A trajetória dos Coelho de Moraes insere-se no processo mais amplo de ocupação colonial do sertão cearense, marcado pela expansão das frentes pastoris, pela concessão de sesmarias e pela consolidação de redes familiares de poder. Felipe Coelho de Moraes, considerado o patriarca da família, chegou à capitania do Ceará em 1654, acompanhado de sua esposa Ana da Costa. De origem pernambucana e com experiência militar, destacou-se desde cedo nas guerras contra os povos indígenas, especialmente os Payacu, Canindé, Jaguaribara, Anacé e Paiacu, recebendo mercês régias e amplas extensões de terra em reconhecimento pelos “serviços prestados à Coroa”.
Em 1666, o capitão-mor João de Melo Gusmão concedeu a Felipe Coelho um regimento para comandar trinta soldados e combater os Payacu estabelecidos na Precabura. Essa ação militar marcou o início de sua ascensão como homem de armas e proprietário de terras. Em 1682, ele e seu irmão Jerônimo Coelho solicitaram formalmente três léguas de sesmaria entre o riacho Caracu e a serra do Maranguape, alegando mais de duas décadas de residência e criação de gado na capitania. As concessões seguintes consolidaram seu domínio sobre vastas áreas entre o Siupé, o Comembé (atual Cambeba) e a serra do Maranguape — terras que se estendiam das proximidades da fortaleza do Ceará até o litoral ocidental.
Felipe Coelho de Moraes e Ana da Costa tiveram vários filhos: Bento, Brás, Pedro de Mendonça, Margarida Maria, Felipe (o moço) e Domingos de Mendonça. Todos deram continuidade ao processo de interiorização da família, expandindo-se em direção à Ribeira do Acaraú e à serra da Meruoca. Bento Coelho de Moraes obteve ao menos seis sesmarias, sendo casado com Vitória Teixeira de Moraes, com quem teve Floriana Coelho de Moraes. Esta casou-se com o português Manoel Pereira Pinto, estabelecendo alianças entre a elite luso-brasileira e os descendentes mestiços locais. Félix Coelho de Moraes, provavelmente irmão de Bento, recebeu sete sesmarias e atuou em campanhas militares contra indígenas, como as de 1725 na serra do Baturité.
Ribeira do Acaraú
A partir de 1705, a família aparece nos registros de sesmarias da Ribeira do Acaraú, quando Manoel Dias de Carvalho e Félix Coelho de Moraes solicitaram terras entre o rio Coreaú e o serrote das Rolas, assim como nas proximidades das aldeias dos Tabajara, na Ibiapaba e dos Rerius, na Meruoca. No ano seguinte, novas concessões beneficiaram Bento e Pedro de Mendonça de Moraes, consolidando a presença dos Coelho e seus aparentados (como os Dias de Carvalho) nas margens dos rios Acaraú, Aracatiaçu e Coreaú. Entre 1700 e 1730, o grupo familiar acumulou dezenas de datas de terras, 21 apenas na ribeira do Acaraú, tornando-se um dos principais clãs proprietários do norte cearense.
Essas posses deram origem a uma rede de fazendas, capelas e povoados. Em parte das terras de Manuel Dias de Carvalho, ergueu-se o templo de Santo Antônio da Mouraria (atual Santo Antônio do Araquém). Já em 1726, Bento Coelho de Moraes e seus descendentes doaram terrenos para a edificação da capela de Santo Antônio da Mucaria, em Olho d’Água do Coreaú, demonstrando a estratégia de legitimação religiosa e social da família.
Os Coelho de Moraes também se destacaram na formação de alianças matrimoniais e militares. Suas filhas e netas casaram-se com oficiais das milícias locais e proprietários de sesmarias vizinhas, como os Pereira Pinto, os Dutra, os Soares Monteiro e os Araújo Cavalcante, entrelaçando as linhagens dominantes do sertão do Acaraú. Essa rede genealógica articulava poder político, prestígio social e controle territorial, sustentando uma elite mestiça, frequentemente identificada nos documentos setecentistas como “mulata” ou “mameluca”, que ascendeu por meio da guerra e da propriedade rural.
Os relatos missionários, contudo, retratam os Coelho de Moraes de modo ambíguo. Em cartas enviadas ao Conselho Ultramarino, padres jesuítas como Antônio de Sousa Leal os acusavam de tiranizar indígenas e brancos, manter concubinato com mulheres nativas e apropriar-se de cativos sem pagar o imposto real. Essas denúncias refletem o embate entre a elite militar-mestiça local e a autoridade eclesiástica, em torno do controle das aldeias e do trabalho indígena.
A descendência de Felipe Coelho se manteve influente até meados do século XVIII, multiplicando as fazendas e casamentos estratégicos. Entre seus netos e bisnetos figuram nomes como Floriana Coelho de Albuquerque, Ana Maria de Albuquerque, Pedro Coelho Pinto de Albuquerque e Joaquim Coelho de Albuquerque, estabelecidos entre o Acaraú e o Coreaú. As gerações seguintes integraram-se à aristocracia rural do norte cearense, participando da formação das vilas de Sobral, Santana do Acaraú, Morrinhos e Marco.
Assim, a trajetória dos Coelho de Moraes na Ribeira do Acaraú reflete o processo de consolidação de uma elite luso-mestiça formada pela conjugação de poder militar, posse da terra e redes de parentesco. Da guerra contra os povos indígenas à fundação de fazendas e capelas, a família desempenhou papel central na colonização do norte do Ceará, constituindo um dos núcleos genealógicos mais extensos e duradouros da região.
*Adaptado de Souza (2015), p. 97-121.
Referências
SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues de. “Minha Riqueza é Fruto do meu Trabalho”: negros de cabedais no Sertão do Acaraú (1709-1822). 2015. 223 f. (Tese Doutorado).

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