De Juritianha à Água das Velhas

Este artigo tem por objetivo trazer elementos sobre a história da região de Juritianha, em Acaraú, e Itarema. Para tanto, utilizei desde fontes primárias documentais, em particular, no que se refere ao processo de ocupação colonial, mas também da memória oral contida na fundamentação do plebiscito de emancipação do distrito de Juritianha (Ceará, 2010) e do memorialista José de Fátima Silva, além de blogs da região.

A Região de Água das Velhas

A ocupação colonial das terras do atual distrito de Juritianha remonta à concessão feita ao Pe. Felipe Pais Barreto e Maria da Costa, realizada a 12 de março de 1725, conhecida como "Data da Juritianha". O topônimo, juriti = uma espécie de pombo + anga = ajuntamento, pode significar algo como abrigo ou ajuntamento de juritis. Na petição, o sacerdote explica que:

Diz o Pe. Phelipe Pais Barretto e Maria da Costa que elles alcançaram húas datas de terras nas agoas das Velhas e dellas tirou o Dezembargador Christovão Soares Reimão húa Legoa de terra p.º a missam do tapuya Tramanbe, em reconpença dar outra aonde a ouvesse, e p.º hisso pede as Ilhargas da Yurihanga [Juritianha] e testadas e sobras das suas datas, pera nellas prantarem suas prantas e lavouras, e pagarem dizimo a sua Magestade que Deos guarde. Por tanto pedem a vossa merce seja servido conçederlhe a Legoa de terra e duas mais de comprido, e húa de largo meya p.* cada banda, e reçeber a merce (Sesmarias, Vol. 11, nº 132, p. 208).

A sesmaria da Água das Velhas a qual se refere Barreto, foi obtida quase 20 anos antes, em 12 de setembro de 1706, medindo uma légua no rio Aracati-mirim [Acaracu-mirim], com meia para cada lado, juntamente com o Capitão Pedro de Mendonça e demais companheiros (Sesmarias, Vol. 3, nº 154, p. 49). Nesse contexto, "Água das Velhas" se refere ao lagamar ao norte do atual município de Itarema, assim como a região de Almofala, entre o referido lagamar e o Rio Aracati-mirim. Para fins de localização, é importante destacar que o referido rio desembocava bem mais a oeste do que sua posição atual, tendo seu curso alterado pelas dunas que, séculos depois, soterraram essa localidade.

Em 1709, o Desembargador Cristóvão Soares Reimão realizou o tombamento das sesmarias concedidas no Ceará, revertendo as concessões que não tivessem sido ocupadas dentro do prazo legal de cinco anos (Araújo, 2005, p. 91). Durante esse processo, o desembargador também demarcou as terras da missão do Aracati-mirim, em atendimento a lei régia de 23 de novembro de 1700, que concedeu a cada missão um légua de terra em quadro, desde que fosse composta de ao menos cem casais (Studart, 2001, p. 126). Para tanto, confiscou as terras de Pe. Felipe, que, como compensação, pediu novas terras na Juritianha.

Na mesma região, foi concedida em 30 de setembro de 1735 uma sesmaria de seis léguas de terras ao Coronel José Bernardo Uchoa e Manoel da Guarda Monteiro. O peticionantes alegam que:

... na agoa das Velhas nas Ilhargas do Padre Philippe Paiz Barretto, se acham terras devolutas e dezaproveitadas athe o prezente e, caso fossem pedidas por alguma Pessoa, e nam tem sido cituadas e juntamente as querem haver por prescripção, concedendolhes vossa mercê em nome de Sua Magestade as ditas Sobras com seis Legoas de Comprido pellas Ilhargas do dito Padre, tres pera cada um, e huma de largo, portanto (Sesmarias, Vol. 13, nº 7, p. 16).

Para a historiadora Leiliane Magalhães, essa sesmaria corresponderia a porção não ocupada por Maria da Costa, companheira de terras do Pe. Felipe Barreto. Destaca-se que não é clara a relação entre Maria da Costa e o sacerdote, mas eles pediram ao menos outras três sesmarias juntos. Sabe-se porém que ela era casada com Gabriel Barbosa Mendes, que fora vereador da Vila de São José de Ribamar em 1704 (Magalhães, 2023, p. 128-129).

O Porto de Itapagé

A atual fronteira entre os municípios de Acaraú, na região do distrito de Juritianha, e Itarema foi herdada da divisão do antigo Curato do Acaraú, em 1757. Nesse processo, foram criadas as freguesias de Caiçara e de Amontada, que juntas vieram a constituir o termo da Vila de Sobral, criada em 1773. Conforme D. José Tupinambá da Frota, o limite entre essas duas freguesias era dado pela chamada "picada do Itapagé", com 34 léguas (~224 km) de comprimento (Frota, 1974, p. 62). Em 12 de novembro de 1766, foi criada a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Almofala, desmembrada da Freguesia de Amontada, como pode ser visto no Mapa Geográfico da Capitania do Ceará, de 1800 (abaixo).

Recorte do Mapa Geográfico da Capitania do Ceará, 1800.

O extremo norte dessa picada era conhecida como ponta de Itapajé, existindo nessa região um porto, pelo menos desde 1762, quando, segundo Geraldo Nobre, por edital de 10 de setembro, o capitão-mor João Batista de Quevedo Homem de Magalhães instituiu os distritos para a defesa dos portos, um dos quais “... do Aracatiassu acima até o rio Jaybaras, no porto de Itapagé, comandante o Capitão de Auxiliares Inácio João Coimbra...” (Nobre, 1977, p. 151). Sabe-se que residia no referido porto, Leonardo Correia de Sá, cujo inventário foi feito no dia 1 3 de novembro de 1735, tendo como louvados Manoel Vaz Carrasco e Antônio Paes Barreto (Araújo, 2005, p. 156). Era irmão do Tenente João de Sá, tratado em outra postagem.

