Nesse texto abordaremos a interessante história da localidade de Cajueirinho, na zona rural do município de Cruz. Trata-se de um pequeno vilarejo situado a margem da antiga estrada que ligava Cruz a Jijoca, próxima ao Açude da Prata, cuja história, transmitida oralmente, foi registrada em 2007 no Livro Resgatando Memórias. Tive acesso a esse fragmento, correspondente ao Capítulo 3 do livro através o Blog Cultura Popular de Cruz. A testemunha central dos fatos narrados foi Sr. Manoel Messias de Freitas, longevo morador da localidade, que possuía 82 anos na época do registro. Dessa forma, vou apenas organizar as ideias trazidas no texto, tecendo algumas considerações e, quando possível, acrescentando elementos disponíveis nas fontes documentais.
A Fazenda Cajueirinho
Conforme depoimento do Sr. Messias, esta localidade foi fundada nos primeiros anos da década de 1870. A ocupação foi conduzida inicialmente pelo Capitão Frutuoso José de Freitas (n. 18/05/1823, f. 05/07/1919), que adquiriu essas terras em março de 1869 de Manoel Pinto Brandão, medindo uma légua de terra em quadra, estendendo-se para o oeste a partir do Riacho da Prata. Ele foi responsável pela instalação da fazenda que originou o povoado, destinada à criação de gado e ao cultivo agrícola.
Segundo o autor, essas terras faziam parte de um "corpo de terra com sete léguas de frente por uma légua de fundo; situada entre Poço da Pedra no Riacho da Prata, aos Canoés no Salgado do Guriú". Messias afirma que se tratava de uma “terra de data”, ou seja, obtida como sesmaria, por Manoel Pinto Brandão. Ressalto, entretanto, que não localizei qualquer registro dessa concessão, mas sabe-se que seus descendentes, que formam a família Brandão, habitam há bastante tempo essa região.
Sobre Fructuoso, sabe-se que era Capitão da Guarda Nacional, filho de Manoel Nunes de Freitas e Maria Francisca de Jesus. Casou-se com Rita Maria de Jesus, filha de Alexandre José de Vasconcelos e Maria Eugênia da Encarnação, em 28 de outubro de 1856, na Cruz. Sua esposa descende de Manoel Carlos Vasconcelos e Joana Correia da Silva, primeiros proprietários da Fazenda Cruz, cuja sede originou o município. As terras do Cajueirinho estão dentro dos limites da antiga sesmaria do Tenente Coronel Manoel Barbosa de Morais, nas ilhargas do Sítio Castelhano.
Consta no inventário de Frutuoso, aberto em 17 novembro de 1920, disponível no Arquivo Público do Estado do Ceará, o seguinte registro sobre as terras do Cajueirinho:
Duzentas braças de terra no lugar Cajueirinho, deste município, nas ilhargas das terras de Castelhano, com um légua de fundos, cujas duzentas braças de terra se limitam: ao nascente com terras de Francisco Luiz da Silveira, no poente, com vinte e três braças de terra em seguida descritas, no referido lugar, ao norte, em terras do Castelhano, e ao sul, com o ponto onde der a légua de fundos, avaliadas em três mil réis a braça, seiscentos mil reis, a margem.
Vinte e três braças de terras com uma légua de fundos no referido lugar Taboleirinho, digo, lugar Cajueirinho, mesmas terras... descritas e que se limitam: ao nascente com as terras antes referidas; ao poente com terras de Francisco Marques Freitas, ao norte com as terras do Castelhano e ao sul com o ponto terminal da légua de fundos, cujas vinte três braças de terra foram vendidas pelo inventariado em sua vida a José Carlos de Vasconcelos e recebido o preço, não existindo, porém, disso documento escrito, as quais foram avaliadas a três mil réis a braça, sessenta e nove mil réis, a margem [...]
Metade da cacimba encravada nas terras do Córrego Fechado, digo, do Cajueirinho, deste município, avaliada por cinquenta mil réis (APEC, Acaraú, Inventários, 1920, Pac. 26, Proc. 13-A, fl. 11-12).
