Uma vez que as primeiras residências do povoamento de Marco surgiram ao redor da Capela São Manuel, desvelar a história de sua construção é um bom ponto de partida para determinar o início do adensamento populacional dessa localidade. Para tanto, primeiro, analisaremos a peculiar escolha do santo que dá nome a capela e, durante certo tempo, ao município.
Segundo a tradição católica, São Manuel foi um mártir dos primeiros séculos do cristianismo, sendo o principal relato de sua vida as Acta Sanctorum, compiladas pelo jesuíta, Jean Bolland (1596-1665). Segundo este relato, Manuel e os seus irmãos, Sabel e Ismael, cristãos persas, teriam sido enviados no ano de 362 pelo seu rei, Baltano, à corte romana para negociar uma paz entre a Pérsia e Roma.
Nessa época o império romano já era majoritariamente cristão, mas o imperador Juliano, o apóstata (331-363), teria decidido voltar ao paganismo, obrigando os embaixadores a participarem de sacrifícios pagãos. Como estes se recusaram, teriam sido martirizados. Manuel foi condenado a ter um cravo de ferro espetado em cada lado do peito e um cravo atravessando-lhe a cabeça de ouvido a ouvido, castigos por não ouvir a voz do imperador, acabando por falecer no dia 17 de junho de 362.
Existem várias versões para a incomum veneração a São Manuel por parte dos habitantes de Marco. Nesse sentido, o memorialista José Alfredo Silva (Mestre Zé) em seu livro Breve História do Município de Marco, apresenta quatro versões diferentes para a criação da capela dedicada a São Manuel. A seguir estas serão analisadas pormenorizadamente.
1ª Versão: Primeiros Colonizadores
Na primeira delas, a imagem de São Manuel teria vindo de Portugal, junto aos primeiros colonizadores que, em meio a uma tempestade, teriam prometido ao santo erigir uma capela em seu nome no local onde se fixassem, caso todos se salvassem (Silva 2002, p. 45). Nesse caso, pode-se supor que a devoção a São Manuel teria vindo de Nicolau da Costa Peixoto ou do próprio Manuel Ferreira Fonteles, dado que foram os primeiros imigrantes da região, aos quais pertenciam as terras que viriam a se tornar a Fazenda Marco, onde a capela são Manuel foi construída.
Entretanto, a história mostra-se pouco plausível por alguns motivos. Primeiro, que tanto Nicolau quanto Fonteles faleceram mais de cem anos antes do período tradicionalmente apontado para surgimento da referida capela e da povoação de Marco. Além disso, seria mais plausível assumir que, caso a história fosse verdadeira, teriam erigido o templo nos locais onde residiam, o que de fato aconteceu. Nicolau Peixoto doou terras para constituir o patrimônio da Capela de Santa Cruz, dedicada à Nossa Senhora da Conceição, no ano de 1732. Já Manoel Fonteles ajudou na construção da capela de Santana do Acaraú, dedicada à Nossa Senhora de Sant’Anna, cuja benção se realizou em 1739.
Apesar disso, não passa despercebido o fato de Manuel Fonteles compartilhar o nome com o santo, o que poderia ser um sinal de devoção ao mesmo por parte de sua família. Entretanto, o nome Manuel provavelmente não tem relação direta com São Manuel mártir, tendo se popularizado em Portugal principalmente a partir do reinado Dom Manuel I (1469-1521), o venturoso. Na verdade, não descarto a situação oposta, que a simpatia pelo santo tenha se dado, em parte, pela coincidência entre os nomes.
2ª Versão: Os Retirantes da Seca de 1809
As demais versões para a fundação da capela envolvem personagens mais diretamente ligados às origens do município de Marco: Francisco Ferreira (Fonteles) Rios e seu tio Ignacio Ferreira Fonteles. Em uma destas versões, a imagem de São Manuel teria sido dada a Francisco Ferreira Fonteles Rios por flagelados da seca de 1809, em retribuição por ter-lhes fornecido alimentação no momento de grande necessidade. O memorialista conta que os retirantes fugiam da seca indo ao município do Acaraú para receber auxílio que teria sido mandado pelo imperador (Silva, 2002, p. 47).
