Panacuí e o Sertão da Tucunduba

Açude Tucunduba

A palavra Panacuí tem origem indígena, podendo significar algo como “lugar onde se confeccionam pequenos cestos” (Stradelli) ou ainda pode ser entendida como o diminutivo da palavra Panacú, uma espécie de cesto de taquara que carregavam nas costas (Falcão, 1999, p. 286). A menção mais antiga que localizei ao nome Panacuí, na região do Baixo Acaraú, remete a sesmaria dos irmãos João de Sá e Leonardo Correia de Sá, obtida a 21 de janeiro de 1716:

Dizem João de Sá e Leonardo Correa, moradores nesta Capitania, que eles suplicantes têm seus gados vacuns e cavalares e não têm terras adonde os possam acomodar; e têm descoberto um pedaço de terra entre o Rio Acaracú e Curuhahuy [Coreaú], que a muito poderá ter duas léguas de comprido, pegando no riacho Panacuhy, nas testadas dos últimos providos dele, buscando a ponta da Serra Tucunduba [Mucuripe] até uma lagoa que dista da ponta da dita serra distância de meia légua, pouco mais ou menos, cujo nome dela, língua do gentio, se não sabe, e se lhe dá nome de Lagoa das Pedras. Cuja terra está devoluta e desaproveitada, e eles suplicantes a querem povoar com seus gados, o que redunda em aumento aos dízimos. Portanto, pedem a Vossa Mercê seja servido conceder-lhes, em nome de Sua Majestade, que Deus guarde, por data e sesmaria, duas léguas de comprido e meia de largo para cada banda, na parte que confrontam em sua petição, para eles (Sesmarias Vol. 10, nº 29, p. 52).

Esse dito riacho provavelmente trata-se de um braço do Riacho Inhanduba (planta dos "nhandus", tipo de ave) e a referida Lagoa das Pedras, provavelmente trata-se da Lagoa João de Sá, em alusão ao antigo nome do sesmeiro, na área do distrito de Mucambo. Esse distrito foi criado pela Lei Municipal nº 53, de 19 de janeiro de 1994, e seu topônimo é uma palavra indígena que pode significar "sitio de vegetação espessa onde se oculta o gado" ou ainda "couto de escravos na floresta" (Falcão, 1999, p. 268).

Área aproximada da Sesmaria de João de Sá, 1716.

Segundo Pe. Sadoc Araújo, João de Sá era casado com a preta Joana da Costa e tomou parte na rebelião de 1732, quando foi preso. Esse combate foi travado entre os seguidores do ouvidor Loureiro e os liderados pelo capitão João de Sá nos primeiros meses de 1733, resultando em quatro mortes. O conflito foi descrito em carta enviada pelo Ouvidor Pedro de Novais ao rei em 27 de maio de 1733:

"Nesse conflito, o ouvidor passou à ribeira do Acaracu, e com a sua costumaz escolta foi por um cerco na casa de João de Sá, de quem é grande inimigo, para o prender, mas como ele se achava com nove ou dez pessoas em casa se defendeu, não e se querendo dar a prisão por ele não ser já ouvidor e pondo-se as pelouradas lhe mataram quatro homens e feriram outros, e dos do Loureiro ficaram alguns, e entre eles um seu escravo” (Ferrão, 2013, p. 197-198).

Joana da Costa teria abandonado o marido após a prisão, juntando-se com seu irmão, Leonardo Correia de Sá, com quem teve cinco filhos: Josefa, Leonarda, Romana, Teodósio e Luis. Para regularizar sua situação matrimonial, Leonardo casou-se com Joana em seu leito de morte, em 8 de novembro de 1735. Uma filha de João de Sá, a "índia" Andressa, reconhecida por sua beleza, viveu maritalmente com José Correia Peralta e casou-se, posteriormente, com José Ferreira da Fonseca (De Souza, 2015, p. 118-119). Esse casamento aconteceu na Fazenda Santa Cruz (atual Bela Cruz), em 25 de fevereiro de 1726, tendo como testemunhas Domingos de Aguiar e Oliveira (Araújo, 2005, p. 112).

