A Diáspora dos Tremembés

Índios Tremembé (por Povos Indígenas do Brasil)

Esse artigo tem como objetivo narrar como se deu a dispersão do povo Tremembé, originário de Almofala, em Itarema, em direção ao interior, ocupando, inicialmente, localidades de Lagoa dos Negros, Capim-Açu, Telhas e Queimadas, a partir da narrativa colhida pelos pesquisadores Guilherme do Valle, Christian da Silva e Ronaldo Lopes, entre outros.

 Lagoa dos Negros

A localidade de Lagoa dos Negros situa-se cerca de nove quilômetros a sudeste da Vila de Lagoa do Carneiro, na divisa entre Acaraú e Itarema, e tem sua ocupação ligada ao deslocamentos dos índios Tremembé, vindos de Almofala. Antônio Félix, um dos anciãos da comunidade resume assim essa história: Minha família, do meu pai, do meu avô, do meu bisavô eles vieram de Almofala. Quando foi em 1888 foi uma seca muito horrorosa. Ai eles destacaram de lá pelos matos, caçando raiz de pau para comer, saíram lá da Almofala aí encostaram na Lagoa dos Negros (Patrício, 2010, p. 27). Teriam partido da localidade de Gerais, na grande Almofala.

Além da severa estiagem de 1888-1889, comumente rememorada como seca dos três oito, certamente colaborou para a dispersão dos Tremembés de Almofala o posterior deslocamento das dunas que culminaram como o soterramento da vila na última década do século XIX, como relata Pe. Antônio Tomás:

Seguindo o mesmo teor da vida, já por ali haviam passado sucessivamente muitas gerações desde as remotas eras do seu povoamento até a última década do século passado, quando sobreveio a catastrophe que, destruindo a aldêa, fez fugir os seus últimos moradores para longinquas paragens, à cata de novos abrigos, como um bando de passaros bravios aos quaes houvessem desmantellado os ninhos (Ramos, 1981, p. 139).

Como vimos em outra postagem, o topônimo Lagoa dos Negros já era corrente em 1890, quando foi utilizando como demarcador do distrito policial de Santa Cruz.

Ademais, segundo a tradição oral, no final do século XIX, o velho João Cosmo, pajé dos tremembés a época, teria executado um "trabalho", que permitiu, não apenas a localização da Lagoa dos Negros, mas o seu desencantamento, possibilitando que a mesma fosse ocupada pelos novos moradores (Lopes, 2014, p. 51). João Cosmo tornou-se uma figura mítica entre os moradores dessa localidades, deixando, inclusive grande descendência.

Esse "trabalho" é descrito por Elias Carneiro do Nascimento, morador da Lagoa dos Negros e neto de uma das discípulas de João Cosmo:

Elias – a minha avó, essa que era discípula dele, contava pra nós que na Almofala ele invocou-se e disse que tinha essa lagoa aqui. Então eles juntaram um povo, a minha avó sendo discípula dele e essas Camilo, quer dizer, elas eram discípulas porque ele trabalhava e elas trabalhavam também, nessas prece que trabalha, baixa caboclo e ele sendo pajé como era. Aí tentaram descobrir a lagoa e juntaram um bocado de gente. Vamos supor, aqui fazia um terreiro, fazia um terreiro e ele botava a mesinha dele ali e fazia o trabalho dele ali. Então, tinha um mestre balizador, ta entendendo? Aquele mestre balizador chegava e apontava; apontava o canto pra onde era. Aí quando terminava o serviço de noite, bem cedo os homem metia a foice no mato abrindo travessão. Trabalhavam o dia todim; era uns trabalhando e outros buscando munição pra comerem, se alimentarem. Trabalhava o dia todim. Quando terminava o dia, ali fazia outro terreiro e ia trabalhar de novo. Aí quando este caboco chegava aí balizava. Quando amanhecia o dia os homens metia a foice no mato que tinha balizado, até chegarem aqui (Elias Carneiro, Lagoa dos Negros, 03/01/2014 apud Lopes, 2014, p. 52).

Segundo Ronaldo Lopes, no universo simbólico-religioso dos Tremembé, a manipulação de certos elementos da natureza se dá por intermédio dos "encantados", entidades sobrenaturais que auxiliam os índios de diversos modos. Entretanto, somente os iniciados na ciência do índio podem vê-los e se comunicar com eles. Sobre o topônimo Lagoa dos Negros, a moradora Rita França esclarece "aqui de primeiro só morava nêgo e aí era só os nêgo mesmo! Era os... sem terra, sem morada, era tudo era casinha de palha [...] tudo tinha suas casinha, mas era tudo assim" (Lopes, 2014, p. 74). É possível que essa população negra que se aglomerou nessa região seja remanescente de escravizados, que na época da descoberta da lagoa seriam recém libertos. É provável que, na visão dos brancos, não existisse grande distinção social entre negros e indígenas, sendo referidos como um único grupo, mais marginalizado.

Em 1920, houve um conflito do grupo estabelecido em Lagoa dos Negros e o fazendeiro Raimundo Ferreira Sales (Doca Sales), de Acaraú. Ressalta-se que, além fazendeiro, o Cel. Doca Sales foi uma das principais lideranças políticas de Acaraú nas primeiras décadas do século XX, tendo sido eleito deputado estadual entre 1896 e 1904, além de exercer as funções de intendente municipal entre 1906 e 1912 e de prefeito entre 1914 e 1919 (Araújo, 1971, p. 70-71). Ainda hoje existe uma rua em sua homenagem em Acaraú.

Cel. Doca Sales (1858-1925)

De acordo com Patrício (2010), Sales teria comprado uma primeira parte da Lagoa dos Negros diretamente dos indígenas, usando como moeda de troca farinha, fumo, café em caroço, rapadura, tecidos entre outros itens de primeira necessidade. Em seguida teria proposto as famílias a instalação de currais de gado no local, que seria cuidado pelas mesmas. Entretanto, visando expulsá-los, Sales teria soltado o gado, que invadiu os roçados dos moradores, forçando-os a deixar o local. O processo de expulsão foi completado pouco tempo depois, com a chegada de Manoel Gomes Sales, conhecido como Déo Sales, filho de Doca.

Como explica Ronaldo Lopes, a saída da Lagoa dos Negros leva a divisão dos grupos familiares entre diversas localidades próximas:

O primeiro se deslocam para Gameleira, um lugarejo próximo a Lagoa dos Negros e que pouco tempo depois foi tomado por Déo Sales, que os obrigou a partir novamente. Da Gameleira um grupo se destaca alguns poucos quilômetros a oeste, fixando-se em Pedrinhas. Esta área tinha aproximadamente uma légua em quadra e fora dividida em sete pedaços referentes a sete grupos da família Carneiro. Um segundo grupo ocupa uma pequena área de 400 braças ao norte de Pedrinhas e denominam de Córrego dos Fernandes. Destes, algumas famílias avançam e se fixam em Aroeira. O terceiro grupo, se desloca para Queimadas, enquanto o pajé João Cosmo foi para o Córrego da Onça, pequena localidade encravada entre Pedrinhas, Telhas e Queimadas, de lá saindo apenas para o Lameirão, em Almofala (Lopes, 2014, p. 59).

Em Lagoa dos Negros funcionou a fazenda até a década de 1990, quando entra em decadência e seu último proprietário, Joaci Pinto da Cunha, vende para o INCRA. Em 1997, após uma ocupação pelos descendentes dos tremembés e outras pessoas da região, a Lagoa dos Negros foi desapropriada e transformada em Projeto de Assentamento – PA. Inicialmente projetado para abrigar 92 famílias, em 2014, o assentamento possuía 79 famílias. Mais de 90% dos assentados vieram de Pedrinhas e Córrego dos Fernandes.

Telhas

Cerca de cinco quilômetros a sudoeste da Lagoa dos Negros está a localidade de telhas, uma das que recebeu os indígenas expulsos no primeiro assentamento Tremembé.  Os dois ramos familiares que se fundiram para formar essa comunidade derivam das famílias de Manoel Rufino dos Reis, chegado em 1901, vindo de Almofala, e, posteriormente, Luis Paulo do Nascimento, que ficou mais conhecido como Luis Sabino, vindo da Lagoa dos Negros. Ressalta-se que existe outra versão, segundo a qual Manoel Rufino teria saído de Almofala para trabalhar na construção de um açude em Acaraú, daí teria passado para a região do Marco, situada a oeste do chamado Córrego das Telhas (Silva, 1999, p. 7). Pelo período é provável que se tratasse do açude do Acaraú-mirim, em Massapê.

Os fato é que esses dois ramos se juntam quando Manoel Rufino oferece sua filha para casar com Luis Sabino "para que os dois ficassem governando a terra em Telhas". Desta união, constitui-se a linhagem das famílias que até hoje ocupam o local, os Nascimento. A terra que ocuparam media 1.200 braças de frente por meia légua de fundo (Silva, 1999).

Luis Sabino e Antônia Maria do Nascimento.

Como explica Ronaldo Lopes, logo após a chegada de Sabino, é a vez de seu primo Francisco Chicute, filho de João Cosmo, se juntar à nascente comunidade familiar ao casar-se com Benvinda, irmã da esposa de Luis Sabino. Portanto, os dois primos casam-se com duas irmãs. Como Chicute também morou no Córrego dos Fernandes, deixando descendência neste lugar, este segmento familiar de Telhas faz parte de uma unidade maior denominada "Os Chicute", cujas ramificações, além dos dois lugares citados, se estendem á Lagoa dos Negros, onde mora um de seus netos.

