Em 1724 chega a região da Meruoca o primeiro casal de brancos com intenção de fixar residência. Tratava-se da família do Cel. Sebastião de Sá e sua esposa Cosma Ribeiro Franca, que tomara posse de uma sesmaria de duas léguas e meia (16,5 km), recebida as margens do riacho Itacaranha. Lá construíram uma casa e um engenho de rapadura (Araújo, 1979, p. 36). Sebastião de Sá era filho do sertanista Cel. Leonardo de Sá, soltado do forte, e um dos primeiros a desbravar a região.
Conforme o livro Município de Santana, o casal teria se estabelecido inicialmente em terras hoje pertencentes a este município, migrando para a Meruoca apenas em 1726, juntamente com seu irmão Antônio de Sá, fugindo de uma grande estiagem que deu nesse ano. Lá Antônio teria fundado o Sitio Bom Sucesso e Sebastião, o Sitio Santa Maria (O Município de Santana, 1926, p. 44).
Nesse local, que já abrigava a missão dos reriús, existia uma capela construída provavelmente por volta de 1712 pelos indígenas, a pedido do Pe José Teixeira de Miranda, padre secular designado para comandar a dita missão. O templo seguia o padrão construtivo da época, com paredes de taipa e coberta de palha, erguida na margem esquerda do Itacaranha, no local denominado "pedra roída" (Araújo, 1979, p. 35). A igrejinha tosca, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, é uma das mencionadas no primeiro livro dos assentos de batizados e casamentos do Curato do Acaraú (Nobre, 1980, p. 320).
Por volta de 1716, Pe. Miranda deixa a Meruoca, indo se juntar ao seu irmão, José Borges de Novaes na Missão do Aracati-mirim. Nesse período, chega a Ribeira do Acaraú Pe. João Matos Monteiro, inicialmente em missão e posteriormente como chefe do recém criado Curato do Acaraú, cuja jurisdição abrangia também as missões seculares, inclusive a dos reriús. Padre Matinhos, como era conhecido, opôs-se aos planos do Cel. Sebastião de Sá de derrubar a antiga capela de taipa para que fosse construída uma outra em tijolo e cal (Nobre, 1980, p. 320).
A oposição vigário se justificaria pelo fato das terras onde seria realizada a obra não terem sido oficialmente doadas a igreja, o que fato só aconteceu alguns anos depois, em 1727, quando era cura o Pe. João da Costa Ribeiro. O patrimônio da capela consistia de "meia légua (3,3 km) de terra, cem vacas parideiras e uma engenhoca de fazer mel" (Araújo, 1979, p. 37). Segundo Pe Sadoc, a data mais provável para a bênção da nova capela teria sido 21 de setembro de 1727, realizada pelo próprio padre João da Costa Ribeiro e seu coadjutor, padre Dionísio Teixeira de Lira.
O patrimônio somente foi julgado por título canônico no ano de 1767, quando a capela foi visitada pelo Pe. Dr. José Teixeira de Azevedo, visitador canônico dos serões do norte. Assim como em outros tantos casos, nos terrenos aforados a terceiros foram construídas as primeiras residências que viriam a formar o núcleo urbano do município de Meruoca.
Como abordamos em outra postagem, o Cel. Sebastião de Sá terminou a vida preso em função de diversas acusações, como de envolvimento em uma revolta contra o então ouvidor geral da capitania, Loureiro de Medeiros, assim como por ter cometido três assassinatos, dentre os quais sua própria filha, Eugênia de Sá (De Souza e Duque, 2018, p. 18). Entre os bens deixados por ele, consta "uma légua e meia de terra na serra da Meruoca, avaliada em 75$000", em valores de 1741.
Descendência do Cel. Sebastião de Sá e Cosma Ribeiro
Do matrimônio de Sebastião de Sá e Cosma Ribeiro Franca nasceram os seguintes filhos:
1. Sargento-mor Antônio de Sá Barroso, c.c. Inês de Araújo Vasconcelos, filha do Cap. Manuel de Góes e Marinha de Araújo Vasconcelos, a 9 de fevereiro de 1723, na Capela de N. Sra. da Soledade de Gargahu.
