Como já mencionado em outras postagens, desde os primórdios da colonização do território brasileiro, piratas e corsários franceses e holandeses frequentaram o litoral do Ceará. Uma das principais portas de entrada era a foz do Rio Coreaú, então conhecida como Camocim ou Rio da Cruz. Dotada de boa profundidade, essa barra permitia, em meados do século XVII, o ingresso de embarcações à vela de médio porte, como barcaças e sumacas. O principal atrativo dessas incursões era o escambo com os povos indígenas: os europeus trocavam produtos manufaturados — machados, foices, facas e facões — por madeiras, animais e outras especiarias da terra.
Convém destacar que a designação “Camocim”, recorrente em textos e mapas antigos, referia-se, na verdade, à atual cidade de Granja. O chamado porto de Camocim consistia em um ancoradouro natural, situado junto a um barranco elevado, que facilitava a atracação de embarcações de médio porte e o acesso a água potável. No século seguinte, o local abrigou uma salgadeira de carne e passou a ser conhecido pelo topônimo “Oficinas”. A partir desse ponto, os aventureiros estrangeiros tinham acesso às trilhas indígenas que conduziam à Serra da Ibiapaba. Foi nessa foz estratégica que holandeses — e possivelmente franceses — ergueram fortificações para assegurar sua presença e suas atividades comerciais (Oliveira, 1995, p. 45).
Não apenas corsários estrangeiros utilizaram essa rota. Os primeiros exploradores luso-brasileiros também a percorreram na tentativa de alcançar o Maranhão, assim como missionários jesuítas que, ao longo de todo o século XVII, buscaram estabelecer aldeamentos na região. Ao final desse século, portanto, o sítio onde hoje se encontra a cidade de Granja já era relativamente conhecido e integrado às dinâmicas de exploração, comércio e evangelização do extremo norte do Ceará.
Primeiros Sesmeiros
Entre os primeiros sesmeiros da região, destaca-se Capitão Rodrigo da Costa de Araújo, estabelecido no lugar Outeiro. Segundo Vicente Miranda:
"[...] ele saiu de Recife, no ano de 1695, em busca das terras próximas à Ibiapaba e que margeavam aquele rio. Sua comitiva de homens e animais levou meses para alcançar e se instalar definitivamente na terra que chamou de “Várzea Grande”, hoje Coreaú, onde recebeu sesmaria em 7 de janeiro de 1702. No caminho, encontrou “arrancho” na isolada fazenda São José da Mutuca, onde morava, desde 1690, Félix da Cunha Linhares, genro de Leonardo de Sá" (Miranda, 2001, p. 68).
Na petição da dita sesmaria o capitão informa que "no sertão do Ceará, no riacho que chama Coroassu e Cabeceiras do Boqueirão da serra em que moram os indios da nação Ararius [Reriús] e vertentes do Camocy, descobriu humas terras devolutas e desaproveitadas [...]" e solicita três léguas de terra nesse local, as quais foram concedidas por D. Fernando Mascarenhas de Alencastro, governador de Pernambuco (Fontenele, 2001, p. 30-32).
Sobre ele, sabe-se é natural de Paços do Ferreira, Porto, Portugal, possivelmente filho de Domingos da Costa Araújo e Tereza Gomes Figueiredo. Domingos era um próspero comerciante na praça do Recife, tendo sido vereador na Câmara de Olinda em 1706 e admitido como Cavaleiro da Ordem de Cristo desde 1695 (Sousa, 2020, p. 444). Ele também conseguiu uma sesmaria de uma légua, nas testadas do seu "filho", confirmada em 1704, tendo-o como preposto (Documentação Histórica Pernambucana, Vol. 1, p. 175). Já estabelecido no Ceará, Rodrigo da Costa casou-se, em 1722, com Juliana Ferreira de Barros, filha de Mathias Vidal de Negreiros e de Clara de Araújo Sampaio. Faleceu no dia 17 de julho de 1758 (Pildas, 2002, p. 49).
