Felisberto Ferreira: O Patriarca do Barro Vermelho

Vista Aérea da sede do Marco e do Bairro Barro Vermelho (abaixo), 2003.

Esse artigo busca resgatar a história de Felisberto Ferreira, ex-escravizado cuja descendência habita, há mais de um século, o Bairro Barro Vermelho, no Município de Marco. Para tanto, utilizei como ponto de partida um documento de autoria da Prof.ª Vander Lúcia Menezes Farias, baseado em depoimentos colhidos durante o evento "Santas Missões Populares", no ano de 2007. Esse evento é uma iniciativa pastoral da Igreja Católica, onde missionários e religiosos visitam os lares para fortalecer a fé das comunidades. Tomei conhecimento dessas informações através da página Marco Histórico e obtive o texto completo de referência através da equipe do Museu do Marco, a quem agradeço na pessoa de sua gerente, Francilane Rocha. Aproveiro para agradecer também a revisão cuidadosa do colega genealogista Gaudêncio Leorne.

O texto trata-se de um conjunto precioso de informações sobre os primeiros moradores do bairro e do município, as quais buscarei complementar à luz das evidências documentais disponíveis. O texto começa da seguinte forma:

"O Barro Vermelho foi o primeiro bairro e o mais conhecido de Marco, sempre foi referência da família “Dias” que tem na sua genealogia o seu bisavô, o senhor Felisberto, escravo que com a Lei dos Sexagenários recebeu liberdade, assim migrando para esta região e que recebeu esta ribeira de presentes do “Soeiro” que era dono de muitos escravos, dentre eles Maria, escrava, que por sua vez engravidou de seu patrão cujo filho ao nascer em 1870 foi batizado de Felisberto pelo seu pai. Chegando a lei Áurea, maio de 1888, Felisberto já tinha 18 anos, Soeiro amparado pela lei despede de seu filho Felisberto e lhe dá como herança a terra do riacho do Córrego, com muitas espécies de animais. Este viveu os anos de sua vida como agropecuarista. Com o crescimento de seus rebanhos estendeu seu comércio até Sobral. O senhor Felisberto, em certa viagem a Sobral, conheceu uma moça chamada de Maria das Graças e com ela casou-se e juntos construíram a história do Barro Vermelho, que recebeu esse nome graças ao trabalho com cerâmicas que eram desenvolvidos pelas mulheres, enquanto os homens trabalhavam nas olarias na produção de tijolos e telhas, e na agricultura".

Esse parágrafo resume uma grande quantidade de informações verificáveis. Primeiro, a Família Dias dessa região descende do casal João Gualberto Dias e Ana Ferreira Dias, casados a 14 de fevereiro de 1885. São pais de José Gualberto Dias, nascido a 29 de setembro de 1889, conforme sua habilitação de casamento. Este casou-se duas vezes, a primeira com Rita de Cássia Dias (possível prima), em 7 de janeiro de 1914, e a segunda com Maria Fidélis Ferreira, a 16 de setembro de 1921.

Registro de Casamento de José Gualberto Dias e Rita de Cássia Dias, 1914 [1].
Transcrição:

A sete de janeiro de mil novecentos e catorze, na Capela do Marco desta Freguesia, casaram-se em minha presença José Gualberto Dias e Rita de Cássia Dias; ele filho legítimo de João Gualberto Dias e Ana Ferreira Dias; ela de João Felisberto do Nascimento e Maria Dias do Nascimento. Foram dispensados dos insfa. de cons. 2º gr. s. e 3º ig. quadruplo. Foram testemunhas Joaquim de Souza Moreira e Raymundo Ricardo da Silva. Para constar mandei fazer este assento que assino. O Vig. Joaquim Severiano.

Esse último casal foram pais de José Gualberto Filho, conhecido como Seu "Zé Dondom", centenário, nascido em 8 de fevereiro de 1924, morador do Barro Vermelho, e a principal testemunha arrolada pela Profª Vander Lúcia. 

José Gualberto Filho ("Zé Dondom")

Seu "Zé Dondom" era músico violonista, casado com sua prima Maria Júlia Dias, filha de Protázio Gregório Dias, outro filho de João Gualberto. Uma Nota da Câmara Municipal de Marco, emitida em função de seu falecimento, ocorrido no dia 06 de julho de 2025, com 101 anos, informa que "dessa feliz união conjugal, nasceram 15 filhos, 28 netos e 20 bisnetos. Dedicou-se à dinâmica do comércio, agricultura, pesca, pecuária e serestas para sustentar a família, zelando assim seu crédito, que futuramente seria herança para seus filhos".

Casamento de José Gualberto Filho (Zé Dondom) e Maria Júlia Dias, 1948 [2].

Transcrição:

Aos vinte e dois dias de janeiro de mil novecentos e quarenta e oito, feitas as denunciações canônicas e encontrando impedimento do qual foram dispensados, na Capela de Morrinho, em presença do Vigário de Bela Cruz e das testemunhas José ... Carneiro e João Lourival da Rocha, receberam-se em matrimônio com as palavras de presente José Gualberto Filho e Maria Julia Dias; ele filho legítimo de José Gualberto Dias e Maria Fidelis Ferreira, natural da freguesia de Marco e morador na mesma; ela, filha legítima de Protazio Gregório Dias e Ana Augusta da Silva, natural da freguesia de Marco e moradora na mesma: logo lhes dei as bençãos nupciais na forma do Ritual Romano, do que para consta lavrou-se este termo, que assino.

