Os Fonseca de Bela Cruz

Família Fonseca, de Bela Cruz, final do anos de 1960.

Esse artigo busca resgatar a trajetória de Sebastião Chagas Fonseca, que deu origem a família Fonseca da região de Bela Cruz, Ceará. Sebastião, meu avô materno, nasceu em Manaus, Amazonas, a primeiro de janeiro de 1926. Era filho legítimo de Deodoro Chagas e de D. Sebastiana Chagas, neto paterno de Manoel Fonseca Silva e Maria Antônia Silva, como consta em sua certidão de nascimento (abaixo).

Certidão de Nascimento de Sebastião, 1953.
Transcrição:

Registro Civil do Estado do Ceará, Comarca de Acaraú, Distrito de Bela Cruz, Nascimento Nº 97 / João Damasceno Vasconcelos, Oficial de Registro Civil

Certifico que às fls. 35 sob o n. 97, no livro n. 19, em meu poder e cartório, foi registrado em data de 23 de março de mil novecentos e cinquenta, o nascimento ocorrido em Manaus, Amazonas, primeiro de janeiro de mil novecentos e vinte e seis, de Sebastião Chagas Fonseca, filho legítimo de Deodoro Chagas e de Dª. Sebastiana Chagas, neto paterno de Manoel Fonseca Silva e Maria Antônia Silva e materno de "ignorados", sendo declarante o próprio registrado e testemunha... de Oliveira e Valdemar Plácido Fonteles. OBSERVAÇÕES: Isenta de selos por ser favorecido para fins militares.

O referido é verdade e dou fé. / Bela Cruz, 3 de agosto de 1953 / O Oficial de Registro Civil João Damasceno Vasconcelos.

Não encontrei maiores informações sobre os pais e avós de Sebastião. Na verdade, tenho sérias dúvidas quanto a veracidade integral dos dados autodeclarados nesse registro, o que vai ficar claro mais adiante no texto.

Os Studart da Fonseca

De acordo com sua esposa, Sebastião veio para o Ceará ainda pequeno, com aproximadamente dois meses de vida (1926), acompanhando sua mãe, Sebastiana e seu irmão, Antônio. Sebastiana teria vindo trabalhar na casa da família do Coronel Guilherme Studart da Fonseca (n. 24-06-1882, f. 17-09-1954), em Fortaleza, situada na Rua Senador Pompeu, nº 627 (antes nº 79), Centro. Segundo a descrição das filhas e da esposa de Sebastião, que visitaram o local algumas vezes, tratava-se de um casarão antigo, localizado próximo ao passeio público, com louças e mobílias finas.

Guilherme Studart da Fonseca.

Guilherme da Fonseca era de família nobre, militar graduado e presidente do Club Militar da Guarda Nacional (Jornal do Ceará, 20 de outubro de 1909). Foi casado com Dolores da Cunha Sombra (n. 04-04-1886) e era sobrinho materno de Guilherme Chambly Studart (1856-1938), o Barão de Studart. Também era proprietário da importadora Guilherme Fonseca e Cia., em sociedade com seu pai, João da Fonseca Barbosa (1844-1931). Essa companhia, fundada em 1906, fabricava extratos medicinais, os quais eram vendidos na sua Drogaria Central, situada na Rua Barão do Rio Branco, nº 144, e exportados para vários estados (Loyd, 1913). Em matéria publicitária do Jornal Pátria, de 3 de março de 1915 (abaixo), assinada por Francisco de Oliveira Carvalho, noticia-se a venda do "Leite Mururé", remédio de origem do Amazonas, para o tratamento de Sífilis pela Guilherme Fonseca e Cia.

Anúncio do Elixir Mururé no Jornal a Pátria, 3 de março de 1915.

Não está claro como Sebastiana e seus filhos vieram parar em Fortaleza, mas é sabido que o tio materno de Guilherme da Fonseca, Carlos Studart (1862-1963), morou em Manaus entre os anos de 1899 e 1921. Lá, foi redator do Jornal do Comércio e, como farmacêutico, foi inventor do famoso Leite de Colônia Studart (Jornal do Comércio, nº 26, Ano V, 1968). Ademais, como frisado anteriormente, o próprio Guilherme transacionava produtos do Amazonas em sua atuação comercial,  talvez em parceria com o  próprio tio, do mesmo ramo farmacêutico. Dessa forma, pode-se especular que o contato de Sebastiana com a família Studart da Fonseca tenha se dado por meio dessa atividade.

