A Bandeira do Coronel Leonardo de Sá

Leonardo Ribeiro de Sá nasceu no ano de 1656, em Vila Nova de Famalicão, Braga, Portugal,  filho do Padre Antônio de Sá Barreiros e de Maria Barroza. Migrou para o Brasil ainda criança, vindo inicialmente para Olinda, tendo passado pelo Rio Grande do Norte onde possuiu bens de raiz (Araújo, 2005, p. 76). Veio residir no Forte N. S. da Assunção, em Fortaleza, já nos primeiros anos da década de 1670. 

Lá serviu como soldado na praça da companhia do Capitão Domingos Gonçalves Freire e do Capitão Francisco Nogueira, juntamente com seu tio Sebastião de Sá Barroso, que alguns anos depois, a 7 de maio de 1678, seria nomeado por carta patente Capitão-mor do Ceará. Sebastião de Sá ocupou o cargo duas vezes, sendo a primeira até 11 de setembro de 1682 (Araújo, 2005, p. 44, 51).

Nesse mesmo ano, a 7 de setembro de 1682, Leonardo de Sá conseguiu sesmaria de uma sorte de terra no riacho Juá, correndo pelo rio Siupé, onde se estabeleceu. Essa sesmaria foi obtida juntamente com seus companheiros de arma Francisco Dias Carvalho, Bernardo Coelho de Andrade e Domingos de Mendonça da Câmara (Cfr. Sesmaria vol. 1, p. 64).

Foi militar de alto conceito chegando até ao posto de Coronel. Ainda no final do século XVII ocupou, por um breve período, o posto de Capitão de Cavalos do Distrito do Ceará, tendo sido destituído desta função por ordem régia expedida a 6 de outubro de 1686 (Cfr. RIC, vol. 27, p. 60)Participou também da vida política da capitania, tendo sido eleito vereador da Câmara da recém-criada Vila de São José do Ribamar, no ano de 1701 (Araújo, 2005, p. 44).

Em 1697 é feita a primeira tentativa de colonização da Ribeira do Acaraú. O Sargento-mor Leonardo de Sá penetra pelo interior desta região em viagem de reconhecimento de terreno que desejava solicitar por sesmaria e no desejo de civilizar e domar os aborígenes. Na petição que dirigiu a Dom Fernando Martins Mascarenhas de Alencastro, Governador de Pernambuco, solicitando confirmação de uma sesmaria, diz textualmente Leonardo de Sá: 

“...ser ele suplicante o primeiro povoador da dita Ribeira e havendo respeito do excessivo gasto que fez e dispêndio de sua Fazenda em fazer aldear o gentio bravio que nela habitava, reduzindo-os ao grêmio da Igreja como consta das certidões do vigário daquela Capitania e dos Missionários, sendo o suplicante Povoador das terras no ano de 97 em que não havia tributo nem pensão como consta as certidões dos Padres da Companhia, missionários da serra da Ibiapaba, por cuja causa deve ser isenta a confirmação da dita data ...” (Cfr. Documentação Histórica Pernambucana — Sesmarias — Vol. |, p. 80 — Recife — 1954).

Essa sesmaria foi confirmada a 14 de outubro 1702, obtida em parceria com Antônio da Costa Peixoto, medindo três léguas de terra seguindo o curso do rio Acaraú, com meia légua de largo para cada banda do dito rio (Sesmarias, vol. 2, p. 101). Antônio da Costa Peixoto nasceu em Portugal, mudando-se para o Ceará por volta de 1676, onde serviu como soldado no Forte N. S. de Assunção, juntamente com Leonardo de Sá. Faleceu no ano de 1746, tendo seu inventário aberto a 20 de agosto desse ano (Lima, 2016, p. 117).

Os dois sesmeiros, Antônio da Costa Peixoto e Leonardo de Sá, mantinham íntimas e profundas relações de amizade. Ambos foram vereadores na composição das primeiras câmaras da Vila de Aquiraz, eram vizinhos em Siupé, tinham filhos casados entre si, professavam e praticavam a mesma fé religiosa, pediam juntos as mesmas sesmarias, o que bem demonstra a intimidade na vida social, política e familiar que os unia (Araújo, 2005).

Nenhum dos dois sesmeiros chegou a se apossar pessoalmente desta sesmaria de 1702, distribuindo-a entre seus filhos, que vieram povoá-la. Nessas terras, à margem direita do rio, foram construídas as Fazendas Várzea Grande e Marrecas, e à margem esquerda as Fazendas Caiçara, Cruz do Padre e Pedra Branca. Exatamente a Fazenda Caiçara, recebida como dote de casamento por Apolônia Costa, filha de Antônio, foi o berço da cidade de Sobral (Araújo, 2005, p. 73). Leonardo também dou terras ao seu genro, Capitão Félix da Cunha Linhares, constituindo o atual distrito do Patriarca, em Sobral.  

