Nas Terras do Massapê

Massapê, provavelmente no início do Sec. XX.

Diz o memorialista Osvaldo de Aguiar:

Massapê, que significa “solo formado pela decomposição de calcários constitutivos de argila compacta anegrada”, no penúltimo quartel do século passado era simples fazenda do Município de Santana, sita na ribeira do Acaraú-Mirim. Pertencia ao capitão José Rodrigues Lima e sua esposa, Dona Úrsula Balbina de Sousa Lima, pessoas influentes da sociedade sobralense, e que ali, em tempos idos e vividos, costumavam permanecer, em vilegiatura, durante a agradável quadra invernosa. Falecido José Rodrigues Lima, a vivenda formou a meação da Dona Úrsula, que a dirigiu por longos anos. Com a morte desta, passou o imóvel ao domínio do seu genro, Manuel Artur da Frota, cidadão evoluído e lúcido (De Aguiar, 1969, p. 11).

José Rodrigues Lima, nascido a 5 de maio de 1808, era filho do Alferes João Rodrigues Lima, filho do Capitão Domingos Rodrigues Lima, e de Josefa Joaquina da Conceição. Já D. Úrsula, era filha do Capitão Diogo José de Sousa e Constança Maria do Carmo Ponte.

Capitão Domingos Rodrigues Lima

O citado Capitão Domingos Rodrigues Lima foi o tronco da família Rodrigues Lima da Ribeira do Acaraú. Nascido a 7 de junho de 1722, era natural da Freguesia de Santa Maria da Cabração, Concelho de Ponte de Lima, Distrito de Viana do Castelo. Veio para o Brasil ainda menor de idade, estando na região pelo menos desde 1739. Aqui casou-se em segunda núpcias a 16 de setembro de 1762, “pelas nove horas e meia do dia,” na Capela de São José, com Maria da Soledade Araújo, filha de Domingos da Cunha Linhares e de Dionísia Alves Linhares (Lima, 2016, p. 661).

Segundo Mons. Sadoc Araújo, antes de vir para a região do Acaraú, Domingos viveu em Recife onde foi um próspero comerciante. Já em Fortaleza, casou-se com sua primeira esposa, Maria Brito de Jesus, viúva do Juiz de Órfãos Barnabé Vieira Coelho. Maria de Jesus, que já possuía quatro filhos com Barnabé, morreu no parto de sua primeira filha com o segundo marido. Não querendo assumir o sustento de seus enteados, Domingos acabou preso em Fortaleza, episódio que levou a perda de grande parte de seus bens. Lá conheceu seu futuro sogro, Domingos da Cunha Linhares, que teria o ajudado a recomeçar por meio da agropecuária (Araújo, 2000, p. 136-137).

O casal recebeu, como dote do pai da noiva, a Fazenda Caraúbas, onde passaram a residir. Essas terras possivelmente foram parte das sesmaria dada por Leonardo de Sá a Félix da Cunha Linhares, que as legou a seu sobrinho, Domingos da Cunha Linhares. Domingos Rodrigues Lima prosperou na agropecuária, construindo um significativo patrimônio. Em declaração prestada, no ano de 1788, à Câmara Municipal de Sobral, confessou possuir as seguintes propriedades:

"1 - Fazenda de Gados Caraúbas, no riacho Caioca, de que é morador e proprietário e cujo vaqueiro é seu filho Antônio Rodrigues Lima. Mede uma légua e meia de comprido com uma légua de largo, que principia nas testadas das terras do encapelado de São José e finda nas testadas do sitio Poço Cercado de Antônio Gomes de Albuquerque; [...]
2 - Fazenda Gangorra, no riacho Caioca, medindo uma légua de terra de comprido com uma de largo, que finda nas testadas de Eusébio de Azevedo;
3 - Um sitio de plantar, denominado Mato Grosso, na serra da Meruoca; [...]
4 - Fazenda Pitombeiras, no rio Aracatiaçu, medindo uma légua de comprido nas margens do mesmo, tudo por uma só barda;
5 - Uma légua de terra no riacho Groaíras que serve de logradouro da fazenda. [...]
6 - Um sitio de planta lavoura, denominado Guarigua, na serra da Uruburetama. Principia nas testadas da fazenda Pitombeiras, todas de São Pedro (Miraíma), até testar com terras do Caioca e do Garrote;
7 - Fazenda de gado, denominada Serrinha. Contesta com terras de Bernardo Pereira e finda com terras de Jerônimo Machado Freire é as de plantar lavoura principiam nas testadas do sítio Bananal e lindam com terras da Guarigua" (Araújo, 2000, p. 140-141) 

A maior parte dessas terras ficavam localizadas a margem direita do rio Acaraú, na região do atual distrito de Caioca, em Sobral. Domingos sofria com um problema de visão causado por uma inflação ocular, que o deixou praticamente cego. Faleceu aos 75 anos em 7 de dezembro de 1797, sendo sepultado na Igreja Matriz de Sobral.

A Fazenda Massapê

Dentre os filhos do segundo casamento de Domingos, figura o Alferes João Rodrigues Lima, nascido a 14 de mais de 1772, casado com Josefa da Conceição, filha do Capitão Manoel Francisco de Vasconcelos e de Maria Joaquina da Conceição, em 25 de novembro de 1800. Desse casamento, nasceu o já citado José Rodrigues Lima. Em 1855, José Rodrigues Lima declarou ser o proprietário da Fazenda Massapê, no lugar Cajazeiras, conforme o Livro de Registro de Terras da Freguesia de Sant'Anna (abaixo).


Transcrição:

Possuo seiscentas braças de terras de comprido com uma légua de largo para o Riacho Raiz no lugar Cajazeiras, hoje conhecido por Massapê, situado na meia légua de terra do Chiqueiro das Cabras, a margem esquerda do Riacho Contendas na Freguesia de Sant'Anna, extremando na parte de cima com a meia légua de terras da Fazenda Contendas, e da parte de baixo com o quarto de terras do Chiqueiro das Cabras. Sobral, cinco de julho de mil oitocentos e cinquenta e cinco. José Rodrigues Lima (nº 12, fl. 12 e 13).

Corroborando a afirmação de Osvaldo de Aguiar, a Fazenda Contendas situa-se logo ao lado do atual núcleo urbano de Massapê. Essa terras muito provavelmente foram obtidas como dote, dado pela família de sua esposa, uma vez que pertenceram originalmente a sesmaria do Major Francisco Ferreira da Ponte, obtida a 23 de junho de 1746, nas "chamadas as Ilhargas de Meruoquinha no sitio chamado Santo Antônio" (Sesmarias, Vol. 7, nº 509, p. 19). D. Úrsula era bisneta de Vicente Ferreira da Ponte, filho do dito Major.

O Desenvolvimento do Povoado

Estação de Massapê, 1959.

O povoado de Massapê começou a se desenvolver a partir de 1881, com a passagem da Estrada de Ferro de Sobral a Camocim, cuja construção foi iniciada em 14 de setembro de 1878, inaugurando-se a estação de Massapê em 31 de dezembro de 1881. Conforme Raimundo Girão, com a inauguração da estação, houve um fluxo migratório de pessoas e famílias para os seus arredores, onde construíram casas de taipa e palhoças. O primeiro prédio residencial de tijolos e telhas teria sido construído por Francisco Gregório Carneiro, no fim de 1881, vindo do Sítio Canafístula (Girão, 1983, p. 141).

