Os Reriús, também chamados de Areriús, Aperiús, Arariús, Acriús entre outras, eram um dos grupos humanos que primitivamente habitou a Ribeira do Acaraú, concentrando-se principalmente nas imediações da Serra da Meruoca, próxima a Sobral. Sua procedência exata é em grande parte ignorada. Pe Sadoc em seu livro História Religiosa da Meruoca, especula que poderiam ter chegado a região vindos da Bahia, de onde teriam sido expulsos com o avanço da colonização. O motivo de tal desconfiança reside em antigas tradições locais, envolvendo seres folclóricos como a Caipora e sua relação com tabaco, item intensamente negociado entre os nativos e os habitantes daquela antiga capitania (Araújo, 1979, p. 21).
Em termos de vestígios de sua habitação, segundo a tradição oral, parte desses indígenas ocupava uma gruta localizada na região centro-noroeste da Meruoca, onde hoje se encontra o sítio São Rafael. Conhecida como Furna dos Índios, essa formação rochosa é composta por blocos de pedra dispostos de modo a formar um abrigo natural, situado à margem esquerda da estrada Meruoca/Mato Grosso, a cerca de 300 metros da via Meruoca/Anil. Ainda são visíveis no local diversas cavidades talhadas na rocha em forma de pilões, que revelam indícios do uso cotidiano do espaço, possivelmente no preparo de alimentos pelos Reriús (Aragão, 1999, p. 23).
A primeira menção documentada aos Reriús da Serra da Meruoca é feita na Carta Anua, enviada pelo Padre Acenso Gago, chefe da missão da Ibiapaba, ao Padre Alexandre de Gusmão, da Companhia de Jesus e Provincial do Brasil. Nessa correspondência, datada de 10 de outubro de 1695, o religioso narrou a viagem realizada pelo sertão da Ribeira do Acaraú e à Serra da Meruoca, onde reuniu os índios Reriús.
O Primeiro Contato
O primeiro contato do padre Ascenso Gago com os índios Reriús da Serra da Meruoca ocorreu ao pé da serra, durante uma viagem empreendida em 1693, quando partiu da Ibiapaba em direção ao litoral, seguindo pela margem esquerda do rio Acaraú. Esse encontro inicial de evangelização foi assim descrito pelo jesuíta:
“Era-me necessário neste mesmo tempo ir ver em a costa do mar terras capazes para aldear o gentio de língua geral. Tomei para me acompanharem ao mar 15 índios, e como necessariamente havíamos de passar junto à Serra do Tapuia, ficava-me esperança de poder encontrar com eles no caminho. Porém sucedeu ao contrário; porque chegamos junto à dita Serra sem encontrar com o Tapuia. Preguntei aos Índios que meio poderia eu ter para falar com o Tapuia, pois eles me não queriam levar à sua Serra. Responderam que em se pondo fogo aos campos infalivelmente mandaria os Tapuia sentinelas a descobrir o que passava. Porém requereram-me com grande insistência que não o fizesse, porque infalivelmente pereceríamos todos às mãos do Tapuia, pois não trazíamos poder com que nos defendêssemos. Respondi-lhes que eu era sacerdote de Deus, a quem nada é impossível, e que andava em serviço do mesmo Senhor, que ele me defenderia se fosse servido, e quando não, que folgaria muito morrer em seu serviço; que eu havia de por fogo aos campos e se eles se não achavam com ânimo de acompanhar que se podiam ir embora, porque eu se escapasse com vida já saberia voltar para casa. Pus fogo ao campo, e como estava a erva seca, em breve tempo levantou mui grande lavareda e fumaça. Amanheceu o dia seguinte e resolveram-se os Índios da minha companhia a emboscar-se ao largo, para com mais segurança sua verem o que passava; e em caso que me não matassem os Tapuias me poderem tornar a fazer companhia; nesta conformidade se apartaram e eu me fiquei encomendando-me à Soberana Virgem da Assunção, não sem receio do que me poderia suceder (Leite, 1938, p. 44-45).
