Esse artigo tem como objetivo narrar como se deu a dispersão do povo Tremembé, originário de Almofala, em Itarema, em direção ao interior, ocupando, inicialmente, localidades de Lagoa dos Negros, Capim-Açu, Telhas e Queimadas, a partir da narrativa colhida pelos pesquisadores Guilherme do Valle, Christian da Silva e Ronaldo Lopes, entre outros.
A localidade de Lagoa dos Negros situa-se cerca de nove quilômetros a sudeste da Vila de Lagoa do Carneiro, na divisa entre Acaraú e Itarema, e tem sua ocupação ligada ao deslocamentos dos índios Tremembé, vindos de Almofala. Antônio Félix, um dos anciãos da comunidade resume assim essa história: Minha família, do meu pai, do meu avô, do meu bisavô eles vieram de Almofala. Quando foi em 1888 foi uma seca muito horrorosa. Ai eles destacaram de lá pelos matos, caçando raiz de pau para comer, saíram lá da Almofala aí encostaram na Lagoa dos Negros (Patrício, 2010, p. 27). Teriam partido da localidade de Gerais, na grande Almofala.
Além da severa estiagem de 1888-1889, comumente rememorada como seca dos três oito, certamente colaborou para a dispersão dos Tremembés de Almofala o posterior deslocamento das dunas que culminaram como o soterramento da vila na última década do século XIX, como relata Pe. Antônio Tomás:
Seguindo o mesmo teor da vida, já por ali haviam passado sucessivamente muitas gerações desde as remotas eras do seu povoamento até a última década do século passado, quando sobreveio a catastrophe que, destruindo a aldêa, fez fugir os seus últimos moradores para longinquas paragens, à cata de novos abrigos, como um bando de passaros bravios aos quaes houvessem desmantellado os ninhos (Ramos, 1981, p. 139).
Como vimos em outra postagem, o topônimo Lagoa dos Negros já era corrente em 1890, quando foi utilizando como demarcador do distrito policial de Santa Cruz.
Ademais, segundo a tradição oral, no final do século XIX, o velho João Cosmo, pajé dos tremembés a época, teria executado um "trabalho", que permitiu, não apenas a localização da Lagoa dos Negros, mas o seu desencantamento, possibilitando que a mesma fosse ocupada pelos novos moradores (Lopes, 2014, p. 51). João Cosmo tornou-se uma figura mítica entre os moradores dessa localidades, deixando, inclusive grande descendência.
Esse "trabalho" é descrito por Elias Carneiro do Nascimento, morador da Lagoa dos Negros e neto de uma das discípulas de João Cosmo:
Elias – a minha avó, essa que era discípula dele, contava pra nós que na Almofala ele invocou-se e disse que tinha essa lagoa aqui. Então eles juntaram um povo, a minha avó sendo discípula dele e essas Camilo, quer dizer, elas eram discípulas porque ele trabalhava e elas trabalhavam também, nessas prece que trabalha, baixa caboclo e ele sendo pajé como era. Aí tentaram descobrir a lagoa e juntaram um bocado de gente. Vamos supor, aqui fazia um terreiro, fazia um terreiro e ele botava a mesinha dele ali e fazia o trabalho dele ali. Então, tinha um mestre balizador, ta entendendo? Aquele mestre balizador chegava e apontava; apontava o canto pra onde era. Aí quando terminava o serviço de noite, bem cedo os homem metia a foice no mato abrindo travessão. Trabalhavam o dia todim; era uns trabalhando e outros buscando munição pra comerem, se alimentarem. Trabalhava o dia todim. Quando terminava o dia, ali fazia outro terreiro e ia trabalhar de novo. Aí quando este caboco chegava aí balizava. Quando amanhecia o dia os homens metia a foice no mato que tinha balizado, até chegarem aqui (Elias Carneiro, Lagoa dos Negros, 03/01/2014 apud Lopes, 2014, p. 52).
Segundo Ronaldo Lopes, no universo simbólico-religioso dos Tremembé, a manipulação de certos elementos da natureza se dá por intermédio dos "encantados", entidades sobrenaturais que auxiliam os índios de diversos modos. Entretanto, somente os iniciados na ciência do índio podem vê-los e se comunicar com eles. Sobre o topônimo Lagoa dos Negros, a moradora Rita França esclarece "aqui de primeiro só morava nêgo e aí era só os nêgo mesmo! Era os... sem terra, sem morada, era tudo era casinha de palha [...] tudo tinha suas casinha, mas era tudo assim" (Lopes, 2014, p. 74). É possível que essa população negra que se aglomerou nessa região seja remanescente de escravizados, que na época da descoberta da lagoa seriam recém libertos. É provável que, na visão dos brancos, não existisse grande distinção social entre negros e indígenas, sendo referidos como um único grupo, mais marginalizado.