Na casa dos Studart da Fonseca, em Fortaleza, Sebastião foi apadrinhado pelos filhos de Guilherme, Fernando Sombra da Fonseca (n. 09-01-1923, f. 22-02-1948) e Ivone Sombra da Fonseca (f. 13-11-2017), professora da Escola Normal, admitida em 1935 (Jornal O Combate, 11 de maio de 1935). Outra filha de Guilherme da Fonseca, Carmem Dolores da Fonseca (n. 16-01-1912), foi diretora do Colégio Justiniano de Serpa. Em matéria do jornal A Razão, de 16 de janeiro de 1930, é noticiado na coluna social o aniversário de sete anos de Fernando Sombra, considerado por Sebastião como um pai de criação, apesar de terem praticamente a mesma idade. É possível que Sebastião estivesse nessa celebração.

Fernando Sombra da Fonseca (1924-1948)

Infelizmente, Fernando faleceu de forma trágica, com apenas 25 anos, no dia 22 de fevereiro de 1948. Ele teria tentado atravessar a nado a Barra do Rio Ceará, quando se afogou. O caso foi noticiado em vários jornais da época. Uma dessas reportagens, do Jornal Correio do Ceará, de 23 de fevereiro de 1948, traz uma pequena biografia:

"Fernando Sombra da Fonseca... era membro de uma das mais distintas famílias de nossa terra, filho de Guilherme Studart da Fonseca e sua exma. esposa D. Dolores Studart da Fonseca. Nasceu no dia 9 de janeiro de 1923, era funcionário do Banco do Brasil, aluno [de Direito] da... Faculdade de Ciências Econômicas, sendo muito estimado na comunidade estudantil e social de Fortaleza."

Nesse mesmo jornal consta o convite para o enterro, saindo da casa da família, da Rua Senador Pompeu, nº 627, o que confirma o seu endereço. Seu corpo encontra-se sepultado no Cemitério São João Batista (1° Plano, Lado Norte, Rua 03, n° 05).

Convite para o enterro de Fernando, 1948.

Lápide de Fernando Sombra da Fonseca.

Quanto ao sobrenome Fonseca, ao que parece, Sebastião não tinha documentos quando veio de Manaus, de modo que imagina-se que tenha sido registrado em Fortaleza dessa forma. Isso é corroborado pela ausência de registro de batismo em Manaus, conforme consulta realizada em 30 de junho de 2025, no Arquivo da Cúria Diocesana (abaixo).

Resposta do Arquivo da Cúria Diocesana de Manaus, 2025.

Entretanto, chama atenção a presença do sobrenome Fonseca, declarado por Sebastião para o seu avô paterno, Manoel Fonseca Silva. Seria Manoel algum parente de Guilherme Studart da Fonseca? Ou teria Sebastião atribuído o sobrenome Fonseca ao avô para poder, ele mesmo utilizá-lo? Essas são questões ainda em aberto.

A Fuga e o Casamento no Marco

Segundo depoimento de sua esposa, a saída da casa dos Studart da Fonseca teria sido motivada por uma questão banal. Certo dia, quando tinha 12 anos (~1938), Sebastião teria sido encarregado de ir comprar carne, mas decidiu parar no meio caminho para brincar, deixando o dinheiro escondido sob sua chinela. Ao retornar da brincadeira, percebeu que o dinheiro não estava mais lá. Temendo ser castigado, Sebastião teria decidido não voltar para casa, fugindo para o interior do estado. Ele teria acompanhado o Sr. João Batista Lopes (n. 12-06-11916, f. 19-12-1975) indo parar na localidade de Intans, no município de Morrinhos, onde morou por algum tempo.

Anos mais tarde, em meados de 1949, na localidade de Araticuns, no atual município de Bela Cruz, Sebastião conseguiu um emprego operando uma máquina de cortar palhas de carnaubeira. Foi quando conheceu sua futura esposa, Francisca das Chagas Pereira, filha de Raimundo Pereira de Maria e Marcolina Pereira. O pai de Francisca também trabalhava no extrativismo de carnaúba nas terras arrendadas de seu irmão, Joaquim Pereira. Terminada a temporada de corte, voltaram para o Marco, onde residia a família de Francisca na maior parte do tempo. Lá ele a pediu em casamento.

Casaram-se a 19 de abril de 1950, na Igreja Matriz do Marco, em cerimônia realizada pelo Padre Francisco Apoliano. Seis dias depois, a 25 de abril, realizaram o Casamento Civil no Cartório Neves, também no Marco. Nos dois casos, foram testemunhas, Francisco das Chagas Neves (1926-2000) e Francisco das Chagas Marques (1917-). A partir de então, Francisca passou a adotar o sobrenome do marido.

