As Terras da Tiaia

Casa Grande da Fazenda Tiaia, Granja (por João Victor Mascarenha)

Tiaia é um topônimo de origem tupi, que significa algo como "água saudável" (Bueno, 1987, p. 598). A primeira menção que localizei à Tiaia, foi feita em 22 de novembro de 1706, na solicitação de sesmaria do Capitão Miguel Machado Freire e de seus irmãos, Domingos Machado Freire e José Machado Freire. Como já explicado em outra postagem, eles haviam obtido, em 3 de agosto de 1702, uma sesmaria de “5 léguas de terra de comprido e uma de largo, na ribeira do rio Camusy, cortando o mesmo rio, começando das testadas das terras de Rodrigo da Costa Araújo até o Salgado, reservando caatingas e voltas do rio" (Documentação Histórica Pernambucana, IV, p. 122).

Entretanto, existia uma determinação régia, datada de  7 de dezembro de 1697, reiterada em 20 de janeiro de 1699, segundo a qual a extensão das sesmarias não poderia ultrapassar três léguas de comprimento por uma de largura. Assim, na revisão realizada pelo Desembargador Cristóvão Soares Reimão, as terras dos irmãos Machado Freire teriam sido reduzidas, ainda assim, a quatro e que, portanto, pediam nova sesmaria:

...nas suas testadas, da banda da Serra Ibiapaba, légua e meia de largo e outro tanto de comprido, pelo mesmo correr da terra, medida começando do último marco da terra da missão para baixo, que é o que também divide a terra dos suplicantes e, da mesma parte da dita serra, nas suas mesmas testadas, por um riacho que mete no rio Camocim [quamoSy], em um poço a que chamam Jaguaraçuí [JaguaraJuy]; por ele acima, légua e meia, em cada banda, e nas suas testadas que ficam da banda do riacho da Tiaia [Tiayia], pedem todas as sobras que estão por pedir entre o rio Camocim [camosi] e o dito riacho da Tiaia [Tiayia], de uma serrota que fica no fim da segunda légua da sua data para baixo até o mar (Sesmarias, Vol. 3, nº 176, p. 93).

A missão a que se refere o documento é a missão da Bracutiara, cujos limites também foram demarcados pouco antes por Reimão. O referido poço JaguaraJuy ou Jaguaraçuí corresponde a atual localidade de Campanário, no município de Uruoca. O topônimo indígena significa algo como "onça grande".

Pouco tempo depois, a 9 de dezembro de 1706, no pedido de sesmaria das irmãs Inácia Machado, Inês Pessoa, Vitória Rodrigues da Câmara e Úrsula da Câmara, "mulheres nobres e órfãs", informam que seus pais receberam terras na região do Camocim ao Parnaíba, dentre as quais, "no riacho da Yuna, junto ao morro da Tiaya, onde novamente se lhes concederam mais quatro léguas de terra: duas pelo riacho da Yuna acima, começando nas testadas da primeira sua data, e duas das ditas testadas da primeira data, pelo riacho Panacuy acima" (Sesmarias, Vol. 3, nº 182, p. 106).

O referido Riacho Yuna corresponde ao atual Rio Una, do tupi, água preta, que nasce em Campanário, e encontra o Riacho Tucunduba na localidade de Tiaia, em Granja, originando o Rio Tiaia, que, por sua vez, após sair do território desse município assume a denominação Pesqueiro. O morro da Tiaia corresponde a atual Serra da Tiaia, localizada, em sua maior parte, no município de Martinópole, na divisa norte com Granja. Já o Riacho Panacuí é o topônimo anterior do referido Riacho Tucunduba, que demarca a divisa entre os municípios de Marco e Senador Sá.

Sobre as sesmeiras, estas eram oriundas de São Paulo, e, ao que tudo indica, sobrinhas do Pe. Assenço Gado (Freitas, 1968, p. 281). Vitória Rodrigues Câmara era mulher do Capitão Mor Pedro da Rocha Franco, o mais rico potentado de Granja, que posteriormente teria, inclusive, comprado as terras da referida sesmaria e as vendido aos próprios jesuítas (Sesmarias, Vol. 6, nº 370, p. 18; Maia, 2010, p. 182).