Em 1920, houve um conflito do grupo estabelecido em Lagoa dos Negros e o fazendeiro Raimundo Ferreira Sales (Doca Sales), de Acaraú. Ressalta-se que, além fazendeiro, o Cel. Doca Sales foi uma das principais lideranças políticas de Acaraú nas primeiras décadas do século XX, tendo sido eleito deputado estadual entre 1896 e 1904, além de exercer as funções de intendente municipal entre 1906 e 1912 e de prefeito entre 1914 e 1919 (Araújo, 1971, p. 70-71). Ainda hoje existe uma rua em sua homenagem em Acaraú.
De acordo com Patrício (2010), Sales teria comprado uma primeira parte da Lagoa dos Negros diretamente dos indígenas, usando como moeda de troca farinha, fumo, café em caroço, rapadura, tecidos entre outros itens de primeira necessidade. Em seguida teria proposto as famílias a instalação de currais de gado no local, que seria cuidado pelas mesmas. Entretanto, visando expulsá-los, Sales teria soltado o gado, que invadiu os roçados dos moradores, forçando-os a deixar o local. O processo de expulsão foi completado pouco tempo depois, com a chegada de Manoel Gomes Sales, conhecido como Déo Sales, filho de Doca.
Como explica Ronaldo Lopes, a saída da Lagoa dos Negros leva a divisão dos grupos familiares entre diversas localidades próximas:
O primeiro se deslocam para Gameleira, um lugarejo próximo a Lagoa dos Negros e que pouco tempo depois foi tomado por Déo Sales, que os obrigou a partir novamente. Da Gameleira um grupo se destaca alguns poucos quilômetros a oeste, fixando-se em Pedrinhas. Esta área tinha aproximadamente uma légua em quadra e fora dividida em sete pedaços referentes a sete grupos da família Carneiro. Um segundo grupo ocupa uma pequena área de 400 braças ao norte de Pedrinhas e denominam de Córrego dos Fernandes. Destes, algumas famílias avançam e se fixam em Aroeira. O terceiro grupo, se desloca para Queimadas, enquanto o pajé João Cosmo foi para o Córrego da Onça, pequena localidade encravada entre Pedrinhas, Telhas e Queimadas, de lá saindo apenas para o Lameirão, em Almofala (Lopes, 2014, p. 59).
Em Lagoa dos Negros funcionou a fazenda até a década de 1990, quando entra em decadência e seu último proprietário, Joaci Pinto da Cunha, vende para o INCRA. Em 1997, após uma ocupação pelos descendentes dos tremembés e outras pessoas da região, a Lagoa dos Negros foi desapropriada e transformada em Projeto de Assentamento – PA. Inicialmente projetado para abrigar 92 famílias, em 2014, o assentamento possuía 79 famílias. Mais de 90% dos assentados vieram de Pedrinhas e Córrego dos Fernandes.
Telhas
Cerca de cinco quilômetros a sudoeste da Lagoa dos Negros está a localidade de telhas, uma das que recebeu os indígenas expulsos no primeiro assentamento Tremembé. Os dois ramos familiares que se fundiram para formar essa comunidade derivam das famílias de Manoel Rufino dos Reis, chegado em 1901, vindo de Almofala, e, posteriormente, Luis Paulo do Nascimento, que ficou mais conhecido como Luis Sabino, vindo da Lagoa dos Negros. Ressalta-se que existe outra versão, segundo a qual Manoel Rufino teria saído de Almofala para trabalhar na construção de um açude em Acaraú, daí teria passado para a região do Marco, situada a oeste do chamado Córrego das Telhas (Silva, 1999, p. 7). Pelo período é provável que se tratasse do açude do Acaraú-mirim, em Massapê.
Os fato é que esses dois ramos se juntam quando Manoel Rufino oferece sua filha para casar com Luis Sabino "para que os dois ficassem governando a terra em Telhas". Desta união, constitui-se a linhagem das famílias que até hoje ocupam o local, os Nascimento. A terra que ocuparam media 1.200 braças de frente por meia légua de fundo (Silva, 1999).