Não existe um consenso sobre a localização exata desse porto, situando-o a historiadora Luciara de Aragão Frota na chamada enseada dos Patos, na margem oriental do Aracati-mirim, o que é contestado por Geraldo Nobre, citando Álvaro Gurgel, que localiza o porto no litoral de Itarema (Frota, 1974, XXX; Nobre, 1977, p. 152). Particularmente, acredito tratar-se da atual localidade de Porto dos Barcos, em Itarema, localização compatível com as descrições e convenientemente próxima a antiga Missão do Aracati-mirim, em Almofala, a qual esteve certamente ligado.

Essa opinião é compartilhada pelo geógrafo Francisco de Assis Bezerra Filho, baseado nas características fisiográficas do porto e na própria tradição local. Conforme o pesquisador:

"Este local [Porto dos Barcos], segundo moradores e pescadores nativos, é de uma ocupação histórica que já consta seu tricentenário [...], pois de acordo com os relatos orais dos nativos do período histórico retratado (transmitido para as gerações atuais), a área foi considerada “um local da baía mais fundo” estando regulamentada pela influência das marés. No qual essa localidade podia receber embarcações de médio a grande porte (para aquela época da inicial ocupação/exploração europeia) nos momentos de marés cheias. O recebimento deste nome data do início da construção da igreja de Nossa Senhora da Conceição de Almofala dos Tremembés". (Bezerra-Filho, 2017, p. 56).

Embora não se possa levar ao pé da letra a opinião dos moradores, é um indício indireto da longevidade do porto. A menção mais antiga que encontrei ao Porto dos Barcos foi feita por Thomaz Pompeo de Sousa Brasil, no Ensaio Estatístico da Província do Ceará, de 1863, onde trata da relação de portos da freguesia do Acaraú (De Sousa Brasil, 1863, p. 38).

Ademais, no manuscrito "Idea da população da capitania de Pernambuco", do Governador José Cezar de Menezes, consta que na década de 1770 havia apenas três portos na Ribeira do Acaraú, sendo um deles o de Camocim e os demais, deduz-se, Oficinas, em Acaraú e Itapagé. Nesse mesmo documento, o governador descreva o limite entre as freguesias de Sobral e Amontada como sendo a "barra" do Itapagé (fl. 17). No dicionário Dicionário da Língua Brasileira, publicado em 1832, consta no verbete barra a seguinte definição: "Entrada de um bom porto de mar com terra de hum, e outro lado" (Pinto, 1832).

Isso corresponde precisamente a descrição geográfica da região de Porto dos Barcos, em Itarema. Corrobora ainda com isso, a Carta topographica da Capitania do Seará, de 1812, onde o porto de Itapagé aparece ligado ao Lagamar da Água das Velhas (abaixo). 

Carta topographica da Capitania do Seará, 1812.

A Capela de Santa Cruz da Água das Velhas

Consta na relação das primeiras capelas do curado do Acaraú, uma cuja localização original é, até então, ignorada, referida como Capela de Santa Cruz da Água das Velhas. O registro mais antigo que a menciona foi um batizado realizado por Pe. Felipe, em 13 de janeiro de 1726. A criança, de nome João, era filha de Nicolau da Costa Peixoto e Paula de Sá, sesmeiros de Bela Cruz, sendo padrinhos o Ajudante Antônio de Sousa e Serafina da Silva (Liv. a, fl. 2v apud Araújo, 2005). Entretanto, nessa época, a capela deveria existir apenas de forma rudimentar e improvisada, visto que quatro anos depois, a 3 de agosto de 1730, a Fazenda Água das Velhas recebeu a visita de Pe. Isidoro Rodrigues Resplandes, cura da Ribeira do Acaraú, que registrou a existência de uma capela ainda em construção (Araújo, 2005, p. 128).

Nessa ocasião, Resplandes batizou duas crianças: José, filho de José Ferreira e Andresa da Costa e Manoel, filho de Pedro Álvares e Joana Pereira. Os padrinhos de ambas as crianças foram o Capitão Domingos de Aguiar e Oliveira e sua irmã, Maria Madalena, mulher do Cap. Manoel Vaz Carrasco (Cfr. Liv. 1, fl. 17 apud Araújo, 2005). Tanto Domingos de Aguiar quanto Manoel Vaz Carrasco foram proprietários de terras no atual município de Bela Cruz, onde o primeiro foi o instituidor, juntamente com Nicolau da Costa Peixoto, do patrimônio de outra Capela de Santa Cruz (de Bela Cruz), em 1732.

Sobre sua origem, consta no pedido de sesmaria de José de Barros, concedida a 14 de novembro de 1744, a seguinte descrição:

Diz José de Barros Barreto, morador na Ribeira do Aracati-mirim, sítio da Água das Velhas desta Capitania, como ... do defunto Reverendo Padre Estevão Pais Barreto e administrador da Capela de Santa Cruz, situada no mesmo lugar, instituída pelo Reverendo Padre Estevão Pais Barreto, já defunto, que este, em sua vida, era senhor possuidor de três léguas na dita Ribeira, por compra que fez ao primeiro donatário delas, Jacinto da Costa, pela data que oferece, e delas fez venda de uma légua e, para melhor dizer, a doação a um seu neto chamado Manoel Lopes Lima, que passou a Ignácio João Coimbra, e este, depois, fazendo testamento com que faleceu, deixou outra légua chamada a Pedrinha de Nossa Senhora do Desterro de Roma, e terceira légua a deixou à sua capela instituída de Santa Cruz, a qual légua é a que chamam o Castelo (Sesmarias, Vol. 14, nº 220, p. 240).

