O Sítio Castelhano, que originou a localidade de mesmo nome, hoje pertencente ao município de Acaraú, é um dos locais de ocupação mais antiga do litoral da Ribeira. Em 1706, foi concedido em sesmaria ao Sargento Francisco Alberto Delquintilar (ou de Quintilar ou Alquintamor). Na petição ele declarou que havia descoberto e se estabelecido um sítio denominado Vera Cruz, onde residia, sem oposição, havia dois anos com seus rebanhos de gado bovino e cavalar.
As terras solicitadas localizavam-se entre a Lagoa Ayuicena e um brejo chamado Ubatuba (ubá = cana-brava + tyba = abundância, abundância de cana-brava), abrangendo três léguas de comprimento. A sesmaria teria como ponto central a "Lagoa dos Morros", estendendo-se uma légua e meia para cada lado. A largura seria de uma légua; entretanto, como o mar chegava até a margem da lagoa, não era possível completar essa medida em direção ao litoral. Assim, solicitou que a largura fosse completada apenas para o lado do sertão (Sesmarias, Vol. 3, nº 185, p. 113). Essa descrição bate perfeitamente com a geografia da região, formada por uma lagoa central, denominada Lagamar dos Currais Velhos, extremada por outras lagoas menores como a Espinho e Junco, antes de encontrar o litoral.
No mesmo ano em que obteve essa sesmaria, obteve outra, também no litoral de Acaraú, Salgado do Acaraú, no lugar chamado Apecuí (apekún = manguezal), seguindo pela costa em direção à região da Parnaíba, e no riacho chamado Pirangi (pirang = vermelho + 'y = rio, rio vermelho), juntamente com o Capitão Rodrigo da Costa de Araújo, D. Catarina do Lago, Coronel João de Barros Braga e João D'Almeida (Sesmarias, Vol. 3, nº 172, p. 85).
Exceto isso, não se sabe praticamente nada sobre Francisco Del Quintilar, entretanto, considerando o contexto da época, a patente de Sargento, e os companheiros de sesmaria, é provável que tenha servido no Forte. Ademais, com base em seu sobrenome, pode-se supor que seja originário da península Ibérica, possivelmente da Espanha, o que justificaria a escolha do nome Castelhano para sua propriedade.
Ao que parece, Quintilar faleceu sem deixar herdeiros legais ou testamento, de modo que suas terras foram levadas a leilão, e arrematadas pelo Tenente Coronel Manoel Barbosa de Morais, natural do Rio Grande do Norte. Mas Morais desconfiava que houvesse algum impedimento na posse de Quintilar, talvez por prescrição, de modo que para regularizá-la, solicitou-as novamente em sesmaria, datada de 7 de abril de 1716:
Diz o tenente-coronel Manoel Barbosa de Morais, morador nesta Capitania do Ceará Grande, que ele, suplicante, arrematou umas terras no Tribunal dos Ausentes, as quais possuía por data e sesmaria Francisco Alberto de Alquintamor, e que foram postas em praça por haver falecido o dito ab intestato. Tendo surgido de presente uma dúvida, por lhe dizerem que o referido falecido era pessoa que, sendo assim, não podia receber as ditas terras por data e sesmaria em nome de Sua Majestade, que Deus guarde, pede a Vossa Mercê que seja servido mandar passar-lhe nova data na mesma forma em que o dito defunto possuía as referidas terras, vista a dúvida acima declarada. E, sendo falsa a informação de que o dito defunto era pessoa impedida, fique ele, suplicante, possuindo as referidas terras, visto tê-las arrematado, para si e seus herdeiros, ascendentes e descendentes. E receberá mercê (Sesmarias, Vol. 10, nº 31, p. 56).
A essa terra, deu-se o nome de Sítio Castelhano, provavelmente em homenagem ou herdado de seu antigo dono. Em 28 de março de 1737, consegue uma extensão dessa sesmaria, de três léguas no Córrego do Tanque, "nas ilhargas de seu sitio Castelhano" (Sesmarias, Vol. 13, nº 72, p. 146). Hoje existe dentro da área de sesmaria um povoado de nome Castelhano.