Além desta sesmaria, João de Sá conseguiu outras duas: uma individualmente, na lagoa inheengua Cui [Inhanduba?] e outra com Brandão de Oliveira Pinto e João Gomes da Silva, próximo às aldeias dos Anacé, na ribeira do Aracatimirim.

Capitão Aurélio Gomes Linhares

Em 2 de janeiro de 1723, Capitão Aurélio Gomes Linhares também recebeu uma sesmaria no rio Panacuhy, com a seguinte petição:

Diz o Capitão Aurélio Gomes Linhares, morador nesta Capitania e casado, que ele suplicante tem seus gados de cria, assim vacuns como cavalares, e não tem terras nenhumas para nelas criar os ditos gados; e de presente descobriu o suplicante três léguas de terra sitas nas ilhargas do rio Panacuí, e por outro nome Athiaya [Tiaia], com uma lagoa que fica para a parte do poente, confrontando com o Morro da Athiaya e serra que vem do Curuayhi [Coreaú], acompanhado com a Serra Meruoca; portanto, pede a Vossa Mercê seja servido mandar por seu despacho passar-lhe data e sesmaria em nome de Sua Majestade, que Deus guarde, para ele e seus herdeiros, ascendentes e descendentes, das ditas três léguas de terra e lagoa que o suplicante descobriu, no que receberá mercê (Sesmarias, Vol. 11, nº 61, p. 97).

O Capitão Aurélio Gomes Linhares era casado com Maria de Brito Freire, filha de Gregório Brito Freire. Foi um dos cabeças da dita rebelião de 1732, tendo sido preso e levado para o Forte de N. Sra. da Assunção (Araújo, 2005, p. 104). Além da sesmaria do rio Panacuí, Capitão Aurélio obteve duas outras sesmarias na região da Caioca, atual Sobral, em 1731 e 1732.

Domingos Ferreira Passos

Outra menção antiga a Fazenda Panacuí, data de 11 de setembro de 1730, data e local onde aconteceu o casamento de João Coelho da Silva, natural de Braga, Portugal, filho de Domingos Coelho e Antônia Francisca, e Francisca Ferreira Passos, filha natural de Domingos Ferreira Passos, Almoxarife da Fazenda Real, e Pascoa Machado, fâmula de Miguel Machado Freire, sesmeiro do Rio Coreaú (Lima, 2016, p. 1057).

Essa fazenda era a sede da sesmaria de Domingos Ferreira Passos, pai de Francisca, obtida no dia 15 de janeiro de 1733, com a seguinte petição:

Diz Domingos Ferreira Passos, morador na Ribeira do Caracú [Acaraú], que ele tem seus gados vacuns e Cavalares na dita Ribeira, e não tem terras em que os acomodar para melhor aumento da Real fazenda e porque o suplicante tem descoberto, um Sitio de terras na sobre dita Ribeira, que pega das testadas do Capitam mor João Felix de Carvalho pelo Riacho Cotunduba [Tucunduba] acima, e outro chamado do (inteligivel) ficando de dentro a Lagoa da Cotumduba [Tucunduba] pelo que pede a vossa mce. lhe faça mce. mandar passar data e sesmaria em nome de sua Magde. que Deus gde. as três léguas de terra de Comprido começando nas testadas do dito Capião-mor João Felix de Carvalho pelo Riacho do Cotumduba [Tucunduba] acima com uma légua de largo, meia para cada banda... (Sesmarias Vol. 12, nº 52, p. 75)

Com o falecimento de João Coelho, Francisca Ferreira casou-se novamente com Manoel da Cunha Freire, também natural do Porto (Lima, 2016, p. 1743)Segundo Batista Fontenele, Manoel Cunha Freire

...fixou residência no sertão da Tucunduba, onde adquiriu imensas glebas de boas terras, inclusive cinco léguas por Sesmaria e o restante por compra ao Capitão-Mor João Félix de Carvalho e outros, perfazendo um total de mais de vinte léguas, incluindo nestas seis léguas de terra situadas à margem do Riacho Inhanduba. Seu falecimento ocorreu no ano de 1764, tendo sido sepultado na Capela de Nossa Senhora do Livramento, do Parazinho, da Freguesia de Santa Cruz do Coreaú, hoje Granja (Fontelene, 2001, p. 222).

