Cajueirinho e o Açude da Prata

Cajueirinho, 2005.

Nesse texto abordaremos a interessante história da localidade de Cajueirinho, na zona rural do município de Cruz. Trata-se de um pequeno vilarejo situado a margem da antiga estrada que ligava Cruz a Jijoca, próxima ao Açude da Prata, cuja história, transmitida oralmente, foi registrada em 2007 no Livro Resgatando Memórias. Tive acesso a esse fragmento, correspondente ao Capítulo 3 do livro através o Blog Cultura Popular de Cruz. A testemunha central dos fatos narrados foi Sr. Manoel Messias de Freitas, longevo morador da localidade, que possuía 82 anos na época do registro. Dessa forma, vou apenas organizar as ideias trazidas no texto, tecendo algumas considerações e, quando possível, acrescentando elementos disponíveis nas fontes documentais.

A Fazenda Cajueirinho

Conforme depoimento do Sr. Messias, esta localidade foi fundada nos primeiros anos da década de 1870. A ocupação foi conduzida inicialmente pelo Capitão Frutuoso José de Freitas (n. 18/05/1823, f. 05/07/1919), que adquiriu essas terras em março de 1869 de Manoel Pinto Brandão, medindo uma légua de terra em quadra, estendendo-se para o oeste a partir do Riacho da Prata. Ele foi responsável pela instalação da fazenda que originou o povoado, destinada à criação de gado e ao cultivo agrícola.

Segundo o autor, essas terras faziam parte de um "corpo de terra com sete léguas de frente por uma légua de fundo; situada entre Poço da Pedra no Riacho da Prata, aos Canoés no Salgado do Guriú". Messias afirma que se tratava de uma “terra de data”, ou seja, obtida como sesmaria, por Manoel Pinto Brandão. Ressalto, entretanto, que não localizei qualquer registro dessa concessão, mas sabe-se que seus descendentes, que formam a família Brandão, habitam há bastante tempo essa região.

Localização aproximada das Terras de Manoel Pinto Brandão, 1869.

Sobre Fructuoso, sabe-se que era Capitão da Guarda Nacional, filho de Manoel Nunes de Freitas e Maria Francisca de Jesus. Casou-se com Rita Maria de Jesus, filha de Alexandre José de Vasconcelos e Maria Eugênia da Encarnação, em 28 de outubro de 1856, na Cruz. Sua esposa descende de Manoel Carlos Vasconcelos e Joana Correia da Silva, primeiros proprietários da Fazenda Cruz, cuja sede originou o município. As terras do Cajueirinho estão dentro dos limites da antiga sesmaria do Tenente Coronel Manoel Barbosa de Morais, nas ilhargas do Sítio Castelhano.

Consta no inventário de Frutuoso, aberto em 17 novembro de 1920, disponível no Arquivo Público do Estado do Ceará, o seguinte registro sobre as terras do Cajueirinho:

Duzentas braças de terra no lugar Cajueirinho, deste município, nas ilhargas das terras de Castelhano, com um légua de fundos, cujas duzentas braças de terra se limitam: ao nascente com terras de Francisco Luiz da Silveira, no poente, com vinte e três braças de terra em seguida descritas, no referido lugar, ao norte, em terras do Castelhano, e ao sul, com o ponto onde der a légua de fundos, avaliadas em três mil réis a braça, seiscentos mil reis, a margem.

Vinte e três braças de terras com uma légua de fundos no referido lugar Taboleirinho, digo, lugar Cajueirinho, mesmas terras... descritas e que se limitam: ao nascente com as terras antes referidas; ao poente com terras de Francisco Marques Freitas, ao norte com as terras do Castelhano e ao sul com o ponto terminal da légua de fundos, cujas vinte três braças de terra foram vendidas pelo inventariado em sua vida a José Carlos de Vasconcelos e recebido o preço, não existindo, porém, disso documento escrito, as quais foram avaliadas a três mil réis a braça, sessenta e nove mil réis, a margem [...] 

Metade da cacimba encravada nas terras do Córrego Fechado, digo, do Cajueirinho, deste município, avaliada por cinquenta mil réis (APEC, Acaraú, Inventários, 1920, Pac. 26, Proc. 13-A, fl. 11-12).

De volta a narrativa, além de Frutuoso, teriam participado da fundação Francisco Lourenço de Freitas, filho do Capitão, e sua esposa Teodora Marques de Freitas, Manoel Marques de Freitas, genro, e sua esposa Ana Marques de Freitas, além de Pedro Marques da Cunha e Jacinta Maria da Conceição, casal de escravos de confiança de Frutuoso. Na época em que chegaram, a região encontrava-se desabitada, havendo apenas fauna silvestre, incluindo onças, caititus, cascavéis, jararacas e outros animais. Instalaram-se inicialmente em "latadas", barracas cobertas de palha de carnaubeira, enquanto construíam as três casas definitivas, uma para cada casal, nesse período também foram abertos dois cacimbões, sendo que talvez um deles fosse o mencionado no inventário.

O nome Cajueirinho surgiu pois após fazerem o primeiro roçado, quando encontraram um pequeno cajueiro solitário, que decidiram preservar. Essa mesmo cajueiro situava-se a margem da estrada velha entre Cruz e Jijoca, tendo servido, por certo tempo, de guarida aos transeuntes que passavam a pé ou a cavalo. Em 1964, após uma cheia do Açude da Prata, ele tombou em função do peso e, dois anos depois, sucumbiu definitivamente.

Em junho de 1872, concluídas as obras, Frutuoso José de Freitas instalou no local duzentas cabeças de gado e outros animais, entregando sua administração ao filho e ao genro, enquanto passou a residir em Córrego Fechado, situado na margem esquerda próxima à foz do rio Acaraú, de onde haviam emigrado. Pedro Marques da Cunha e Jacinta Maria da Conceição permaneceram no Cajueirinho, trabalhando na agricultura, na pecuária e auxiliando os demais moradores. A fazenda prosperou nos primeiros anos, até que em 1877 veio a grande seca dos três setes, durando até 1879, que matou de fome e de sede quase todo aquele gado.

Quando as coisas foram piorando, escolheram as reses mais novas e mais fortes e levaram para as várzeas, nas praias, onde existiam refrigérios tanto em água como em comida; puseram gente vigiando, observando, suprindo as faltas que porventura acontecessem. O gado velho que ainda estava forte, mas que poderia cair depois, eles matavam, salgavam e secavam a carne no sol, empacotavam em surrão de couro e guardavam para irem comendo aos poucos; assim atravessaram os três anos de seca. Quando o inverno chegou em 1880, trouxeram o gado que escapou na praia, recomeçaram a fazenda, a agricultura também se refez, e assim tudo se normalizou e a vida continuou.

Também naquela mesma época, diante daquela situação calamitosa, além da preocupação de salvar o gado, Frutuoso tinha que arranjar serviço para o povo que também passava fome, especialmente os seus escravos, a quem tinha por obrigação sustentar com todo o necessário para a sobrevivência. Para se prevenir contra uma outra possível seca, mandou cavar um bebedouro profundo dentro da sua propriedade, para que não viesse a faltar água outra vez. Salienta-se que, segundo o Sr. Messias, essa seria a única obra existente em toda a região, que se sabe, feita pela mão escrava.

Córrego Fechado

Existe uma localidade chamada Córrego Fechado em Acaraú, nos limites do município de Cruz, cuja descrição bate perfeitamente com a da propriedade atribuída a Frutuoso, próxima a foz do Rio Acaraú. Ela situa-se na região das terras da Fazenda Cruz, que pertenceu ao casal Manoel Carlos de Vasconcelos e Joana Correia Silva. Curiosamente, um pouco acima no dito córrego, existe uma localidade chamada "Furtuosos", o que parece ser uma corruptela de Frutuosos, uma indicação direta ao Capitão Frutuoso José de Freiras. No Censo de 1920, aparecem como proprietários do Córrego Fechado: José Pereira de Lima e Higino Pereira de Vasoncelos. Este último, filho de Frutuoso, reforçando nossa hipótese.