Em 5 de julho de 1735, casam-se no Sítio Castelhano, Manuel Carlos de Vasconcelos e Joana Correia da Silva, filha do sesmeiro da Timbaúba, Antônio Correia Peixoto (Araújo, 2000, p. 206). Esse casal depois mudou-se para a Fazenda Cruz, que deu origem a sede do município. Barbosa de Morais, uma das testemunhas presentes, é provavelmente o avô materno de Joana. Sabe-se também que Morais era membro da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição, de Almofala, tendo ingressado em 21 de outubro de 1730, juntamente com o Rvd. Pe. Felix de Azevedo Faria e Pedro Cardoso de Abreu (Studart, 2000, p. 182).
A partir desse ponto, não se sabe exatamente o que aconteceu com essas terras. Em 1855, constam como proprietários no Castelhano: Policarpo Francisco de Sousa (1819-1902), com "um quarto de terra de comprido com uma de largo na Fazenda do Castelhano" (Vol. 1, nº 24, fl. 6) e Alexandre Marques da Rocha (1793-1884), com "seiscentas braças no Castelhano" (Vol. 1, nº 160, fl. 26). Policarpo era filho do Capitão Diogo José de Souza e de Constança Maria do Carmo Ponte, casado com Antônia Rosa Cândida, filha de Manoel Pinto Brandão e Francisca Tomásia de Veras. É provável que fosse parente de Donato José de Souza, um dos pioneiros da região de Jijoca. A família Brandão também é bastante antiga na região do distrito de Caiçara (ver abaixo).
Já quanto a Alexandre Marques da Rocha, sabe-se que era filho de Antônio Marques da Rocha e Elana Maria da Natividade, sendo casado com Thereza Maria de Jesus, filha de Tomé Nunes de Freitas e Joana da Costa Vasconcelos. Era descendente, pelo lado materno, do casal supramencionado, Manoel Carlos Vasconcelos e Joana Correia da Silva, não sendo impossível que tenha herdado parte dessas terras de seus ancestrais.
Já no século XX, no Censo Agropecuário de 1920, consta como proprietário do Sítio Castelhano, Modesto Francisco Gonçalves (1854-1923). Modesto Lousada, como era conhecido, era filho de Bento Francisco Domingues e Joana Gonçalves, sendo casado com Ana Joaquina Louzada, filha de Francisco Antônio Louzada e Aureliana Francisca Correia.
Os Quilombolas do Córrego dos Iús
A Comunidade Remanescente Quilombola do Córrego dos Iús é uma comunidade rural afro-indígena localizada na área do distrito de Aranaú, município de Acaraú, e, em menor parte, no município de Cruz. Conforme relatos dos moradores mais antigos, o topônimo advém de uma espécie de peixe chamada iú (Hoplerythrinus unitaeniatus), abundante no riacho por volta da década de 1930 e hoje desaparecido da região. Registra-se também uma denominação anterior, de Córrego dos Verçosa, família que o habita pelo menos desde meados do século XIX. Ressalta-se que, apesar de Soares (2023), principal referência sobre esse assunto, situar a comunidade na área da sesmaria do Capitão Diogo Lopes, estou seguro de que, na verdade, essas terras pertenceram, a já mencionada sesmaria de Francisco Alberto Delquintilar, depois arrematada por Manoel Barbosa de Morais, o Sítio Castelhano.
As Famílias Fundadoras
Conforme Soares (2023), há quatro famílias-tronco que constituem a comunidade: os Verçosa, os Sousa, os Alves, e os Lopes da Silva. A narrativa de fundação se apoia no casal Maria Verçosa e João Verçosa. Diz-se que Maria veio fugida da Bahia, perseguida por homens que a queriam levar de volta ao cativeiro, escondendo-se pelos matos e saindo pelo litoral. Nas palavras de um dos anciãos da comunidade, então com 75 anos:
De premero vei uma senhora chamada Maria Verçosa, a mais velha desse setor aqui. Não tem documento, são só relatos que diz dos bisavô, que diz pros avô que ela tinha vindo fugida da Bahia, perseguida; uns homi perseguia ela no mato, pra levar pros cativeiro. Eram muitos, eles se escondia nos matos e saia por esse litoral, os grupo, aí onde dava pra se refugiar eles se refugiavam, aí os grupo iam se espalhando, porque já era as estratégia que se as ameaça chegasse, dava tempo de avisar uns pros ôtro e fugir. Também pescava e caçava em grupo que era pra todo mundo podê cumê. Até hoje nóis vévi assim, dirridindo tudo (Ibidem., 54).