Pela descrição de Fontenele, é possível situar as terras de Manoel Cunha Freire na divisa entre os municípios de Marco e Bela Cruz.

Área aproximada das terras de Manoel da Cunha Freire

Em 1 de maio de 1754, faleceu Manoel Ferreira Passos, possível parente Domingos Ferreira Passos, talvez irmão, deixando "um sítio de três léguas de terra por trás da serra da Tucunduba a Manoel, filho do defunto João Coelho e a Antônio, filho de Manuel da Cunha Freire e de sua mulher Francisca Ferreira" (Araújo, 2005, p. 254). Essa descrição parece corresponder a localização do atual distrito de Panacuí, que fica as margens do Riacho Tucunduba, que escorre do Serrote do Mucuripe (antigo Tucunduba), talvez as mesmas terras da sesmaria de Domingos Ferreira Passos.

Capitão João Félix de Carvalho

Quanto ao citado João Félix de Carvalho, sabe-se que era Capitão-mor no Termo de Granja, residindo no lugar denominado Pará (atual Parazinho), sendo casado com Apolônia Ferreira Diniz. João Félix tinha 48 anos de idade em janeiro de 1724, quando prestou depoimento como testemunha, juntamente com outras 14 pessoas, a favor do padre João de Matos Monteiro, o que coloca seu nascimento por volta de 1676 (Oliveira, 2025, p. 383).

Ele também aparece no pedido de sesmaria de Suzana Alves e Manoel Alves Quaresma, em que dizem "ter descoberto um Riacho por nome Ahipoeira entre o Sitio do Capitão-mor João Felix de Carvalho cauna [?], e o Sitio do Carvalho, pegado ao morro da hipoeira pegando das testadas da fazenda da thiaya [Tiaia] donde faz Barra o dito Riacho nomeado acima..." (Sesmarias, Vol. 11, nº 126, p. 199). Existe hoje uma Fazenda e um Riacho Carvalho no município de Uruoca, distante cerca de duas léguas (13,6 km) de Panacuí.

Região das terras de João Félix Carvalho

Assim como no registro da sesmaria do Cel. Francisco Ferreira da Ponte, dono da Fazenda Curral Grande, obtida em 23 de junho de 1746, de "légua e meia pegando das Lages chamado Boa Vista que fica na Ladeira do Capitão-mor João Felix, buscando as testadas do Capitão João Felix e ilhargas do Capitão Manoel Rodrigues Coelho, chamadas as Ilhargas de Meruoquinha no sitio chamado Santo Antônio portanto" (Sesmarias, Vol. 7, nº 509, p. 19). Com base nas descrições, pode-se situar a propriedade do Capitão-mor no Riacho Jurema (provavelmente o mesmo Ahipoeira), que divide os municípios de Uruoca e Senador Sá.

Uma outra Tucunduba

Cabe aqui abrir um parênteses para desfazer um pequeno mal entendido. Na relevante obra Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú, Mons. Sadoc Araújo traz a seguinte afirmação, referindo-se as terras da sesmaria de Nicolau da Costa Peixoto: "parte desta sesmaria foi, posteriormente, vendida a Manoel Ferreira Fonteles, onde se estabeleceu o instalou a Fazenda Tucunduba, perto da serra do mesmo nome, em território hoje pertencente ao município de Marco, distrito de Panacuí" (Araújo, 2000, p. 70).