De volta a narrativa, além de Frutuoso, teriam participado da fundação Francisco Lourenço de Freitas, filho do Capitão, e sua esposa Teodora Marques de Freitas, Manoel Marques de Freitas, genro, e sua esposa Ana Marques de Freitas, além de Pedro Marques da Cunha e Jacinta Maria da Conceição, casal de escravos de confiança de Frutuoso. Na época em que chegaram, a região encontrava-se desabitada, havendo apenas fauna silvestre, incluindo onças, caititus, cascavéis, jararacas e outros animais. Instalaram-se inicialmente em "latadas", barracas cobertas de palha de carnaubeira, enquanto construíam as três casas definitivas, uma para cada casal, nesse período também foram abertos dois cacimbões, sendo que talvez um deles fosse o mencionado no inventário.
O nome Cajueirinho surgiu pois após fazerem o primeiro roçado, quando encontraram um pequeno cajueiro solitário, que decidiram preservar. Essa mesmo cajueiro situava-se a margem da estrada velha entre Cruz e Jijoca, tendo servido, por certo tempo, de guarida aos transeuntes que passavam a pé ou a cavalo. Em 1964, após uma cheia do Açude da Prata, ele tombou em função do peso e, dois anos depois, sucumbiu definitivamente.
Em junho de 1872, concluídas as obras, Frutuoso José de Freitas instalou no local duzentas cabeças de gado e outros animais, entregando sua administração ao filho e ao genro, enquanto passou a residir em Córrego Fechado, situado na margem esquerda próxima à foz do rio Acaraú, de onde haviam emigrado. Pedro Marques da Cunha e Jacinta Maria da Conceição permaneceram no Cajueirinho, trabalhando na agricultura, na pecuária e auxiliando os demais moradores. A fazenda prosperou nos primeiros anos, até que em 1877 veio a grande seca dos três setes, durando até 1879, que matou de fome e de sede quase todo aquele gado.
Quando as coisas foram piorando, escolheram as reses mais novas e mais fortes e levaram para as várzeas, nas praias, onde existiam refrigérios tanto em água como em comida; puseram gente vigiando, observando, suprindo as faltas que porventura acontecessem. O gado velho que ainda estava forte, mas que poderia cair depois, eles matavam, salgavam e secavam a carne no sol, empacotavam em surrão de couro e guardavam para irem comendo aos poucos; assim atravessaram os três anos de seca. Quando o inverno chegou em 1880, trouxeram o gado que escapou na praia, recomeçaram a fazenda, a agricultura também se refez, e assim tudo se normalizou e a vida continuou.
Também naquela mesma época, diante daquela situação calamitosa, além da preocupação de salvar o gado, Frutuoso tinha que arranjar serviço para o povo que também passava fome, especialmente os seus escravos, a quem tinha por obrigação sustentar com todo o necessário para a sobrevivência. Para se prevenir contra uma outra possível seca, mandou cavar um bebedouro profundo dentro da sua propriedade, para que não viesse a faltar água outra vez. Salienta-se que, segundo o Sr. Messias, essa seria a única obra existente em toda a região, que se sabe, feita pela mão escrava.
Córrego Fechado
Existe uma localidade chamada Córrego Fechado em Acaraú, nos limites do município de Cruz, cuja descrição bate perfeitamente com a da propriedade atribuída a Frutuoso, próxima a foz do Rio Acaraú. Ela situa-se na região das terras da Fazenda Cruz, que pertenceu ao casal Manoel Carlos de Vasconcelos e Joana Correia Silva. Curiosamente, um pouco acima no dito córrego, existe uma localidade chamada "Furtuosos", o que parece ser uma corruptela de Frutuosos, uma indicação direta ao Capitão Frutuoso José de Freiras. No Censo de 1920, aparecem como proprietários do Córrego Fechado: José Pereira de Lima e Higino Pereira de Vasoncelos. Este último, filho de Frutuoso, reforçando nossa hipótese.
No supramencionado inventário de Frutuoso, consta a seguinte descrição sobre as terras do Córrego Fechado:
Setenta e uma e meia braças de terra com uma légua de fundos no lugar Córrego Fechado, deste termo, com uma vazante nelas encravada, as quais se extremam: ao norte com o litoral; ao sul com os fundos das terras de Cruz, picada e Mal Assombrado; ao Nascente com terras de Higino Pereira de Vasconcelos; e ao poente com terras ocupadas por Jerônimo José de Freitas; avaliadas a três mil e quinhentos réis a braça, duzentos e cinquenta mil, duzentos e cinco réis.