Como explica Ronaldo Lopes, logo após a chegada de Sabino, é a vez de seu primo Francisco Chicute, filho de João Cosmo, se juntar à nascente comunidade familiar ao casar-se com Benvinda, irmã da esposa de Luis Sabino. Portanto, os dois primos casam-se com duas irmãs. Como Chicute também morou no Córrego dos Fernandes, deixando descendência neste lugar, este segmento familiar de Telhas faz parte de uma unidade maior denominada "Os Chicute", cujas ramificações, além dos dois lugares citados, se estendem á Lagoa dos Negros, onde mora um de seus netos.
A origem dos conflitos que sucederam a uma série de negociações tem início com a chegada de dois irmãos, Manoel Antônio e Manoel Joaquim Pereira [ou Vasconcelos], por volta de 1910/1911, oriundos da Vazea Feia, no município de Bela Cruz, que pediram "um pontinho para colocar do gado" (Silva, 1999, p. 51). Com a permissão de Rufino, os dois irmãos e suas respectivas famílias vão gradativamente se estabelecendo no local e fazendo benfeitorias. Em 1938, José Vicente, sogro de Manoel Joaquim Pereira, vende as benfeitorias (a cacimba e alguns pés de cajueiro) para José Jorge de Vasconcelos [ou José Teófilo da Rocha, em outra versão]. Este último seria genro de Manoel Antônio.
Sobre esta família, pude apurar que viveram no município de Marco os irmãos Manoel Joaquim de Vasconcelos e Manoel Antônio de Vasconcelos, filhos de Joaquim Pereira de Vasconcelos e Theodora Maria de Jesus. Ela era filha de Honorato Manoel de Carvalho, possuidor de terras no Araticum e Várzea Feia, em Bela Cruz, era também neta de Manoel de Almeida Soeiro, conhecido como Velho Soeiro, habitante da localidade de Gado Bravo, no Marco. O segundo sobrenome do pai explicaria o porque dos irmãos serem referidos como Pereira, ao invés de Vasconcelos. Já quanto a José Teófilo da Rocha, tanto ele quanto sua mulher, Maria Neves Rocha, também era descendentes de Honorato Manoel de Carvalho, tendo uma relação de primo em algum grau com Joaquim e Antônio, mas não genro e sogro.
No mesmo ano, comprador e vendedor vão ao cartório oficializar a negociação, juntamente com Luis Sabino, que após a morte de seu sogro se constitui como proprietário da terra de Telhas. As 1.200 braças são então divididas em duas partes, tendo como marco o leito do Córrego das Telhas. Luis Sabino e sua família ficam na parte de cima do córrego, cabendo a José Jorge a parte de baixo. Alguns anos mais tarde, José Jorge, ao vender as terras para o Pe. Odécio Loiola, pároco de Bela Cruz, contesta a divisa de 1938, afirmando que, ao invés do rio, a estrada delimitaria a fronteira entre os terrenos.
Luis Sabino teria aceitado abrir mão de 200 braças em respeito à posição religiosa do padre. Mas, segundo o relato de seus descendentes, entre 1938 e a década de 1950, o Padre tenta se apropriar do restante da terra, exigindo que Luis Sabino pague renda pelo usufruto da terra. Sabino resistiu e se negou a pagar renda e, após várias viagens à pé para a capital do estado, consegue, finalmente, o registro das 500 braças de terra em 1955 no Cartório do 2º Ofício de Acaraú.
A partir de 1985, as terras da comunidade de Telhas voltaram a ser alvo do interesse de fazendeiros e comerciantes, desencadeando novos conflitos fundiários marcados por violência e opressão. Em 1986, o comerciante e tabelião de Acaraú Francisco Felipe da Rocha, o “Sassico”, alegou ter comprado as 500 braças de terra ocupadas pelas famílias e, valendo-se de sua influência cartorial, promoveu ações judiciais para obter a posse, embora os moradores afirmassem possuir documento de 1955. Após decisões desfavoráveis na Justiça de Acaraú, ocorreram duas incursões violentas contra a comunidade, envolvendo policiais militares e familiares de Sassico, com prisões, agressões, destruição de casas e a morte posterior da esposa de uma das lideranças em decorrência das agressões sofridas.