Essa segunda versão também tem elementos contraditórios. Inicialmente, como dito anteriormente, Francisco Ferreira Rios nasceu por volta de 1810, o que afasta a possibilidade de ele ter protagonizado a história. O mais plausível nesse caso é que se tratasse de seu avô de mesmo nome, Franciso Ferreira Fonteles (1747-1815). Outro aspecto relevante é a afirmação de que o auxílio seria dado pelo “imperador”.
Em 1808 o Brasil se tornou sede do Reino de Portugal, Brasil e Algarves, quando o então Príncipe Regente de Portugal, João VI, reagiu à invasão napoleônica de Portugal estabelecendo a si mesmo e seu governo no Rio de Janeiro. Entretanto, o título de imperador só passou a ser utilizado de maneira corrente para se referir ao monarca reinante a partir de 1822, com a independência do Brasil. Outra possibilidade, que será discutida mais adiante, é que o ano de 1809 esteja incorreto.
3ª Versão: Serra da Ibiapaba
A terceira versão, também trazida por Silva (2002), informa que Francisco Ferreira Fonteles Rios teria tido contato com a adoração a São Manuel por intermédio de uma senhora de nome Bernarda que o hospedava quando este ia à Serra da Ibiapaba comprar rapaduras. Em certa ocasião, durante uma caçada, Francisco teria ficado preso em uma cova feita para capturar “catetus”, um tipo porco selvagem, na qual teria ficado por três dias sem conseguir sair. Então fez uma promessa para São Manuel que se conseguisse sair daquela situação ergueria uma capela em seu nome, graça a qual foi atendida, ensejando o cumprimento da promessa (Silva 2002, p. 48).
Ao contrário do que acontece no município de Marco, durante esta pesquisa não foi localizada nenhuma capela ou igreja dedicada a São Manuel nos municípios da diocese de Tianguá, que compreende a região da Serra da Ibiapaba. Também não foi identificada a presença de ruas, praças, escolas ou outros estabelecimentos dedicados ao santo na região serrana. Portanto, não parece haver qualquer evidência da presença relevante de devotos de São Manuel nos municípios da Ibiapaba.
4ª Versão: Frei Vidal da Penha
A última versão trazida pelo Sr. José Alfredo Silva para a origem da Capela de São Manuel guarda semelhanças com outra, contada pela senhora Conceição (Tenora) Fonteles. As duas histórias apontam a origem da fé em São Manuel como decorrente das pregações do Frei Vidal da Penha, já mencionado anteriormente.
Na versão do Sr. José Alfredo, Francisco Ferreira Rios teria ido a Sobral por volta do ano de 1793, quando teria tido contato com as pregações de Frei Vidal sobre a vida e os milagres de São Manuel. Francisco teria então adquirido uma imagem do santo pelo significativo valor de Rs 1.200$000 (Um conto e duzentos mil réis), consagrando-a em um oratório de vidro em sua residência, sendo esta, objeto de adoração por parte dos moradores da comunidade (Silva 2002, p. 46).
Um elemento sugestivo do ano de 1793 como sendo a origem dos eventos narrados é o fato deste ano ter marcado o fim de uma severa seca iniciada em 1790. Sobre isso, Joaquim Alves, no livro História das Secas dos sec. XVII a XIX, citando o livro “O Município de Santanna”, afirma que:
No Ceará a seca de 1790 a 1793 foi tão rigorosa que na ribeira do Acaraú, algumas senhoras ainda mesmo abastadas, dando à luz nesse ano, se viram obrigadas a manter-se com alimentação de jacús, mel de abelha e carne de veado, na ausência absoluta de cereais, galinhas e outras carnes tragáveis. Diversos fazendeiros perderam todos os seus gados, outros, três partes destes. À população menos favorecida, sem auxílio do governo que, então, não tinha meios de proporcionar-lhe socorro, dispersara-se, procurando, parte a Ibiapaba e parte a margem do Parnahiba.