No mesmo ano, a 30 de dezembro de 1706, na solicitação de terras de D. Maria de Souza Crespo e Custódia de Mendonça Cabral informam que "elas tem mandado descobrir uma sobras de terras sitas na ribeira do Tiaia, buscando as roças do Saraiva até confrontar com os Machados, ficando de dentro a Lagoa d'Água do Pehy" (Sesmarias, Vol. 3, nº 187, p. 117). Não encontrei grandes informações sobre as sesmeiras, exceto que na mesma época existiu uma certa Custódia de Mendonça Cabral, a qual era casada com Antônio Pinto Correia, sesmeiro no Quixeramobim, cujo filho, também Antônio Pinto Correia, natural dos Inhamuns, foi um dos primeiros a casar na Capela de Tauá, em 8 de janeiro de 1764.

Quanto aos sobrenomes citados, "os Machados" provavelmente se refere aos irmãos Miguel, Domingos e José Machado Freire; ao passo que "o Saraiva" é uma possível referência aa um dos principais tabajaras, Dom Sebastião Saraiva Coutinho, que recebeu terras no lugar chamado "Abajara" (Sesmarias, Vol. 11, nº 1, p. 5), ou a Dom Salvador Saraiva Coutinho, que recebeu terras no córrego chamado "Boroyabá" (Documentação Histórica Pernambucana, Vol. I, p. 155).

A Fazenda Tiaia

A Fazenda Tiaia constituiu o pilar econômico que dava sustentação a missão da Ibiapaba e suas extensões pelos sertões do Coreaú. As primeiras terras que viriam a compor essa célebre fazenda foram obtidas em sesmaria, em 3 de setembro de 1706, pelo Pe. Ascenso Gago, superior da missão da Ibiapaba, em cuja petição consta que:

Diz o Pe. Assenço Gago, da Companhia de Jesus, superior da missão de Nossa Senhora da Assunção da Serra da Ibiapaba, que, para sua sustentação e de seu companheiro e dos mais missionários que ao diante lhe sucederem na dita missão, como para o ornato daquela igreja, lhe é necessário criar gados vacuns e cavalares, sem os quais coisas senão pode viver naquela serra, distante do mar e sem rio algum vizinho de cujo pescado se alimentar. E, porquanto, na serra que Sua Majestade, que Deus guarde, foi servido mandar demarcar para os índios, não se acham pastos capazes de criar, ele suplicante há dez para onze anos tem situado uma fazenda de gados e bestas no rio Camuci, distante sete para oito léguas desta terra, em um poço chamado Guiraquatiara [Bracutiara], terras que achou devolutas e desaproveitadas, as quais ele aproveitou e desimpediu, reduzindo à paz os gentios circunvizinhos, sendo os primeiros gados que, em distância de cinquenta léguas, entraram a povoar, o qual sertão, a cujo exemplo, se povoaram depois as terras adjacentes. Pede a Vossa Mercê lhe faça mercê conceder, em nome de Sua Majestade, que Deus guarde, para sua sustentação, dos missionários seus sucessores, como também para ornato daquela igreja, duas léguas de terra no dito sítio que acima faz menção. Tem povoado no rio Camuci, começando no princípio do sobredito poço Guiraquatiara, uma légua pelo rio acima e outra para baixo, com meia légua de largo por cada banda (Sesmarias, Vol. 3, nº 147, p. 32).

Essa concessão, entretanto, sobrepunha-se a já mencionada sesmaria dos irmãos Machado Freire, de 1702, o que deu origem a um litígio. A disputa foi resolvida em 1706 pelo desembargador Cristóvão Soares Reimão, que, aplico a legislação vigente, datada de 23 de novembro de 1700, segundo a qual a cada missão caberia uma légua de terra em quadro, desde que fosse composta de ao menos cem casais (Studart, 2001, p. 126). Dessa forma, Reimão reduziu a área destinada aos padres e aos indígenas a essa área, considerada suficiente para sua subsistência e para a manutenção da capela, como consta em seu despacho, datado de 20 de setembro de 1706:

... porém como a povoação dos R[everendos] missionários se deve regular segundo as Leys, e só se concede para cada aldeia uma légua de terra e que dessa se poderão ajudar para a sustentação dos missionários, não podem estes ter mayor quantia de terra que aquella [...] e com tal lhe haja de ampliar; não procede a respeito dos ditos missionários que em número não excedam a dois e portanto lhes julgo das ditas léguas de sua data (Ximenes, 1996, p. 42)

Entretanto, sabe-se que, posteriormente, os irmãos Machado Freire voltaram atrás e doaram as terras litigadas de volta aos jesuítas (Maia, 2010, p. 183). Mas visando ser restituído pela terra que lhe fora tirada, em 9 de dezembro de 1706, Ascenço Gago solicita e obtém outra sesmaria, justaposta a primeira, com a seguinte petição:

...alcançou nesta capitania uma data de duas léguas de terra no dito rio, começando no princípio da paragem Guiraquatiara, com uma légua para cima e outra para baixo e meia légua de largo para cada banda, das quais só lhe se julgou a primeira pela segunda instância, como a dita a outras terras, e não havendo na primeira légua pastos bastantes, por ter muitos matos incultos. Pede a Vossa Mercê lhe conceda, em nome de Sua Majestade, que Deus guarde, assim a légua que lhe julgou como, da extrema dela para cima, pelo riacho Tyboybucú, outra légua, pouco mais ou menos, até a paragem Itacolumi, com meia légua de largo para cada banda (Sesmarias, Vol. 3, nº 180, p. 102).

Essas duas sesmarias foram o núcleo inicial da Fazenda Tiaia, o qual foi significativamente acrescido por doações e compras feitas pelos jesuítas. Conforme Ligio Maia, consta no livro da Câmara de Viçosa do Ceará, que no ano de 1710, Francisco da Cunha, homem branco e natural de Portugal, morador no Pacoti, comarca do Piauí, deixou em testamento 450 cabeças de gado vacum, 27 cavalar e um negro de nome José para Nossa Senhora da Assunção, com a condição de se rezarem todo ano três missas pela alma do falecido, morto em 30 de abril do mesmo ano (fl. 11 apud Maia, 2010, p. 182). O gado teria sido trazido da Parnaíba, no ano seguinte, por Pedro Álvares Carneiro, português e primeiro vaqueiro da fazenda, ficando acomodado em Tiaia de Cima, em Granja.

Após 1728, foram compradas também léguas de terras contíguas à Tiaia, nos sítios de Pacoti, Ipueira e Tiaia de Baixo; duas léguas de terra no lugar Panacuy, compradas ao pernambucano José Bandeira de Mello, além de três léguas de terras adquiridas pelos jesuítas em hasta pública. Juntou-se às terras da fazenda de Tiaia, uma doação feita por Pedro Alves Correia, no lugar denominado Una. Padre Francisco de Lira comprou ainda terras pertencentes a Pedro da Rocha Franco. Ao todo a fazenda de Tiaia chegou a possuir doze léguas de terras de extensão (Ibidem, p. 182).

A Venda da Tiaia

Com a expulsão dos jesuítas, em 1759, a Fazenda Taia foi confiscada pelo Desmbargador Gama Casto, passando a integrar, assim, a fazenda real. Entretanto, por meio de petição instruída a 31 de maio ode 1760, o vigário interino, Padre Luiz do Rego Barros, requereu ao Visitador Geral da Capitania do Ceará, Pe. Veríssimo Rodrigues Rangel, que a fazenda e os demais bens confiscados fossem devolvidos a igreja da Vila de Viçosa, uma vez que foram adquiridos por doações e compras. A devolução ocorreu apenas dez anos depois, em 1770, ficando aos cuidados do vigário desta paróquia (Martins, 1930, p. 19).

Consta no Livro de Terra da Cidade de São José de Granja:

Pertence ao patrimônio da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção da Vila de Viçosa doze léguas de terras na Fazenda Tiaia e Ipoeiras, cita no termo da Freguesia de São José da Cidade de Granja, as quais lhe foi doada por Francisco da Cunha com suas aguadas e logradouros. Vila Viçosa, trinta e um de janeiro de mil oitocentos e cinquenta e seis. O Vigário José Beviláqua, Administrador (nº 124, fl. 34).