As famílias, contudo, permaneceram na terra e receberam lonas do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Acaraú, que constituiu uma das poucas instituições a apoiá-las naquele período. Posteriormente, Sassico vendeu a propriedade ao fazendeiro de Marco Francisco Assis de Souza, o “Chico Jovino”, que restringiu os moradores a 100 braças e passou a cobrar renda pelo cultivo nas demais áreas, além de apropriar-se dos mais de 400 cajueiros existentes. Durante a década de 1990, a cobrança de renda, as ameaças e o controle sobre a produção agrícola intensificaram a exploração dos moradores, contribuindo para o surgimento da luta pela retomada da terra e pelo reconhecimento da comunidade como indígena Tremembé.
Capim-açu e São José
A aldeia indígena de Capim-açu fica no município de Itarema, a leste de Telhas. Essas duas comunidades, juntamente com São José e Cajazeiras, integram a Terra Indígena do Córrego do João Pereira (Lopes, 2014, p. 29). Essa região teria tido ocupação mais ou menos concomitante a Lagoa dos Negros, tendo os primeiros habitantes, tremembés de Almofala, chegado no final do século XIX, fugindo da seta de 1888-89. Mais tarde, os Tremembé da família Teixeira, chefiados por vindos Pedro Teixeira, vindos de uma localidade próxima à Almofata, juntam-se às demais famílias indígenas que ocupavam a área próxima ao córrego do João Pereira, no que hoje corresponde a localidade de São Jose (Silva, 1999, p. 4).
Trago a seguir os relatos colhidos pelo pesquisador Guilherme do Valle em 1991, junto ao Patriarca dos Tremembé dessa região, sobre a origem dessa comunidade, e a gênese dos conflitos fundiários que a envolveram:
Segundo o que a velha Rosa conta, nos três 8 [1888], a mãe dela já tinha família aqui na área. ... Agora, quando foi nas eras, mais ou menos, de [19]24, 25, por aí assim, foi que chegou um senhor por nome Progitório [Pongitori], senhor que, justamente, era avó desse Moacir que tomou esta terra. O nome dele se chamava Vicente Progitório, diz que era da Itália e chegou no Acaraú. Tava por lá e ouviu falar que esses índios que tinham achado essa terra aqui. Terra. Muito. Muita mata, muita cobra, muita onça, muita caça. E ele ouviu falar que esses índios tinham achado essa terra. Aí ele veio de lá, chega e pede a José Suzano [da Rocha] e a Raimundo Suzano [da Rocha], que era o povo mais velho que tinha, pra fazer uma cacimba e botar uns garrote pra cá... Aí, eles foram e deram. Mas que ele chegou aqui, fez esse buraco, mas ele não apertou índio, né. Quer dizer que apenas ficou trabalhando mais os índios, parece pagando roçado mais os índios e aqui e acolá os índios trabalhavam para ele, pra ganhar algum trocado, né Mas ele não agarrou nenhum índio. Eles não reclamam. Eles num contam que Progitório agarrou eles, não (Patriarca, Capim-açu, 25/06/1991 apud Valle, 1993, p. 119).