Na descrição de Osvaldo de Aguiar:

"A notícia da iniciação da mencionada obra, que avançava veloz do litoral para a hinterlândia, ecoou logo nas abas da Meruoca e nas ribeiras do baixo Acaraú, trazendo a Massapê crescido número de serranos e sertanejos que, reduzidos à extrema penúria, procuravam recursos para o sustento próprio e dos filhos, na iminência de sucumbirem pela inanição. Algumas toscas barracas de palha, feitas pelos flagelados a título de abrigo provisório, surgiram ao redor do local da futura estação ferroviária, inaugurada em 31 de dezembro de 1881, com o aparecimento do trem de horário regular, conduzido pela locomotiva "Sinimbu" (De Aguiar, 1969, p. 14).

Nessa época também foi edificada a primitiva capela, consagrada a Santa Úrsula, construída por um dos filhos de José Rodrigues Lima, o Padre Diogo José de Sousa Lima. O patrimônio eclesiástico foi constituído por D. Úrsula Babina, que, como mencionado anteriormente, teria assumido a administração da Fazenda após a morte de seu marido. Segundo Pe. João Mendes Lira, esse primeiro templo teria sido terminado em 1883 (Lira, 1984, p. 153). Terminada e benta a ermida, edificou-se, em seu entorno, uma série de casinholas.

O povoado foi oficializado como distrito pelo ato provincial de 4 de maio de 1882, subordinado ao município de Santana, sob o nome de Serra Verde. Em 3 de dezembro de 1884, desembarca em Massapê o historiador Antônio Bezerra, que traz a seguinte descrição do lugar:

“Massapê, se bem que insignificante e contendo poucas casas espalhadas sem forma de arruamento, em terreno acidentado, que declina sensivelmente para o lado do poente, é, no entanto, o melhor dos pontos escolhidos para Estação, em consequência de sua vizinhança da serra da Meruoca e da Cidade de Santana. A serra, que se ergue daquele lado a 12 quilômetros da povoação, apresenta agradável perspectiva, devido talvez à conservação da mata ou à porção d'água de diversos regatos que banham os flancos, ou efeito da luz que faz com que seja vista na distância sempre azulada e coroada, às vezes, de alvos véus de neve” (Bezerra, 1965, p. 46)

A povoação foi elevada a categoria de Villa e criado o município, desmembrado do território de Santana do Acaraú, pela Lei nº 398, de 25 de setembro de 1897, sendo inaugurado em 5 de fevereiro do ano seguinte, tendo como primeiro intendente João Adeodato Carneiro (Girão, 1983, p. 141). Tinha como limites:

Ao Norte, 1.º, com o município de Sant'Anna do Acarahú, pelas extremas descritas. 2.º, com o município de Granja, pelas extremas já assinaladas (ver município de Granja). A Oeste, com o município de Ubajara, pelo rio Coreaú até a barra do riacho Itaquatiara, e, daí, pelo leito deste até as cabeceiras. Ao Sul, com o município de Sobral, pelo divisor de águas do rio Jaibaras com as do rio Coreaú, seguindo depois pelo divisor de águas entre este último e os riachos Contendas, Raiz e Tucuns, donde toma o topo da serra da Meruoca, pelo lado nordeste, até confrontar com as cabeceiras do riacho dos Remédios, pelo qual segue até o rio Acaraú. A Leste, pelo riacho Cajazeiras, serra da Baixa d'Água, de cuja ponta mais oriental toma, em rumo certo, para o meio da barragem do açude Acaraú-Mirim, donde, finalmente, por uma linha reta desse ponto à barra do rio Carioca, no rio Acaraú.

Em 1899, atendendo ao anseio da população local, retomou o topônimo Massapê, o qual preserva até hoje.

No início do século XX, vieram engrossar o adensamento urbano, paroaras do Amazonas, "egressos dos seringais nortistas e especialmente das regiões acreanas, onde lá se destacara o cearense de Massapé, crismado na sua terminologia matuta com o nome de Lixandre Liveira Lima [Alexandre Oliveira Lima]" (Aragão, 1996, p.145). Estes fixaram residência no local onde hoje está situada a cidade, e aí construíram os primeiros edifícios (IBGE, 1959, p. 367). Anos antes, estes teriam migrado para o norte, fugindo da seca de 1877, onde levantaram capital e então decidiram retornar à região.

