O Sitio Araticum foi, possivelmente, a primeira propriedade rural instalada em Bela Cruz, e uma das primeiras de todo o Vale do Acaraú. Pertenceu, originalmente, ao português Nicolau da Costa Peixoto, o qual a recebeu em sesmaria, confirmada no dia 14 de outubro de 1702, cuja petição informa que:
Dizem Maria de Sá e Nicolau da Costa Peixoto, moradores no Ceará que o Capitão-mor Francisco Gil Ribeiro lhes concedeu a data de terras que oferecem na Ribeira do Rio Acaraú [goacoracu], e porquê a querem confirmar, pedem a Vossa Senhoria que seja servido mandar-lhes passar a confirmação das ditas terras e receber a mercê. Informe o provedor da fazenda real ouvindo o Procurador da Coroa. Recife, treze de fevereiro de mil setecentos e dois. Rubrica Informe o procurador da coroa [João Rego de] Barros [Braga] (Sesmarias Vol. 2, nº 118, p. 103).
Ressalta-se que Maria de Sá era esposa do Coronel Félix da Cunha Linhares e cunhada de Nicolau, irmã de sua esposa Paula de Sá, ambas filhas do lendário Coronel Leonardo de Sá. A resposta a petição teve o seguinte teor:
Hei por bem de lhes fazer mercê dar aos suplicantes acima nomeados, como pela presente dou de sesmaria, em nome de sua Majestade, nos mesmos lugares pontes testadas que confrontam em sua petição e lhes foi concedida pelo Capitão-mor do Ceará duas léguas de terra de comprido e uma de largo, meia para cada banda do dito Rio Acaraú [goacoracu], pagando de foro por cada légua quatro mil reis, os quais povoarão dita terra no termo de cinco anos aliás se darão por devolutas (...). (Sesmarias Vol. 2, nº 118, p. 103).
A partir da descrição da sesmaria, e de outras próximas, como a de Domingos de Aguiar Oliveira, mencionada em outra postagem, conclui-se que as terras de Nicolau Peixoto englobavam a totalidade dos perímetros urbanos dos atuais municípios de Marco e Bela Cruz. Segundo Pe Sadoc, essa porção de terra preencheria os vazios não ocupados por Manuel de Góes e seus companheiros (Araújo, 2005, p. 81).
A sede da propriedade, muito provavelmente, deu nome a localidade Araticum, situada na divisa entre os dois municípios. Segundo Márlio Falcão (1999, p. 150), Araticum (ou Araticuns ou Araticus) é um palavra indígena que designa uma fruta da família das Anonáceas, semelhante a graviola. Sua tradução literal seria algo como "fruto do céu" ou "fruto mole".
Por volta de 1725, sabe-se que Nicolau vendeu parte de suas terras para Manoel Ferreira Fonteles, que passariam a integrar a Fazenda Tucunduba (Araújo, 2005, p. 59). Não está claro, entretanto, a localização e o tamanho da porção vendida, mas considerando que a Fazenda do Marco, parte derivada da Tucunduba, pertenceu a Francisco Ferreira Fonteles, filho de Manoel Fonteles, deduz-se que teria sido a porção do terreno onde hoje está localizada a sede do município de Marco (Avelino, 2020, p. 108).
Ademais, em 12 de setembro de 1732, Nicolau da Costa Peixoto, juntamente com seu vizinho Domingos de Aguiar Oliveira doaram terras e gado para constituir o patrimônio da Capela de N. S. da Conceição. Como já analisado anteriormente em outra postagem, muito provavelmente as terras doadas (meia légua) derivam integralmente da sesmaria de Nicolau Peixoto, sendo o gado a contrapartida de Domingos Aguiar.
Declarou o dito inventariante haver deixado a defunta, sua mãe, meia légua e cem braças de terras de criar gados na margem do Rio Acaraú, e uma de largo para cada banda do dito rio, livre de foro e pensão, que confronta, digo que extrema, da parte de cima do rio com o Capitão José de Araújo Costa e pela parte debaixo do dito rio extrema com Pedro Serafim de Jesus pela parte do nascente com terras Jaruty (?) e do poente na mesma forma, que avaliada pela essa... e quantia de duzentos e vinte mil reis.