2. Sebastião de Sá (Junior), batizado a 26 de julho de 1729 na, Capela de São José, c.c. Maria do Ó dos Prazeres, filha do escrivão José do Rego Monteiro e Maria Pereira, a 27 de maio de 1748.
3. Maria de Sá, batizada na Capela de Meruoca a 25 de setembro do 1727, c.c. o Alferes Manuel Francisco de Oliveira, o qual faleceu em dezembro de 1755 em Fortaleza.
O Coronel também teve duas filhas naturais com a índia Madalena Saraiva:
4. Maria José, c.c. Inácio Dias Ribeiro, filho natural de Isabel Ribeiro, índia mameluca forra a 29 de aposto de 1743, na Fazenda Lagoa do Sargento-mor Antônio de Sá Barroso. Inácio Dias foi criado pela mãe do Pe. Manuel Poderoso de Morais, sacerdote que faleceu na Meruoca a 27 de setembro de 1736, e foi educado pelo Pe. Antônio dos Santos Silveira, fundador da Capela de Santana do Olho D'Água.
5. Sebastiana Saraiva, c.c. Pascoal Leitão e Abreu, filho de Manuel de Góes e Mariinha de Araújo Vasconcelos.
D. Cosma Ribeiro, antes de casar com o Cel. Sebastião de Sá, também tivera dois filhos naturais:
1. Luis Nicolau Henriques, solteiro, participante da rebelião de 1732, condenado e preso pela Relação da Bahia, deportado para Angola, onde falaceu;
2. Antônia Dias Ribeiro, c.c. José Barbosa de Carvalho.
O Sítio São José de Alcântaras
Em outra postagem já contamos um pouco da história do Capitão José de Araújo Costa, português que migrou para a Ribeira do Acaraú em meados da década de 1740, estabelecendo-se na Fazenda Lagoa Grande, entre os atuais municípios de Acaraú e Bela Cruz. No inventário do Capitão, datado de 25 de setembro de 1792, entre suas vastas propriedades, constava um pedaço de terra, "de plantar lavoura", denominado Sitio São José, que segundo o memorialista Bertoni Vasconcelos, corresponde ao atual município de Alcântaras (Diogo, 2016, p. 67).
A descrição desta propriedade informa que se tratava de:
"Um pedaço de terra de plantar lavoura na Serra da Meruoca, foreiro ao Senado da Câmara desta Vila de Sobral, pegando o seu comprimento da parte de cima de uma cerca de pinheiros até testar na parte do nascente com terras da Fazenda Pedra Branca com uma légua de largo, meia para cada banda, que houve por compra do Sargento-mor Pedro Ferreira da Ponte, com todas as benfeitorias que se acharem no dito sítio, avaliado em 200$000".
O Sargento-mor Pedro Ferreira da Ponte era filho do Major Francisco Ferreira da Ponte e de Maria Madalena de Sá, irmã de Brites de Vasconcelos, esposa José de Araújo Costa. Brites e Maria Madalena eram duas das sete irmãs, filhas de Manoel Vaz Carrasco. Não se sabe ao certo como Pedro obteve essa propriedade. Já quanto a citada Fazenda Pedra Branca, segundo Pe. Sadoc, esta ficava próxima a Sobral e pertencia ao Capitão Francisco da Cunha de Araújo, sobrinho de Félix da Cunha Linhares (Araújo, 2005, p. 359).
Segundo Bertoni, a menção mais antiga ao Sítio São José é data de 4 de outubro de 1735, no batizado de Agueda, filha de Francisca, escrava o Pe Manoel Poderoso de Morais. Foram padrinhos Nicolau e Antônia Ribeiro, ambos filhos naturais de Cosma Ribeiro, esposa do Cel. Sebastião de Sá (Liv. Batismo, 1725-1749, fl. 46 v). Sabe-se também que após a morte do Capitão José de Araújo Costa, a viúva Brites de Vasconcelos, então com 67 anos, mudou-se definitivamente para o Sítio São José, onde permaneceu até sua morte em 10 de fevereiro de 1814 (Araújo, 2000, p. 154).
