicial, assentado na Barra do Acaraú, viveu anonimamente por certo tempo, até que se instalou no Cacimbas um ancoradouro para as embarcações que transitavam pelo rio, acessível apenas a barcos pequenos, a depender do regime das marés (Braga, 1964, p. 40). Esse local passou então a ser conhecido como "Porto dos Barcos" e chegou a ter certa relevância em função do serviço de cabotagem de mercadorias entre a região e as demais capitanias.

Segundo Nicodemos Araújo, as primeiras habitações construídas na sede de Acaraú foram erguidas no limiar do século XVIII, inicialmente no atual bairro "Outra Banda", em função da proximidade do rio e para "atender às frequentes visitas de barcos de pequeno calado que chegavam até ali, nas marés de preamar, em serviço de cabotagem" (Araújo, 1971, p. 48). Diferentemente de outros municípios da região, a aglomeração urbana precedeu a instalação da capela, o que só foi feito algum tempo depois. Ao que parece, em 1724 já havia casas o bastante para a localidade ser caracterizada como um povoado.

Uma explicação para tanto é que, nessa época, a maior aglomeração populacional da região se dava no atual distrito de Almofala, distante 33 km de Acaraú, então sede da Missão do Aracati-Mirim, onde foi erguida a primeira capela de toda a Ribeira, em 1712. Em outra localidade um pouco mais próxima, no Sítio Santa Cruz, atual Bela Cruz, também foi erguida uma capela já no início do século XVIII, em 1732. Portanto, pode-se deduzir que esses templos eram frequentados pelos primeiros moradores do primitivo povoado.

Apenas em 1748, por influência do Pe. Agostinho de Castro Moura, então dirigente da Missão de Almofala, teria sido escolhido o terreno para a construção da primeira capela, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, no mesmo local onde hoje se ergue a Igreja Matriz da Paróquia de Acaraú (Araújo, 1971, p. 49). Seu patrimônio, constituído muitos anos depois, consistiu em uma légua de terra doada em 1806 por José Monteiro Melo.

Como explicamos em outras postagens, a criação dos templos representava não apenas um avanço no sentido religioso, mas também no sentido civil, uma vez que, enquanto colônia, as divisões administrativas e eclesiásticas se confundiam, sendo este o primeiro passo para pleitear uma emancipação no futuro. Além disso, os terrenos doados para constituir o patrimônio da igreja eram arrendados para foreiros, que erguiam residências, levando a um maior adensamento populacional.

Ao longo da segunda metade do século XVIII, intensificou-se a atividade de charqueamento na Ribeira do Acaraú, levando à instalação de oficinas de beneficiamento de carne próximo ao porto fluvial (Brasil, 1972, p. 111). Nelas, os animais eram abatidos e sua carne preparada em mantas, as quais eram salgadas e secas. Além da carne, aproveitava-se o couro, que era igualmente seco ao sol, e o sebo, moldado em blocos (Anais da Biblioteca Pública Pelotense, v. 2, p. 106).

Dali, essas mercadorias eram embarcadas em sumacas com destino aos principais portos da Colônia, sobretudo Pernambuco, dos quais traziam pratarias, porcelanas, cristais, móveis de jacarandá e outros objetos raros (Girão, 1984, p. 117). Esse movimento impactou de tal maneira a vida econômica do povoamento, que o mesmo passou a ser conhecido pelo topônimo "Oficinas". Esse ciclo econômico atingiu o seu auge no final do século XVIII, quando foi bruscamente interrompido pela Grande Seca de 1790 a 1793, que devastou os rebanhos da região. Entretanto, esse interstício de quarenta anos foi o bastante para acelerar o crescimento do povoado, fazendo-o inclusive rivalizar com Almofala em termos de relevância.