Entretanto, apesar de ter outrora adotado o mesmo topônimo, é improvável que Panacuí tenha sido o local da célebre Fazenda Tucunduba. No inventário de Manoel Ferreira Fonteles Filho, datado de 1795, essa propriedade é descrita como possuindo "cinco léguas de terra de comprido com uma légua de largo na margem do Rio Acaracu, confinando com terras do seu filho Manuel Ferreira da Rocha e por rio abaixo com terras do sargento mor Manuel Francisco de Vasconcellos que recebeu de herança de seus defuntos pais tendo da parte do poente do mesmo Rio [1]. Portanto, uma vez que Panacuí fica a aproximadamente 40 quilômetros (seis léguas) do Rio Acaraú, não é possível que se tratem do mesmo local.

No próprio livro de Mons. Sadoc, ele traz a seguinte descrição da propriedade, em 1788: meia légua de terra, de cumprido, com meia légua de largo, tudo de uma só banda do no Acaraú, à margem esquerda, e confinava ao norte com as fazendas Salgado e, ao sul, com as Fazendas Raiz é Várzea Redonda" (Araújo, 2000, p. 72). Como explica o historiador Fábio Junior Avelino, ainda hoje existe uma localidade chamada Tucunduba no município de Morrinhos, próxima ao Acaraú, sendo esta vizinha as localidades de Salgado, Raiz e Várzea Redonda, mencionadas anteriormente (Avelino, 2020, p.40). Portanto, é ponto pacífico que a fazenda de Manoel Ferreira Fonteles, apensar de ficar na mesma região, não esteve localizada onde hoje é Panacuí.

[1] Br. Ce. NEDHIS. UVA. CH. FMP. Inv.08, Dossiê 08.08, Caixa 39, ano 1795.

Século XX

Praça de Panacuí, Marco, 1991.

O distrito de Panacuí, atualmente pertencente ao município de Marco, teve sua origem no antigo distrito de Tucunduba, cuja denominação fazia referência ao rio que banha a localidade. O distrito foi criado pelo Decreto Estadual nº 193, de 20 de maio de 1931, como parte do então município de Santana do Acaraú, passando a integrar, juntamente com São Manoel do Marco, a estrutura administrativa desse município. Pelo Decreto Estadual nº 448, de 20 de dezembro de 1938, Tucunduba recebeu a denominação de Panacuí, ao mesmo tempo em que São Manoel do Marco passou a denominar-se apenas Marco e o município de Santana do Acaraú teve seu nome simplificado para Santana.

Posteriormente, pelo Decreto-Lei Estadual nº 1.114, de 30 de dezembro de 1943, o município passou a chamar-se Licânia, retomando o nome Santana do Acaraú apenas com a Lei Estadual nº 1.153, de 22 de novembro de 1951. A Lei Estadual nº 1.153, de 22 de novembro de 1951, desmembrou de Santana do Acaraú (Licânia) os distritos de Marco e Panacuí para constituir o novo município de Marco, instalado em 25 de março de 1955. Desde então, Panacuí passou a integrar definitivamente a nova unidade administrativa como um de seus dois distritos originais. (Girão, 1983, p. 335).

Entre 1963 e 1965, Panacuí chegou a ser elevado à categoria de município pela Lei Estadual nº 6.905, de 16 de dezembro de 1963, sendo constituído apenas pelo distrito-sede. Entretanto, essa emancipação teve curta duração, pois a Lei Estadual nº 8.339, de 14 de dezembro de 1965, extinguiu o município e reincorporou seu território ao município de Marco, na condição de distrito, situação que permanece até os dias atuais (Falcão, 1999, p. 286).

O Açude Tucunduba

Um marco significativo na história do povoado foi a construção do Açude Tucunduba, realizada entre 1912 e 1919 pela Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS). Erguido sobre o leito do rio Tucunduba, tendo como principal canteiro de obras a localidade de Serrota, localidade de Senador Sá (elevada a distrito pela Lei n.º 3762, de 23 de agosto de 1957), na divisa com Panacuí. No memorial descritivo dessa construção, consta a seguinte descrição do lugar em 1909:

Uma vegetação predominantemente sertaneja, com carnaúbas, aroeiras, paus-brancos, angicos, paus-d’arcos, umburanas, juremas, cajazeiras, arbustos, capim e outras plantas forrageiras. Os proprietários de terra mais abastados comercializavam o algodão e a cera da carnaúba. A população em geral utilizava de várias formas as diversas partes da carnaúba: o palmito, para o alimento dos animais; o tucum, para a manufatura de redes e cordas, por ser uma fibra resistente; a palha, para chapéus, peias, abanos, vassouras e urus – tipo de cesto usado para armazenar peixes; o tronco, para brinquedos e outros utensílios como tala, por exemplo. Além disso, cultivavam os roçados de milho, feijão, mandioca e arroz (Lima, 2010, p. 57).