Uma casa de taipa, coberta de telhas encravada nas terras do Córrego Fechado, avaliada por cem mil réis. Vinte e oito pés de coqueiros frutíferos, existentes nas terras do Córrego Fechado, avaliados a quatro mil réis cada um, cento e doze mil réis, a margem. Doze dos ditos, idem, não frutíferos, avaliados a dois mil réis cada um, vinte e quatro mil réis (op. cit., fl. 12).
Consta ainda outra propriedade no lugar Pai José, próximas as terras do Córrego Fechado:
Dez braças de terra no lugar Pai José, deste termo, com uma légua de fundos, limitando-se ao norte com o litoral, ao sul com terras da Cruz, ao nascente com terras do herdeiro José Francisco de Vasconcelos e, ao poente, com erras de Philomeno Marques da Costa, avaliadas a três mil réis a braça, trinta mil réis (op. cit., fl. 12).
Segundo o memorialista Derson Sousa, essa localidade teria relação próxima com a localidade vizinha de Barrinha, em Aranaú, sendo, provavelmente, ambas originárias da mesma propriedade (Sousa, 2010).
A Alforria
Do grupo inicial, a última a falecer foi a Sra. Teodora Marques de Freitas, a 2 de novembro de 1945, avó do Sr. Messias. A primeira geração nata de Cajueirinho, filhos do casais seminais, era composta por 33 pessoas, sendo 15 homens e 18 mulheres, muitos dos quais também conviveram diretamente com o Sr. Messias. Segundo ele, os moradores trabalhavam em regime de mutirão nas roças e viajavam em grupo, principalmente para as festas religiosas de Acaraú, Cruz, Caiçara e Timbaúba (atual Aranaú), deslocando-se a cavalo ou a pé. Os chefes de família eram casados religiosamente, muitos mantinham relações de compadrio entre si e preservavam práticas religiosas como a reza do terço em família à noite e, em vários casos, do Ofício de Nossa Senhora ao amanhecer.
A comunidade mantinha uma rígida hierarquia de respeito aos mais velhos, estendida aos pais, padrinhos e demais idosos. Entre os descendentes dos escravizados Pedro Marques da Cunha e Jacinta Maria da Conceição havia 12 irmãos, sendo cinco homens e sete mulheres. Os irmãos mais velhos da família nasceram ainda sob o regime da escravidão, enquanto parte dos mais novos nasceu livre em decorrência da Lei do Ventre Livre (28 de setembro de 1871). Os últimos filhos do casal nasceram após a promulgação da libertação dos escravos. A primogênita, Joana Maria da Conceição, conhecida como Joana Pedro, exerceu a função de parteira na comunidade e era chamada pelos mais jovens de Mãe Joana ou Mãe Velha.
Aqui abro um parênteses para uma pequena inconsistência na narrativa do Sr. Messias. No texto original ele situa a libertação dos escravos com a aprovação da Lei Áurea, de 13 de maio de 1888. Entretanto, sabe-se que, no Ceará, a escravidão já havia sido abolida quatro anos entes, em 25 de março de 1884. Trata-se de uma confusão natural e perfeitamente compreensível que não altera em nada a essência da narrativa.
Segundo nosso narrador, após a promulgação da lei que abolia a escravatura, Frutuoso José de Freitas, então capitão da Guarda Nacional, reuniu todos os seus escravizados, homens, mulheres e crianças, em sua residência em Córrego Fechado, e, no ato solene, informou:
“Meus amigos servidores, sinto alegria em dizer para todos vocês que estão aqui reunidos que hoje chegou o dia de tirar um peso que eu sempre carreguei em minha consciência, que era ter vocês como escravos. Se eu os tive comigo assim, foi porque existia a lei da escravatura neste país e os herdei dos meus pais; mas sempre os tive mais como amigos do que como escravos. Ninguém poderá negar isso: nunca vendi nenhum de vocês, porque vocês são gente, e gente não se vende. Se comprei alguns de vocês, foi porque estavam expostos à venda pelos seus antigos senhores que os maltratavam no tronco; eu, observando e simpatizando com a pessoa, aquele era o jeito que tinha para livrá-los do sofrimento.