Esses terras foram obtidas originalmente por Jacinto da Costa, em 15 de janeiro de 1707 (Sesmarias, Vol. 4, nº 197, p. 20). O trecho evidencia que a dita capela foi instituída pelo Padre Estevão Pais Barreto, muito provavelmente parente de Felipe Pais Barreto, sendo esses sobrenomes ligados a elite açucareira de Pernambuco. Já José de Barros Barreto aparece como possível herdeiro de Estevão, também coincidindo o último sobrenome.

Sobre José, sabe-se que é natural do Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco. Viveu com Margarida de Souza, solteira, índia, nascida na Vila de Viçosa do Ceará, com quem teve João Félix Nepomuceno c.c. Josefa Gomes, filha de Manoel Gomes de Oliveira, n. Ceará, e de Maria Gonçalves, n. Almofala (Lima, 2016, p. 1748). Com com Joana Maria, de Almofala, teve Gonçalo Paes Barreto, c.c. Isabel Dias Leitão, filha de Diogo Verçosa Leitão e Cosma Figueira Linhares em 13 de abri de 1768. Foi eleito vereador da Câmara de Fortaleza em eleição realizada a 26 de julho de 1752 (Studart, 2001, p. 257). Também aparece como Capitão do Regimento de Cavalaria da Ribeira do Acaraú em 01 de julho de 1760 (Gomes, 2009, p. 289).

Em 17 de janeiro de 1750 assistia na Capela de Água das Velhas, Pe. Félix Azevedo de Farias, então com 60 anos, quando atuou como testemunha contra Pe. Vicente Dantas, do Trairi, por quebra do sigilo de confissão (Teixeira, 2025, p. 125). Sabe-se também que com a provisão episcopal de 30 de agosto 1757, que levou ao desmembramento do Curato do Acaraú, ela ficou vinculada a Freguesia de Amontada, existindo registros de cerimônias sendo realizadas na mesma até pelo menos 1782 (Lima, 2016, p. 1215).

Em levantamento realizado pela Câmara de Sobral em 1788, João Félix de Nepomuceno declarou ser proprietário da Fazenda Água das Velhas, medindo "meia quarta de terra de comprido com a mesma largura do dito sítio que principia com terras de Manoel Gomes da Silva [ou de Oliveira, seu sogro] e finda com terras do Patrimônio da Capela de Santa Cruz [da Água das Velhas]" (Frota, 1974, p. 282). No mesmo levantamento, o citado Manoel Gomes também se declarou proprietário do Sítio Água das Velhas, medindo três quartos de légua de comprido com meia légua de largura entre as terras de João Félix e de Joaquim Gomes Diniz (ibidem, p. 294).

A Família Martins

Segundo Nicodemos Araújo:

Em o sítio Riacho, parte da sesmaria do Padre Felipe, se localizou o proprietário Joaquim Martins dos Santos, filho de Caetano Martins dos Santos, genitor da família Martins, que ainda perdura entre nós. Era ele descendente do colono português Manoel Martins dos Santos, domiciliado em Mundaú, que, há mais de dois séculos, adquiria entre nós as terras denominadas Córrego do Fernando.

Em Riacho se erigiu uma capela, precisamente na parte de terra hoje pertencente aos herdeiros de Miguel Martins dos Santos e outros. Por isso mesmo se denominava aquela concessão Terras da Capela — ou, ainda, Terras do Encapelado — do Riacho d’Água das Velhas e Itapagé (Araújo,1940, p. III).

Ainda conforme Araújo, essa capela teria sido erguida no século XIX pelo próprio Miguel Martins dos Santos, "a qual, alguns decênios depois, desapareceu na voragem do tempo" (Araújo, 1971, p. 328). Em consulta a moradores da região, fui informado de que "terras da capela" era uma denominação antiga de Itarema, que ainda hoje possui bairros chamados Riacho e Água das Velhas. Teria esse templo ocupado o lugar da primitiva Capela de Água das Velhas? Infelizmente, não temos elementos suficientes para julgar essa hipótese. Mas essa opinião parece ser corroborada pelo memorialista local José de Fátima Silva.

Para José de Fátima, a capela primitiva da Água das Velhas teria sido concluída em 1732, sendo a primeira missa realizada pelo próprio Pe. Felipe Pais Barreto, em 17 de fevereiro de 1735. Teria sido dedicada a São Julião da Laje, sendo a imagem do orago trazida de Portugal pela esposa de Miguel Joaquim Martins dos Santos, a quem atribui a construção da mesma. Joaquim seria vaqueiro da fazenda da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Almofala, sendo o local onde habitou correspondente ao atual bairro do Riacho (antigo bairro da Fazenda). Ainda segundo Silva, em 1798 a capela original deteriorou-se, coincidindo com o período em que parte da família Martins se transferiu para Acaraú e para a localidade de Olhos d'Água. A imagem de São Julião desapareceu nesse processo e não foi recuperada (Silva, 2023, p. 4).