A construção passou por reveses até a chegada, em maio de 1913, do engenheiro Abelardo Andréa dos Santos, que a conduziu por cerca de cinco anos. A obra foi profundamente afetada pela seca de 1915, quando milhares de retirantes afluíram ao canteiro em busca de trabalho e o número de operários alistados chegou a mil. O reservatório foi concluído em 1919 com capacidade superior a 40 milhões de metros cúbicos (Lima, 2010).

Major Fco. Ferreira Gomes (1848-1939)

Um dos pioneiros da região do Panacuí nessa época foi o Major Francisco Ferreira Gomes (n. 22-02-1848, f. 26-08-1939), natural de Sobral, casado com Maria Vicência Gomes, filha do Major Vicente Cândido da Fonseca e Maria Tomázia da Fonseca, em 1869. O casal veio residir na região do Panacuí, tendo Ferreira Gomes lutado pela construção do Açude Tucunduba, inclusive doando terras para a população ribeirinha atingida pelo alagamento. Também doou uma gleba de terra para a diocese de Sobral onde a vila teria sido construída com cerca de vinte e oito famílias. Sua mulher, Maria Vicência Gomes, teria incentivado a criação da Capela de Imaculada Nossa Senhora da Conceição contribuindo para a organização da comunidade.

Desenvolvimento Eclesiástico

Igreja de Panacuí, Marco.

A paróquia da Imaculada Conceição, de Panacuí, foi instituída em 27 de novembro de 2016. Entretanto, a antiga Capela da Tucunduba é bem mais antiga, havendo menções a mesma pelo menos desde meados do século XIX. Segundo Álvaro Gurgel, em 1861, pertenciam a Freguesia da Barra do Acaraú, as capelas, que são outros tantos povoados: São Gonçalo da Mutamba, Tucunduba, Trindade, Cruz e Almofala, Tanque do Meio e Juritianha (Gurgel, 1939, p. 13).

Antes disso, a Lei Provincial nº 836, de 29 de setembro de 1857, sancionada pelo presidente João Silveira de Souza, determinou a criação de um "distrito de paz na Capela de Nossa Senhora da Conceição da Tucunduba, do município da Vila de Acaracú, com o território que foi designado pela respectiva câmara". Ressalta-se que no final do século XIX a localidade já contava com 862 habitantes (Gazeta do Sobral, 2 de março de 1882). Uma postagem feita por Alan Vasconcelos no grupo Acervo Histórico do Marco, em 16 de janeiro de 2022, traz a fotografia de uma telha que teria sido retirada da capela de Panacuí durante uma reforma (abaixo), onde lê-se o ano de 1853 e o nome Luis Ferreira, provavelmente o fabricante ou doador do material.

Telha supostamente retirada da Igreja de Panacuí.

Segundo o memorialista Osvaldo de Aguiar, com a criação da Paróquia de Massapê, pelo Decreto Episcopal de 22 de junho de 1911, firmado por D. Joaquim José Vieira, segundo Bispo do Ceará, a Capela da Tucunduba ficou eclesiasticamente vinculada a mesma, situação que permaneceu até janeiro de 1942, ano da criação da Paróquia do Marco (De Aguiar, 1969, p. 65). Em 1981, passa para a alçada da paróquia de Senador Sá, tendo a frente Padre Raimundo Nonato Gomes, que permaneceu a frente da capela até 1983.