Em 12 de novembro de 1766 havia sido criada a Freguesia de N. S. da Conceição da Almofala, com sede nessa localidade. Nos tempos do padroado, a denominação freguesia era equivalente ao atual bairro, portanto, eclesiasticamente, Acaraú encontrava-se subordinado a Almofala. Ressalta-se que seu crescimento populacional deve ter se dado de forma lenta, visto que Acaraú não aparece no levantamento dos povoados da capitania, realizado em setembro de 1782, pelo Capitão-mor João Batista Montaury, ao contrário de localidades próximas, como Almofala e Amontada (Aragão, 1990, p. 170).

Mas, no dia 21 de setembro de 1799, uma provisão firmada pelo então primeiro presidente da província, Bernardo Manoel de Vasconcelos, elevou a localidade à condição de Distrito dessa freguesia, provavelmente em reconhecimento ao desenvolvimento trazido pelas charqueadas. Em 1816, no relato atribuído a Silva Paulet, a Barra do Acaraú é descrita como um lugarejo com capela (Paulet, 1898, p. 19).

Daí inicia-se uma disputa entre Acaraú e Almofala. Em 5 de setembro de 1832, um Decreto Imperial removeu a sede da Freguesia de Almofala para o povoado Barra do Acaraú, criando assim a Freguesia N. S. da Conceição da Barra do Acaraú em substituição à primeira. No ano seguinte, em 14 de agosto, a Câmara de Sobral já havia deliberado pela criação do Distrito da Barra do Acaraú "compreendendo a Fazenda Boca do Corgo, exclusive, até a pancada do mar e por limites da parte de cima os do distrito de Mutambeira, e da parte de baixo, olhando para o nascente, até contestar com os limites da freguesia da vila da Granja" (Araújo, 2005, p. 246). Na época, Acaraú contava com o razoável montante de 363 casas habitadas.

Entretanto, poucos anos depois, em 10 de setembro de 1838, durante a administração de Manoel Felizardo de Sousa Melo, a freguesia de Acaraú foi desmembrada, restaurando-se a de Almofala, ao mesmo tempo em que se criou a Freguesia de Santana. Esta última estendia-se originalmente até a "Passagem do Urubu", por onde transitavam os carros de Sobral, englobando inclusive a capela de Santa Cruz (Araújo, 1971, p. 86).

Mas em 5 de dezembro de 1842, o então presidente da Província, Brigadeiro José Joaquim Coelho, sancionou uma lei que novamente extinguiu a freguesia de Almofala, restabelecendo a de Acaraú. Nicodemos Araújo conta que, nos bastidores dessa contenda, houve a atuação do Vigário da Freguesia de Acaraú, Pe. Antônio Xavier de Castro e Silva, que havia sido eleito deputado provincial e intercedeu junto ao governador para o restabelecimento do distrito (Araújo, 1971, p. 52).

Inconformados, os moradores de Almofala enviaram, em 1844, um memorial ao presidente da Província solicitando a restauração da freguesia, mas o pedido foi indeferido após o Padre João Francisco Dias Nogueira, vigário de Acaraú, emitir um parecer atestando as condições precárias da capela de Almofala (Araújo, 1981, p. 82). Assim, deu-se por encerrada a hegemonia exercida por Almofala na região, que enfrentou o declínio de sua influência, como já relatamos detalhadamente em outro post.

Apesar do relativo desenvolvimento no século anterior, nessa época a então Barra do Acaraú encontrava-se bastante atrasada em termos de desenvolvimento urbanístico. Conforme relato do historiador Antônio Bezerra, "no ano de 1846, todas as suas casas eram de taipa, inclusive a igreja que lhe servia de Matriz" (Bezerra, 1965, p. 369). Apesar disso, pouco tempo depois, em 1849, pela Lei nº 480, de 31 de julho, a localidade foi elevada à categoria de vila, com o nome de Vila do Acaraú, desmembrada do território do município de Sobral. Sua instalação se deu dois anos depois, no dia 5 de fevereiro de 1851.

