Camocim e as Vilas Volantes

Construção da Balustrada de sustentação para o Porto de Camocim, com Estação Ferroviária ao fundo.

Segundo a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros,

Os membros da família Gabriel foram os primeiros habitantes de Camocim. Em 1792, procedentes de Tutóia [Maranhão], chegou Gabriel Rodrigues da Rocha com sua família, composta de mulher e dois filhos de nomes Joaquim Gabriel da Rocha (casado) e José Gabriel da Rocha (solteiro). O chefe da família Gabriel visava o exercício da profissão de prático da barra e teve como mestre no conhecimento da nova função o velho Tremembé, índio que pouco falava o português e que, juntamente com outros aborígenes, eram os únicos moradores do lugar. Gabriel Rocha procriou mais alguns filhos, entre os quais o de nome Luiz Rodrigues Rocha, conhecido por Luiz Gabriel, que se celebrizou no conhecimento da barra, de modo a fazer entrar qualquer navio no porto de Camocim, a qualquer hora da noite, mesmo ainda depois de haver perdido um olho (IBGE, 1959, p. 111).

Segundo o autor, a atuação dessa família teria colaborado para a prosperidade do porto de Camocim, uma vez que tornou a costa acessível a navios de grande calado.

Ressalta-se que, antes da chegada de Gabriel Rodrigues, já existia um comércio incipiente no porto de Camocim, que escoava, entre outros gêneros, uma pequena produção de sal a ser utilizado nas oficinas de Aracati e outras capitanias. Nesse sentido, existem registros entrada de barcos neste porto entre os anos de 1767 e 1776 (Dos Santos, 2014, p. 29). Nos atos de instalação da Vila de Sobral, em 1773, foi instituída uma taxa para financiar a construção, entre outras coisas, da Casa da Câmara, devida por "todas as pessoas que levarem boiadas a vender aos portos do Camussy e Acaracu de qualquer parte que forem(Nobre, 1977, p.137). Na ocasião, foi eleito como tesoureiro o Mestre de Campo Bento Pereira Viana.

Durante a segunda metade do século XIX, o prático Luiz Gabriel atuou ativamente na condução de embarcações pelo porto de Camocim. Entre estas, no ano de 1855, conduziu o primeiro vapor da companhia pernambucana, de nome “Marqués de Olinda”, comandado pelo piloto Antônio Maciel, assim como o vapor “São Luiz”, da Cia. Maranhense, no ano de 1859 (IBGE, 1959, p. 111). Outra atuação particularmente relevante de Luiz Gabriel é trazida pelo historiador Antônio Philadelfo Pessoa:

"Em 1879 arribou ao porto de Camocim, um brigue Allemão de grande calado, carregado de materiais para a estrada de ferro. - Informado o Dr. Rocha Dias, do calado do navio, que era de 18 e meio pés, preparava-se para fazê-lo descarregar fora da barra, com grande aumento de despeza, quando lhe foi informado, por algumas pessoas, que Luiz Gabriel talvez desse entrada aquelle navio. Chamado Luiz Gabriel e interpellado a respeito, respondeu que no dia seguinte daria resposta e com efeito a deu declarando que daria entrada ao navio decorridos dois dias. No dia marcado, pelas cinco horas da tarde o aludido navio, garbosamente entrava e largava ferro no porto de Camocim com admiração e satisfação geral" (Pessoa, 1908, p. 20).

Entre os anos de 1838 e 1873, migraram para o povoamento de Camocim: João Rodrigues da Rocha, Inácio Rodrigues de Lucena, Luís Pereira Jorge, Tomaz Amaro de Santana, André Bernardino Chaves, Antônio Felix de Lima, Manoel Catarina, Antônio Brício dos Santos, Antônio Sabino Gomes, José Pereira de Brito, Dionízio José Ferreira, Alferes Martiniano de Andrade Pessoa, Joaquim Inácio Pessoa, tenente Antônio de Andrade Pessoa, tenente Manoel Inácio Pessoa, tenente-coronel João Porfírio da Mota, entre outros (IBGE, 1959, p. 111).

Entre os anos 1877 a 1879, o Ceará foi assolado por uma severa seca, que ficou conhecida como Grande Seca, ou Seca dos Três Setes. Esse fenômeno climático afetou de forma dramática as regiões sertanejas, reduzindo a disponibilidade de alimento e obrigando o êxodo para o litoral e áreas mais úmidas. Nesse período, Camocim recebeu muitos migrantes da região de Mombaça e de outros lugares. Essa corrente imigratória, à proporção que se prolongava a seca, crescia dia a dia, de modo que, em 1878, contava Camocim com uma população de aproximadamente cinco mil almas (Ibdem., p. 111).

Planta da Vila de Camocim, 1878 e 1880.

A 5 de agosto de 1878, tiveram início os estudos para construção da estrada de ferro ligando Camocim a Sobral. Alguns meses antes, chegou a Camocim a comissão de engenheiros encarregada dos trabalhos da estrada, que, apesar de bem recebidos, face a deficiência de domicílios, tiveram que se instalar em palhoças cedidas por algumas famílias da região. O primeiro trecho, ligando Camocim e Granja, foi inaugurado a 15 de janeiro de 1881, dois anos após o início dos trabalhos, sendo definitivamente concluída no ano seguinte e tendo suas operações iniciadas em 31 de dezembro de 1882.