O Sr. Raimundo Adeodato da Fonseca, que fez parte de várias pastorais da igreja de Panacuí, quando esta ainda era uma capela, como o Apostolado da Oração de São Vicente de Paulo, fez doação de um terreno de 18m por 50m para a paróquia, a fim de que fosse construído o Centro Pastoral. O pai de Raimundo, José Adeodato da Fonseca, natural da Meruoca, c.c. Izabel Isaura da Fonseca em 1920, foi um dos administradores da Capela do Panacuí por volta do ano de 1943, substituindo o Sr. Francisco Ferreira Gomes juntamente com sua família, recebendo os padres da época e fazendo a gestão das terras da capela.

Associação São Vicente de Paulo*

Fundada em 1939, na Capela de Panacuí, pelo vigário de Massapê, Padre Francisco Linhares, tinha quatro membros na diretoria e 48 associados. Seu presidente era o Senhor José Firmino Vidal, que comprou a imagem de São Vicente de Paulo e a colocou em seu altar. Em 1942, Firmino Vidal foi morar em Bela Cruz e a diretoria da associação foi entregue ao Senhor Bento Teixeira, que, após algum tempo, deixou o cargo, o que culminou em sua desintegração.

Em 08 de maio de 2001, foi restaurada e passou a ser chamada de conferência Maculada Conceição, tendo como presidente o Senhor José de Fátima Silva. A referida conferência tinha vinte e oito sócios e foi desmembrada em 2004, quando ocorreu a fundação da Conferência Coração de Jesus. Como tinha alguns sócios, tanto na Conferência Imaculada Conceição como na Coração de Jesus, houve a necessidade de se formar uma conferência para os jovens, que se chamou Conferência São Domingos Sávio. Após essa fundação, fundou-se a Conferência Coração de Maria, esta exclusiva para crianças.

*Indicação Legislativa Municipal nº 03/2020.

A Lenda da Imagem de N. S. da Conceição

Investigando a história de Panacuí, me deparei com uma postagem da página Marco Histórico, datada de 30 de setembro de 2024, trazendo um relato sobre uma lenda envolvendo a imagem de N. S. da Conceição, de Bela Cruz, e o templo do referido distrito. Segue a transcrição do conteúdo narrado na dista postagem:

"Você sabia que a imagem de Nossa Senhora da Conceição que hoje está na igreja de Bela Cruz, originalmente pertenceu a Capela do Panacuí, no Marco? Segundo rumores populares, quando a igreja de Bela Cruz foi construída, a imagem centenária, vinda de Portugal, foi levada de Panacuí para lá, junto com um cordão de ouro e um coroa. Para substituir essa relíquia, enviaram de Santana uma imagem de madeira. No entanto, a comunidade local, insatisfeita com a troca, teria depredado a nova imagem, cortando suas mãos e face. Dizem que essa imagem mutilada ainda se encontra no Distrito de Panacuí. Também é dito que Capela de Panacuí tem mais de trezentos anos e que durante sua última reforma foram encontradas telhas com essa idade. No entanto, não há comprovação oficial dessas histórias".

Segundo Nicodemos Araújo, a capela de Bela Cruz teve três imagens principais, a primeira, medindo apenas dez centímetros, teria sido adquirida de forma contemporânea a construção do templo, por volta do ano de 1732, tendo sido providenciada pelos moradores envolvidos nessa instalação. A segunda delas, medindo 40 centímetros, foi adquirida no final do século XVIII, quando houve a mudança da capela do Alto da Genoveva para a localização atual. Finalmente a terceira imagem, feita em madeira e medindo cerca de um metro, teria sido adquirida em 1894 por um comissão de senhoras, com donativos arrecadados junto a população (Araújo, 1967).

A postagem sugere que esta última imagem, que ainda hoje encontra-se no altar mor da Igreja Matriz de Bela Cruz, teria sido o objeto da contenta entre as duas localidades. Não consegui apurar absolutamente nada sobre o ocorrido, de modo que é possível que se trate apenas de uma lenda. Sobre a capela de Panacuí possuir mais de trezentos anos, essa também é outra informação de difícil verificação. Apesar de haverem indícios de ocupação antiga na região, não encontrei qualquer referência direta a existência de uma capela no período colonial nos registros paroquiais mencionado por Mons. Sadoc (Araújo, 2005).