Segundo a tradição oral, Maria Verçosa controlava as terras que iam da Praia da Formosa até o entorno das três lagoas. Conta-se ainda que, para promover festejos, ela trocava "pedaços de chão" por bebidas e por tecidos com que se fizessem roupas.
Não se sabe ao certo como Maria Verçosa obteve essa gigantesca porção de terras. Entretanto, uma hipótese que me parece plausível é de que ela ou seu marido tenham herdado as mesmas de seus antepassados. Aqui cabe alguns esclarecimentos. O primeiro Verçosa identificado nessa região foi João Batista Verçosa (1728-1798), filho do Alferes Ângelo Dias Leitão e Rosa Maria Ferreira. João Batista casou-se com Antônia Correia da Silva, filha de Antônio Correia Peixoto, identificado como pardo, e possível neta de Manoel Barbosa de Moraes, o sesmeiro das terras do Castelhano. Acredito que um dos membros do casal descenda diretamente de João Batista.
Dando continuidade, Cesário Manoel de Sousa foi o genearca da família Sousa. Casou-se inicialmente com Maria Balbina, com a qual teve quatro filhos, e, após sua morte, casou-se novamente com Joaquina Maria da Conceição. Conhecida como Joana Grande, era indígena, e a tradição local narra que foi "pega a dente de cachorro" e trazida para as bandas do Córrego dos Iús "para amansar". Descrevem-na alta, forte, de cabelo estirado, e narram que, após aproximações sucessivas, passou a frequentar a localidade até fixar-se e unir-se a Cesário. O casal viveu por muito tempo na localidade denominada Croa das Almas, dedicando-se à agricultura e à pesca nas lagoas e praias próximas. O nome remete ao cemitério quilombola ali criado, junto à croa, para os enterros da comunidade. Cesário Manoel foi um dos últimos quilombolas nele sepultados.
A família Alves tem ligação estreita com os Sousa, sendo ambas originárias da região de Aranaú. Raymundo Alves casou-se com a prima Ana Maria da Conceição, e o casal teve cinco filhos. Uma destas, Francisca Alves do Nascimento, casou-se com Cipriano Manoel de Sousa, filho de Cesário Manoel e Maria Balbina. O casal viveu muitos anos em casa de taipa com forquilhas, varas de cipó e paredes rebocadas de barro, à beira do córrego.
Finalmente, a quarta família-tronco se forma a partir do casal Antônio Lopes da Silva e Paula Alzira do Nascimento, conhecida como Paula Meruoca. Vindos da localidade de Carrapateiras, cultivavam roçado mas não possuíam terras. Chegados à região, encostaram-se inicialmente em terras dos descendentes do já mencionado Modesto Lousada. Integrou-se a comunidade, onde foi professora e catequista. Paula Alzira era filha de Manoel Bernardo do Nascimento, o Manoel Meruoca, e de Maria Emília da Cunha, comboieiros que desciam da Serra Grande trazendo rapadura, cachaça e outros produtos para trocar por peixe na região que hoje abrange os Iús, e que acabaram se fixando por essas bandas.
Essas quatro famílias, por meio de relações endogâmicas, deram origem a praticamente todos os habitantes naturais do Córrego dos Iús. Colabora para isso um certo preconceito das pessoas fora da comunidade, que resistem a se relacionar com seus membros. Essa segregação deriva dos conflitos de terra envolvidos, inclusive, no processo de demarcação e reconhecimento da comunidade perante o poder público.
Modesto Lousada
Modesto Lousada, chegou às terras dos Iús pela Praia da Formosa. É descrito por Soares (2023) como posseiro, que teria interpelado os Verçosa, proprietários legítimos da região, trocando glebas de terra por cachaça, vestimentas e alimentos. Essas trocas, apesar de voluntárias, são interpretadas pelo autor com uma estratégia de sobrevivência e para mitigar conflitos. Modesto empregava membros da família Verçosa em condições análogas a escravidão. Segundo o relato de alguns moradores, então com 77 anos:
Meu finado avô dizia que os Verçosa mai véi saia daqui dos Iús até o Acaraú tangendo as varada de porco. Era três dia a pé até chegá no Acaraú pra modi recebê uma merreca, que era o que ele pagarra, depois mitia o pé no rumo dos Iús, e quando chegarra num tinha discanso não, era pra modi alimentá os bicho, limpá os casco dos carralo... era mêr que escravo, num tinha diferença não (ibidem, p. 44).