Em que pese a alegação do respeitável pesquisador, acredito que houve uma confusão quanto a genealogia da família Martins. O primeiro desta a vir para o Ceará foi o já mencionado Caetano Martins dos Santos, natural de Lisboa, e morador do Siupé, onde faleceu com um tiro de espingarda a 5 de novembro de 1751, mesmo ano em que foi reeleito vereador da Câmara de Fortaleza. Ele casou-se com Domingas Marques da Costa, filha de Antônio Marques Leitão e de Apolônia da Costa, donos da Fazenda Caiçara, futura Sobral (Lima 2016, p. 499).

Esse casal foi pai do Capitão Manoel Martins dos Santos, que, a 23 de novembro de 1775, casou-se no Trairi com Ana do Sacramento, filha do Tenente Tomé de Souza Machado e de Ana Maria do Sacramento, ambos pernambucanos. Esses foram pais de Caetano Martins do Santos (Neto), e este, por sua vez, dos ditos Joaquim Martins dos Santos e Miguel Martins dos Santos.

Portanto, se a família Martins foi mesmo a responsável pela construção da primitiva Capela de Água das Velhas, considerando época em que viveram, somente o patriarca Caetano Martins dos Santos poderia tê-lo feito, o que carece de evidências. O que seria mais plausível é que templo erguido na sesmaria de Pe. Felipe tivesse de fato colapsado em algum momento entre o fim do século XVIII e início do século XIX, sendo posteriormente reconstruído por Joaquim Martins dos Santos ou por seu pai Caetano Martins dos Santos (neto). Mas isso é apenas uma especulação.

Quanto ao orago, São Julião da Lage, sabe-se que existiu uma antiga freguesia com essa denominação em Portugal, que pertencia ao concelho de Vila Verde, Distrito de Braga. José de Fátima sugere que essa possa ser a procedência da esposa de Joaquim Martins dos Santos, Maria Tereza de Jesus Pena, filha do Tenente Luiz Antônio Pena. Mas cabe ressaltar que não encontrei qualquer menção a esse santo nos livros paroquiais indexados na plataforma FamilySearch, o que me deixa cético quanto a precisão desses acontecimentos.

A Vila de Juritianha

A vila de Juritianha desenvolveu-se a margem de um antigo caminho que ligava os dois principais povoados da região: Almofala, em Itarema, a Barra do Acaraú. As primeiras casas foram construídas em taipa e cobertas com palhas de carnaubeira. São lembrados como os primeiros moradores, Manoel Alves do Monte, Antônio Graciano da Silveira, Antônio Ramos, Maria do Carmo e João Ribeiro (Ceará, 2010, p. 9).

Existe hoje em Juritianha uma capela dedicada a Santa Rita de Cássia, cuja origem remonta a meados do século XIX. Santa Rita de Cássia foi uma religiosa italiana do século XV, tendo sua devoção difundida pelo mundo católico como expressão de fé associada à esperança, à reconciliação e à intercessão diante de situações consideradas impossíveis. Foi beatificada em 1626 pelo papa Urbano VIII e canonizada quase três séculos depois em 24 de maio de 1900, pelo papa Leão XIII, o que certamente colaborou para sua popularização, principalmente a partir do início do século XX.

Conforme o memorialista Totó Rios, o nicho primitivo foi erigido e mantido pela Irmandade de Santa Rita de Cássia da Juritianha, que teve sua criação aprovada em 7 de outubro de 1875, pelo padre Antônio Xavier Maria de Castro. Segundo Nicodemos Araújo, a irmandade teria sido, de fato, instituída em 14 de novembro de 1880 (Araújo, 1971, p. 108). Ressalta-se, entretanto, que esta irmandade pode ser ainda mais antiga, visto que seu termo de compromisso foi aprovado quase duas décadas antes, pela Lei Provincial nº 1.001, de 2 de setembro de 1861. Quanto ao ano de construção da capela, essa teria ocorrido em 1870 (Araújo, 1940, p. 209).

Entre 1916 e 1922 o templo, originalmente construído em taipa, passou por uma reforma, sendo reconstruído em alvenaria, medindo aproximadamente 26 metros de comprimento por 12 metros de largura. Sobre o processo de reconstrução, contam os antigos moradores que os tijolos eram feitos nos nas comunidades vizinhas, enquanto as vigas de madeira eram trazidas de outros estados, através do Porto de Acaraú. Segundo a tradição, teriam sido levadas a Juritianha nos ombros dos moradores, que trabalharam em forma de mutirão, ao som de foguetes. Já os caibros e linhas eram de carnaubeira, extraídas da própria região (Ceará, 2010).

Igreja Santa Rita de Cássia, Juritianha

Os trabalhos foram chefiados por Livino Graciano da Silveira, homem de confiança dos sacerdotes, que foi procurador da capela mais de 50 anos. Para financiar a reforma, realizava leilões e pedia doações aos devotos e romeiros da Padroeira (Rios, 2009). Livino nasceu em 18 de fevereiro de 1881, filho do Capitão José Graciano de Vasconcelos e Rita Frankalina da Silveira. Casou-se em 29 de setembro de 1906 com Izabel Maria da Silveira, sendo ambos descendentes do açoriano João da Silveira Dutra.

Izabel Maria da Silveira e Livino Graciano da Silveira.

Conta-se ainda que a escolha do orago da igreja se deveu ao fato de terem encontrado uma imagem da mesma em uma mata, em meio aos pés de murici (Ceará, 2010). Em outra versão, a santa achada seria outra, que foi posteriormente substituída, como veremos mais adiante. Como a menção a santa já aparece na lei de 1861, esse episódio teria de ter acontecido ainda em meados do século XIX. Em 1887, a imagem da padroeira foi "reencarnada", ou seja, teve a pintura retocada pelo artista Lourenço Correia da Silva Lima, sendo a nova benção realizada a 22 de outubro do mesmo ano (Araújo, 1940, p. 209).