Comento aqui, dando mais uma prova do amigo que fui de vocês: nunca tive uma senzala para vocês viverem dentro dela, misturados como animais irracionais, nem tronco no terreiro da senzala para amarrá-los. Cada um de vocês, pai de família, tem sua casa, seu ambiente reservado para viver com a sua família. Isto é um costume que já vem do meu pai, e sempre, quando um casal de vocês se casa, eu venho fazendo a mesma coisa: aprontar a casa com tudo o que é necessário e entregá-la ao novo casal.
Diante de tudo isso, vocês, como escravos meus que eram, pela lei tinham que cumprir as minhas ordens. Entretanto, diante desta Lei Áurea, que suprimiu definitivamente a velha lei da escravatura em todo o Brasil, cumprindo o meu dever, e com a consciência tranquila e muita satisfação, declaro a todos vocês que, a partir de hoje, deste momento em que vos falo, todos vocês estão livres, desimpedidos das minhas ordens, para fazerem o que quiserem, irem para onde quiserem, trabalharem para quem quiserem, ganharem o soldo de vocês e comprarem o que precisarem para a manutenção de vocês. Aqueles que quiserem trabalhar para mim, eu tenho serviço, pago por diária e faço empreitada. De hoje por diante, sigam por conta de vocês e sejam felizes.”
Segundo os relatos de Gabriel, e de seus irmãos, descendentes do casal Pedro Marque e Jacinta, colhidos pelo Sr. Messias, os ex-escravizados receberam a liberdade com sentimentos de alegria e insegurança. Acostumados a viver sob a dependência material do senhor, passaram a ser responsáveis pelo próprio sustento. Os ex-escravizados de Frutuoso permaneceram nas casas que lhes foram doadas por ele e receberam orientações para reorganizar a vida após a emancipação. Parte deles dedicou-se à agricultura, outros à pesca e alguns passaram a trabalhar como diaristas ou empregados. Com o tempo, muitos deixaram as terras de Frutuoso José de Freitas, desmontando suas casas para reconstruí-las em outras localidades, o que contribuiu para a dispersão de seus descendentes.
Frutuoso doou ao casal Pedro Marques da Cunha e Jacinta Maria da Conceição uma área de 100 braças de frente por uma légua de fundo, além de uma casa de morada, para que estabelecessem sua família na propriedade. Conforme o relato, a doação foi concedida em reconhecimento aos serviços prestados pelo casal, e seus descendentes permaneceram ocupando essa área no Cajueirinho.
Esse relato expõe a complexidade das relações sociais durante os últimos anos da escravidão do Brasil. Apesar da amenidade das palavras, não podemos esquecer que Frutuoso era avô do Sr. Messias, e mesmo que este tenha reproduzido exatamente o que escutou, não apenas de seus antepassados, mas dos descendentes daqueles homens e mulheres escravizados, não julgo ser possível acreditar que isso não tenha passados por um filtro de reticencias, que permeia esse fardo moral tão delicado.
Porteiras
Um pouco mais ao sul de Córrego Fechado, já no município de Cruz, existe uma outra localidade chamada Porteiras, cuja história é contada em forma de verso pelo Sr. Jaime Farias, no poema "Origem de Porteiras". Seus primeiros colonos seriam dessa família Farias, descendentes de Antônio Farias de Menezes, que a ocupavam e lá criavam gado. Segundo a tradição oral, havia uma porteira, no barranco do rio, usada para prender o rebanho durante o verão, que era deslocada sazonalmente conforme o leito do rio mudava com as enchentes; por isso o lugar ficou conhecido como Porteiras do Farias.
O autor cita como testemunhas dessa fase antiga da ocupação, ainda em regime de posse comum e sem cercas, seus avós, tios e tias, filhos de Antônio de Farias: Leão Damásio de Farias, Antônio de Farias Menezes Junior, Pedro Francisco de Menezes, Sixto Romão de Farias e o genro Pedro Gregório (Farias, 2007a). Esse regime de posse coletiva e informal da terra terminou em 1931, quando Urbano José da Silveira, comerciante de Cruz e parente dos Farias, ambos bisnetos de Francisco Teixeira Pinto (Chico Teixeira), requereu a União a demarcação da chamada da "Légua da Cruz", terra que se estendia por uma légua entre Cruz e Porteiras.