No pedido dos irmãos Miguel Machado Freire e Domingos Machado Freire, outros pioneiros da região, de 3 de agosto de 1702, consta que também obtiveram de D. Fernando Mascarenhas, “5 léguas de terra de comprido e uma de largo, na ribeira do rio Camusy, cortando o mesmo rio, começando das testadas das terras de Rodrigo da Costa Araújo até o Salgado, reservando caatingas e voltas do rio" (Documentação Histórica Pernambucana, IV, p. 122). Essa porção de terra foi reduzida para quatro léguas após um litigio com Pe. Ascenso Gado, missionário da Ibiapaba, julgado por pelo desembargador Cristóvão Soares Reimão em 22 de novembro de 1706. Estabeleceram-se na região do atual distrito de Parazinho.
Destaca-se ainda, nessa primeira leva, o pedido efetuado em 30 de março de 1705, pelos os sesmeiros Manoel Dias de Carvalho e seu primo Félix Coelho de Morais, que obtém datas de três léguas de terra, entre o Riacho das Rolas e o Rio Coreaú, também pegando das testadas do Capitão Rodrigo da Costa Araújo (Sesmarias, Vol. 2, nº 100, p. 57). Como não foi registrada, após três anos, a 13 de janeiro e 1708, eles solicitaram que fosse concedida novamente e inscrita nos livros de terras da Capitania (Sesmarias, Vol. 5, nº 316, p. 134). Por fim, o próprio capitão também obtém outra sesmaria de uma légua no Rio Jaguaraçui (atual Campanário), pegando as testadas (lado mais estreito) de sua data anterior, confirmada a 14 de setembro de 1706 (Sesmarias, Vol. 4, nº 192, p. 10).
A Capela de Santo Antônio do Olho d'Água
As terras supramencionadas, conseguidas pelo Sargento Mor Manoel Dias de Carvalho localizava-se entre o Rio Coreaú e o Serrote das Rolas, nas proximidades das aldeias dos Tabajara, na Serra da Ibiapaba, e dos Reriús, na Serra da Meruoca, abrangendo o atual município de Coreaú. Ele era filho de Francisco Dias de Carvalho, soldado do forte, tendo nascido em 1673, dois anos antes de seu pai vir para o Ceará.
Nessas terras, próximo ao riacho Juazeiro, em 3 de agosto de 1726, juntamente com sua mulher, Dona Bárbara Cabral de Olival, doam terreno para a construção de um capela dedicada a Santo Antônio da Mouraria. D. Bárbara era filha do capitão mor Tomás Cabral de Olival, comandante da fortaleza do Ceará de 1688 a 1692 (Nobre, 1980, p. 36). A doação encontra-se registrada livro de notas, o tabelião Manuel de Miranda Barbosa, da Villa de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, às fls. 70v, sendo seu administrador o ermitão Francisco de Sagres (Nobre, 1980, p. 323).
O templo primitivo, erigido em taipa com cobertura de palha, foi reconstruído em 1742, quando foi inaugurada com a presença de seus fundadores: o comissário Geral Domingos Álvares Ribeiro, o coronel Bento Pereira Viana, o capitão Marcos José de Sousa e João da Mota Pereira. Nessa época, o Sargento-mor morava no sítio Coité, “arrebalde do arraial da Ubajara" [1]. Em torno da capela de Santo Antônio do Olho d'Água formou-se a povoação de mesmo nome, hoje distrito de Araquém, sendo o mais antigo templo do território paroquial de Coreaú e uma das povoações mais antigas do Vale do Coreaú.
Desde 1867, a capela tornou-se filial da Matriz de Nossa Senhora da Piedade, após anteriormente pertencer à Freguesia de Granja. Em 1993, foi tombada como Patrimônio Histórico de Coreaú pela Lei Municipal nº 219, de 14 de junho, sancionada pelo prefeito Dr. Francisco Antônio Menezes Cristino. No mesmo ano, passou por ampla reforma promovida pela Prefeitura, sendo reinaugurada em 10 de julho de 1993, quando foi instalada, em sua fachada, uma placa comemorativa do tombamento (Pildas, 2002, p. 49).