Pernambuco, era governado, então, por D. José Thomaz de Melo que, atendendo a um requerimento do Governador da Capitania do Ceará, “remeteu 600 alqueires de farinha que se dividiram em igual parte para Fortaleza e Aracati, por diminuta a poucos, e para pouco tempo pode chegar; e daqui resultou expedir eu, desta Capitania a cidade do Maranhão um pequeno barco que acaso aqui se achou, deprecando-se ao Exmo. Sr. General daquele Estado o seu auxilio para carregar com brevidade o mesmo barco, de farinha, arroz e mais legumes e, finalmente, tendo conseguido este socorro, ainda que pequeno, vendo já ancorado e em descarga neste Porto o tal Barco e esperando nas promessas de um Negociante da Villa da Parnahiba a quem dirigi outra simte. deprecação, que mandará equi uma sumaca com viveres o mais breve que lhe for possível (Alves, 1953, p. 57)
O relato acima dialoga diretamente com a segunda versão da história apresentada por José Alfredo Silva, segundo a qual a imagem de São Manuel foi dada por retirantes da seca que buscavam ajuda na cidade de Acaraú, local cujo porto possivelmente receberia os mantimentos vindos da Capitania do Maranhão. Ademais, também são trazidos elementos comuns à terceira história como a necessidade de recorrer a caça e a Serra da Ibiapaba como alternativa para obtenção de alimentos. Episódios como esse certamente se repetiram em estiagens posteriores ao longo do século XIX. Dessa forma, pode-se especular que todos esses elementos podem ter sido incorporados às tradições orais ao longo do tempo.
5ª Versão: A Promessa
Por outro lado, na versão de D. Conceição Tenora, o protagonista da história foi Ignácio Francisco Ferreira Fonteles (bisavô de Tenora e tio de Francisco Ferreira Rios) e o fato teria acontecido ao redor do ano de 1846. Ademais, conta que Ignacio teria sido acometido por um câncer na língua, e que teria prometido a São Manuel que em caso de cura construir-lhe-ia uma capela e doar-lhe-ia parte das terras que possuía. Apesar de ter a graça alcançada, Ignácio não cumpriu a promessa em vida, incumbindo seu filho mais velho, Joaquim Ferreira Fonteles, de construir a dita capela. Joaquim, por sua vez, teria contratado em Bela Cruz a construção de tijolos e possivelmente construtores para a execução do trabalho, sendo o primeiro nicho erguido em 1870, na esquina que fica aos fundos da atual igreja matriz, do lado direito.
Quanto à plausibilidade dessas duas últimas versões, pesa contra a de D. Tenora o fato de ter se passado no ano de 1846, distante do período que se supõe ter sido o de atuação do Frei Vidal, 1780 a 1820. Esse período seria compatível com a versão do Sr. José Alfredo, ainda mais considerando que, como já demonstrado, existem registros de que Frei Vidal esteve na Ribeira do Acaraú no final do século XVIII. Entretanto, Francisco Ferreira Fonteles Rios nasceu provavelmente apenas entre a primeira e segunda décadas do século XIX, de modo que ele também não poderia ser o protagonista dos eventos.
6ª Versão: A imagem que tinha
Encontrei ainda uma outra versão da história de D. Conceição Tenora, trazida no livro Igrejas do Ceará, de Francisco de Andrade Barroso, que não faz menção direta a Frei Vidal da Penha, dizendo apenas que Ignácio teria se inspirado em pregações em Sobral, que teriam ocorrido por volta do ano de 1846, quando teria adquirido a imagem de São Manuel, “talvez até por não ter encontrado outra” (Barroso, 1999, p. 263). Uma vez que Ignacio Francisco Ferreira Fonteles nasceu por volta de 1780, teria entre 60 e 70 anos no episódio, o que seria perfeitamente compatível.
A Minha Versão
Considerando todos os elementos trazidos, acho plausível que a aquisição da imagem e construção do primeiro oratório de vidro tenha sido feita de fato por Ignácio Francisco Ferreira Fonteles por volta do ano de 1846. A imagem teria então sido inicialmente venerada junto à comunidade local na residência dos Ferreira Fonteles, tendo o nicho sido erguido pouco tempo depois. É ponto pacífico que este já existia em 1853, quando o Presidente da Província, Joaquim Vilela de Castro Tavares sancionou a Lei nº 631, de 22 de dezembro, que definiu os limites da Freguesia da Barra do Acaraú:
Art 1º — A Freguesia da Barra do Acaraú fica, de ora em diante, com as freguesias limítrofes, pela maneira seguinte com a de Granja, pela barra do Rio Guriú; com a de Santana pelo lugar Marco, na ribeira do Acaraú, por um e outro lado, exclusive o nicho de S. Manoel; com a de Imperatriz, pela margem ocidental do rio Aracati-Assu, até a fazenda S. Fran. cisco, no Aracati-Mirim (grifo nosso).