A denominação Alcântaras teria sido bastante posterior. Segundo o historiador Renato Braga, o português Antônio da Cunha Freire, juntamente com dois irmãos, teriam sido os patriarcas do primitivo povoado de São José. O filho de Antônio, José Joaquim da Cunha Freire, teria sido o primeiro a nascer na região, tendo vivido entre 1700 e 1772. Ainda conforme Braga, os descendentes destes três ramos lusitanos teriam substituído o patronímico Cunha Freire por Alcântara, nome que acabou por suplantar o original e se estender ao próprio topônimo da localidade, que passou a se chamar São José dos Alcântaras (Braga, 1964, p. 76).
Dentre os descendentes do patriarca Antônio da Cunha Freire, destacou-se João Capistrano de Alcântaras que construiu a primeira casa de alvenaria em São José e a primitiva Igreja, iniciando, assim, a vida religiosa no lugarejo. O Patrimônio inicial foi um terreno, medindo 50 braças de frente por 60 de fundo e uma casa de tijolo localizada na mesma terra. A escritura da doação da terra foi feita no Cartório de Coreaú, no dia 22 de Fevereiro de 1908. A Capela só teve seus trabalhos totalmente concluídos depois de 1916, embora a este tempo fossem celebrados lá os ofícios religiosos e as desobrigas (Lira, 1984, p. 256).
Na segunda metade do século XVIII a Serra da Meruoca já encontrava-se plenamente habitada. Em 1767 já existiam vinte engenhocas de fabricar mel e no tombamento de 1778, promovido pela Câmara de Sobral, foram contados 210 sítios, sendo a grande maioria com 300 a 400 braças de frente (Diogo, 2016, p. 75). Nessa época, as áreas que correspondem hoje às localidades de Floresta, Palestina do Norte, Sítio Monte, Santa Úrsula e São Rafael já eram habitadas por núcleos de povoamento que se formavam nos arredores de riachos e pequenas capelas (Soares e Soares, 2019, p. 22).
Entre estes, destaca-se o Sítio Santa Úrsula, que pertenceu a José de Xerez Furna Uchoa, e onde em 1747 foi plantada a primeira muda de café do Ceará, presente da corte de Luís XV, rei da França. Furna Uchoa foi homem influente na Ribeira do Acaraú e era casado com Rosa de Sá e Oliveira, outra das sete irmãs, filha Manoel Vaz Carrasco.
Diego Carneiro
03 de novembro de 2025
Referências
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
ARAÚJO, Francisco Sadoc. História religiosa da Meruoca. Impr. Universitária, UVA, 1979.
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.
BRAGA, Renato. Dicionário geográfico e histórico do Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1964.
DE SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues; DUQUE, Adauto Neto Fonseca. As Disputas Políticas na Ribeira do Acaraú em torno da Morte e dos Bens do Coronel Sebastião Pinheiro Raposo (1720-1737). Revista Historiar, v. 10, n. 19, p. 5-32, 2018.
DIOGO, Bertoni Vasconcelos. Alcântaras: III Séculos de História. Alcântaras, 2016.
LIRA, João Mendes. Subsídios para a história eclesiástica e política do Ceará. Rio de Janeiro: Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1984.
NOBRE, Geraldo Silva. História eclesiástica do Ceará. Secretaria de Cultura e Desporto, 1980.
O Município de Sant'Anna: um pouco de histórico sobre o Ceará de 1608 a 1738. Santana do Acaraú: Pap. e Typ. Correio da Semana, 1926.
SOARES, José Wellington; SOARES, Francisco Edson. Monsenhor José Furtado Cavalcante: sua história devida na história da Meruoca. Meruoca: Serão Cult, 2019.

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