Logo depois, apareceram alguns tapuias, de grande estatura, armados de arcos, flechas e tacapes. Ascenso Gago saudou-os em língua tabajara, sendo respondido com dificuldade no mesmo idioma. Perguntou-lhes de que nação eram, e responderam que eram Reriús, declarando estar em guerra contra todas as nações vizinhas, em especial contra os Guanacés, que haviam matado, à traição, um de seus principais, chamado Guati, e mais um soldado. Os principais Reriús, segundo disseram, estavam no litoral, retirando madeira para fabricar flechas, a fim de se preparar para a guerra que pretendiam iniciar com as primeiras chuvas do ano.
O chefe que falava com o jesuíta chamava-se Arapá. Ele explicou que os Reriús já haviam vingado parte da afronta, matando também um principal e dois guerreiros guanacés, mas que não descansariam até exterminar todos os inimigos, tomando-lhes mulheres e filhos como cativos. O missionário respondeu louvando-lhes a coragem e a determinação, mas procurou exaltá-los ainda mais, dizendo que seria sinal de bravura buscar os inimigos em suas próprias terras. Ao mesmo tempo, aproveitou para introduzir o tema da paz, ressaltando as vantagens que ela poderia trazer: liberdade de viverem tranquilos, de obterem alimentos para suas famílias e ainda amizade com os brancos, de quem poderiam receber instrumentos úteis.
Arapá respondeu que estava disposto a aceitar a paz, contanto que os outros povos a pedissem primeiro, pois os Reriús tinham recebido grandes ofensas. Gago, então, chamou os índios tabajaras que o acompanhavam — entre eles o principal Dom Jacob de Souza — e organizou uma reunião com os Reriús. Após discussões e alegações de fidelidade entre seus antepassados, firmaram um acordo de paz, repetindo em alta voz a palavra guiaóa (paz) por três vezes, como sinal solene.
Em seguida, o principal Reriú enviou um mensageiro para chamar os outros chefes de sua nação que estavam no litoral. Esse encontro, considerado por Gago fruto de permissão divina, consolidou a paz naquele momento e evitou que, ao chegarem à costa, os jesuítas caíssem numa emboscada, pois lá se encontravam três principais Reriús com suas tropas armadas.
Continuando a viagem, o missionário narra ainda:
“Caminhamos quatro dias pela beira do rio Acaraú abaixo e, ao cabo deles, encontramos oito tapuias que, da parte de seus principais, vinham ao nosso encontro com presentes de peixe assado em moquem e cabaços de mel de abelha. Muito agradeci o presente, pela necessidade em que me achava.” (Leite, 1938, p. 46-47).
Esse é o relato da primeira viagem missionária feita pela Ribeira do Acaraú. Ao final dessa mesma excursão, o padre Ascenso Gago também tentou catequizar os Tremembés, aldeando-os em Almofala, onde se fundou a Missão do Aracatimirim. A primeira capela dessa missão seria construída, anos depois, pelo sacerdote secular José Borges de Novais, que ali chegou em 1702 (Araújo, 1979, p. 27).
Os Avanços da Colonização
No último quartel do século XVII intensificam-se as bandeiras visando o litoral oeste do Ceará. Por volta de 1681 chega a Ribeira do Acaraú, a expedição de Manoel de Góes e seus companheiros, que partira de Pernambuco e cruzando os sertões de matas fechadas comboiando seus gados em direção a capitania do Maranhão. Ao se depararem com o Rio Acaraú, o qual era adequado a criação, decidiram fixar residência, confirmada por meio de sesmaria concedida em 1682, a primeira da Ribeira do Acaraú. Como fica claro no pedido dessa sesmaria, o trajeto foi marcado pelo conflito com os nativos, os quais são pejorativamente referidos como "tapuias selvagens" (Sesmarias Vol. 1, nº 36, p. 90).
Ao que tudo indica, Manoel de Góes não se mudou imediatamente para a região, que permaneceu desabitada por europeus até o fim do século XVII. Assim, em 1697 alcança a Ribeira do Acaraú, nas imediações do atual município de Sobral, outra expedição de exploração e conquista empreendida pelos soldados do Forte de Nossa Senhora da Assunção, capitaneada pelo então Sargento-mor Leonardo de Sá e seu subordinado e futuro genro, Félix da Cunha Linhares. Os conquistadores entraram em choque com os povos nativos, os quais foram se refugiar no aldeamento no alto da Serra da Meruoca. O novos moradores fixaram-se então na região, legitimando a posse por meio de sesmarias confirmadas em 1702 (Araújo, 2000, p. 98).