A capela foi elevada à condição de Igreja Matriz e, concomitantemente, à Freguesia, desmembrada de Santana do Acaraú, pela Provisão de 22 de junho de 1911, assinada pelo Bispo de Fortaleza, D. Joaquim José Vieira, sendo seu primeiro vigário o padre Antônio Cândido de Melo (Arruda e Carvalho, 2010, p. 6). Consta na provisão o seguinte texto:

"Tendo em consideração que o povo de Massapê, pertencente a freguesia de Santana, tem-se desenvolvido consideravelmente, contando já dentro de sua área quinhentas e catorze casas de tijolo, de sorte que, com bons fundamentos, se pode calcular o número de seus habitantes em 2.500 almas, e considerando que a capela de Santa Úrsula tem condições necessárias para servir de matriz..."

A Fazenda Oiticará

Essa antiga propriedade pertenceu a Amaro José de Arruda, açoriano, natural da Ilha de São Miguel. Amaro nasceu em 23 de maio de 1761 na Freguesia Relva, filho de Pedro de Viveiros e de Francisca dos Anjos (Lima, 2016, p. 57). Segundo Pe. Sadoc, é provável que os pais de Amaro fossem descendentes de cristãos novos espanhóis, "perseguidos e expulsos de Castela e Aragão nos fins do Séc. XV. Estes cristãos-novos, judeus forçados à conversação por ordem dos Reis Católicos, tomavam nomes de plantas nativas com o fim de encobrir a perseguida origem judaica. Assim, algumas delas provavelmente ligadas a família Boytac, adotaram o apelido “da Ruda” (apud Arruda, 1987).

Amaro veio para o Brasil no final do século XVIII, casando-se em Mamanguape, Paraíba, com D. Maria da Conceição, filha do Capitão José Ferreira da Costa e sua mulher, D. Maria Colaça. Após o casamento, teriam se mudado para a Ribeira do Acaraú, indo morar no lugar Oiticará, onde instalaram uma fazenda de plantar e criar gados às margens do Rio Contendas, no território do atual município de Massapê (Arruda, 2011, p. 6). Amaro faleceu na sua Fazenda Oiticará, que viria a se tornar o berço dos Arrudas da região norte do Ceará, em 22 de maio de 1832.

Em 1949, Comendador Ananias Arruda, para homenagear o centenário de nascimento de seu pai, Miguel Arcanjo de Arruda (1849-1923), mandou erguer um cruzeiro as margens do Açude Acaraú mirim, com uma placa contando a história da Família Arruda. Miguel, nascido em Oiticará, era neto de Amaro José de Arruda. O evento de inauguração contou com a presença de autoridades locais e foi realizada uma missão pelo bispo de Sobral, D. José Tupinambá da Frota.

Inauguração do Cruzeiro de Oiticará, 1949.

A Fazenda Unha de Gato (Remédios)

Remédios foi a denominação primitiva da localidade de Tuína, atual distrito de Massapê. O antigo nome guarda relação com devoção local a Nossa Senhora dos Remédios, orago de sua capela, concluída em 1878, também por influência do já mencionado padre Diogo José de Sousa Lima (Lira, 1984, p. 154). Antes disso teve a designação Unha de Gato, marco de divisa do então distrito de Santana, que, em 1833, compreendia "todo o terreno que existe do Marco dos Tucanos, Acaraú acima de uma e outra banda do mesmo rio, até a fazenda Unha de Gato, exclusive, da parte do poente" (Araújo, 2005, p. 242). O novo topônimo, Tuína, deveu-se ao Decreto-Lei nº 1.114, de 30 de dezembro de 1943. Segundo Raimundo Girão, esse nome é alusão a um chefe indígena de grande projeção na história colonial do Ceará (Girão, 1983, p. 378).