Felisberto e o Velho Soeiro

Quanto ao citado ex-escravizado, trata-se de Felisberto Ferreira Gomes, pai de Ana Ferreira Dias, bisavô de Zé Dondom, como consta em seu registro de casamento (abaixo).

Casamento de João Gualberto Dias e Ana Ferreira, 1885 [3].

Transcrição:

Aos quatro de fevereiro de mil oitocentos e oitenta e cinco, nesta Capela do Marco, compareceram... na presença do Reverendo Padre Francisco Teótimo de Maria Vasconcelos e como testemunhas João Gualberto Dias, digo, Ricardo de Sousa Neves e Manoel Otaviano Fonteles, contraíram matrimônio João Gualberto Dias, filho legítimo de Manoel Dias de Figueiredo e Marcolina Maria da Conceição, com Ana Ferreira, filha legítima de Felisberto Ferreira Gomes, falecido, e de Maria Francisca do Nascimento, ambos naturais e moradores nesta Freguesia... 

Já o citado "Soeiro", pai de Felisberto e quem teria lhe dado as terras do Barro Vermelho, muito provavelmente trata-se de Inácio Manoel de Almeida Soeiro (Velho Soeiro). Inácio declarou, em 1857, ser proprietário de "cem braças de terra nas terras do Barro Vermelho e no mesmo rumo Gado Brabo", como consta no Livro de Registro de Terras da Freguesia de Santana (nº 328, fl. 38 v.).

Registro de Terras de Inácio Manoel de Almeida "Soeiro" no Barro Vermelho e Gado Brabo, 1857 [4].

Transcrição:

Possuo cem braças de terra nas terras do Barro Vermelho e mesmo rumo Gado Brabo, setenta e duas mista. Freguesia de Sant'Anna. Sant'Anna, quinta de fevereiro de mil oitocentos e cinquenta e sete. Inácio Manoel de Almeida.

Ressalta-se que nessa época vigorava o princípio do partus sequitur ventrem ("o filho segue a condição da mãe"), de modo que a condição da mãe, se cativa ou livre, determinava o status do filho, independente de quem fosse o pai. Dessa forma, quando um senhor tinha um filho com uma mulher escravizada, este, legalmente, pertencia ao proprietário da mãe (Pereira, 2022). Dessa forma, se Soeiro era proprietário de Maria, mãe de Felisberto, este último também nasceu cativo do próprio pai.

O texto informa ainda que Felisberto teria recebido as terras do Riacho do Córrego. No mesmo registro de terras, consta a mãe de Inácio Soeiro, Inácia Maria de Jesus, como possuidora de "cem braças de terra no Barro Vermelho, vinte no Marco, mestiças com a mesma, e uma posse no córrego nos fundos com as mesmas vinte" (nº 816, fl. 87 v.). Portanto, é provável que as terras herdadas se tratassem dessa porção da propriedade da família Soeiro. Ressalta-se entretanto, que Inácia faleceu em 5 de junho de 1813, portanto esta declaração deve ter sido feita em seu nome por um terceiro.

Registro de Terras de Inácia Maria de Jesus no Barro Vermelho, Marco e Córrego, 1858 [4].

Transcrição:

Possuo cem braças de terra no Barro Vermelho, vinte no Marco mestiças com a mesma, e uma posse no Córrego nos fundo das mesmas vinte. Freguesia de Sant'Anna, oito de março de mil oitocentos e cinquenta e oito. Inácia Maria de Jesus.

Sobre o "Velho Soeiro", como é lembrado pelos seus descendentes, nasceu por volta de 1808, filho de Francisco Antônio Fonteles, neto do lendário sesmeiro português Manoel Ferreira Fonteles. Casou-se em 11 de junho de 1832 com sua prima, Maria José de Jesus (abaixo), sendo ambos netos do açoriano Manoel de Almeida Soeiro. Inácio faleceu por volta de 1891, ano em que foi aberto seu inventário [5]. Ressalta-se que nesse documento, onde foram elencados todos os seus bens, não constam mais entre as suas várias propriedades as terras do Barro Vermelho ou do Riacho do Córrego, declaradas 40 anos antes, o que atesta que ele teria se desfeito das mesmas ainda em vida.

Casamento de Inácio de Almeida Soeiro e Maria José de Jesus, 1832 [6].

Transcrição:

Aos onze de junho de mil oitocentos e trinta e dois, as diligências do estrito de que não resultaram impedimento algum cujos papéis ficam em meu poder em presença do Reverendo Miguel Francisco Mendes de Vasconcelos de licença minha se receberão em matrimônio Ignácio Manoel de Almeida, filho legítimo de Francisco Antônio Fonteles e de Inácia de Maria, já falecida, com Maria José de Jesus, filha legítima de Honorato José de Carvalho e de Rita Thereza de Jesus, todos naturais e moradores desta Freguesia de Sobral e dispensados no terceiro grau de sanguinidade em que estavam ligados, e logo receberão as bençãos nupciais juro..., e para constar mandei fazer este assento e assinei.

Para registro, no inventário de Inácia Francisca de Jesus, mãe de Soeiro, aberto no dia 10 de dezembro de 1814, tendo seu esposo, Francisco Antônio Fonteles, como inventariante, constam os seguintes escravizados (fl. 12):

  • Joaquim, 20 anos, n. ~1794, mulato, avaliado em 140$000 (cento e quarenta mil réis);
  • Caetano, 18 anos, n. ~1796,  crioulo, avaliado em 130$000 (cento e trinta mil réis);
  • Zuin Ailiana (?), 4 anos, n. ~1810, crioula, avaliada em 40$000 (quarenta mil réis).