Dom José Tupinambá da Frota traz a relação das primeiras capelas do Curato do Acaraú:

No 1°. livro de batizados e casamentos do Curato do Acaraú (1725-1730) já se fazia menção das capelas de Nossa Senhora da Conceição do Acaraú (atual Patriarca), de Santa Cruz da Água das Velhas, do Pará (atual Parazinho), da Beruoca, de Ibiguassú, da Lagoa das Pedras, do Moquem, de Santo Antonio do Olho dʼÁgua, (ribeira do Coreaú), de Nossa Senhora da Conceição dos Tremembés, de Santo Antonio de Imbuassú, as quais eram de taipa e coberta de palha (Frota, 1974, p. 39).

Dentre estas, destaca-se a opinião do historiador Geraldo Nobre, que conjectura que a Capela da Lagoa das Pedras poderia ter pertencido a já mencionada sesmaria de João de Sá, com base na sua descrição (Nobre, 1980, p. 327). Entretanto, como cita o próprio autor houveram pelo menos duas outras Lagoas das Pedras na região que podem ter sido o local desse templo.

Ademais, o supramencionado casamento de João Coelho da Silva e Francisca Ferreira Passos, ocorrido em 1730 na Fazenda Panacuí, não se faz menção a existência de uma capela. Como já apresentado, a menção mais antiga que localizei sobre a Capela de Panacuí, data de 1857 e a telha que teria sido tirada do templo, traz o ano de 1853. Dessa forma, com as evidências disponíveis no momento, não é possível dar crédito a esse relato.

Diego Carneiro

15 de julho de 2026 

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. Panacuí e o Serão da Tucunduba. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 15 de julho de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/06/historia-panacui.html

Referências

ARAÚJO, Nicodemos. Bela Cruz: De Prédio Rústico a Cidade. Edições A Fortaleza. Fortaleza, 1967.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

AVELINO, Fábio Júnior. Ocupação Colonial e Escravidão Negra nas terras que hoje fazem parte do Município de Morrinhos (1725-1889). Monografia. Sobral: Universidade Vale do Acaraú, 2020.

DE AGUIAR, Osvaldo. Massapê em Foco. Fortaleza, 1969.

DE SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues. “Minha Riqueza é Fruto do meu Trabalho”: negros de cabedais no Sertão do Acaraú (1709-1822). 2015. 223 f. (Tese Doutorado).

FALCÃO, Márlio Fábio Pelosi. Ciará Terra do Sol. Gráfica Folha. Fortaleza: APRECE, 1999.

FERRÃO. Memória Colonial do Ceará. Rio de Janeiro: Kappa editorial, 2013, Volume 2 (1731-1739), Tomo I, (1731-1736).

FONTENELE, A. Batista. A Marcha do Tempo: Os Fontenele. Fortaleza: SENAI/CE, 2001.

FROTA, D. José Tupinambá da Frota. História de Sobral. Fortaleza: Editora Henriqueta Galeno, 1974.

GIRÃO, Raimundo. Os municípios cearenses e seus distritos. Estado do Ceará, Secretaria de Planejamento e Coordenação, Superintendência do Desenvolvimento do Estado do Ceará, Departamento de Recursos Naturais, 1983.

GURGEL, Álvaro. Diccionario Geographico Historico e Descritivo do Ceará. 2ed. Tipografia Minerva, 1939.

LIMA, Aline Silva. Um projeto de "combate às secas", os engenheiros civis e as obras públicas: Inspetoria de Obras Contra as Secas — IOCS e a construção do açude Tucunduba (1909–1919). 2010. 123 f. Dissertação (Mestrado em História Social) — Centro de Humanidades, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2010.

NOBRE, Geraldo Silva. História eclesiástica do Ceará. Secretaria de Cultura e Desporto, 1980.

OLIVEIRA, André Frota. Os Capitães-mores das Ordenanças do Termo da Vila de Granja. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2025.


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