Os relatos nomeiam Pedro Alves, Luís Tomaz e José Verçosa, como encarregados de tratar dos animais usados no transporte de mercadorias. Ainda hoje, a família Lousada é proprietária de terras na região, e os conflitos fundiários de proprietários externos e membros da comunidade são uma realidade latente.
Nesse sentido, a Portaria nº 221, de 14 de novembro de 2023, reconhece a área das terras da Comunidade Remanescente de Quilombo Córrego dos Iús, com os seguintes limites:
Norte: NEO - Empreendimentos Imobiliários Ltda, João Muniz Sobrinho, Aline Vasconcelos Gonçalves, João Altevi de Freitas, Espólio de José de Paula Ribeiro Pessoa Neto, Espólio de Rafael Pinto da Silveira, Benedito Ostervaldo da Silveira e Glaydston Luiz Farias Muniz; Sul: Jaime Muniz Vasconcelos e Fazenda Lagoa do Mato de Francisco Pereira da Silva; Leste: Espólio de Tarcisio Irapuan Sales e Glaydston Luiz Farias Muniz; Oeste: Cajueirinho de João Muniz Sobrinho e Espólio de Julia Maria do Nascimento.
A Vila da Caiçara
Nas imediações da antiga sesmaria do Sítio Castelhano, localiza-se a Vila da Caiçara, sede do distrito de mesmo nome, pertencente ao município de Cruz. A povoação localiza-se a margem da Lagoa da Jijoca, que delimita a fronteira municipal com Jijoca de Jericoacoara. A região integrava a antiga área de ocupação dos indígenas Tremembé, habitantes tradicionais do litoral oeste do Ceará, cuja presença legou diversos topônimos. O próprio termo Caiçara deriva do tupi antigo ka'aysá ou ka'aysara, significando uma cerca feita de estacas ou galhos, podendo ser utilizada para proteção, currais ou armadilhas de pesca (Navarro, 2013, p. 210).
Segundo a tradição oral, o primeiro nome da localidade seria, na verdade, Boa Esperança, mas, com o tempo, esse teria sido mudado para Caiçara, em referência às cercas de pau-a-pique que a rodeavam. São lembrados como alguns dos primeiros habitantes: João Pereira [Dutra], professor do antigo povoado de Cruz, subvencionado pela prefeitura em 1908, Zé João, Armando Rufino e, posteriormente, o Sr. João Ladislau de Paula Magalhães, subprefeito de Cruz em 1962.
No ano de 1880, o povoado iniciou a construção de sua primeira capela dedicada a São Francisco de Assis, liderada pelo agricultor Antônio Pereira Brandão, que doou 100 braças de terra para formar o patrimônio da igreja. Antônio era filho de João Pereira Brandão (1810-1888) e Ignacia Maria da Purificação (1812-1858), naturais da Timbaúba, atual Aranaú, Acaraú. Segundo o depoimento do memorialista Jacinto Pereira, bisneto de Antônio Pereira Brandão, esta morava em uma casa de taipa, com madeira de coqueiro, coberta de telhas, na localidade de Cavalo Bravo, "aproximadamente no centro de sua terra, que tinha mais de 700 metros de largura por uma légua de comprimento, que ia do travessão das pedrinhas, que foi construído pelos meus antepassados, até a terra da Marinha no litoral" (Pereira, 2022; 2024).
Em 15 de fevereiro de 1857, João Pereira Brandão, pai de Antônio Pereira Brandão, declarou possuir "duas posses de terra... nas terras da Timbaúba e Falcão, cujas posses de terra as houve por compras, cujas ignora-se suas extremas", conforme consta no Livro de Registro de Terras da Freguesia da Barra do Acaraú 1855-1857 (nº 480, Vol. 1, fl. 76). Essas terras provavelmente foram legadas a seu filho que as doou para a construção da capela.