Planta Baixa da Povoação de Remédios, por volta de 1800.

A história do templo é trazida em detalhes por D. José Tupinambá da Frota, segundo o qual em 18 de novembro de 1858 foi e enviada ao Bispo de Pernambuco, a cuja jurisdição pertencia então o Ceará, a seguinte petição:

“Exmo. Rmo. Snr. Bispo Diocesano. — Diz Alexandre José de Sá, morador na Freguesia do Sobral, que elle supe., e seus visinhos, morando distante da Matriz a cerca de trez leguas, e de quasi uma legua da Capella de S. José, que lhes fica alem do Rio Acaraú, por isso o supe. e seus visinhos querem edificar uma Ermida para lhes servir de caza de oração aonde possão dirigir suas preces ao Senhor, visto a longa distância em que estão da Matriz. Já está feita a doação do terreno para a edificação da Ermida, que deve ser dedicada à Nossa Senhora dos Remedios, e junto offerecem a V. Exa. Rma. tanto o papel da doação, como a informação do seu Rdo. Parocho, para V. Exa. Rma. tomar em consideração: pr. tto. — P. humildemente V. Exa. Rma. Se digne conceder aos Supes. licença, pa. erigir a referida Ermida pelo que — Orabunt ad Dominum” (Frota, 1974, p. 155-156).

Sobre o peticionador, Alexandre José de Sá, sabe-se apenas que era casado com Inocência Rita de Paula. A esta petição deu o Vigário a seguinte informação:

“Exmo. e Rmo. Senhor Bispo. — O lugar que os devotos da petição retro habitão hé, com effeito, distante desta Matriz do Sobral tres legoas, e só tres quartos de legoa distante da Capella de S. José, filial desta Matriz; e o terreno dado em Patrimônio da Ermida, que desejão erigir, acho pouco sufficiente em razão do pequeno redito, que offerece para a necessaria manutenção do culto de Nossa Senhora dos Remedios; pois hé só para o local da Ermida; porém em vista do grande numero de habitantes do mesmo lugar e sua mui reconhecida religiosidade; Considero a ereção da Ermida de Nossa Senhora dos Remedios, que pretendem, de utilidade, e incremento ao Culto Religioso. — V. Exa. Rma. porém Mandará, como Julgar mais do Santo Serviço de Deus. — Cidade do Sobral 18 de Novembro de 1858. — O Vigario Francisco Jorge de Sousa” (Ibidem, p. 156).

Acrescenta-se que, segundo o memorialista Ramon Parente Cunha, para compor o patrimônio da Capela, havia sido feita uma doação de vinte braças de terra em quadro pelo Sr. José Malheiros de Albuquerque e sua mulher D. Anna Benvinda do Espírito Santo. O Capitão José Malheiros de Albuquerque, nascido a 4 de maio de 1811, era filho de Prudente José de Albuquerque e Maria Dominiana de Jesus. Casou-se, em 15 de outubro de 1837, com Ana Francelina da Ponte, filha de Antônio Alves Ferreira da Ponte e Thereza Maria de Jesus. Não localizei informações sobre o segundo casamento.

Em resposta a provocação, o bispo de Pernambuco, a 18 de fevereiro de 1859, remeteu a petição ao Cônego Provisor do Bispado, que assim a despachou:

“Capellas não se podem edificar sem q. se constitua o Patrimonio exigido na Constituição diocesana. Se porém os Suppes. pretenderem edificar uma simples Caza de oração, concedo a licença, pde. e depois de edificada a da. casa, requeirão com nova informação do Rdo. Parocho, pa. se m. dar benzer, afim de q. nella se possão celebrar os actos religiosos. Pal. da Soledade, 18 de Fevereiro de 1859. — Gama”.

