O objetivo desse artigo é trazer algumas informações de interesse histórico sobre a Vila de Aranaú e, ao menos uma parte de suas diversas localidades. Para tanto, utilizei extensamente o conteúdo trazido no Blog Derson.Net, administrado pelo memorialista local Manoel Derson de Sousa, que registra a tradição oral, trazendo ricos detalhes da formação de várias pequenas comunidades dessa região. Assim, seguindo o fio narrativo do autor, busquei apenas organizar esse conhecimento num formato mais acadêmico e confrontar, quando possível com fontes documentais mais tangíveis, de modo a obter uma narrativa consistente.
Origem Colonial
A Vila de Aranaú, em Acaraú, sede do distrito de mesmo nome, tem sua origem colonial ligada a Fazenda Timbaúba, cujo primeiro registro aponta para a propriedade do Comissário Domingos de Aguiar e Oliveira. Como já tratamos em outra postagem, essas terras e outras anexas, obtidas por sesmaria, foram adquiridas por Antônio Correia Peixoto ainda na primeira metade do século XVIII. Consta no seu inventário as seguintes propriedades: "Três quarto de légua de terra nesta fazenda da Timbaúba ou que nela se acharem com suas benfeitorias de casas de palha e coqueiros avaliada em 100$000; Três léguas de terra do Córrego do Falcão avaliada em 40$000" (Souza, 2015, p. 123). Após sua morte essa propriedade foi repartida entre seus herdeiros.
Uma das filhas do sesmeiro, Joana Correia da Silva, casou-se com o português Manoel Carlos de Vasconcelos e foram morar na Fazenda Cruz, cuja sede originou o município homônimo. Ela declarou a Câmara de Sobral em 1788 ser proprietária de "três léguas de terra de cumprido nas margens do mesmo rio [Acaraú] por uma só banda que principia nas testadas do Alferes Francisco Antônio [Linhares] e lindão com a pancada do mar" (Frota, 1974, p. 397). Francisco Antônio Linhares era proprietário da Fazenda Tapera, localizada entre os atuais municípios de Bela Cruz e Acaraú.
Ressalta-se que essa propriedade integrava originalmente a sesmaria do Coronel João Pereira de Veras e de Thereza de Jesus, recebia da 1 de julho de 1705, com a seguinte descrição: "no rio Acaraú, do mar, pelo rio acima até o primeiro provido e ilhargas dos providos pelo dito rio acima até o ultimo provido no dito rio e por ele acima as légoas que na verdade se acharem" (Sesmarias, Vol 1, nº 44, p. 108). No processo de demarcação movido em 1930 por Urbano José da Silveira e sua mulher, faz-se referência a essa sesmaria, tendo como limites a localidade de "Porteira Velha", ao norte, até o "Marco do Guarda" (APEC, Acaraú, Demarcações de Terra, 1930, Caixa 1, Proc. 8, fl. 2).
Segundo Nicodemos Araújo, essa sesmaria teria sido dada a Joana Correia da Silva em 1760 (Araújo, 1971, p. 51), mas não consegui apurar a fonte dessa afirmação. Entretanto, tenho uma hipótese de que Manoel Carlos de Vasconcelos possa ser, na verdade, parente de João Pereira Veras. Essa suspeita se baseia, além da localização da propriedade, no fato do pai de Manoel Carlos, Antônio Leite Pereira, compartilhar o sobrenome Pereira com o sesmeiro. Mas trata-se apenas de especulação que ainda precisa ser confirmada documentalmente.
Outra filha de Antônio Correia Peixoto, Custódia Correia do Espírito Santo, declarou, em 1788, ser proprietária da Fazenda Timbaúba, com a seguinte descrição: "Quatrocentas e cinquenta braças de terra de cumprido nas margens do rio Acaraú com meya légua de largo que principia nas testadas com terras da Cruz e findam com terra do Castelhano" (Frota, 1974, p. 131). Custódia casou-se com o açoriano, natural de São Miguel, José Pereira de Almeida, filho de Matias Pereira e Ana Maria Durão, em 14 de setembro de 1767 (Lima, 2016, p. 1487). Apesar de não haver descendência conhecida, é possível que esse casal tenha originado a família Pereira, bastante numerosa nessa região.
Na mesma declaração José da Costa Resplandes, genro de Antônio Correia Peixoto, também se declarou proprietário da Fazenda Timbaúba, com a seguinte descrição: "Duzentas braças de terra de cumprido no dito sítio que principia e finda com terras dos herdeiros da defunta Maria da Silva Morais" (Frota, 1974, p. 636). Maria da Silva de Morais era outra filha de Antônio Correia Peixoto, casada com o Alferes Manoel de Morais Valcácer, dono do Sítio Várzea Feia em Bela Cruz.
Sabe-se também que um dos netos de Antônio Correia Peixoto, o Capitão Atanásio de Verçosa da Silva, filho de Antônia Correia da Silva e João Batista Verçosa, foi um dos primeiros moradores da região da Lagoa dos Tanques, localizada a menos de quatro quilômetros de Aranaú. Portanto, é provável que essas terras tenham sido legadas de seus pais. Esses foram os troncos de grande parte das famílias que povoaram a margem oeste da foz do Rio Acaraú.
Formação Política
Segundo Nicodemos Araújo, o nome Timbaúba se deveu ao fato de existir, antigamente, no local onde hoje se localiza o centro da vila, uma enorme Timbaúba (Enterolobium contortisiliquum), leguminosa cuja madeira porosa e leve, era utilizada na fabricação de jangadas, balsas, etc. A sombra dessa frondosa árvore teria sido rancho preferido pelos comboieiros que traziam rapadura da Serra Grande, para venda naquela praia, e dali voltavam com as cargas abarrotadas de peixe seco (Araújo, 1971, p. 315).
O distrito foi criado com a denominação Timbaúba pela Lei Municipal nº 94, de 29 de junho de 1923, com os seguintes limites:
Ao Nascente, o distrito de Acaraú, desde do ponto onde desagua o riacho Canema até o mar. Ao Norte, o oceano, desde a extrema com o distrito de Acaraú, até a foz do riacho da Prata, no mar. Ao Sul, o distrito de Bela Cruz, começando na foz do riacho Canema, no rio Acaraú, e seguindo em linha reta, para a Lagoa de Baixo; continua por outra reta até a Lagoa dos Caboclos. Ao Poente, o distrito de Jericoacoara; começa na Lagoa dos Caboclos, vai à nascente do Córrego de Dentro, e daí ao riacho da Prata, no ponto onde incide a linha reta tirada da Lagoa dos Caboclos.