O Padre José Beviláqua, pai do renomado jurista Clóvis Beviláqua, protagonizou alguns conflitos públicos envolvendo o patrimônio da Fazenda Tiaia. Em 2 de outubro de 1850, acusou o bacharel José Arcanjo Figueira de Melo e Castro, quando era juiz de direito interino da comarca, de ter confiscado ilegalmente algumas cabeças de gado da Fazenda Tiaia, conduzindo-o para sua fazenda (O Cearense, 13/11/1850). No mesmo jornal, em matéria de 8 de fevereiro de 1865, um correspondente anônimo, identificado como "Macaco Amarelo", acusa o sacerdote emprestar a juros de três de porcento ao mês os rendimentos da dita Fazenda. O mesmo primata correspondente, em 14 de março de 1865, acusa-o de desviar três contos de réis dos gados da Fazenda Tiaia (O Cearense, 14/03/1865).

Em 1926, o administrador, Rev. Padre José Carneiro da Cunha, iniciou a demarcação das doze léguas de terra que constituíam o patrimônio. Mas isso levou a vários litígios com o proprietários confinantes. Visando evitar o conflito, D. José Tupinambá da Frota optou por vender todas as terras da Fazenda Tiaia, em transação realizada a 2 de março de 1926. O comprador foi a empresa Joaquim Pereira de Oliveira & Filhos que pagou, ao total, o preço de cem contos de reis (Ximenes, 1996, p. 24).

Essa empresa foi fundada por Joaquim Pereira de Oliveira, pai do Coronel Raimundo Oliveira no ano de 1893. Tratava-se de uma das maiores casas comerciais que já existiu em Granja, proporcionando grande fortuna ao seu fundador. Os Pereira de Oliveira são uma antiga família estabelecida na ribeira do Timonha há mais de duzentos anos. A exemplo disso, Joaquim Pereira de Oliveira, trisavô de Raimundo, era oficial da Câmara de Granja quando de sua criação em 1776 (Oliveira, 1996, p. 70). Raimundo era casado com Maria Delmiro da Rocha, descendente do Capitão Pedro da Rocha Franco, tendo tido o casal nove filhos conhecidos. O coronel faleceu em 29 de setembro de 1944, sendo sepultado em Granja.

Situada dentro no território do distrito de Parazinho, a fazenda deu origem a uma localidade que experimentou alguma prosperidade econômica com a exploração da carnaúba em meados do século XX, quando Granja chegou a ser um dos maiores produtores de cera do estado. Um levantamento realizado pela pesquisadora Marília Lima, em 2001, constatou a existência de remanescentes das edificações originais, consistindo de uma sede de fazenda, a casa do administrador, uma fábrica de beneficiamento de cera de carnaúba, uma área para secagem das palhas, todas em avançado estado deterioração (Lima, 2001, p. 41).


Croqui do conjunto arquitetônico da Fazenda Tiaia (Lima, 2001, p. 41).

Entre as construções, destaca-se a capela, dedicada N. S. do Perpétuo Socorro, de corpo único, com acesso principal e nas laterais com altar ao fundo. Essa capela, que também exerceu a função de aglutinador da população local, foi construída pelo próprio Raimundo em 1940. Destaca-se que, originalmente, a capela possuía três portas frontais, como é possível ver na fotografia abaixo, as quais foram tampadas, dando-lhe sua configuração atual.

Capela da Fazenda Tiaia na década de 1940.

*Registro o agradecimento ao colega pesquisador de Parazinho, João Victor Mascarenha, pela seção das fotografias utilizadas nesta postagem.

A Origem de Martinópole

As terras da fazenda Tiaia englobavam uma imensa faixa de terra que se estendia por 12 léguas, aproximadamente 80 km, abrangendo partes dos atuais municípios de Granja, Martinópole, Uruoca, Moraújo e Coreaú. Mesmo antes da venda formal ao Sr. Raimundo Oliveira, porções dessa imensa área foi sendo ocupada ao longo dos anos. No caso de Martinópole, sua origem está ligada a uma fazenda instalada nas margens da Lagoa da Angica em 1817 (Lira, 1984, p. 151). Com o advento da seca de 1877, o corpo d'água teria recebido migrantes procedentes de locais como Crateús, Santa Quitéria, Santana do Acaraú e Riachão, atual Uruoca (Monte, 1997, p. 15).

