A Misteriosa Casa de Pedra de Senador Sá


O ano era 1884, partindo de Sobral, o historiador Antônio Bezerra chega de trem ao povoado de Massapê, onde é recepcionado por José Gomes Ferreira Torres, chefe da estação de Pitombeiras. Junto de Bezerra estava o Sr. Ursulino Ferreira de Paula, que também trabalhava na referida linha férrea. Eram por volta de quatro horas quando o trio partiu a cavalo em direção ao Ôlho-d'Agua dos Picos. Vinte minutos depois, chegam ao local, assim descrito:

 ... se abriu diante de nós uma espécie de anfiteatro de rochas nuas e de formas grotescas, tendo em baixo à direita viçosos arvoredos alimentados pela umidade de um olho-d'água perene. A esquerda ficam os picos mais ou menos agudos que dão nome ao lugarejo. Mais além se descobre a casa de pedras que constitui uma curiosidade nessas paragens, e tem merecido a visita de quantos amam a ciência e mostram interesse pelas raridades.

É realmente digna de nota pela sua pesada construção, e principalmente pelas lendas caprichosas com que a imaginação do povo a tem procurado tornar célebre. Recostada à rocha de formação gnáissica, ergue-se como uma fortaleza, do solo a mais de dez metros de altura, tendo as paredes superiores 82 centímetros de grossura. Não tem e creio que nunca teve coberta, e apesar do abandono e estrago dos agentes atmosféricos, conserva-se ainda em perfeito estado. A entrada é pelo lado do fundo por duas portas na sala do centro, às quais correspondem duas janelas que dão vista para a planície e as outras duas salas do lado direito e esquerdo só têm comunicação interiormente.

Uns atribuem sua construção aos holandeses, outros aos jesuítas, e quer tenha sido levantada por estes ou aqueles, admira a perfeição do trabalho, visto como as pedras sustentadas sem cimento ou outra composição de argamassa se mostram ainda tão aprumadas que tanto do lado interno e externo não sobressai uma polegada da parede. Calculo que tenha de frente cerca de vinte metros (Bezerra, 1965, p. 79-80).

Essa descrição realizada pelo célebre historiador há mais de 140 anos corresponde a um conjunto de ruínas de uma casa forte, localizada no atual município de Senador Sá, que emancipou-se de Massapê em 1959. Tal construção, de origem ainda ignorada, foi objeto de pesquisa de uma expedição recente capitaneada pelo Prof. Manoel Odorico Moraes Filho, juntamente com uma equipe multidisciplinar, a 7 de julho de 2023. Os achados encontram-se registrados no artigo "Casa do Cão: Uma fortificação colonial no município de Senador Sá, Ceará", de Beatriz Guimarães e coautores (Guimarães et al., 2023).

Casa de Pedra, foto de Célio Cavalcante.

Segundo os autores, o sistema construtivo desta edificação foi realizado em alvenaria de pedra seca, sistema rudimentar que não faz uso de argamassa ou qualquer outro material ligante. Consiste na sobreposição de pedras em diferentes tamanhos, mas de espessuras consideráveis para garantir sua estabilidade e tendo seus vazios preenchidos pelas lascas da mesma pedra. Essa técnica contrasta com o padrão construtivo do período colonial, quando era mais comum as construções em pau a pique ou com cal e pedras (Guimarães et al., 2023, p. 10).

Trata-se de uma edificação de três ambientes, somando ao total 205m². Apesar de rudimentar, a construção manteve a preocupação em relação aos fatores externos e em como eles afetariam o local. Paredes largas para uma boa sustentabilidade da estrutura, grandes aberturas proporcionando ventilação cruzada, aberturas menores com proporção e posição estratégica tanto para o escoamento das águas pluviais como para ventilação natural, evitando que as águas que escorressem pela encosta se acumulassem dentro dos ambientes e uma estrutura de cumeeira que pudesse sustentar uma cobertura como proteção de sol e chuva (Guimarães et al., 2023, p. 14).

Quanto a sua finalidade, apesar da robustez da construção, ela não necessariamente foi concebida para fins militares, podendo ter sido a técnica de construção uma adaptação aos materiais disponíveis na região. Na minha opinião, a hipótese mais plausível quanto a sua construção é de que tenha sido feita pelos primeiros colonos portugueses da região, talvez em colaboração com os jesuítas, que entre o final do século XVII e início do século XVIII estabeleceram aldeamentos na região, posteriormente assumidos por padres seculares.

No contexto de conflito entre colonos e indígenas, a opção pela construção fortificada próxima a uma fonte perene de água mostra-se totalmente plausível. Existem sólidos precedentes nesse sentido, segundo Roberto Airon Silva (2010), as casas fortes surgiram como empreendimento de caráter especificamente bélico, na tentativa de anular a resistência indígena na ocupação dos sertões das capitanias do Estado do Brasil, na segunda metade do século XVII até o início do XVIII (Silva, 2010, p.226).

Quem pode ter construído a Casa de Pedra?

Apesar de a origem exata da construção em análise ainda ser um completo mistério, encontrei alguns indícios que podem guiar uma busca futura. O ponto de partida para tanto está na mesma obra a qual iniciei essa postagem, as Notas de Viagem de Antônio Bezerra. Mais adiante no texto, o autor traz o seguinte relato:

Tocávamos a base do mais elevado quando se nos apresentou o Sr. Alexandre da Cunha Freire, morador e possuidor do casebre que se esconde à sombra das grandes árvores ao lado direito do olho-d'água.

Nada soube nos informar com certeza a respeito do construtor da casa de pedras que no entanto pertencera a seu pai, Antônio da Cunha Freire, o qual se finara com idade superior a oitenta anos, havia bem pouco tempo; mas ouvia referir pelos habitantes dos arredores ter sido seu primeiro dono um estrangeiro que ajudado de uma preta velha nela só trabalhava à noite. 

Durante o dia nunca nenhum foi visto no serviço daquele colosso, de sorte que cada manhã aparecia um lanço de parede construída, como por encanto. A preta, dizia ele, constava que era o diabo. Ficamos a pensar [grifo nosso] (Bezerra, 1965, p. 80).

Fiquei curioso com a informação de que as terras nas quais a Casa de Pedra havia sido construída pertencera a Antônio da Cunha Freire, pois, segundo o historiador Renato Braga, esse era o mesmo nome de um dos pioneiros do município de Alcântaras, na Serra da Meruoca, distante apenas 25 km em linha reta de Senador Sá (Braga, 1964, p. 76). Conforme Braga, Antônio da Cunha Freire, juntamente com dois irmãos, teria sido um dos primeiros colonizadores da região, tendo chegado ainda no início do século XIII. Cabe ressaltar ainda que tanto Alcântaras quanto Senador Sá já foram distritos de Massapê (Sampaio, 1972). Isso me sugere que a história dessa construção pode estar diretamente ligada a família Cunha Freire.