Alforria

A partir daqui podemos frisar algumas contradições, completamente justificáveis considerando o intervalo de tempo decorrido. Inicialmente, é pouco provável que Felisberto tenha nascido em 1870, como apontado no texto, uma vez existem onze filhos conhecidos deste, nascidos entre julho de 1851 e março de 1872. Dessa forma, é mais provável que tenha se casado por volta de 1850 e nascido por volta de 1830. Nessa época, seu suposto pai teria cerca de 22 anos e ainda não era casado, o que é perfeitamente compatível.

O texto também sugere que Felisberto teria ganhado sua liberdade com a Lei dos Sexagenários, Lei nº 3.270, de 28 de setembro de 1885, o que colocaria seu nascimento anterior a 1825. Entretanto, a escravidão no Ceará foi abolida mais de um ano antes da aprovação dessa lei, em 25 de março de 1884. Dessa forma, ou Felisberto foi libertado voluntariamente (ou comprou a própria liberdade) antes dessa data ou o foi por meio da referida carta magna. Uma vez que a morte de Soeiro foi posterior a essa data, também não foi possível analisar sua escravaria, que outrora constaria em sua relação de bens.

Sobre isso, em diversos documentos oficiais da Prefeitura Municipal de Marco, na seção que trata do histórico do município, consta a seguinte afirmação:

"Seu primeiro colégio foi construído na localidade de Gado Bravo, quando Marco ainda era Distrito de Licânia, atual Santana do Acaraú, nas Terras de Inácio Jesuíno Soeiro, um dos primeiros habitantes da Ribeira do Acaraú e também um dos primeiros a libertar seus escravos, muito antes da Lei Áurea" (Marco, 2026).

Inácio Jesuíno Soeiro era neto do Velho Soeiro, tendo nascido em 9 de julho de 1870, filho de José Inácio Soeiro e Maria do Carmo Vasconcelos da Penha, como demonstrado na documentação abaixo. Nesse caso, houve uma clara confusão entre os dois personagens, visto que Jesuíno era muito jovem para ter libertado escravos antes de 1884, quando teria apenas 14 anos. Portanto, é mais plausível que a afirmação trazida nos documentos trate, na verdade, de Inácio Manoel de Almeida Soeiro e não de seu neto.

Trecho do inventário de Manoel Inácio de Almeida Soeiro, 1891 [5].

De toda forma, essa evidência, possivelmente derivada da tradição oral, reforça a ideia de que o Velho Soeiro teria alforriado seus escravos de forma independente da imposição legal, dentre os quais, possivelmente estivesse Felisberto Ferreira.

Inácio Jesuíno Soeiro (1870-1963)

Descendência de Felisberto Ferreira

O texto da Prof. Vander Lúcia continua da seguinte forma:

"Maria das Graças era de uma família católica e cantava na igreja. Era também devota de Nossa Senhora da Conceição. Encantado com a Jovem em uma de suas viagens falou com seus pais da moça marcando o casório para o ano de 1896. O casamento aconteceu na localidade onde Felisberto residia e foi presidida pelo Pe.Tiótimo. Desta belíssima união nasceram: Maria da Anunciação, Maria da Penha, Maria da Conceição, Ana, Cândida, Jô, Francisco, João e Fransquinha".

Aqui podemos destacar outro ponto controverso, que é o nome da esposa de Felisberto, que a tradição oral nomeia Maria da Graças, entretanto, várias outras formas são encontradas nos documentos, como Maria Francisca do Nascimento (casamento de João Gualberto), Maria Francisca de Jesus (batismo do filho Manoel), Maria Ferreira Gomes (registro do neto Raimundo) ou ainda Maria Ferreira Dias (casamento de José Gualberto). O casamento em 1896 também é bastante posterior ao nascimento dos filhos conhecidos e até de alguns netos, de modo que certamente trata-se de um engano.

Outro aspecto verificável é o período de atuação do citado Padre Francisco Teótimo de Maria Vasconcelos. Natural de Santana, padre Teótimo ordenou-se em 15 de janeiro de 1871, sendo vigário de Santana, a qual o Marco estava subordinado, além de deputando provincial na legislatura de 1884 a 1887. Faleceu em 9 de julho de 1915, sendo sepultado na Igreja Matriz de Santana do Acaraú (Freitas, 2017). No batizado de Maria, primeira filha do casal, realizado a 7 de setembro de 1851, ela consta como filha legítima, ou seja, os pais já eram casados. Dessa forma, não poderia Pe. Teótimo ter realizado matrimônio.

Batizado de Maria, filha legítima de Felisberto e Maria Ferreira, 1851 [7].

Transcrição:

Maria, parda, filha legítima de Felisberto Ferreira Gomes e Maria Francisca do Nascimento, nasceu a dezenove de julho de mil oitocentos e cinquenta e um, e aos sete de setembro do mesmo ano, foi solenemente batizada por mim.

