A Cruz da Viúva Joana Correia da Silva

 

Como discutimos em outra postagem, o português Antônio Correia Peixoto obteve em 1736 sesmarias na região litorânea próxima a barra do rio Acaraú. Essas terras, assim como outras obtidas posteriormente integraram a chamada Fazenda Timbaúba, que corresponde a grande parte dos atuais municípios de Cruz e Acaraú.

Em 5 de outubro 1735, sua filha mais velha, Joana Correia da Silva, casou-se no Sítio Castelhano com Manuel Carlos de Vasconcelos, natural da vila de Cabeceiras de Basto, filho de Carlos Manuel de Vasconcelos e Antônia Maria Luísa (Araújo, 2000, p. 206). Quanto ao noivo, ele declarou ter vindo para o Brasil ainda menor de idade, sendo primo legítimo do Capitão Mateus Mendes Vasconcelos, outro tronco dos Vasconcelos na região, ambos netos paterno de Antônio Leite Pereira.

Manuel tinha origem nobre, sendo seu pai fidalgo da Casa Real, conforme alvará expedido em 28 de agosto de 1716, tendo inclusive direito ao recebimento de uma pensão, paga pela coroa, em dinheiro e cevada (Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, f.306 apud Lima, 2016, p. 1683).

O casamento foi realizado pelo Padre Elias Pinto de Azevedo Cura, vigário de Vara do Acaraú, na presença do Padre Agostinho Moura de Castro, vigário da Missão do Acarati-mirm, e teve como testemunhas o Tenente Coronel Manoel Barbosa de Morais e Antônio de Azevedo de Oliveira Meneses (Liv. Cas. Missão Velha, fl. 126v). Ressalta-se que existe uma forte suspeita de que o Coronel Barbosa de Morais, testemunha e dono do sítio onde foi realizado a cerimônia, seja, na verdade avô materno de Joana (Albuquerque, 2009, p. 41).

O casal, considerado "Matriz do Vasconcelos" na região, recebeu como dote pelo casamento as terras da Fazenda Cruz, no atual município do mesmo nome, onde deixaram grande descendência (Araújo, 2000, p. 206). Conforme a memorialista Elizabeth Albuquerque, a casa de Joana Correia ficava no local onde hoje é "esquina da Av. Tenente Albano com a Rua Vicente Justa(Albuquerque, 2009, p. 39).

A presença de Joana Correia da Silva nos primórdios da região atravessou os séculos por meio da tradição oral, segundo a qual se tratava "da viúva de um Português que chegou ao povoado de Cruz por volta do fim do Século XVIII(Albuquerque, 2009, p. 37). Segundo nos informa Nicodemos Araújo:

(...) reza a tradição, [que] outro ramo da Família Silveira deriva da viúva portuguesa, Joana Correia da Silva, a qual, no ano de 1750, desembarcou no porto de Cacimbas. Em 1760 conseguiu uma sesmaria que lhe foi concedida por Sua Majestade, Dona Maria I. Mencionada sesmaria localizava-se no território do hoje Município de Cruz, media duas léguas e “compreendia desde o lugar Porteiras até o Marco (Araújo, 1989, p. 35).

Como demonstrado anteriormente, essa tradição mostrou-se equivocada, sendo que Joana é muito provavelmente cearense e já estava na região antes do período apontado. A referida Sesmaria, atribuída a Joana pelo memorialista, encontra-se dentro dos limites daquela obtida por seu pai, Antônio Correia Peixoto, mencionada anteriormente. Isso reforça a ideia de que esse imenso lote de terra foi legado por Joana e seu esposo.

Sesmaria de Antônio Correia Peixoto e casa de Joana Correia da Silva (sede da Fazenda Cruz).

Quanto ao fato dela ser viúva, sabe-se que Manuel Carlos de Vasconcelos faleceu em 27 de janeiro de 1758, com apenas 43 anos de idade. Apesar de não sabermos exatamente as datas de nascimento e falecimento de Joana, é plausível que fosse mais nova que Manuel e considerando que a expectativa média de vida das mulheres é superior a dos homens, ela deve ter vivido por certo período após a morte de seu marido.