Para situar o leitor, uma braça de terra equivalia de 2,2 metros, portanto, uma légua, ou 6,6 km, equivaliam a 3000 braças. O inventariante de Paula de Sá foi seu filho, Luís de Sá Costa, que vendeu várias porções dessas terras ao dito Capitão José de Araújo Costa, como consta em seu inventário, datado de 25 de setembro de 1792:
- 250 braças de terra de comprido nas margens do rio Acaraú, com duas léguas de largo, uma para cada banda do dito rio, pegando o seu comprimento da ponta do nascente com terras do Alferes Luis de Sousa Xerez até testar com terras dos possuidores do Sítio Araticuns, cuja terra houve por compra a Luis de Sá Costa, como consta da escritura que apresentou passada pelo tabelião Roque Correia Marreiros, avaliadas por 80$000.
- 250 braças de terra, de criar gado, de comprido no Sítio Corgo, com huma légua de largo, meia para cada banda do dito Corgo, pegando da parte de baixo com terras do Alferes João de Sousa Xerez e pela parte de cima com terras do mesmo João de Sousa, que houveram por compra a Luis de Sá Costa, como consta da escritura que apresentou passada pelo tabelião Roque Correia Marreiros, avaliados por 25$000.
- 400 braças de terra de comprido nas margens do rio Acaraú, de criar gado, com uma légua de largo para cada banda do rio Acaraú, pegando seu comprimento das terras do mesmo casal até testar com terras do Sargento-mor Manoel Francisco de Vasconcelos, cuja terra houve por compra a Luis de Sá Costa, avaliadas em 200$000 (Araújo, 2000, p. 163).
As demais figuras mencionadas, os alferes Luis de Sousa Xerez e seu filho João de Sousa Xerez, eram parentes Manoel Vaz Carrasco, pessoas de grande relevo nos primórdios da Ribeira do Acaraú. Luís foi juiz ordinário e um dos signatários da ata de criação da Vila de Sobral, juntamente com José de Araújo Costa, também era irmão do Capitão-mor José de Xerez Furna Uchoa, ambos sobrinhos de Carrasco. Já o Coronel Manuel Francisco de Vasconcelos era filho de Mateus Mendes de Vasconcelos e genro de Luis de Sousa Xerez.
O Sitio Várzea Feia
Pedro Serafim de Jesus, mencionado no testamento de Paula de Sá, é outro pioneiro da região. Em 1788 declarou a Câmara do Sobral ser proprietário da Fazenda Várzea Feia (Vargem Feia), nas margens do Rio Acaraú, com a seguinte descrição:
Um quarto de terra de comprido no dito sítio com uma légua de largo para cada banda do dito rio que principia nas testadas da terra de Santa Cruz e finda com terras da Fazenda dos Araticuns (Frota, 1974, p. 191).
Originário do Rio Grande do Norte, casou-se com Rosaura Maria do Carmo, filha do paraibano Alferes Manoel de Moraes Valcácer. O Casal residia no Sítio Várzea Feia, "numa casa velha de telha tapada de barro com quatro portas com suas fechaduras", como consta em seu inventário, datado de 1835 [1]. O inventário do casal traz mais detalhes sobre a propriedade:
[...] a margem do Rio Acaracú, da parte do poente, com o comprimento de seiscentas braças com uma légua de largura e no cumprimento pela parte do Norte extremavam com terras de Nossa Senhora no Marquinho, e subindo rio acima até onde completava as sobreditas seiscentas braças a extremar com terras de Araticuns pela parte do nascente, na sua largura extremava no lado com Rio Acaracú e na mesma largura pela parte do poente até completar a legoa de largura nas Caatingas, terras que se julgavam devolutas, que existiam entre os Rios Acaracú e Coriaú, as quais terras a saber mais quanto de legoa foi dado ao finado testador em dote de casamento por seu finado sogro Manoel de Moraes Valcacer e sua mulher Maria Correia da Silva, avaliadas em 1835 pelo preço de 400$000 réis.
E o outro meio quarto que lhe inteira um quarto de legoa houveram os finados testadores por compra que lhes fizeram à Francisco Antonio Pereira e sua mulher Joanna Maria da Conceição pelo valor dado no inventário, duzentas braças na dita terra, cada uma braça em preço de mil reis, que importam na quantia de duzentos mil réis (200$000). (fls. 33 e 80 do inventário de Pedro Serafim e Rosaura).