O topônimo atual foi dado pelo Decreto-Lei n.º 448, de 20 de dezembro de 1938. A palavra Aranaú (arana = aranha + hú = rio), de origem tupi, pode significar algo como rio das aranhas, ou, alternativamente, araná = um tipo de peixe + y = rio, formando rio dos Aranás. O nome veio da conhecida Barra do Aranaú, gamboa formada pelo despejo do Córrego do Falcão no oceano. No mesmo ano, por determinação do Decreto Federal nº 311, de 2 de março de 1938, o povoado de Aranaú, enquanto sede distrital, foi elevada a condição de Vila.
Com a criação do distrito de Cruz, pela Lei Estadual nº 4.440, de 30 de dezembro de 1958 teve seus limites alterados para
Ao Norte, o oceano, desde o travessão de José Júlio Lousada, em "Formosa", até o Rio Acaraú. A Leste, mesmo rio, até o lugar "Porteiras". Ao Sul, o travessão que divide as terras de Benedito Magalhães de Farias e João Evangelista de Farias, até alcançar o travessão das Ilhargas de Cruz, de onde ruma para Lagoa de Baixo, passando próximo à residência de Miguel Fonteles da Silveira. Prosseguindo, vai ao Córrego de Dentro, passando próximo à morada de Ramiro Mendes de Sousa, e daí ao Poço Doce, pela fazenda de Francisco Luiz da Silveira e Fazenda Santo Estêvão, até à residência de José Júlio Lousada. Ao Oeste, pelo travessão de José Júlio Lousada, até o mar.
Pela Lei Municipal nº 451, de 30 de outubro de 1969, a Vila de Aranaú possuía os seguintes limites:
Ao Nascente, partindo da casa residencial de José Antônio de Menezes, ao Norte, até á residência de Manoel Messias Fonteles; ao Sul, desde a citada residência de Manoel Messias Fonteles, até á casa de Rafael Expedito de Meneses, prosseguindo, ao Poente, até a residência de Cícero Cabral. Dessa casa continua, em reta, até a casa residencial de José Antônio de Meneses, já mencionada.
A Lei Municipal nº 911, de 7 de maio de 1999, alterou os limites de Aranaú, que passaram a ser:
Pelo lado Norte, inicia a partir do Oceano Atlântico. Lado Sul, inicia as margens Esquerda da Lagoa do Mato, indo até a residência do Senhor Sebastião Marques, daí segue em linha reta imaginária até a residência do Sr. José Odilon, segue em reta imaginária da residência do Sr. José Odilon até a residência do Senhor Odilon [Pereira] Brandão. Lado Leste, inicia na residência do Sr. Odilon Brandão, seguindo em linha imaginária, até a residência do Sr. Samuel. Seguindo pelo lado Norte até a estrada Aranaú/Barrinha de Cima, até a residência da Dona Paizinha. Daí segue em linha reta imaginária até Oceano Atlântico. Lado Oeste, a partir do Oceano Atlântico, seguindo ao Sul pelo Travessão dos Tomás e Justino, até a Lagoa do Mato.
Já a denominação das ruas foi atualizada pela Lei Municipal nº 1.126, de 3 de outubro de 2005:
Francisco Ramos Filho, José Pereira Dutra, José Aires Medeiros, Odilon Pereira Brandão, Higino Sousa Brandão, Manoel Vicente de Sousa, José Boaventura Nascimento, Sabino Raimundo de Araújo (Sabino Lúcio), Raimundo Higino Brandão, Rafael Expedito de Meneses, Frutuoso José Vasconcelos, João Batista Araújo, Benevenuto Meton Meneses, Tereza Jardélia Araújo, Eduardo Pereira Muniz, Francisco Salgueiro Filho, Miguel Arcanjo Meneses, Damiana Maria Brandão, Rafael Pereira Brandão, José Pereira Muniz, José Nelson Brandão, Aurila Aires Brandão, Maria Roque Araújo, José Pereira Brandão, João [Batista] Miranda, Joaquim José, Manoel Miguel da Silveira, Rozendo Brandão Araújo, Manoel Raimundo Nascimento.
Observa-se desses antrotopônimos a persistência dos sobrenomes Pereira e Brandão, cujo patriarca é identificado como sendo João Pereira Brandão, cuja trajetória analisaremos a seguir.
João Pereira Brandão
Segundo a tradição oral, colhida pelo memorialista Derson Sousa, João Pereira Brandão figura entre os principais personagens da formação histórica de Aranaú. Nasceu por volta de 1810 em Acaraú, sendo filho "de uma mulher acarauense e de um português". Conforme essa narrativa, sua mãe era irmã da esposa de Vincenzo Giffoni, italiano radicado no Acaraú (Araújo, 1971, p. 31). A partir dessas informações, conclui-se que seus pais biológicos poderiam ser José Domingues Regadas Filho, natural de Vila Nova de Gaia, Porto, Portugal, e Joana Maria Brandão Rodrigues.
Entretanto, conforme apurou a pesquisadora Elizabeth Albuquerque, há também a suspeita de que ele seria filho de mãe solteira, tendo o dito Português evadido-se da responsabilidade de criá-lo (Albuquerque, 2009, p. 101). Dessa forma, ainda criança, João teria sido abandonado durante a madrugada nas proximidades da residência do Capitão Atanázio de Verçosa Silva, então único morador da Lagoa dos Tanques, também no distrito de Aranaú.
João Pereira Brandão viveu em Lagoa dos Tanques desde a infância até a vida adulta. Casou-se inicialmente com Inácia Maria da Purificação, natural de Lagoa Salgada, filha de Cipriano José de Sousa e Rita Maria de Jesus, em 6 de setembro de 1831. Após ficar viúvo, contraiu novo matrimônio com Maria Madalena das Virgens, natural do Rio Grande do Norte, filha de Alexandre Pereira Muniz e Joaquina Maria da Conceição. Os dois casamentos deram ao patriarca um grande número de filhos, que deram origem a diversos ramos familiares que se estabeleceram em Aranaú e em localidades vizinhas.
Em 15 de fevereiro de 1857, João Pereira Brandão declarou possuir "duas posses de terras... nas terras da Timbaúba a Falcão, cujas posses de terras houve por compras cujos ignoram-se suas extremas" (Livro de Registro de Terras da Freguesia da Barra do Acaraú 1855-1857, Vol. 1, nº 480, fl. 76). Essa terras foram objeto de partilha, realizada em 1886 (APEC, Acaraú, Partilhas, 1886, Pac. 3, Proc. 30).