Na medição, ficou decidido que os posseiros só manteriam direito à terra se pagassem uma taxa referente ao seu "travessão" (marco de limite); quem não pôde pagar perdeu a posse, e a terra foi posta em leilão, beneficiando os mais abastados. Muitas famílias pobres, sem alternativa, tornaram-se agregadas em suas próprias antigas terras, e desses migrou para outras regiões do país. O pai do autor, Benedito Magalhães de Farias, ameaçado de perder seu travessão, o último da Data Légua, em arrematação em abril de 1931, produziu farinha de mandioca a partir de quase toda a sua roça, obtendo três alqueires que vendeu por trinta mil réis, valor com o qual resgatou a terra da família (Farias, 2007a).
Em termos documentais, além da consistência genealógica, o citado Pedro Francisco de Menezes consta realmente como proprietário de Porteiras no Censo Agropecuário de 1920. Soma-se a isso, o fato de o bisavô "Chico Teixeira" ser filho de Manoel Pereira de Vasconcelos, portanto, neto de Joana Correia da Silva e Manoel Carlos de Vasconcelos, donos originais da "Légua da Cruz", topônimo da Fazenda da qual eram proprietários, como discutido em outra postagem. Ademais, a citada demarcação de terras, assim como várias outras, todas tendo como autor o citado Urbano José da Silveira, constam no índice do Arquivo Público do Estado do Ceará (1930, Caixa 1, Proc. 8).
No processo de demarcação, Urbano e sua mulher solicitam a demarcação, sob a seguinte alegação:
II - Que o imóvel citado se constitui de duas léguas de comprimento por uma de fundos, sendo parte da data e sesmaria concedida em 19 de julho de 1705 ao Coronel João Pereira de Veras e Thereza de Jesus, pelo Capitão-mor da então Capitania do Ceará, João da Motta e jamais foi demarcado;
III - Que o aludido imóvel "Cruz", se limita: ao norte com terras de Timbaúba, no lugar "Porteira Velha", mais ou menos; ao sul, com o chamado marco do Guarda, separando o imóvel demarcado, no ponto onde der uma légua, a começar do Rio Acaraú [...] (APEC, Acaraú, Demarcações de Terra, 1930, Caixa 1, Proc. 8, fl. 2)
Essa sucessão de terras desde a sesmaria foi detalhada em outra postagem. Ressalta-se apenas que Timbaúba corresponde às imediações da Vila de Aranaú, em Acaraú, e o limite sul dessa sesmaria coincide aproximadamente com a fronteira entre os atuais municípios de Cruz e Bela Cruz. A região do Marco do Guarda corresponde a uma localidade em Bela Cruz de nome Guarda.
Sobre Benedito Teixeira, Sr. Jaime Farias descreve sua trajetória em um poema a parte, denominado "Um continuador da história 'Origem de Porteiras'". Pela narrativa, o pai de Benedito, Macário José de Farias teria migrado para o Amazonas quando Benedito tinha seis anos, ou seja, em 1885, no contexto do ciclo da borracha. Dessa forma, ele cresceu em extrema pobreza sob os cuidados da avó Geralda Maria de Jesus, viúva, até o retorno do pai em 1912, quando passaram a trabalhar em regime de meia.
Açude do Cajueirinho
Nas proximidades do Serrote do Cajueirinho existem três pequenos serrotes: o da Pitombeira, ao sul, e outros dois, ao nordeste, na localidade de Poço Doce. Esses serrotes são separados pelo Riacho da Prata, onde, entre janeiro de 1950 e fevereiro de 1953, foi construída a barragem que deu origem ao Açude Aranaú, também conhecido como Açude da Prata. A obra interligou as duas elevações interrompendo o curso do riacho.