Também é dedicado a Santa Rita o cemitério local, construído na década de 1940, também pelo Sr. Livino, num terreno doado por seu irmão, Sr. Antônio Graciano da Silveira. Livino teria capitaneado ainda a construção da casa paroquial. Antes da construção do campo santo, o defuntos, assim como os doentes eram levados através das veredas em redes até Acaraú. A Paróquia de Santa Rita de Cássia de Juritianha foi criada apenas em 1990, durante o episcopado de Dom Antônio Roberto Cavuto, então bispo da Diocese de Itapipoca, a qual permanece vinculada. Em 1994, a Diocese transformou a comunidade e adjacência em Área Pastoral de Juritianha.

Infraestrutura e Desenvolvimento do Povoado

As primeiras estradas foram construídas com auxílio de carros de boi e nos lombos de jumentos. A primeira ponte em sistema de manilhas foi a chamada “ponte do cemitério”, tendo à frente o vereador Leocádio Silveira, o primeiro eleito de Juritianha. Já a estrada que corta o lugar, de leste a oeste, foi aberta em 1958, sendo, por isso, conhecida como estrada do “58”. Posteriormente, Pe. Aristides Andrade Sales, na posição de prefeito de Acaraú entre 1973 e 1976, promoveu melhorias na estrada, colocando uma camada de piçarra, e construiu a maior ponte da região, no Riacho Juritianha.

Até a década de 1960, as escolas em Juririanha funcionavam em casas de particulares. Entre os primeiro professores, os moradores recordam de Antônio Ferreira, João Rufino, Aládia Soares, Maria Josefina, Luiz Rodrigues Albuquerque, Maria José e outros. A primeira escola pública foi edificada em alvenaria pelo prefeito Joaquim Rocha de Vasconcelos, na década de 60. Chamava-se Escola Reunida de Juritianha, o chamado “prédio velho”. Na gestão de Pe. Aristides, foi construída a então maior escola de Juritianha, a Escola Hugo Martins dos Santos.

O mercado público, conhecido como barracão, foi construído pelo prefeito Adenor Martins, num terreno doado pelo Sr. Gonzaga Livino. Na gestão do então prefeito Pe. Aristides, houve uma ampliação, quando o mesmo construiu um banheiro público e uma cacimba de tijolos. Depois, o prefeito Manoel Duca da Silveira Neto ampliou o espaço e a área de terra em que o mercado estava ocupando. A energia elétrica, com postes de cimento, funcionava inicialmente por meio de um gerador, sendo a ligação a energia de Paulo Afonso realizada apenas em 1975. Em 1980, o referido prefeito Manoel Duca, através do seu vice Edmundo Silveira, natural de Juritianha, ampliou a rede elétrica e levou-a até o bairro Rodagem. Em 1979, a estrada Acaraú–Itarema recebeu a primeira camada de asfalto e os telefones, com postes de madeira (Ceará, 2010, p. 10).

Na administração Aníbal Gomes, tendo como vice novamente o filho da terra Edmundo Silveira, e o vereador Armando Silveira (1985–1992), o lugar recebeu vários benefícios: Teleceará, hospital-maternidade, calçamento, delegacia de polícia, guarda municipal, ambulância de plantão. A Escola Hugo Martins dos Santos foi ampliada e criado o curso ginasial, hoje Ensino Fundamental II; várias construções de escolas em toda a área; e a criação oficial do distrito de Juritianha, em sessão solene, na Escola Hugo Martins dos Santos, Praça da Matriz. Na administração Francisco José Magalhães Silveira, por meio de um projeto do vereador Armando Silveira, foi construída a escola Hermínia Francisca da Silveira. Mais tarde, na administração Magda Gomes, tendo como vice o filho da terra Edmundo Silveira, a escola foi reformada e ganhou quadra coberta.

A Renda de Bilros em Juritianha

A região de Juritianha destaca-se pela produção artesanal, especialmente pela confecção da renda de bilros, uma importante fonte de renda para as mulheres da comunidade. De origem europeia, esse tipo de renda foi trazida para o Ceará por mulheres portuguesas, sendo posteriormente incorporada às práticas artesanais locais, adquirindo características próprias a partir da adaptação dos materiais disponíveis. Ao longo do tempo, a atividade se difundiu sobretudo pelas comunidades litorâneas, entre famílias de pescadores, tornando-se importante fonte complementar de renda e elemento de identidade cultural (Matsusaki, 2016).

Em Juritianha, o conhecimento relacionado à produção da renda de bilros é tradicionalmente transmitido entre gerações, sobretudo de mães para filhas, contribuindo para a preservação desse ofício. A produção da renda envolve diferentes materiais e instrumentos, entre os quais se encontram a palha de bananeira, utilizada como forro da almofada, os bilros, espinhos, linha, papelão e a “rodia”, utilizada como suporte para a almofada.

A produção, que é realizada também em localidades vizinhas, destina-se, em parte, ao consumo da população local, sendo utilizada na confecção de toalhas de mesa, colchas, roupas, peças íntimas, redes, entre outros produtos. Entretanto, o enfraquecimento da tradição ao longo do tempo suscita preocupações quanto à possibilidade de desaparecimento da atividade. Nesse contexto, foram criadas as chamadas “Associações das mulheres rendeiras”, voltadas ao fortalecimento da produção e comercialização de produtos confeccionados em renda. 