Casamento Religioso de Sebastião e Francisca, 1950 [1].
Transcrição:

Aos dezenove de abril de mil novecentos e cinquenta, feitas as denunciações canônicas, e mais formalidades... e não aparecendo impedimento canônico, na Igreja Matriz, em presença do vigário e testemunhas Francisco Chagas Marque e Francisco Chagas Neves, receberam-se em matrimônio com palavras de presente, Sebastião Chagas da Fonseca Francisca das Chagas Pereira; ele, filho legítimo de Deodoro Chagas da Fonseca e Sebastiana Chagas da Fonseca, natural da Freguesia de Amazonas e morador no Marco, ela, filha legítima de Raimundo Pereira de Maria e Maria Marcolina Pereira, natural da Freguesia de Marco e moradora na mesma: e logo lhes dei as bençãos nupciais na forma do Ritual Romano, de que para constar, lavrou-se esse termo, que assino. O Vigário Padre Francisco Apoliano.

Nota-se que Pe. Apoliano incluiu os sobrenomes Fonseca para os pais de Sebastião, o que não aparece em nenhum outro documento civil.

Certidão de Casamento de Sebastião e Francisca, 1989.
Transcrição:

República Federativa do Brasil / Estado / Território do Ceará / Comarca de Marco / Município de Marco / Distrito de Sede / Parsifal Silva Neves. Oficial do Registro Civil.

Certidão de Casamento / Certifico que, sob o nº 214, à fls. 53 do livro nº B-2 de Registro de Casamentos, verifiquei constar que no dia 25 de abril de 1950, foi feito o casamento de Sebastião Chagas Fonseca e Francisca das Chagas Pereira, contraindo perante o Juiz Alfredo Dias Silva e as testemunhas Francisco das Chagas Neves e Francisco das Chagas Marques. Ele, nascido em Manaus, capital do estado de Amazonas, a 1º de janeiro de 1926, profissão agricultor, domiciliado neste distrito, filho de Deodoro Chagas e Sebastiana Chagas. Ela, nascida em Marco, aos sete de agosto de 1927, profissão serviços domésticos, domiciliadas em Marco, filha de Raimundo Pereira de Maria e Maria Marcolina Pereira, a qual passou a assinar Francisca das Chagas Fonseca. Foram apresentados os documentos a que se refere o art. 180, nº, do Código Civil Brasileiro. Observação. 

O referido é verdade e dou fé, Marco, 16 de janeiro de 1989. / Cartório Neves / Parsifal Silva Neves / 1º Tabelião e Escrivão / Rua Dep. Fco. Monte. Tel. (19) 62.560 - Marco - Ce.

Ressalta-se que os documentos parecem divergir um pouco das memórias de minha avó Francisca, segundo a qual o padrinhos de casamento foram seu irmão Francisco Sales Pereira (n. 06-02-1916, f. 12-11-1990) e sua esposa, Francisca Silva Pereira (n. 23-05-1924, f. 09-06-2015). Ela também recorda de terem casado no mesmo dia no civil e no religioso. Apesar de conhecer as testemunhas mencionadas nos documentos, não recorda deles terem sido testemunhas do seu casamento.

A Chegada em Bela Cruz

Alguns meses após o casamento, em dezembro de 1950, Sebastião e Francisca mudaram-se para a cidade vizinha, Bela Cruz, onde se estabeleceram. O motivo da mudança se deveu ao trabalho de Sebastião, cujo patrão, na época, era o Sr. Manoel Teófilo da Rocha (n. 20-12-1889, f. 30-12-1971), oriundo do Marco, mas residente em Bela Cruz. Sebastião já havia morado com Manoel Teófilo em Bela Cruz algum tempo antes de casar com Francisca. Mais tarde, Manoel Teófilo seria padrinho da primeira filha do casal, que, infelizmente, não chegou a idade adulta.

Manoel Teófilo da Rocha (1889-1971).

Por volta de 1952, Sebastião e Francisca adquiriram uma casa localizada na Rua Humaitá, nº 87, do Sr. Expedito Deroci Vasconcelos (n. 13-06-1923, f. 17-08-2015), que posteriormente chegou a ser prefeito de Bela Cruz, entre os anos de 1963 e 1967.