Já quanto a construção da Capela, também devemos dar credibilidade a versão de D. Conceição Tenora, no que se refere a promessa de Ignácio e o papel de sei filho, Joaquim na construção do templo, exclusive a parte que se refere a influência de Frei Vidal da Penha. Entretanto, quanto ao ano de 1870, considero-o impreciso, visto que existem registros anteriores a essa data que já se referem a construção como Capela do Marco. Por exemplo, o batizado de Maria José Vasconcelos, neta de Francisco Ferreira Rios, ocorrido na noite de 20 de novembro de 1860, realizado pelo padre Francisco Xavier Nogueira. Portanto, esse seria o período mais provável de sua construção.
É possível que tenha sido um templo modesto no início, como todos da região, o que levou as pessoas, através da tradição oral a considerarem sua existência apenas a partir do momento em que houveram ampliações e reformas que o deixaram com mais "cara de igreja", digamos assim.
O Patrimônio da Capela
Convém dedicar algumas linhas para delimitar as terras que originaram o patrimônio da Capela de São Manuel, uma vez que foram nessas terras que se aglomeraram as primeiras residências formadoras do município. Infelizmente, não tivemos acesso aos documentos de doação como foi o caso da capela de Santa Cruz, de modo que tivemos que realizar algumas inferências para chegar a um veredito.
Primeiro, é certo que parte das terras foi doada pelo próprio construtor da capela, Joaquim Ferreira Fonteles, atendendo ao desejo de seu falecido pai. Um texto publicado na página Acervo Histórico do Marco, de autoria desconhecida, informa que “um homem de grande devoção prometeu a São Manuel que, caso ficasse curado de uma enfermidade doaria 300 braças (660 m) de terras para construir uma capela em agradecimento ao santo”. Conforme descrito anteriormente, esse trecho se refere a Ignácio Francisco Ferreira Fonteles.
Sabemos ainda que no recenseamento realizado em 1 de setembro de 1920, constam as terras da localidade de Salinas, localizada 2 km a leste da sede, como pertencentes ao patrimônio de São Manoel. Dessa forma, pode-se concluir que as terras que originalmente integravam o patrimônio da capela, e que hoje dão lugar a sede do município de Marco, consistiram de uma faixa de aproximadamente 660 metros de largura na margem esquerda do Rio Acaraú, limitado ao sul pela atual Rodovia CE-402, que delineia o perímetro urbano, por ao menos 2 km de comprimento, chegando até a localidade de Salinas.
Além dessas terras, Francisco de Andrade Barroso nos informa que o patrimônio da capela foi acrescido por doações feitas por Raimundo de Freitas Rios, que não teve filhos e deixou suas propriedades Juncuman (Junco Manso), Tapera Velha, Estreito (Parapuí) e Maracanã, as quais foram entregues à igreja por seu curador e sobrinho-neto, Artur Cialdini Silveira, também benfeitor pelo donativo que fez da fazenda chamada Almas (Barroso, 1999, p. 265). Ressalta-se que todas essas propriedades hoje são localidades dos municípios de Marco, Morrinhos e Santana do Acaraú. Essas doações provavelmente foram relativamente recentes, considerando que Artur Cialdini nasceu apenas em 1908.
ALVES, Joaquim. História das secas (séculos XVII a XIX). Edições do Instituto do Ceará, 1953.
BARROSO, Francisco de Andrade. Igrejas do Ceará: crônicas histórico descritivas. Fortaleza, 1999.
SILVA, José Alfredo et al. Breve história do município de Marco. INESP, Instituto de Estudos e Pesquisas sobre o Desenvolvimento do Estado do Ceará, 2002.
O Município de Sant'Anna: um pouco de histórico sobre o Ceará de 1608 a 1738. Santana do Acaraú: Pap. e Typ. Correio da Semana, 1926.