Quanto a relação de filhos, ela é relativamente bem aderente ao que se tem registro*:

  • Maria, parda, n. 19 de julho de 1851, b. 7 de setembro de 1851, na Capela de Santa Cruz. Padrinhos: Pe. Francisco de Vasconcelos e Patrícia (?) Maria de Jesus;
  • Manoel, n. 8 de julho de 1852, b. 2 de setembro de 1852, na Capela da Meruoca. Padrinhos: Francisco Firmino Rios e Maria Joaquina;
  • Francisca, parda, n. 14 de julho de 1853, b. 9 de setembro de 1853, na Fazenda do Espírito Santo. Padrinhos: Ignacio Manoel de Almeida e Maria José de Jesus;
  • Raimundo, pardo, n. 20 de julho de 1856, b. 20 de agosto de 1856, na Capela de Santa Cruz. Padrinhos: José Domingues da Silva e Rita Emiliana da Rocha;
  • Theresa, parda, n. 8 de janeiro de 1859, b. 13 de janeiro de 1859, na Fazenda do Espírito Santo. Padrinhos: José Fidelis de Freitas e Teresa Rita de Jesus;
  • Maria, parda, n. 15 de julho de 1863, parda, b. 5 de janeiro de 1864, na Matriz de Santana. Padrinhos: Ignácio Maria de Sousa e Maria Francisca do Nascimento;
  • Ana Ferreira, c.c. João Gualberto Dias, filho de Manoel Dias Figueiredo e Marcolina Maria da Conceição, a 14 de fevereiro de 1885, na Capela do Marco. Testemunhas: Ricardo de Sousa Neves e Otaviano Fonteles;
  • Maria, n. 16 de outubro de 1866, b. 27 de agosto de 1867, na Fazenda Barro Vermelho. Padrinhos: Inácio Moreira de Sousa e Ana Thereza da Conceição;
  • Francisco, n, 18 de dezembro de 1867; b. 5 de junho de 1868, na Fazenda Barro Vermelho. Padrinhos: Luis Manoel de Carvalho e Maria do Carmo;
  • Maria, parda, n, 23 de março de 1872, b. 5 de novembro de 1872, na Capela do Marco;
  • José Ferreira do Nascimento, c.c. Ana Rosa da Conceição, filha de Mathias Vicente do Nascimento e Rosa Maria da Conceição, a 22 de agosto de 1886, na Capela do Marco. Testemunhas: José de Sousa Rios, Alexandre Carneiro Pereira e João Theóphilo.

Ressalta-se que a maioria dos filhos é descrita como pardos, o que condiz com ascendência atribuída a Felisberto. É importante frisar que em grande parte do século XIX o termo "pardo" estava ligado diretamente à condição social e não apenas à aparência física, portanto, a indicação expressa no termo de batismo constitui uma evidência indireta da origem cativa dos pais (Kabengele, 2009).

Outro fato interessante é que nos batizados de Francisca e Maria (2ª), com mais de dez anos de distância entre si, Inácio aparece como padrinho, o que confirma o contato de longo prazo entre os dois. Ademais, José Fidelis de Freitas, padrinho de Theresa, e Luís Manoel de Carvalho, padrinho de Francisco, eram cunhados de Inácio, filhos de seu sogro, Honorato Manoel de Carvalho. Já José Domingues da Silva, padrinho de Raimundo, também era morador do Barro Vermelho, onde possuía, em 1860, 20 braças de terra, pegando a margem do Rio Acaraú para o poente em uma légua de fundo, onde estava encravada sua casa de morada [8].

Os locais de batizados também sugerem que Felisberto teria passado a residir no Barro Vermelho, pelo menos desde, 1867. Ademais, no já mencionado casamento de Ana Ferreira, ocorrido em 14 de fevereiro de 1885, Felisberto já é apontado como já falecido, o mesmo ocorre no casamento de José Ferreira do Nascimento, do ano seguinte.

*Registros disponíveis nos respectivos perfis na plataforma FamilySearch.

Outros Proprietários do Barro Vermelho

No mesmo levantamento de terras da Freguesia de Santana, constam outros proprietários das terras do Barro Vermelho, com destaque para a família Ferreira Fonteles, todos descendentes de Francisco Ferreira Fonteles, filho de Manoel Ferreira Fonteles e herdeiro da Fazenda do Marco, desagregada da antiga Fazenda Tucunduba. Entre os herdeiros de Francisco Fonteles, destacam-se dois filhos: Joaquim Ferreira Fonteles, três posses de terras (nº 827, fl. 88 v.) e Miguel Ferreira Fonteles, 53 braças (nº 817, fl. 87 v.).

Ademais, constam ainda Felisberto Ferreira Fonteles, com cento e vinte braças, contestando pela parte de baixo com terras de Dona Maria Inácia da Conceição e de Augusto José Ribeiro Duarte e pela parte de cima compreendendo a dita posse vinte braças da parte de lá do Rio Acaraú e as outras cem da parte de cá do mesmo rio (nº 149, fl. 19 v.) e Francisco Ferreira Rio, cem braças por uma légua de fundo, ao poente do Rio Acaraú (nº 37, fl. 6 v.), ambos netos de Francisco Fonteles.

Por fim, constam ainda como proprietários na região, o Capitão Bernardino Ferreira Gomes, três posses de terra nas ilhargas do Acaraú, na parte do Góes, com uma légua de fundo (nº 269, fl. 32 v.), assim como João Carlos Carneiro, também neto de Manoel Ferreira Fonteles, de uma posse de terra (nº 846, fl. 90 v.).

