A Tradição da Queimação de Judas

Queimação de Judas, Jean Baptiste Debret, 1832.

A malhação de Judas é uma das mais antigas manifestações do folclore brasileiro, especialmente viva nas regiões Norte e Nordeste. A prática, realizada tradicionalmente no Sábado de Aleluia, consiste na confecção e destruição simbólica de um boneco que representa Judas Iscariotes, o apóstolo que traiu Jesus. Esse relato é trazido no Evangelho segundo São Mateus, o qual  relata que o discípulo traidor, “tendo atirado as moedas de prata no templo, retirou-se e foi enforcar-se” (cap. XXVII, v. 5)

O rito do enforcamento de Judas, porém, ultrapassa o simples gesto de punição ao traidor bíblico e revela camadas mais profundas de significação social, histórica e religiosa, constituindo-se como uma transfiguração folclórica, isto é, uma sobrevivência cultural reinterpretada e reinserida em novos contextos socioculturais (Cascudo, 2001, p. 556).

Os estudos sobre a origem da malhação de Judas apontam para suas raízes na Idade Média europeia, em especial no contexto da Inquisição e das perseguições religiosas. Conforme o historiador Ático Mota, “a malhação do Judas seria um resíduo folclórico, transfigurado, [...] que traduz a perseguição às práticas judaicas que se desencadeou ao longo da Idade Média” (Mota, 1981, p. 17). Essa herança inquisitorial moldou a alma popular, associando a figura do “Judeu” à representação simbólica do mal e da traição.

Durante os séculos XII e XIII, a Igreja e o Estado uniram esforços para reprimir heresias e dissidências religiosas, como o catarismo e o valdismo, criando o sistema da Inquisição (Schilesinger e Porto, 1973). O processo inquisitorial previa etapas ritualizadas — sermão, confissão, julgamento e auto-de-fé — em que muitos condenados eram queimados “em efígie” quando não podiam ser executados fisicamente. Essa condenação em efígie é reconhecida como uma das origens diretas da queima simbólica de Judas (Mota, 1981, p. 14).

O auto-de-fé, além de cerimônia punitiva, era também um espetáculo público de catarse coletiva, no qual o povo assistia à destruição dos “inimigos da fé”. A pesquisadora Rosemarie Erika Horch descreve minuciosamente como esses rituais ocorriam nos domínios portugueses, incluindo a confecção de manequins para representar os condenados ausentes (Horch, 1969, p. 14-15). A prática de queimar figuras humanas, portanto, consolidou-se como uma representação ritual de purificação e de controle social.

Assim, a malhação de Judas representa a continuidade simbólica desse processo, transformando o ato punitivo da fogueira inquisitorial em um rito popular de expiação e justiça simbólica. Com o tempo, a figura do traidor bíblico foi associada à de inimigos locais, políticos ou figuras públicas, revelando o caráter dinâmico e funcional dessa tradição. 

Além das influências inquisitoriais, a malhação do Judas também se articula a práticas mais antigas, como a Serração da Velha, outro rito quaresmal de expurgação simbólica que, em certas localidades, coexistiu ou se fundiu com a malhação (Schilesinger e Porto, 1973). Ambas as práticas compartilham o elemento de catarse e de substituição do mal antigo (a Velha Lei) pela renovação (a Boa Nova), simbolizando o fim da Quaresma e o início da Páscoa cristã.

A Tradição no Nordeste do Brasil*

No Nordeste brasileiro, a malhação de Judas adquiriu contornos próprios, mesclando a religiosidade popular com o humor, a crítica social e a sátira política. De acordo com depoimentos coletados em diversos estados — Maranhão, Piauí, Ceará, Pernambuco e Bahia —, o rito envolve a confecção artesanal do boneco, o enforcamento ou queima, e, sobretudo, a leitura do testamento de Judas, momento de forte interação comunitária (p. 29).

Em São Luís do Maranhão, por exemplo, a professora Wanda Maria Santos Maia descreve que a brincadeira é chamada de “enforcamento ou queimação do Judas”, sendo comum pendurar os bonecos em postes com tabuletas que trazem o nome de figuras impopulares do bairro (p. 29). À tarde, realiza-se a leitura do testamento, texto satírico que expõe os vícios e defeitos de pessoas conhecidas, funcionando como instrumento de crítica e catarse social (p. 30).

No Ceará, o costume também se associa à tradição poética popular. Em Canindé, o poeta Raimundo Marreiro compunha versos que reinterpretavam o drama bíblico de Judas e adaptavam-no à realidade local, incluindo críticas a políticos, comerciantes e figuras cotidianas (p. 30-31). Esses testamentos, escritos em rimas simples e ritmadas, aproximam-se da literatura de cordel, reforçando a dimensão literária e performática da prática.

Em Pernambuco e Alagoas, a malhação do Judas manteve forte presença até o século XX. Registros jornalísticos e etnográficos apontam que, nas cidades de Olinda e Recife, a brincadeira muitas vezes degenerava em conflitos físicos e reações violentas de moradores, obrigando as autoridades a intervir (p. 33). O folclorista Mário Souto Maior observou que essas manifestações eram “tão antigas quanto a colonização portuguesa” e que, apesar da repressão, persistiam como expressões autênticas da cultura popular (p. 33).