Pela Lei nº 631, de 22 de dezembro de 1853, foram redefinidos os limites entre as freguesias de Acaraú e Santana, que passou a ter como divisa o riacho Boca do Córrego, na atual fronteira entre os municípios de Marco — na época São Manuel, pertencente a Santana — e Santa Cruz, atual Bela Cruz, pertencente a Acaraú. Entretanto, nessa época, administrativamente, ambas as freguesias pertenciam ao termo da Vila de Acaraú, sendo que Santana se emanciparia apenas em 1862. A Lei nº 1.814, de 22 de janeiro de 1879, art. 1º, §6º, mudou o nome para o atual Acaraú. Finalmente, em 1882, em função da Lei nº 2.019, de 19 de setembro, a Vila do Acaraú foi elevada à categoria de cidade (Girão, 1983, p. 20).

O território original da Freguesia de Acaraú é a delimitação geográfica desse estudo, sendo que deste originaram-se todos os municípios do que classificamos como Baixo Acaraú.

Diego Carneiro

13 de outubro de 2025

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A Formação da Freguesia de Acaraú. História e Genealogia do Baixo Acaraú
[recurso eletrônico]. Fortaleza, 13 de outubro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/08/a-formacao-da-freguesia-de-acarau.html

Referências

ARAGÃO, Raimundo Batista. História do Ceará - Vol. 1. 3 ed., 1990.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

ARAÚJO, Nicodemos. Almofala e os Tremembés, Fortaleza Secretaria de Cultura e Desporto, 1981.

ARAÚJO, Nicodemos. Município de Acaraú, Notas para sua história. Acaraú, 1971.

BEZERRA, Antônio. Notas de viagem. Imprensa Universitária do Ceará, 1965.

BRAGA, Renato. Dicionário geográfico e histórico do Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1964.

BRASIL, João Pompeu. Sobral: tentativa de interpretação histórica de sua ação polarizadora sobre a região. Revista de Ciências Sociais: RCS, v. 3, n. 2, p. 105-121, 1972.

GIRÃO, Raimundo. Os municípios cearenses e seus distritos. Estado do Ceará, Secretaria de Planejamento e Coordenação, Superintendência do Desenvolvimento do Estado do Ceará, Departamento de Recursos Naturais, 1983.

GIRÃO, Valdelice Carneiro. As oficinas ou charqueadas no Ceará. Secretaria de Cultura e Desporto, 1984.

PAULET, Antônio Silva. Descripção Abreviada da Capitania do Ceará. Revista do Intituto do Ceará, vol. XII, 1898, pp. 05-33.

STUDART,  Barão de. Geographia do Ceará. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2010.

Padre Silveira e a Capela do Olho D'Água de Santana

Como relatamos em um post anterior, o lendário Frei Cristóvão de Lisboa teria percorrido em missão a região da Ribeira do Acaraú no distante ano de 1626. Nesta ocasião, fugindo de ataques dos índios que pretendia aldear, deparou-se com uma elevação rochosa, contendo uma gruta, onde teria se abrigado e jurado erguer uma capela a N. S. de Santana, única imagem que sobrevivera a perseguição.

Segundo a tradição católica, Santa Ana (ou Sant’Ana) era mãe de Maria, esposa de Joaquim e, portanto, avó materna de Jesus. A devoção aos pais de Maria remonta aos primeiros séculos do cristianismo, tendo surgido no Oriente e sido introduzida na Europa a partir das cruzadas de 710 d.C. Em Portugal, a veneração a Sant’Ana aparece em pinturas dos séculos XVI e XVII e chega ao Brasil com os primeiros colonizadores, onde adquire o caráter de matrona e catequizadora nos engenhos do Nordeste, sendo plausível sua associação à figura do missionário.