Logo que aqui chegaram com o fim de se apossar das terras desta sesmaria, organizaram uma caravana. Era composta do Coronel Leonardo de Sá, Felix da Cunha Linhares, Antônio Marques Leitão e Bento Coelho e tinha o fim de descobrir e palmilhar terras virgens, semeando “com braço infatigável e alma sadia” a civilização que começava a penetrar nestes sertões desertos. Nesta avançada, a caravana chegou até quase ao pé da Ibiapaba, imediações de Pacujá, a cavalo, descobrindo rios e tomando conhecimento da situação geográfica da região. Narrando os episódios e riscos desta aventura os quatro desbravadores sertanistas fazem petição de outra sesmaria às margens do rio Arariaçu (?), no que são atendidos pelo Capitão Gabriel da Silva do Lago a 13 de novembro de 1706 (Sesmaria, vol. 3, p. 83).

Nesse mesmo ano de 1706 lhe foram concedidas mais duas sesmarias na ribeira do Acaraú. Uma a 29 de julho, em parceria com Mariana da Silva do Lago, medindo três léguas de terra no rio Acaraú pegando da testada de José Francisco, morador e povoador do dito rio, com meia légua de terra para cada banda do mesmo rio (Sesmaria, vol. 3, p. 64). E outra em 6 de agosto, medindo uma légua, principiando dos últimos providos dos salgados do rio Acaraú inteirando-se pelos moritizais de Jacuoca (Acaraú) correndo rumo direito para a parte do Aracati-mirim, terra esta devoluta e desaproveitada e que só ele suplicante a tem povoado (lb., 3, p. 60).

Descendência de Leonardo de Sá

Existem seis filhos conhecidos de Leonardo de Sá, o quais vieram ocupar as terras recebidas pelo pai na Ribeira do Acaraú, entrelaçando-se com as principais famílias da região.

1. Maria de Sá, cearense, nascida em 1679, c.c. o português Félix da Cunha Linhares, filho de Agostinho da Cunha e Ana de Araújo, em 1702. O casal era proprietário do Sítio São José, atual Patriarca, distrito de Sobral, e receberam uma sesmaria no Riacho do Macaco em 1707.

2. Coronel Sebastião de Sá Barroso, pernambucano, nascido por volta de 1684, c.c. Madalena Saraiva. Era possuidor de muitas terras nesta Ribeira, inclusive onde hoje se encontra a cidade de Santana do Acaraú que foram compradas pelo Pe. Antônio dos Santos da Silveira. Residiu na Serra da Meruoca onde doou terra para a constituição do patrimônio da Capela de N. S. da Conceição.

3. João de Sá Barroso, nascido em Granja, c.c. Felícia Vasconcelos, filha de Simão Góes de Vasconcelos e Felícia Soares da Costa. Recebeu quatro sesmarias: no rio Acaraú em 1702, na Lagoa das Pedras em 1714, na Lagoa do Inheegua em 1716 e no rio Mundaú em 1718.

4. Sargento-mor Antônio de Sá Barroso, nascido em Portugal por volta de 1712, c.c. Ignez de Araújo e Vasconcelos. Recebeu uma sesmaria em 1736 no rio Acaraú

5. Leonarda de Sá, pernambucana, nascida aproximadamente em 1719, c.c. Capitão Francisco Dias Peixoto. Receberam uma sesmaria em 1726 no rio Aracati-mirim. Seu marido faleceu a 9 de junho de 1730, sendo sepultado na Capela do Sítio São José (Patriarca), capela esta cuja construção tinha sido começada por seu cunhado Felix da Cunha Linhares.

6. Paula de Sá, pernambucana, c.c. Nicolau da Costa Peixoto, filho de Antônio da Costa Peixoto, sesmeiros do Baixo Vale do Acaraú, se estabeleceram no Sitio Araticus, Bela Cruz, em 1702. Nicolau foi doador de terras para a Capela de Santa Cruz (Bela-Cruz).

Além de sua filiação, Leonardo de Sá possuía outros laços de parentesco com os primeiros moradores do Baixo Acaraú. Ele era sobrinho de Madalena de Sá, avó de Madalena de Sá e Oliveira, irmã do Capitão Domingos de Aguiar e Oliveira, um dos fundadores de Bela Cruz, e esposa de Manoel Vaz Carrasco, pai das célebres sete irmãs.

Diego Carneiro

5 de novembro de 2025

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A Bandeira do Coronel Leonardo de Sá. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 5 de novembro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/11/a-bandeira-do-coronel-leonardo-de-sa.html
Referências
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2016.

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