Na Bahia, a queimação do Judas era marcada por celebrações públicas, desfiles e fogos de artifício. Em Rio Real, por exemplo, o boneco era feito de capim e madeira, recheado com bombas, e o evento culminava com a leitura do testamento e a queima simbólica diante da multidão (p. 34). Em Almadina, a festa incluía desfiles matinais e a inscrição de frases irônicas no peito do Judas, evidenciando o caráter lúdico e socialmente crítico da manifestação (p. 35).

Em todas essas localidades, nota-se que a malhação de Judas cumpre uma função simbólica de justiça popular. O boneco serve de bode expiatório coletivo, sobre o qual recaem as frustrações, tensões e críticas sociais de uma comunidade. Trata-se, portanto, de uma atualização da antiga condenação em efígie — agora deslocada do campo religioso para o social e político —, mantendo, contudo, a estrutura ritual de purificação, punição e renovação (p. 14; p. 30). 

*Adaptado do livro Queimação de Judas, de Ático Mota (1981).

A Queimação do Judas no Baixo Acaraú

A tradição do enforcamento de Judas no município de Acaraú remonta aos tempos coloniais. Como descreve o memorialista Nicodemos Araújo, o boneco, representando o traidor, é confeccionado em tamanho natural, com tronco e membros recheados de capim ou melão-de-são-caetano. A cabeça, esculpida em madeira de mulungu ou timbaúba, por vezes recebe uma máscara de papelão. O boneco é vestido com calças, paletó, sapatos, chapéu e gravata, sendo pendurado em um poste ou galho alto, cercado de ramos e plantas fincados no solo — o chamado “sítio do Judas”. Pela manhã, o Judas é alvejado a pedradas ou tiros e, finalmente, queimado entre aplausos, vaias e gargalhadas populares (Araújo, 1971, p. 221).

O folguedo, contudo, só é considerado completo quando precedido de uma ceia improvisada, muitas vezes composta por galinhas “emprestadas” de vizinhos. Também fazem parte da brincadeira os “chamados para o pau” — convites declamados em voz deformada e trêmula, a fim de evitar o reconhecimento dos participantes. Nessas chamadas, o humor popular se manifesta em piadas, apelidos e provocações, quase sempre dirigidos àqueles que mais detestam a brincadeira. Não por acaso, o padre Antônio Tomás censurava a prática com ironia (Araújo, 1971, p. 221):

Uma tolice rematada, enfim;
Tantos Judas havendo em carne e osso,
Levar-se à forca um Judas de capim.

Peça indispensável à celebração é o testamento de Judas, geralmente composto em versos, nos quais o traidor, prestes a ser executado, reparte seus “bens” entre amigos, desafetos e figuras conhecidas da comunidade. Araújo traz em sua obra um desses testamentos, datado de 1890, obtido junto ao arquivo do Tenente João Augusto de Castro Moura, cujas quadras revelam o espírito satírico e humorístico da tradição (Araújo, 1971, p. 222):

Vou morrer pelo meu crime,
Arrependido e sem ódio.
Meu manual de quadrilha
Eu deixo para o Custódio.

Ao alfaiate Bolacha
Eu lego a minha tesoura,
E a minha biblioteca
Para o Tenente João Moura.

Deixo a pólvora de foguetes
Ao Meireles, sacristão;
Ao amigo Camerino,
A receita do fanfarrão.

O fraque ao doutor Arruda,
A machadinha ao Dodô;
E ao amigo Leonílio,
Meu cavalo marchador.

Esses versos, transmitidos oralmente e recriados de geração em geração, condensam o tom lúdico e crítico que caracteriza a malhação de Judas. Mais do que uma simples brincadeira, o ritual expressa a necessidade de expiação simbólica e o desejo popular de justiça, perpetuando, sob a forma de riso e sátira, uma tradição de raízes seculares.

Essa festa também acontece tradicionalmente em Bela Cruz, com pequenas variações, como muitas vezes testemunhei desde criança. Usualmente escolhia-se um tronco de carnaubeira, do mais alto que se conseguisse, o qual era por inteiro untado em cebo, de modo que ficasse completamente escorregadio. O boneco, que, em linhas gerais, segue as descrições supramencionadas, era então pendurado no topo do mastro, e em seu bolso colocava-se um quantia em dinheiro, simbolizando as moedas de prata recebidas por Iscariotes. A partir daí iniciava-se uma disputa entre os populares ver para quem conseguiria subir no pau ensebado e alcançar a recompensa antes que o boneco fosse incendiado. O espetáculo era acompanhado com atenção pela população que reagia a cada queda com gargalhadas e gritos de chacota.

Diego Carneiro

10 de outubro de 2025

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. A Tradição da Queimação de Judas. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 10 de outubro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/10/a-queimacao-de-judas.html

Referências

ARAÚJO, Nicodemos. Município de Acaraú, Notas para sua história. Acaraú, 1971.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 102 ed. São Paulo: Global, 2001

HORCH, Rosemarie Erika. Sermões impressos dos autos da fé. Rio de Janeiro, Divisão de Publicações e Divulgação, 1969.

MOTA, Ático Vilas-Boas da. Queimação de Judas: catarismo, inquisição e Judeus no folclore brasileiro. Rio de Janeiro, MEC-SEAC-FUNARTE: Instituto Nacional do Folclore, 1981.

SCHLESINGER, Hugo; PORTO, Humberto. Os papas e os judeus: uma abordagem histórica. 1973.

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