A origem dos conflitos que sucederam a uma série de negociações tem início com a chegada de dois irmãos, Manoel Antônio e Manoel Joaquim Pereira [ou Vasconcelos], por volta de 1910/1911, oriundos da Vazea Feia, no município de Bela Cruz, que pediram "um pontinho para colocar do gado" (Silva, 1999, p. 51). Com a permissão de Rufino, os dois irmãos e suas respectivas famílias vão gradativamente se estabelecendo no local e fazendo benfeitorias. Em 1938, José Vicente, sogro de Manoel Joaquim Pereira, vende as benfeitorias (a cacimba e alguns pés de cajueiro) para José Jorge de Vasconcelos [ou José Teófilo da Rocha, em outra versão]. Este último seria genro de Manoel Antônio.

Sobre esta família, pude apurar que viveram no município de Marco os irmãos Manoel Joaquim de Vasconcelos e Manoel Antônio de Vasconcelos, filhos de Joaquim Pereira de Vasconcelos e Theodora Maria de Jesus. Ela era filha de Honorato Manoel de Carvalho, possuidor de terras no Araticum e Várzea Feia, em Bela Cruz, era também neta de Manoel de Almeida Soeiro, conhecido como Velho Soeiro, habitante da localidade de Gado Bravo, no Marco. O segundo sobrenome do pai explicaria o porque dos irmãos serem referidos como Pereira, ao invés de Vasconcelos. Já quanto a José Teófilo da Rocha, tanto ele quanto sua mulher, Maria Neves Rocha, também era descendentes de Honorato Manoel de Carvalho, tendo uma relação de primo em algum grau com Joaquim e Antônio, mas não genro e sogro.

No mesmo ano, comprador e vendedor vão ao cartório oficializar a negociação, juntamente com Luis Sabino, que após a morte de seu sogro se constitui como proprietário da terra de Telhas. As 1.200 braças são então divididas em duas partes, tendo como marco o leito do Córrego das Telhas. Luis Sabino e sua família ficam na parte de cima do córrego, cabendo a José Jorge a parte de baixo. Alguns anos mais tarde, José Jorge, ao vender as terras para o Pe. Odécio Loiola, pároco de Bela Cruz, contesta a divisa de 1938, afirmando que, ao invés do rio, a estrada delimitaria a fronteira entre os terrenos.

Luis Sabino teria aceitado abrir mão de 200 braças em respeito à posição religiosa do padre. Mas, segundo o relato de seus descendentes, entre 1938 e a década de 1950, o Padre tenta se apropriar do restante da terra, exigindo que Luis Sabino pague renda pelo usufruto da terra. Sabino resistiu e se negou a pagar renda e, após várias viagens à pé para a capital do estado, consegue, finalmente, o registro das 500 braças de terra em 1955 no Cartório do 2º Ofício de Acaraú.

A partir de 1985, as terras da comunidade de Telhas voltaram a ser alvo do interesse de fazendeiros e comerciantes, desencadeando novos conflitos fundiários marcados por violência e opressão. Em 1986, o comerciante e tabelião de Acaraú Francisco Felipe da Rocha, o “Sassico”, alegou ter comprado as 500 braças de terra ocupadas pelas famílias e, valendo-se de sua influência cartorial, promoveu ações judiciais para obter a posse, embora os moradores afirmassem possuir documento de 1955. Após decisões desfavoráveis na Justiça de Acaraú, ocorreram duas incursões violentas contra a comunidade, envolvendo policiais militares e familiares de Sassico, com prisões, agressões, destruição de casas e a morte posterior da esposa de uma das lideranças em decorrência das agressões sofridas.

As famílias, contudo, permaneceram na terra e receberam lonas do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Acaraú, que constituiu uma das poucas instituições a apoiá-las naquele período. Posteriormente, Sassico vendeu a propriedade ao fazendeiro de Marco Francisco Assis de Souza, o “Chico Jovino”, que restringiu os moradores a 100 braças e passou a cobrar renda pelo cultivo nas demais áreas, além de apropriar-se dos mais de 400 cajueiros existentes. Durante a década de 1990, a cobrança de renda, as ameaças e o controle sobre a produção agrícola intensificaram a exploração dos moradores, contribuindo para o surgimento da luta pela retomada da terra e pelo reconhecimento da comunidade como indígena Tremembé.

Capim-açu e São José

A aldeia indígena de Capim-açu fica no município de Itarema, a leste de Telhas. Essas duas comunidades, juntamente com São José e Cajazeiras, integram a Terra Indígena do Córrego do João Pereira (Lopes, 2014, p. 29). Essa região teria tido ocupação mais ou menos concomitante a Lagoa dos Negros, tendo os primeiros habitantes, tremembés de Almofala, chegado no final do século XIX, fugindo da seta de 1888-89. Mais tarde, os Tremembé da família Teixeira, chefiados por vindos Pedro Teixeira, vindos de uma localidade próxima à Almofata, juntam-se às demais famílias indígenas que ocupavam a área próxima ao córrego do João Pereira, no que hoje corresponde a localidade de São Jose (Silva, 1999, p. 4).

Trago a seguir os relatos colhidos pelo pesquisador Guilherme do Valle em 1991, junto ao Patriarca dos Tremembé dessa região, sobre a origem dessa comunidade, e a gênese dos conflitos fundiários que a envolveram:

Segundo o que a velha Rosa conta, nos três 8 [1888], a mãe dela já tinha família aqui na área. ... Agora, quando foi nas eras, mais ou menos, de [19]24, 25, por aí assim, foi que chegou um senhor por nome Progitório [Pongitori], senhor que, justamente, era avó desse Moacir que tomou esta terra. O nome dele se chamava Vicente Progitório, diz que era da Itália e chegou no Acaraú. Tava por lá e ouviu falar que esses índios que tinham achado essa terra aqui. Terra. Muito. Muita mata, muita cobra, muita onça, muita caça. E ele ouviu falar que esses índios tinham achado essa terra. Aí ele veio de lá, chega e pede a José Suzano [da Rocha] e a Raimundo Suzano [da Rocha], que era o povo mais velho que tinha, pra fazer uma cacimba e botar uns garrote pra cá... Aí, eles foram e deram. Mas que ele chegou aqui, fez esse buraco, mas ele não apertou índio, né. Quer dizer que apenas ficou trabalhando mais os índios, parece pagando roçado mais os índios e aqui e acolá os índios trabalhavam para ele, pra ganhar algum trocado, né Mas ele não agarrou nenhum índio. Eles não reclamam. Eles num contam que Progitório agarrou eles, não (Patriarca, Capim-açu, 25/06/1991 apud Valle, 1993, p. 119).

Ressalta-se aqui uma pequena inconsistência na narrativa, uma vez que Vicente Pongitori (1851-1902) faleceu em 1902, portanto os fatos narrados provavelmente remontam ao final do século XIX, e não 1924/25. Ainda segundo o autor, Pongitori teria instalado um comércio na comunidade e facilitava as compras por parte dos tremembés. Falam que ele agia como se fosse o patrão e proprietário, convocando os índios para trabalhar em suas terras, mediante pagamento, muitas vezes em gêneros alimentícios. De forma geral, os locais lembram de Pongitori de maneira positiva, e afirmam que nunca tiveram problemas com ele. Entretanto, segundo os relatos, a situação de convívio pacífico teria começado a mudar após o falecimento do italiano:

Agora quando Progitório morreu, ele criava uma filha [Raimunda Pungitori Salles Ferreira]...Aí tinha um senhor no Acaraú chamado Bento Moura [Bento José de Moura Ferreira]. Ele casou com a filha desse velho. Aí quando Progitório morre, aí Bento Moura disse que a terra era dele, desse Progitório. Mas não era de Progitório! Que Progitório não tinha nada com índio, que ele era da Italia! Aí, ficou. Mas, que também Bento Moura, segundo o que os índios conta, também não aperreou com eles, não judiou com eles. Que quando Bento Moura morre, aí Moacir Moura [Salles], que sendo filho de Bento Moura, quer dizer que sendo neto de criação desse Progitório. Aí, quando Bento Moura morre, o que é que ele faz? Pega a terra, bota no cartório, dizendo que é dele, sem comprar dos índio e sem dizer aos índio. Vai à Acaraú e bota a terra no nome dele. Aí ficou fazendo os índios pagar renda, botando o índio pra fora. Aqui e acolá, dava num índio. Esse Moacir Moura, que é pai desse Zé Moacir [José Sales Moura]... Aí quando Bento Moura, o pai dele, morre, aí ele inventou que tinha comprado a terra de um irmão dele, chamado também de Humberto Moura...E lá ele disse que comprou a terra desse Humberto Moura. Mas Humberto Moura também não tinha a terra porque ele não era índio. Os índios chegaram primeiro! Bom, aí ele disse que tinha comprado a terra do Humberto Moura, irmão dele. Botou no cartório como dele e aí começou a massacrar índio, judiar com índio, botar índio pra fora, fazer índio pagar renda. Porque até nesse tempo, índio não pagava renda! (Patriarca, Capim-açu, 25/06/1991 apud Valle, 1993, p. 119).