Chama a atenção a coincidência do nome Felisberto, bastante incomum na região, entre Felisberto Ferreira Fonteles e nosso personagem central. Sabe-se que os pais de Soeiro e de Felisberto eram primos legítimos. Seria esse nome uma homenagem de Soeiro primo e vizinho? Haveria alguma relação de parentesco ou senhoria entre os dois personagens? E o sobrenome Gomes, constante em alguns documentos de Felisberto, teria relação com Bernardino Ferreira Gomes? Essas ainda são questões em aberto, que talvez nunca tenham uma resposta apropriada.

Entretanto, é relevante destacar que era comum ex-escravizados adotarem o sobrenome de seus senhores, inicialmente como um patronímico e depois como sinal de proteção social ou vínculo de clientela. Outra situação frequente era a adoção do sobrenome dos padrinhos ou madrinhas, como forma de reforçar publicamente esse vínculo (Rios, 2000). Por fim, adotava-se nomes de santos ou títulos marianos como, por exemplo, Conceição, Jesus, Nascimento, Anunciação, etc. (Tavares-Neto e Azevedo, 1977).

Isso fica claro, no caso de Felisberto, que adota o último sobrenome Gomes, mais frequente, mas também Nascimento, como citado no casamento do neto, José Gualberto, ocorrido mais de 35 anos depois de sua morte. O nome da esposa de Felisberto também apresenta significativa variação nos diferentes documentos: Nascimento, Jesus, Gomes e Dias. Sobre isso, o genealogista marquense Gaudêncio Leorne traz uma explicação plausível para os sobrenomes de Felisberto:

"... seu pai [Inácio Soeiro] havia herdado o sobrenome materno, porém, era filho de Francisco Antônio Fonteles, também chamado de Francisco Antônio Ferreira, transmitindo o sobrenome Ferreira para Felisberto, o mesmo que vinha desde o “Adão do Vale Acaraú” e que deu continuidade na sua descendência. Provavelmente o “Gomes” fosse de sua mãe. Da mesma forma que os filhos de Felisberto assinavam como Ferreira do Nascimento, iniciando com o sobrenome paterno e, em seguida, o materno".

Assim, a possível relação entre Maria, mãe de Felisberto, e Bernardino Ferreira Gomes permanece em aberto, sendo uma possível futura linha de investigação.

Para registro, constam no inventário de Felisberto Ferreira Fonteles, aberto a 3 de maio de 1867, em Camocim, inventariado pela viúva Thereza Joaquina Maria Vasconcelos, os seguintes escravizados (fl. 10):

  • Isabel, 21 anos, n. ~1846, cabra, avaliada em 500$000 (quinhentos mil réis);
  • Maria Dominga, 5 anos, n ~ 1862, cabra, avaliada em 350$000 (trezentos e cinquenta mil réis);
  • José, 34 anos, n. ~1833, crioulo, avaliado em 500$000 (quinhentos mil réis);
  • Mariana, comprada a Manoel Florêncio de Vasconcelos por 125$000 (cento e vinte e cinco mil réis);
  • Nicácio, filho de Mariana, 9 anos, n. ~1858, comprado a Manoel Florêncio de Vasconcelos por 100$000 (cem mil réis);
  • Maria Venância, filha de Mariana, 5 anos, avaliada em 27$500 (vinte e sete mil e quinhentos réis).

A Descendência de João Gualberto Dias

Como visto anteriormente, João Gualberto Dias casou-se com Ana Ferreira, filha de Felisberto Ferreira, em 1885, dando origem a um gigantesco tronco genealógico nas cidades de Marco e Morrinhos. Sabe-se muito pouco sobre a procedência de João Gualberto e de seus pais, exceto pelo fato que era natural do Ceará, como consta no termo de casamento civil de seu filho José Gualberto.

Sabe-se também que era comerciante, possuindo uma pequena mercearia na então povoação de Morrinho, no início do século XX (Silveira, 2010). Segundo sua neta, Francisca Chagas Pereira, João Gualberto também possuiu uma loja de fazendas (tecidos) no Marco, na qual trabalhava a mãe desta, Maria Marcolina. O pai de João Gualberto, Manoel Dias de Figueiredo, provavelmente descendente do português Domingos Dias da Silva.

O casal Ana e João Gualberto teve ao menos catorze filhos conhecidos*:

  • Manoel Torquato Dias, n. 13 de fevereiro de 1886, b. 20 de agosto de 1886, casado três vezes, a primeira com Ana Maria Pereira, a segunda, em 5 de outubro de 1930, na Capela do Morrinhos, com Maria do Carmo de Menezes, viúva de Antônio Pereira Dutra, filha de Ezequiel Teles de Menezes e Thereza Neves de Menezes (Testemunhas: Manoel Lopes de Prado e José Araújo Fonteles). A terceira, em 25 de novembro de 1939, na Capela da Mutambeira, com Maria Alice do Espírito Santo, filha de Francisco das Chagas de Maria e Maria Dagmar Conceição (Testemunhas: Protazio Gregório Dias e Francisco das Chagas Fonteles). Conhecido por "Trocate", assim como a sua descendência. Uma parte dela reside no Barro Vermelho e a grande maioria, na localidade de Maracajá, onde quase todas as famílias descendem dele.