O Aldeamento de Santa Cruz do Coreaú
Em 1706, o remanescente indígena da Tabainha, já sem meios de subsistência, foi compelido a emigrar. O padre Ascenço Gago reuniu esse grupo no aldeamento de Santa Cruz do Coreaú, posteriormente conhecido como Macaboqueira, onde já se encontravam outros nativos. Com a transferência, o arraial da Tabainha desapareceu definitivamente, ao mesmo tempo em que colonos brancos passaram a ocupar suas imediações por meio de fazendas instituídas sob o regime de sesmarias, então em franca expansão (Aragão, 1990, p. 232).
Na esteira desse movimento, o morubixaba tabajara da Ibiapaba, D. Jacob de Sousa e Castro, estabeleceu uma fazenda de gado, de nome Ubaiaçu, à margem esquerda do rio Coreaú, em frente ao poço então conhecido como Eiperuquara (atual Periquara). A posse foi formalmente regularizada em 4 de setembro de 1706, por meio de carta de sesmaria que lhe concedia uma data de terras estendendo-se meia légua rio acima a partir do referido poço e uma légua rio abaixo, até a foz do riacho Camboa. Essa concessão abrangia a faixa territorial onde hoje se situa a cidade de Granja.
Em sua petição, D. Jacob afirma ser um dos principais da Aldeia da Serra da Ibiapaba da nação tabajara e que:
Pelo trabalho que teve em mostrar aos brancos as terras e caminhos circunvizinhos à dita serra, a fim de as povoar e com eles assistir para defendê-los do inimigo tapuia, adquiriu algum gado vacum e cavalar. Entretanto, [...], não podia criá-lo, em razão dos danos que o gado causaria às lavouras, nem havia nelas capacidade de pasto suficiente. Assim, no rio Camocim, no poço chamado Eiperuquara, encontrou terras devolutas e desaproveitadas, as quais passou a utilizar, nelas situando os referidos gados (Sesmarias, Vol. 3, nº 149, p. 37).
Conclui solicitando como remuneração pelos serviços prestados que lhe concedam uma légua e meia de comprimento e uma de largura, meia légua para cada lado do referido rio, meia légua cima e uma légua baixo do dito poço.
Nessa época, um homem chamado Vicente Ribeiro, casou-se com Luzia da Silva, uma filha do donatário D. Jacob de Sousa e recebeu parte dessa sesmaria como dote. Logo após efetuar a doação ao genro, o chefe tabajara retornou a Serra da Ibiapaba. Essa doação é trazida carta de sesmaria concedida posteriormente ao povoador Domingos Machado Freire:
“Diz o capitão Domingos Machado Freire, morador no Curuiyu, termo desta Capitania, que o defunto Vicente Ribeiro, em sua vida, pediu uma data de terras no rio Camosy, freguesia do Acaracu, de légua e meia, fazendo princípio no poço Periquara, a saber: meia légua do dito poço para cima e uma légua do dito poço para baixo; e porque, inteirada a dita data na forma referida, ficam terras de sobra devolutas, onde pastam gados do suplicante, posto que sem águas, quer o suplicante haver as ditas sobras por sesmaria para nelas criar seus gados. [...] Declaro que a data referida foi concedida a D. Jacob de Sousa e Castro, e este a deu em dote a Vicente Ribeiro, defunto acima declarado” (Sesmarias, Vol. 7, nº 547, p. 105).
Ressalta-se que o restante dessa sesmaria foi vendida por D. Jacob de Sousa aos próprios jesuítas, pelo valor de quinze bestas, à época, pouco mais de 8 mil réis (Maia, 2010, p. 183).