Outra fonte de informação é o próprio nome do local, Olho D’água do Pico. Segundo França (2024), na década de 1850, essa propriedade pertenceu a José Camilo Linhares e seus pais, Capitão Joaquim José Alves Linhares e Maria da Purificação de Vasconcelos Linhares. Dessa forma, Camilo é bisneto do Sargento-mor Antônio Álvaro Linhares e Inês Madeira de Vasconcelos (uma das sete irmãs), bem como de José de Araújo Costa e Brites de Vasconcelos (outra das sete irmãs), proprietários do Sítio São José e um dos primeiros povoadores de AlcântarasPelo lado materno, Camilo é bisneto do Capitão-mor José de Xerez Furna Uchoa, que também habitava a Meruoca, em seu sítio Santa Úrsula.

José Camilo era casado com Maria da Cunha Trindade Linhares, filha de José Rodrigues Lima e de Ana Teresa de Jesus (Arruda, 1980, p. 7). Maria era bisneta do Capitão Domingos da Cunha Linhares, cunhado do já mencionado Antônio Álvaro Linhares, um dos primeiros povoadores da Ribeira do Acaraú juntamente com seu tio Félix da Cunha Linhares, que se estabeleceu no Sítio São José da Mutuca (Patriarca, Sobral). Um detalhe curioso é que em seu testamento Domingos da Cunha Linhares assinou como Domingos da Cunha Freire (Araújo, 2005, p. 342).

Félix da Cunha Linhares não teve filhos biológicos, tendo adotado uma menina de nome Albina. Uma parte dos seus bens, inclusive suas terras, foi herdada por seu sobrinho Domingos, que inclusive foi responsável por terminar a construção da capela iniciada por seu tio em 1718. Entre as várias sesmarias que recebeu, uma delas merece destaque. Concedida a 7 de janeiro de 1708, media meia légua (3,3 km) de comprimento por meia de largura nas margens do riacho Cachoeira, que vem do "boqueirão" da Serra da Meruoca e deságua no Rio Acaraú, até confrontar com a Serra da Tucunduba (Sesmarias, Vol. 5, nº 279, p. 70). Ressalta-se aqui que o termo "boqueirão" se refere a um vale entre montanhas, pelas quais escorrem as águas formando o dito riacho.

Estaria a casa de pedra dentro dessa antiga sesmaria? É difícil afirmar. Contudo existem alguns pontos sugestivos. De fato, o Olho D'Água dos Picos fica na borda de uma vale formado pelas serras da Gurgueia (ou Serra Verde) e o Serrote das Bombas, ambas partes integrantes da Meruoca. Nesse vale, há pouco mais de 2 km (0,3 léguas) da Casa de Pedra, corre um rio, hoje denominado Riacho dos Porcos, que após receber diferentes denominações aflui para o Rio Acaraú. Cerca de 20 km a oeste da construção existe atualmente o Riacho Tucunduba, que marca a divisa de Senador Sá e o município de Marco. Esse riacho nasce em um serrote próximo denominado Mucuripe (o mesmo Tucunduba?).

Outro ponto digno de nota é que um ano antes, a 16 de maio de 1707, Félix da Cunha Linhares já havia recebido outra sesmaria de três léguas (19,6 km), por meia de largura, no riacho do Macaco, no rio Acaraú (Sesmarias Vol. 4, nº 225, p. 16). Sobre isso, ainda hoje existe um Riacho próximo a essa região, denominado Macaco, que se liga ao supramencionado Riacho dos Porcos, formando um afluente do Acaraú, o Riacho Aiuá. Ademais, a descrição da sesmaria informa que esta encontrava-se nas ilhargas (lado mais longo do lote) do dito rio Acaraú, começando das testadas (lado mais curto do lote) do suplicante, o Cel. Felix da Cunha Linhares. 

A propriedade a que se refere a descrição, muito provavelmente é sesmaria recebida por Leonardo de Sá em 1702, repassada a Félix da Cunha Linhares como dote pelo casamento com sua filha, onde hoje se encontra o distrito de Patriarca, Sobral. Coincidentemente, ou não, a dita Casa de Pedra encontra-se há 30 km (4,5 léguas), perpendicular ao Rio Acaraú, na altura do referido distrito, portanto, relativamente próxima as outras propriedades do Coronel. Essa área abrange hoje grande parte do município de Massapê.

Quando da lavratura do testamento de Domingos, em 20 de abril de 1768, ele informa que sua filha Maria está casada com o Cap. João Rodrigues Lima com o dote que lhe demos..(Araújo, 2005, p. 340). Esse casal são os avós de Maria da Cunha, esposa de Camilo Linhares. Portanto, haveria um nexo familiar entre Félix da Cunha Linhares e os proprietários da Fazenda Olho D'Água do Pico, que possivelmente também a teriam recebido como presente de casamento de seus antepassados. 

Se aceitarmos essa hipótese, pode a Casa de Pedra de Senador Sá ter sido construída pelo próprio Félix da Cunha Linhares? Mais uma vez, faltam elementos para confirmar ou refutar essa hipótese. A favor dela vem o fato de que Félix, por ser militar, provavelmente era familiarizado com a construção de edifícios fortificados, e considerando o ambiente hostil aos colonizadores das primeiras décadas do século XVIII, ele teria motivos para essa precaução. Essa inclusive foi uma prática comum nesse período em outras partes da capitania, como na Ribeira do Jaguaribe (Da Silva, 2021).

Ademais, Félix da Cunha Linhares participou das primeiras expedições de exploração da Ribeira do Acaraú, sob o comando de seu sogro, Leonardo de Sá. Essas expedições se estenderam até quase a Ibiapaba e resultaram na captura de um significativo número indígenas, os quais foram posteriormente aldeados na Missão dos Reriús, na Meruoca (Documentação Histórica Pernambucana, Sesmarias. Vol. 1, p. 80, Recife,1954). Considerando isso, não é um absurdo imaginar que essa mão de obra poderia ter sido empregada na construção da Casa de Pedra. Sobre isso, o historiador Francisco Reinaldo nos informa que num raio de aproximadamente vinte quilômetros da Casa de Pedra existem vários sítios arqueológicos como Tucuns e Córrego da Onça, ligados as antigas habitações das populações indígenas (Reinaldo, 2023).

Um outro Cunha Freire...

Consultando a grandiosa obra Siará Grande, de Francisco Augusto Lima, que reúne informações sobre os primeiros portugueses a vir para o Ceará, localizei outro "Cunha Freire" que habitou a região, tratava-se de Manoel da Cunha Freire, natural do Bispado do Porto, que casou-se com Francisca Ferreira Passos, natural de Granja, Ceará (Lima, 2016, p. 1743). Sobre isso, cabe esclarecer que Senador Sá encontra-se na divisa dos termos das antigas vilas de Granja e Sobral, sendo que a definição exata desse limite só foi oficializada em meados do século XIX.

A Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, ao tratar do município de Massapê informa que em 1712, Manoel da Cunha Freire requereu em sesmaria, a data da terra "Olho-d'Agua dos Picos", fazendo já naquele tempo menção da existência da "Casa da Pedra" e de um açude que lhe fica ao lado (IBGE, 1959, p. 371). Entretanto, não consegui localizar o registro dessa sesmaria.

Segundo Batista Fontelene, Manoel 

...fixou residência no sertão da Tucunduba, onde adquiriu imensas glebas de boas terras, inclusive cinco léguas por Sesmaria e o restante por compra ao Capitão-Mor João Félix de Carvalho e outros, perfazendo um total de mais de vinte léguas, incluindo nestas seis léguas de terra situadas à margem do Riacho Inhanduba. Seu falecimento ocorreu no ano de 1764, tendo sido sepultado na Capela de Nossa Senhora do Livramento, do Parazinho, da Freguesia de Santa Cruz do Coreaú, hoje Granja [grifo nosso] (Fontelene, 2001, p. 222).

Cabe esclarecer que o Riacho Inhanduba, já no município de Marco, corre paralelo e próximo ao supracitado riacho Tucunduba. O capitão-mor João Félix de Carvalho, destacado sertanista, atuou ativamente na repressão aos povos indígenas da capitania (Barroso, 1958, p. 72). É mencionado como proprietário de terras neste último riacho Tucunduba, como consta na solicitação de sesmaria de Domingos Ferreira Passos, datada de 15 de janeiro de 1733 (Sesmarias Vol. 12, nº 52). Domingos, muito provavelmente é parente de Francisca, mulher de Manoel da Cunha Freire.

Ademais, Fontenele informa que do casamento de Manoel da Cunha Freire e Francisca Ferreira Passos nasceram quatro filhos, dentre os quais Antônio da Cunha Freire (Fontelene, 2001, p. 223). Pelo ano de falecimento de Manoel, é razoável supor que este seja o mesmo Antônio apontado por Renato Braga como sendo o pioneiro de Alcântaras. Entretanto, provavelmente não se trata do antigo proprietário da Casa de Pedra, pai de Alexandre, que pela descrição teria nascido apenas no começo do século XIX.

Sabe-se também que Antônio da Cunha Freire recebeu três léguas de terras de herança Manoel Ferreira Passos, falecido a 1 de maio de 1754, sepultado na Capela da Meruoca. Antônio também é mencionado no testamento de João de Andrade Pessoa (Pessoa Anta), que foi fuzilado a 30 de abril de 1825, como morador do termo de Granja, a quem o defunto devia a quantia de 100 mil réis por obrigação corrente e trinta e seis mais ou menos constantes de huma carta de minha firma tendo de si aberto huma conta de fazendas que mandou dar a seu procurador Manoel Coelho (França, 2024, p. 67).

Portanto, apesar de não ser possível identificar ainda a relação exata de parentesco, é bem provável que os dois Antônio sejam parentes em algum grau. Por fim, não é possível descartar alguma relação de parentesco entre Manoel e Félix da Cunha Linhares. Entretanto, ainda são apenas suposições que merecem estudos mais aprofundados no futuro.

Diego Carneiro

23 de janeiro de 2026

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A Misteriosa Casa de Pedra de Senador Sá. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 23 de janeiro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/11/a-misteriosa-casa-de-pedra-de-senador-sa.html

Referências

ARRUDA, Francisco de Assis Vasconcelos. Genealogia Sobralense - Os Linhares - Tomo IV. Iomps, 1980.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

BARROSO, Gustavo. Nos bastidores da história do Brazil. Edicões Melhoramentos, 1958.

BEZERRA, Antônio. Notas de viagem. Imprensa Universitária do Ceará, 1965.

BRAGA, Renato. Dicionário geográfico e histórico do Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1964.

DA SILVA, Rafael Ricarte. Redutos da Conquista: Casas Fortes e Arraiais como estratégia de combate na Capitania do Siará Grande (Século XVIII). Revista de História Bilros: História (s), Sociedade (s) e Cultura (s), v. 9, n. 18, 2021.

FONTENELE, A. Batista. A Marcha do Tempo: Os Fontenele. Fortaleza: SENAI/CE, 2001.

FRANÇA, Mavignier. Guia de Contexto, Pesquisa e Leitura do Primeiro Registro das Terras de Granja Ceará (1854-1857). Coreaú: Associação Memória Salva, 2024.

GUIMARÃES, Beatriz Freire et al. "Casa do Cão: Uma fortificação colonial no município de Senador Sá, Ceará“. Revista Tarairiú, v. 1, n. 23, 2023.

IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Enciclopédia dos municípios brasileiros. Vol. 16. Rio de Janeiro: IBGE, 1959.

REINALDO, Francisco Jameli Oliveira. Manifesto dos Vencidos (1713-1920): Ensaio para uma história alternativa de Massapê. Sobral: Sertão Cult, 2023.

SAMPAIO, Dorian; DA COSTA, Francisco José Lustosa. Anuário do Estado do Ceará. 1972.

SILVA, Roberto Aron. Arqueologia das Casas Fortes: Organização Militar, Território e Guerra na Capitania do Rio Grande do Norte - Século XVII. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais Área de Concentração em Antropologia / Arqueologia, da Universidade Federal da Bahia. 2010.

Os Coelho de Moraes na Ribeira do Acaraú*

A trajetória dos Coelho de Moraes insere-se no processo mais amplo de ocupação colonial do sertão cearense, marcado pela expansão das frentes pastoris, pela concessão de sesmarias e pela consolidação de redes familiares de poder. Felipe Coelho de Moraes, considerado o patriarca da família, chegou à capitania do Ceará em 1654, acompanhado de sua esposa Ana da Costa. De origem pernambucana e com experiência militar, destacou-se desde cedo nas guerras contra os povos indígenas, especialmente os Payacu, Canindé, Jaguaribara, Anacé e Paiacu, recebendo mercês régias e amplas extensões de terra em reconhecimento pelos “serviços prestados à Coroa”.

Em 1666, o capitão-mor João de Melo Gusmão concedeu a Felipe Coelho um regimento para comandar trinta soldados e combater os Payacu estabelecidos na Precabura. Essa ação militar marcou o início de sua ascensão como homem de armas e proprietário de terras. Em 1682, ele e seu irmão Jerônimo Coelho solicitaram formalmente três léguas de sesmaria entre o riacho Caracu e a serra do Maranguape, alegando mais de duas décadas de residência e criação de gado na capitania. As concessões seguintes consolidaram seu domínio sobre vastas áreas entre o Siupé, o Comembé (atual Cambeba) e a serra do Maranguape — terras que se estendiam das proximidades da fortaleza do Ceará até o litoral ocidental.