Em entrevista realizada para o portal Elos do Acaraú em 2016, a rendeira Grací Domingues, então com 66 anos, relatou que produz renda desde os seis anos de idade (1950). Segundo seu depoimento, o aprendizado do ofício foi herdado de sua tia, carinhosamente chamada de “Dodô”. A entrevistada afirma que a atividade está presente em sua família há várias gerações. A rendeira relata que chega a comercializar três caixas de renda por mês e que, além de produzir, também adquire peças para revenda. Entre as peças produzidas por Grací encontram-se a “Renda de peça” e o “Caminho de mesa”, sendo os modelos mais comuns a “Castanha”, “Caracol”, “8 traças”, “Ciganas”, “Liso” e “Bumbum de sapo”, todos elaborados a partir de moldes em papelão (Nascimento et al., 2016).

Tanque do Meio a Itarema

Assim como Juritianha, Itarema desenvolveu-se a margem da estrada entre Acaraú e Almofala, com o topônimo primitivo de "Tanque do Meio". Dizia-se do Meio porque existiam outros tanques, o de Cima e o de Baixo, destinados ao abastecimento de água às populações vizinhas e aos gados da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição. Conforme o memorialista José de Fátima Silva, esses tanques foram construídos em 1825, por ordem de Padre Clemente da Cruz Oliveira, vigário de Almofala. O tanque de cima situava-se na localidade de Água das Velhas (atual Caraúbas), enquanto o de baixo situava-se no terreno posteriormente pertencente aos herdeiros de Mundico Ribeiro, cujo vaqueiro era o já citado Miguel Martins (Silva, 2023, p. 3).

O tanque do meio localizava-se próximo à residência de D. Julita, na descida em direção à Praia da Barra, e servia como parada para os viajantes que conduziam comboios vindos de Acaraú e Sobral. Próximo a essa fonte d'água formou-se um pequeno arraial, e em 1870 havia ali construído um pequeno nicho de taipa, em homenagem a Nossa Senhora dos Navegantes, no mesmo local onde hoje encontra-se a Igreja Matriz (Girão, 1983, p. 298). A obra teria sido concebida pelas irmãs Maria do Amparo e Joana de Barros, que doaram o terreno para tanto. A bênção da Capela teria ocorrido no ano de 1885, pelo vigário de Acaraú, Pe. Antônio Xavier Maria de Castro.

Conforme o Sr. José de Fátima, um tio das moças, residente em Juritianha, teria encontrado uma imagem de Nossa Senhora dos Navegantes e levado para Itarema, colocando-a no nicho. Entretanto, a posse da imagem foi questionada, gerando uma disputa entre as famílias de Itarema e Juritianha, que tomavam a imagens uma das outras, deslocando-a entre as duas localidades. A solução do conflito teria vindo da mediação do próprio Pe. Antônio Xavier, que se comprometeu em conseguir uma nova imagem para Juritianha, encomendada de Portugal. Entretanto, chegando a nova imagem, notaram que tratava-se, na verdade, de Santa Rita de Cássia e não de Nossa Senhora dos Navegantes. Com alguma relutância, os juritianhenses aceitaram Santa Rita como sua padroeira, o sendo até hoje (Silva, 2023, p. 4).

A 6 de setembro de 1890, por força de decreto estadual, foi elevado a condição de distrito de Acaraú. Durante muito tempo, Almofala foi o centro mais dinâmico desse território, mas no final do século XIX, mais precisamente a partir do ano de 1897, uma duna começou a avançar sobre este vilarejo, obrigando as pessoas a se deslocarem para as localidades vizinhas, em particular para Tanque do Meio. No final de 1898, Pe. Antônio Tomás, com autorização da diocese, removeu as últimas imagens de Almofala antes de sua icônica igreja ser completamente soterrada e sob protesto da população, marcando o declínio definitivo dessa localidade (Santos, 1987, p. 15).

Conforme Nicodemos Araújo, em 1905 só havia duas casinhas no local onde hoje localiza-se a sede municipal, pertencentes ao Sr. José Manoel de Barros Barreto (Barroso, 1999, p. 244). Mas o influxo populacional possibilitou a reforma e ampliação da capela local, iniciada em 1908, sendo reconstruída em alvenaria. Essa iniciativa teria sido patrocinada pelas famílias mais tradicionais do lugar, como Cazuza, Monteiro, Ribeiro e Silva. A nova bênção foi dada pelo próprio Pe. Antônio Tomás, em 29 de novembro 1909, sob a denominação Nossa Senhora dos Navegantes do Tanque do Meio. Em 1917 já havia uma subdelegacia na vila, estando a frente o Sr. Antônio M. de Vasconcelos (Correio de Ceará, 09/08/1917).

Capela de Nossa Senhora dos Navegantes do Tanque do Meio

Em 13 de junho de 1930, Tanque do Meio recebe a visita de D. José Tupinambá da Frota, acompanhado do vigário Padre João Sabino Lima Feijão, o qual, depois, em 16 de junho de 1934, solicitou nova licença para reconstruir a capela, já muito deteriorada e objeto de críticas pela autoridade episcopal. Em 21 de janeiro de 1937, Padre Sabino dá a bênção ao cemitério de Nossa Senhora dos Navegantes (Barroso, 1999, p. 244). Entretanto, os relatos sugerem que existiu anteriormente outro campo santo em Itarema, sendo conhecido entre os mais antigos o caso de um homem da família Barros que teria contraído hanseníase ("lepra") e que fora impedido de se enterrar no cemitério local pelo Sr. José Fernandes de Sousa (Silva, 2023, p. 12). Existiu ainda um antigo cemitério na localidade de Patos, erigido em 1870, sendo este posteriormente reformado, recebendo o nome de Dr. Antônio Frederico Rodrigues de Andrade, tio do padre Aristides.