Ressalta-se aqui uma pequena inconsistência na narrativa, uma vez que Vicente Pongitori (1851-1902) faleceu em 1902, portanto os fatos narrados provavelmente remontam ao final do século XIX, e não 1924/25. Ainda segundo o autor, Pongitori teria instalado um comércio na comunidade e facilitava as compras por parte dos tremembés. Falam que ele agia como se fosse o patrão e proprietário, convocando os índios para trabalhar em suas terras, mediante pagamento, muitas vezes em gêneros alimentícios. De forma geral, os locais lembram de Pongitori de maneira positiva, e afirmam que nunca tiveram problemas com ele. Entretanto, segundo os relatos, a situação de convívio pacífico teria começado a mudar após o falecimento do italiano:
Agora quando Progitório morreu, ele criava uma filha [Raimunda Pungitori Salles Ferreira]...Aí tinha um senhor no Acaraú chamado Bento Moura [Bento José de Moura Ferreira]. Ele casou com a filha desse velho. Aí quando Progitório morre, aí Bento Moura disse que a terra era dele, desse Progitório. Mas não era de Progitório! Que Progitório não tinha nada com índio, que ele era da Italia! Aí, ficou. Mas, que também Bento Moura, segundo o que os índios conta, também não aperreou com eles, não judiou com eles. Que quando Bento Moura morre, aí Moacir Moura [Salles], que sendo filho de Bento Moura, quer dizer que sendo neto de criação desse Progitório. Aí, quando Bento Moura morre, o que é que ele faz? Pega a terra, bota no cartório, dizendo que é dele, sem comprar dos índio e sem dizer aos índio. Vai à Acaraú e bota a terra no nome dele. Aí ficou fazendo os índios pagar renda, botando o índio pra fora. Aqui e acolá, dava num índio. Esse Moacir Moura, que é pai desse Zé Moacir [José Sales Moura]... Aí quando Bento Moura, o pai dele, morre, aí ele inventou que tinha comprado a terra de um irmão dele, chamado também de Humberto Moura...E lá ele disse que comprou a terra desse Humberto Moura. Mas Humberto Moura também não tinha a terra porque ele não era índio. Os índios chegaram primeiro! Bom, aí ele disse que tinha comprado a terra do Humberto Moura, irmão dele. Botou no cartório como dele e aí começou a massacrar índio, judiar com índio, botar índio pra fora, fazer índio pagar renda. Porque até nesse tempo, índio não pagava renda! (Patriarca, Capim-açu, 25/06/1991 apud Valle, 1993, p. 119).
Assim, os locais atribuem os tempos mais turbulentos de conflito a chegada de Moacir Moura Sales, em 1956, que teria, supostamente, registrado as terras de maneira irregular. Segundo Segundo o pesquisador Christian Silva, em 1966, o fazendeiro formaliza uma ação de atentado, expulsando no ano seguinte os Tremembé da família Teixeira da área em que viviam, cujas casas foram em seguida derrubadas. A partir daí, ele teria iniciado a cobrança do pagamento de "renda" pelo uso da terra e casas de farinha. Mas em meados da década de 80, alguns índios resolveram deixar de pagar renda a José Moacir, filho de Moacir Moura, achando injusta a remuneração pelo cultivo da terra e pela morada a que julgavam ter direito por terem nascido e se criado no lugar onde suas famílias viviam há gerações. Não obstante, roças foram queimadas, cacimbas entupidas e casas derrubadas, tanto da família Suzano quanto dos Santos (Silva, 1999).
Ainda segundo Silva, em 1985, o fazendeiro Francisco Felipe da Rocha (Sassico) teria entrado em conflito com os Tremembé que ocupavam a região de Telhas. Nesse contexto, o índio José Agostinho dos Santos ('Patriarca') e outros moradores do lugar procuraram o INCRA-MIRAD, conseguindo a inclusão da área do imóvel São José/Capim-Açu no Plano Regional da Reforma Agrária em 1987. No ano seguinte, pelo Decreto nº 96.505, de 15.08.88, o imóvel com superfície de 1.452 ha foi desapropriado por interesse social, tendo se efetuado a imissão de posse em setembro de 1989.
Queimadas
Queimadas é outra localidade originada através dos Tremembés que saíram da Lagoa dos Negros. A família do Sr. Manoel Ferreira do Nascimento teria sido a última a deixar a região, após serem expulsos por Doca Sales, que mobilizou a polícia de Acaraú para expulsá-los. O episódio é narrado pelo Sr. Cecídio Ferreira do Nascimento, então com 86 anos:
"... vimo a polícia chegando dois soldados, um sargento e ele Doca Sales , veio chegou, nesse tempo quem sabia o que era polícia, ninguém sabia. Ai o que ele faz, os outros quando viram a polícia correu gente pra tudo quanto é lado. Eram muitos tudo tinha filhos, já filho grande, espirrô todo mundo e o papai com onze filhos como é que iam me carregar, eu ainda estava nos cueiros e minha mãe contava tudo pra gente. Tínhamos uma roça grande, o milho já bonecando, contando o que ele faz, o meu pai suspendeu a cabeça e foi e disse: é seu Doca Sales uma andorinha só não faz verão, os outros tudo correram e eu não posso correr, porque se eles tivessem tudo aqui cada qual tinha dado uma opinião e todo mundo podia ter ficado. Mas ele ficou sozinho com onze filhos ia fazer o quê? Se cobrindo com um cesto? E disse ainda meu pai: só tenho uma palavra pro senhor, o senhor é rico e pode pagar a polícia pra por nós pra fora, mas saiba disso a terra não é sua, se fosse sua o senhor tinha executado nela, como nós achamos esse rio, a lagoa que bota os bichos pra dentro, o suor que derramei pra dar de comer pros meus filhos, se o bicho comeu o que é meu, ele lhe come também, ai ele baixou a cabeça e foi embora" (Patrício, 2010, p. 28)
Concretizada a saída das famílias, em número de sete, da Lagoa dos Negros, se inicia um percurso até chegarem a Queimadas. Antes passaram curtos períodos de tempo em Gameleira e Pedrinhas, relativamente próximas a Queimadas. Esses dois lugares, além do Córrego dos Fernandes e Aroeira, abrigavam os primeiros grupos que haviam deixado a Lagoa dos Negros, iniciando o segundo período das dispersões. Alguns grupos, inclusive, permaneceram nessas localidades citadas, consolidando sua ocupação.