Felipe Coelho de Moraes e Ana da Costa tiveram vários filhos: Bento, Brás, Pedro de Mendonça, Margarida Maria, Felipe (o moço) e Domingos de Mendonça. Todos deram continuidade ao processo de interiorização da família, expandindo-se em direção à Ribeira do Acaraú e à serra da Meruoca. Bento Coelho de Moraes obteve ao menos seis sesmarias, sendo casado com Vitória Teixeira de Moraes, com quem teve Floriana Coelho de Moraes. Esta casou-se com o português Manoel Pereira Pinto, estabelecendo alianças entre a elite luso-brasileira e os descendentes mestiços locais. Félix Coelho de Moraes, provavelmente irmão de Bento, recebeu sete sesmarias e atuou em campanhas militares contra indígenas, como as de 1725 na serra do Baturité.

Ribeira do Acaraú

A partir de 1705, a família aparece nos registros de sesmarias da Ribeira do Acaraú, quando Manoel Dias de Carvalho e Félix Coelho de Moraes solicitaram terras entre o rio Coreaú e o serrote das Rolas, assim como nas proximidades das aldeias dos Tabajara, na Ibiapaba e dos Rerius, na Meruoca. No ano seguinte, novas concessões beneficiaram Bento e Pedro de Mendonça de Moraes, consolidando a presença dos Coelho e seus aparentados (como os Dias de Carvalho) nas margens dos rios Acaraú, Aracatiaçu e Coreaú. Entre 1700 e 1730, o grupo familiar acumulou dezenas de datas de terras, 21 apenas na ribeira do Acaraú, tornando-se um dos principais clãs proprietários do norte cearense.

Essas posses deram origem a uma rede de fazendas, capelas e povoados. Em parte das terras de Manuel Dias de Carvalho, ergueu-se o templo de Santo Antônio da Mouraria (atual Santo Antônio do Araquém). Já em 1726, Bento Coelho de Moraes e seus descendentes doaram terrenos para a edificação da capela de Santo Antônio da Mucaria, em Olho d’Água do Coreaú, demonstrando a estratégia de legitimação religiosa e social da família.

Os Coelho de Moraes também se destacaram na formação de alianças matrimoniais e militares. Suas filhas e netas casaram-se com oficiais das milícias locais e proprietários de sesmarias vizinhas, como os Pereira Pinto, os Dutra, os Soares Monteiro e os Araújo Cavalcante, entrelaçando as linhagens dominantes do sertão do Acaraú. Essa rede genealógica articulava poder político, prestígio social e controle territorial, sustentando uma elite mestiça, frequentemente identificada nos documentos setecentistas como “mulata” ou “mameluca”, que ascendeu por meio da guerra e da propriedade rural.

Os relatos missionários, contudo, retratam os Coelho de Moraes de modo ambíguo. Em cartas enviadas ao Conselho Ultramarino, padres jesuítas como Antônio de Sousa Leal os acusavam de tiranizar indígenas e brancos, manter concubinato com mulheres nativas e apropriar-se de cativos sem pagar o imposto real. Essas denúncias refletem o embate entre a elite militar-mestiça local e a autoridade eclesiástica, em torno do controle das aldeias e do trabalho indígena.

A descendência de Felipe Coelho se manteve influente até meados do século XVIII, multiplicando as fazendas e casamentos estratégicos. Entre seus netos e bisnetos figuram nomes como Floriana Coelho de Albuquerque, Ana Maria de Albuquerque, Pedro Coelho Pinto de Albuquerque e Joaquim Coelho de Albuquerque, estabelecidos entre o Acaraú e o Coreaú. As gerações seguintes integraram-se à aristocracia rural do norte cearense, participando da formação das vilas de Sobral, Santana do Acaraú, Morrinhos e Marco.

Assim, a trajetória dos Coelho de Moraes na Ribeira do Acaraú reflete o processo de consolidação de uma elite luso-mestiça formada pela conjugação de poder militar, posse da terra e redes de parentesco. Da guerra contra os povos indígenas à fundação de fazendas e capelas, a família desempenhou papel central na colonização do norte do Ceará, constituindo um dos núcleos genealógicos mais extensos e duradouros da região.

*Adaptado de Souza (2015), p. 97-121.

Referências

SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues de. “Minha Riqueza é Fruto do meu Trabalho”: negros de cabedais no Sertão do Acaraú (1709-1822). 2015. 223 f. (Tese Doutorado).

O Bígamo José Luís Pestana*

No mês de janeiro de 1780, o sertão cearense era castigado pelo calor quando, à beira do porto da Barra rio Acaraú, na vila de Sobral, encontrava-se um homem descrito como "de estatura mediana, seco de corpo, rosto comprido, cor alva tirando à loira, cabelo ruivo e fino, com sinais de alporcas no pescoço". Era figura conhecida na região, chamava-se Polinardo Caetano César de Ataíde.

Polinardo observava o desembarque de mercadorias vindas de Recife, tecidos, artigos manufaturados, ouro, prata e escravos, quando já se fechava o cerco sobre sua vida. Há cerca de uma década vivia em Sobral, antiga freguesia da Caiçara, para onde chegara por volta de 1770, após longa viagem a cavalo pelo sertão. Partira do Pajeú, em Pernambuco, atravessara o Riacho do Sangue (Jaguaretama), o rio das Pedras, o Banabuiú e o Quixeramobim, seguindo pela Estrada Nova da Boiada, até alcançar as caatingas de Santa Quitéria e, enfim, a Caiçara. Procurava um local isolado, distante de olhares conhecidos, onde pudesse recomeçar.

Na época, a freguesia contava com cerca de oitenta casas, das quais mais da metade coberta de telhas, e aproximadamente 670 fogos, sendo 105 fazendas de gado. A economia local baseava-se na pecuária, e o povoado fora elevado à condição de vila em 1772, passando a se chamar Vila Distinta e Real de Sobral, cuja criação foi celebrada em 5 de julho de 1773 com a ereção do pelourinho e aclamações ao rei D. José I.

Foi nesse contexto que Polinardo, recém-chegado, ganhou a confiança dos principais fazendeiros da região. De fala mansa, aparência fidalga e conhecimento das leis, aproximou-se de João Pinto de Mesquita, sargento-mor e grande proprietário local, nascido no Minho em 1702, que se fixara no sertão após receber sesmarias nas margens do rio Jucurutu. João Pinto de Mesquita fora juiz ordinário em 1748, 1752, 1760 e 1764, sargento-mor da Cavalaria do Regimento do Acaraú em 1755, comandante-geral da freguesia da Caiçara em 1765 e juiz da Irmandade do Santíssimo Sacramento. Morreu em 1782, deixando vasto patrimônio de terras, escravos e um rebanho de 1.954 animais.