Conforme depoimento do Sr. Manoel Livino, nascido em 1943, morador de longa data da região de Poço Doce, o projeto demorou a sair do papel devido às dificuldades nas negociações com os proprietários das terras que seriam inundadas. Inicialmente, muitos deles resistiram à obra por acreditarem que perderiam suas propriedades sem uma compensação adequada. Somente após o governo negociar indenizações e modificar o projeto, reduzindo a área que seria alagada, os proprietários aceitaram assinar os documentos necessários para o início da construção.
Entre os que assentiram com a construção, recorda-se dos seguintes proprietários, na sequência de assinatura: As Cegas (duas senhoritas não nomeadas), Marino Brandão, Minervino Valente, Antônio Cardoso, Antônio Luís, Antônio Domingo, Antônio Ladislau (Antônio Pepé), Leôncio Dourado, Raimundo Mamede, Augusto, Marica, Maria e Rita Pinto, Raimundo Miguel, Minervino Marica (irmão de Augusto Marica, fundador da Igreja), Chicó Miguel, Nonato Pereira, Luís Pereira, Pedro Cunha, Chico Cunha, Hermeto Costa, Chagas Livino, Raimundo Pinto, Daniel Luiz e, finalmente, Raimundo Luiz, avô do depoente o Sr. Manoel Livino (CECAP, 2024).
A barragem foi executada pelo DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), sob administração do empreiteiro Francisco de Melo, natural de Miraíma. Os trabalhos foram realizados manualmente, com escavações feitas por trabalhadores utilizando picaretas e explosivos, especialmente dinamite. O material era transportado por jumentos e burros até a obra, enquanto o barro retirado do leito do Riacho da Prata era misturado a material pedregoso, umedecido e compactado por um rolo compressor de concreto puxado por dois bois, chamados Moreno e Dourado. Na versão do Sr. Manoel Livino, os bois chamavam-se Canário e Graúna.
A barragem foi construída sobre uma fundação com cinco metros de profundidade e cinco metros de largura pelo lado interno. Na superfície, atingiu quatro metros de largura e aproximadamente 400 metros de comprimento, ligando-se ao sangradouro escavado com dinamite no Serrote do Cajueirinho, por onde o açude verte com lâmina d'água de até 80 centímetros. Segundo o Sr. Messias, o rolo compressor utilizado na obra foi fabricado no próprio local com concreto e pedras da região. Media um metro de comprimento, 2,70 metros de circunferência, 80 centímetros de diâmetro e pesava mais de uma tonelada. Após permanecer durante anos junto ao sangradouro, foi transferido para o Cajueirinho por José Orion de Morais, conhecido como Dom, permanecendo ao lado de sua oficina. Hoje encontra-se na sede do Centro Cultural Açude da Prata.
Segundo informações de Francisco de Melo, o Açude Aranaú possui reservatório com cerca de sete quilômetros de extensão, capacidade para 14,6 milhões de metros cúbicos de água e profundidade variando entre 10 e 12 metros. Com a formação do reservatório, o Serrote da Pitombeira ficou parcialmente inundado, transformando-se em uma ilha. Ainda segundo o Sr. Messias, cerca de 20 anos antes da construção do açude, funcionava no local o Acampamento Jóia, centro de treinamento pertencente à Igreja Evangélica e administrado por pastores norte-americanos.
Em 1974 houve um grande inverno que elevou significativamente o nível dos corpos d'água da região, fazendo com que praticamente todas as lagoas e áreas alagáveis transbordassem e se conectassem. Isso fez com que a água do Lagamar, já influenciada pelas marés e pela salinidade marinha, alcançasse áreas até então ocupadas por água doce. Quando o excesso de água escoou em direção ao mar, parte da água salgada permaneceu retida nas lagoas e nos terrenos adjacentes. Segundo o relato, foi esse episódio que provocou a salinização de extensas áreas agrícolas, anteriormente consideradas férteis para o cultivo (CECAP, 2024).
Após 55 anos de funcionamento, a barragem recebeu obras de restauração durante a construção do trecho Cruz–Jijoca da Estrada Litorânea Salvador–São Luís, executada pelo DERT. Na ocasião, a estrutura foi alargada para 10 metros pelo lado externo, revestida com paralelepípedos provenientes de Quixadá e recebeu uma ponte de 60 metros sobre o sangradouro. A ponte e aproximadamente metade da área inundada do açude situam-se no território do Cajueirinho, enquanto o açude passou a integrar o Patrimônio Natural do Município de Cruz. O nome Açude Aranaú está relacionado à organização administrativa da região. À época da construção, o povoado de Cruz pertencia ao Distrito de Aranaú, em Acaraú.