Em 1936, pela Lei municipal n.º 21, de 18 de dezembro, de iniciativa do vereador da Câmara de Acaraú, José Fernandes de Sousa, foi o topônimo mudado para o atual, confirmado pela Lei n.º 346, de 10 de agosto de 1937. Itarema é uma palavra de origem indígena e teria o significado de pedra de cheiro agradável, de ita pedra e rema cheiro bom ou, ainda, o oposto, pedra fedorenta (Girão, 1983, p. 298). Aproximadamente nessa época, Itarema recebeu as Santas Missões Populares, quando foi erguida uma coluna onde foi instalada a imagem do Sagrado Coração de Jesus, trazida do Rio de Janeiro por encomenda do Sr. João Batista Rios. Essa coluna foi posteriormente demolida pelo pároco local e substituída por uma menor, com cerca de dois metros de altura.

Em 1941, as dunas de Almofala movem-se novamente, revelando o povoado e a antiga igreja de Nossa Senhora da Conceição. Em novembro de 1953 houve a visita da imagem de Nossa Senhora de Fátima, motivando a mudança do orago. A paróquia de Itarema foi fundada a 2 de janeiro de 1954 por D. José, desmembrada de Acaraú e Bela Cruz, sendo posteriormente integrada a Diocese de Itapipoca, criada em 1971. Seu primeiro vigário foi Padre Aristides Andrade Sales, empossado a 6 de janeiro de 1954, ficando quarenta anos a frente da paróquia. O Sr. José de Fátima conta que Pe. Aristides teria encomendado a imagem de N. S. de Fátima, que teria vindo de Portugal, acompanhada de uma redoma de vidro contendo areia Cova da Iria, local da aparição mariana a Francisco, Jacinta e Lúcia, mas a relíquia teria desaparecido em circunstâncias não esclarecidas (Silva, 2023, p. 5). 

Em 1954, Pe. Aristides mandou demolir a capela antiga para dar lugar a atual Igreja Matriz de Itarema. Em 1963, pela lei estadual nº 6.809, de 2 de dezembro, Itarema é elevada a município e vinte dias depois, no dia 23 de dezembro, são criados os distritos de Almofala, Carvoeiro, Olhos d'Água, Patos, Santa Fé e Santo Antônio, integrantes do novo município. Entretanto, apenas dois anos depois, em 14 de dezembro de 1965, extinguiu-se o município, sendo este anexado novamente a Acaraú como simples distrito. Assim permanece até a emancipação definitiva, o corrida pela Lei Estadual nº 11.008, de 05 de fevereiro de 1985.

Educação e Saúde 

A primeira iniciativa educacional na sede de Itarema é atribuída a João Saldanha ("Lira"), migrante da seca proveniente da região do Seridó (Rio Grande do Norte) ou Cabrobó (Pernambuco), que se instalou no local em 1876 e iniciou suas aulas em 1877, em uma casa de barro coberta de palha, que seria a primeira construção residencial da sede, segundo Sr. José Silva. Além de alfabetizar crianças carentes, João Saldanha promovia a Dança de São Gonçalo e fundou uma irmandade católica leiga denominada "Irmão das Almas". Escolas isoladas, mantidas por mães de família, também são registradas: a exemplo de Marta Maria de Souza Rios ("Marieta Rios"), esposa de José Fernandes de Souza, que, no início do século XX, abriu uma escola na praia do Guajiru voltada a crianças sem condições financeiras. No Riacho e na Barra do Riacho funcionaram escolas mantidas, entre outros, pelo juiz de paz Raimundo da Costa Paixão.

No final do século XIX, o governo do Estado do Ceará enviou duas professoras diplomadas para o distrito: a primeira lecionou na residência de Luís Monteiro, na localidade de São Vicente; a segunda instalou-se onde residia José Anastácio dos Reis. Somente em meados do século XX foi construída a primeira escola pública estadual da sede, denominada "Marieta Rios". João Batista Rios, primeiro membro da família Rios a se estabelecer em Itarema, é apontado como o primeiro funcionário público federal do distrito e porta-voz do jornal O Acaraú; ele teria sido pioneiro em enviar os próprios filhos para estudar fora, por via marítima, em Fortaleza. Dedé Rios, primeiro prefeito eleito de Itarema após a emancipação, é apresentado como responsável pela construção de escolas na sede e em todo o território municipal, sendo por isso chamado pelo entrevistado de "pai da educação de Itarema".

Quanto a assistência à saúde em Itarema teve origem, segundo o relato, em rezadeiras, parteiras tradicionais e guardas do serviço de combate a endemias então conhecido popularmente como "SUCAM", que, além de suas funções sanitárias, chegavam a auxiliar partos e ensinar remédios caseiros. O primeiro médico a atender no distrito foi o Dr. Nelson de Andrade Sales, irmão do padre Aristides. A primeira parteira diplomada foi Dona Nazaré Sales (mãe de Dona Helena, esposa de Aurélio), formada pela Escola São Vicente, em Fortaleza, sendo também a primeira parteira diplomada do município de Acaraú antes de se radicar em Itarema. Dona Francisca Sales Regadas, que se estabeleceu em Itarema em 1969, é apontada como fundadora da primeira maternidade/hospital do distrito, inicialmente instalada em sua própria residência (em condições precárias, incluindo o uso improvisado de cestos de cipó como berços) e posteriormente transferida para um terreno doado por Paulo Filó, próximo à localidade da CAJE.

