O Parazinho de Domingos Machado Freire

O distrito de Parazinho, hoje pertencente ao município de Granja, é um dos primeiros núcleos populacionais da Ribeira do Acaraú, contando inclusive com uma das igrejas mais antigas da região. O pioneiro e patriarca dessa localidade é o Português Domingos Machado Freire, natural da província do Minho, filho de Antônio Machado. Nascido por volta de 1674Domingos saiu de sua pátria na companhia de dois irmãos: Miguel Machado Freire e José Machado Freire, sesmeiros nas Groaíras, e obteve cinco léguas de terra na Ribeira do Coreaú concedida a 03 de agosto de 1702 (Lima, 2016, p. 648).

Nessa sesmaria, Domingos fundou o povoado do Pará do Livramento, núcleo original do atual Parazinho (Falcão, 1999, p. 291). Segundo o historiador Raimundo Girão, o topônimo é a formação híbrida de "pará", mar, água, e o sufixo português "zinho" diminutivo (em tupi  - mirim), daí a forma paralela parnamirim (Girão, 1983, p. 339).

Entretanto, é possível que a localidade seja ainda mais antiga. Barão de Studart, em sua obra Geografia do Ceará, situa o povoamento da região por volta de 1650, sem dar maiores detalhes (Studart, 2010, p. 326). Possivelmente esse precedente populacional esteja ligado a atuação missionária e ao aldeamento dos povos indígenas que viviam às margens do Rio Coreaú. 

Sabe-se que anos depois, em 1706, Pe Ascenso Gago, líder da missão da Ibiapaba, removeu os tapuias da Serra, realdeando-os no Rio da Cruz, de onde mais tarde se formaria a povoação chamada de Macaboquetra (maus caboclos), atual Granja (Aragão, 1996, p. 88). Entretanto, essa data de duas léguas concedida ao vigário teria se sobreposto as terras de Domingos Machado Freire, levando a um litígio judicial entre os dois. A sentença delimitou apenas uma légua em quadro, no lugar Guiraquatiara, para que se instalasse a referida missão (Martins, 1930, p. 21).

Além dessa sesmaria seminal, de 1702, há registros Domingos recebeu várias outras datas:

  • Uma sesmaria recebida a 22 de novembro de 1706, juntamente com Miguel e José Machado Freire;
  • A 9 de fevereiro de 1708 os irmãos Machado conseguiram nova sesmaria nas margens do rio Groaíras (Araújo, 2005, p. 74).
  • Uma sesmaria recebida a 3 de janeiro de 1724, juntamente com Miguel, José e Inácio Machado Freire;
  • Uma sorte de terra de 4 léguas em o Riacho das Groaíras, concedida pelo Capitão Mor. Leonel de Abreu Lima, em 31 de outubro de 1731 (Sesmarias Vol. 12, nº 44, p. 63);
  • Três léguas de terra no rio Camocim, concedida pelo Capitão-mor Pedro de Moraes Magalhães, em 8 de setembro de 1750 (Sesmarias Vol. 7, nº 547, p. 105);
  • Cinco léguas de terra no rio Camocim, concedida pelo Capitão-mor Pedro de Moraes Magalhães, em 4 de fevereiro de 1751 (Sesmarias Vol. 7, nº 551, p. 113);

Em 9 de maio de 1718, Domingos Machado Freire recebeu do rei Dom João V a Carta Patente que o nomeava Capitão de Cavalos da Ribeira do Camocim até o Rio Parnaíba. O documento real o descreve como:

...atendendo ao dito Domingos Machado Freire, por ser um homem nobre e afazendado daquele distrito e por ter servido no posto de tenente de cavalos fazendo várias entradas ao gentio bravo (...). Faça o zelo do meu real serviço, e por esperar dele a mesma sorte (..) Hey por bem fazer-lhe mercê de confirmar, como por esta confirmo, no posto de capitão de cavalos do distrito da ribeira do Camosy e demais povoações até o rio Acaracu e Parnaíba (Mascarenha, 2024, p. 18).

O título de Capitão de Cavalos era uma distinção militar reservada à nobreza. Inspirado nos antigos valores da cavalaria medieval, o cargo exigia que seu titular agisse com honradez e fidalguia, comandando um destacamento de soldados cavaleiros ou couraceiros, responsáveis pela defesa e pela manutenção da ordem nos sertões.

Sabe-se que Domingos teve ascendência nobre, tendo seu pai, Antônio Machado, passado por um Inquisição de Genere, datada de 4 de julho de 1982 (Lima, 2016, p. 648). Essa investigação genealógica normalmente era realizada quando um membro da família desejava adentrar a vida eclesiástica, como forma de garantir a "pureza de sangue", ou seja, de o pai de Domingos não possuía origem judaica, moura ou ilegítima.