Certidão do Patrimônio de N. S. da Conceição, 2007.
Transcrição:

CERTIDÃO / Certifico que revendo os registros de aforamento foi encontrado em nome de Sebastião Chagas Fonseca, uma área de terras aforado neste Patrimônio de Nossa Senhora da Conceição, localizado na Rua Humaitá, frente para Oeste, medindo 20 (vinte) metros de frente com 06 (seis) metros de fundo, limitando-se ao Norte: uma casa residencial pertencente à Francisca Benedita Araújo, ao Sul: com uma casa residencial pertencente ao Sr. Pedro Erasmo Vasconcelos, ao Leste: com um ponto terminal de 06 (seis) metros, ao Oeste: com as delimitações de Rua Humaitá. / Bela Cruz - Ce, 21 de maio de 2007 / Pe. João Batista Rodrigues Vasconcelos / Pároco.

Nessa casa, tiveram quinze filhos, dos quais apenas onze chegaram a idade adulta:

  • José Wilson da Fonseca;
  • Francisca Maria Imaculada;
  • Maria Selma da Fonseca;
  • Marta Célia da Fonseca;
  • Sebastião das Chagas Filho;
  • José Edmilson Fonseca;
  • Regina Célia Fonseca;
  • Maria Auricelia Fonseca;
  • Rita Maria da Fonseca;
  • Expedito Deodoro da Fonseca;
  • Fernando Amarildo da Fonseca;
Entre os filhos adultos, três destes faleceram: José Wilson, Imaculada e Edmilson. Hoje contabilizam-se 28 netos e 22 bisnetos do casal Sebastião e Francisca.

Foto da Família em frente a casa da Rua Humaitá, por volta de 1959.

Foto da Família na casa da Rua Humaitá, por volta de 1965.

Sebastião "Grosso", como ficou conhecido, trabalhou como motorista de Mons. Odécio Loiola Sampaio (n. 17-02-1916, f. 04-07-2001), primeiro pároco de Bela Cruz (1942 a 2001), durante a seca de 1958. Nessa época eram poucos os automóveis em Bela Cruz e Mons. Odécio possuía um carro de carroceria, o qual era conduzido por Sebastião. Sua esposa, D. Francisca, também trabalhou para o pároco, fazendo as refeições, lavando e passando suas roupas, além de confeccionar seus pijamas.

Mons. Odécio Loiola (1916-2001)

Mons. Odécio também deu a Sebastião outra fonte de renda, um balanço que ele levava para as festas e quermesses. As "canoas" eram um brinquedo popular para a época, em que duas pessoas subiam e puxavam uma corda, se balançando em alta velocidade de um lado para o outro. Como um parque de diversões mais primitivo, pagava-se uma pequena taxa para usufruir da atração por alguns minutos. Além do equipamento, o transporte também era feito na carroceria do carro do pároco. Minha avó se recorda particularmente de uma dessas ocasiões em que levaram as canoas para a localidade de Estreito (atual Panacuí), em Santana do Acaraú.

Ilustração de um balanço antigo.

Algum tempo depois, Sebastião empregou-se na fábrica de beneficiamento de Castanhas de Caju, Indústria e Agricultura, Castanha e Óleo Ltda. (IACOL), como mecânico, consertando máquinas de cortar castanha. A IACOL foi inaugurada em 28 de novembro de 1966, pelos sócios Raimundo Jovino de Vasconcelos (1917-1989), que viria a ser prefeito de Bela Cruz de 1973 a 1977, Manoel Jácome Teófilo (1922-1994), Manoel Jaime Neves Osterno (1907-1995) e a firma Quirino Rodrigues, de Sobral. Sebastião provavelmente prestou serviços a empresa na década de 1970, quando esta chegou a ter 300 funcionários (Araújo, 1967, p. 78). Ela funcionou até 1986, sendo definitivamente desativada em 23 de julho de 1990, segundo dados da Receita Federal.

Um lado menos conhecido de meu avô, era seu talento musical. Sebastião também era cantor e seresteiro, realizava serenatas para os casais de namorados, acompanhado no violão pelo seu compadre, o Sr. Deodete. Seu repertório incluía canções como Mágoas de Caboclo (1936), O Ébrio (1936), de Vicente Celestino, e A Volta do Boêmio (1956), de Nelson Gonçalves. Sebastião apresentou-se também por diversas vezes no Alvorada Clube, do qual virou sócio no ano de 1972, conforme recibo abaixo.