Consta em seu inventário, aberto em 21 de março de 1888, as seguintes propriedades: "Noventa e três braças de terra no lugar denominado Timbaúba e Falcão [...]; duzentas braças de terra no lugar denominado Castelhano [...]; uma casa de taipa coberta de telhas nas terras da Timbaúba" (APEC, Acaraú, Inventários, 1888, Pac. 18, Proc. 20-A, fl. 13). Essas terras já aparecem no inventário de Maria da Purificação, aberto em 20 de julho 1858, com o tamanho de "quatrocentos e noventa braças de largura e uma légua de fundo... a qual extrema pelo lado dos fundos com terras do Capitão Manoel Pinto Brandão, cujas terras o inventariado comprou a João de Araújo Costa e do filho, Benvinuto de Araújo Costa" (APEC, Acaraú, Inventários, 1858, Pac. 8, Proc. 16, fls.7 e 8). João de Araújo Costa era filho do Capitão Diogo Lopes de Araújo Costa e essas terras provavelmente compreendiam a sesmaria deste no Riacho da Prata.
O filho primogênito, Canuto Aires Brandão, casou-se com Francisca Dionizia de Maria, irmã de sua madrasta, em 12 de novembro de 1862, sendo apontado como o tronco da família Canuto, amplamente conhecida na região. Outra filha, Maria Inácia Brandão, uniu-se a José Antônio de Araújo, filho de Antônio José de Araújo e Rita Maria de Jesus, em 17 de outubro de 1865, dando origem a um dos ramos da tradicional família Araújo de Aranaú. Rafael Brandão, por sua vez, casou-se três vezes, constituindo outro importante núcleo familiar da comunidade. Dessa forma, grande parte das famílias Brandão, Canuto e Araújo estabelecidas em Aranaú, descende diretamente de João Pereira Brandão.
Além dessas, a tradição oral também registra outras famílias que participaram da formação do povoado, entre elas os Cunha, oriundos de Itapipoca, e os Pia, provenientes da localidade de Coroa Grande. Entre 1855 e 1857, declararam possuir terras na Timbaúba: João Bento de Araújo Costa, Manoel do Ó de Freitas, Albano José da Silveira, Manoel Gregório do Nascimento, José Luís de Freitas, Antônio Teixeira Pinto, José Ferreira dos Santos, Vicente José Teixeira, Vicente Marques de Sousa, João Pereira Brandão, Antônio Marques da Rocha, Francisca Teresa (Livro de Registro de Terras da Freguesia da Barra do Acaraú 1855-1857).
Já no Censo Agropecuário de 1920, constam os proprietários: Raymundo Pereira Brandão, José Gregório de Vasconcellos, João da Cunha Araújo, Antidouro M. de Souza, Raphael Pereira Brandão.
A Capela de São João Batista
Em 1888, pouco antes de morrer, João Pereira Brandão, juntamente com outros habitantes da localidade, promoveu a construção de uma capela, consagrada a São João Batista, padroeiro de Aranaú. A obra teria se dado em regime de mutirão, reunindo o trabalho voluntário dos moradores, que transportavam materiais de construção, como tijolos, madeira, barro e telhas, muitas vezes durante a noite. O pequeno templo tornou-se o principal centro das celebrações religiosas e da vida comunitária, atendendo, inclusive, as localidades vizinhas. O patrimônio da igreja teve origem na doação de uma área de 100 braças em quadro realizada pelo próprio João Pereira Brandão, onde hoje localiza-se o quadro da Vila.
Existe uma menção expressa a capela no inventário de João Pereira Brandão: "Declarou haver um oratório com uma imagem de Christo e dois, digo, um quadro que foi avaliado por dez mil réis" (APEC, Acaraú, Inventários, 1888, Pac. 18, Proc. 20-A, fl. 14).
Esse patrimônio foi posteriormente ampliado com outras doações de terras feitas pelos moradores. Com registro n.º 3.521, datado de 24 de fevereiro de 1938, o sr. Minervino José de Vasconcelos fez doação ao mesmo padroeiro, de 31 braças de terra, com uma légua de fundos. Igualmente, a 28 de fevereiro de 1938, dona Maria José de Vasconcelos doou ao mesmo santo, 22 braças e meia de terra, também com uma légua de fundos, e cujo registro, em Cartório, tomou o n.º 3.526. Outra dádiva de 30 metros de terra, "com os fundos que se achar", foi feita por Joaquim José Brandão, a 8 de setembro de 1955, com registro n.º 4.147 (Araújo, 1971, p. 316).
Em 1922, foi realizada uma significativa reforma e ampliação, financiada por meio de leilões, quermesses e subscrições populares, iniciativas organizadas por lideranças locais como João Batista Cruz, Miguel Miranda Monteiro e Raimundo José Brandão. Em 10 de setembro de 1925, a capela recebeu nova bênção, celebrada pelo padre Francisco Arakem da Frota. Ainda em 1922, foi adquirida também a Casa Paroquial de Aranaú, pelo preço de 1:700.000 (um conto e setecentos mil), da firma Frota & Gentil, de Sobral, que a recebera do comerciante Miguel Miranda Monteiro, em transação comercial.
Outro marco importante ocorreu em 10 de novembro de 1966, quando o distrito recebeu a visita pastoral de Dom Manoel Edmilson Cruz, primeiro bispo natural de Aranaú e Acaraú, acontecimento que mobilizou grande participação da comunidade. Em 1995, a chegada de três religiosas reforçou as atividades pastorais e contribuiu para a expansão da atuação da Igreja Católica no distrito.
A partir da segunda metade do século XX observa-se a diversificação do cenário religioso local. Em 1960 foi introduzida em Aranaú a Igreja Bíblica, cujos primeiros cultos ocorreram na residência de Igino Santos Brandão, reunindo inicialmente cerca de doze participantes. Em 1973 foi inaugurado o templo da denominação, favorecendo o crescimento do número de fiéis. Seu primeiro pastor foi Geraldo Beje, que permaneceu à frente da congregação durante aproximadamente uma década.
O Morgado
Morgado é uma das localidades de ocupação mais antiga da região, chegando a possuir uma capela antes mesmo da instalação da Vila de Aranaú. Segundo Nicodemos Araújo:
O marco inicial da vida religiosa do distrito de Aranaú, foi uma capelinha, construída de alvenaria, no lugar "Morgado", no amanhecer do século XIX, pelo colono português Valério Vaz de Maria [ou do Nascimento], e consagrada à Nossa Senhora da Conceição. Naquele humilde templo tiveram lugar concorridas festividades religiosas (Araújo, 1971, p. 316).
Essa informação é complementada pelo memorialista local Derson Sousa, que situa a instituição da capela no ano de 1825. A imagem de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da comunidade até hoje, teria sido trazida de Portugal, ornada com uma coroa de ouro. No ano seguinte, 1826, o mesmo colono instituiu o primeiro cemitério do distrito, situado no alto do Morgado, a 200 metros da igreja. Segundo a tradição oral, pela capela passaram celebrantes e missionários como o padre Antônio Xavier, o padre Antônio Tomaz, Frei Ibiapina e Frei Vidal.