A ermida, rudemente construída, foi inaugurada a 4 de outubro de 1880, com a bênção, pelo Pe. Antônio Xavier Maria de Castro, pároco de Acaraú (Araújo, 1989, p. 73). Esse templo passou por uma reforma significativa, iniciada em 1914, conduzida por Manoel Ferreira da Silva e outros, que a ampliou. Após a reforma, ela foi solenemente abençoada em 17 de outubro de 1923, pelo Padre Antônio Tomaz, que fez registros no Livro do Tombo da paróquia de Acaraú (Barroso, 1999, p. 260).
Ainda segundo Jacinto Pereira, após sua morte, a propriedade de Antônio Brandão foi dividida entre seus nove filhos, "tocando a cada um quarenta e duas braças, três palmos e duas polegadas de largura por uma légua de comprimento". E continua:
"Posteriormente, foi formado um patrimônio para São Francisco, para manutenção do serviço religioso na capela, e alguns dos herdeiros doaram metade de sua herança para sua composição. O tal patrimônio deveria ser constituído por uma légua quadrada de terra tendo a capela no centro, a ser doada por proprietários desses terrenos. Nem todos os herdeiros de Antônio Pereira Brandão doaram terrenos para composição desse patrimônio, preferindo vender para pessoas endinheiradas do então município de Acaraú" (Pereira, 2022).
Em 1887 foi construído, também pela comunidade local, um cemitério em Caiçara. Em 1955, os Srs. Francisco Galdino de Sousa e Francisco Marques da Rocha o ampliaram, sendo sua nova bênção oficiada pelo Pe. Sabino de Lima, a 10 de janeiro de 1956 (Araújo, 1989, p. 141). Anos mais tarde, em 1987, cem anos após a sua construção, o Cemitério passou por uma nova reforma, que resultou em sua ampliação (Ceará, 2015, p. 180).
No mesmo ano da bênção solene da capela, em 12 de fevereiro de 1923, instalou-se na povoação de Caiçara, o Cartório do distrito de Jericoacoara, tendo como Oficial o Sr. Manoel Ferreira de Albuquerque, que ali esteve até 8 de fevereiro de 1932. Sucederam-no: Joaquim Carvalho da Mota, de 3 de março de 1933 a 26 de dezembro de 1934; Manoel Ferreira de Albuquerque, de 15 de abril de 1935 a 20 de janeiro de 1936; Manoel Marques de Sousa, de 5 de fevereiro de 1936 a 1951; Francisco Romão de Menezes, de 11 de outubro de 1951 a 2 de maio de 1955; Manoel Marques de Sousa, de 30 de maio de 1955 a 22 de junho de 1958; João Ladislau de Paula Magalhães, de 19 de setembro de 1963 até seu falecimento, em 1975. Então o Cartório foi posto em concurso, sendo aprovado o serventuário José Arteiro Cruz, que assumiu a 11 de março de 1977, e achava-se no exercício ao menos até 1989 (Araújo, 1989, p. 143).
Em 19 de novembro de 1939, em comemoração a realização das Santas Missões Populares, foi erguido por Pe. Pedro, em Caiçara, na Rua José João, s/n, um monumento em forma cruz medindo cerca de oito metros de altura, chamado Santo Cruzeiro. Reza a tradição de que os fiéis o trouxeram nos ombros desde a cidade de Bela Cruz, como demonstração de sua fé (Cruz, 2024, p. 94). Antigos moradores dizem que antigamente o local era usado para o sepultamento de crianças pagãs, porque a Igreja não aceitava que as mesmas fossem sepultadas no cemitério (Caiçara Online, 2012). Esse marco histórico religioso foi tombado pela Lei Municipal nº 833, de 07 de junho de 2024, em função de sua "importância histórica, cultural e religiosa para a comunidade".
Ao longo do século XX, Caiçara buscou sua consolidação administrativa e religiosa. Na década de 1950, houve um forte movimento dos fiéis para transformar a localidade em uma paróquia independente, projeto que chegou a ter o apoio do bispo Dom José de Sobral. No entanto, a criação da paróquia foi adiada após o sacerdote indicado para a função relatar que não conseguiria conviver com as dificuldades e a "pesada solidão" do então isolado lugarejo (Araújo, 1989, p. 76). A paróquia só foi criada, independente da de Cruz, em 12 de novembro de 2017.