Finalmente, com a licença das autoridades eclesiásticas, a população deu início a construção, sendo que em julho de 1864 já estava levantada a capela-mór, que foi então benta pelo Vigário Francisco Jorge, ficando nestas condições até 1872, quando o P. Diogo com auxilio do povo levantou o corpo da igreja. Por petição de Junho de 1874 o P. Diogo requereu à Autoridade Diocesana licença para “descobrir a Capella-mór e elevá-la à altura pedida pelo respectivo corpo da igreja” que por iniciativa sua e com esmolas dos fieis fora construído: o que lhe foi deferido por despacho do Vigário Geral Monsenhor Hipólito Gomes Brasil, datado de dois de julho do mesmo ano. A nova benção aconteceu a 3 de outubro de 1875 (Araújo, 2005, p. 259).

Entretanto, ainda segundo D. José:

Poucos dias após a benção, foi cometida uma grave profanação debaixo do arco da capela-mór, que a poluiu. O Vigário promoveu uma procissão de penitencia, na qual todo o povo tomou parte, de pés descalços, depois do que foi a mesma reconciliada; tudo consta de uma carta do Vigário ao Bispo Dom Luiz. É corrente a tradição que a primeira imagem era pequena e de prata (Frota, 1974, p. 157).

Não fica claro o que teria sido essa "grave profanação", mas segundo o Código de Direito Canônico de 1917, que consolidou a legislação anterior (ius vetus), Can. 1172 §1, a igreja era considerada profanada se ocorresse nela uma das seguintes situações: homicídio, derramamento de sangue grave e injurioso, usos "ímpios ou sórdidos", ou sepultamento de infiel ou excomungado. Numa igreja violada era proibido celebrar os ofícios divinos, administrar os sacramentos ou sepultar os mortos, até que houvesse uma reconciliação (Can. 1173 §1).

Segundo Pe. Sadoc, "durante 4 anos a capela esteve entregue aos cuidados do procurador Miguel Arcanjo de Aguiar, filho de Bernardino Pereira Cavalcante e Maria Luísa de Santana, que se casara a 15 de novembro de 1858 com Altina Marcolina do Nascimento, filha de Antônio Rodrigues Lima Leoníssa e Maria Carolina do Livramento" (Araújo, 2005, p. 149).

Capela N. S. dos Remédios, 1973.

Joaquim Lopes de Aguiar

Segundo memorialista Ramon Parente Cunha, existe na Capela de Tuína uma lápide cuja imagem reproduzo abaixo. Certamente tratou-se de alguém importante dos primórdios da povoação, e há quem acredite que a mesma era a real dona das terras da capela e que foi sepultada, em pé, em suas paredes.

Transcrição:

"Aqui jazem os restos mortais de D. Maria Magdalena de Souza, casada que foi com Joaquim Lopes D'Aguiar. Nasceu a 21 de julho de 1851 e faleceu a 28 de agosto de 1879. Tributo de amor e saudade que lhe consagra o seu único e saudoso filho, Raymundo Orestes. P.N. A.M."

Sabe-se que Maria Magdalena era filha de José Inácio de Sousa e Maria da Purificação, casou-se a 28 de novembro de 1867, com Joaquim Lopes de Aguiar, nascido a 19 de maio de 1839, filho de Capitão Diogo Lopes do Coração e de Rita da Silva Medeiros. Segundo Ramon Cunha, os avós maternos de Joaquim Aguiar, Narciso Lopes Aguiar (1771-1840) e Maria Quitéria de Araújo Costa (1762-1849), teriam se estabelecido na então Fazenda Unha de Gato. Já o citado filho, foi identificado como sendo o Dr. Raimundo Orestes de Aguiar, nascido em 1873 e falecido no Rio de Janeiro a 1 de dezembro de 1947.