Apresentando-se como Polinardo Caetano César de Ataíde, natural de Lisboa, filho de pais lisboetas e estudante de leis em Coimbra, Polinardo conquistou a confiança do sargento-mor e casou-se, em 1772, na Serra dos Cocos, com D. Izabel Mesquita, filha de João Pinto de Mesquita. Teve com ela três filhos. Declarando-se viúvo e natural de Lisboa, inseriu-se no rol dos homens respeitáveis da região, passou a administrar o dote da esposa e acumulou cargos públicos, fortalecendo sua posição na nova vila.

Antes de Sobral...

O que ninguém sabia era que Polinardo Caetano César de Ataíde era, na verdade, José Luís Pestana, natural do Funchal, na Ilha da Madeira, onde nascera em 1741. Filho de um contratador real que enfrentara dificuldades financeiras, José Luís estudara gramática e cursara quatro anos de Leis na Universidade de Coimbra. Deixando Portugal, veio para o Brasil em viagem de 70 a 80 dias, desembarcando em Recife, em Pernambuco.

No Recife, estabeleceu-se como comerciante, abrindo loja de fazendas na Ponte do Recife, e casou-se, em 2 de abril de 1761, na Igreja de Santa Cruz da Boa Vista, pertencente à Sé de Olinda, com Maria de Nazaré Lopes, filha de Francisco Lopes. Na ocasião, foi chamado pelo nome verdadeiro, José Luís Pestana. Viveu na casa do sogro, sustentado por ele, e teve dois filhos. Contudo, seu gosto pelo jogo e as dívidas acumuladas o levaram à ruína. Após a morte de Francisco Lopes, passou a ser cobrado pelos credores e acabou fugindo de Recife, abandonando a família.

Na fuga, passou pela Bahia, chegou a Salvador, e seguiu para o Sertão do Pajeú, onde tentou novamente se casar. Descoberto pela família da noiva, que soube de seu casamento anterior, sofreu uma tentativa de assassinato e fugiu com a ajuda de um mulato, a quem comprou fiado um cavalo, sela e roupas. Assim iniciou a jornada que o levaria ao Ceará e à vila de Sobral, onde se estabeleceu e recomeçou a vida sob novo nome.

A Denúncia ao Tribunal do Santo Ofício

A partir de 1777, suas antigas relações comerciais o denunciaram. O capitão Manoel da Ressurreição, natural da Paraíba e morador em Recife, reconheceu-o no porto do Acaraú e o identificou como o antigo José Luís Pestana. Comunicou o fato ao cunhado de Polinardo, João Pinto Mesquita, e, posteriormente, ao comissário do Santo Ofício, Joaquim Marques de Araújo, residente em Recife. Também participou da denúncia Vicente da Silva Fialho, comerciante português de Alcobaça, nomeado Familiar do Santo Ofício em 4 de junho de 1776, que atuava entre Recife e Sobral.

Em 13 de maio de 1778, Manoel da Ressurreição formalizou a denúncia de bigamia perante o comissário Joaquim Marques de Araújo. O comissário iniciou as investigações, conforme o Regimento da Inquisição de 1774, buscando as certidões de casamento. Confirmou o primeiro matrimônio de José Luís Pestana, em 1761, e o segundo, celebrado em Sobral por João Ribeiro Pessoa, pároco local e também Familiar do Santo Ofício, habilitado desde 1771.

A partir de 12 de janeiro de 1779, foram ouvidas as testemunhas: José Feliz Barbosa, serigueiro de Recife; Maria de Nazaré Lopes, a primeira esposa; o capitão Thomas da Costa; o capitão Luiz Pereira Brandão, natural de Braga e comerciante com negócios no Acaraú; o sargento-mor Manoel Carneiro Rios, de Iguarassu, Familiar da Inquisição e contratador real do açúcar em Recife; e o capitão João Ferreira Lopes, cunhado de Pestana. Os depoimentos confirmaram que Polinardo vivia maritalmente em Sobral, onde era reconhecido como genro do sargento-mor João Pinto de Mesquita e pai de três filhos, e que sua primeira esposa ainda estava viva em Pernambuco.

Enquanto isso, em Sobral, João Mesquita, irmão de Izabel, também buscava provas. Ajudado por um mulato que reconheceu Polinardo como o homem a quem vendera um cavalo no Pajeú, João Mesquita enviou um amigo a Recife, onde este localizou Maria de Nazaré e confirmou a identidade de Pestana. João Mesquita viajou pessoalmente à cidade, encontrou-se com os cunhados do primeiro casamento e, comparando a letra, o cabelo ruivo e as marcas no pescoço, concluiu que Pestana e Polinardo eram a mesma pessoa.

De volta a Sobral, João Mesquita comunicou o caso ao padre João Ribeiro Pessoa, que escreveu ao comissário Joaquim Marques de Araújo denunciando formalmente o crime de bigamia. Polinardo, ao ser confrontado, negou as acusações, afirmando que era alvo de inveja do cunhado e desafiando-o a provar a existência da primeira esposa.

Em 24 de janeiro de 1780, Polinardo Caetano César de Ataíde foi preso no porto do Acaraú por ordem do Tribunal do Santo Ofício de Lisboa. A denúncia de Manoel da Ressurreição, os testemunhos recolhidos em Recife, as diligências conduzidas pelos Familiares Vicente Fialho e João Ribeiro Pessoa e a atuação do comissário Joaquim Marques de Araújo resultaram em sua captura. Assim, mesmo nas terras distantes do sertão do Ceará, a Inquisição alcançou o homem que um dia fora José Luís Pestana, natural da Ilha da Madeira, comerciante de Recife, fugitivo, bígamo e juiz ordinário da vila de Sobral.

*Adaptado de Vieira Júnior (2014), p. 96-141.

Referências

VIEIRA JR, Antônio Otaviano Vieira Júnior. A inquisição e o sertão. Edições Demócrito Rocha, 2014.

A Bandeira do Coronel Leonardo de Sá

Leonardo Ribeiro de Sá nasceu no ano de 1656, em Vila Nova de Famalicão, Braga, Portugal,  filho do Padre Antônio de Sá Barreiros e de Maria Barroza. Migrou para o Brasil ainda criança, vindo inicialmente para Olinda, tendo passado pelo Rio Grande do Norte onde possuiu bens de raiz (Araújo, 2005, p. 76). Veio residir no Forte N. S. da Assunção, em Fortaleza, já nos primeiros anos da década de 1670. 

Lá serviu como soldado na praça da companhia do Capitão Domingos Gonçalves Freire e do Capitão Francisco Nogueira, juntamente com seu tio Sebastião de Sá Barroso, que alguns anos depois, a 7 de maio de 1678, seria nomeado por carta patente Capitão-mor do Ceará. Sebastião de Sá ocupou o cargo duas vezes, sendo a primeira até 11 de setembro de 1682 (Araújo, 2005, p. 44, 51).