O Alvorada foi fundado em 22 de agosto de 1965, tendo como sede um prédio situado na Rua Major João Albano, esquina com a Rua Humaitá. Símbolo de distinção social, o acesso às suas festas era pautado por exigências rigorosas relacionadas ao comportamento e à posição social dos cidadãos (Bela Cruz, 2022, p. 10). Funcionou até o ano de 1986, quanto teve suas atividade encerradas.

Recibo de Participação no Alvorada Clube, 1972.
Transcrição:

AUTORIZAÇÃO / Autorizo a Diretoria do Alvorada Clube a transferência de minha ação de Sócio Fundador para o Sr. Sebastião Chagas Fonsêca, pagando o mesmo toda e qualquer taxa exigida, em virtude de ser transação de venda e compra. Bela Cruz, em 22 de dezembro de 1971 / Manoel Jácome Teófilo / Testemunhas: Francisco Ausueiro Pereira e Edilson Carvalhêdo Sampaio.

Reconheço verdadeira(s) a(s) firma(s) cujos os Manoel Jácome Teófilo, Francisco Ausueiro Pereira e Edilson Carvalhêdo Sampaio. Dou fé - Acaraú, 29 de janeiro de 1972.  Cartório Felipe Rocha... / Substituto: Otávio Felipe Rocha /  Compromissada: Maria da Penha Cunha / Acaraú - Ceará.

Com um talento nato para lidar com máquinas, Sebastião consolidou-se mesmo como mecânico de automóveis, profissão que repassou aos filhos homens. Sua oficina ficava localizada na Rua Santa Cruz, nº 51. No início, só existia em Bela Cruz um outro mecânico, o Sr. Anísio Rodrigues Ribeiro, atuante, pelo menos, entre 1967 e 1974, quando no dia 10 de janeiro deste último ano, instalou um bomba para a venda de gasolina (Araújo, 1967, p. 135; Araújo, 1990, p. 107). Algum tempo depois, Sr. Anísio se mudou para Fortaleza, passando Sebastião a ser o único mecânico de Bela Cruz.

Vista da Rua Santa Cruz com oficina de Sebastião em destaque, 1982.

D. Francisca Fonseca*

A esposa de Sebastião, D. Francisca, nasceu a 7 de agosto de 1927, no Marco, tendo menos de 23 anos quando se casou com Sebastião. Em Bela Cruz, trabalhou por muitos anos como costureira e cabeleireira, especializando-se em frisar cabelos, atendendo mulheres não somente moradoras da cidade de Bela Cruz, mas também de localidades rurais e de outros municípios. Ela esteve presente no dia da emancipação política do município, 23 de fevereiro de 1957, e lembra muito bem dos costumes dos habitantes do pequeno povoado, quando aqui chegou.

Francisca também presenciou a inauguração do "novo" Instituto Imaculada Conceição, em 14 de fevereiro de 1960. Em 1965, o cantor Luiz Gonzaga esteve na região, fazendo um show no dia 30 de novembro na "Casa da Juventude", em Acaraú (Araújo, 1991, p. 131). Nessa mesma época, ele fez sua apresentação no referido Instituto e comprou os longos cabelos da Maria de Lourdes, conhecida como Peuta.

Ela sempre foi muito religiosa, participava do Coral da Igreja, recebia os sacramentos da confissão e da comunhão nas primeiras sextas-feiras e sempre primou pela educação religiosa e da instrução dos seus filhos, os quais já iniciavam seus estudos formais, alfabetizados e sabendo a tabuada. Sempre solícita com as pessoas, especialmente com as mais carentes, acolheu-as em sua casa, principalmente doentes ou que precisasse de alguma ajuda. Essa atitude de D. Francisca era constante, mas se acentuou por volta do ano de 1966, quando existia um Posto de Saúde em frente sua casa, na Rua Humaitá.

O médico que atendia no referido posto era Dr. Manoel Airton Osterno, seu colega de classe, que vinha do Marco, o qual era auxiliado pela Diana Rios, sua atendente. Muitas pessoas enquanto aguardavam atendimento ficavam na casa da D. Francisca para tomar chás, água, café, banhar e amamentar as crianças, lavar os coeiros e roupinhas e, muitas vezes, tomar remédios. Certa vez foi preciso interromper um atendimento do Dr. Airon para interceder por um homem que estava passando mal em sua casa. D. Francisca frequentemente levava merenda para Dr. Airton e para sua atendente Diana e, quando era preciso atender no turno tarde, almoçava em sua casa, pois dizia que gostava muito da comida dela.

*Texto de Rita Fonseca, minha mãe e filha Sebastião e Francisca, com adaptações.