  • Maria Marcolina Dias, n. 1886, c.c. Raimundo Pereira de Maria, filho de Miguel Pereira de Maria e Luiza Pereira. Bisavós deste que vos escreve;
  • Maria, n. 9 de setembro de 1888, b. 14 de outubro de 1888 na Capela do Marco.
  • Maria da Conceição, n. 13 de abril de 1890, b. 22 de maio de 1890 na Capela do Marco, c.c. João Fernandes Cavalcante, filho de João Fernandes Cavalcante e Tereza Maria de Jesus;
  • José Gualberto Dias, n. 30 de dezembro de 1891, b. 3 de janeiro de 1892, c.c. (segundas núpcias) Maria Fidelis Ferreira ("Dona Dondom", que legou o apelido aos seus descendentes), filha de João Fidelis Ferreira e Raimunda Fidelis Ferreira em 16 de setembro de 1921;

  • Philomena Maria Dias, n. 6 de julho de 1897, b. 16 de agosto de 1897 na Capela do Marco (Padrinhos: Manoel Evangelista de Vasconcelos e Francisca Ferreira do Nascimento). c.c. Antônio Menandro Dias, filho de João Felisberto Dias e Maria da Conceição Dias. Branca, f. 18 de novembro de 1970, no Morrinhos;

  • Maria Emília Dias, n. 28 de junho de 1900, b. 7 de julho de 1900, na Capela do Marco. c.c. José Pedro da Silva, viúvo de Maria Libânia Dias, dispensa de 1º grau igual lateral simples, em 23 de outubro de 1927, na Capela do Marco (Testemunhas: Francisco das Chagas de Vasconcelos e Protázio Gregório Dias).
  • Maria Libânia Dias, n. 6 de setembro de 1898, b. 21 de janeiro de 1899 na Capela do Marco (Padrinhos: Francisco Ferreira do Nascimento e Guilhermina Maria da Conceição), c.c. José Pedro da Silva em 07 de janeiro de 1913, no Marco (Testemunhas: José Gualberto Dias e João Felisberto do Nascimento).
  • Maria, n. 22 de março de 1902, b. 20 de julho de 1902, na Igreja Matriz de Acaraú (Padrinhos: Francisco de Sales Rio e Maria de Sales Rio). 
  • Maria Tarcila Dias, n. 25 de janeiro de 1906, b. 2 de fevereiro de 1906 (Padrinhos: José Pedro da Silva e Cândida Maria Dias). c.c. Manoel Ferreira da Ponte, filho de José Francisco do Nascimento e Teresa Ferreira da Ponte, em 1 de novembro de 1931, no Morrinhos.
  • Joaquim, n. 18 de julho de 1907, b. 12 de agosto de 1907, na Capela do Marco (Padrinhos: João Felisberto e Maria Dias).
  • Protázio Gregório Dias, c.c. Ana Augusta da Silva, dispensa de 3º grau atingente ao segundo simples, filha de José Augusto da Silva e Maria Júlia da Silva Fernandes, em 23 de outubro de 1927, na Capela do Marco (Testemunhas: Manoel Otávio Dias e Manoel José de Vasconcelos). Dá nome ao Mercado Municipal de Morrinhos.

*Registros disponíveis nos respectivos perfis na plataforma FamilySearch.

Descendência de Raimundo Pereira de Maria e Maria Marcolina Pereira

Sou bisneto segunda filha mais velha conhecida de João Gualberto Dias e Ana Ferreira, Maria Marcolina Dias. Ela casou-se, por volta de 1904, com Raimundo Pereira de Maria, natural da localidade de Intans, no município de Morrinhos. Sobre os pais de Raimundo, Miguel Pereira de Maria e Luiza Pereira, provavelmente eram da mesma região, visto que batizaram uma filha na Matriz de Santana (Guilhermina, 4 de fevereiro de 1869) e outra na Capela de S. Gonçalo da Mutambeira (Ana, 7 de abril de 1887), já constando como falecidos em 1933 no registro dos netos.

Raimundo Pereira, meu bisavô, nasceu no ano de 1884, sendo dois anos mais velho que Marcolina, conforme consta no termo de casamento de seu filho Joaquim, realizado  a 9 de dezembro de 1939, quando contavam 55 e 53 anos, respectivamente. Minha avó Francisca atesta isso, dizendo que seu pai nasceu no dia da abolição da escravidão no Ceará, 25 de março de 1884, uma data especialmente significativa, considerando o histórico familiar. Ademais, pela data de nascimento do irmão, Manoel Torquato, sabe-se que Marcolina nasceu entre os meses de novembro e dezembro de 1886.

Ainda segundo D. Francisca, e como pode ser visto na fotografia do casal (abaixo), chamava atenção o caráter inter-racial da relação, visto que Raimundo era descrito como "branco dos olhos azuis" enquanto Marcolina era descrita pela filha como "preta do cabelo pixaim". Residiam na atual Avenida Prefeito Guido Osterno, nº 22, vizinho as caixas d'água, no lugar que ficou conhecido por algum tempo como Alto do Raimundo Pereira.

Raimundo Pereira de Maria e Maria Marcolina Pereira.

Em 9 de outubro de 1926, Raimundo assinou, ao lado de muitos outros presentes, a ata de instalação do "barracão" do mercado público da Povoação de São Manoel do Marco, como consta na edição, de 4 de novembro do mesmo ano, do jornal A Imprensa. Atuou como comerciante de retalhos de tecido no Marco, conforme licença comercial obtida a 26 de setembro de 1936 (abaixo).

Licença Comercial de Raimundo, 1936.

Por volta de 1940, segundo a filha, Raimundo também trabalhou no extrativismo de carnaúba, arrendando terras de seu irmão, Joaquim Pereira, no Araticuns. Isso fez com que se deslocassem com frequência por alguns meses para essa localidade nas temporadas de colheita, fator que, inclusive, dificultou um pouco a vida escolar dos filhos.