José Reinaldo Gomes Parente*

Outro personagem cuja história está ligada a região de Tuína é José Reinaldo Gomes Parente, nascido por volta de 1794, filho do Capitão Diogo Gomes Parente, filho de Inácio Gomes Parente, e de Joana Francisca do Espírito Santo. José Reinaldo teria sido proprietário da Fazenda Unha de Gato, que originou a povoação de Remédios, depois Tuína. Relatos de familiares o identificavam como sendo de temperamento sombrio, tendo se envolvido no assassinato de uma pessoa importante da Ribeira do Acaraú. Temendo ser preso, teria fugido para a região do Aracati, sendo posteriormente capturado e padecido no cárcere em Fortaleza, a 18 de fevereiro de 1894.

Por volta de 1850, Reinaldo teria se mudado para a região do atual município de Marco junto com sua esposa Maria Cota da Silva (Schaeffer Fagundes, quando solteira), de ascendência alemã, e seus filhos, dentre os quais, o mais pronunciado foi o Coronel Ricardo de Souza Neves. Especula-se que esse deslocamento tenha tido motivação econômica ou mesmo alguma relação com o suposto crime cometido por Reinaldo.

Cel. Neves (1845-1936)

Coronel Neves (n. 24/02/1845, f. 28/10/1936), descrito como muito branco e alto e olhos escuros, o que teria motivado o cognome, foi uma figura de grande destaque nos primórdios do município de Marco, dando origem a nobre família Neves. Ocupou diversos cargos de destaque como Coronel Comandante da Comarca de Santana, a quem o Marco estava subordinado, onde também foi juiz de paz e subdelegado.

*Informações coletadas junto ao trineto de José Reinaldo, "Chico da Mariana", e disponibilizadas pela usuária Ana Julia na plataforma FamilySearch.

O Açude do Aracati Mirim e a Irmandade da Cruz

A 9 km da sede de Massapê, está o açude público Acaraú-mirim, cuja construção foi iniciada em 1900 pelo Engenheiro João Tomé de Sabóia e Silva sendo continuada pelo Engenheiro José Aires de Sousa, que a concluiu em 1907, demora resultante da modificação do respectivo projeto. Tal reservatório tem a capacidade de 52.000.000 m³, com q barragem de 442 m de extensão e 18m de altura. A sua bacia hidráulica é de 4.500 km².

Essa obra foi iniciada no contexto das severas secas que assolaram a região entre o final do século XIX e início do XX, atraindo grande número de retirantes, camponeses e trabalhadores rurais (conhecidos como "cassacos") que buscavam no trabalho uma saída para a fome e a miséria em que viviam. O vilarejo formado a partir dessa concentração consolidou-se e hoje é a sede do distrito de Mirim (Decreto-Lei nº 1.156, de 04 de dezembro de 1933). Curiosamente, essa amálgama humana organizou-se, por volta de 1900, em torno de uma comunidade de expressão messiânica chamada Irmandade da Cruz (Thomaz Neto, 2007).

Planta Baixa do Povoado de Aracati-mirim em 1905 (Costa, Diniz e Frota, 2022).

Os membros da irmandade eram identificados pelo uso de chapéus de abas largas com uma cruz preta estampada no centro. Assim como outros movimentos semelhantes, baseavam-se em princípios de caridade, solidariedade e vida comunitária, praticando um catolicismo popular influenciado pelas pregações de Antônio Conselheiro. A organização também teria denunciado a corrupção das oligarquias locais e dos desvios de verbas destinadas aos socorros públicos para os flagelados da seca. No dia 11 de novembro de 1900, amotinaram-se em Massapê, a fim de saquear o trem que vinha de Camocim, o que só não aconteceu porque o maquinista foi avisado e teria desistido de parar na estação. Devido a essas tensões e ao temor de que se tornasse uma "nova Canudos", o movimento foi estigmatizado pelas elites e pela Igreja como um foco de fanatismo e banditismo (Fernandes, 2019).

Jornal Diário do Maranhão, 21 de fevereiro de 1898.