Além de militar e grande proprietário, Domingos Machado Freire foi um homem profundamente religioso. No primeiro quartel do século XVIII, mandou construir a Igreja de Nossa Senhora do Livramento do Pará, templo que se tornaria o principal símbolo de fé da localidade. Essa iniciativa também se relaciona à atuação do Padre João de Mattos Monteiro, primeiro cura da Ribeira do Acaraú.

A capela antiga de Parazinho teria sido concluída por volta de 1719, juntando-se as capelas da missão da Ibiapaba, em Viçosa do Ceará, e a da missão de Aracatimirim, em Almofala, distrito de Itarema, como os mais antigos templos da região. No mesmo período foi também iniciada a ereção da capela do sítio São José (Patriarca), cuja construção foi iniciada em 1718, também a pedido de Padre Matinhos, por Félix da Cunha Linhares, e concluída muitos anos depois por seu sobrinho Domingos (Souza, 2015, p. 66).

Domingos Machado também libertou alguns de seus escravos por meio do batismo, sendo ele próprio padrinho de alguns deles. Outros cativos foram alforriados em seu testamento (Souza, 2025, p. 331). É importante lembrar que, naquele período, a maioria dos escravos na região era composta por indígenas, já que a Coroa portuguesa orientava os colonos a subjugar e escravizar os povos nativos considerados “bravos”, isto é, aqueles que resistiam ao domínio colonial (Mascarenha, 2024, p. 19).

Existe outra lenda antiga, mas menos crível, de que, na verdade a igreja teria sido erguida por vítimas de um naufrágio, em promessa a N. S. do Livramento. A igreja desde longa data é um centro de peregrinação. Segundo o historiador Álvaro Gurgel, em descrição datada de 1903, no informa que:

A padroeira é N. Senhora do Livramento, cujos milagres atraem anualmente e principalmente na época da festividade, grande numero de peregrinos. Durante a festividade, Durante a festa, os habitantes de Granja, Camocim, Viçosa e de outras localidades vizinhas acorrem à velha povoação, digna de proteção divina em virtude de sua salubridadeexcelente clima e bons recursos naturais (Gurgel, 1939, p. 284).

O Patrimônio da Igreja

Domingos Machado Freire faleceu aos 80 anos de idade, em 15 de março de 1754, sendo sepultado na igreja que ele próprio mandara erguer em devoção a Nossa Senhora do Livramento do Pará (Lima, 2016, p. 648). Em seu testamento, instituiu um morgado, tendo a santa como padroeira, e destinou terras e animais ao patrimônio da capela (Araújo, 2005, p. 252):

  • Um sitio chamado São Cosme nas Groaíras, o mesmo sítio com duzentas fêmeas de toda sorte vacuns, dois escravos Miguel e Felipe, com todos os aprestos e fabrica;
  • O sítio do Estreito com duzentas fêmeas vacuns de toda sorte com dois escravos Antônio e Manuel, com todas as fábricas;
  • O sítio do Pará de Cima com cento e cinquenta fêmeas de vacuns de toda sorte com todas as fabricas e hum escravo por nome José;
  • O sítio de Santa Rosa com seu logradouro Mocambo com cem fêmeas e um escravo por nome Antônio, e cem vacas na mesma fazenda;
  • Trinta bestas de toda sorte na Fazenda do Pará;

O testamento trazia como condição, que um padre residisse na capela e celebrasse todas as sextas-feiras uma missa em sufrágio de sua alma — o que, segundo consta, nunca chegou a acontecer (Mascarenha, 2024, p. 23).

Para administrar esse patrimônio, Domingos designou seu sobrinho Jerônimo Machado Freire, sob a condição de que este se casasse com uma prima, filha de Francisco Machado Freire. Caso o matrimônio não se realizasse, Jerônimo poderia desposar qualquer outra mulher, desde que fosse branca e cristã velha, isto é, descendente de família tradicionalmente católica e sem ascendência judaica, mourisca ou africana — um reflexo das normas sociais e raciais que regiam a sociedade colonial.