Segundo o memorialista José Alfredo Silva, em seu livro Breve História do Município de Marco, Raimundo Pereira teria tido uma pequena participação na primeira tentativa de emancipação do município:

"Antes da elevação de Vila, pela Lei nº 448, feita pelo então Interventor Federal, o Dr. Francisco de Menezes Pimentel, o Sr. Manoel Clóvis Rios já tentava conseguir elevar Marco à cidade, levando à Fortaleza - CE, o Sr. Raimundo Pereira de Maria, conhecido pelo epiteto “Cabatão”, para fixar, devido conhecer bem, as linhas demográficas do futuro município, o que não aconteceu, devido as cidades vizinhas: Santana do Acaraú, juntamente com a cidade de Acaraú, terem se manifestado contra esta providência, o que provocou o cancelamento pelo Interventor do atendimento ao pleito inicial dos marquenses” (Silva, 2002, p. 39-40).

Pode-se situar esse episódio por volta do ano 1937, uma vez que a referida Lei nº 448, que elevou Marco a condição de Vila, foi aprovada no dia 20 de dezembro de 1938, e o dito signatário, interventor Francisco de Menezes Pimentel atuou nesta função entre 1937 e 1945. Minha avó, então com cerca de 10 anos de idade, recorda desse episódio, dizendo que seu pai viajou com o Sr. Manoel Clóvis e que a viagem teria demorado três dias. Segundo ela, seu pai era um homem muito inteligente e tinha conhecimentos sobre a demarcação de terras, medidas em "tantas léguas", nas palavras dela. Quanto ao epíteto de "Cabatão", em referência a uma espécie de abelha, também foi rememorado por minha avó, sem, entretanto, saber explicar sua origem ou significado.

Descendência de Raimundo Pereira de Maria e Maria Marcolina Pereira*:

  • Miguel Arcanjo Pereira, n. 29 de setembro de 1905, c.c. Maria José de Sousa Pereira, filha de Antônio Lopes de Sousa e Maria do Carmo de Sousa;
  • Joaquim Guilherme Pereira, n. 6 de novembro de 1906, c.c. Raimunda Guiomar Pereira, filha de Manoel Carneiro do Nascimento e Maria Irene Carneiro, a 9 de dezembro de 1939, em Bela Cruz.
  • Maria Ana Albertina Pereira, n. 19 de dezembro de 1907, b. julho de 1908, no Marco (Padrinhos: Francisco Inácio Moreira e Maria da Conceição Rios);
  • Tiago Pereira, n. 25 de julho de 1909, b. 29 de agosto de 1909, no Marco (Padrinhos: João Ferreira do Nascimento e Maria Dias);
  • Maria Isabel Pereira, n. 21 de setembro de 1910, b. 8 novembro de 1910, no Marco (Padrinhos: Joaquim de Sousa de Maria e Theresa Excelsia Rio);
  • Maria do Carmo Dias, n. 12 de fevereiro de 1912, b. 13 de novembro de 1912, na Capela de Santa Cruz (Padrinhos: Rafael Gonçalves Ferreira e Raimunda Julia de Carvalho);
  • José Alfredo Pereira, n. 1 de março de 1913;
  • Manoel Eduardo Pereira, n. 13 de dezembro de 1914, b. 17 de janeiro e 1915, na Capela do Marco (Padrinhos: Vicente Otaviano Rios e Ana Auricélia Rios);
  • Francisco Sales Pereira, n. 6 de fevereiro de 1916, c.c. Francisca da Silva Pereira, filha de José Possidônio da Silva e Maria das Dores da Silva, em 22 de junho de 1950. Foi vereador no Marco de 1963 a 1967;
  • Maria Albany Pereira, n. 22 de dezembro de 1918;
  • Luiza Albertina Pereira, n. 21 de maio de 1919;
  • Procópio Paulino Pereira, n. 8 de junho de 1920, c.c. Raimunda Furtada de Andrade, filha de José Moisés de Andrade e Maria Muquer de Andrade, em 15 de fevereiro de 1946, na Matriz de Acaraú;
  • Maria da Conceição Pereira, n. 21 de setembro de 1921, c.c. Manoel Duque de Sousa em 28 de setembro de 1930;
  • Sebastião Magela Pereira, n. 4 de janeiro de 1924, b. 19 de janeiro de 1924;
  • Pedro Paulo Pereira, n. 6 de fevereiro de 1925;
  • Luiz Gonzaga Pereira, n. 6 de fevereiro de 1926, c.c. Maria da Conceição Fernandes, filha de Miguel Arcanjo Menezes e Maria Rosa de Sousa, em 2 de setembro de 1950. Foi Agente de Portaria da Imprensa Universitária da UFC;
  • Francisca das Chagas Pereira, n. 7 de agosto de 1927, c.c. Sebastião Chagas da Fonseca, filho de Deodoro Chagas da Fonseca e Sebastiana Chagas da Fonseca, em 25 de abril de 1950, no Marco (Testemunhas: Francisco Chagas Marques e Francisco Chagas Neves), avós deste que vos escreve;
  •  Jorge Pereira, não chegou a ser registrado, faleceu com cerca de 12 anos;
  • João Batista Pereira, n. 23 de junho de 1933;

  • Júlia Ferreira Dias, c.c. Manoel Otacílio Dias, filho de João Ferreira do Nascimento e Maria Dias do Nascimento, em 8 de janeiro de 1919, na Capela do Marco.