O povoado, depois distrito de Granja, ficou durante muito tempo conhecido como Angica, palavra originária da árvore denominada angico, existente às margens da lagoa. Consta no Livro de Terra da Cidade de São José de Granja:

Em baixo assinado José Mariano de Albuquerque Cavalcante declaro que sou possuidor de uma posse de terra no lugar denominado Angicos, na beira do Rio Juazeiro, termo desta freguesia de São José da Cidade de Granja. Declaro que esta terra que tenho em Angicos eu a possuo no valor de vinte e dois mil réis. Estrema pelo nascente com terras da ilha, e Barra, pelo poente com terras dos Enjeitado, pelo norte com terras da Vara Comprida e pelo sul com terras da Santa Cruz, cuja terra compreende de largura de meia légua para cada lado do mesmo rio. Em tudo me refiro aos meus títulos, que tenho em meu poder. Declaro mais que também sou possuidor de uma posse de terra de criar e plantar no lugar denominado Angicos, na beira do rio Juazeiro, termo desta freguesia de São José da Cidade de Granja. Declaro que esta terra que tenho no Angicos eu a possuo no valor de dez mil réis, cuja terra compreende de largura meia légua para cada lado do mesmo rio. Desta terra extrema pelo nascente com terras da Ilha e Barra, pelo poente com terras da Vara Comprida, pelo sul com terras da Santa Cruz. Em tudo me respondo aos meus títulos, que tenho em meu poder para as mesmas circunstâncias. Granja, 11 de março de 1857, José Mariano de Albuquerque Cavalcante (nº 976, fl. 203).

Não consegui localizar essa propriedade, deixo-a apenas para fins de registro.

Um marco no seu desenvolvimento de Angicas foi a chegada da Estrada de Ferro de Sobral a Camocim. No ano de 1881, foi inaugurada a primeira estação de Angica, o que permitiu um trânsito maior de pessoas e mercadorias, favorecendo, como em outros lugares, a aglomeração de pessoas em sua proximidade. Em 11 de novembro de 1931, uma nova estação foi inaugurada na localidade, há 2 km da anterior (ibidem, p. 19).

No campo religioso, Angica encontrava-se vinculado a paróquia de Granja, tendo sua primeira missa celebrada no dia 8 de novembro de 1911, pelo Pe. Vicente Martins da Costa. A construção da capela, incentivada por Pe Martins, contou com a doação do terreno, um planalto chamado Córrego, feita por um senhor conhecido por “Tendá”, filho de uma fazendeira chamada Maria Alves, que residia no Açude do Meio. O lançamento da pedra fundamental ocorreu no dia 28 de novembro de 1912, sendo inaugurada em 11 de novembro de 1916. Para formar a quadra que mais tarde originaria a Praça da Matriz, contou-se com a colaboração dos senhores Joaquim João Brito, Manoel Leontino e Alexandre Gomes (ibidem, p. 21).

Mons. Vicente Martins

Em 1917, como forma de homenagear o Padre Vicente Martins da Costa, que teria colaborado para o crescimento do lugar, o povoado mudou seu nome para Martinópolis, significando cidade de Martins. Mas a mudança oficial do nome do distrito para Martinópolis somente ocorreu em 1933. Em razão da existência em São Paulo de município com o nome de Martinópolis, o nome do município, em 1943, foi mudado para Martinópole (Montenegro, 1923, p. 108). Em 20 de dezembro de 1946 foi criada a Paróquia, tendo como primeiro vigário o padre João Batista Pereira, que permaneceu no cargo até 02 de março de 1949. Em 26 e março de 1957, por meio da Lei Estadual nº 3560, Martinópole finalmente emancipou-se de Granja.