Após percorrerem um trajeto não muito distante, os Tremembé se fixam num local onde presenciaram uma grande queimada, de causas desconhecidas, que segundo eles, findou apenas na ribeira do rio Acaraú e devastou toda a vegetação existente. Incidente acabou com os recursos naturais disponíveis, dificultando, inclusive a construção de habitações, por não haver materiais disponíveis. Contam que um morador das redondezas chamado Antônio Frutuoso, proprietário de um carnaubal na ribeira do Marco, permitiu que retirassem palhas para construir seus casebres. Esses eventos teriam ocorrido por volta de 1927. Os mais velhos não esclarecem o motivo de seus pais e avós terem decidido se fixar num local tão inóspito, levando em consideração que nas Telhas, por exemplo, onde tinham parentes, o fogo parece não ter chegado.
Os tremembés mantiveram estreita relação com os Frutuoso, Doca Frutuoso e Manoel Frutuoso, parentes de Antônio, que contratavam os serviços dos indígenas, envolvendo a preparação da lavoura e a colheita, em troca de mantimentos como feijão. Outro membro lembrado dessa família é o patriarca João Frutuoso. Teria sido essa família que teria dado o nome ao grupo de "Negros das Queimadas" (Lima, 2015, p. 88). Isso reforça o estereótipo que igualava os indígenas aos negros retintos descendentes de escravizados africanos, visto no caso da Lagoa dos Negros. Sobre o destino dessa família, D. Rita, moradora de Queimadas relata:
O João Furtuoso era da família dos Furtuoso, dos Doca. Ele morava lá onde hoje é lote. Aí tomaro tudo lá, quando o DNOCS entrou né. Indenizaram umas pessoa, as que ficavam perto do canal dos lote, e ai as pessoas saíram. O João Furtuoso já era finado, mas ficaram os filhos e os filhos saíram tudinho. Aí passou pra banda da Alpargata, do mesmo jeito [indenizações]. Ficou uns porque iam ser loteiro, né, o Zé Doca, o Mané Furtuoso já tinha morrido, o véi Furtuoso já tinha morrido. Ai pronto, ficou só família, família nova. Muitos ficaro e muitos saíram né, ficou alguns, outros não (12/07/2014 apud Lima, 2015, p. 91).
Na época da chegada em Queimadas, o grupo era conhecido como Os Camilo, em referência aos irmãos Rita, Teresa, França, Joana, Lió e Silivino Camilo, a maioria com seus respectivos cônjuges. As gerações que vivem em Queimadas descendem predominantemente de Rita Camilo e Chico Barba. É desta união que nascerá os três principais troncos familiares. Das cinco filhas, Maria da Conceição casou-se com Manoel Ferreira do Nascimento, dando início ao núcleo dos Custoso; Maria dos Anjos e seu esposo Félix Francisco dos Santos formam o núcleo dos Félix. Com a morte de Maria dos Anjos, sua irmã Paulina assume a criação de seus filhos e passa a ser a matriarca desta família. Por fim, Maria Carneiro casa-se com João Carneiro daí surgindo o núcleo dos Carneiro. Rosa Condorosa, a outra filha, casa-se com Chico Condorosa, mas não permanece em Queimadas, partindo para a Pindoba, vizinho a Aroeira. Antonio Mariano, um dos sete, regressa com sua família para Almofala (Lopes, 2014, p. 112).