Não se sabe exatamente a origem do topônimo Morgado, mas esse termo remete a uma antiga instituição jurídica e patrimonial muito comum em Portugal e em seus domínios durante o período colonial, criada para garantir que uma propriedade rural, seus bens permanecessem íntegros ao longo das gerações. Pelo regime do morgadio, o patrimônio não podia ser dividido, vendido ou hipotecado, sendo transmitido, em regra, ao filho primogênito ou ao herdeiro previamente determinado pelo instituidor. No Brasil, foram abolidos após a independência, pela Lei nº 57, de 6 de outubro de 1835, do período regencial. Dessa forma, é possível que a denominação do lugar tenha alguma relação com essa tradição.
Sobre Valério Vaz, sabe-se que faleceu em 20 de agosto de 1891, em Morgado, e que era casado com Serafina Maria de Jesus, possuindo dez filhos conhecidos. Os bens do casal foram repartidos entre os herdeiros em arrolamento, aberto em Acaraú, a 13 de novembro de 1931, constando a seguinte propriedade:
Um corpo de terra com trezentas e oitenta braças de largura e uma posse amesca com uma légua de fundos no lugar Emburaninha, também conhecido por Morgado, deste termo, cuja terra reunida com vinte braças hoje pertencentes a Manoel José de Araújo, em seu todo (quatrocentas braças) se limita ao nascente com a boco da Barra do Aranahú, ao poente com terras de José Francisco do Nascimento, ao norte com terrenos de Marinha e ao sul, onde der a légua de fundos, havido em maior quantidade pelo falecido Valério Vaz do Nascimento por compra a D. Francisca Thomázia de Veras, conforme escritura particular e pública devidamente registrada no Cartório de Imóveis deste Termo, sob nº 2227 e a posse por compra a Custódio Archanjo Soares, que estima as trezentas e oitenta braças e a posse tendo por 3:800$000 (três contos e oitocentos mil réis) (APEC, Acaraú, Arrolamentos, 1931, PAC 6, PROC 29, fl. 28)
Quanto a D. Francisca Thomázia de Veras, esta era esposa de Manoel Pinto Brandão, sendo estes grandes proprietários de terras, como abordado em outra postagem.
A ascendência de Valério Vaz é completamente ignorada. Entretanto, sabe-se que o sobrenome Vaz dessa região veio do pernambucano Manoel Vaz Carrasco, que é lembrado como pai das sete irmãs. Entretanto, Carrasco também teve um filho homem, chamado Manoel Vaz da Silva que, por sua vez, teve outro filho de mesmo nome, cuja descendência é desconhecida. Manoel Vaz da Silva (filho) casou-se com Rosa Maria da Soledade, filha de Feliciano Gomes e Ana Gomes da Soledade, em 9 de janeiro de 1778. Em 15 de março de 1856, um tal de Manoel Pereira de Vaz, talvez parente de Manoel Vaz, declarou possuir duas posses terra que couberam por herança e compra dentro das duas léguas da Cruz (Livro de Registro de Terras da Freguesia da Barra do Acaraú 1855-1857, Vol. 1, nº 171, fl. 27).
De volta a Morgado, ainda segundo Derson, após a morte de Valério, a capela deixou de receber os cuidados anteriores e desabou em 1924; imagem e sino foram então guardados na residência de João Antônio de Maria, neto do fundador. Em maio de 1954, a pedido do padre Antônio Tomaz, Luiz Pedro do Nascimento e seu pai André Antônio do Nascimento levaram ambos os objetos a Aranaú, entregando-os a Mons. Sabino Feijão, a época pároco de Acaraú, com destino a Sobral para restauro; segundo a tradição local, a imagem permanece até hoje no museu diocesano de Sobral (Sousa, 2010a).
A reorganização religiosa da localidade ocorreu a partir de uma reunião convocada em 27 de maio de 1972 por Manoel Custódio, dirigente da comunidade de Lagoa da Volta, e por José Nóbio, da diocese de Sobral, resultando na fundação, em 1973, da nova comunidade de Morgado, vinculada à paróquia de Cruz, sob a direção de Luiz Pedro do Nascimento e Raimundo José de Araújo. Em 1976 construiu-se o salão comunitário; em 1988 Francisco José Moraes passou a integrar a liturgia ao lado de Luiz Pedro, assumindo a direção da comunidade em 1994. Em 1997, com apoio de comunidades vizinhas, foi erguida nova capela, com capacidade para 200 pessoas, sob os párocos Manoel Valderi da Rocha e, posteriormente, Monsenhor Assis Rocha, à frente da paróquia de Aranaú (Sousa, 2010a).
Sobre o isolamento econômico, o depoimento de um dos moradores da região vizinha de Lagoa do Mato, sem precisar a data, nos esclarece como funcionavam as compras feitas no Acaraú:
O comércio funcionava de forma muito mais difícil do que hoje. As pessoas vendiam e compravam seus produtos na cidade de Acaraú, embora, naquela época, ainda não existisse transporte motorizado. Elas saíam de madrugada, algumas montadas em seus animais e outras a pé, pois nem todos possuíam um bom cavalo. Levavam para vender ovos, farinha, goma, feijão, castanha e outros produtos da agricultura. Em troca, compravam açúcar, café, sabão, óleo, ferramentas e outros itens de que necessitavam. Após concluírem seus negócios, muitas vezes precisavam esperar a maré baixar para conseguir atravessar o rio e retornar para casa (Sousa, 2010c).
A instrução na comunidade teve início ainda com Valério Vaz de Maria, no princípio do século XIX, sendo continuada por seus filhos e por professores como André Antônio do Nascimento, Rita Marques do Nascimento, Geralda Marques da Costa, Maria José de Freitas, Maria Livramento de Freitas, Celeste Marques de Freitas, Francisco José Moraes, Maria Ivone Moraes, Maria Climene do Nascimento, Maria Vilanir Moraes, Gorete Marques Freitas, Toninho Manoel do Nascimento, Maria Raimunda do Nascimento Araújo, Francisco Lino do Nascimento e Maria Socorro Moraes (Sousa, 2010a).
Em termos de infraestrutura, a estrada que liga Morgado ao restante do município foi construída apenas em 1985, na administração do prefeito conhecido como Joãozinho; o colégio municipal foi iniciado na mesma gestão e concluído na administração do prefeito Aníbal Gomes; o poço profundo com chafariz foi obra do governo municipal de Francisco José Magalhães Silveira. Em 1995, Joãozinho promoveu reuniões que incentivaram a criação da associação de moradores, formalmente fundada em 6 de janeiro de 1996 com o objetivo de unir a comunidade e viabilizar projetos junto aos governos municipal, estadual e federal (Sousa, 2010a; 2010b).
