Para compreender a ocupação do extremo oeste do atual município de Bela Cruz, é importante ter em mente que esse território situava-se na fronteira dos termos das vilas de Granja (1776) e Sobral (1773). O termo da Vila de Sobral media 51 léguas de comprimento e 38 léguas de largura, contemplando inicialmente três freguesias: N. S. da Conceição de Caiçara, Amontada e Almofala (Araújo, 2005, p. 86).
Segundo padre Fortunato Linhares, a freguesia de N. S. da Conceição de Caiçara media:
(...) 15 léguas, desde a barra do rio Acaraú, principiando ao N. na Picada dos Castelhanos até a Picada do Itapagé, Pela Ribeira acima tinha 34 léguas de comprido até onde findava a freguesia ao Pé da Serra Grande, abaixo do Campo Grande; e de largo 30 légoas, principiando da bocca da Picada do Quixeramobim até a Picada do Caiá, e assim ia estendendo-se ou estreitando-se até quinze léguas, quanto tinha de costa (Linhares, 1922, p. 266).
O Sítio Castelhano, foi uma antiga propriedade pertencente ao Coronel Barbosa de Morais, onde hoje ainda existe uma localidade homônima, situada no litoral, entre o Açude da Prata e a praia do Preá. Isso pode ser visualizado no Mapa Geográfico da Província do Ceará, de 1800 (abaixo).
Depreende-se desse mapa que o próprio Riacho da Prata pode ter servido como referência para a divisa entre os termos das duas vilas, uma vez que a sua foz parece coincidir com a referida Lagoa do Castelhano, no ponto que hoje corresponderia ao Açude da Prata.
Emancipação e a Mudança Fronteiriça
Em 1832, um Decreto Imperial removeu a sede da Freguesia de Almofala para o povoado Barra do Acaraú, criando assim a Freguesia N. S. da Conceição da Barra do Acaraú em substituição à primeira. Após algumas idas e vindas, os limites da freguesia foi confirmado por meio da Lei nº 283, de 15 de dezembro de 1842: ao norte, o oceano; ao sul, a Meruoca; a leste a Freguesia de Imperatriz (atual Itapipoca); e a oeste com a Freguesia de Granja (ainda delimitado pela picada do Castelhano). Em 1849, por meio da Resolução nº 480, de 31 de julho, fica a Barra do Acaraú elevada a vila, tendo como termo os limites das freguesias de Acaraú e Santana.
Mas a Lei Provincial nº 557, de 27 de novembro de 1851, que elevou Acaraú a condição de município, tendo como limites a Leste, da margem ocidental da barra do Rio Mundaú, para o Sul, até o sítio Alagoinha; deste à fazenda Ipueira do Castro, no Aracati-Mirim; e daí à fazenda Jurema, no Coreaú; ao Oeste, da margem oriental do Rio Guriú, para o Sul, até a mesma fazenda Jurema. Entretanto, esses limites foram reduzidos pela Lei nº 631, de 22 de dezembro de 1853, deixando a Freguesia da Barra do Acaraú extremando com a de Granja, pela barra do Rio Guriú, até à fazenda Extremas e à Tucunduba de Dentro; com a de Santana, pelo Marco, por um e outro lado do Rio; com a de Imperatriz, pela margem ocidental do Rio Arataiaçu, até à fazenda Surrão.
A Sesmaria de Antônio da Silva Barros
Comecemos a mapear as terras do extremo oeste do município de Bela Cruz pela sesmaria de Antônio da Silva Barros, citada na petição do Capitão Diogo Lopes de Araújo Costa. Ela foi concedida em 7 de junho de 1807, com o seguinte conteúdo:
Antonio da Silva Barros, morador na Boa Vista, Termo da Villa da Granja desta Capitania, nos enviou a dizer em seo requerimento que: Junto do Lugar de sua moradia se achavão varias terras em hua longa Catinga de Matta, devolutas, e desaproveitadas, onde elle bem podia fazer suas culturas segundo costumava e usava, estabelecer os seos fabricos; e que por isso nos pedia lhe concedessemos em Nome de S. A. R. o Principe R. N. S. por Carta de Data de Sesmaria tres legoas de comprido, e hua de largo nas referidas terras, a saber: pegando o seo comprimento da parte do Poente onde finda a Data de João Pereira Jacinto; a qual tem tres legoas para o Nascente; e pegando a sua largura das extremas do supradito lugar da Boa vista da parte do Norte, buscando o Sul até onde fizer a mencionada legoa (Sesmarias, Vol. 8, nº 676, p. 188).
Analisando o Atlas das Divisas Municipais de 2019, conseguimos localizar no município de Cruz algumas localidades de nome Boa Vista, Sítio Boa Vista e Boa Vista dos Rocha. Ressalta-se que a localização coincide precisamente com a porção oeste da sesmaria de obtida por Diogo Lopes. Dessa forma, tomando essas localidades como referência do extremo norte e seguindo as picadas e divisas do mapa três léguas ao oeste (poente), chegou-se a localização aproximada da sesmaria de Antônio da Silva Barros.
Estão dentro dessa área as localidades de Córrego de Dentro, São Joaquim, Bom Futuro, Santo Isidio, Córrego do Ferreira, Lagoinha, Bom Jesus, Santo Estevão, Aroeira, São Geraldo, Cruzeiro, São Pedro e São Benedito.
A mencionada sesmaria de João Pereira Jacinto foi recebida em 30 de agosto de 1805, no lugar chamado Lagoa das Pedras (Sesmarias, Vol. 8, nº 668, p. 167). Esta data localiza-se no território dos atuais municípios de Cruz e Jijoca de Jericoacoara.
Ademais, não encontrei muitas informações sobre o titular dessa sesmaria. Sabe-se que era militar, exibindo a patente de comandante no pedido de sesmaria de Diogo Lopes, de 1817. A mesma patente é reportada em um ofício da câmara da Vila de Granja, datado de 1827, onde Antônio consta como morador da proximidades do rio Guriú (Studar-Filho e Pompeu, 1966, p. 229). Por fim, no livro de terras da Cidade de São José de Granja, de 1854 a 1857, Antônio da Silva Barros consta como proprietário no lugar "Tambor" (nº 56 e 60 apud França, 2024, p. 104).
07 de junho de 2026
Referências
ARAÚJO, Nicodemos. Bela Cruz: De Prédio Rústico a Cidade. Edições A Fortaleza. Fortaleza, 1967.
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
LINHARES, Fortunato Alves. Pe. Notas históricas da cidade de Sobral. Revista do Instituto do Ceará, v. 36, p. 254-93, 1922.
FRANÇA, Mavignier. Guia de Contexto, Pesquisa e Leitura do Primeiro Registro das Terras de Granja Ceará (1854-1857). Coreaú: Associação Memória Salva, 2024.
STUDART FILHO, Carlos; POMPEU, Thomaz. Páginas de história e pré-história. Inst. do Ceará, 1966.