Nesse mesmo ano, a 7 de setembro de 1682, Leonardo de Sá conseguiu sesmaria de uma sorte de terra no riacho Juá, correndo pelo rio Siupé, onde se estabeleceu. Essa sesmaria foi obtida juntamente com seus companheiros de arma Francisco Dias Carvalho, Bernardo Coelho de Andrade e Domingos de Mendonça da Câmara (Cfr. Sesmaria vol. 1, p. 64).

Foi militar de alto conceito chegando até ao posto de Coronel. Ainda no final do século XVII ocupou, por um breve período, o posto de Capitão de Cavalos do Distrito do Ceará, tendo sido destituído desta função por ordem régia expedida a 6 de outubro de 1686 (Cfr. RIC, vol. 27, p. 60)Participou também da vida política da capitania, tendo sido eleito vereador da Câmara da recém-criada Vila de São José do Ribamar, no ano de 1701 (Araújo, 2005, p. 44).

Em 1697 é feita a primeira tentativa de colonização da Ribeira do Acaraú. O Sargento-mor Leonardo de Sá penetra pelo interior desta região em viagem de reconhecimento de terreno que desejava solicitar por sesmaria e no desejo de civilizar e domar os aborígenes. Na petição que dirigiu a Dom Fernando Martins Mascarenhas de Alencastro, Governador de Pernambuco, solicitando confirmação de uma sesmaria, diz textualmente Leonardo de Sá: 

“...ser ele suplicante o primeiro povoador da dita Ribeira e havendo respeito do excessivo gasto que fez e dispêndio de sua Fazenda em fazer aldear o gentio bravio que nela habitava, reduzindo-os ao grêmio da Igreja como consta das certidões do vigário daquela Capitania e dos Missionários, sendo o suplicante Povoador das terras no ano de 97 em que não havia tributo nem pensão como consta as certidões dos Padres da Companhia, missionários da serra da Ibiapaba, por cuja causa deve ser isenta a confirmação da dita data ...” (Cfr. Documentação Histórica Pernambucana — Sesmarias — Vol. |, p. 80 — Recife — 1954).

Essa sesmaria foi confirmada a 14 de outubro 1702, obtida em parceria com Antônio da Costa Peixoto, medindo três léguas de terra seguindo o curso do rio Acaraú, com meia légua de largo para cada banda do dito rio (Sesmarias, vol. 2, p. 101). Antônio da Costa Peixoto nasceu em Portugal, mudando-se para o Ceará por volta de 1676, onde serviu como soldado no Forte N. S. de Assunção, juntamente com Leonardo de Sá. Faleceu no ano de 1746, tendo seu inventário aberto a 20 de agosto desse ano (Lima, 2016, p. 117).

Os dois sesmeiros, Antônio da Costa Peixoto e Leonardo de Sá, mantinham íntimas e profundas relações de amizade. Ambos foram vereadores na composição das primeiras câmaras da Vila de Aquiraz, eram vizinhos em Siupé, tinham filhos casados entre si, professavam e praticavam a mesma fé religiosa, pediam juntos as mesmas sesmarias, o que bem demonstra a intimidade na vida social, política e familiar que os unia (Araújo, 2005).

Nenhum dos dois sesmeiros chegou a se apossar pessoalmente desta sesmaria de 1702, distribuindo-a entre seus filhos, que vieram povoá-la. Nessas terras, à margem direita do rio, foram construídas as Fazendas Várzea Grande e Marrecas, e à margem esquerda as Fazendas Caiçara, Cruz do Padre e Pedra Branca. Exatamente a Fazenda Caiçara, recebida como dote de casamento por Apolônia Costa, filha de Antônio, foi o berço da cidade de Sobral (Araújo, 2005, p. 73). Leonardo também dou terras ao seu genro, Capitão Félix da Cunha Linhares, constituindo o atual distrito do Patriarca, em Sobral.  

Logo que aqui chegaram com o fim de se apossar das terras desta sesmaria, organizaram uma caravana. Era composta do Coronel Leonardo de Sá, Felix da Cunha Linhares, Antônio Marques Leitão e Bento Coelho e tinha o fim de descobrir e palmilhar terras virgens, semeando “com braço infatigável e alma sadia” a civilização que começava a penetrar nestes sertões desertos. Nesta avançada, a caravana chegou até quase ao pé da Ibiapaba, imediações de Pacujá, a cavalo, descobrindo rios e tomando conhecimento da situação geográfica da região. Narrando os episódios e riscos desta aventura os quatro desbravadores sertanistas fazem petição de outra sesmaria às margens do rio Arariaçu (?), no que são atendidos pelo Capitão Gabriel da Silva do Lago a 13 de novembro de 1706 (Sesmaria, vol. 3, p. 83).

Nesse mesmo ano de 1706 lhe foram concedidas mais duas sesmarias na ribeira do Acaraú. Uma a 29 de julho, em parceria com Mariana da Silva do Lago, medindo três léguas de terra no rio Acaraú pegando da testada de José Francisco, morador e povoador do dito rio, com meia légua de terra para cada banda do mesmo rio (Sesmaria, vol. 3, p. 64). E outra em 6 de agosto, medindo uma légua, principiando dos últimos providos dos salgados do rio Acaraú inteirando-se pelos moritizais de Jacuoca (Acaraú) correndo rumo direito para a parte do Aracati-mirim, terra esta devoluta e desaproveitada e que só ele suplicante a tem povoado (lb., 3, p. 60).

Descendência de Leonardo de Sá

Existem seis filhos conhecidos de Leonardo de Sá, o quais vieram ocupar as terras recebidas pelo pai na Ribeira do Acaraú, entrelaçando-se com as principais famílias da região.

1. Maria de Sá, cearense, nascida em 1679, c.c. o português Félix da Cunha Linhares, filho de Agostinho da Cunha e Ana de Araújo, em 1702. O casal era proprietário do Sítio São José, atual Patriarca, distrito de Sobral, e receberam uma sesmaria no Riacho do Macaco em 1707.

2. Coronel Sebastião de Sá Barroso, pernambucano, nascido por volta de 1684, c.c. Madalena Saraiva. Era possuidor de muitas terras nesta Ribeira, inclusive onde hoje se encontra a cidade de Santana do Acaraú que foram compradas pelo Pe. Antônio dos Santos da Silveira. Residiu na Serra da Meruoca onde doou terra para a constituição do patrimônio da Capela de N. S. da Conceição.

3. João de Sá Barroso, nascido em Granja, c.c. Felícia Vasconcelos, filha de Simão Góes de Vasconcelos e Felícia Soares da Costa. Recebeu quatro sesmarias: no rio Acaraú em 1702, na Lagoa das Pedras em 1714, na Lagoa do Inheegua em 1716 e no rio Mundaú em 1718.