No supramencionado inventário de Frutuoso, consta a seguinte descrição sobre as terras do Córrego Fechado:

Setenta e uma e meia braças de terra com uma légua de fundos no lugar Córrego Fechado, deste termo, com uma vazante nelas encravada, as quais se extremam: ao norte com o litoral; ao sul com os fundos das terras de Cruz, picada e Mal Assombrado; ao Nascente com terras de Higino Pereira de Vasconcelos; e ao poente com terras ocupadas por Jerônimo José de Freitas; avaliadas a três mil e quinhentos réis  a braça, duzentos e cinquenta mil, duzentos e cinco réis. 

Uma casa de taipa, coberta de telhas encravada nas terras do Córrego Fechado, avaliada por cem mil réis. Vinte e oito pés de coqueiros frutíferos, existentes nas terras do Córrego Fechado, avaliados a quatro mil réis cada um, cento e doze mil réis, a margem. Doze dos ditos, idem, não frutíferos, avaliados a dois mil réis cada um, vinte e quatro mil réis  (op. cit., fl. 12).

Consta ainda outra propriedade no lugar Pai José, próximas as terras do Córrego Fechado:

Dez braças de terra no lugar Pai José, deste termo, com uma légua de fundos, limitando-se ao norte com o litoral, ao sul com terras da Cruz, ao nascente com terras do herdeiro José Francisco de Vasconcelos e, ao poente, com erras de Philomeno Marques da Costa, avaliadas a três mil réis a braça, trinta mil réis (op. cit., fl. 12).

Segundo o memorialista Derson Sousa, essa localidade teria relação próxima com a localidade vizinha de Barrinha, em Aranaú, sendo, provavelmente, ambas originárias da mesma propriedade (Sousa, 2010).

A Alforria

Do grupo inicial, a última a falecer foi a Sra. Teodora Marques de Freitas, a 2 de novembro de 1945, avó do Sr. Messias. A primeira geração nata de Cajueirinho, filhos do casais seminais, era composta por 33 pessoas, sendo 15 homens e 18 mulheres, muitos dos quais também conviveram diretamente com o Sr. Messias. Segundo ele, os moradores trabalhavam em regime de mutirão nas roças e viajavam em grupo, principalmente para as festas religiosas de Acaraú, Cruz, Caiçara e Timbaúba (atual Aranaú), deslocando-se a cavalo ou a pé. Os chefes de família eram casados religiosamente, muitos mantinham relações de compadrio entre si e preservavam práticas religiosas como a reza do terço em família à noite e, em vários casos, do Ofício de Nossa Senhora ao amanhecer.

A comunidade mantinha uma rígida hierarquia de respeito aos mais velhos, estendida aos pais, padrinhos e demais idosos. Entre os descendentes dos escravizados Pedro Marques da Cunha e Jacinta Maria da Conceição havia 12 irmãos, sendo cinco homens e sete mulheres. Os irmãos mais velhos da família nasceram ainda sob o regime da escravidão, enquanto parte dos mais novos nasceu livre em decorrência da Lei do Ventre Livre (28 de setembro de 1871). Os últimos filhos do casal nasceram após a promulgação da libertação dos escravos. A primogênita, Joana Maria da Conceição, conhecida como Joana Pedro, exerceu a função de parteira na comunidade e era chamada pelos mais jovens de Mãe Joana ou Mãe Velha.

Aqui abro um parênteses para uma pequena inconsistência na narrativa do Sr. Messias. No texto original ele situa a libertação dos escravos com a aprovação da Lei Áurea, de 13 de maio de 1888. Entretanto, sabe-se que, no Ceará, a escravidão já havia sido abolida quatro anos entes, em 25 de março de 1884. Trata-se de uma confusão natural e perfeitamente compreensível que não altera em nada a essência da narrativa.

Segundo nosso narrador, após a promulgação da lei que abolia a escravatura, Frutuoso José de Freitas, então capitão da Guarda Nacional, reuniu todos os seus escravizados, homens, mulheres e crianças, em sua residência em Córrego Fechado, e, no ato solene, informou: 

“Meus amigos servidores, sinto alegria em dizer para todos vocês que estão aqui reunidos que hoje chegou o dia de tirar um peso que eu sempre carreguei em minha consciência, que era ter vocês como escravos. Se eu os tive comigo assim, foi porque existia a lei da escravatura neste país e os herdei dos meus pais; mas sempre os tive mais como amigos do que como escravos. Ninguém poderá negar isso: nunca vendi nenhum de vocês, porque vocês são gente, e gente não se vende. Se comprei alguns de vocês, foi porque estavam expostos à venda pelos seus antigos senhores que os maltratavam no tronco; eu, observando e simpatizando com a pessoa, aquele era o jeito que tinha para livrá-los do sofrimento.

Comento aqui, dando mais uma prova do amigo que fui de vocês: nunca tive uma senzala para vocês viverem dentro dela, misturados como animais irracionais, nem tronco no terreiro da senzala para amarrá-los. Cada um de vocês, pai de família, tem sua casa, seu ambiente reservado para viver com a sua família. Isto é um costume que já vem do meu pai, e sempre, quando um casal de vocês se casa, eu venho fazendo a mesma coisa: aprontar a casa com tudo o que é necessário e entregá-la ao novo casal.

Diante de tudo isso, vocês, como escravos meus que eram, pela lei tinham que cumprir as minhas ordens. Entretanto, diante desta Lei Áurea, que suprimiu definitivamente a velha lei da escravatura em todo o Brasil, cumprindo o meu dever, e com a consciência tranquila e muita satisfação, declaro a todos vocês que, a partir de hoje, deste momento em que vos falo, todos vocês estão livres, desimpedidos das minhas ordens, para fazerem o que quiserem, irem para onde quiserem, trabalharem para quem quiserem, ganharem o soldo de vocês e comprarem o que precisarem para a manutenção de vocês. Aqueles que quiserem trabalhar para mim, eu tenho serviço, pago por diária e faço empreitada. De hoje por diante, sigam por conta de vocês e sejam felizes.”

Segundo os relatos de Gabriel, e de seus irmãos, descendentes do casal Pedro Marque e Jacinta, colhidos pelo Sr. Messias, os ex-escravizados receberam a liberdade com sentimentos de alegria e insegurança. Acostumados a viver sob a dependência material do senhor, passaram a ser responsáveis pelo próprio sustento. Os ex-escravizados de Frutuoso permaneceram nas casas que lhes foram doadas por ele e receberam orientações para reorganizar a vida após a emancipação. Parte deles dedicou-se à agricultura, outros à pesca e alguns passaram a trabalhar como diaristas ou empregados. Com o tempo, muitos deixaram as terras de Frutuoso José de Freitas, desmontando suas casas para reconstruí-las em outras localidades, o que contribuiu para a dispersão de seus descendentes.

Frutuoso doou ao casal Pedro Marques da Cunha e Jacinta Maria da Conceição uma área de 100 braças de frente por uma légua de fundo, além de uma casa de morada, para que estabelecessem sua família na propriedade. Conforme o relato, a doação foi concedida em reconhecimento aos serviços prestados pelo casal, e seus descendentes permaneceram ocupando essa área no Cajueirinho.

Esse relato expõe a complexidade das relações sociais durante os últimos anos da escravidão do Brasil. Apesar da amenidade das palavras, não podemos esquecer que Frutuoso era avô do Sr. Messias, e mesmo que este tenha reproduzido exatamente o que escutou, não apenas de seus antepassados, mas dos descendentes daqueles homens e mulheres escravizados, não julgo ser possível acreditar que isso não tenha passados por um filtro de reticencias, que permeia esse fardo moral tão delicado.