Joanna Maria da Conceição, casada com o Alferes Francisco Antônio Pereira, é cunhada de Pedro Serafim, também filha de Manoel de Moraes Valcácer, de quem também possivelmente herdou as terras. Manoel Valcácer residia da Várzea Feia desde pelo menos novembro de 1755, quanto testemunhou na justificação de Domingos de Sousa Carvalho, tutor dos filhos de Luis Quaresma Coutinho (Araújo, 2005, p. 258). Em seu inventário consta o seguinte [2]:
Declara mais o dito inventariante... trezentas braças de terras de criar gados na margem do Rio Acaraú ... de comprido com uma légua, digo, com meia légua de largo para cada banda... a qual confronta pela parte com terras do Capitão José de Araújo Costa, do nascente ao norte com terras de Nossa Senhora de Santa Cruz, avaliada pelo avaliador em cinquenta mil réis (Inventário de Manoel de Moraes Valcáver, 1782).
Essas provavelmente foram as terras remanescentes após transferências em vida. A análise das descrições das propriedades sugere fortemente que Manoel Valcácer tenha comprado terras de Nicolau Peixoto ou de algum de seus herdeiros. Ressalta-se também que o Alferes era casado com Maria Correia Silva, filha de Antônio Correia Peixoto, sesmeiro da foz do Acaraú e possível parente de Nicolau Peixoto, o que pode ter motivado a compra. O local do antigo sítio Várzea Feia corresponde hoje a uma localidade de mesmo nome na cidade Bela Cruz.
O Marquinho da Santa
No Livro de Registro de Terras da Freguesia da Barra do Acaraú, levantamento realizado no período de 1855/57, ainda constam como moradores da Região da Várzea Feia e Araticum, os descendentes de Pedro Serafim de Jesus (Joaquim Pereira de Vasconcelos [neto],Inácio José de Morais [neto], Francisco José de Morais [neto], Maria Angélica da Conceição [neta] e Florêncio José de Morais [neto], todos filhos de Manoel José de Jesus). Uma descrição comum nesse registro é que as propriedades encontravam-se "encravadas na légua entre o Marco e Marquinho".
O Marquinho, outrora localidade, hoje é um bairro nos limites do perímetro urbano de Bela Cruz. Ignora-se o motivo desse topônimo, mas é provável que esteja relacionado a alguma demarcação de terras, no sentido que pode ter havido lá algum "pequeno marco" divisório. Ademais, depreende-se do supramencionado testamento de Pedro Serafim, que este delimitasse o fim das terras da igreja, o que é compatível com as nossas medições.
Destaca-se outra figura relevante dessa região, José Romão de Carvalho, genro de Manoel José de Jesus, que hoje dá nome a uma rua no bairro. Seus filhos foram grandes agricultores e comerciantes em Santa Cruz, com destaque para Antônio e Francisco Romão de Carvalho, que também atuaram, em comissão, como administradores do patrimônio da Capela de N. S. da Conceição entre 1918 e 1924 (Araújo, 1967, p. 40).
Ainda no livro de Registro de Terras de 1855-57, consta também como proprietários das terras do Araticum, os filhos do Capitão Manoel Mendes da Costa (José Mendes Carneiro, Ricardo Mendes Carneiro e Joaquim Mendes Carneiro), além dos tutelados de seu irmão, Vicente Carneiro da Costa. Manoel e Vicente são bisnetos de João Carneiro da Costa, tronco dos Carneiro do Vale Acaraú.
28 de maio de 2026
Referências
FALCÃO, Márlio Fábio Pelosi. Ciará Terra do Sol. Gráfica Folha. Fortaleza: APRECE, 1999.
FROTA, Luciara S. Aragão (Org). Estudo sobre o Remanejamento da Pecuária na Zona Norte do Ceará. Fortaleza: SUDEC, 1974b, 2 volumes.
Muito interessante este estudo sobre as origens da localidade Araticuns/Várzea Feia, berço dos meus antepassados, aqui mencionados: Manoel José de Jesus, pai de Florêncio José de Moraes (casado com Maria Manoela do Carmo - meus trisavós) e Maria Angélica da Glória, esta casada com José Romão de Carvalho, meus trisavós duas vezes.
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