Ainda em 1996, Morgado foi beneficiado por projeto de eletrificação rural apadrinhado pela associação de moradores de Castelhano; a obra, financiada pelo Projeto São José, atendeu a 40% da comunidade e constituiu o marco inicial de seu desenvolvimento, somando-se à estrada já construída. Em 2000, a pedido de moradores, houve pequena ampliação da rede elétrica para atender a quatro famílias, concluída na administração da prefeita Magda Gomes; em 2001, Francisco José Moraes e outros associados solicitaram à mesma prefeita a extensão de energia a Morgado Velho, atendida em maio de 2002. Em outubro de 2002, a comunidade foi contemplada com projeto de abastecimento de água, iniciado em administração anterior e concluído em 14 de março de 2003, atendendo a todas as famílias de Morgado e ao assentamento de moradores de Falcão (Sousa, 2010b).
Carrapateiras
Carrapateiras é outra pequena localidade litorânea dentro da área Distrito de Aranaú, no extremo oeste, relativamente próxima ao Castelhano e ao Córrego do Iús. Segundo a tradição oral, o topônimo Carrapateiras tem origem na grande quantidade de carrapateiras (mamoeiros-bravos ou mamonas, Ricinus communis) que existiam na região. Os relatos afirmam que essa planta teria sido introduzida no litoral por grupos indígenas provenientes da serra, que passaram a cultivá-la na localidade. Anos mais tarde, com a instalação das primeiras famílias e a construção de currais de pesca ao longo da costa, uma das fileiras de currais situava-se em frente a uma área densamente ocupada por carrapateiras Sousa, 2010l). Em razão dessa referência geográfica, o lugar passou a ser conhecido inicialmente como Carreira das Carrapateiras, denominação posteriormente simplificada para Carrapateiras.
As narrativas indicam que, no início do processo de ocupação, a comunidade era composta por apenas quatro residências, que formavam o núcleo conhecido como Rua do Cruzeiro. Ao norte situava-se a casa de Bernardino Sousa Marques (Bena), ao sul a de Expedito Marques Sousa, a leste a de Francisco Marques Silveira e, a oeste, a de Joaquim Marques de Freitas. Naquele período, o território encontrava-se subdividido em três setores distintos: Lagoa dos Espinhos, Carrapateiras e Olho d'Água. A primeira denominação fazia referência à lagoa junto à qual foram construídas as habitações iniciais, enquanto Olho d'Água correspondia à área situada nas proximidades de uma nascente, onde também existia um pequeno agrupamento de moradias. Com o crescimento populacional e a expansão do povoado, essas áreas passaram a constituir um único núcleo habitacional, atualmente identificado como Carrapateiras.
Entre os primeiros habitantes da localidade destacam-se Bernardino Marques, Livino Albano, Luiz Albano, Inácio Bernardo, Viturino, Mariana Nunes, Joaquim Nunes, Raimundo Sales, Benvindo Antunes, Francisco Salgueiro, Clóvis Albano da Silveira e o casal Alexandre Nunes de Freitas e Inez Maria da Conceição. Esse último casal, após vários anos residindo na comunidade, transferiu-se para a localidade de Taraco, no município de Granja. Foram os pais de Joaquim Marques de Freitas (Tio Quinca), figura de grande relevância para a história de Carrapateiras, nascido em 11 de março de 1923. Embora tenha passado parte de sua vida em Lusitânia, também no município de Granja, Joaquim retornou à terra de origem de sua família em 1959, cerca de cinquenta anos após a mudança de seus pais, já então falecidos, restabelecendo os vínculos familiares e comunitários (Souza, 2012).
Tio Quinca
Em 1964, Joaquim passou a defender a construção de uma capela em Carrapateiras, proposta que inicialmente despertou desconfiança entre parte dos moradores. Apesar das resistências, ainda em 1964, o então vigário de Cruz, Monsenhor José Edson Magalhães, celebrou a primeira missa no terreno destinado à futura capela. A área, com aproximadamente 100 metros quadrados, foi doada pelos proprietários José Bernardino da Rocha e Pedro Marques da Rocha.
Em seguida, constituiu-se uma comissão composta por cinco membros, responsável pela arrecadação dos recursos necessários à construção, por meio de leilões, quermesses, visitas domiciliares com a imagem do padroeiro e outras campanhas comunitárias. No ano seguinte, já sob a administração paroquial do padre Manoel Valderi da Rocha, foi celebrada a segunda missa na comunidade, ocasião em que o sacerdote apresentou a planta arquitetônica da futura capela, consolidando o projeto que simbolizaria a organização religiosa e a identidade coletiva de Carrapateiras.
Com a arrecadação inicial de recursos financeiros e a obtenção de parte dos materiais necessários, teve início, em meados de 1965, a construção da Capela de Nossa Senhora das Graças, que se estendeu por cerca de sete anos, sendo concluída em 1972. Durante esse período, a principal dificuldade enfrentada pela comunidade foi a escassez de recursos financeiros e de materiais de construção. Em um momento decisivo da obra, o comerciante Manoel Nelson Silveira, residente na localidade de Gameleirinha, sensibilizou-se com a situação e comprometeu-se a custear os materiais e os recursos necessários para que a construção fosse concluída dentro do prazo previsto.
A bênção solene da capela ocorreu em 30 de novembro de 1972, a partir de quando passaram a ser celebradas missas regularmente, inicialmente duas vezes por ano, nos meses de maio e dezembro. Ao término da obra, o levantamento das despesas indicou um custo total de aproximadamente Cr$ 7.650,00, valor expressivo para uma construção integralmente sustentada pelo esforço comunitário (Souza, 2012). Nos anos seguintes, a capela recebeu infraestrutura complementar, como iluminação pública, transformando significativamente a paisagem da localidade, que, poucas décadas antes, era descrita como uma área de vegetação pouco ocupada.
Lagoa da Volta
Lagoa da Volta é outra pequena comunidade do distrito de Aranaú. Segundo os relatos da tradição oral, sua formação ocorreu a partir da ocupação de terras que, à época, pertenciam ao poder público e foram sendo adquiridas pelas primeiras famílias que se estabeleceram na localidade. A família Medeiros seria a primeira a fixar residência em Lagoa da Volta. Posteriormente, chegaram outras famílias, entre elas os Pereiras e os Cruz, responsáveis pela ampliação do povoado (Sousa, 2010m). Com o passar do tempo, a estrutura fundiária sofreu modificações e, segundo os depoimentos, parte significativa das terras anteriormente pertencentes aos Medeiros passou para a família Cruz, que se tornou uma das principais proprietárias da comunidade.