Porteiras

Um pouco mais ao sul de Córrego Fechado, já no município de Cruz, existe uma outra localidade chamada Porteiras, cuja história é contada em forma de verso pelo Sr. Jaime Farias, no poema "Origem de Porteiras". Seus primeiros colonos seriam dessa família Farias, descendentes de Antônio Farias de Menezes, que a ocupavam e lá criavam gado. Segundo a tradição oral, havia uma porteira, no barranco do rio, usada para prender o rebanho durante o verão, que era deslocada sazonalmente conforme o leito do rio mudava com as enchentes; por isso o lugar ficou conhecido como Porteiras do Farias.

O autor cita como testemunhas dessa fase antiga da ocupação, ainda em regime de posse comum e sem cercas, seus avós, tios e tias, filhos de Antônio de Farias: Leão Damásio de Farias, Antônio de Farias Menezes Junior, Pedro Francisco de Menezes, Sixto Romão de Farias e o genro Pedro Gregório (Farias, 2007a). Esse regime de posse coletiva e informal da terra terminou em 1931, quando Urbano José da Silveira, comerciante de Cruz e parente dos Farias, ambos bisnetos de Francisco Teixeira Pinto (Chico Teixeira), requereu a União a demarcação da chamada da "Légua da Cruz", terra que se estendia por uma légua entre Cruz e Porteiras.

Na medição, ficou decidido que os posseiros só manteriam direito à terra se pagassem uma taxa referente ao seu "travessão" (marco de limite); quem não pôde pagar perdeu a posse, e a terra foi posta em leilão, beneficiando os mais abastados. Muitas famílias pobres, sem alternativa, tornaram-se agregadas em suas próprias antigas terras, e desses migrou para outras regiões do país. O pai do autor, Benedito Magalhães de Farias, ameaçado de perder seu travessão, o último da Data Légua, em arrematação em abril de 1931, produziu farinha de mandioca a partir de quase toda a sua roça, obtendo três alqueires que vendeu por trinta mil réis, valor com o qual resgatou a terra da família (Farias, 2007a).

Em termos documentais, além da consistência genealógica, o citado Pedro Francisco de Menezes consta realmente como proprietário de Porteiras no Censo Agropecuário de 1920. Soma-se a isso, o fato de o bisavô "Chico Teixeira" ser filho de Manoel Pereira de Vasconcelos, portanto, neto de Joana Correia da Silva e Manoel Carlos de Vasconcelos, donos originais da "Légua da Cruz", topônimo da Fazenda da qual eram proprietários, como discutido em outra postagem. Ademais, a citada demarcação de terras, assim como várias outras, todas tendo como autor o citado Urbano José da Silveira, constam no índice do Arquivo Público do Estado do Ceará (1930, Caixa 1, Proc. 8).

No processo de demarcação, Urbano e sua mulher solicitam a demarcação, sob a seguinte alegação:

II - Que o imóvel citado se constitui de duas léguas de comprimento por uma de fundos, sendo parte da data e sesmaria concedida em 19 de julho de 1705 ao Coronel João Pereira de Veras e Thereza de Jesus, pelo Capitão-mor da então Capitania do Ceará, João da Motta e jamais foi demarcado;

III - Que o aludido imóvel "Cruz", se limita: ao norte com terras de Timbaúba, no lugar "Porteira Velha", mais ou menos; ao sul, com o chamado marco do Guarda, separando o imóvel demarcado, no ponto onde der uma légua, a começar do Rio Acaraú [...] (APEC, Acaraú, Demarcações de Terra, 1930, Caixa 1, Proc. 8, fl. 2)

Essa sucessão de terras desde a sesmaria foi detalhada em outra postagem. Ressalta-se apenas que Timbaúba corresponde às imediações da Vila de Aranaú, em Acaraú, e o limite sul dessa sesmaria coincide aproximadamente com a fronteira entre os atuais municípios de Cruz e Bela Cruz. A região do Marco do Guarda corresponde a uma localidade em Bela Cruz de nome Guarda.

Sobre Benedito Teixeira, Sr. Jaime Farias descreve sua trajetória em um poema a parte, denominado "Um continuador da história 'Origem de Porteiras'". Pela narrativa, o pai de Benedito, Macário José de Farias teria migrado para o Amazonas quando Benedito tinha seis anos, ou seja, em 1885, no contexto do ciclo da borracha. Dessa forma, ele cresceu em extrema pobreza sob os cuidados da avó Geralda Maria de Jesus, viúva, até o retorno do pai em 1912, quando passaram a trabalhar em regime de meia.

Macário José de Farias 1879-1961

Aos 23 anos, ao tentar preparar terreno para construir moradia e casar-se, Benedito foi impedido por seu tio Gregório, que reivindicou a posse da área — episódio que Benedito relembraria décadas depois como marco de uma vida de trabalho árduo. Casou-se então com Ana Cândida de Farias, neta órfã de mãe que herdara a casa e um plantel inicial de gado do avô; Ana nasceu em 6 de novembro de 1913 e viveu mais de dez anos enferma antes de falecer em 20 de março de 1983, em decorrência de uma queda. Por meio da agricultura de mandioca e farinha e da criação de gado bem administrada, Magalhães prosperou e, por volta de 1950, já era chamado de "rico" pela comunidade. Nessa época, agentes de endemias oficializaram a denominação do lugar como Porteiras do Magalhães (Farias, 2007b).

Açude do Cajueirinho

Nas proximidades do Serrote do Cajueirinho existem três pequenos serrotes: o da Pitombeira, ao sul, e outros dois, ao nordeste, na localidade de Poço Doce. Esses serrotes são separados pelo Riacho da Prata, onde, entre janeiro de 1950 e fevereiro de 1953, foi construída a barragem que deu origem ao Açude Aranaú, também conhecido como Açude da Prata. A obra interligou as duas elevações interrompendo o curso do riacho.

A Construção do Açude da Prata, por Flávio do Cajueirinho, 2023.

Conforme depoimento do Sr. Manoel Livino, nascido em 1943, morador de longa data da região de Poço Doce, o projeto demorou a sair do papel devido às dificuldades nas negociações com os proprietários das terras que seriam inundadas. Inicialmente, muitos deles resistiram à obra por acreditarem que perderiam suas propriedades sem uma compensação adequada. Somente após o governo negociar indenizações e modificar o projeto, reduzindo a área que seria alagada, os proprietários aceitaram assinar os documentos necessários para o início da construção.

Entre os que assentiram com a construção, recorda-se dos seguintes proprietários, na sequência de assinatura: As Cegas (duas senhoritas não nomeadas), Marino Brandão, Minervino Valente, Antônio Cardoso, Antônio Luís, Antônio Domingo, Antônio Ladislau (Antônio Pepé), Leôncio Dourado, Raimundo Mamede, Augusto, Marica, Maria e Rita Pinto, Raimundo Miguel, Minervino Marica (irmão de Augusto Marica, fundador da Igreja), Chicó Miguel, Nonato Pereira, Luís Pereira, Pedro Cunha, Chico Cunha, Hermeto Costa, Chagas Livino, Raimundo Pinto, Daniel Luiz e, finalmente, Raimundo Luiz, avô do depoente o Sr. Manoel Livino (CECAP, 2024).

A barragem foi executada pelo DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), sob administração do empreiteiro Francisco de Melo, natural de Miraíma. Os trabalhos foram realizados manualmente, com escavações feitas por trabalhadores utilizando picaretas e explosivos, especialmente dinamite. O material era transportado por jumentos e burros até a obra, enquanto o barro retirado do leito do Riacho da Prata era misturado a material pedregoso, umedecido e compactado por um rolo compressor de concreto puxado por dois bois, chamados Moreno e Dourado. Na versão do Sr. Manoel Livino, os bois chamavam-se Canário e Graúna.