Ancestralidade Genética

O fenótipo de meu avô sempre me chamou atenção por ser atípico para nossa região. Isso alimentava a curiosidade sobre uma possível ascendência indígena e, ao mesmo tempo, misturava-se ao pouco que se sabia sobre seu passado, conferindo certo ar de mistério à sua origem. No início de 2025, meu primo, Caio Fonseca, realizou testes de ancestralidade de minha avó, D. Francisca, e de sua mãe, Regina Célia, filha de Sebastião, por meio da plataforma Genera.

Comparando os resultados de mãe e filha, tornou-se possível estimar, ainda que de forma aproximada, o perfil genético de Sebastião. Como esperado, os dados sugerem que cerca de 74% de sua ancestralidade era proveniente de povos nativos americanos, com indícios de prevalência de ligação com os povos amazônicos (~38%). Isso é compatível com o que se sabe sobre sua origem amazonense. Os resultados sugerem que seus pais ou avós possuíam ascendência indígena significativa, provavelmente resultante de processos relativamente recentes de miscigenação entre populações indígenas da Amazônia e colonos de origem europeia.

A plataforma Genera permite ainda identificar indivíduos geneticamente aparentados. Novamente, ao comparar os parentes genéticos listados para Regina com aqueles identificados para sua mãe, Francisca, foi possível destacar um indivíduo aparentemente vinculado ao ramo paterno de sua família. Esse indivíduo, que identificarei apenas como Lucas, compartilhava 56 cM de DNA com Regina, valor que a plataforma classificou como compatível com um primo de terceiro ou quarto grau. Um cenário plausível, entre outros, é que Lucas seja bisneto de um tio de Sebastião ou descendente de algum ancestral comum situado entre os avós e trisavós deste.

Entrei em contato com Lucas, residente em Manaus, em junho de 2025. Ele nos forneceu informações valiosas. Embora não tenha reconhecido os sobrenomes dos avós de Sebastião, afirmou pertencer ao povo Mura e relatou que o ancestral compartilhado possivelmente teria origem na região de Itacoatiara, município situado às margens do rio Amazonas, a cerca de 270 quilômetros de Manaus. Historicamente, os Mura ocuparam vastas áreas dos vales dos rios Madeira, Amazonas e Purus. Apesar de serem informações limitadas, apontam para uma possível origem da família de Sebastião nessa região do Amazonas.

Habitação dos Índios Mura, 1931. (Fundo Tribunal Especial, S. Procuradoria, n. 640, vol. IV, dep. 311).

Falecimento

Sebastião Chagas Fonseca faleceu às doze horas e vinte minutos do dia 6 de janeiro de 2015, com 89 anos de idade, de parada cardiorrespiratória, na estrada a caminho de Sobral, como declarado por sua filha, Rita Fonseca, em seu atestado de óbito. Foi sepultado no cemitério Nossa Senhora de Fátima, em Bela Cruz.


Sebastião Chagas Fonseca (1926-2015).

"Quero somente que na campa em que eu repousar

Os ébrios loucos como eu venham depositar

Os seus segredos ao meu derradeiro abrigo

E suas lágrimas de dor ao peito amigo"

(O Ébrio, 1936, Vicente Celestino)

Diego Carneiro

28 de junho de 2026 

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. Os Fonseca de Bela Cruz. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 28 de junho de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/06/os-fonseca-de-bela-cruz.html

Referências

ARAÚJO, Nicodemos. Bela Cruz: De Prédio Rústico a Cidade. Edições A Fortaleza. Fortaleza, 1967.

ARAÚJO, Nicodemos. Município de Bela Cruz. Acaraú, 1985.

ARAÚJO, Nicodemos. Cronologia de Bela Cruz. Acaraú, 1990.

ARAÚJO, Nicodemos. Cronologia da Cidade de Acaraú, 1700 - 1991. Acaraú, 1991.

BELA CRUZ (Município). Secretaria da Cultura. Museu a Céu Aberto: conhecer o passado é garantir o futuro. Bela Cruz, CE: Museu Emílio Fonteles, 2022.

LOYD, Reginald et al. Impressões do Brazil no Seculo Vinte. Lloyd's Greater Britain, 1913. p. 1.043-1.048. Disponível em: https://www.novomilenio.inf.br/santos/h0300g51b.htm

[1] Livro de Matrimônios da Paróquia de São Manoel, Jan. 1942 a Jan. 1950, fl. 169, nº 237 (link)

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