Assim, os locais atribuem os tempos mais turbulentos de conflito a chegada de Moacir Moura Sales, em 1956, que teria, supostamente, registrado as terras de maneira irregular. Segundo Segundo o pesquisador Christian Silva, em 1966, o fazendeiro formaliza uma ação de atentado, expulsando no ano seguinte os Tremembé da família Teixeira da área em que viviam, cujas casas foram em seguida derrubadas. A partir daí, ele teria iniciado a cobrança do pagamento de "renda" pelo uso da terra e casas de farinha. Mas em meados da década de 80, alguns índios resolveram deixar de pagar renda a José Moacir, filho de Moacir Moura, achando injusta a remuneração pelo cultivo da terra e pela morada a que julgavam ter direito por terem nascido e se criado no lugar onde suas famílias viviam há gerações. Não obstante, roças foram queimadas, cacimbas entupidas e casas derrubadas, tanto da família Suzano quanto dos Santos (Silva, 1999).

Ainda segundo Silva, em 1985, o fazendeiro Francisco Felipe da Rocha (Sassico) teria entrado em conflito com os Tremembé que ocupavam a região de Telhas. Nesse contexto, o índio José Agostinho dos Santos ('Patriarca') e outros moradores do lugar procuraram o INCRA-MIRAD, conseguindo a inclusão da área do imóvel São José/Capim-Açu no Plano Regional da Reforma Agrária em 1987. No ano seguinte, pelo Decreto nº 96.505, de 15.08.88, o imóvel com superfície de 1.452 ha foi desapropriado por interesse social, tendo se efetuado a imissão de posse em setembro de 1989.

Terra Indígena do Córrego do João Pereira - FUNAI

Queimadas

Queimadas é outra localidade originada através dos Tremembés que saíram da Lagoa dos Negros. A família do Sr. Manoel Ferreira do Nascimento teria sido a última a deixar a região, após serem expulsos por Doca Sales, que mobilizou a polícia de Acaraú para expulsá-los. O episódio é narrado pelo Sr. Cecídio Ferreira do Nascimento, então com 86 anos:

"... vimo a polícia chegando dois soldados, um sargento e ele Doca Sales , veio chegou, nesse tempo quem sabia o que era polícia, ninguém sabia. Ai o que ele faz, os outros quando viram a polícia correu gente pra tudo quanto é lado. Eram muitos tudo tinha filhos, já filho grande, espirrô todo mundo e o papai com onze filhos como é que iam me carregar, eu ainda estava nos cueiros e minha mãe contava tudo pra gente. Tínhamos uma roça grande, o milho já bonecando, contando o que ele faz, o meu pai suspendeu a cabeça e foi e disse: é seu Doca Sales uma andorinha só não faz verão, os outros tudo correram e eu não posso correr, porque se eles tivessem tudo aqui cada qual tinha dado uma opinião e todo mundo podia ter ficado. Mas ele ficou sozinho com onze filhos ia fazer o quê? Se cobrindo com um cesto? E disse ainda meu pai: só tenho uma palavra pro senhor, o senhor é rico e pode pagar a polícia pra por nós pra fora, mas saiba disso a terra não é sua, se fosse sua o senhor tinha executado nela, como nós achamos esse rio, a lagoa que bota os bichos pra dentro, o suor que derramei pra dar de comer pros meus filhos, se o bicho comeu o que é meu, ele lhe come também, ai ele baixou a cabeça e foi embora" (Patrício, 2010, p. 28)

Concretizada a saída das famílias, em número de sete, da Lagoa dos Negros, se inicia um percurso até chegarem a Queimadas. Antes passaram curtos períodos de tempo em Gameleira e Pedrinhas, relativamente próximas a Queimadas. Esses dois lugares, além do Córrego dos Fernandes e Aroeira, abrigavam os primeiros grupos que haviam deixado a Lagoa dos Negros, iniciando o segundo período das dispersões. Alguns grupos, inclusive, permaneceram nessas localidades citadas, consolidando sua ocupação.

Após percorrerem um trajeto não muito distante, os Tremembé se fixam num local onde presenciaram uma grande queimada, de causas desconhecidas, que segundo eles, findou apenas na ribeira do rio Acaraú e devastou toda a vegetação existente. Incidente acabou com os recursos naturais disponíveis, dificultando, inclusive a construção de habitações, por não haver materiais disponíveis. Contam que um morador das redondezas chamado Antônio Frutuoso, proprietário de um carnaubal na ribeira do Marco, permitiu que retirassem palhas para construir seus casebres. Esses eventos teriam ocorrido por volta de 1927. Os mais velhos não esclarecem o motivo de seus pais e avós terem decidido se fixar num local tão inóspito, levando em consideração que nas Telhas, por exemplo, onde tinham parentes, o fogo parece não ter chegado.

Os tremembés mantiveram estreita relação com os Frutuoso, Doca Frutuoso e Manoel Frutuoso, parentes de Antônio, que contratavam os serviços dos indígenas, envolvendo a preparação da lavoura e a colheita, em troca de mantimentos como feijão. Outro membro lembrado dessa família é o patriarca João Frutuoso. Teria sido essa família que teria dado o nome ao grupo de "Negros das Queimadas" (Lima, 2015, p. 88). Isso reforça o estereótipo que igualava os indígenas aos negros retintos descendentes de escravizados africanos, visto no caso da Lagoa dos Negros. Sobre o destino dessa família, D. Rita, moradora de Queimadas relata:

O João Furtuoso era da família dos Furtuoso, dos Doca. Ele morava lá onde hoje é lote. Aí tomaro tudo lá, quando o DNOCS entrou né. Indenizaram umas pessoa, as que ficavam perto do canal dos lote, e ai as pessoas saíram. O João Furtuoso já era finado, mas ficaram os filhos e os filhos saíram tudinho. Aí passou pra banda da Alpargata, do mesmo jeito [indenizações]. Ficou uns porque iam ser loteiro, né, o Zé Doca, o Mané Furtuoso já tinha morrido, o véi Furtuoso já tinha morrido. Ai pronto, ficou só família, família nova. Muitos ficaro e muitos saíram né, ficou alguns, outros não (12/07/2014 apud Lima, 2015, p. 91).

Na época da chegada em Queimadas, o grupo era conhecido como Os Camilo, em referência aos irmãos Rita, Teresa, França, Joana, Lió e Silivino Camilo, a maioria com seus respectivos cônjuges. As gerações que vivem em Queimadas descendem predominantemente de Rita Camilo e Chico Barba. É desta união que nascerá os três principais troncos familiares. Das cinco filhas, Maria da Conceição casou-se com Manoel Ferreira do Nascimento, dando início ao núcleo dos Custoso; Maria dos Anjos e seu esposo Félix Francisco dos Santos formam o núcleo dos Félix. Com a morte de Maria dos Anjos, sua irmã Paulina assume a criação de seus filhos e passa a ser a matriarca desta família. Por fim, Maria Carneiro casa-se com João Carneiro daí surgindo o núcleo dos Carneiro. Rosa Condorosa, a outra filha, casa-se com Chico Condorosa, mas não permanece em Queimadas, partindo para a Pindoba, vizinho a Aroeira. Antonio Mariano, um dos sete, regressa com sua família para Almofala (Lopes, 2014, p. 112).

Na década de 1940, com a morte dos três principais chefes de família que chegaram à Fundação de Queimadas, as três viúvas assumem a responsabilidade de conduzir o controle da terra, além de suas respectivas famílias. Maria Conceição, Maria Carneiro e Maria Paulina do Nascimento foram as responsáveis por definirem a organização das unidades domésticas e, posteriormente, a divisão sócio-espacial da terra. Com a ajuda de duas pessoas identificadas por Napoleão e João Bião, do Acaraú, as três matriarcas conseguem a “Escritura Pública de convenção de limites de uma posse de terras no lugar Queimadas”, emitida pelo Cartório de Acaraú em 15 de julho de 1957:

“[...] domiciliadas e residentes no lugar, Baixa dos Carneiros ou Queimadas, desta Comarca pelas outorgantes reciprocamente outorgadas me foi simultaneamente dito o seguinte: (...) que desde o ano de 1927 se apossaram primitivamente e vem ocupando mansa e pacificamente, sem interrupção de uma faixa de terra de criar e plantar, no lugar já reconhecido por Queimadas desta Comarca, que então tinha as seguintes confrontações, ao Nascente com a antiga estrada carroçável Acaraú-Fortaleza; ao Poente com a posse de Antonio Monteiro da Costa, hoje de Romuldo de tal; ao Norte, com terra de Manoel Duca da Silveira, hoje de José Gutemberg Rios, e ao Sul com terra de José Emiliano de Freitas em cuja faísca de terra desde aquela época fincaram suas moradias em casas de taipa, coberta de telhas, abriram cacimbas, e, anualmente vem plantando roçados e fazendo outras culturas, praticando enfim, todos os demais atos inerentes a qualidade de legítimos donos da terra mencionada [...]. 2˚Tabelião Francisco Felipe Rocha" (Patrício, 2010, p. 38-39).