A barragem foi construída sobre uma fundação com cinco metros de profundidade e cinco metros de largura pelo lado interno. Na superfície, atingiu quatro metros de largura e aproximadamente 400 metros de comprimento, ligando-se ao sangradouro escavado com dinamite no Serrote do Cajueirinho, por onde o açude verte com lâmina d'água de até 80 centímetros. Segundo o Sr. Messias, o rolo compressor utilizado na obra foi fabricado no próprio local com concreto e pedras da região. Media um metro de comprimento, 2,70 metros de circunferência, 80 centímetros de diâmetro e pesava mais de uma tonelada. Após permanecer durante anos junto ao sangradouro, foi transferido para o Cajueirinho por José Orion de Morais, conhecido como Dom, permanecendo ao lado de sua oficina. Hoje encontra-se na sede do Centro Cultural Açude da Prata.

Rolo Compressor usado na construção do Açude da Prata, 1953.

Segundo informações de Francisco de Melo, o Açude Aranaú possui reservatório com cerca de sete quilômetros de extensão, capacidade para 14,6 milhões de metros cúbicos de água e profundidade variando entre 10 e 12 metros. Com a formação do reservatório, o Serrote da Pitombeira ficou parcialmente inundado, transformando-se em uma ilha. Ainda segundo o Sr. Messias, cerca de 20 anos antes da construção do açude, funcionava no local o Acampamento Jóia, centro de treinamento pertencente à Igreja Evangélica e administrado por pastores norte-americanos.

Em 1974 houve um grande inverno que elevou significativamente o nível dos corpos d'água da região, fazendo com que praticamente todas as lagoas e áreas alagáveis transbordassem e se conectassem. Isso fez com que a água do Lagamar, já influenciada pelas marés e pela salinidade marinha, alcançasse áreas até então ocupadas por água doce. Quando o excesso de água escoou em direção ao mar, parte da água salgada permaneceu retida nas lagoas e nos terrenos adjacentes. Segundo o relato, foi esse episódio que provocou a salinização de extensas áreas agrícolas, anteriormente consideradas férteis para o cultivo (CECAP, 2024).

Após 55 anos de funcionamento, a barragem recebeu obras de restauração durante a construção do trecho Cruz–Jijoca da Estrada Litorânea Salvador–São Luís, executada pelo DERT. Na ocasião, a estrutura foi alargada para 10 metros pelo lado externo, revestida com paralelepípedos provenientes de Quixadá e recebeu uma ponte de 60 metros sobre o sangradouro. A ponte e aproximadamente metade da área inundada do açude situam-se no território do Cajueirinho, enquanto o açude passou a integrar o Patrimônio Natural do Município de Cruz. O nome Açude Aranaú está relacionado à organização administrativa da região. À época da construção, o povoado de Cruz pertencia ao Distrito de Aranaú, em Acaraú.

Monteiros

A localidade de Monteiros fica relativamente próxima a Cajueirinho. Conforme a memorialista Elizabeth Albuquerque, baseada em relatos de moradores locais, esse antrotopônimo se deve ao primeiro ocupante dessa terra, que se chamava Manoel José Monteiro (Albuquerque, 2009, p. 141). O Sr. Manoel Monteiro seria natural do Trairi e, após viajar por outros lugares, teria descoberto uma lagoa próxima a atual localidade, que também levou seu sobrenome, sendo conhecida hoje como Lagoa do Monteiro. Sua ascendência é ignorada, sabendo-se apenas que era casado com D. Tereza Maria da Jesus.

Uma outra versão, trazida por Aurilene da Costa Araújo, depositada no perfil de Manoel Monteiro na plataforma FamilySearch em 25 de outubro de 2015, aponta que Manoel Monteiro teria vivido no Vale do Jaguaribe, tendo fugido de Icó após ser ameaçado pelo filho do delegado local. Em Jaguaribe, teria sido acolhido por um fazendeiro, que o criou como filho. Mas Manoel teria se apaixonado pela filha do fazendeiro, sua irmã de criação. Não considerando a relação apropriada, decidiu fugir da fazenda, mas foi perseguido pelo pai da moça que o obrigou a casar-se com ela. O casal então deixou a região e, em busca de terras que pudessem adquirir, teria descoberto a tal lagoa. A testemunha situa esses acontecimentos por volta de 1862.

Em termos documentais, consta no Censo Agropecuário de 1920 como proprietários da Fazenda Monteiros: Antônio Marque da Costa e Domingos Rodrigues Chaves. O primeiro era genro de Manoel Monteiro, filho de Manoel Marques da Costa e Inácia Maria do Nascimento, era casado com Feliciana Maria da Conceição.  Já Domingos Rodrigues Chaves era filho de pai homônimo e Maria Rodrigues Chaves, sendo casado com Maria Francisca da Conceição, filha de Pedro Lopes da Silva e Anna Maria da Luz. Não encontrei vínculo entre Domingos e Manoel Monteiro. Não encontrei registros dessa propriedade no Livro de Registro de Terras da Barra do Acaraú 1855-1857, sugerindo que, de fato a ocupação é posterior a essa data.

Diego Carneiro
13 de agosto de 2026

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. Cajueirinho e o Açude da Prata. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 13 de agosto de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/07/cajueirinho-e-o-acude-da-prata.html

Referências:

ALBUQUERQUE, Maria Elizabeth. Era uma vez na Cruz: Genealogia da Família Cruz. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2009.

ARAÚJO, Nicodemos. O Município de Cruz. Acaraú: Editora Esteves Tiprogresso, 1989.

CECAP. O que vi, ouvi e vivi sobre a construção do Açude da Prata: Cruz, Ceará [documentário]. Cruz, CE: Centro Cultural Açude da Prata, CECAP, 2024.

FARIAS, Jaime. Origem de Porteiras. Biblioteca Pública Municipal, 25 jun. 2007a. Disponível em: https://bibliotecapblicamunicipal.blogspot.com/2007/06/origem-de-porteiras-jaime-farias.html. Acesso em: 4 ago. 2026.

FARIAS, Jaime. Um continuador da história: origem de Porteiras. Biblioteca Pública Municipal, 25 jun. 2007b. Disponível em: https://bibliotecapblicamunicipal.blogspot.com/2007/06/um-continuador-da-historia-origem-de.html. Acesso em: 4 ago. 2026.

FREITAS, Manoel Messias de. Memórias do Cajueirinho. In: Cultura Popular de Cruz [blog]. [Administração de Evaldo Vasconcelos]. 1 jun. 2007. Disponível em: https://bibliotecapblicamunicipal.blogspot.com/2007/06/memorias-do-cajueirinho-messias-de.html. Acesso em: 25 jul. 2026.

SOUSA, Manoel Derson. Aranaú: Barrinha de Cima. Derson Site, 8 fev. 2010d. Disponível em: https://dersonsite.webnode.com.br/news/aranau-barrinha-de-cima/. Acesso em: 2 ago. 2026.

A Costa dos Castelhanos

Destaque da Carta Topográfica da Capitania do Ceará, 1800.

O Sítio Castelhano, que originou a localidade de mesmo nome, hoje pertencente ao município de Acaraú, é um dos locais de ocupação mais antiga do litoral da Ribeira. Em 1706, foi concedido em sesmaria ao Sargento Francisco Alberto Delquintilar (ou de Quintilar ou Alquintamor). Na petição ele declarou que havia descoberto e se estabelecido um sítio denominado Vera Cruz, onde residia, sem oposição, havia dois anos com seus rebanhos de gado bovino e cavalar.