A promessa de Frei Cristóvão de Lisboa foi então registrada em uma carta, que também apontaria a localização de uma suposta mina de prata, cuja exploração poderia financiar a construção do templo. Segundo a lenda, após o decurso de um século, esta carta foi parar nas mãos do Ouvidor Loureiro, o qual entrou em disputa com o Cel. Sebastião de Sá, então proprietário das terras da referida mina, conflito que resultou na prisão de ambos (Município de Santana, 1926).

No decurso dessa contenda, em 1735, o Coronel Sebastião de Sá e, posteriormente, seu irmão Antônio venderam parte da propriedade, correspondendo a uma légua e meia (9,9 km) de terra, para o Padre Antônio dos Santos Silveira, no lugar denominado Olho D'Água. Padre Silveira, presbítero do hábito de São Pedro (clérigo secular), era natural de Pernambuco e teria vindo para a ribeira no final do ano de 1733, assumindo a posição de coadjutor do Pe. Elias Pinto de Azevedo no curato do Acaraú, onde também exerceu também a função de escrivão de vara (Araújo, 2005, p. 242).

Além disso, por ser dotado de boa formação humanística, atuou ocasionalmente como professor, oferecendo aulas particulares aos filhos dos fazendeiros mais abastados. Embora não tenha mantido uma escola regular, foi um dos primeiros a exercer, ainda que de maneira rudimentar, o magistério na região (Araújo, 1978, p. 118).

Tomando conhecimento da lenda do Frei Cristóvão, o sacerdote teria se inspirado a levar a diante a promessa e erguer nas terras adquiridas o templo dedicado a Santana. Para tanto, requereu licença as autoridades eclesiásticas para erigir no seu sítio uma capela sob a invocação de N. S. Santana do Olho d'Agua e Almas. Conseguida a licença, deu início a construção do templo em 9 de novembro de 1738, assentando-o em terreno elevado, não longe da casa da fazenda onde morava, tendo os trabalhos sido finalizados em 31 de julho do ano seguinte (De Menezes, 1889, p. 74). Essa construção teria contado com a colaboração dos moradores da região, entre eles o Capitão Manoel Ferreira Fonteles (Araújo, 2000, p. 73).

A benção do templo e das quatro imagens contidas nele, Cristo, Santana, S. Joaquim e Sta. Rita, foi realizada em 9 de agosto do mesmo ano, pelo próprio Pe. Silveira, auxiliado pelo Pe. Dionísio da Cunha Araújo, e autorizado pelo Rev. Antônio de Aguiar Pereira, vigário geral da capitania (Araújo, 2005, p.168). No dia seguinte foi celebrada a primeira missa com assistência dos moradores da região.

Para constituir o patrimônio da Capela de Santana, Pe. Silveira doou meia légua (3,3 km) de terra, cinquenta vacas; e um touro reprodutor, tendo sido lavrada a escritura de doação a 6 de outubro de 1739, tendo como testemunhas o padre Miguel Gonçalves Marágoa e Arnaud de Holanda e Vasconcelos (Araújo, 1985, p. 14). Nessas terras do entorno da capela e imediações formou-se um povoado, denominado primitivamente de Curral Velho, a partir do qual se originaria o atual município de Santana do Acaraú.

Mas a lenda da mina de prata voltaria para perseguir Pe. Silveira. Por volta de 1740, iniciou-se na Serra da Ibiapaba uma expedição voltada à prospecção de metais preciosos, sob a liderança de Antônio Gonçalves de Araújo, superintendente da exploração. A iniciativa tinha como base relatos lendários acerca da suposta existência de prata na região onde hoje se localiza o município de Ubajara. Contudo, a empreitada revelou-se um completo fracasso: as análises realizadas em 1745 não identificaram prata alguma, mas apenas vestígios insignificantes de outros metais sem valor econômico (Girão, 2000, p. 139).