Com os estudos para a instalação do perímetro irrigado do Baixo Acaraú, iniciado em 1983 pelo DNOCS, inicia-se um conflito entre a comunidade de Queimadas e o governo pela posse das terras. De acordo com as lideranças da época, o discurso dos técnicos do DNOCS inicialmente era o de as famílias não seriam removidas. Algum tempo depois o discurso muda e os técnicos passam a argumentar que as famílias seriam indenizadas. Doze famílias receberam uma pequena quantia, segundo dizem, como sinal de que elas não seriam removidas do local. Entretanto, oficialmente isso implicou na venda das terras para a união.

A partir daí, a implantação do perímetro irrigado avançou sobre as terras de Queimadas, especialmente entre 2001 e 2003, com a abertura de estradas, desmatamentos e instalação da infraestrutura hidráulica, reduzindo significativamente a área ocupada pelas famílias. Diante da ameaça de perda do território, as 17 famílias que viviam na comunidade buscaram apoio da Missão Tremembé, da FUNAI e de outras instituições, passando a reivindicar o reconhecimento de sua identidade indígena. Essa mobilização foi influenciada pelas experiências de comunidades Tremembé vizinhas, especialmente Córrego João Pereira, Telhas e Capim Açu, que já articulavam suas demandas territoriais com base no reconhecimento étnico. Em 2003, uma ordem de despejo determinou a retirada das famílias em apenas 72 horas, mas a mobilização de missionários, indígenas, FUNAI, Ministério Público Federal e imprensa conseguiu suspender a ação e, posteriormente, as obras.

Diego Carneiro
26 de setembro de 2026

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. A Diáspora dos Tremembés. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 26 de setembro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/09/a-diaspora-dos-tremembes.html

Referências:

ARAÚJO, Nicodemos. Município de Acaraú: notas para sua história. Acaraú, 1971.

LIMA, Ronaldo de Queiroz. Os Tremembé do Centro de Cura, em Queimadas: a formação de um grupo social. 2015. 242 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Centro de Humanidades, Departamento de Ciências Sociais, Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2015.

LOPES, Ronaldo Santiago. “A cultura de índio, seu menino, vem de longe aqui”: formação histórica e territorialização dos Tremembé/CE. 2014. 189 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2014.

PATRÍCIO, Marlinda Melo. Relatório circunstanciado de identificação e delimitação da Terra Indígena Tremembé de Queimadas, Acaraú/CE. Brasília, DF: Funai, 2010. Relatório técnico.

RAMOS, Dinorá T. (org.). Padre Antônio Tomás: príncipe dos poetas cearenses. 3. ed. Fortaleza: Jornal A Fortaleza, 1981.

SILVA, Cristhian Teófilo da Silva. Relatório circunstanciado de identificação e delimitação da Terra Indígena Córrego João Pereira/CE. Brasília: Funai, 1999.

VALLE, Carlos Guilherme Octaviano do. Terra, tradição e etnicidade: os Tremembé do Ceará. 1993. 419 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1993.

A Enseada dos Patos

Praia de Patos, Itarema.

Esse texto tem como objetivo analisar a história da ocupação colonial da localidade de Patos, em Itarema. A Enseada do Patos fica localizada entre as fozes dos rios Aracati-mirim e Aracatiaçu, sendo de ocupação bastante antiga. Além de fontes documentais, recorri também a entrevistas com moradores e outras fontes dispersas de informação vinculadas a tradição oral.

Capitão José de Moura Negrão

A ocupação colonial da região de Patos está ligada a sesmaria de Pedro Rodrigues de Oliveira e seus companheiros, recebida a 20 de junho de 1694. Entre os sesmeiros, estava João Fernandes de Sousa, casado com Leonor Dias de Carvalho, irmã de Manoel Dias de Carvalho. Seu testamento foi aberto em 08 de outubro de 1719, na casa de seu genro, José de Moura Negrão, localizada no Sítio dos Patos, na ribeira do Aracatiaçu (Souza, 2015, p. 111). Essa foi a primeira menção que localizei a essa localidade, sendo o topônimo presumivelmente relacionado a existência de lagoas na região que outrora abrigaram grande quantidade de patos selvagens.

Mas o Capitão José de Moura Negrão já habitava essa região pelo menos desde 1712, conforme sua solicitação de sesmaria, obtida a 16 de novembro de 1718, juntamente com seu cunhado Manoel Fernandes de Carvalho, filho de João Fernandes de Sousa. Nesse documento eles informam terem alcançado as terras dos providos da sesmaria do Aracatiaçu, de 1694, que não a povoaram e, logo, estas foram concedidas a outro sesmeiro em 1710, do qual a adquiriram. E, por não terem o documento que comprove a posse da terra onde moravam havia seis anos, pedem a confirmação por meio de uma nova data (Sesmarias, Vol. 6, nº 420, p. 90).

Conforme Pe. Sadoc, além da Lagoa dos Patos, onde residia, o Capitão possuía terras na Timbaúba, entre Caracará e Miraíma. Por ocasião da realização do inventário de sua esposa, Ana de Jesus, aberto a 21 de outubro de 1721, informa que suas terras não davam rendas porque parte delas era habitada pelo “gentio brabo” (Araújo, 2005, p. 101-102). Negrão teve participação ativa no combate aos indígenas da região. No ano de 1722, o capitão-mor do Ceará, Luís Ferreira Pessoa, ordenou-lhe que fizesse "guerra de morte aos tapuyos dos distritos de Aracatiaçu e Mundaú e das terras que daí se estendessem até a Águas das Velhas", por serem grandes destruidores de rebanhos (Barroso, 1958, p. 72).

Em 22 de maio de 1724, o então Capitão-mor José de Moura Negrão, homem casado, 40 anos, morador na Lagoa dos Patos, serviu como testemunha em defesa do Pe. João de Matos Monteiro, que passava por um litígio com o Cel. Sebastião de Sá e com os jesuítas da Ibiapaba. No documento, informa ter assinado uma petição solicitando a permanência do cura na ribeira (Araújo, 2000, p. 51). A assinatura ocorreu na Aldeia dos Tremembés, em Almofala.

Outros Moradores de Patos

Em agosto de 1730 esteve na Fazenda dos Patos, Pe. Isidoro Rodrigues Resplandes onde batizou Manoel, filho de Francisco Pinheiro do Lago e Josefa Ferreira de Oliveira. Dias depois, o cura realizou nesta fazenda o casamento de Miguel Gomes Correia, filho de André de Araújo Santiago e Bernardina Francisca de Vasconcelos, com Felizarda Henriques, filha do Cap. Luis Nicolau Henriques e Floriana da Costa Pereira (Araújo, 2005, p. 129). Nicolau era filho do Cel. Sebastião de Sá com a índia Madalena Saraiva.

Quase 60 anos depois, em 1788, o Cel. Jerônimo Machado Freire declarou a Câmara de Sobral ser proprietário da Fazenda Patos, às margens do rio Acaratiaçu, tendo João de Holanda como vaqueiro. A propriedade é então descrito como tendo "uma légua de comprido e meia légua de largo para cada banda do dito rio, que principia nas terras de Alexandre de Holanda e finda nas terras do mesmo possuidor" (Frota, 1974, p. 476). Nessa propriedade o Coronel possuía mais de mil cabeças de gado, que eram negociadas, segundo informa, no porto de Acaraú, com José Luís Pereira Brandão, que as levava pelo mar à Pernambuco.

Sobre Jerônimo Machado Freire, sabe-se que residia no Pará, atual distrito de Parazinho, em Granja. Era sobrinho do sesmeiro do Coreaú, Domingos Machado Freire, de quem recebeu os bens por herança. É possível que Domingos tenha adquirido essas terras e as legado a Jerônimo.

Os Frederico de Andrade

Consta no Livro de Registro de Terras da Freguesia da Barra do Acaraú 1855-1857, como proprietários de Patos:

Antônio Joaquim Rodrigues e Dona Luisa Amélia de Albuquerque Barros, administradora dos bens do casal, registram três léguas e meia de terras que possuem em comum no lugar Patos, Freguesia do Acaraú, à margem do mar e compreendidas entre os rios Aracati-mirim e Aracatiaçu, e além destas, duas posses de terras a mar contíguas no lugar Merinduba, da mesma freguesia (Livro 1, nº 4, fl. 1v.); 

[Bernardino Ribeiro Junior, procurador de D. Maria José de Andrade, avó paterna de Antônio] possuo um quarto de terras de criar na Ribeira do Aracatimirim, no sítio denominado Patos, na Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Villa do Acaraú, com a largura que lhe pertencer, cujo quarto de terras a houvemos por título de herança de meu finado sogro Antônio Mendes de Vasconcelos (Livro 2, nº 43, fl. 9v.);

Antônio Joaquim Rodrigues era açoriano, natural da Ilha de São Miguel, tendo nascido por volta de 1794, filho de Joaquim Rodrigues Barbosa e Maria Vitória Candeia. Em 1822, casou-se com Ana Rosa Vasconcelos de Albuquerque, filha de Manoel Gomes e Ana Joaquina. Foram pais de onze filhos, dentre os quais, o José Frederico de Andrade que, por sua vez, foi pai do Coronel José Frederico Rodrigues de Andrade.