Descendência de Manuel Carlos de Vasconcelos e Joana Correia da Silva

O casal teve ao todo oito filhos (Lima, 2016, p. 1684-1685):

1. João Pereira de Vasconcelos casou-se a 22 de fevereiro de 1773, na Fazenda da Tapera, Freguesia de Sobral, com Maria Marques, filha de Antônio da Costa Leitão e de Maria Barbosa dos Santos. Neta paterna do Sargento Mor Antônio Marques Leitão e de Apolônia da Costa. Neta materna de Domingos Rodrigues Peniche e de Inês Barbosa Pimentel;

2. José Carlos de Vasconcelos casou-se a 09 de dezembro de 1776, de manhã, na Igreja Matriz de N. Senhora da Conceição da Vila de Sobral, com Rosa Santiago de Jesus, viúva de Antônio da Costa Paixão, e filha de Sebastião Barbosa de Moraes e de Ana de Santiago, naturais da Fortaleza do Ceará. Testemunhas: Felipe Tavares de Brito, André José Moreira Cavalcante e Eugênio José de Abreu, solteiro;

3. Ana Maria Leite de Araújo casou-se a 16 de novembro de 1778, de manhã, na Fazenda da Cruz, com Antônio Pereira Dutra, filho de João da Silveira Dutra, n. Açores, e de Maria Soares. Neto materno de Caetano Soares Monteiro e de Luíza Ferreira Fonteles. Presentes, o Padre Manoel Álvares de Faria Pinto, as testemunhas, Faustino Correia da Costa, Antônio de Araújo Costa, Francisco Antônio de Faria, e mais pessoas conhecidas;

4. Francisco Xavier de Vasconcelos casou-se a 28 de abril de 1780, (mil setecentos e oitenta), de manhã, na Fazenda do Olho d’Água do Chora, Freguesia de Sobral, com Inácia da Silveira Dutra, filha de João da Silveira Dutra, n. Ilha do Faial, Açores, e de sua primeira mulher Maria Soares, n. no Acaraú. Presentes, o Padre Inácio Gonçalves da Silva, as testemunhas, o Tenente Coronel Vicente Ferreira da Ponte, o Sargento Mor Manoel Francisco de Vasconcelos, e demais pessoas conhecidas;

5. Antônia Correia de Vasconcelos casou-se a 1º de setembro de 1781, de manhã, nas Oficinas, (Acaraú,), com Manoel Rodrigues de Souza, n. na Freguesia da Amontada, filho de Manoel Rodrigues Peixoto, da Ilha da Madeira, e de Úrsula de Souza Barbosa, da Freguesia da Amontada. Presentes as testemunhas, Vicente da Silva Fialho, José de Souza Pereira, solteiros, e mais pessoas conhecidas;

6. Francisca Rodrigues casou-se a 14 de abril de 1782, de manhã, na Capela de Santa Cruz d’Água das Velhas, com Manoel Gomes da Cruz, filho de Simplício Gomes e de Feliciana Ferreira;

7. Manoel Pereira de Vasconcelos casou-se a 19 de outubro de 1765, de manhã, na Capela da Santa Cruz, Bela Cruz, Ceará, com Ana Maria da Conceição, filha de Damaso Vieira Passos e de Rita Teresa de Jesus. Neta paterna de João Vieira Passos e de Maria de Jesus. O Padre Antônio Tomás da Serra, presidiu à cerimônia religiosa de casamento, e foram testemunhas, o Capitão Antônio Álvares Linhares, e o Tenente José de Araújo Costa, casados;

8. Maria Teresa de Jesus casou-se a 07 de outubro de 1782, de manhã, na Fazenda da Cruz, Freguesia de Sobral, com o viúvo de Isabel Tavares, Manoel Carneiro da Cunha,n. em Olinda, Pernambuco, morou em Santa Cruz, Bela Cruz e em Granja, Ceará, filho de Antônio Aires de Moraes e de D. Isabel Carneiro da Cunha, naturais de Ipojuca, Pernambuco. Presentes, o Padre Manoel Álvares de Faria Pinto, as testemunhas, Vicente da Silva Fialho, solteiro, Francisco Carneiro da Cunha, casado (com D. Quitéria Josefa da Encarnação), e mais pessoas conhecidas.


O porque da "Cruz"

A adoção do topônimo Cruz remonta a meados do século XVIII, e remete a um cruzeiro de aroeira que indicava a presença de uma sepultura próxima a lagoa na sede da fazenda. Não se sabe ao certo quem estaria enterrado no local, sendo uma das versões, de que se tratava de um retirante que fugia da seca de 1725. Outra versão sugere que a cruz teria sido posta com o fim de indicar o lugar em que ocorrera um assassinato por motivos familiares (Girão, 1983, p. 266).

Segundo a memorialista Elisabeth Albuquerque, o enredo do trágico acontecimento teria iniciado em uma Fazenda da Parnaíba, onde um rapaz de nome Renato (ou Edmundo), originário de Pernambuco, teria se arranchado e depois se empregado por algum tempo. O jovem teria então se engajado em um romance secreto com a filha do dono da fazenda, que acabou ficando grávida. Temendo a reação do pai da moça, Renato teria debandado do local.