A certa altura, a Irmandade da Cruz teria então sido violentamente reprimida pela força policial, o que resultou em um massacre, ocorrido às margens do açude Acaraú-Mirim, bem como na prisão e morte de seus principais líderes. Esse acontecimento é registrado pelo Barão de Studart, em 26 de março de 1902:

Na vila Massapê, ao sopé da serra da Meruoca são presos por uma força de polícia comandada pelo tenente Érico Carapeba, os chefes principais de uma malta de indivíduos conhecidos pelo nome de Irmandade da Cruz, que fora fundada em princípios de Abril de 1900 pelos celebres cangaceiros Campello, Veado, Furtado e Felipe. Usavam um chapéu de abas largas tendo no centro uma cruz preta (Studart, 2001, p. 148).

Sobre os indivíduos citados, sabe-se que Campello e Veado na verdade provavelmente eram a mesma pessoa: Antônio Clarindo Campello Veado. Ele consta como réu em um processo aberto em em 1899, no Ipú, contra a Legio Crucis (Irmandade da Cruz), organização que teria ligações com Conselheiro, assim como o próprio Padre Cícero. Já Furtado, provavelmente se refere a Raymundo de Moraes Furtado, que teria fugido da cadeia de Campo Grande (Guaraciaba do Norte) e encontrava-se em 1897 na localidade de Riacho dos Guimarães, atual Groaíras, como noticiado no Jornal A República (Reinaldo, 2023, p. 53-54). Não encontrei referências ao cangaceiro Felipe.

Além desses, outro membro identificado seria Damião, tido como o fundador e mentor intelectual da Irmandade da Cruz de Massapê. Ele teria nascido por volta de 1865, na região do açude Acaraú-Mirim, sendo seu nascimento marcado por um parto duplo em que seu irmão veio a falecer; por isso, ele carregou o estigma de ser "malquisto" e sofreu rejeição e castigos do próprio pai. Por volta de 1882, teria fugido para o porto de Camocim e seguiu para os seringais da Amazônia. Lá, teve contato com a Bíblia e livros religiosos, o que influenciou profundamente sua visão de mundo (Thomaz Neto, 2007).

Retornou a Massapê no início do século XX, encontrando seus pais mortos e perdendo todo o seu patrimônio para a seca. Inspirado por Antônio Conselheiro, decidiu fundar a Irmandade, atuando como um "beato" ou pregador, acolhendo flagelados da seca e denunciando a corrupção das oligarquias locais. Ao contrário de seus companheiros, Damião não foi preso em 1902. Segundo a tradição, ele teria tido uma premonição do ataque e conseguiu escapar da chacina, refugiando-se em cavernas no Serrote do Madeira. Teria vivido o restante de seus dias como um eremita sob identidades falsas para evitar a perseguição policial, vindo a falecer por volta de 1915 (Thomaz Neto, 2007). Ressalta-se, entretanto, que todos esses fatos baseiam-se única e exclusivamente em relatos coletados pelo autor, de modo que é difícil precisar até que ponto essa história encontra a realidade.

Diego Carneiro

16 de julho de 2026 

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. Nas Terras do Massapê. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 16 de julho de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/07/fazenda-massape.html

Referências

ARAGÃO, R. Batista. Cronologia dos municípios cearenses. Barraca do Escritor Cearense, 1996.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

ARRUDA, Assis. Genealogia Sobralense: os Arrudas, 2º Edição, IOCE, Fortaleza, 1987.

ARRUDA, Assis; CARVALHO, Evilásio. Cronologia Genalógica Massapeense. Massapê, 2010).

BEZERRA, Antônio. Notas de viagem. Imprensa Universitária do Ceará, 1965.

COSTA, Luiz Carlos Marques; DINIZ, Simone Ferreira; FROTA, Patrícia Vasconcelos. Estudo dos impactos ambientais do acaraú mirim–massapê–ceará: Potencialidades e limitações dos usos sustentáveis. Revista da Casa da Geografia de Sobral , v. 2, pág. 5, 2022.

DE AGUIAR, Osvaldo. Massapê em Foco. Fortaleza, 1969.

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