A malhação de Judas é uma das mais antigas manifestações do folclore brasileiro, especialmente viva nas regiões Norte e Nordeste. A prática, realizada tradicionalmente no Sábado de Aleluia, consiste na confecção e destruição simbólica de um boneco que representa Judas Iscariotes, o apóstolo que traiu Jesus. Esse relato é trazido no Evangelho segundo São Mateus, o qual relata que o discípulo traidor, “tendo atirado as moedas de prata no templo, retirou-se e foi enforcar-se” (cap. XXVII, v. 5).
O rito do enforcamento de Judas, porém, ultrapassa o simples gesto de punição ao traidor bíblico e revela camadas mais profundas de significação social, histórica e religiosa, constituindo-se como uma transfiguração folclórica, isto é, uma sobrevivência cultural reinterpretada e reinserida em novos contextos socioculturais (Cascudo, 2001, p. 556).
Os estudos sobre a origem da malhação de Judas apontam para suas raízes na Idade Média europeia, em especial no contexto da Inquisição e das perseguições religiosas. Conforme o historiador Ático Mota, “a malhação do Judas seria um resíduo folclórico, transfigurado, [...] que traduz a perseguição às práticas judaicas que se desencadeou ao longo da Idade Média” (Mota, 1981, p. 17). Essa herança inquisitorial moldou a alma popular, associando a figura do “Judeu” à representação simbólica do mal e da traição.
Durante os séculos XII e XIII, a Igreja e o Estado uniram esforços para reprimir heresias e dissidências religiosas, como o catarismo e o valdismo, criando o sistema da Inquisição (Schilesinger e Porto, 1973). O processo inquisitorial previa etapas ritualizadas — sermão, confissão, julgamento e auto-de-fé — em que muitos condenados eram queimados “em efígie” quando não podiam ser executados fisicamente. Essa condenação em efígie é reconhecida como uma das origens diretas da queima simbólica de Judas (Mota, 1981, p. 14).
O auto-de-fé, além de cerimônia punitiva, era também um espetáculo público de catarse coletiva, no qual o povo assistia à destruição dos “inimigos da fé”. A pesquisadora Rosemarie Erika Horch descreve minuciosamente como esses rituais ocorriam nos domínios portugueses, incluindo a confecção de manequins para representar os condenados ausentes (Horch, 1969, p. 14-15). A prática de queimar figuras humanas, portanto, consolidou-se como uma representação ritual de purificação e de controle social.
Assim, a malhação de Judas representa a continuidade simbólica desse processo, transformando o ato punitivo da fogueira inquisitorial em um rito popular de expiação e justiça simbólica. Com o tempo, a figura do traidor bíblico foi associada à de inimigos locais, políticos ou figuras públicas, revelando o caráter dinâmico e funcional dessa tradição.
Além das influências inquisitoriais, a malhação do Judas também se articula a práticas mais antigas, como a Serração da Velha, outro rito quaresmal de expurgação simbólica que, em certas localidades, coexistiu ou se fundiu com a malhação (Schilesinger e Porto, 1973). Ambas as práticas compartilham o elemento de catarse e de substituição do mal antigo (a Velha Lei) pela renovação (a Boa Nova), simbolizando o fim da Quaresma e o início da Páscoa cristã.
A Tradição no Nordeste do Brasil*
No Nordeste brasileiro, a malhação de Judas adquiriu contornos próprios, mesclando a religiosidade popular com o humor, a crítica social e a sátira política. De acordo com depoimentos coletados em diversos estados — Maranhão, Piauí, Ceará, Pernambuco e Bahia —, o rito envolve a confecção artesanal do boneco, o enforcamento ou queima, e, sobretudo, a leitura do testamento de Judas, momento de forte interação comunitária (p. 29).
Em São Luís do Maranhão, por exemplo, a professora Wanda Maria Santos Maia descreve que a brincadeira é chamada de “enforcamento ou queimação do Judas”, sendo comum pendurar os bonecos em postes com tabuletas que trazem o nome de figuras impopulares do bairro (p. 29). À tarde, realiza-se a leitura do testamento, texto satírico que expõe os vícios e defeitos de pessoas conhecidas, funcionando como instrumento de crítica e catarse social (p. 30).
No Ceará, o costume também se associa à tradição poética popular. Em Canindé, o poeta Raimundo Marreiro compunha versos que reinterpretavam o drama bíblico de Judas e adaptavam-no à realidade local, incluindo críticas a políticos, comerciantes e figuras cotidianas (p. 30-31). Esses testamentos, escritos em rimas simples e ritmadas, aproximam-se da literatura de cordel, reforçando a dimensão literária e performática da prática.
Em Pernambuco e Alagoas, a malhação do Judas manteve forte presença até o século XX. Registros jornalísticos e etnográficos apontam que, nas cidades de Olinda e Recife, a brincadeira muitas vezes degenerava em conflitos físicos e reações violentas de moradores, obrigando as autoridades a intervir (p. 33). O folclorista Mário Souto Maior observou que essas manifestações eram “tão antigas quanto a colonização portuguesa” e que, apesar da repressão, persistiam como expressões autênticas da cultura popular (p. 33).
