A Sociedade Sertaneja*

A posse da terra, dos rebanhos e dos escravizados era o principal critério de distinção social na sociedade sertaneja, promovendo uma cisão profunda entre os grupos dominantes e os subalternos. No topo dessa hierarquia figuravam os grandes proprietários rurais, cujo poder e riqueza, embora significativos no contexto local, não devem ser superestimados, dada a fragilidade estrutural da economia regional: solos pobres, secas periódicas e baixa rentabilidade da pecuária.

Historicamente, o Ceará jamais constituiu elites sólidas como as de Pernambuco ou da Bahia. A diferença é visível no próprio patrimônio material: enquanto em outras capitanias se ergueram suntuosas igrejas e sobrados, no Ceará predominavam construções modestas, feitas com materiais da região. Mesmo os templos — símbolos tradicionais de prestígio — eram simples e despojados. Essa realidade só começou a se alterar com o desenvolvimento das charqueadas e, posteriormente, da cotonicultura.

Ainda assim, essa elite sertaneja — se é que podemos chamá-la assim — detinha quase o monopólio da terra, do gado e dos escravizados, concentrando os principais meios de produção numa economia agropecuarista. Gozava de significativa autonomia frente à Coroa portuguesa, especialmente até o fim do século XVIII. 

Em muitas localidades, a palavra dos grandes proprietários era lei, imposta com o apoio de seus grupos de “cabras”. Isolados da autoridade metropolitana, sediada no litoral, esses potentados agiam como verdadeiros senhores de suas regiões, acumulando cargos administrativos e patentes militares — símbolos de distinção social — e impondo sua vontade sobre a população local.

Dentro do próprio grupo dos proprietários havia gradações de riqueza, determinadas pelo tamanho das propriedades, sua localização, frequência de secas e produtividade. A partir do fim do século XVIII, com o fortalecimento do comércio de carne seca e algodão, alguns comerciantes também ascenderam socialmente, passando a integrar as elites locais.

No outro extremo da estrutura social estavam os pequenos proprietários, arrendatários, comerciantes de menor porte, funcionários públicos, artesãos, agregados, trabalhadores livres, indígenas submetidos, escravizados negros e mestiços, indigentes — todos em relações de dependência, mais ou menos diretas, com os detentores da terra.

Cada fazenda representava uma unidade familiar marcada por conservadorismo e patriarcalismo. É verdade que, em muitos casos, as diferenças materiais entre os domínios dos senhores e as moradias dos agregados ou vaqueiros não eram tão acentuadas — todos viviam em casas rústicas, de arquitetura simples e mobília modesta. Havia, inclusive, certa convivência cotidiana: o proprietário, por vezes, era padrinho dos filhos dos sertanejos e partilhavam hábitos alimentares e vestuário semelhante.

Essa aparente proximidade, no entanto, não significava igualdade. A sociedade sertaneja era profundamente hierarquizada e autoritária. A autoridade do senhor da terra era quase absoluta — sobre pessoas, bens e até instituições locais. Muitas vezes, os latifundiários eram os próprios vereadores das vilas, controlando as decisões políticas. O estilo de vida austero não eliminava os antagonismos sociais. Pelo contrário, reforçava-os, pois a rigidez das relações de poder se fazia presente no cotidiano.

A violência era um traço marcante dessa sociedade. Seu legado pode ser identificado na própria toponímia da região — nomes como “Batalha”, “Emboscada”, “Tocaia”, “Riacho da Cruz” e “Riacho do Sangue” evocam disputas sangrentas. Os conflitos entre famílias extensas — verdadeiros clãs — eram frequentes e motivados por disputas territoriais, desentendimentos por roubo de gado, controle de pastagens e fontes d’água, ou ainda por ofensas à honra, como casos de adultério e defloramento. Famílias como os Monte e os Feitosa protagonizaram lutas prolongadas e sangrentas, com vinganças que se perpetuavam por gerações.

Mesmo entre as camadas inferiores havia recorrência de conflitos violentos. Motivos não faltavam: desavenças pessoais, dívidas, brigas por herança ou terra, rixas familiares, embriaguez e até discussões banais. A precariedade material — marcada pela escassez de alimentos, ferramentas e outros bens — tornava instrumentos de trabalho, como enxadas e foices, itens valiosos, cuja proteção podia levar ao uso de armas. Em razão da ausência de um aparato policial-judiciário eficaz (ou por sua parcialidade e corrupção), era comum que cada indivíduo buscasse sua própria defesa. Facas, bacamartes, pistolas e espadas faziam parte da indumentária cotidiana. Havia verdadeira devoção por essas armas, e a impunidade era frequente (Gomes, 2010).