Esses conflitos amplificam-se de tal forma que em 1708 é expedida carta regia ao capitão general de Pernambuco "mandando fazer guerra ао gentio do Ceará até exterminá-lo, ou fazê-lo deixar a capitania". Sobre isso, o historiador Tomaz Pompeu de Souza Brasil nos informa que:
No começo do século XVIII todo o Ceará estava mais ou menos conhecido, povoado por uma raça cruzada, alguns portugueses e poucas hordas selvagens, as quais iam pouco a pouco desaparecendo. Combatidas de perto incessantemente pelos colonos, internavam-se pelas brenhas do Piauhy e Maranhão, e alguns que restavam, em aldeias formadas pelos missionários, pereciam, ou ceifados pela varíola, que bem cedo se desenvolveu, ou por um regime, que não era aquele sob que se tinham multiplicado tão extensamente. Homens, que tinham vivido errantes, eram obrigados afixar residência, e não se lhes proporcionavam meios de haver do solo com que prover a sua subsistência. Essa aldeia era um lugar de misérias. Batidas as florestas, esgotados os viveiros, não havia mais nem a caça, nem a pesca, e os índios, presos ao solo, ficavam reduzidos ás minguadas safras de legumes, que não lhes prestavam uma alimentação tão abundante e nutritiva, como a de outrora. Equiparados aos menores, quando não reduzidos a inteira escravidão, com habitação determinada, sem permissão de transpor as raias de seus aldeamentos, os índios eram acometidos de nostalgia, abandonavam-se a tristeza e a inercia, perdiam seu antigo humor, sua agilidade e a primitiva inteligência (De Sousa Brasil, 1863, p. 264).
Embora os Reirús já estivessem incorporados ao aldeamento da Ibiapaba, a distância entre as duas localidades fez com que a assistência espiritual aos mesmos, em um primeiro momento se desse apenas de forma esporádica. Do ponto de vista dos nativos, a principal vantagem de aldear-se seria, supostamente, mitigar esse assédio dos colonizadores que gradativamente chegavam a Ribeira do Acaraú. Dessa forma, em 1712 o padre José Teixeira de Miranda instala-se de forma permanente na Serra da Meruoca, atuando como mediador dos conflitos entre nativos e colonos (Studart-Filho, 1957, p. 37).
Apesar da diferença de sobrenomes, José Teixeira de Miranda era irmão do, também padre, José Borges de Novaes, vigário que dez anos antes já havia assumido a missão de Aracatimirim. Ambos eram naturais de Alfarela, em Portugal, e filhos de José de Novais Sampaio. Foram eles os primeiros a empreender esforços de evangelização junto aos povos indígenas que habitavam as praias e sertões banhados pelo rio Acaraú (Araújo, 2005).
Já no ano seguinte a chegada de Padre Miranda, em 1713, os índios Reriús insurgiram-se contra os colonizadores e missionários que começavam a ocupar a região. Muitos deles foram forçados a buscar refúgio na Serra da Ibiapaba, onde os Tabajaras permaneciam fiéis sob a orientação do padre Ascenso Gago (Cf. RIC, Tomo 77, p. 9). A reação indígena foi marcada por forte resistência, sobretudo diante da chegada dos primeiros colonos que, amparados por sesmarias, pretendiam se apropriar das terras férteis do vale, até então dominado livremente pelos nativos, que dele viviam por meio da caça e da pesca.
A intensidade dos levantes preocupou o governador de Pernambuco, Félix José Machado, que enviou ao Ceará o padre João Guedes para suceder Ascenso Gago no comando da missão da Ibiapaba. Sua principal incumbência era evitar que os índios já aldeados se aliassem aos revoltosos. Durante sua estada, Guedes constatou que alguns colonos recém-chegados mantinham relações de mancebia com mulheres indígenas, muitas vezes conquistadas à força ou retiradas das aldeias (Araújo, 2005, p. 95). O episódio foi comunicado ao bispo de Pernambuco, que expediu uma Carta Pastoral impondo pena de excomunhão àqueles que retivessem índias em suas casas e não as devolvessem às aldeias no prazo de noventa dias.


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