A origem do topônimo "Lagoa da Volta" também é preservada pela tradição oral. Conforme os moradores, quando os primeiros habitantes chegaram, o lugar ainda não possuía denominação. A narrativa local conta que um viajante percorria a região atribuindo nomes às localidades. Ao passar inicialmente pelo povoado, não encontrou nenhuma característica que o inspirasse a nomeá-lo. Entretanto, durante a viagem de retorno, avistou uma lagoa que anteriormente lhe passara despercebida e decidiu denominar o lugar de "Lagoa da Volta", em referência ao fato de ter observado o elemento natural apenas no caminho de volta. Segundo os relatos, essa denominação permaneceu inalterada desde então.
Desde a formação da comunidade, a economia esteve baseada na agricultura e na pesca, atividades que garantiam a subsistência das famílias e constituíam suas principais fontes de renda. Os depoimentos destacam que, durante grande parte do século XX, tanto a fertilidade das terras quanto a abundância de peixes asseguravam melhores condições econômicas do que as observadas atualmente. Nas últimas décadas, entretanto, os moradores relatam uma redução da produtividade agrícola em decorrência do uso contínuo do solo e uma diminuição significativa dos estoques pesqueiros, chegando a afirmar que algumas espécies anteriormente comuns tornaram-se escassas ou desapareceram da região.
Essa transformação repercutiu diretamente na economia local. Segundo a memória dos habitantes, o modelo tradicional baseado na agricultura e na pesca deixou de proporcionar o mesmo nível de sustento observado pelas gerações anteriores. Atualmente, a oferta de empregos é reduzida, concentrando-se principalmente nos serviços públicos municipais, enquanto parcela significativa da renda da comunidade provém de aposentadorias e benefícios previdenciários. Essa realidade é frequentemente descrita pelos moradores como responsável pela fragilidade econômica da localidade, na qual as oportunidades de trabalho permanecem limitadas.
No campo religioso, a tradição católica constitui o principal elemento de identidade coletiva da comunidade. Desde sua formação, a maioria da população professa o catolicismo, embora atualmente existam moradores vinculados a outras denominações religiosas. Durante muitos anos, Lagoa da Volta não possuía igreja própria. As celebrações religiosas eram esporádicas e aconteciam em um salão comunitário destinado exclusivamente a esse fim ou, em diversas ocasiões, nas residências dos próprios moradores.
Somente no ano de 2000 foi construída a igreja da comunidade, dedicada a São Sebastião, escolhido como padroeiro local. Desde então, a festa religiosa realizada anualmente no mês de janeiro tornou-se a principal celebração comunitária, reunindo moradores de Lagoa da Volta e de localidades vizinhas. As festividades compreendem novenas, celebrações litúrgicas e atividades de confraternização, incluindo barracas de comidas típicas destinadas à arrecadação de recursos para a manutenção da igreja. Embora de pequenas dimensões, o templo é apontado pelos moradores como um importante símbolo da organização comunitária e da permanência das tradições religiosas locais.
As transformações na infraestrutura da comunidade também constituem um marco importante de sua história recente. Durante muitos anos, as residências eram iluminadas exclusivamente por lamparinas e candeeiros. A energia elétrica somente foi implantada entre 1980 e 1981, seguida, aproximadamente dois anos depois, pela abertura da estrada de acesso ao povoado. Mesmo após essas melhorias, alguns moradores ainda utilizavam iluminação a querosene em meados da década de 2000. Outro importante investimento mencionado pelos habitantes foi a construção de um poço profundo, inaugurado por volta de 2001, que passou a fornecer água de melhor qualidade para a população.
Lagoa dos Tanques
Segundo a tradição oral, o topônimo Lagoa dos Tanques está relacionado à existência, no local atualmente ocupado pela lagoa, de tanques utilizados para armazenar água destinada ao consumo dos animais. Essa característica da paisagem teria dado origem à denominação que permanece até os dias atuais.
Os relatos indicam que as primeiras famílias a se estabelecerem na comunidade foram os Brandão e os Cardoso, oriundos do sertão dos Inhamuns, no Ceará, e de Areia Branca, no Rio Grande do Norte. Após chegarem à região, essas famílias ocuparam extensas áreas de terra e deram início ao processo de povoamento da localidade. A economia baseava-se principalmente na agricultura de subsistência e na pesca artesanal, embora alguns moradores também cultivassem cana-de-açúcar destinada à produção de mel e rapadura, atividades que complementavam a renda e o abastecimento das famílias (Sousa, 2010k).
A organização da educação também ocorreu de forma comunitária. Os primeiros professores lembrados pela tradição local foram Raimundo Higino e Raimundo Trajano, que ministravam aulas gratuitamente em suas próprias residências. Outros mestres, como Graciano e José Muniz, também participaram da formação escolar das primeiras gerações. As escolas funcionavam em casas particulares, não possuíam denominação oficial e eram identificadas pelos moradores conforme o turno em que funcionavam.
Na área da saúde, os partos eram realizados nas residências pelas parteiras da comunidade, frequentemente auxiliadas por outras mulheres experientes. Os relatos mencionam que essas auxiliares eram conhecidas como "cachimbeiras", denominação associada ao hábito de fumar cachimbo durante os atendimentos. A assistência médica institucional praticamente inexistia, sendo os conhecimentos tradicionais os principais recursos disponíveis para o acompanhamento das gestantes e dos recém-nascidos.
As condições de saneamento básico permaneceram precárias durante grande parte da história da comunidade. O abastecimento de água era realizado por meio de cacimbas, fonte que continua sendo utilizada por parte da população. Segundo os moradores, apenas recentemente a água passou a receber tratamento com cloro, evidenciando que as melhorias na infraestrutura sanitária ocorreram de forma lenta e gradual ao longo das últimas décadas.
Barrinha de Cima
A ocupação da comunidade de Barrinha de Cima remonta às primeiras décadas do século XX, embora a memória oral apresente versões distintas acerca de seu povoamento. Na tradição oral, essas terras pertenciam originalmente a proprietários portugueses e europeus, que permitiram a instalação das famílias para que cultivassem e vigiassem a área. A região era então pouco habitada, marcada por extensas áreas de mata nativa, manguezais e terrenos alagados conhecidos como "salgados".
Os relatos rememoram as primeiras famílias que teriam se estabelecido na localidade, por volta de 1912, destacando-se José Horlando, Francisco José Fortunato (Chico Fortunato), Eduardo Rocha, Paulino dos Tanques e outros grupos provenientes do sertão cearense, de Acaraú e da região da Lagoa dos Tanques (Sousa, 2010d). Outras narrativas mencionam como pioneiros Isídio, Sebastião Justino de Medeiros, Conceição Balbino, Manoel Alexandre, Manoel Raimundo de Araújo, Joaquim Cabral, Henrique Rocha, Miguel Pio da Rocha, Glória, José Balbino, Furtuoso e José Nunes (Sousa, 2010e).