4. Sargento-mor Antônio de Sá Barroso, nascido em Portugal por volta de 1712, c.c. Ignez de Araújo e Vasconcelos. Recebeu uma sesmaria em 1736 no rio Acaraú

5. Leonarda de Sá, pernambucana, nascida aproximadamente em 1719, c.c. Capitão Francisco Dias Peixoto. Receberam uma sesmaria em 1726 no rio Aracati-mirim. Seu marido faleceu a 9 de junho de 1730, sendo sepultado na Capela do Sítio São José (Patriarca), capela esta cuja construção tinha sido começada por seu cunhado Felix da Cunha Linhares.

6. Paula de Sá, pernambucana, c.c. Nicolau da Costa Peixoto, filho de Antônio da Costa Peixoto, sesmeiros do Baixo Vale do Acaraú, se estabeleceram no Sitio Araticus, Bela Cruz, em 1702. Nicolau foi doador de terras para a Capela de Santa Cruz (Bela-Cruz).

Além de sua filiação, Leonardo de Sá possuía outros laços de parentesco com os primeiros moradores do Baixo Acaraú. Ele era sobrinho de Madalena de Sá, avó de Madalena de Sá e Oliveira, irmã do Capitão Domingos de Aguiar e Oliveira, um dos fundadores de Bela Cruz, e esposa de Manoel Vaz Carrasco, pai das célebres sete irmãs.

Diego Carneiro

5 de novembro de 2025

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A Bandeira do Coronel Leonardo de Sá. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 5 de novembro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/11/a-bandeira-do-coronel-leonardo-de-sa.html
Referências
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2016.

A Colonização da Serra da Meruoca

 

Em 1724 chega a região da Meruoca o primeiro casal de brancos com intenção de fixar residência. Tratava-se da família do Cel. Sebastião de Sá e sua esposa Cosma Ribeiro Franca, que tomara posse de uma sesmaria de duas léguas e meia (16,5 km), recebida as margens do riacho Itacaranha. Lá construíram uma casa e um engenho de rapadura (Araújo, 1979, p. 36). Sebastião de Sá era filho do sertanista Cel. Leonardo de Sá, soltado do forte, e um dos primeiros a desbravar a região. 

Conforme o livro Município de Santana, o casal teria se estabelecido inicialmente em terras hoje pertencentes a este município, migrando para a Meruoca apenas em 1726, juntamente com seu irmão Antônio de Sá, fugindo de uma grande estiagem que deu nesse ano. Lá Antônio teria fundado o Sitio Bom Sucesso e Sebastião, o Sitio Santa Maria (O Município de Santana, 1926, p. 44).

Nesse local, que já abrigava a missão dos reriús, existia uma capela construída provavelmente por volta de 1712 pelos indígenas, a pedido do Pe José Teixeira de Miranda, padre secular designado para comandar a dita missão. O templo seguia o padrão construtivo da época, com paredes de taipa e coberta de palha, erguida na margem esquerda do Itacaranha, no local denominado "pedra roída"  (Araújo, 1979, p. 35). A igrejinha tosca, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, é uma das mencionadas no primeiro livro dos assentos de batizados e casamentos do Curato do Acaraú (Nobre, 1980, p. 320).

Por volta de 1716, Pe. Miranda deixa a Meruoca, indo se juntar ao seu irmão, José Borges de Novaes na Missão do Aracati-mirim. Nesse período, chega a Ribeira do Acaraú Pe. João Matos Monteiro, inicialmente em missão e posteriormente como chefe do recém criado Curato do Acaraú, cuja jurisdição abrangia também as missões seculares, inclusive a dos reriús. Padre Matinhos, como era conhecido, opôs-se aos planos do Cel. Sebastião de Sá de derrubar a antiga capela de taipa para que fosse construída uma outra em tijolo e cal (Nobre, 1980, p. 320)

A oposição vigário se justificaria pelo fato das terras onde seria realizada a obra não terem sido oficialmente doadas a igreja, o que fato só aconteceu alguns anos depois, em 1727, quando era cura o Pe. João da Costa Ribeiro. O patrimônio da capela consistia de "meia légua (3,3 km) de terra, cem vacas parideiras e uma engenhoca de fazer mel" (Araújo, 1979, p. 37). Segundo Pe Sadoc, a data mais provável para a bênção da nova capela teria sido 21 de setembro de 1727, realizada pelo próprio padre João da Costa Ribeiro e seu coadjutor, padre Dionísio Teixeira de Lira. 

O patrimônio somente foi julgado por título canônico no ano de 1767, quando a capela foi visitada pelo Pe. Dr. José Teixeira de Azevedo, visitador canônico dos serões do norte. Assim como em outros tantos casos, nos terrenos aforados a terceiros foram construídas as primeiras residências que viriam a formar o núcleo urbano do município de Meruoca.

Como abordamos em outra postagem, o Cel. Sebastião de Sá terminou a vida preso em função de diversas acusações, como de envolvimento em uma revolta contra o então ouvidor geral da capitania, Loureiro de Medeiros, assim como por ter cometido três assassinatos, dentre os quais sua própria filha, Eugênia de Sá (De Souza e Duque, 2018, p. 18). Entre os bens deixados por ele, consta "uma légua e meia de terra na serra da Meruoca, avaliada em 75$000", em valores de 1741.

Descendência do Cel. Sebastião de Sá e Cosma Ribeiro

Do matrimônio de Sebastião de Sá e Cosma Ribeiro Franca nasceram os seguintes filhos:

1. Sargento-mor Antônio de Sá Barroso, c.c. Inês de Araújo Vasconcelos, filha do Cap. Manuel de Góes e Marinha de Araújo Vasconcelos, a 9 de fevereiro de 1723, na Capela de N. Sra. da Soledade de Gargahu.

2. Sebastião de Sá (Junior), batizado a 26 de julho de 1729 na, Capela de São José, c.c. Maria do Ó dos Prazeres, filha do escrivão José do Rego Monteiro e Maria Pereira, a 27 de maio de 1748.

3. Maria de Sá, batizada na Capela de Meruoca a 25 de setembro do 1727, c.c. o Alferes Manuel Francisco de Oliveira, o qual faleceu em dezembro de 1755 em Fortaleza.

O Coronel também teve duas filhas naturais com a índia Madalena Saraiva:

4.  Maria José, c.c. Inácio Dias Ribeiro, filho natural de Isabel Ribeiro, índia mameluca forra a 29 de aposto de 1743, na Fazenda Lagoa do Sargento-mor Antônio de Sá Barroso. Inácio Dias foi criado pela mãe do Pe. Manuel Poderoso de Morais, sacerdote que faleceu na Meruoca a 27 de setembro de 1736, e foi educado pelo Pe. Antônio dos Santos Silveira, fundador da Capela de Santana do Olho D'Água.