Por meios ignorados, talvez através dos registros do processo movido contra o Cel. Sebastião de Sá, de que falamos anteriormente, Antônio Gonçalves de Araújo tomou conhecimento do relato descrito por Frei Cristóvão mais de um século antes. Tentando contornar o revés que tivera na Ibiapaba, Araújo teria interpelado Pe. Silveira sobre a mina de prata que existiria em sua propriedade. Sentindo-se ameaçado, o sacerdote decide vender sua propriedade para um terceiro e mudar-se para Pernambuco, em 15 de novembro de 1751, onde teria morrido pouco tempo depois  (Araújo, 1978, p. 118).

A légua de terra restante após a construção da capela foi então adquirida pelo Capitão Cláudio de Sá Amaral, em Recife, a 30 de janeiro de 1761. Como consta em seu inventário, a 7 de março de 1781, tratava-se de “uma légua de terra de comprido, de criar gados, neste sítio de Santa Anna, margens do rio Acaraú, com meia légua de largo por uma só banda do rio, parte do nascente, a qual comprou ao Pe. Antônio dos Santos Silveira, avaliada em 460$000” (Araújo, 2005, p. 409).

Com a partida do Pe. Silveira, a capela passou a ser administrada por Antônio Coelho de Albuquerque, a quem o sacerdote confiara também o segredo sobre a localização da suposta mina. Mais tarde, com a aquisição da propriedade por Cláudio de Sá, este assumiu a gestão do patrimônio de Santana e, em razão de sua amizade com Coelho, tomou conhecimento da lenda atribuída a Frei Cristóvão. Movido pela curiosidade e pela expectativa de encontrar o metal precioso, Cláudio de Sá dirigiu-se ao local indicado por Coelho, situado cerca de uma légua (6,6 km) ao sul do Serrote da Rola. Após uma jornada penosa, chegou ao ponto assinalado e deparou-se com um mineral branco e reluzente que, no entanto, revelou-se ser apenas antimônio — metal de baixo valor comercial. Assim, desfez-se a crença na existência da lendária mina de prata (O Município de Santana, p. 85).

Amostras de Antimônio

A capela de Santana foi bastante frequentada nesse período pelos primeiros moradores da Ribeira, conforme nos conta o livro Município de Santana, "desde meia até cinco léguas de distância e dela se diziam fregueses por devoção", entre outros, os seguintes cidadãos: Capitão Mateus Mendes de Vasconcelos, Mateus Conde Barreto d'Almeida, Ajudante Manuel Carneiro da Costa, Capitão Francisco Ferreira da Ponte, Gonçalo Ferreira da Ponte, Pedro Ferreira da Ponte, Capitão José de Xerez Fuma Uchoa, João de Lima Raposo, João da Silveira Dutra, José Henriques de Araújo, Capitão Antônio Henriques de Araújo, Manuel José de Farias e Caetano José Soares, casado com D. Luiza Ferreira, filha do Capitão Manuel Ferreira Fonteles (p. 82). Essa relação é atestada por farta documentação eclesiástica, sendo que muitas das pessoas mencionadas foram inclusive enterras nos chãos da capela.

Diego Carneiro

13 de setembro de 2025

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. Padre Silveira e a Capela do Olho D'Água de Santana. História e Genealogia do Baixo Acaraú
[recurso eletrônico]. Fortaleza, 13 de setembro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/08/padre-silveira-e-capela-do-olho-dagua.html


Referências

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc. História da cultura sobralense. Sobral: Imprensa Universitária UVA, 1978.

ARAÚJO, Nicodemos. Santana do Acaraú. Acaraú, 1985.

DE MENEZES, Antonio Bezerra  Provincia do Ceará: notas de viagem, parte do norte  Typ. Economica, 1889.

GIRÃO, Raimundo. História Econômica do Ceará. 2ª edição. Fortaleza: UFC–Casa de José de Alencar/Programa Editorial, 2000.

O Município de Sant'Anna: um pouco de histórico sobre o Ceará de 1608 a 1738. Santana do Acaraú: Pap. e Typ. Correio da Semana, 1926.