As terras solicitadas localizavam-se entre a Lagoa Ayuicena e um brejo chamado Ubatuba (ubá = cana-brava + tyba = abundância, abundância de cana-brava), abrangendo três léguas de comprimento. A sesmaria teria como ponto central a "Lagoa dos Morros", estendendo-se uma légua e meia para cada lado. A largura seria de uma légua; entretanto, como o mar chegava até a margem da lagoa, não era possível completar essa medida em direção ao litoral. Assim, solicitou que a largura fosse completada apenas para o lado do sertão (Sesmarias, Vol. 3, nº 185, p. 113). Essa descrição bate perfeitamente com a geografia da região, formada por uma lagoa central, denominada Lagamar dos Currais Velhos, extremada por outras lagoas menores como a Espinho e Junco, antes de encontrar o litoral.

No mesmo ano em que obteve essa sesmaria, obteve outra, também no litoral de Acaraú, Salgado do Acaraú, no lugar chamado Apecuí (apekún = manguezal), seguindo pela costa em direção à região da Parnaíba, e no riacho chamado Pirangi (pirang = vermelho + 'y = rio, rio vermelho), juntamente com o Capitão Rodrigo da Costa de Araújo, D. Catarina do Lago, Coronel João de Barros Braga e João D'Almeida (Sesmarias, Vol. 3, nº 172, p. 85).

Exceto isso, não se sabe praticamente nada sobre Francisco Del Quintilar, entretanto, considerando o contexto da época, a patente de Sargento, e os companheiros de sesmaria, é provável que tenha servido no Forte. Ademais, com base em seu sobrenome, pode-se supor que seja originário da península Ibérica, possivelmente da Espanha, o que justificaria a escolha do nome Castelhano para sua propriedade.

Ao que parece, Quintilar faleceu sem deixar herdeiros legais ou testamento, de modo que suas terras foram levadas a leilão, e arrematadas pelo Tenente Coronel Manoel Barbosa de Morais, natural do Rio Grande do Norte. Mas Morais desconfiava que houvesse algum impedimento na posse de Quintilar, talvez por prescrição, de modo que para regularizá-la, solicitou-as novamente em sesmaria, datada de 7 de abril de 1716:

Diz o tenente-coronel Manoel Barbosa de Morais, morador nesta Capitania do Ceará Grande, que ele, suplicante, arrematou umas terras no Tribunal dos Ausentes, as quais possuía por data e sesmaria Francisco Alberto de Alquintamor, e que foram postas em praça por haver falecido o dito ab intestato. Tendo surgido de presente uma dúvida, por lhe dizerem que o referido falecido era pessoa que, sendo assim, não podia receber as ditas terras por data e sesmaria em nome de Sua Majestade, que Deus guarde, pede a Vossa Mercê que seja servido mandar passar-lhe nova data na mesma forma em que o dito defunto possuía as referidas terras, vista a dúvida acima declarada. E, sendo falsa a informação de que o dito defunto era pessoa impedida, fique ele, suplicante, possuindo as referidas terras, visto tê-las arrematado, para si e seus herdeiros, ascendentes e descendentes. E receberá mercê (Sesmarias, Vol. 10, nº 31, p. 56).

A essa terra, deu-se o nome de Sítio Castelhano, provavelmente em homenagem ou herdado de seu antigo dono. Em 28 de março de 1737, consegue uma extensão dessa sesmaria, de três léguas no Córrego do Tanque, "nas ilhargas de seu sitio Castelhano" (Sesmarias, Vol. 13, nº 72, p. 146). Hoje existe dentro da área de sesmaria um povoado de nome Castelhano.

Localização aproximada das Sesmarias de Manoel Barbosa de Morais, 1716 e 1737.

Em 5 de julho de 1735, casam-se no Sítio Castelhano, Manuel Carlos de Vasconcelos e Joana Correia da Silva, filha do sesmeiro da Timbaúba, Antônio Correia Peixoto (Araújo, 2000, p. 206). Esse casal depois mudou-se para a Fazenda Cruz, que deu origem a sede do município. Barbosa de Morais, uma das testemunhas presentes, é provavelmente o avô materno de Joana. Sabe-se também que Morais era membro da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição, de Almofala, tendo ingressado em 21 de outubro de 1730, juntamente com o Rvd. Pe. Felix de Azevedo Faria e Pedro Cardoso de Abreu (Studart, 2000, p. 182).

A partir desse ponto, não se sabe exatamente o que aconteceu com essas terras. Em 1855, constam como proprietários no Castelhano: Policarpo Francisco de Sousa (1819-1902), com "um quarto de terra de comprido com uma de largo na Fazenda do Castelhano" (Vol. 1, nº 24, fl. 6) e Alexandre Marques da Rocha (1793-1884), com "seiscentas braças no Castelhano" (Vol. 1, nº 160, fl. 26). Policarpo era filho do Capitão Diogo José de Souza e de Constança Maria do Carmo Ponte, casado com Antônia Rosa Cândida, filha de Manoel Pinto Brandão e Francisca Tomásia de Veras. É provável que fosse parente de Donato José de Souza, um dos pioneiros da região de Jijoca. A família Brandão também é bastante antiga na região do distrito de Caiçara (ver abaixo).

Já quanto a Alexandre Marques da Rocha, sabe-se que era filho de Antônio Marques da Rocha e Elana Maria da Natividade, sendo casado com Thereza Maria de Jesus, filha de Tomé Nunes de Freitas e Joana da Costa Vasconcelos. Era descendente, pelo lado materno, do casal supramencionado, Manoel Carlos Vasconcelos e Joana Correia da Silva, não sendo impossível que tenha herdado parte dessas terras de seus ancestrais.

Já no século XX, no Censo Agropecuário de 1920, consta como proprietário do Sítio Castelhano, Modesto Francisco Gonçalves (1854-1923). Modesto Lousada, como era conhecido, era filho de Bento Francisco Domingues e Joana Gonçalves, sendo casado com Ana Joaquina Louzada, filha de Francisco Antônio Louzada e Aureliana Francisca Correia.

Os Quilombolas do Córrego dos Iús

A Comunidade Remanescente Quilombola do Córrego dos Iús é uma comunidade rural afro-indígena localizada na área do distrito de Aranaú, município de Acaraú, e, em menor parte, no município de Cruz. Conforme relatos dos moradores mais antigos, o topônimo advém de uma espécie de peixe chamada iú (Hoplerythrinus unitaeniatus), abundante no riacho por volta da década de 1930 e hoje desaparecido da região. Registra-se também uma denominação anterior, de Córrego dos Verçosa, família que o habita pelo menos desde meados do século XIX. Ressalta-se que, apesar de Soares (2023), principal referência sobre esse assunto, situar a comunidade na área da sesmaria do Capitão Diogo Lopes, estou seguro de que, na verdade, essas terras pertenceram, a já mencionada sesmaria de Francisco Alberto Delquintilar, depois arrematada por Manoel Barbosa de Morais, o Sítio Castelhano.

As Famílias Fundadoras

Conforme Soares (2023), há quatro famílias-tronco que constituem a comunidade: os Verçosa, os Sousa, os Alves, e os Lopes da SilvaA narrativa de fundação se apoia no casal Maria Verçosa e João Verçosa. Diz-se que Maria veio fugida da Bahia, perseguida por homens que a queriam levar de volta ao cativeiro, escondendo-se pelos matos e saindo pelo litoral. Nas palavras de um dos anciãos da comunidade, então com 75 anos:

De premero vei uma senhora chamada Maria Verçosa, a mais velha desse setor aqui. Não tem documento, são só relatos que diz dos bisavô, que diz pros avô que ela tinha vindo fugida da Bahia, perseguida; uns homi perseguia ela no mato, pra levar pros cativeiro. Eram muitos, eles se escondia nos matos e saia por esse litoral, os grupo, aí onde dava pra se refugiar eles se refugiavam, aí os grupo iam se espalhando, porque já era as estratégia que se as ameaça chegasse, dava tempo de avisar uns pros ôtro e fugir. Também pescava e caçava em grupo que era pra todo mundo podê cumê. Até hoje nóis vévi assim, dirridindo tudo (Ibidem., 54).