Não está claro como Antônio conseguiu essas terras, mas é possível que tivesse algum parentesco com o já citado sesmeiro Pedro Rodrigues de Oliveira. Ademais, sua avó paterna, Maria José de Andrade, diz ter recebido as terras de seu sogro, Antônio Mendes de Vasconcelos, filho do Capitão Mateus Mendes de Vasconcelos, dono da Fazenda Curralinho, em Morrinhos. Assim, é possível que em algum momento do século XVIII as terras da Lagoa dos Patos tenham sido compradas por Mateus Mendes.

Em 1860, o Cel. José Frederico de Andrade inaugurou, em Patos, um engenho mecanizado, com maquinários vindos da Inglaterra. Nessa época, a propriedade beneficiava algodão, além de fabricar açúcar, rapadura e água ardente. Segundo Nicodemos Araújo, o gerente daquela fábrica era Francisco Pedro dos Santos, o qual, em 1865, deixou as funções, para seguir, como voluntário, para a guerra do Paraguai, onde tornou-se herói, na defesa do Brasil, pelo que foi agraciado e promovido a Capitão do Exército brasileiro (Araújo, 1971, p. 181).

Cap. Francisco Pedro dos Santos

Além de José Frederico, é lembrado como proprietário de Patos, o seu cunhado, José Gomes Rodrigues de Albuquerque. A família Andrade, como são popularmente conhecidos, ergueu também, no centro da localidade, um exuberante casarão, que chamou a atenção do historiador Antônio Bezerra, quando passou pela localidade em 1884:

Mais além, à esquerda, avistamos uma grande casa, de bonita aparência, que soube pertencia ao Coronel José Frederico Rodrigues de Andrade. É um prédio magnífico, como só se encontra nas grandes cidades. Interna e externamente asseado, com melhores cômodos, nota-se logo à primeira vista que o seu proprietário dispõe de fortuna e bom gosto. Chamam a este lugar Patos, e contém, além deste excelente prédio, outras casas de taipa espalhadas nos arredores. À propriedade do coronel se prende uma ordem de casas destinadas ao engenho de ferro, alambique e outros misteres, todas bem conservadas e espaçosas (Bezerra, 1965, p. 381).

Ruínas do antigo casarão dos Andrades, em Patos.

O engenho teria entrado em declínio já no final dos anos de 1800, em função da escassez de mão de obra servil, assim como pela irregularidade na produção da cana-de-açúcar devido às condições climáticas, mas continuou funcionando durante boa parte do século XX (Pereira, 2019, p. 117). Ressalta-se que, segundo relatos de moradores, é possível que tenha sido utilizada mão-de-obra escravizada no empreendimento (Miranda, 2018). A exemplo disso, o Sr. Juvenal, morador de Patos desde 1951, em entrevista ao divulgador Cesar Teles, comenta as histórias que contam sobre os antigos proprietários do engenho:

Aí antigamente tinha uns escravos, eles só trabalhavam na base da sola, do grito aí, o Seu Frederico, era um perigosão aí. Ele tinha uns afilhados, quando as madrinhas traziam para visitar ele, na semana santa, pra levar a benção do padrinho, ele queria botar as crianças pros leões que eles criavam. Era perigoso, era carniceiro... esse homem tiraram daqui, era um desconhecido, se achegou por aqui e se fez de dono, né. Meu avô morava daqui nove quilômetros e as terras ainda eram deles. Os homens dominavam tudo, da beira do mar ao sertão... (Teles, 2022).

Também existiu no lugar um ancoradouro, onde os produtos eram embarcados para Pernambuco, Bahia e Maranhão, mas que hoje encontra-se assoreado (Araújo, 1981, p. 115). Além do engenho e do casarão, os Andrade ergueram uma capela dedicada a N. S. da Conceição, que também funciona como mausoléu da família. Conforme Nicodemos Araújo, a capela foi construída no ano de 1897 pelo Cel. José Gomes Rodrigues de Albuquerque, tendo sido abençoada em 2 de fevereiro de 1898, por Padre Antônio Tomás, vigário de Acaraú (Araújo, 1971, p. 328). José Gomes também providenciou um cemitério para sua propriedade, construído em 1918, em Alvenaria.

Igreja N. S. da Conceição de Patos, Itarema.

Segundo Carlos Guilherme do Valle, a Fazenda Patos foi durante o período de decadência de Almofala e do soterramento da igreja um dos lugares que mais atraiu regionais e também muitos Tremembé. A existência da capela na fazenda também colaborou para atrair devotos, que a utilizavam para a realização dos cultos que deixaram de ser feitos em Almofala, localizada há uns 10 quilômetros (Vale, 1993, p. 79). Conforme o autor, essa família protagonizou alguns conflitos fundiários envolvendo as terras vizinhas da Aldeia dos Tremembés, na localidade de Tapera.

O Demônio na Garrafa

Com já visto, a fama do Coronel não era das melhores entre os moradores locais, o que alimentou toda sorte de lendas sobre sua figura. Em uma entrevista concedida para o canal História Nordestina, D. Pastora, antiga moradora da região, traz um relato fantástico envolvendo a mulher do Cel. José Frederico, Dona Francisca Joaquina Rodrigues:

"... o dono daquela casa ali, o finado [José Frederico],  ele veio de Sobral atrás de um lugar para fazer uma morada e chegou aqui nos Patos, achou muito bom, porque o lugar aqui, botou esse nome de Patos porque era arrodeado de água e o pato significa água, né? Era Coronel José Frederico, que foi o fundador dos patos, e aí ficou por aí... a casa era forrada por cima, mas bem assim numa salinha, subia uma escada e lá era escuro, lá era o escritório dele. Dizem que a mulher dele um dia viu uma garrafa em cima da mesa com uma mosquinha voando, aí ela tinha dito: Pra que o coronel quer essa mosca, dentro dessa garrafa? Aí a destampou. Quando destampou pulou aquele bichão bem acolá, [e disse] agora meu dono vai te matar. Aí ele disse: O que? É, meu dono vai te matar, tu me soltou. O macacão. Aí ela disse: Não, mas tu não estava dentro dessa garrafa! Que ela criou aquela coragem, porque era um povo muito religioso. Pois tu não estava dentro dessa garrafa, porque eu soltei aqui uma mosca! [O "demônio" retrucou:] Não, era eu que estava! Aí ela disse: Pois só acredito que era tu, se tu entrar de novo. Aí ele entrou e ela "tchuco", tampou. Dizem que era o tal "Fama Leal" [Familiar], aí o que ele [Coronel] queria com esse bicho, esse bicho dava pra ele. Era um demônio, né? Dizem que ele se virava num macacão. Ela se chamava Francisca, finada Chiquinha. Era esposa dele (História Nordestina, 2023). 

Embora trate-se certamente de uma anedota, costurada de referências a outras histórias populares, como, por exemplo, o conto “A mulher enganou o diabo”, publicado na revista infantil O Tico-Tico, de 11 de outubro de 1905, reforça a impressão maligna que pairava sobre o proprietário. Ainda sobre sua índole má, D. Pastora relata que ele proibia que os outros moradores criassem gado em suas terras e quando desobedeciam sua determinação ele confiscava os animais e os mantinha presos sem água ou comida:

Dizem que chegava o gado de fora do pessoal. Aqui ninguém criava! Tinha muito gado, tinha porco e se via até no mato, mas era só da família. Caboclo, como dizia ele, não criava. Só se fosse uma galinhazinha no terreiro. Aqui era conhecido como os caboclos e eles eram os brancos, né? Aí quando o gado chegava de fora no curral grande, ele mandava prender. Mas quando ele ia no curral, o gado morrendo de sede, aí dizem que ela dizia "fulano", solte o gado alheio. Aí ele [Coronel] dizia "ainda não está no dia de eu solta não". E o gado ficava urrando no curral com sede. Até que ele se aborrecia de ela tanto pedir, né? Que aí soltava. Quando o gado chegava no ali no Jaburu, aquele córrego da ponte hoje, dizem que eles vinham com tanta fome que uns desmaiava aí de fome e de sede" (História Nordestina, 2023). 

Século XX

A Fazenda funcionou pelo menos até meados do século XX. Em 1920, no Censo Agropecuário, constavam como proprietários das Fazendas Patos e Lagoa dos Patos, Lucas Evangelista da Silveira e sua mãe, Maria do Carmo da Silveira, respectivamente. Lucas era filho de Manoel Pinto da Silveira e, portanto, neto do Tenente Albano José da Silveira. Anos mais tarde, o Sr. Juvenal presenciou o engenho em funcionamento, já a partir da segunda metade do século:

"Faziam cachaça, rapadura e açúcar mascavo também. Tinha uma descaroçadeira de algodão aí. Saia daqui só a lã do algodão nos fardos para Fortaleza. Bem por aqui assim tinha um porto. De primeiro aqui era só ferramenta e carro de boi. Vinha nos carros de boi as peças do alambique velho, que era tudo em carro de boi. Usava pra resgatar as cargas do porto pra cá. Antigamente eram doze quilômetros só de plantação de cana, do rio Aracati-mirim ao rio Aracatiaçu (Teles, 2022).

Ele também relembra dos proprietários da época, como sendo a família Barroso:

[Os portugueses que moravam aqui eram] da família Barroso, Geraldo Barroso, Danusio Barroso, Cel. Adalberto Barroso, o pai deles. Ele casou com uma filha natural daqui, o Dr. Danusio. Na família dizem que tem umas freiras que são herdeiras disso daqui, que até venderam esse terreno daí (Teles, 2022).