Quatro dias após o desaparecimento do empregado, o Fazendeiro tomou conhecimento da "tragédia", e, juntamente com seus filhos saiu a procura do fugitivo. Ao longo da estrada conseguiram informações de que Renato havia passado por Jericoacoara, indo se refugiar  na localidade de Cajueirinho, no atual município de Cruz. Lá uma família teria dado guarita ao rapaz, que passara a noite sob um pequeno cajueiro, o que motivou o referido topônimo (Albuquerque, 2009, p. 31).

Munido dessas informações, o pai da moça teria perseguido Renato até região da Lagoa do Escondido, atual Lagoa da Cruz, onde o executa, deixando para traz o corpo do rapaz. Compadecida, a população enterra o pobre infeliz, marcando a cova com o dito cruzeiro, que passa a ser referência para quem passa no local. Assevera a tradição que o rapaz teria passado três dias no povoado antes do ocorrido, tendo nesse interim prestado serviços aos moradores Antônio Carlos de Vasconcelos (neto de Joana Correia), seu cunhado Francisco Teixeira Pinto e ao Capitão Theotónio, filho deste último. Isso teria acontecido por volta de 1840 (Albuquerque, 2009, p. 32).

Elisabeth traz ainda mais detalhes:

"... o fazendeiro e seus filhos teriam passado na casa dos citados senhores á procura do fugitivo, sendo informados que ele já havia saído, há pouco tempo, para a Barra do Acaracú (hoje Acaraú). Eles saem encontram Renato, ou Edmundo, e o matam. Em seguida, os criminosos teriam retornado á casa do Capitão Theotónio, comunicado o fato e pedido que este providenciasse o enterro. Nesse momento, diz a história em foco, o capitáo Thetónio preparou-se para prendê-los; mas, o pai da “moça desonrada” tinha uma patente igual a sua. Assim ele teria se limitado a pedir explicações, e registrar a ocorrência na qualidade de autoridade local. Depois, juntamente com os moradores da comunidade providenciou o enterro da vítima" (Albuquerque, 2009, p. 32).

Não se sabe ao certo o que aconteceu com a dita cruz, mas existem relatos de que pelo menos até 1942 ela se encontrava no local descrito, conforme testemunham os mais antigos moradores. Já quanto a data dos eventos mencionados, na Cronologia Sobralense, de Pe. Sadoc Araújo, a menção mais antiga a essa fazenda é o já mencionado casamento de Ana Maria Leite, que ocorreu em 16 de novembro de 1776. Portanto, pode-se inferir que essa denominação já era utilizada pelo menos desde esse período. Esse topônimo também aparece na solicitação de sesmaria do Capitão Diogo Lopes de Araújo, datada de 1817 (Sesmarias, Vol. 9, nº 728, p. 59). Ademais, um vez que Antônio Carlos Vasconcelos nasceu apenas em 18 de junho de 1790, se ele foi o protagonista da história, não foi esta que motivou a denominação do local.

Portanto, resta a outra hipótese, apontada por Nicodemos Araújo e citada por Raimundo Girão com sendo a mais aceita, de que se tratava do túmulo de um retirante de seca de 1725. Um trecho do livro Município de Sant'Anna traz uma descrição desse evento: 

A seca de 1725, que durou 04 anos, assolando quase todo o Norte do Brasil, se fez sentir no Ceará de um modo fatalíssimo aos seus habitantes, pela completa escassez de gêneros alimentícios e mortalidade dos seus gados. Esse fato deu lugar a emigrações, sucedendo que muitas famílias se viram obrigadas a refugiarem-se na Ibiapaba e outras serras, afim de se furtarem aos rigores do cruel flagelo (Município de Sant'Anna, 1926, p. 44).

Essa hipótese é de mais difícil verificação, mas é fato que nessa época a região deveria ser pouquíssimo habitada por europeus, a própria sesmaria do pai de Joana só foi concedida mais de dez anos depois, 1736.

Diego Carneiro

14 de fevereiro de 2026

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. A Cruz da Viúva Joana Correia da Silva. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 14 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/10/a-cruz-da-viuva-joana-correia-da-silva.html

Referências

ALBUQUERQUE, Maria Elizabeth. Era uma vez na Cruz: Genealogia da Família Cruz. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2009.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

ARAÚJO, Nicodemos. O Município de Cruz. Acaraú: Editora Esteves Tiprogresso, 1989.  

GIRÃO, Raimundo. Os municípios cearenses e seus distritos. Estado do Ceará, Secretaria de Planejamento e Coordenação, Superintendência do Desenvolvimento do Estado do Ceará, Departamento de Recursos Naturais, 1983.

LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2016.

O Município de Sant'Anna: um pouco de histórico sobre o Ceará de 1608 a 1738. Santana do Acaraú: Pap. e Typ. Correio da Semana, 1926.

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