Segundo a tradição oral, Maria Verçosa controlava as terras que iam da Praia da Formosa até o entorno das três lagoas. Conta-se ainda que, para promover festejos, ela trocava "pedaços de chão" por bebidas e por tecidos com que se fizessem roupas.

Não se sabe ao certo como Maria Verçosa obteve essa gigantesca porção de terras. Entretanto, uma hipótese que me parece plausível é de que ela ou seu marido tenham herdado as mesmas de seus antepassados. Aqui cabe alguns esclarecimentos. O primeiro Verçosa identificado nessa região foi João Batista Verçosa (1728-1798), filho do Alferes Ângelo Dias Leitão e Rosa Maria Ferreira. João Batista casou-se com Antônia Correia da Silva, filha de Antônio Correia Peixoto, identificado como pardo, e possível neta de Manoel Barbosa de Moraes, o sesmeiro das terras do Castelhano. Acredito que um dos membros do casal descenda diretamente de João Batista.

Dando continuidade, Cesário Manoel de Sousa foi o genearca da família Sousa. Casou-se inicialmente com Maria Balbina, com a qual teve quatro filhos, e, após sua morte, casou-se novamente com Joaquina Maria da Conceição. Conhecida como Joana Grande, era indígena, e a tradição local narra que foi "pega a dente de cachorro" e trazida para as bandas do Córrego dos Iús "para amansar". Descrevem-na alta, forte, de cabelo estirado, e narram que, após aproximações sucessivas, passou a frequentar a localidade até fixar-se e unir-se a Cesário. O casal viveu por muito tempo na localidade denominada Croa das Almas, dedicando-se à agricultura e à pesca nas lagoas e praias próximas. O nome remete ao cemitério quilombola ali criado, junto à croa, para os enterros da comunidade. Cesário Manoel foi um dos últimos quilombolas nele sepultados.

A família Alves tem ligação estreita com os Sousa, sendo ambas originárias da região de Aranaú. Raymundo Alves casou-se com a prima Ana Maria da Conceição, e o casal teve cinco filhos. Uma destas, Francisca Alves do Nascimento, casou-se com Cipriano Manoel de Sousa, filho de Cesário Manoel e Maria Balbina. O casal viveu muitos anos em casa de taipa com forquilhas, varas de cipó e paredes rebocadas de barro, à beira do córrego.

Finalmente, a quarta família-tronco se forma a partir do casal Antônio Lopes da Silva e Paula Alzira do Nascimento, conhecida como Paula Meruoca. Vindos da localidade de Carrapateiras, cultivavam roçado mas não possuíam terras. Chegados à região, encostaram-se inicialmente em terras dos descendentes do já mencionado Modesto Lousada. Integrou-se a comunidade, onde foi professora e catequista. Paula Alzira era filha de Manoel Bernardo do Nascimento, o Manoel Meruoca, e de Maria Emília da Cunha, comboieiros que desciam da Serra Grande trazendo rapadura, cachaça e outros produtos para trocar por peixe na região que hoje abrange os Iús, e que acabaram se fixando por essas bandas.

Casal Antônio Lopes e Paula Alzira.

Essas quatro famílias, por meio de relações endogâmicas, deram origem a praticamente todos os habitantes naturais do Córrego dos Iús. Colabora para isso um certo preconceito das pessoas fora da comunidade, que resistem a se relacionar com seus membros. Essa segregação deriva dos conflitos de terra envolvidos, inclusive, no processo de demarcação e reconhecimento da comunidade perante o poder público. 

Modesto Lousada

Modesto Lousada, chegou às terras dos Iús pela Praia da Formosa. É descrito por Soares (2023) como posseiro, que teria interpelado os Verçosa, proprietários legítimos da região, trocando glebas de terra por cachaça, vestimentas e alimentos. Essas trocas, apesar de voluntárias, são interpretadas pelo autor com uma estratégia de sobrevivência e para mitigar conflitos. Modesto empregava membros da família Verçosa em condições análogas a escravidão. Segundo o relato de alguns moradores, então com 77 anos:

Meu finado avô dizia que os Verçosa mai véi saia daqui dos Iús até o Acaraú tangendo as varada de porco. Era três dia a pé até chegá no Acaraú pra modi recebê uma merreca, que era o que ele pagarra, depois mitia o pé no rumo dos Iús, e quando chegarra num tinha discanso não, era pra modi alimentá os bicho, limpá os casco dos carralo... era mêr que escravo, num tinha diferença não (ibidem, p. 44).

Os relatos nomeiam Pedro Alves, Luís Tomaz e José Verçosa, como encarregados de tratar dos animais usados no transporte de mercadorias. Ainda hoje, a família Lousada é proprietária de terras na região, e os conflitos fundiários de proprietários externos e membros da comunidade são uma realidade latente. 

Nesse sentido, a Portaria nº 221, de 14 de novembro de 2023, reconhece a área das terras da Comunidade Remanescente de Quilombo Córrego dos Iús, com os seguintes limites:

Norte: NEO - Empreendimentos Imobiliários Ltda, João Muniz Sobrinho, Aline Vasconcelos Gonçalves, João Altevi de Freitas, Espólio de José de Paula Ribeiro Pessoa Neto, Espólio de Rafael Pinto da Silveira, Benedito Ostervaldo da Silveira e Glaydston Luiz Farias Muniz; Sul: Jaime Muniz Vasconcelos e Fazenda Lagoa do Mato de Francisco Pereira da Silva; Leste: Espólio de Tarcisio Irapuan Sales e Glaydston Luiz Farias Muniz; Oeste: Cajueirinho de João Muniz Sobrinho e Espólio de Julia Maria do Nascimento.

A Vila da Caiçara

Nas imediações da antiga sesmaria do Sítio Castelhano, localiza-se a Vila da Caiçara, sede do distrito de mesmo nome, pertencente ao município de Cruz. A povoação localiza-se a margem da Lagoa da Jijoca, que delimita a fronteira municipal com Jijoca de Jericoacoara. A região integrava a antiga área de ocupação dos indígenas Tremembé, habitantes tradicionais do litoral oeste do Ceará, cuja presença legou diversos topônimos. O próprio termo Caiçara deriva do tupi antigo ka'aysá ou ka'aysara, significando uma cerca feita de estacas ou galhos, podendo ser utilizada para proteção, currais ou armadilhas de pesca (Navarro, 2013, p. 210).

Segundo a tradição oral, o primeiro nome da localidade seria, na verdade, Boa Esperança, mas, com o tempo, esse teria sido mudado para Caiçara, em referência às cercas de pau-a-pique que a rodeavam. São lembrados como alguns dos primeiros habitantes: João Pereira [Dutra], professor do antigo povoado de Cruz, subvencionado pela prefeitura em 1908, Zé João, Armando Rufino e, posteriormente, o Sr. João Ladislau de Paula Magalhães, subprefeito de Cruz em 1962.

Igreja Matriz da Caiçara

No ano de 1880, o povoado iniciou a construção de sua primeira capela dedicada a São Francisco de Assis, liderada pelo agricultor Antônio Pereira Brandão, que doou 100 braças de terra para formar o patrimônio da igreja. Antônio era filho de João Pereira Brandão (1810-1888) e Ignacia Maria da Purificação (1812-1858), naturais da Timbaúba, atual Aranaú, Acaraú. Segundo o depoimento do memorialista Jacinto Pereira, bisneto de Antônio Pereira Brandão, esta morava em uma casa de taipa, com madeira de coqueiro, coberta de telhas, na localidade de Cavalo Bravo, "aproximadamente no centro de sua terra, que tinha mais de 700 metros de largura por uma légua de comprimento, que ia do travessão das pedrinhas, que foi construído pelos meus antepassados, até a terra da Marinha no litoral" (Pereira, 2022; 2024).