A Fazenda Macaboqueira
Após o casamento, Vicente Ribeiro transferiu o curral da fazenda da Periquara para o local onde passou a residir com sua esposa, formando ali um núcleo de ocupação que deu origem a atual cidade de Granja. A maioria dos primeiros habitantes da nascente povoação de Santa Cruz do Coreaú e Camocim era composta por indígenas catequizados da Missão da Ibiapaba, pertencentes à parentela do donatário D. Jacob de Sousa. Presume-se que essa aldeia estivesse localizada no atual Alto dos Pescadores, nas proximidades do poço do Pucu, onde até tempos recentes existia uma antiga casa pertencente a Joaquim Ribeiro, descendente de Vicente Ribeiro (Ximenes, 1996, p. 37).
Os filhos desse casal podem ser considerados, em certo sentido, os fundadores do município. Uma delas, Grácia Ribeiro de Souza, casou-se, a 10 de janeiro de 1731, com João Rodrigues Magalhães, que segundo Pe. Sadoc é o fundador da fazenda Macaboqueira, berço da cidade de Granja (Araújo, 2000, p. 203). Outro filho daquele casal, o Tenente Francisco Ribeiro de Sousa, casado com Luisa da Mota Pereira, filha de João da Mota Pereira, radicados na antiga povoação de Olho D'Água, doou, em 29 de outubro de 1758, terras para constituir o patrimônio da Matriz da Macaboqueira, cujos rendimentos ajudariam na construção do templo, dedicado a São José. A doação consistiu em um quarto de légua, medido a partir da "Pedra Grande”, na margem ocidental do rio Coreaú (Aragão, 1990, p. 379).
Ressalta-se que quando da divisão do Curato do Acaraú, em 1757, ainda não existia uma igreja em Macaboqueira, sendo a sede provisória da nova freguesia ficou sendo a já mencionada Capela de Santo Antônio de Pádua Olho d'Água. Apenas dois anos depois, a 8 de setembro de 1759 é que foi inaugurado o templo permanente, no atual município de Granja. No dia seguinte a inauguração, foi instituída a Irmandade do Santíssimo Sacramento, sob a orientação do vigário da Vara Luiz Fernandes de Carvalho.
Pelo Alvará de 27 de junho de 1776, o povoado de Macaboqueira foi elevado à categoria de vila com o nome de Granja. Posteriormente, em 3 de novembro de 1854, foi elevada à condição de cidade pela Lei provincial nº 692, mantendo a mesma denominação. O nome Granja foi escolhido em referência à Freguesia de São Brás da Granja, no Conselho de Mourão, Distrito de Évora, em Portugal.
Diego Carneiro
12 de fevereiro de 2026
Referências
ARAGÃO, R. Batista. História do Ceará - Vol. 1 (1500 a 1800). 3 ed. 1990.
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.
ARAÚJO, Cosma Silva; SALES, Telma Bessa. O Candango vai para Brasília: Trabalhadores de Araquém na cidade em construção (1956-1960). Revista Historiar, v. 6, n. 11, 2014.
FONTENELE, A. Batista. A Marcha do Tempo: Os Fontenele. Fortaleza: SENAI/CE, 2001.
MAIA, Lígio José de Oliveira. Serras de Ibiapaba: de aldeia à vila de índios: vassalagem e identidade no Ceará colonial-século XVIII. 2010.
MIRANDA, Vicente. Três séculos de caminhada. SM, 2001.
NOBRE, Geraldo Silva. História eclesiástica do Ceará. Secretaria de Cultura e Desporto, 1980.
OLIVEIRA, André Frota. A fortificação holandesa do Camocim. Expressão Gráfica e Editora, 1995.
PILDAS, Leonardo. História de Coreaú (1702-2002). 2003.
SOUZA, George F. Cabral de. Tratos & Mofatras: O grupo mercantil do Recife colonial (c. 1654 — c. 1759). 2 ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2020.
XIMENES, Haroldo. Origem e Evolução Histórica de Granja. Fortaleza, 1996.
[1] Autos de devassas das Minas da Ibiapaba, 1743. Arquivo do NEDHIS-UVA.

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