Na Bahia, a queimação do Judas era marcada por celebrações públicas, desfiles e fogos de artifício. Em Rio Real, por exemplo, o boneco era feito de capim e madeira, recheado com bombas, e o evento culminava com a leitura do testamento e a queima simbólica diante da multidão (p. 34). Em Almadina, a festa incluía desfiles matinais e a inscrição de frases irônicas no peito do Judas, evidenciando o caráter lúdico e socialmente crítico da manifestação (p. 35).
Em todas essas localidades, nota-se que a malhação de Judas cumpre uma função simbólica de justiça popular. O boneco serve de bode expiatório coletivo, sobre o qual recaem as frustrações, tensões e críticas sociais de uma comunidade. Trata-se, portanto, de uma atualização da antiga condenação em efígie — agora deslocada do campo religioso para o social e político —, mantendo, contudo, a estrutura ritual de purificação, punição e renovação (p. 14; p. 30).
*Adaptado do livro Queimação de Judas, de Ático Mota (1981).
A Queimação do Judas no Baixo Acaraú
A tradição do enforcamento de Judas no município de Acaraú remonta aos tempos coloniais. Como descreve o memorialista Nicodemos Araújo, o boneco, representando o traidor, é confeccionado em tamanho natural, com tronco e membros recheados de capim ou melão-de-são-caetano. A cabeça, esculpida em madeira de mulungu ou timbaúba, por vezes recebe uma máscara de papelão. O boneco é vestido com calças, paletó, sapatos, chapéu e gravata, sendo pendurado em um poste ou galho alto, cercado de ramos e plantas fincados no solo — o chamado “sítio do Judas”. Pela manhã, o Judas é alvejado a pedradas ou tiros e, finalmente, queimado entre aplausos, vaias e gargalhadas populares (Araújo, 1971, p. 221).
O folguedo, contudo, só é considerado completo quando precedido de uma ceia improvisada, muitas vezes composta por galinhas “emprestadas” de vizinhos. Também fazem parte da brincadeira os “chamados para o pau” — convites declamados em voz deformada e trêmula, a fim de evitar o reconhecimento dos participantes. Nessas chamadas, o humor popular se manifesta em piadas, apelidos e provocações, quase sempre dirigidos àqueles que mais detestam a brincadeira. Não por acaso, o padre Antônio Tomás censurava a prática com ironia (Araújo, 1971, p. 221):
Uma tolice rematada, enfim;Tantos Judas havendo em carne e osso,Levar-se à forca um Judas de capim.
Peça indispensável à celebração é o testamento de Judas, geralmente composto em versos, nos quais o traidor, prestes a ser executado, reparte seus “bens” entre amigos, desafetos e figuras conhecidas da comunidade. Araújo traz em sua obra um desses testamentos, datado de 1890, obtido junto ao arquivo do Tenente João Augusto de Castro Moura, cujas quadras revelam o espírito satírico e humorístico da tradição (Araújo, 1971, p. 222):
Esses versos, transmitidos oralmente e recriados de geração em geração, condensam o tom lúdico e crítico que caracteriza a malhação de Judas. Mais do que uma simples brincadeira, o ritual expressa a necessidade de expiação simbólica e o desejo popular de justiça, perpetuando, sob a forma de riso e sátira, uma tradição de raízes seculares.
Essa festa também acontece tradicionalmente em Bela Cruz, com pequenas variações, como muitas vezes testemunhei desde criança. Usualmente escolhia-se um tronco de carnaubeira, do mais alto que se conseguisse, o qual era por inteiro untado em cebo, de modo que ficasse completamente escorregadio. O boneco, que, em linhas gerais, segue as descrições supramencionadas, era então pendurado no topo do mastro, e em seu bolso colocava-se um quantia em dinheiro, simbolizando as moedas de prata recebidas por Iscariotes. A partir daí iniciava-se uma disputa entre os populares ver para quem conseguiria subir no pau ensebado e alcançar a recompensa antes que o boneco fosse incendiado. O espetáculo era acompanhado com atenção pela população que reagia a cada queda com gargalhadas e gritos de chacota.
Diego Carneiro
10 de outubro de 2025
Referências
ARAÚJO, Nicodemos. Município de Acaraú, Notas para sua história. Acaraú, 1971.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 102 ed. São Paulo: Global, 2001
HORCH, Rosemarie Erika. Sermões impressos dos autos da fé. Rio de Janeiro, Divisão de Publicações e Divulgação, 1969.
MOTA, Ático Vilas-Boas da. Queimação de Judas: catarismo, inquisição e Judeus no folclore brasileiro. Rio de Janeiro, MEC-SEAC-FUNARTE: Instituto Nacional do Folclore, 1981.
SCHLESINGER, Hugo; PORTO, Humberto. Os papas e os judeus: uma abordagem histórica. 1973.

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