Propriedade de Antônio Pereira Brandão, 1880.

Em 15 de fevereiro de 1857, João Pereira Brandão, pai de Antônio Pereira Brandão, declarou possuir "duas posses de terra... nas terras da Timbaúba e Falcão, cujas posses de terra as houve por compras, cujas ignora-se suas extremas", conforme consta no Livro de Registro de Terras da Freguesia da Barra do Acaraú 1855-1857 (nº 480, Vol. 1, fl. 76). Essas terras provavelmente foram legadas a seu filho que as doou para a construção da capela.

A ermida, rudemente construída, foi inaugurada a 4 de outubro de 1880, com a bênção, pelo Pe. Antônio Xavier Maria de Castro, pároco de Acaraú (Araújo, 1989, p. 73). Esse templo passou por uma reforma significativa, iniciada em 1914, conduzida por Manoel Ferreira da Silva e outros, que a ampliou. Após a reforma, ela foi solenemente abençoada em 17 de outubro de 1923, pelo Padre Antônio Tomaz, que fez registros no Livro do Tombo da paróquia de Acaraú (Barroso, 1999, p. 260).

Ainda segundo Jacinto Pereira, após sua morte, a propriedade de Antônio Brandão foi dividida entre seus nove filhos, "tocando a cada um quarenta e duas braças, três palmos e duas polegadas de largura por uma légua de comprimento". E continua:

"Posteriormente, foi formado um patrimônio para São Francisco, para manutenção do serviço religioso na capela, e alguns dos herdeiros doaram metade de sua herança para sua composição. O tal patrimônio deveria ser constituído por uma légua quadrada de terra tendo a capela no centro, a ser doada por proprietários desses terrenos. Nem todos os herdeiros de Antônio Pereira Brandão doaram terrenos para composição desse patrimônio, preferindo vender para pessoas endinheiradas do então município de Acaraú" (Pereira, 2022).

Em 1887 foi construído, também pela comunidade local, um cemitério em Caiçara. Em 1955, os Srs. Francisco Galdino de Sousa e Francisco Marques da Rocha o ampliaram, sendo sua nova bênção oficiada pelo Pe. Sabino de Lima, a 10 de janeiro de 1956 (Araújo, 1989, p. 141). Anos mais tarde, em 1987, cem anos após a sua construção, o Cemitério passou por uma nova reforma, que resultou em sua ampliação (Ceará, 2015, p. 180).

No mesmo ano da bênção solene da capela, em 12 de fevereiro de 1923, instalou-se na povoação de Caiçara, o Cartório do distrito de Jericoacoara, tendo como Oficial o Sr. Manoel Ferreira de Albuquerque, que ali esteve até 8 de fevereiro de 1932. Sucederam-no: Joaquim Carvalho da Mota, de 3 de março de 1933 a 26 de dezembro de 1934; Manoel Ferreira de Albuquerque, de 15 de abril de 1935 a 20 de janeiro de 1936; Manoel Marques de Sousa, de 5 de fevereiro de 1936 a 1951; Francisco Romão de Menezes, de 11 de outubro de 1951 a 2 de maio de 1955; Manoel Marques de Sousa, de 30 de maio de 1955 a 22 de junho de 1958; João Ladislau de Paula Magalhães, de 19 de setembro de 1963 até seu falecimento, em 1975. Então o Cartório foi posto em concurso, sendo aprovado o serventuário José Arteiro Cruz, que assumiu a 11 de março de 1977, e achava-se no exercício ao menos até 1989 (Araújo, 1989, p. 143).

Santas Missões Populares, Caiçara, 1939.

Em 19 de novembro de 1939, em comemoração a realização das Santas Missões Populares, foi erguido por Pe. Pedro, em Caiçara, na Rua José João, s/n, um monumento em forma cruz medindo cerca de oito metros de altura, chamado Santo Cruzeiro. Reza a tradição de que os fiéis o trouxeram nos ombros desde a cidade de Bela Cruz, como demonstração de sua fé (Cruz, 2024, p. 94). Antigos moradores dizem que antigamente o local era usado para o sepultamento de crianças pagãs, porque a Igreja não aceitava que as mesmas fossem sepultadas no cemitério (Caiçara Online, 2012). Esse marco histórico religioso foi tombado pela Lei Municipal nº 833, de 07 de junho de 2024, em função de sua "importância histórica, cultural e religiosa para a comunidade".

Santo Cruzeiro da Caiçara.

Ao longo do século XX, Caiçara buscou sua consolidação administrativa e religiosa. Na década de 1950, houve um forte movimento dos fiéis para transformar a localidade em uma paróquia independente, projeto que chegou a ter o apoio do bispo Dom José de Sobral. No entanto, a criação da paróquia foi adiada após o sacerdote indicado para a função relatar que não conseguiria conviver com as dificuldades e a "pesada solidão" do então isolado lugarejo (Araújo, 1989, p. 76). A paróquia só foi criada, independente da de Cruz, em 12 de novembro de 2017.

Dr. Lima, memorialista da região, recorda os antigos trabalhadores:

Também os trabalhadores tinham onde recuperar suas ferramentas com os ferreiros Chagas Ferreira e Francisco Antero. Mas, se o caso era couro tinha o soleiro José Joaquim e o sapateiro Toca Lima. Os carpinteiros Tiago e Antônio Lima fabricavam móveis para todas as famílias, principalmente para os recém casados que pretendiam mobilhar as casas. A primeira padaria instalada na comunidade pertencia ao Senhor José Filenom natural da cidade de Morrinhos. As construções ficavam a cargo dos pedreiros Luís João e Geraldo Muniz. As costureiras Ângela Marta da Silva, Antônia Maria da Silveira e Rita Pereira de Sousa cuidavam da confecção e remendo das roupas usadas na comunidade e preparavam os noivos para os matrimônios (Lima, 2012).

Em termos civis, Caiçara foi oficialmente elevada à categoria de distrito de Acaraú pela Lei Estadual nº 6.690 de 1963, decisão que foi posteriormente ratificada e homologada pela Lei nº 11.323 de 22 de maio de 1987, após a emancipação do município de Cruz. Conforme essa a última legislação, Art. 1º, os limites distritais eram:

O NORTE — Com o Oceano Atlântico, desde o travessão dos herdeiros de José Júlio Lousada até o Riacho Doce, onde derrama as águas da Lagoa da Gijoca. AO LESTE — Nas terras dos herdeiros de José Júlio Lousada, na Fazenda Santo Estevão, rumando em linha reta até o Oceano Atlântico, na localidade de Formosa. AO SUL — Começando na Lagoa da Gijoca, no travessão de Pedrinhas, até encontrar o travessão de José Leorde, onde separa as terras do litoral, seguindo pelo mesmo travessão até encontrar o travessão divisório das terras de José Maria Ossias e Raimundo Nonato de Vasconcelos, seguindo pelo mesmo travessão até encontrar a Estrada de Caiçara e, por esta estrada, até à Fazenda Santo Estevão, AO OESTE — Começando em Riacho Doce, seguindo pelo mesmo, até a Lagoa da Gijoca, seguindo pela mesma Lagoa até encontrar o travessão de Pedrinhas.