Monteiros
A localidade de Monteiros fica relativamente próxima a Cajueirinho. Conforme a memorialista Elizabeth Albuquerque, baseada em relatos de moradores locais, esse antrotopônimo se deve ao primeiro ocupante dessa terra, que se chamava Manoel José Monteiro (Albuquerque, 2009, p. 141). O Sr. Manoel Monteiro seria natural do Trairi e, após viajar por outros lugares, teria descoberto uma lagoa próxima a atual localidade, que também levou seu sobrenome, sendo conhecida hoje como Lagoa do Monteiro. Sua ascendência é ignorada, sabendo-se apenas que era casado com D. Tereza Maria da Jesus.
Uma outra versão, trazida por Aurilene da Costa Araújo, depositada no perfil de Manoel Monteiro na plataforma FamilySearch em 25 de outubro de 2015, aponta que Manoel Monteiro teria vivido no Vale do Jaguaribe, tendo fugido de Icó após ser ameaçado pelo filho do delegado local. Em Jaguaribe, teria sido acolhido por um fazendeiro, que o criou como filho. Mas Manoel teria se apaixonado pela filha do fazendeiro, sua irmã de criação. Não considerando a relação apropriada, decidiu fugir da fazenda, mas foi perseguido pelo pai da moça que o obrigou a casar-se com ela. O casal então deixou a região e, em busca de terras que pudessem adquirir, teria descoberto a tal lagoa. A testemunha situa esses acontecimentos por volta de 1862.
Em termos documentais, consta no Censo Agropecuário de 1920 como proprietários da Fazenda Monteiros: Antônio Marque da Costa e Domingos Rodrigues Chaves. O primeiro era genro de Manoel Monteiro, filho de Manoel Marques da Costa e Inácia Maria do Nascimento, era casado com Feliciana Maria da Conceição. Já Domingos Rodrigues Chaves era filho de pai homônimo e Maria Rodrigues Chaves, sendo casado com Maria Francisca da Conceição, filha de Pedro Lopes da Silva e Anna Maria da Luz. Não encontrei vínculo entre Domingos e Manoel Monteiro. Não encontrei registros dessa propriedade no Livro de Registro de Terras da Barra do Acaraú 1855-1857, sugerindo que, de fato a ocupação é posterior a essa data.
ALBUQUERQUE, Maria Elizabeth. Era uma vez na Cruz: Genealogia da Família Cruz. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2009.
ARAÚJO, Nicodemos. O Município de Cruz. Acaraú: Editora Esteves Tiprogresso, 1989.
CECAP. O que vi, ouvi e vivi sobre a construção do Açude da Prata: Cruz, Ceará [documentário]. Cruz, CE: Centro Cultural Açude da Prata, CECAP, 2024.
FARIAS, Jaime. Origem de Porteiras. Biblioteca Pública Municipal, 25 jun. 2007a. Disponível em: https://bibliotecapblicamunicipal.blogspot.com/2007/06/origem-de-porteiras-jaime-farias.html. Acesso em: 4 ago. 2026.
FARIAS, Jaime. Um continuador da história: origem de Porteiras. Biblioteca Pública Municipal, 25 jun. 2007b. Disponível em: https://bibliotecapblicamunicipal.blogspot.com/2007/06/um-continuador-da-historia-origem-de.html. Acesso em: 4 ago. 2026.
FREITAS, Manoel Messias de. Memórias do Cajueirinho. In: Cultura Popular de Cruz [blog]. [Administração de Evaldo Vasconcelos]. 1 jun. 2007. Disponível em: https://bibliotecapblicamunicipal.blogspot.com/2007/06/memorias-do-cajueirinho-messias-de.html. Acesso em: 25 jul. 2026.
SOUSA, Manoel Derson. Aranaú: Barrinha de Cima. Derson Site, 8 fev. 2010d. Disponível em: https://dersonsite.webnode.com.br/news/aranau-barrinha-de-cima/. Acesso em: 2 ago. 2026.