Dr. Lima, memorialista da região, recorda os antigos trabalhadores:
Também os trabalhadores tinham onde recuperar suas ferramentas com os ferreiros Chagas Ferreira e Francisco Antero. Mas, se o caso era couro tinha o soleiro José Joaquim e o sapateiro Toca Lima. Os carpinteiros Tiago e Antônio Lima fabricavam móveis para todas as famílias, principalmente para os recém casados que pretendiam mobilhar as casas. A primeira padaria instalada na comunidade pertencia ao Senhor José Filenom natural da cidade de Morrinhos. As construções ficavam a cargo dos pedreiros Luís João e Geraldo Muniz. As costureiras Ângela Marta da Silva, Antônia Maria da Silveira e Rita Pereira de Sousa cuidavam da confecção e remendo das roupas usadas na comunidade e preparavam os noivos para os matrimônios (Lima, 2012).
Em termos civis, Caiçara foi oficialmente elevada à categoria de distrito de Acaraú pela Lei Estadual nº 6.690 de 1963, decisão que foi posteriormente ratificada e homologada pela Lei nº 11.323 de 22 de maio de 1987, após a emancipação do município de Cruz. Conforme essa a última legislação, Art. 1º, os limites distritais eram:
O NORTE — Com o Oceano Atlântico, desde o travessão dos herdeiros de José Júlio Lousada até o Riacho Doce, onde derrama as águas da Lagoa da Gijoca. AO LESTE — Nas terras dos herdeiros de José Júlio Lousada, na Fazenda Santo Estevão, rumando em linha reta até o Oceano Atlântico, na localidade de Formosa. AO SUL — Começando na Lagoa da Gijoca, no travessão de Pedrinhas, até encontrar o travessão de José Leorde, onde separa as terras do litoral, seguindo pelo mesmo travessão até encontrar o travessão divisório das terras de José Maria Ossias e Raimundo Nonato de Vasconcelos, seguindo pelo mesmo travessão até encontrar a Estrada de Caiçara e, por esta estrada, até à Fazenda Santo Estevão, AO OESTE — Começando em Riacho Doce, seguindo pelo mesmo, até a Lagoa da Gijoca, seguindo pela mesma Lagoa até encontrar o travessão de Pedrinhas.
A denominação das ruas da Vila de Caiçara foi dada pela Lei Municipal nº 33, de 25 de setembro de 1988, Art. 1º: Mons. Sabino [de Lima Feijão], Afonso [Henrique] Fontes, José João, Profª Fransquinha (Francisca Maria de Sousa), Pe. [Manoel] Valdery [da Rocha], 22 de Maio (em referência a criação do distrito) e Domingos Muniz. Em 1987 foi construída a praça central, mas a energia elétrica chegou apenas em 1988, na gestão do prefeito Jonas Muniz. Em 1989, foi inaugurada a primeira escola, hoje Creche Francisco Antônio Costa Moura, além de outra, denominada Escola João Ladislau de Paulo Magalhães (Ceará, 2015, p. 180).
Em 2023, por força da Lei Municipal nº 804, de 18 de agosto, os limites do distrito de Caiçara foram revisados para: Norte: Parque Nacional de Jericoacoara; Sul: propriedades particulares situadas nas localidades de Buriti, Formosa, Caiçara, Córrego da Caiçara e Correguinho; Leste: Terras de Marinha (Oceano Atlântico) e município de Acaraú; Oeste: terras da Diocese de Sobral e Lagoa do Meio.
Esse território é marcado por belezas naturais e recursos hídricos, sendo banhado pela Lagoa da Caiçara (ou da Carnaubeira) e limitado ao norte pelo Oceano Atlântico. Além da vila sede, o distrito engloba diversas comunidades, como Preá, Cavalo Bravo, Formosa, Rancho do Peixe, Córrego das Panelas, Córrego dos Anas, Córrego dos Bentos e Santo Estevão. Entre estas a Vila do Preá e a mais desenvolvida, em função do crescimento da atividade turística.Vila do Preá, 1980.
