Existem alguns personagens, cuja vida destaca-se pela participação nos mais variados eventos históricos. Esse é o caso de Simão de Góes de Vasconcelos, um dos "descobridores" do Rio Acaraú, isso ainda no final do século XVII. Simão é oriundo de Pernambuco, filho do lendário sertanista Manoel de Góes, que em 1782 reivindicou a primeira sesmaria da Ribeira do Acaraú. Essa data foi confirmada a 20 de setembro de 1783, tendo por beneficiários, além de Simão e seu pai, seu tio Francisco de Góes e mais quatro companheiros (Sesmarias, Vol. 1, nº 36, p. 90).
Na solicitação eles informaram que partiram de Pernambuco com seus gados com destino ao Maranhão, quando se depararam com o Rio Acaraú, onde se estabeleceram. Entretanto, por não terem conseguido ocupar todas essas terras no prazo de cinco anos, várias dessas prescreveram, sendo que no tombamento de 1709 coube aos três sesmeiros citados o montante de nove léguas na região do município de Santana do Acaraú (Araújo, 2005, p. 91).
Mais de quarenta anos depois da primeira solicitação, em 27 de julho de 1724, Simão de Góes consegue, juntamente com D. Engracia de Vasconcelos, uma sorte de terra de três léguas (19,8 km), para cada, na ribeira do Acaraú, concedida pelo Capitão-mor Manoel Francês. Tais terras encontravam-se nas ilhargas da sesmaria concedida ao seu pai em 1683. Conforme a solicitação, ao medir suas terras, perceberam que ainda sobravam trechos próximos ao rio, com nascentes de água. Eles argumentaram que não se poderia conceder essas sobras a terceiros, pois isso prejudicaria suas criações de gado, devido à estreiteza do rio. Por isso, solicitam que seja feito um aviso oficial aos demais moradores, para que não tentem reivindicar essas terras (Sesmarias Vol. 11, nº 123, p. 194).
Essas não foram as únicas sesmarias obtidas por Simão e sua família. Em 19 de fevereiro de 1685, Simão de Góes, juntamente com seu pai, Manoel de Góes, Francisco Ferreira da Ponte e outros sete companheiros recebem sesmarias nos Rios Curú e Banabuiú, na ribeira do Jaguaribe (DHP Vol. 1, 1954, p. 159). A solicitação dessa sesmaria foi feita inicialmente na Bahia e só depois foi confirmada no Ceará, em 26 de junho de 1708, pelo Capitão-mor Gabriel da Silva Lago (Sesmarias Vol. 5, nº 317, p. 135).
Em 12 de abril de 1703, juntamente com Antônio de Brito, Simão consegue sesmarias de três de terra no riacho dos Porcos, Ribeira do Jaguaribe, concedida pelo Capitão-mor Jorge de Barros Leite (Sesmarias Vol. 2, nº 126, p. 119). Ainda nessa região Simão envolveu-se em um conflito pela posse das terras do Sítio Boqueirão, que teria vendido ao Coronel João de Barros Braga. O sesmeiro dizia-se o primeiro povoador destas terras da ribeira do Icó, mas não teria confirmado legalmente sua posse. Na verdade, estas pertenciam por direito ao sesmeiro Leonardo Franco Lapenha, que tinha mais de 30 anos de posse legítima, o que motivou uma disputa judicial entre os anos de 1722-23 (Bezerra, 1918, p. 96-100).
Simão de Góes e a Guerra dos Mascates
A Guerra dos Mascates (1710-1711), na Capitania de Pernambuco, foi um conflito entre os senhores de engenhos de Olinda e os comerciantes portugueses do Recife, chamados pejorativamente de mascates. Após a expulsão dos holandeses, em 1654, a economia açucareira entrou em crise devido à queda dos preços internacionais e à concorrência do açúcar das Antilhas. Sem capital para saldar suas dívidas, os latifundiários passaram a recorrer a empréstimos junto aos comerciantes, que cobravam juros altos, aumentando o ressentimento dos olindenses. A emancipação político administrativa do Recife, então subordinado a Olinda, foi vista como uma ameaça, pois elevava a burguesia mercantil à mesma posição política dos devedores aristocratas.