Ao final, Jerônimo acabou não se casando com sua prima, mas com Germana Francisca Avelar, filha do Capitão-mor Domingos Francisco Braga e de Elena Ferreira Cunha. Jerônimo, que chegou a ocupar o posto de Tenente Coronel do Regimento de Cavalaria da Ribeira do Acaraú, faleceu  a 4 de julho de 1797, com mais de 80 anos, sem deixar descendência conhecida (Lima, 2016, p. 626)

Segundo uma antiga tradição, relatada por Mons. Vicente Martins, o Coronel Jerônimo Machado Freire era entusiasta das caçadas de onças nas matas da região. Certa vez teria sido surpreendido por uma dessas feras enquanto caçava sozinho, à beira de um riacho. Em perigo, invocou Nossa Senhora do Livramento e foi socorrido a tempo por seus cães e companheiros, que conseguiram matar o animal. Em agradecimento pela proteção recebida, Jerônimo doou meia légua de terras ao patrimônio da santa, tornando-se seu primeiro procurador (Mascarenha, 2024, p. 23-24).

De fato, Jerônimo parecia ser um homem religioso, uma vez que foi um dos primeiros membros da Irmandade do Santíssimo Sacramento, criada em em 1752 pelo Frei Manuel de Jesus Maria, tendo como sede a Igreja Matriz da Caiçara, Sobral (Araújo, 2005, p. 244). Essa associação religiosa contou com figuras célebres da ribeira, como Mateus Mendes de Vasconcelos e Tomé Pires de Queiroz, já citados em outras postagens.

Em sua administração foi adquiria em 1795 uma nova imagem de Nossa Senhora do Livramento, em substituição a anterior, de menor tamanho. Ainda segundo Mons. Vicente Martins, essa imagem, em estilo barroco, que ainda hoje é venerada no templo, foi adquirida em Pernambuco, ao significativo custo de 70$000 (setenta mil réis). Já a imagem anterior teria sido devolvida a família dos primeiros proprietários e encontra-se perdida.

Após a morte de Jerônimo, a administração do patrimônio passou a Manoel Machado Freire de Souza (1798–1803), depois a Manoel Pereira Dutra (1804–1808), filho de João da Silveira Dutra, e, em seguida, a Antônio Alves de Oliveira (1809–1823), todos responsáveis por prestar contas regularmente à Ouvidoria de Sobral, conforme as determinações da corte de Lisboa.

Localização aproximada do Patrimônio da Capela de Parazinho.

Descendência de Domingos Machado Freire

O Capitão Domingos Machado Freire viveu maritalmente com Maria Soares, com a qual tiveram  (Lima, 2016, p. 648)

1. Félix Machado Freire casou-se a 17 de fevereiro de 1744, na Capela de N. Senhora do Rosário do Riacho do Guimarães, Groaíras, Ceará, com Vicência de Souza, filha do Ajudante Antônio de Souza e de Maria de Sá, solteira. Presentes, o Padre Lourenço Gomes Lelou, e as testemunhas, José Rodrigues Leitão, José Roiz. Leitão e Antônio Bernardes. Filho por Domingos Machado Freire. 

2. Domingos Pinto casou-se a 20 de outubro de 1748, na Igreja Matriz da Caiçara, Sobral, com Maria Ramos, filha de Felipe Fernandes de Sá e de Antônia Ferreira. Presentes, o Padre Antônio de Carvalho de Albuquerque, as testemunhas, Cipriano Lopes da Fonseca e Francisco Lopes. 

Filha por Domingos Machado Freire e uma mulher não nominada. 

3. Micaela Maria Machado casou-se com Manoel do Prado Leão, batizado a 06 de setembro de 1758, filho de Miguel do Prado Leão e de Ana Maria de Vasconcelos. Neto paterno de Cosme do Prado Leão e de Luzia da Assunção Oliveira. Neto materno de Manoel Vaz Carrasco e de Maria Madalena de Sá e Oliveira.

Diego Carneiro

21 de outubro de 2025

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. O Parazinho de Domingos Machado Freire. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 21 de outubro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/10/o-parazinho-de-domingos-machado-freire.html

Referências

ARAGÃO, R. Batista. Cronologia dos municípios cearenses. Barraca do Escritor Cearense, 1996.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues de. Batizar, Casar e Irmanar dos Negros na Vila de Sobral (Século XVIII). Revista Historiar, v. 17, n. 32, p. 322-351, 2025.

SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues de. Minha riqueza é fruto do meu trabalho: negros de cabedais no Sertão do Acaraú (1709-1822). 2015.

FALCÃO, Márlio Fábio Pelosi. Ciará Terra do Sol: Genealogia e Toponímia dos Municípios Cearenses. Fortaleza, 1999.

GURGEL, Álvaro. Diccionario Geographico Historico e Descritivo do Ceará. 2ed. Tipografia Minerva, 1939.

LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2016.

MASCARENHA, João Victor. Parazinho: Origem, História e a Devoção a Nossa Senhora do Livramento de Parazinho. Granja, Parazinho, 2024.

STUDART,  Barão de. Geographia do Ceará. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2010.

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