Existem diferentes versões para a origem do nome dessa comunidade. Uma delas relaciona o topônimo "Barrinha de Cima" à aquisição de uma faixa de terras por João Pia, localizada junto a uma pequena barra cercada por águas salgadas, conhecida inicialmente como "Barra do Pia". Com o crescimento do povoamento e a necessidade de distinguir duas localidades homônimas, consolidaram-se as denominações Barrinha de Cima e Barrinha de Baixo. Outra tradição atribui a antiga designação "Pai José" a um morador muito conhecido da região, cuja residência cercada por coqueiros e bananeiras tornou-se referência para os habitantes (Sousa, 2010d).
Ainda hoje existe um comunidade de nome Pai José em Aranaú, que possivelmente integrou a mesma propriedade que depois originou Barrinha. Sobre isso, consta no inventário do Capitão Frutuoso José de Freitas, aberto em 17 de novembro de 1920, a seguinte descrição da propriedade Pai José:
Dez braças de terra no lugar Pai José, deste termo, com uma légua de fundos, limitando-se ao norte com o litoral, ao sul com terras da Cruz, ao nascente com terras do herdeiro José Francisco de Vasconcelos e, ao poente, com erras de Philomeno Marques da Costa, avaliadas a três mil réis a braça, trinta mil réis (APEC, Acaraú, Inventários, 1920, Pac. 26, Proc. 13-A, fl. 12).
Em 1940, existiam três salinas nessa localidade, pertencentes a firma B. Gonçalves e Cia, Miguel Pio da Rocha e Manoel Cirilo Pereira (Araújo 1940, p. 166). Próximo a comunidade de Barrinha e Pai José também existe uma localidade referida como Frutuosos, em alusão clara ao Capitão.
No que se refere a esses primeiros colonos, os relatos informam que praticavam essencialmente a agricultura de subsistência, bem como a pesca artesanal, especialmente a pesca de curral, e a criação de pequenos animais. Também havia o cultivo de cana-de-açúcar destinada à produção de rapadura, sendo o consumo familiar sustentado quase exclusivamente pelos produtos obtidos do próprio trabalho. As condições de vida eram bastante precárias. O comércio local praticamente inexistia, obrigando a população a viver do que produzia ou capturava. O vestuário era escasso, sendo comum que cada pessoa possuísse apenas uma ou duas mudas de roupa, utilizadas até o completo desgaste. O acesso a alimentos industrializados, medicamentos e outros bens era extremamente limitado, refletindo o isolamento da comunidade.
Entre as primeiras edificações destacaram-se as residências de Raimundo Muniz, José Balbino e Eduardo Rocha, construídas em alvenaria com tijolos produzidos pelos próprios moradores. A casa de Eduardo Rocha é lembrada como a maior da região e, segundo os relatos, permanece parcialmente preservada. Ademais, as primeiras construções de caráter coletivo foram uma capela e uma escola. A capela consolidou-se como principal espaço religioso da comunidade, em uma população majoritariamente católica, onde missas, novenas e festas dos padroeiros constituíam importantes momentos de sociabilidade. Os relatos atribuem a construção da igreja ao esforço conjunto de moradores, entre eles João Miguel, Djacir Miguel e Francisco Balbino (Sousa, 2010f).
A educação também apresentava inúmeras dificuldades. Antes da construção de um prédio escolar, as aulas funcionavam em residências particulares, sendo a casa de Rafael Samuel Pessoa apontada como o principal espaço de ensino. As professoras lembradas pela comunidade incluem Estelita, Bastiana, Eliete e Lucila, quase todas naturais da própria localidade. Os depoimentos descrevem um ensino marcado pela ausência de merenda escolar, pela ênfase na memorização das lições e pelo uso frequente de castigos físicos, como a palmatória, prática comum nas escolas rurais brasileiras durante boa parte do século XX.
O abastecimento de água era realizado por meio de cacimbas existentes na maioria das residências, sendo a água consumida sem qualquer tipo de tratamento. As condições sanitárias e de saúde eram igualmente precárias. Os partos ocorriam, em sua maioria, nas próprias casas, assistidos pela parteira Joaquina Vicente. Apenas em casos excepcionais as gestantes eram levadas para hospitais, cuja distância, aliada à inexistência de estradas e à necessidade de percorrer trilhas em meio à mata, dificultava o acesso aos serviços médicos. Os deslocamentos dependiam de animais de montaria e, em muitos casos, das condições da maré para atravessar rios e áreas alagadas.
Entre os empreendimentos econômicos que marcaram a história da comunidade destacou-se uma salina construída por José Horlando e posteriormente adquirida por Eduardo Rocha. Erguida manualmente na área do salgado, a salina possuía estrutura para moagem, beneficiamento e empacotamento do sal, representando um dos mais importantes investimentos produtivos da região (Sousa, 2010d). O transporte da produção era realizado em tropas de burros até o porto e, posteriormente, em canoas com destino a Acaraú. Segundo a memória local, o empreendimento entrou em decadência após a explosão do motor responsável pela moagem do sal, equipamento de alto custo cuja substituição era inviável para a época.
Nas últimas décadas, a comunidade passou a contar com melhorias em sua infraestrutura, como rede de energia elétrica, abastecimento de água, escola, capela ampliada e acesso por estrada, parte delas implantadas pelo poder público municipal. Apesar dessas transformações, muitos moradores continuam dependendo da pesca, da agricultura e, mais recentemente, do trabalho assalariado em fazendas de carcinicultura, onde os relatos destacam a existência de baixa remuneração e condições laborais consideradas difíceis.
Barrinha de Baixo
Segundo a memória local, as terras que atualmente compõem Barrinha de Baixo possuíam reduzido valor econômico durante o período inicial de ocupação. Em razão disso, as famílias que ali se estabeleceram construíam moradias simples, feitas de taipa ou cobertas de palha, aproveitando a facilidade de acesso aos recursos naturais disponíveis. Os relatos indicam que, em momento posterior, um comerciante de Acaraú conhecido como José de Paulo, ao visitar a localidade para comprar pescado, encantou-se com a paisagem formada por uma extensa lagoa. Após retornar alguns meses depois, demarcou aproximadamente 300 braças de terra e passou a exercer domínio sobre essa área, permitindo apenas a construção de casas de caráter provisório, como forma de impedir que outros moradores reivindicassem a posse definitiva das terras (Sousa, 2010g).
As primeiras habitações concentravam-se junto ao litoral, onde a proximidade do mar favorecia a atividade pesqueira. Nesse núcleo inicial foram erguidas as primeiras construções comunitárias, entre elas a igreja, a escola e diversas residências. Entretanto, o avanço progressivo do mar e o deslocamento das dunas obrigaram a população a transferir o povoado para áreas mais afastadas da praia. Segundo os moradores, as antigas construções, incluindo a igreja, moradias e estruturas utilizadas na pesca, acabaram soterradas pelas areias, tornando-se parte da memória coletiva da comunidade.