As hostilidades começaram em Vitória de Santo Antão, lideradas pelo Capitão-mor Pedro Ribeiro da Silva, e se intensificaram com reforços de Afogados, São Lourenço e Olinda, comandados por Bernardo Vieira de Melo e Leonardo Bezerra Cavalcanti. As tropas olindenses invadiram o Recife, destruíram o Pelourinho, rasgaram o Foral régio, libertaram prisioneiros e perseguiram pessoas ligadas ao governador Sebastião de Castro Caldas Barbosa.
Entre os perseguidos, estava o Coronel Simão de Góes, que se escondera em um convento e depois, assim como o ex-governador, se viu obrigado a fugir para a Bahia em uma jangada, no dia 14 de novembro de 1710 (IHGB, T3-1, 1890, p. 54). De lá ele teria ido para a Paraíba, onde teria continuado apoiando o movimento dos mascates. Em carta da câmara de Olinda ao Governador Geral do Brasil, João da Mota Gama, datada de 26 de junho de 1711, Simão de Góes é apontado como um dos apoiadores da resistência dos recifenses (IHGB, Nº 9, 1853, p. 26).
Em 3 de agosto de 1711, o governo local intercepta uma carta de Simão de Góes endereçada ao ex-governador Sebastião de Castro, "com varias notícias da sua diligência, e gasto, e de Joaquim d'Almeida na fomentação da guerra, e do descuido, com que já se achava João da Maia" (IHGB, Nº 9, 1853, p. 59). Joaquim de Almeida foi eleito para compor a primeira câmara de recife, era natural do Porto e considerado o mais rico habitante do Recife (Ferrer, 1915, p. 111). Já o Capitão-mor João da Maia Gama era governador da capitania da Paraíba, onde se encontrava Simão de Góes, e favorável a causa de Olinda, tendo seu comportamento repreendido pela interferência em assuntos de outra capitania.
O conflito foi encerrado pouco depois, ao final de 1711, com a intervenção da metrópole, a prisão dos líderes olindenses e a nomeação do governador Félix José de Mendonça. Em 1712, o Recife foi elevado à sede administrativa da capitania, com a reconstrução da Câmara e do Pelourinho, enquanto alguns revoltosos receberam perdão do bispo e, posteriormente, do rei D. João V. A vitória dos comerciantes reafirmou o predomínio do capital mercantil sobre a aristocracia rural, consolidando a autonomia política e econômica do Recife em relação a Olinda.
A Guerra dos Bárbaros
Anos mais tarde, em 1715, Simão de Góes já se envolvera em um processo judicial, mas na condição de juiz. Ele atuou na devassa ordenada pelo Capitão-mor do Ceará, Manoel da Fonseca Jaime, contra o mesmo Coronel João de Barros Braga, pela suposta subtração do imposto do quinto dos cativos. Dois anos antes, em 1713, Barros Braga participara da repressão aos ataques dos índios "muasés" aos moradores da Vila de Aquiraz.
Esse conflito fez parte da chamada Guerra dos Bárbaros, uma sequência de levantes coordenados entre os nativos de toda a capitania. Na ocasião foram capturados 400 indígenas, dos quais 95 foram executados por temer revoltas, enquanto outros foram mantidos em cativeiro. A acusação é de que o Coronel não havia pago os impostos devidos a coroa pelas capturas (Brígido, 1900, p. 37-39).
Em sua defesa, o Coronel acusa o então juiz de parcialidade, por ser este um público e reconhecido inimigo seu, que busca por "meio da dita devassa para o inquietarem, e molestarem" (De Mello, 1859, p. 214). Entre os cativos, 140 pertencentes a etnia Tremembé foram entregues à Missão de Aracati-mirim (De Mello, 1859, p. 211).
A devassa de Manuel da Fonseca Silva
A devassa conduzida pelo ouvidor Manuel da Fonseca Silva marcou uma das primeiras tentativas sistemáticas de impor o poder da justiça régia no sertão do Ceará, até então dominado por potentados locais, famílias armadas e religiosos influentes. Essa devassa teve início após os acontecimentos trágicos de 1721, quando os bandeirantes paulistas Sebastião Pinheiro Raposo e Antônio Soares Raposo foram assassinados na serra da Ibiapaba, durante uma expedição aurífera. O caso repercutiu em toda a região e motivou o governo-geral a investigar não apenas as mortes, mas também o conjunto de crimes e abusos cometidos nos sertões cearenses (De Souza e Duque, 2018, p. 17).