O uso cotidiano de armas preocupava as autoridades coloniais e imperiais, que tentavam, sem muito êxito, restringi-lo. Assim, qualquer desentendimento podia rapidamente escalar para a violência letal. O machismo dominava a cultura local. As mulheres, especialmente as pobres e não brancas, eram duplamente discriminadas — por gênero e por etnia. Esperava-se que fossem obedientes, recatadas e subservientes: boas filhas, boas esposas, boas mães. À mulher cabia obediência; ao homem, o privilégio de uma sexualidade livre, desde que mantida a aparência pública e o sustento familiar.

O amor era considerado um sentimento reservado a Deus. O ideal conjugal pressupunha que o marido tratasse a esposa com piedade, pois ela era vista como um ser inferior. Não surpreende, assim, que muitos maridos buscassem satisfação sexual fora do casamento, geralmente com prostitutas, a quem cabia o papel de realizar aquilo que não era permitido no lar. O adultério era visto como a mais grave das transgressões femininas, punível com a morte. O homem traído era ridicularizado como “corno” e perdia o respeito social, especialmente se não reagisse com violência.

Nos casos de sedução, a mulher desvirginada era considerada desonrada. Contudo, até o século XVIII, era socialmente aceitável que a moça engravidasse antes do casamento, como forma de provar sua fertilidade — prática aceita inclusive pela Igreja, desde que resultasse em matrimônio. Quando o homem não assumia a responsabilidade, caracterizava-se o crime de sedução, e a reparação moral exigida pela família da vítima podia incluir punições físicas severas: surras, assassinatos ou até castração. Se o sedutor aceitasse casar-se, podia escapar dessas sanções.

Mesmo quando o ofensor era punido, a mulher dificilmente encontrava pretendentes. Muitas vezes, era expulsa da casa paterna, para que sua "falha" não influenciasse outras moças. Essas mulheres acabavam como amantes ou prostitutas. A punição dos adúlteros e sedutores visava proteger os valores do casamento e funcionava como advertência à comunidade.

Era comum que jovens iniciassem a vida sexual com animais (mulas, cabras, ovelhas, jumentas) ou mesmo com plantas (bananeiras). Em um ambiente dominado pelo machismo, casos de homossexualidade eram silenciados, perseguidos pela Igreja, pela Inquisição e pelas autoridades civis. Apesar disso, muitas mulheres — ricas e pobres — encontravam maneiras de ampliar sua participação na vida social. Houve casos notáveis, como o de Bárbara de Alencar, liderança política no início do século XIX, pertencente a influente família do Crato.

A sociedade sertaneja era também atravessada por um racismo estrutural, ainda presente. Além das desigualdades de classe e gênero, havia uma estratificação étnico-racial profundamente enraizada. Um branco pobre possuía melhores oportunidades sociais que um negro ou indígena livre. A branquitude, por si só, garantia tratamento preferencial na justiça e nos demais espaços sociais. Para mulheres pobres e não brancas, a exclusão era ainda mais severa.

Por fim, a religiosidade marcava profundamente essa sociedade. Predominantemente católica, a fé sertaneja se manifestava de forma sincrética, mesclando elementos do catolicismo com práticas religiosas africanas e indígenas (Girão, 1984; Lemenhe, 1991; Vieira Junior, 2004; Pinheiro, 2008; Gomes, 2010).


*Adaptado do livro História do Ceará, de Airton de Farias (De Farias, 2018, p.44-49)


Referências

DE FARIAS, Airton. História do Ceará. Fortaleza: Armazém da Cultura, 2018

GIRÃO, Raimundo. Palestina, uma agulha e as saudades. Fortaleza: Imprensa Oficial do Ceará, 1984

GOMES, José Eudes. Milícias Del Rey: As Tropas Militares e poder no Ceará Setecentista. Editora FGV, 2010.

LEMENHE, Maria Auxiliadora. As razões de uma cidade. Fortaleza: Stylus Comunicações, 1991.

PINHEIRO, Francisco José. Notas sobre a formação social do Ceará (1680-1820). Fortaleza: Fundação Ana Lima, 2008.

VIEIRA JUNIOR, Antônio Otaviano. Entre paredes e bacamartes: história da família do Sertão (1780-1850). Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, Hucitec, 2004.

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