*Registros disponíveis nos respectivos perfis na plataforma FamilySearch.

Como descendo de Felisberto Ferreira

Como já mencionado, sou neto de Francisca das Chagas da Fonseca [ou Pereira, quando solteira]. Vó Francisca nasceu no dia 7 de agosto de 1927, como descrito no em seu registro tardio (abaixo), contando hoje com 98 bem vividos anos.

Registro tardio de Francisca das Chagas Pereira, 1933 [9].

Transcrição:

Aos vinte e três dias do mês de junho de mil novecentos e trinta e três, nesta Povoação de São Manuel do Marco, termo de Sant'Anna, da Comarca de Massapê, do Estado do Ceará, em cartório compareceram Raimundo Pereira de Maria e duas testemunhas... a quais declarou: que as sete horas da noite de sete de agosto de mil novecentos e vinte e sete, em domicilio, nesta povoação, teve lugar o nascimento de uma criança do sexo feminino que tomou o nome de Francisca das Chagas Pereira, filha legítima dele declarante e de Maria Marcolina Pereira, casados, domiciliados e residentes nesta povoação, e é neta paterna de Miguel Pereira de Maria e Luiza Pereira, falecidos, e materna de João Gualberto Dias e Ana Ferreira Dias, residentes na Povoação de Morrinho. Em firmado que fiz este termo pela faculdade do Decreto nº 1971, de 18 de janeiro de 1931, revisado pelo de nº 2237, de 361 de outubro de 1932. E faço constar o seguinte termo e o faço assim diante as testemunhas Francisco Teófilo da Rocha e Miguel Eduardo da Silva, residentes no lugar Batim deste distrito. Eu, José Valencio da Silveira, oficial de registro escrevi e assino.

José Valencio Silveira / Raimundo Pereira de Maria / Francisco Teófilo da Rocha / Miguel Eduardo da Silva

Minha avó Francisca casou, em 19 de abril de 1950, na Capela do Marco, com meu avô Sebastião Chagas da Fonseca, de quem herdou o sobrenome Fonseca, indo morar, em seguida, em Bela Cruz. Meu avô Sebastião era natural do Amazonas, filho de Deodoro Chagas da Fonseca e Sebastiana Chagas da Fonseca. Estes foram pais de minha querida mãe, Rita Maria da Fonseca Carneiro, e os genearcas da família Fonseca de Bela Cruz.

Diego Carneiro

27 de junho de 2026 

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. Felisberto Ferreira: O Patriarca do Barro Vermelho. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 27 de junho de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/06/felisberto-ferreira-o-patriarca-do.html

Referências

FREITAS, Vicente. Bela Cruz—Biografia Do Município. Clube de Autores, 2017.

KABENGELE, DC. As inflexões do termo pardo na trajetória de Antonio Ferreira Cesarino (Campinas, século XIX). Teoria e Cultura. 2009

MARCO. Pavimentação em Pedra Tosca no Leite a Varjota – MARCO: MAPP - 6199. Prefeitura Municipal de Marco, Fevereiro de 2026. Disponível aqui.

PEREIRA, PHR. Partus Sequitur Ventrem: uma história da construção, consolidação e crise do domínio sobre o ventre escravizado nas Américas [tese de doutorado]. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2022. doi:10.11606/T.2.2022.tde-27092022-095638

RIOS, AML. The politics of kinship: Compadrio Among Slaves in Nineteenth-Century Brazil. The History of the Family. 2000;5(3):287-298. doi:10.1016/S1081-602X(00)00046-4.

SILVA, José Alfredo. Breve História do Município de Marco. INESP Ceará. Fortaleza, 2002

SILVEIRA, Geraldo. História e Emancipação. Morrinhos-Ceará, 1 de abril de 2010. Disponível em: https://morrinhosceara.blogspot.com/2010/04/um-pouco-de-sua-historia.html

TAVARES-NETO, J; AZEVEDO, ES. Racial Origin and Historical Aspects of Family Names in Bahia, Brazil. Human Biology. 1977;49(3):367-380.

[1] Livro de Matrimônios da Paróquia de N. S. de Sant'Anna, Set. 1902 a Nov. 1920, fl. 114, nº 4 (link)
[2] Livro de Matrimônios da Paróquia de São Manoel, Jan. 1942 a Jan. 1950, fl. 169, nº 673 (link)
[3] Livro de Matrimônios da Paróquia de N. S. de Sant'Anna, Ago. 1852 a Se. 1885, fl. 428, nº 19 (link)
[4] Livro de Terras da Freguesia de Santana do Acaraú, 1857 a 1859. (link).
[5] Inventário de Inácio Manoel de Almeida 1891. APEC, Santana do Acaraú, Pac. 1, Proc. 7. (link)
[6] Livro de Matrimônios da Par. de N. S. da Conceição de Sobral, Jan. 1825 a Jun. 1834. fl. 271. (link)
[7] Livro de Batismos da Paróquia de N. S. de Sant'Anna, Dez. 1850 a Nov. 1852, fl. 29. (link)
[8] Ano 1860, PAC/Caixa 6, Processo 10, Nº 24, Arquivo Público do Estado do Ceará. Informação colhida por Ângela Ferreira na plataforma FamilySearch. (link)
[9] Registro tardio de Francisca das Chagas Pereira, 1933. (link)

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