Não consegui maiores informações sobre essa família. Em 1979, a Fazenda Patos e a Fazenda São Gabriel foram vendidas à empresa agroindustrial Ducoco, dedicada ao cultivo de coqueiros, o que teria provocado novos conflitos fundiários, em particular com a população da localidade de Tapera, em Almofala.

A Botija dos Frederico

Como em várias outros relatos trazidos nesse blog, as botijas permeiam a história da Fazenda dos Patos. Mais uma vez, recorro ao depoimento do Sr. Juvenal, que diz ter testemunhado histórias envolvendo esses tesouros:

As vezes eu ouvia uma zuada, uns barulho que eu não concordava porque eu não conhecia, né? Aí muitas vezes eu me levantei no outro dia aí eu corrigia as calçadas, as calçadona alta, porque aí o assoalho era todo de madeira, muito bonito, faz pena ter deixado se acabar isso aí, aí quando eu corrigi eu vi na calçada os tijolos levantados, arrancaram... de botija né. Aí tinha uns currais deles, também arrancaram botija lá. Era o dinheiro deles, não tinha banco, aí eles enterravam, né? Inclusive meu pai sonhou até com um botija, só que dizem que quando a gente diz para uma pessoa, se encanta pra lá... ele me deu o lugar pra eu olhar, disse que era um corrente tão grande ouro, mas nunca fui atrás" (Teles, 2022).

Não é de se espantar que lendas tenham motivado as buscas por curiosos e caçadores de tesouros na antiga propriedade.

Diego Carneiro

20 de setembro de 2026

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. A Enseada dos Patos. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 20 de setembro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/09/a-enseada-dos-patos.htm

Referências:

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
ARAÚJO, Nicodemos. Município de Acaraú, Notas para sua história. Acaraú, 1971.
ARAÚJO, Nicodemos. Almofala e os Tremembés, Fortaleza Secretaria de Cultura e Desporto, 1981.

BEZERRA, Antônio. Notas de viagem. Imprensa Universitária do Ceará, 1965.

FROTA, Luciara S. Aragão (Org). Estudo sobre o Remanejamento da Pecuária na Zona Norte do Ceará. Fortaleza: SUDEC, 1974, 2 volume.

BARROSO, Gustavo. Nos bastidores da história do Brazil. Edicões Melhoramentos, 1958.

HISTÓRIAS NORDESTINA. A história da mulher valente e da mulher que soltou um demônio da garrafa. YouTube, 16 jan. 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=a79d3vawz4U. Acesso em: 20 set. 2026.

MIRANDA, Sitônio Coelho; MARQUES, Eliaquim de Oliveira; CASTRO, Sabrina Irineu de; SOUSA, Mikele Maria de. Patos, engenho ou senzala? A história de um povo por detrás de uma história. International Journal Semiarid, ano 1, v. 1, p. 56-59, 2018.

PEREIRA, Franderlan Campos. O cajueiro do saber: educação, luta pela terra e espiritualidade no campo experimental do Território da Libertação – Almofala – Itarema – Ceará. 2019. 180 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Centro de Humanidades, Programa Associado de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade Federal do Ceará; Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, Fortaleza, 2019.

SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues de. “Minha Riqueza é Fruto do meu Trabalho”: negros de cabedais no Sertão do Acaraú (1709-1822). 223 f. Programa de Pós Graduação em História da UFC (Tese Doutorado), 2015.

TELES, Cesar. Casarão é engenho assombrado dos portugueses é sua história: Praia de Patos, Itarema, Ceará. YouTube, 20 dez. 2022. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=gR99f-gVUiE&t=1114s

VALLE, Carlos Guilherme Octaviano do. Terra, tradição e etnicidade: os Tremembé do Ceará. 1993. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1993.

As Terras da Tiaia

Casa Grande da Fazenda Tiaia, Granja (por João Victor Mascarenha)

Tiaia é um topônimo de origem tupi, que significa algo como "água saudável" (Bueno, 1987, p. 598). A primeira menção que localizei à Tiaia, foi feita em 22 de novembro de 1706, na solicitação de sesmaria do Capitão Miguel Machado Freire e de seus irmãos, Domingos Machado Freire e José Machado Freire. Como já explicado em outra postagem, eles haviam obtido, em 3 de agosto de 1702, uma sesmaria de “5 léguas de terra de comprido e uma de largo, na ribeira do rio Camusy, cortando o mesmo rio, começando das testadas das terras de Rodrigo da Costa Araújo até o Salgado, reservando caatingas e voltas do rio" (Documentação Histórica Pernambucana, IV, p. 122).

Entretanto, existia uma determinação régia, datada de  7 de dezembro de 1697, reiterada em 20 de janeiro de 1699, segundo a qual a extensão das sesmarias não poderia ultrapassar três léguas de comprimento por uma de largura. Assim, na revisão realizada pelo Desembargador Cristóvão Soares Reimão, as terras dos irmãos Machado Freire teriam sido reduzidas, ainda assim, a quatro e que, portanto, pediam nova sesmaria:

...nas suas testadas, da banda da Serra Ibiapaba, légua e meia de largo e outro tanto de comprido, pelo mesmo correr da terra, medida começando do último marco da terra da missão para baixo, que é o que também divide a terra dos suplicantes e, da mesma parte da dita serra, nas suas mesmas testadas, por um riacho que mete no rio Camocim [quamoSy], em um poço a que chamam Jaguaraçuí [JaguaraJuy]; por ele acima, légua e meia, em cada banda, e nas suas testadas que ficam da banda do riacho da Tiaia [Tiayia], pedem todas as sobras que estão por pedir entre o rio Camocim [camosi] e o dito riacho da Tiaia [Tiayia], de uma serrota que fica no fim da segunda légua da sua data para baixo até o mar (Sesmarias, Vol. 3, nº 176, p. 93).

A missão a que se refere o documento é a missão da Bracutiara, cujos limites também foram demarcados pouco antes por Reimão. O referido poço JaguaraJuy ou Jaguaraçuí corresponde a atual localidade de Campanário, no município de Uruoca. O topônimo indígena significa algo como "onça grande".

Pouco tempo depois, a 9 de dezembro de 1706, no pedido de sesmaria das irmãs Inácia Machado, Inês Pessoa, Vitória Rodrigues da Câmara e Úrsula da Câmara, "mulheres nobres e órfãs", informam que seus pais receberam terras na região do Camocim ao Parnaíba, dentre as quais, "no riacho da Yuna, junto ao morro da Tiaya, onde novamente se lhes concederam mais quatro léguas de terra: duas pelo riacho da Yuna acima, começando nas testadas da primeira sua data, e duas das ditas testadas da primeira data, pelo riacho Panacuy acima" (Sesmarias, Vol. 3, nº 182, p. 106).

O referido Riacho Yuna corresponde ao atual Rio Una, do tupi, água preta, que nasce em Campanário, e encontra o Riacho Tucunduba na localidade de Tiaia, em Granja, originando o Rio Tiaia, que, por sua vez, após sair do território desse município assume a denominação Pesqueiro. O morro da Tiaia corresponde a atual Serra da Tiaia, localizada, em sua maior parte, no município de Martinópole, na divisa norte com Granja. Já o Riacho Panacuí é o topônimo anterior do referido Riacho Tucunduba, que demarca a divisa entre os municípios de Marco e Senador Sá.

Sobre as sesmeiras, estas eram oriundas de São Paulo, e, ao que tudo indica, sobrinhas do Pe. Assenço Gado (Freitas, 1968, p. 281). Vitória Rodrigues Câmara era mulher do Capitão Mor Pedro da Rocha Franco, o mais rico potentado de Granja, que posteriormente teria, inclusive, comprado as terras da referida sesmaria e as vendido aos próprios jesuítas (Sesmarias, Vol. 6, nº 370, p. 18; Maia, 2010, p. 182).

No mesmo ano, a 30 de dezembro de 1706, na solicitação de terras de D. Maria de Souza Crespo e Custódia de Mendonça Cabral informam que "elas tem mandado descobrir uma sobras de terras sitas na ribeira do Tiaia, buscando as roças do Saraiva até confrontar com os Machados, ficando de dentro a Lagoa d'Água do Pehy" (Sesmarias, Vol. 3, nº 187, p. 117). Não encontrei grandes informações sobre as sesmeiras, exceto que na mesma época existiu uma certa Custódia de Mendonça Cabral, a qual era casada com Antônio Pinto Correia, sesmeiro no Quixeramobim, cujo filho, também Antônio Pinto Correia, natural dos Inhamuns, foi um dos primeiros a casar na Capela de Tauá, em 8 de janeiro de 1764.

Quanto aos sobrenomes citados, "os Machados" provavelmente se refere aos irmãos Miguel, Domingos e José Machado Freire; ao passo que "o Saraiva" é uma possível referência aa um dos principais tabajaras, Dom Sebastião Saraiva Coutinho, que recebeu terras no lugar chamado "Abajara" (Sesmarias, Vol. 11, nº 1, p. 5), ou a Dom Salvador Saraiva Coutinho, que recebeu terras no córrego chamado "Boroyabá" (Documentação Histórica Pernambucana, Vol. I, p. 155).