Entre as manifestações culturais de Caiçara, destacam-se a Festa do Distrito, comemorado dia 22 de maio, desde o ano de 2000, e a Festa do Padroeiro, realizada no terceiro final de semana de setembro. Na sexta-feira da Paixão, os comerciantes não abrem seus estabelecimentos comerciais em respeito ao feriado católico. Muitos também, falam em uma superstição de que "quem pega em dinheiro na quinta-feira à noite ou na sexta-feira santa tem sua vida prejudicada no futuro". Nesse dia, também há uma tradição dos afilhados visitarem seus padrinhos levando bolos, doces, pães e chocolates (Caiçara Notícias, 2013). Caiçara também é conhecida pela produção artesanal de esteiras de junco, cordas e redes de tucum que também eram usadas para currais de pesca no mar.
A Praia do Preá
Preá é o nome popular de uma espécie de roedor, cujo nome científico é Cavia aperea, de ocorrência comum em todo o Vale do Acaraú. Dá nome a uma localidade praiana dentro da área do distrito de Caiçara, nos limites do Parque Nacional de Jericoacoara. Sua origem remonta ao ano de 1953, quando, no dia 10 de agosto, teria se instalado nessa região a família do Sr. Leopoldo Manoel de Medeiros (n. 01/05/1908, f. 12/02/1974), um dos primeiros moradores, vindos das imediações da Vila de Caiçara.
Era natural da localidade vizinha de Formosa, filho de Francisco Anão de Medeiros e Maria Francisca da Cruz. Casou-se com Maria Madalena Chaves, filha de José Martins Chaves e Francisca Ferreira Chaves, sendo pais de dez filhos. Segundo a tradição, foi o Sr. Leopoldo Medeiros que deu nome Preá ao local. Este foi sucedido por outras famílias, provenientes de comunidades vizinhas como: Cavalo Bravo, Caiçara, Jericoacoara e Formosa, que se mudaram para o Preá nas décadas seguintes.
A comunidade se consolidou como vila de pescadores, tendo a pesca artesanal como atividade econômica central, enquanto as mulheres se dedicavam ao beneficiamento do pescado, ao conserto de redes e à mariscagem. Dentro do território da comunidade existem microtopônimos com origem explicada na tradição local: Baixa Verde, nome derivado de um córrego cujas margens mantinham vegetação verde durante todo o ano, e Rancho do Peixe, denominação originada de um rancho de palha de coqueiro construído pelos pescadores para guardar peixe e material de pesca, servindo de ponto de apoio.
O principal evento cultural da comunidade do Preá é a Festa de São José, comemorada no dia 19 de março. Segundo Dr. Lima, radialista do município de Cruz, a tradição teria começado no início da década de 1970, com uma promessa feita por Dona Creusa, esposa de Manoel Carneiro, pedindo a cura do filho Clodoaldo, então enfermo. Alcançada a graça, Creusa reuniu outras mulheres da comunidade para pagar a promessa, lançando ao mar um barquinho a vela, transportadas em um canoa pelo pescador Manoel Ferreira de Vasconcelos (Pereira, 2023).
No ano seguinte, o empresário da pesca Eliézio Marques deu início aos festejos propriamente ditos, promovendo procissão marítima com a imagem de São José seguida de missa em terra firme, prática que se consolidou como tradição de mais de meio século. As primeiras missas foram celebradas em uma pesqueira, prédio rústico onde os pescadores guardavam seu material de pesca. Com o crescimento da devoção, a comunidade ergueu, em mutirão com apoio de localidades vizinhas, um segundo prédio para abrigar a imagem de São José e sediar eventos comunitários, hoje transformado em centro de artesanato. Posteriormente, padres e lideranças religiosas suspenderam por vários anos os atos religiosos, em razão do comportamento de banhistas que participavam da missa trajados de roupa de banho e, por vezes, embriagados.
José Martins dos Santos, conhecido como Zé Ana, tomou então a iniciativa de construir, com recursos próprios, um templo particular para retomar os festejos, com procissão em terra e mar, missas, novenas, leilões e bingos, ficando a coordenação religiosa a cargo de sua filha Zélia Martins. Com o falecimento de Zé Ana, esse templo particular foi desativado e os festejos passaram a ser realizados na Igreja de São Pedro, erguida em homenagem aos pescadores. Posteriormente, Santino Manoel Martins liderou nova campanha comunitária para a construção da Igreja de São José, iniciada em 2013 sob condução do Pe. Marcone, com colaboração de Josimar Neves, que doou a ferragem, do prefeito Jonas Muniz, que doou as telhas, e do pedreiro Del Marques, do Cajueirinho, responsável pela obra.
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