O vice-rei D. Vasco Fernandes César de Menezes determinou que Manuel da Fonseca Silva, ouvidor das capitanias da Paraíba e do Ceará, abrisse devassa geral sobre os assassinatos e as desordens registradas. As investigações abrangeram homicídios, rebeliões, práticas de escravização ilegal e conflitos entre senhores de terras e religiosos. Dentre os acusados, figuravam Simão de Góes de Vasconcelos, considerado culpado por duas mortes — a de Gonçalo de Freitas e a de José Soares Raposo —, e Sebastião de Sá, responsabilizado pelo assassinato da própria filha, Eugênia de Sá [1].
Quanto as vítimas de Simão de Góes, sabe-se que José Soares Raposo era escrivão da câmara de Aquiraz em 1717 (Bezerra, 1918, p. 263). Não consegui informações adicionais sobre Gonçalo de Freitas, bem como sobre o destino de Simão de Góes, se chegou de fato a ser preso por esses crimes.
Descendência Conhecida
Estima-se que Simão de Góes Vasconcelos tenha nascido em Pernambuco por volta de 1660, filho de Manoel de Góes de Figueiredo e Mariinha da Araújo Vasconcelos. Casou-se com Feliciana Soares da Costa, com quem teve três filhos conhecidos:
1. Felícia de Vasconcelos, c.c. João de Sá Barroso, filho do Coronel Leonardo de Sá.
2. Joana, batizada em novembro de 1757;
3. Juliano, batizado a 23 de março de 1758.
Não se sabe ao certo quando Simão de Góes faleceu, mas certamente foi antes de 6 de outubro de 1761, data em que sua esposa Feliciana, já viúva, fez uma doação de terras na ribeira do Jaguaribe para a construção de uma capela em honra da Senhora de Sant'Ana. Uma vez que a construção da capela iniciou quatro anos antes dessa doação, é plausível supor que Simão pudesse estar envolvido nesse processo (Montenegro, 2023, p. 30).
Em torno desse templo formou-se um povoado primitivamente denominação de Caatinga do Góes, o qual deu origem a cidade de Jaguaruana (Braga, 1964, p. 337). Coincidência ou não, Sant'Ana também era o orago da capela construída na Fazenda Olho D'Água em 1739, em terras compradas de Simão de Góes pelo Cel. Sebastião de Sá, as quais deram origem ao município de Santana do Acaraú (Município de Sant'Anna, 1926).
Diego Carneiro
10 de outubro de 2025
Referências
ARAGÃO, R. Batista. Cronologia dos municípios cearenses. Barraca do Escritor Cearense, 1996.
BEZERRA, Antônio. Algumas origens do Ceará. Instituto do Ceará, 1918.
BRAGA, Renato. Dicionário geográfico e histórico do Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1964.
BRÍGIDO, João. Ephemerides do Ceará–1ª Epocha. Revista do Instituto Histórico, 1900.
DE MELLO, Antonio Joaquin. Biografias de alguns poetas: e homens illustres da provincia de Pernambuco.. Typographia Unviersal, 1859.
DE SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues; DUQUE, Adauto Neto Fonseca. As Disputas Políticas na Ribeira do Acaraú em torno da Morte e dos Bens do Coronel Sebastião Pinheiro Raposo (1720-1737). Revista Historiar, v. 10, n. 19, p. 5-32, 2018.
Documentação Histórica Pernambucana. Vol. 1, sesmarias. Secretaria da Educação e Cultura, Bibloteca Pública, Recife, 1954.
FERRER, Vicente. Guerra dos mascates: Olinda e recife. AM Teixeira, 1915.
MONTENEGRO, Seridião Correia. Perfil Histórico, Geográfico e Antropológico do Municípios do Ceará. Fortaleza: INESP, 2023.
Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. nº 9, 1853.
Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Tomo III, Parte 1, 1890.
[1] 1726, janeiro, 28, Lisboa. Consulta do Conselho Ultramarino ao Rei [D. João V], sobre as inquietações e motins que tem havido no Ceará e que dizem respeito ao ouvidor José Mendes Machado e outros. Anexo: aviso, cartas e consultas. In: Memória colonial do Ceará, volume II (1720-1731), tomo | (17201726), p. 236-237

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