A Fazenda Tiaia

A Fazenda Tiaia constituiu o pilar econômico que dava sustentação a missão da Ibiapaba e suas extensões pelos sertões do Coreaú. As primeiras terras que viriam a compor essa célebre fazenda foram obtidas em sesmaria, em 3 de setembro de 1706, pelo Pe. Ascenso Gago, superior da missão da Ibiapaba, em cuja petição consta que:

Diz o Pe. Assenço Gago, da Companhia de Jesus, superior da missão de Nossa Senhora da Assunção da Serra da Ibiapaba, que, para sua sustentação e de seu companheiro e dos mais missionários que ao diante lhe sucederem na dita missão, como para o ornato daquela igreja, lhe é necessário criar gados vacuns e cavalares, sem os quais coisas senão pode viver naquela serra, distante do mar e sem rio algum vizinho de cujo pescado se alimentar. E, porquanto, na serra que Sua Majestade, que Deus guarde, foi servido mandar demarcar para os índios, não se acham pastos capazes de criar, ele suplicante há dez para onze anos tem situado uma fazenda de gados e bestas no rio Camuci, distante sete para oito léguas desta terra, em um poço chamado Guiraquatiara [Bracutiara], terras que achou devolutas e desaproveitadas, as quais ele aproveitou e desimpediu, reduzindo à paz os gentios circunvizinhos, sendo os primeiros gados que, em distância de cinquenta léguas, entraram a povoar, o qual sertão, a cujo exemplo, se povoaram depois as terras adjacentes. Pede a Vossa Mercê lhe faça mercê conceder, em nome de Sua Majestade, que Deus guarde, para sua sustentação, dos missionários seus sucessores, como também para ornato daquela igreja, duas léguas de terra no dito sítio que acima faz menção. Tem povoado no rio Camuci, começando no princípio do sobredito poço Guiraquatiara, uma légua pelo rio acima e outra para baixo, com meia légua de largo por cada banda (Sesmarias, Vol. 3, nº 147, p. 32).

Essa concessão, entretanto, sobrepunha-se a já mencionada sesmaria dos irmãos Machado Freire, de 1702, o que deu origem a um litígio. A disputa foi resolvida em 1706 pelo desembargador Cristóvão Soares Reimão, que, aplico a legislação vigente, datada de 23 de novembro de 1700, segundo a qual a cada missão caberia uma légua de terra em quadro, desde que fosse composta de ao menos cem casais (Studart, 2001, p. 126). Dessa forma, Reimão reduziu a área destinada aos padres e aos indígenas a essa área, considerada suficiente para sua subsistência e para a manutenção da capela, como consta em seu despacho, datado de 20 de setembro de 1706:

... porém como a povoação dos R[everendos] missionários se deve regular segundo as Leys, e só se concede para cada aldeia uma légua de terra e que dessa se poderão ajudar para a sustentação dos missionários, não podem estes ter mayor quantia de terra que aquella [...] e com tal lhe haja de ampliar; não procede a respeito dos ditos missionários que em número não excedam a dois e portanto lhes julgo das ditas léguas de sua data (Ximenes, 1996, p. 42)

Entretanto, sabe-se que, posteriormente, os irmãos Machado Freire voltaram atrás e doaram as terras litigadas de volta aos jesuítas (Maia, 2010, p. 183). Mas visando ser restituído pela terra que lhe fora tirada, em 9 de dezembro de 1706, Ascenço Gago solicita e obtém outra sesmaria, justaposta a primeira, com a seguinte petição:

...alcançou nesta capitania uma data de duas léguas de terra no dito rio, começando no princípio da paragem Guiraquatiara, com uma légua para cima e outra para baixo e meia légua de largo para cada banda, das quais só lhe se julgou a primeira pela segunda instância, como a dita a outras terras, e não havendo na primeira légua pastos bastantes, por ter muitos matos incultos. Pede a Vossa Mercê lhe conceda, em nome de Sua Majestade, que Deus guarde, assim a légua que lhe julgou como, da extrema dela para cima, pelo riacho Tyboybucú, outra légua, pouco mais ou menos, até a paragem Itacolumi, com meia légua de largo para cada banda (Sesmarias, Vol. 3, nº 180, p. 102).

Essas duas sesmarias foram o núcleo inicial da Fazenda Tiaia, o qual foi significativamente acrescido por doações e compras feitas pelos jesuítas. Conforme Ligio Maia, consta no livro da Câmara de Viçosa do Ceará, que no ano de 1710, Francisco da Cunha, homem branco e natural de Portugal, morador no Pacoti, comarca do Piauí, deixou em testamento 450 cabeças de gado vacum, 27 cavalar e um negro de nome José para Nossa Senhora da Assunção, com a condição de se rezarem todo ano três missas pela alma do falecido, morto em 30 de abril do mesmo ano (fl. 11 apud Maia, 2010, p. 182). O gado teria sido trazido da Parnaíba, no ano seguinte, por Pedro Álvares Carneiro, português e primeiro vaqueiro da fazenda, ficando acomodado em Tiaia de Cima, em Granja.

Após 1728, foram compradas também léguas de terras contíguas à Tiaia, nos sítios de Pacoti, Ipueira e Tiaia de Baixo; duas léguas de terra no lugar Panacuy, compradas ao pernambucano José Bandeira de Mello, além de três léguas de terras adquiridas pelos jesuítas em hasta pública. Juntou-se às terras da fazenda de Tiaia, uma doação feita por Pedro Alves Correia, no lugar denominado Una. Padre Francisco de Lira comprou ainda terras pertencentes a Pedro da Rocha Franco. Ao todo a fazenda de Tiaia chegou a possuir doze léguas de terras de extensão (Ibidem, p. 182).

A Venda da Tiaia

Com a expulsão dos jesuítas, em 1759, a Fazenda Taia foi confiscada pelo Desmbargador Gama Casto, passando a integrar, assim, a fazenda real. Entretanto, por meio de petição instruída a 31 de maio ode 1760, o vigário interino, Padre Luiz do Rego Barros, requereu ao Visitador Geral da Capitania do Ceará, Pe. Veríssimo Rodrigues Rangel, que a fazenda e os demais bens confiscados fossem devolvidos a igreja da Vila de Viçosa, uma vez que foram adquiridos por doações e compras. A devolução ocorreu apenas dez anos depois, em 1770, ficando aos cuidados do vigário desta paróquia (Martins, 1930, p. 19).

Consta no Livro de Terra da Cidade de São José de Granja:

Pertence ao patrimônio da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção da Vila de Viçosa doze léguas de terras na Fazenda Tiaia e Ipoeiras, cita no termo da Freguesia de São José da Cidade de Granja, as quais lhe foi doada por Francisco da Cunha com suas aguadas e logradouros. Vila Viçosa, trinta e um de janeiro de mil oitocentos e cinquenta e seis. O Vigário José Beviláqua, Administrador (nº 124, fl. 34).

O Padre José Beviláqua, pai do renomado jurista Clóvis Beviláqua, protagonizou alguns conflitos públicos envolvendo o patrimônio da Fazenda Tiaia. Em 2 de outubro de 1850, acusou o bacharel José Arcanjo Figueira de Melo e Castro, quando era juiz de direito interino da comarca, de ter confiscado ilegalmente algumas cabeças de gado da Fazenda Tiaia, conduzindo-o para sua fazenda (O Cearense, 13/11/1850). No mesmo jornal, em matéria de 8 de fevereiro de 1865, um correspondente anônimo, identificado como "Macaco Amarelo", acusa o sacerdote emprestar a juros de três de porcento ao mês os rendimentos da dita Fazenda. O mesmo primata correspondente, em 14 de março de 1865, acusa-o de desviar três contos de réis dos gados da Fazenda Tiaia (O Cearense, 14/03/1865).

Em 1926, o administrador, Rev. Padre José Carneiro da Cunha, iniciou a demarcação das doze léguas de terra que constituíam o patrimônio. Mas isso levou a vários litígios com o proprietários confinantes. Visando evitar o conflito, D. José Tupinambá da Frota optou por vender todas as terras da Fazenda Tiaia, em transação realizada a 2 de março de 1926. O comprador foi a empresa Joaquim Pereira de Oliveira & Filhos que pagou, ao total, o preço de cem contos de reis (Ximenes, 1996, p. 24).

Essa empresa foi fundada por Joaquim Pereira de Oliveira, pai do Coronel Raimundo Oliveira no ano de 1893. Tratava-se de uma das maiores casas comerciais que já existiu em Granja, proporcionando grande fortuna ao seu fundador. Os Pereira de Oliveira são uma antiga família estabelecida na ribeira do Timonha há mais de duzentos anos. A exemplo disso, Joaquim Pereira de Oliveira, trisavô de Raimundo, era oficial da Câmara de Granja quando de sua criação em 1776 (Oliveira, 1996, p. 70). Raimundo era casado com Maria Delmiro da Rocha, descendente do Capitão Pedro da Rocha Franco, tendo tido o casal nove filhos conhecidos. O coronel faleceu em 29 de setembro de 1944, sendo sepultado em Granja.