O primeiro médico plantonista dessa instituição foi o Dr. Chaves, de Acaraú. Com o falecimento da fundadora, a instituição original foi desativada; sua neta, Janaína, dá continuidade a iniciativas assistenciais, incluindo atendimento médico trazido de Fortaleza, ações sociais natalinas e manutenção de biblioteca comunitária. O entrevistado também cita, sem identificação nominal precisa, o primeiro farmacêutico do distrito (que realizava pequenas cirurgias e prescrições) e, na sequência, Raimundo Tavares. É mencionado ainda o médico Edson (Edit) Urbano, casado com Dona Eli e pai de Mila, e o médico Tarcísio, radicado em Almofala, proveniente da região de Santa Fé dos Paus Brancos, que trabalhou ao lado do finado Chico Sousa.

Economia, Transporte e Infraestrutura

Entre as atividades econômicas desenvolvidas antigamente em Itarema, destaca-se, além da pesca, a criação de gado e a extração do óleo de mamona (carrapateira), desde pelo menos o final do século XIX. Teve relevância no passado também o extrativismo de carnaúba e a produção de cocos. Entre os primeiros estabelecimentos comerciais, destacam-se o do Sr. José Anastácio dos Reis, na região da matriz, seguido de José Fernandes de Souza, Norberto Rios e José Mauro Rios. A primeira farmácia da sede pertenceu a Sebastião Cajazeira, seguida pela farmácia de Expedito Boa Sorte.

No setor industrial, são citadas fábricas de gelo e o beneficiamento de coco, camarão e carnaúba. Binu Monteiro é apontado como industrial de destaque. Historicamente, houve produção de cachaça em engenhos de propriedade de João Batista Rios, José Maria Monteiro, José Fernandes de Souza e Binu, com rótulos reconhecidos pela Secretaria de Agricultura do Estado do Ceará — entre eles as marcas "Marcelândia" e "Deliciosa".

O primeiro veículo automotor do distrito, apelidado "Xaxado" (em referência ao som que produzia sobre as estradas de areia), pertenceu ao Sr. José Fernandes de Souza e entrou em circulação entre 1951 e 1952. Outros primeiros proprietários de veículos citados são José Pinheiro, Magno, Adonias Alves, Joaquim Rufino (de Almofala), Antônio Alves (pai de Landri), Geraldo Magalhães Rios, Antônio Aires, o padre Aristides e Beija Carneiro (avô de Carlinhos Beija). Por ocasião do primeiro levantamento realizado pelo então prefeito eleito Dedé Rios, contabilizaram-se apenas 27 veículos automotores entre a sede e o interior do município. 

Já o primeiro transporte coletivo regular foi o ônibus da empresa Redenção, que passou a atender o trajeto Fortaleza–Itarema (via Acaraú) a partir de novembro de 1965. A partir de 1966, a linha foi estendida até Almofala. A agência funcionava na residência do Sr. Antônio Barbosa. A Redenção operou por cerca de 40 anos, sendo sucedida por serviços de fretamento e, posteriormente, pela empresa Guanabara.

O fornecimento de energia elétrica em Itarema teve início a partir de um gerador particular instalado em um cômodo do imóvel comercial de José Fernandes de Souza, espaço que, mais tarde, abrigaria o Conselho Tutelar do município. A iluminação, restrita ao centro da cidade, funcionava das 18h às 21h/21h30, horário sinalizado por apitos. Outros proprietários de motores particulares de iluminação eram o padre Aristides e João Elias Brandão. A energia elétrica de concessionária (Coelce, atual Enel) chegou ao município em 1975. Sob a gestão de Dedé Rios, primeiro prefeito de Itarema, a rede elétrica foi ampliada para a totalidade do território municipal.

A agência dos Correios foi instalada em Itarema em 1953, sendo, à data da entrevista, o décimo endereço ocupado pela agência dentro da sede municipal. Sua implantação é atribuída a João Batista Rios, que a obteve diretamente do Rio de Janeiro por intermédio do general Landri Sales, à época presidente nacional dos Correios e seu amigo pessoal.

Ilha do Guajiru

Até meados da década de 1990, a área atualmente conhecida como Ilha do Guajiru, situada no litoral de Itarema, era utilizada principalmente como local de descarga da produção pesqueira, estando sua dinâmica econômica e territorial estreitamente vinculada às atividades dos pescadores. Até o início dos anos 2000, o local era conhecido simplesmente como Praia da Barra, sendo a nova denominação está relacionada à chegada dos primeiros praticantes de kitesurf, que identificaram na extensa formação arenosa e na lagoa adjacente uma paisagem semelhante a uma ilha (Oliveira et al., 2017).

Nesse período, a localidade passou a receber moradores permanentes e, em meados dessa década, iniciou-se um processo de urbanização que se intensificou com a expansão do turismo esportivo e a chegada de praticantes nacionais e estrangeiros de kitesurf. Entre 2009 e 2022, verificaram-se profundas transformações na paisagem e nas funções econômicas do lugar, com a expansão de residências, pousadas, restaurantes e outros serviços destinados aos visitantes. A partir de então, o turismo tornou-se um dos principais agentes de reorganização territorial da Ilha do Guajiru, passando a coexistir com as tradicionais atividades pesqueiras e contribuindo para a valorização imobiliária e para a alteração da paisagem local.

Diego Carneiro
04 de setembro de 2026

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. De Juritianha à Água das Velhas. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 04 de setembro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/08/de-juritianha-agua-das-velhas.html

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