5. Sebastiana Saraiva, c.c. Pascoal Leitão e Abreu, filho de Manuel de Góes e Mariinha de Araújo Vasconcelos.

D. Cosma Ribeiro, antes de casar com o Cel. Sebastião de Sá, também tivera dois filhos naturais:

1. Luis Nicolau Henriques, solteiro, participante da rebelião de 1732, condenado e preso pela Relação da Bahia, deportado para Angola, onde falaceu;

2. Antônia Dias Ribeiro, c.c. José Barbosa de Carvalho.


O Sítio São José de Alcântaras

Em outra postagem já contamos um pouco da história do Capitão José de Araújo Costa, português que migrou para a Ribeira do Acaraú em meados da década de 1740, estabelecendo-se na Fazenda Lagoa Grande, entre os atuais municípios de Acaraú e Bela Cruz. No inventário do Capitão, datado de 25 de setembro de 1792, entre suas vastas propriedades, constava um pedaço de terra, "de plantar lavoura", denominado Sitio São José, que segundo o memorialista Bertoni Vasconcelos, corresponde ao atual município de Alcântaras (Diogo, 2016, p. 67).

A descrição desta propriedade informa que se tratava de:

"Um pedaço de terra de plantar lavoura na Serra da Meruoca, foreiro ao Senado da Câmara desta Vila de Sobral, pegando o seu comprimento da parte de cima de uma cerca de pinheiros até testar na parte do nascente com terras da Fazenda Pedra Branca com uma légua de largo, meia para cada banda, que houve por compra do Sargento-mor Pedro Ferreira da Ponte, com todas as benfeitorias que se acharem no dito sítio, avaliado em 200$000". 

O Sargento-mor Pedro Ferreira da Ponte era filho do Major Francisco Ferreira da Ponte e de Maria Madalena de Sá, irmã de Brites de Vasconcelos, esposa José de Araújo Costa. Brites e Maria Madalena eram duas das sete irmãs, filhas de Manoel Vaz Carrasco. Não se sabe ao certo como Pedro obteve essa propriedade. Já quanto a citada Fazenda Pedra Branca, segundo Pe. Sadoc, esta ficava próxima a Sobral e pertencia ao Capitão Francisco da Cunha de Araújo, sobrinho de Félix da Cunha Linhares (Araújo, 2005, p. 359).

Segundo Bertoni, a menção mais antiga ao Sítio São José é data de 4 de outubro de 1735, no batizado de Agueda, filha de Francisca, escrava o Pe Manoel Poderoso de Morais. Foram padrinhos Nicolau e Antônia Ribeiro, ambos filhos naturais de Cosma Ribeiro, esposa do Cel. Sebastião de Sá (Liv. Batismo, 1725-1749, fl. 46 v). Sabe-se também que após a morte do Capitão José de Araújo Costa, a viúva Brites de Vasconcelos, então com 67 anos, mudou-se definitivamente para o Sítio São José, onde permaneceu até sua morte em 10 de fevereiro de 1814 (Araújo, 2000, p. 154).

A denominação Alcântaras teria sido bastante posterior. Segundo o historiador Renato Braga, o português Antônio da Cunha Freire, juntamente com dois irmãos, teriam sido os patriarcas do primitivo povoado de São José. O filho de Antônio, José Joaquim da Cunha Freire, teria sido o primeiro a nascer na região, tendo vivido entre 1700 e 1772. Ainda conforme Braga, os descendentes destes três ramos lusitanos teriam substituído o patronímico Cunha Freire por Alcântara, nome que acabou por suplantar o original e se estender ao próprio topônimo da localidade, que passou a se chamar São José dos Alcântaras (Braga, 1964, p. 76).

Dentre os descendentes do patriarca Antônio da Cunha Freire, destacou-se João Capistrano de Alcântaras que construiu a primeira casa de alvenaria em São José e a primitiva Igreja, iniciando, assim, a vida religiosa no lugarejo. O Patrimônio inicial foi um terreno, medindo 50 braças de frente por 60 de fundo e uma casa de tijolo localizada na mesma terra. A escritura da doação da terra foi feita no Cartório de Coreaú, no dia 22 de Fevereiro de 1908. A Capela só teve seus trabalhos totalmente concluídos depois de 1916, embora a este tempo fossem celebrados lá os ofícios religiosos e as desobrigas (Lira, 1984, p. 256).

Na segunda metade do século XVIII a Serra da Meruoca já encontrava-se plenamente habitada. Em 1767 já existiam vinte engenhocas de fabricar mel e no tombamento de 1778, promovido pela Câmara de Sobral, foram contados 210 sítios, sendo a grande maioria com 300 a 400 braças de frente (Diogo, 2016, p. 75). Nessa época, as áreas que correspondem hoje às localidades de Floresta, Palestina do Norte, Sítio Monte, Santa Úrsula e São Rafael já eram habitadas por núcleos de povoamento que se formavam nos arredores de riachos e pequenas capelas (Soares e Soares, 2019, p. 22).

Entre estes, destaca-se o Sítio Santa Úrsula, que pertenceu a José de Xerez Furna Uchoa, e onde em 1747 foi plantada a primeira muda de café do Ceará, presente da corte de Luís XV, rei da França. Furna Uchoa foi homem influente na Ribeira do Acaraú e era casado com Rosa de Sá e Oliveira, outra das sete irmãs, filha Manoel Vaz Carrasco.

Diego Carneiro

03 de novembro de 2025

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. A Colonização da Serra da Meruoca. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 03 de novembro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/11/a-colonizacao-da-meruoca.html

Referências

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

ARAÚJO, Francisco Sadoc. História religiosa da Meruoca. Impr. Universitária, UVA, 1979.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

BRAGA, Renato. Dicionário geográfico e histórico do Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1964.

DE SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues; DUQUE, Adauto Neto Fonseca. As Disputas Políticas na Ribeira do Acaraú em torno da Morte e dos Bens do Coronel Sebastião Pinheiro Raposo (1720-1737). Revista Historiar, v. 10, n. 19, p. 5-32, 2018.

DIOGO, Bertoni Vasconcelos. Alcântaras: III Séculos de História. Alcântaras, 2016.

LIRA, João Mendes. Subsídios para a história eclesiástica e política do Ceará. Rio de Janeiro: Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1984.

NOBRE, Geraldo Silva. História eclesiástica do Ceará. Secretaria de Cultura e Desporto, 1980.

O Município de Sant'Anna: um pouco de histórico sobre o Ceará de 1608 a 1738. Santana do Acaraú: Pap. e Typ. Correio da Semana, 1926.

SOARES, José Wellington; SOARES, Francisco Edson. Monsenhor José Furtado Cavalcante: sua história devida na história da Meruoca. Meruoca: Serão Cult, 2019.