Situada dentro no território do distrito de Parazinho, a fazenda deu origem a uma localidade que experimentou alguma prosperidade econômica com a exploração da carnaúba em meados do século XX, quando Granja chegou a ser um dos maiores produtores de cera do estado. Um levantamento realizado pela pesquisadora Marília Lima, em 2001, constatou a existência de remanescentes das edificações originais, consistindo de uma sede de fazenda, a casa do administrador, uma fábrica de beneficiamento de cera de carnaúba, uma área para secagem das palhas, todas em avançado estado deterioração (Lima, 2001, p. 41).


Croqui do conjunto arquitetônico da Fazenda Tiaia (Lima, 2001, p. 41).

Entre as construções, destaca-se a capela, dedicada N. S. do Perpétuo Socorro, de corpo único, com acesso principal e nas laterais com altar ao fundo. Essa capela, que também exerceu a função de aglutinador da população local, foi construída pelo próprio Raimundo em 1940. Destaca-se que, originalmente, a capela possuía três portas frontais, como é possível ver na fotografia abaixo, as quais foram tampadas, dando-lhe sua configuração atual.

Capela da Fazenda Tiaia na década de 1940.

*Registro o agradecimento ao colega pesquisador de Parazinho, João Victor Mascarenha, pela seção das fotografias utilizadas nesta postagem.

A Origem de Martinópole

As terras da fazenda Tiaia englobavam uma imensa faixa de terra que se estendia por 12 léguas, aproximadamente 80 km, abrangendo partes dos atuais municípios de Granja, Martinópole, Uruoca, Moraújo e Coreaú. Mesmo antes da venda formal ao Sr. Raimundo Oliveira, porções dessa imensa área foi sendo ocupada ao longo dos anos. No caso de Martinópole, sua origem está ligada a uma fazenda instalada nas margens da Lagoa da Angica em 1817 (Lira, 1984, p. 151). Com o advento da seca de 1877, o corpo d'água teria recebido migrantes procedentes de locais como Crateús, Santa Quitéria, Santana do Acaraú e Riachão, atual Uruoca (Monte, 1997, p. 15).

O povoado, depois distrito de Granja, ficou durante muito tempo conhecido como Angica, palavra originária da árvore denominada angico, existente às margens da lagoa. Consta no Livro de Terra da Cidade de São José de Granja:

Em baixo assinado José Mariano de Albuquerque Cavalcante declaro que sou possuidor de uma posse de terra no lugar denominado Angicos, na beira do Rio Juazeiro, termo desta freguesia de São José da Cidade de Granja. Declaro que esta terra que tenho em Angicos eu a possuo no valor de vinte e dois mil réis. Estrema pelo nascente com terras da ilha, e Barra, pelo poente com terras dos Enjeitado, pelo norte com terras da Vara Comprida e pelo sul com terras da Santa Cruz, cuja terra compreende de largura de meia légua para cada lado do mesmo rio. Em tudo me refiro aos meus títulos, que tenho em meu poder. Declaro mais que também sou possuidor de uma posse de terra de criar e plantar no lugar denominado Angicos, na beira do rio Juazeiro, termo desta freguesia de São José da Cidade de Granja. Declaro que esta terra que tenho no Angicos eu a possuo no valor de dez mil réis, cuja terra compreende de largura meia légua para cada lado do mesmo rio. Desta terra extrema pelo nascente com terras da Ilha e Barra, pelo poente com terras da Vara Comprida, pelo sul com terras da Santa Cruz. Em tudo me respondo aos meus títulos, que tenho em meu poder para as mesmas circunstâncias. Granja, 11 de março de 1857, José Mariano de Albuquerque Cavalcante (nº 976, fl. 203).

Não consegui localizar essa propriedade, deixo-a apenas para fins de registro.

Um marco no seu desenvolvimento de Angicas foi a chegada da Estrada de Ferro de Sobral a Camocim. No ano de 1881, foi inaugurada a primeira estação de Angica, o que permitiu um trânsito maior de pessoas e mercadorias, favorecendo, como em outros lugares, a aglomeração de pessoas em sua proximidade. Em 11 de novembro de 1931, uma nova estação foi inaugurada na localidade, há 2 km da anterior (ibidem, p. 19).

No campo religioso, Angica encontrava-se vinculado a paróquia de Granja, tendo sua primeira missa celebrada no dia 8 de novembro de 1911, pelo Pe. Vicente Martins da Costa. A construção da capela, incentivada por Pe Martins, contou com a doação do terreno, um planalto chamado Córrego, feita por um senhor conhecido por “Tendá”, filho de uma fazendeira chamada Maria Alves, que residia no Açude do Meio. O lançamento da pedra fundamental ocorreu no dia 28 de novembro de 1912, sendo inaugurada em 11 de novembro de 1916. Para formar a quadra que mais tarde originaria a Praça da Matriz, contou-se com a colaboração dos senhores Joaquim João Brito, Manoel Leontino e Alexandre Gomes (ibidem, p. 21).

Mons. Vicente Martins

Em 1917, como forma de homenagear o Padre Vicente Martins da Costa, que teria colaborado para o crescimento do lugar, o povoado mudou seu nome para Martinópolis, significando cidade de Martins. Mas a mudança oficial do nome do distrito para Martinópolis somente ocorreu em 1933. Em razão da existência em São Paulo de município com o nome de Martinópolis, o nome do município, em 1943, foi mudado para Martinópole (Montenegro, 1923, p. 108). Em 20 de dezembro de 1946 foi criada a Paróquia, tendo como primeiro vigário o padre João Batista Pereira, que permaneceu no cargo até 02 de março de 1949. Em 26 e março de 1957, por meio da Lei Estadual nº 3560, Martinópole finalmente emancipou-se de Granja.

Segundo Francisco Barroso, desde 1942 funcionava uma comissão, que trabalhou pela criação da paróquia, composta pelos srs. Cap. Joaquim João de Brito, Cap. Joaquim Tibúrcio Sampaio, Cel. Francisco Felix Camilo, Cel. Manuel Torres de Morais, Antônio Rodrigues Viana, Benedito Rafael da Cunha, José Carneiro Vasconcelos, Cícero Dias Martins, Francisco Albuquerque Ximenes e outros. Enquanto outro grupo lutava para reunir bens para o patrimônio da freguesia: Antônio R. Viana, José Feijó de Melo e Francisco Chagas Vasconcelos (Barroso, 1999, p. 178).

Uruoca

A ocupação do território de Uruoca parece estar diretamente ligada a supramencionada sesmaria da Bracutiara, obtida por Pe. Asenço Gago em 1706. Ainda hoje existe nesse município um localidade de nome Bracutiara, à margem do Rio Coreaú, que possivelmente serviu de referência para antiga medição de terras. Um pouco mais acima no mesmo rio existe também a localidade de Balisa, que, segundo depoimento colhido por João Paulo Ferreira, teria relação com a demarcação das divisar da referida data. Um dos primeiros moradores da região, identificado como Antônio Félix de Lima (ou Félix Antônio Lima), teria encontrado uma baliza muito estragada pela ferrugem, dando o nome ao lugar (Dos Santos et al., 2020, p. 18).

Ainda segundo João Paulo, nas terras da missão foram construídos três currais para apresamento de gado: Curral de Cima, Curral do Meio e Curral de Baixo. Com a expulsão dos jesuítas, esses currais foram abandonados, tendo um deles, inclusive, originado a localidade de Curral Velho. O mesmo aconteceu com os tanques de água para o gado, que deram origem a localidade de Tanque Seco. Grande parte das terras da Tiaia foi vendida, e, assimi como outras datas, foram desmembradas pelos proprietários como dotes, vendas e doação aos seus filhos, dando origem a diversas fazendas. O nome primitivos da povoação da sede do município era Riachão, posteriormente alterado para Uruoca, algo como casa de cesto (?). Existe certa controvérsia se esta teria começado ao redor da igreja ou na localidade de Arisco, ambas situadas ao longo da linha férrea. Essa história encontra-se descrita em ricos detalhes no livro Uruoca, Pessoas e Lugares.

Diego Carneiro

16 de setembro de 2026

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. As Terras da Tiaia. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 16 de setembro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/09/as-terras-da-tiaia.html

Referências:

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BARROSO, Francisco de Andrade. Igrejas do Ceará: crônicas histórico-descritivas. Fortaleza, 1999.

BUENO, Francisco da Silveira. Dicionário tupi-guarani-português. 5. ed. rev. e aum. São Paulo: Brasilivros, 1987.

FREITAS, Gomes de. Dissipando lendas. Revista do Instituto do Ceará, Fortaleza, t. LXXXII, p. 280-283, 1968.

LIMA, Marília Gouveia Ferreira. Granja: evolução urbana e arquitetônica. 2001.

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MAGALHÃES, Leiliane Kecia. Senhoras e senhores de terras: redes de sociabilidade e relações de gênero no espaço econômico da Ribeira do Acaraú (século XVIII). 2023. 155 f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História Social, Centro de Humanidades, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2023.

MAIA, Lígio José de Oliveira. Serras de Ibiapaba: de aldeia à vila de índios: vassalagem e identidade no Ceará colonial-século XVIII. 2010.

MONTE, Adauto. Breve histórico da cidade de Martinópole: 1957–1997. Martinópole, 1997.

MONTENEGRO, Seridião Correia. Perfil histórico, geográfico e antropológico dos municípios do Ceará. Tomo 2. Fortaleza: Edições INESP, 2023.

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