A denominação das ruas da Vila de Caiçara foi dada pela Lei Municipal nº 33, de 25 de setembro de 1988, Art. 1º: Mons. Sabino [de Lima Feijão], Afonso [Henrique] Fontes, José João, Profª Fransquinha (Francisca Maria de Sousa), Pe. [Manoel] Valdery [da Rocha], 22 de Maio (em referência a criação do distrito) e Domingos Muniz. Em 1987 foi construída a praça central, mas a energia elétrica chegou apenas em 1988, na gestão do prefeito Jonas Muniz. Em 1989, foi inaugurada a primeira escola, hoje Creche Francisco Antônio Costa Moura, além de outra, denominada Escola João Ladislau de Paulo Magalhães (Ceará, 2015, p. 180).

Em 2023, por força da Lei Municipal nº 804, de 18 de agosto, os limites do distrito de Caiçara foram revisados para: Norte: Parque Nacional de Jericoacoara; Sul: propriedades particulares situadas nas localidades de Buriti, Formosa, Caiçara, Córrego da Caiçara e Correguinho; Leste: Terras de Marinha (Oceano Atlântico) e município de Acaraú; Oeste: terras da Diocese de Sobral e Lagoa do Meio.

Esse território é marcado por belezas naturais e recursos hídricos, sendo banhado pela Lagoa da Caiçara (ou da Carnaubeira) e limitado ao norte pelo Oceano Atlântico. Além da vila sede, o distrito engloba diversas comunidades, como Preá, Cavalo Bravo, Formosa, Rancho do Peixe, Córrego das Panelas, Córrego dos Anas, Córrego dos Bentos e Santo Estevão. Entre estas a Vila do Preá e a mais desenvolvida, em função do crescimento da atividade turística.Vila do Preá, 1980.

Entre as manifestações culturais de Caiçara, destacam-se a Festa do Distrito, comemorado dia 22 de maio, desde o ano de 2000, e a Festa do Padroeiro, realizada no terceiro final de semana de setembro. Na sexta-feira da Paixão, os comerciantes não abrem seus estabelecimentos comerciais em respeito ao feriado católico. Muitos também, falam em uma superstição de que "quem pega em dinheiro na quinta-feira à noite ou na sexta-feira santa tem sua vida prejudicada no futuro". Nesse dia, também há uma tradição dos afilhados visitarem seus padrinhos levando bolos, doces, pães e chocolates (Caiçara Notícias, 2013). Caiçara também é conhecida pela produção artesanal de esteiras de junco, cordas e redes de tucum que também eram usadas para currais de pesca no mar.

A Praia do Preá

Preá é o nome popular de uma espécie de roedor, cujo nome científico é Cavia aperea, de ocorrência comum em todo o Vale do Acaraú. Dá nome a uma localidade praiana dentro da área do distrito de Caiçara, nos limites do Parque Nacional de Jericoacoara. Sua origem remonta ao ano de 1953, quando, no dia 10 de agosto, teria se instalado nessa região a família do Sr. Leopoldo Manoel de Medeiros (n. 01/05/1908, f. 12/02/1974), um dos primeiros moradores, vindos das imediações da Vila de Caiçara.

Estátua de Leopoldo Manoel de Medeiros

Era natural da localidade vizinha de Formosa, filho de Francisco Anão de Medeiros e Maria Francisca da Cruz. Casou-se com Maria Madalena Chaves, filha de José Martins Chaves e Francisca Ferreira Chaves, sendo pais de dez filhos. Segundo a tradição, foi o Sr. Leopoldo Medeiros que deu nome Preá ao local. Este foi sucedido por outras famílias, provenientes de comunidades vizinhas como: Cavalo Bravo, Caiçara, Jericoacoara e Formosa, que se mudaram para o Preá nas décadas seguintes.

A comunidade se consolidou como vila de pescadores, tendo a pesca artesanal como atividade econômica central, enquanto as mulheres se dedicavam ao beneficiamento do pescado, ao conserto de redes e à mariscagem. Dentro do território da comunidade existem microtopônimos com origem explicada na tradição local: Baixa Verde, nome derivado de um córrego cujas margens mantinham vegetação verde durante todo o ano, e Rancho do Peixe, denominação originada de um rancho de palha de coqueiro construído pelos pescadores para guardar peixe e material de pesca, servindo de ponto de apoio.

Praia do Preá, 1980

O principal evento cultural da comunidade do Preá é a Festa de São José, comemorada no dia 19 de março. Segundo Dr. Lima, radialista do município de Cruz, a tradição teria começado no início da década de 1970, com uma promessa feita por Dona Creusa, esposa de Manoel Carneiro, pedindo a cura do filho Clodoaldo, então enfermo. Alcançada a graça, Creusa reuniu outras mulheres da comunidade para pagar a promessa, lançando ao mar um barquinho a vela, transportadas em um canoa pelo pescador Manoel Ferreira de Vasconcelos (Pereira, 2023).

No ano seguinte, o empresário da pesca Eliézio Marques deu início aos festejos propriamente ditos, promovendo procissão marítima com a imagem de São José seguida de missa em terra firme, prática que se consolidou como tradição de mais de meio século. As primeiras missas foram celebradas em uma pesqueira, prédio rústico onde os pescadores guardavam seu material de pesca. Com o crescimento da devoção, a comunidade ergueu, em mutirão com apoio de localidades vizinhas, um segundo prédio para abrigar a imagem de São José e sediar eventos comunitários, hoje transformado em centro de artesanato. Posteriormente, padres e lideranças religiosas suspenderam por vários anos os atos religiosos, em razão do comportamento de banhistas que participavam da missa trajados de roupa de banho e, por vezes, embriagados.

José Martins dos Santos, conhecido como Zé Ana, tomou então a iniciativa de construir, com recursos próprios, um templo particular para retomar os festejos, com procissão em terra e mar, missas, novenas, leilões e bingos, ficando a coordenação religiosa a cargo de sua filha Zélia Martins. Com o falecimento de Zé Ana, esse templo particular foi desativado e os festejos passaram a ser realizados na Igreja de São Pedro, erguida em homenagem aos pescadores. Posteriormente, Santino Manoel Martins liderou nova campanha comunitária para a construção da Igreja de São José, iniciada em 2013 sob condução do Pe. Marcone, com colaboração de Josimar Neves, que doou a ferragem, do prefeito Jonas Muniz, que doou as telhas, e do pedreiro Del Marques, do Cajueirinho, responsável pela obra.

Diego Carneiro
02 de agosto de 2026

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. A Costa dos Castelhanos. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 02 de agosto de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/07/a-costa-dos-castelhanos.html

Referências:

ARAÚJO, Nicodemos. O Município de Cruz. Acaraú: Editora Esteves Tiprogresso, 1989.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

BARROSO, Francisco de Andrade. Igrejas do Ceará: crônicas histórico descritivas. Fortaleza, 1999.

CEARÁ. Secretaria do Turismo. Relatório de Impacto Ambiental (RIMA): melhoramento e pavimentação do trecho Entroncamento da CE-085 – Caiçara – Praia do Preá (CE-182), município de Cruz – CE. Fortaleza: Secretaria do Turismo do Estado do Ceará, 2015. Disponível em: https://www.ce.gov.br/setur/wp-content/uploads/sites/73/2012/01/RIMA-ESTRADA-DO-PRE%C3%81-CE-182.pdf. Acesso em: 25 jul. 2026.

CRUZ (CE). Prefeitura Municipal. Plano de Gestão Integrada da Orla Marítima (PGI): município de Cruz – CE. Cruz, CE: Prefeitura Municipal de Cruz, 2024. Disponível em: https://prefeitura.cruz.ce.gov.br/wp-content/uploads/2024/04/PGI-CRUZ-APOS-AUDIENCIA-PUBLICA.pdf. Acesso em: 25 jul. 2026.

LIMA, Dr. A festa do distrito de Caiçara – 22 de maio de 2012. Blog da Folha, 22 maio 2012. Disponível em: https://blogdafolha.blogspot.com/2012/05/festa-do-distrito-de-caicara-22-de-maio.html. Acesso em: 2 ago. 2026.

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