Outra tradição oral atribui a origem do povoado à migração de um homem chamado Filibel e sua família, que deixaram sua região de origem em consequência das estiagens e se estabeleceram nas proximidades de uma pequena barra litorânea. A notícia das melhores condições de sobrevivência existentes junto ao mar teria atraído outras famílias, dando início a um processo migratório que resultou na formação do povoado. O nome Barrinha teria surgido justamente em referência à pequena barra onde essas primeiras famílias se instalaram (Sousa, 2010h).
Desde sua origem, a economia local esteve fortemente vinculada aos recursos naturais do litoral. A agricultura de subsistência era complementada pela pesca artesanal, que constituiu, durante décadas, a principal fonte de renda da população. Inicialmente, a captura dos peixes era realizada por meio de anzóis e pequenas embarcações, sendo a produção conservada com sal e seca ao sol para permitir seu transporte e comercialização. O pescado era vendido ou trocado com os chamados "comboieiros", comerciantes provenientes do interior cearense que percorriam longas distâncias em tropas de jumentos, trazendo farinha, rapadura e outros produtos inexistentes na região litorânea (Sousa, 2010i). Dessa forma, durante muitos anos, a economia local baseou-se simultaneamente na venda e no escambo.
Os relatos também registram a expansão da pesca de curral, atribuída à iniciativa de um morador chamado Guilherme, responsável pela construção de diversos currais de pesca. Esse sistema ampliou significativamente a produção pesqueira e gerou oportunidades de trabalho para numerosos habitantes, contribuindo para o crescimento do povoado. Com o passar do tempo, entretanto, a pesca em currais entrou em declínio, sendo gradualmente substituída pela pesca realizada em canoas, voltada principalmente para espécies menores conhecidas como "caícos". Alguns pescadores passaram ainda a dedicar-se à chamada "pescaria do alto", destinada à captura de peixes de maior porte em áreas mais distantes da costa (Sousa, 2010i).
No final do século XX ocorreu uma nova transformação na economia pesqueira. Segundo a memória dos moradores, a pesca da lagosta foi introduzida na comunidade por volta de 1999 por um antigo morador que havia trabalhado em Camocim. A abundância do crustáceo atraiu pescadores de diversas localidades vizinhas, provocando um novo fluxo migratório e ampliando a importância econômica da atividade. Paralelamente, desenvolveram-se ocupações relacionadas ao beneficiamento da pesca, como o remendo e a confecção de redes de nylon, tarrafas e manzuás, além da expansão do pequeno comércio local e dos serviços de transporte de passageiros para Acaraú e comunidades vizinhas.
Atualmente, Barrinha de Baixo preserva uma economia fortemente vinculada à pesca, especialmente da lagosta e do arrasto, complementada por atividades ligadas ao beneficiamento de redes, ao pequeno comércio e ao transporte de passageiros. Ao mesmo tempo, mantém vivas tradições religiosas, narrativas orais e memórias coletivas que constituem importantes referências para a compreensão da história e da formação social das comunidades litorâneas do litoral oeste cearense.
Festividades Religiosas
A cultura de Barrinha sempre esteve profundamente vinculada ao catolicismo. Durante grande parte do século XX, as principais manifestações coletivas eram organizadas pela igreja ou destinavam-se à arrecadação de recursos para suas atividades. Entre elas destacavam-se os terços luminosos, procissões, passeatas religiosas e leilões beneficentes, eventos que mobilizavam moradores de diversas comunidades vizinhas. O dinheiro arrecadado era empregado na construção ou manutenção de obras consideradas importantes para a coletividade.
Além das celebrações religiosas, o calendário festivo incluía manifestações populares como o reisado, os dramas teatrais e os bailes realizados ao som de rádios e radiolas que reproduziam discos de vinil. Os festejos juninos também ocupavam lugar de destaque, caracterizando-se por brincadeiras tradicionais, barracas, pau de sebo e práticas de adivinhação relacionadas ao ciclo de São João. Segundo os depoimentos, muitas dessas manifestações perderam espaço nas últimas décadas em decorrência das mudanças culturais e da modernização dos costumes.
Atualmente, a principal celebração religiosa da comunidade ocorre em 19 de março, em homenagem ao padroeiro São José. As festividades iniciam-se com um ciclo de novenas realizado entre os dias 1º e 19 de março, culminando em procissão que conduz a imagem do santo até a praia, onde ela é embarcada e levada ao mar antes de retornar à igreja. Os moradores destacam ainda que, nos últimos anos, a programação festiva passou a contar com apresentações musicais patrocinadas pelo poder público municipal.
Lendas e Folclore
O imaginário popular também preservava narrativas sobre fenômenos sobrenaturais, além de histórias envolvendo lobisomens e fantasmas, elementos recorrentes na tradição oral das comunidades litorâneas do Ceará. Entre as mais conhecidas encontra-se a lenda do "Fogo da Visagem", também chamada de "Fogo do Salgado" ou ainda de "Jipe da Visagem", segundo a qual luzes semelhantes aos faróis de um automóvel seriam vistas durante a noite na praia antes de desaparecerem repentinamente. A tradição associa esse fenômeno ao espírito de um motorista que teria morrido em um acidente de jipe durante uma viagem para a Pedra Furada, em Jericoacoara (Sousa, 2010j).
Outra narrativa amplamente difundida é a do lobisomem. Os relatos descrevem minuciosamente as circunstâncias da transformação. Segundo a tradição oral, o lobisomem seria um homem casado que, após se divorciar, passa a viver com outra mulher também divorciada. A transformação ocorreria em noites de lua cheia, iniciando-se por volta das 18 horas. Mas, além disso, haveria um ritual para que a transformação acontecesse: o homem deveria despir-se, rolar sobre uma "cama de jumento" e rezar o Pai-Nosso ao contrário. Em seguida, deveria percorrer sete cidades durante a mesma noite.
Os relatos afirmam que algumas pessoas da comunidade dizem ter visto o lobisomem e até mesmo entrado em confronto com ele. De acordo com a crença popular, o lobisomem não pode ser ferido, pois, caso isso aconteça, retorna imediatamente à forma humana, permitindo que seja identificado pelo ferimento. A tradição também atribui diversas limitações à criatura: ela não atravessa encruzilhadas, não suporta objetos de prata, não entra na água do mar e tampouco consegue penetrar nas casas dos moradores.
Além das histórias sobre o lobisomem, os habitantes relatam episódios de perseguições atribuídas a entidades sobrenaturais, confrontos com o diabo e aparições repentinas de pessoas ou figuras que desaparecem sem deixar vestígios, narrativas que integram o imaginário popular e o patrimônio oral da comunidade.
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