Segundo Francisco Barroso, desde 1942 funcionava uma comissão, que trabalhou pela criação da paróquia, composta pelos srs. Cap. Joaquim João de Brito, Cap. Joaquim Tibúrcio Sampaio, Cel. Francisco Felix Camilo, Cel. Manuel Torres de Morais, Antônio Rodrigues Viana, Benedito Rafael da Cunha, José Carneiro Vasconcelos, Cícero Dias Martins, Francisco Albuquerque Ximenes e outros. Enquanto outro grupo lutava para reunir bens para o patrimônio da freguesia: Antônio R. Viana, José Feijó de Melo e Francisco Chagas Vasconcelos (Barroso, 1999, p. 178).

Uruoca

A ocupação do território de Uruoca parece estar diretamente ligada a supramencionada sesmaria da Bracutiara, obtida por Pe. Asenço Gago em 1706. Ainda hoje existe nesse município um localidade de nome Bracutiara, à margem do Rio Coreaú, que possivelmente serviu de referência para antiga medição de terras. Um pouco mais acima no mesmo rio existe também a localidade de Balisa, que, segundo depoimento colhido por João Paulo Ferreira, teria relação com a demarcação das divisar da referida data. Um dos primeiros moradores da região, identificado como Antônio Félix de Lima (ou Félix Antônio Lima), teria encontrado uma baliza muito estragada pela ferrugem, dando o nome ao lugar (Dos Santos et al., 2020, p. 18).

Ainda segundo João Paulo, nas terras da missão foram construídos três currais para apresamento de gado: Curral de Cima, Curral do Meio e Curral de Baixo. Com a expulsão dos jesuítas, esses currais foram abandonados, tendo um deles, inclusive, originado a localidade de Curral Velho. O mesmo aconteceu com os tanques de água para o gado, que deram origem a localidade de Tanque Seco. Grande parte das terras da Tiaia foi vendida, e, assimi como outras datas, foram desmembradas pelos proprietários como dotes, vendas e doação aos seus filhos, dando origem a diversas fazendas. O nome primitivos da povoação da sede do município era Riachão, posteriormente alterado para Uruoca, algo como casa de cesto (?). Existe certa controvérsia se esta teria começado ao redor da igreja ou na localidade de Arisco, ambas situadas ao longo da linha férrea. Essa história encontra-se descrita em ricos detalhes no livro Uruoca, Pessoas e Lugares.

Diego Carneiro

16 de setembro de 2026

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. As Terras da Tiaia. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 16 de setembro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/09/as-terras-da-tiaia.html

Referências:

BARRETO, Gilton. Viçosa Ceará: sob um olhar histórico. Expressão, 2012.

BARROSO, Francisco de Andrade. Igrejas do Ceará: crônicas histórico-descritivas. Fortaleza, 1999.

BUENO, Francisco da Silveira. Dicionário tupi-guarani-português. 5. ed. rev. e aum. São Paulo: Brasilivros, 1987.

FREITAS, Gomes de. Dissipando lendas. Revista do Instituto do Ceará, Fortaleza, t. LXXXII, p. 280-283, 1968.

LIMA, Marília Gouveia Ferreira. Granja: evolução urbana e arquitetônica. 2001.

LIRA, João Mendes. Subsídios para a história eclesiástica e política do Ceará. Rio de Janeiro: Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1984.

MAGALHÃES, Leiliane Kecia. Senhoras e senhores de terras: redes de sociabilidade e relações de gênero no espaço econômico da Ribeira do Acaraú (século XVIII). 2023. 155 f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História Social, Centro de Humanidades, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2023.

MAIA, Lígio José de Oliveira. Serras de Ibiapaba: de aldeia à vila de índios: vassalagem e identidade no Ceará colonial-século XVIII. 2010.

MONTE, Adauto. Breve histórico da cidade de Martinópole: 1957–1997. Martinópole, 1997.

MONTENEGRO, Seridião Correia. Perfil histórico, geográfico e antropológico dos municípios do Ceará. Tomo 2. Fortaleza: Edições INESP, 2023.

OLIVEIRA, André Frota. Quadros da história de Granja no século XIX. Expressão Gráfica e Editora, 1996.

STUDART, Barão de. Datas e factos para a história do Ceará./Barão de Studart. Edição fac-sim.- Fortaleza: Fundação Waldemar Alcântara, 2001.

XIMENES, Haroldo. Origem e Evolução Histórica de Granja. Fortaleza, 1996.

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