Na década de 1940, com a morte dos três principais chefes de família que chegaram à Fundação de Queimadas, as três viúvas assumem a responsabilidade de conduzir o controle da terra, além de suas respectivas famílias. Maria Conceição, Maria Carneiro e Maria Paulina do Nascimento foram as responsáveis por definirem a organização das unidades domésticas e, posteriormente, a divisão sócio-espacial da terra. Com a ajuda de duas pessoas identificadas por Napoleão e João Bião, do Acaraú, as três matriarcas conseguem a “Escritura Pública de convenção de limites de uma posse de terras no lugar Queimadas”, emitida pelo Cartório de Acaraú em 15 de julho de 1957:
“[...] domiciliadas e residentes no lugar, Baixa dos Carneiros ou Queimadas, desta Comarca pelas outorgantes reciprocamente outorgadas me foi simultaneamente dito o seguinte: (...) que desde o ano de 1927 se apossaram primitivamente e vem ocupando mansa e pacificamente, sem interrupção de uma faixa de terra de criar e plantar, no lugar já reconhecido por Queimadas desta Comarca, que então tinha as seguintes confrontações, ao Nascente com a antiga estrada carroçável Acaraú-Fortaleza; ao Poente com a posse de Antonio Monteiro da Costa, hoje de Romuldo de tal; ao Norte, com terra de Manoel Duca da Silveira, hoje de José Gutemberg Rios, e ao Sul com terra de José Emiliano de Freitas em cuja faísca de terra desde aquela época fincaram suas moradias em casas de taipa, coberta de telhas, abriram cacimbas, e, anualmente vem plantando roçados e fazendo outras culturas, praticando enfim, todos os demais atos inerentes a qualidade de legítimos donos da terra mencionada [...]. 2˚Tabelião Francisco Felipe Rocha" (Patrício, 2010, p. 38-39).
Com os estudos para a instalação do perímetro irrigado do Baixo Acaraú, iniciado em 1983 pelo DNOCS, inicia-se um conflito entre a comunidade de Queimadas e o governo pela posse das terras. De acordo com as lideranças da época, o discurso dos técnicos do DNOCS inicialmente era o de as famílias não seriam removidas. Algum tempo depois o discurso muda e os técnicos passam a argumentar que as famílias seriam indenizadas. Doze famílias receberam uma pequena quantia, segundo dizem, como sinal de que elas não seriam removidas do local. Entretanto, oficialmente isso implicou na venda das terras para a união.
A partir daí, a implantação do perímetro irrigado avançou sobre as terras de Queimadas, especialmente entre 2001 e 2003, com a abertura de estradas, desmatamentos e instalação da infraestrutura hidráulica, reduzindo significativamente a área ocupada pelas famílias. Diante da ameaça de perda do território, as 17 famílias que viviam na comunidade buscaram apoio da Missão Tremembé, da FUNAI e de outras instituições, passando a reivindicar o reconhecimento de sua identidade indígena. Essa mobilização foi influenciada pelas experiências de comunidades Tremembé vizinhas, especialmente Córrego João Pereira, Telhas e Capim Açu, que já articulavam suas demandas territoriais com base no reconhecimento étnico. Em 2003, uma ordem de despejo determinou a retirada das famílias em apenas 72 horas, mas a mobilização de missionários, indígenas, FUNAI, Ministério Público Federal e imprensa conseguiu suspender a ação e, posteriormente, as obras.
ARAÚJO, Nicodemos. Município de Acaraú: notas para sua história. Acaraú, 1971.
LIMA, Ronaldo de Queiroz. Os Tremembé do Centro de Cura, em Queimadas: a formação de um grupo social. 2015. 242 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Centro de Humanidades, Departamento de Ciências Sociais, Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2015.
LOPES, Ronaldo Santiago. “A cultura de índio, seu menino, vem de longe aqui”: formação histórica e territorialização dos Tremembé/CE. 2014. 189 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2014.
PATRÍCIO, Marlinda Melo. Relatório circunstanciado de identificação e delimitação da Terra Indígena Tremembé de Queimadas, Acaraú/CE. Brasília, DF: Funai, 2010. Relatório técnico.
RAMOS, Dinorá T. (org.). Padre Antônio Tomás: príncipe dos poetas cearenses. 3. ed. Fortaleza: Jornal A Fortaleza, 1981.
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VALLE, Carlos Guilherme Octaviano do. Terra, tradição e etnicidade: os Tremembé do Ceará. 1993. 419 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1993.