O município de Camocim foi criado por Lei provincial nº 1.849, de 29 de setembro. de 1879, com território desmembrado do de Granja, e sede no núcleo de Camocim, que foi elevado à categoria de vila, cuja instalação se efetuou a 8 de janeiro de 1883. Governava o Ceará na época da criação do município o Dr. José Júlio de Albuquerque, cearense, depois Barão de Sobral.

Igreja Bom Jesus dos Navegantes*

Igreja Bom Jesus dos Navegantes (UVA/HEDHIS).

A antiga capela de Camocim, que por muitos anos serviu de matriz, foi iniciada em 1880 obedecendo à planta e direção do engenheiro José Privat, primeiro diretor da construção da "Estrada de Ferro", e concluída dois anos depois a capela-mor sob a direção do Dr. Beltrão Pereira, que conseguiu levantar a fachada, arcadas e paredes laterais da nave principal da futura matriz. Criada a freguesia por Lei provincial nº 2.007, de 5 de setembro de 1882, sendo canonicamente instituída por provisão de 19 de janeiro do ano seguinte, nomeado seu primeiro pároco Padre Leandro Teixeira Pequeno, natural de Icó, então coadjutor em Granja. 

Em 1905, a paróquia foi anexada à de Granja, com a transferência do vigário. Nesse mesmo ano, o padre João Teixeira de Abreu, residente em Camocim, reiniciou os trabalhos de construção da igreja sem maiores resultados, de vez que a comissão organizada para tal fim dissolveu-se com a retirada do padre João Teixeira para Fortaleza, ocasionando, mais uma vez, a paralisação dos serviços. Essa era o panorama da Cidade de Camocim em 1908:

"[...] tem a cidade os seguintes uma Egreja Matriz, consagrada ao Senhor Bom Jesus dos Navegantes, em construção, a qual será uma das maiores naves e mais elegantes do estado, quatrocentas e noventa e seis casas construídas a tijolo, afora trezentas e trinta e oito casas de taipa" (Pessoa, 1908, p. 34)

Em princípios de 1906, voltou Camocim a ser freguesia, sendo nomeado Pároco encomendado da mesma o padre José Augusto da Silva, que deu andamento à construção da igreja, levantando as paredes que não tinham altura suficiente para receber o teto. Estando elas cerca de 20 anos expostas às chuvas e ao sol, não puderam resistir e desabaram totalmente. Padre José Augusto viu-se obrigado a construir a sua matriz desde os alicerces, terminando-a em 1918. A nova igreja foi benta e inaugurada no ano seguinte por D. José Tupinambá da Frota, então pároco daquela cidade. A imagem de Bom Jesus dos Navegantes, padroeiro da freguesia, foi doada pelo Sr. José Adonias, em 1917.

*Informações de IBGE (1959), p. 111

A Vila de Guriú

O litoral de Camocim a Jericoacoara é polvilhado de vilas de pescadores, algumas tão ou mais antigas que a própria sede do município. Esse é o caso da Vila de Guriú, situada na foz do rio de mesmo nome, sede do distrito de mesmo nome, instalado por Ato Legislativo de 11 de fevereiro de 1890. O topônimo Guriú, de origem indígena (guri = bagre + i-ú = beber água), significa algo como "donde se forma bebedouro de bagres" (Aragão, 1996, p. 286).

Fontes trazidas no excelente Blog Camocim Pote de Histórias, nos informam que o porto de "Gurihú", na grafia antiga, já era utilizado mesmo antes de Camocim ser elevado à município, existindo ali uma sub-capatazia, cujo responsável, em 1873, era o Sr. José de Araújo (Almanak da Província do Ceará, 1873, p. 375). Segundo matéria do Jornal Gazeta do Norte, de 12 de fevereiro de 1883, naufragou nas praias de Guriú a barca "Celide R.", encontrada pelo administrador da Mesa de Rendas de Camocim "sentado na areia com o porão cheio d'água e o carregamento mergulhado [...] e abandonado pela tripulação. [...] Por ordem do Juiz de Commercio de Granja, o carregamento foi arrematado por 2:900$000". A denúncia era de que tal procedimento foi feito sem os devidos editais.

Matéria do Jornal Libertador, de 12 de setembro de 1890, pouco depois da criação do distrito, é criado Distrito Policial (ou de Paz), tendo como sub-delegados e suplentes os senhores, Manoel Joaquim Ferreira, Domingos José Dourado, João Antônio da Silva e Antônio Marques de Souza. Um ano depois, uma matéria do Jornal O Cearense, de 29 de março de 1891, contesta a decisão de transferir terrenos de marinha e dos índios da união para os municípios. Segundo a matéria, essas terras estariam sendo concedidas a terceiros de forma arbitrária, em detrimento dos interesses dos moradores locais: "Do Gurihú, lago de água doce, são requerentes o [Estevão] Louzada e [Vicente] Pungitori, residentes no Ararahú, que dizem ser sócios de João Cordeiro".

Estevão Louzada (n. 03/01/1852, f. 20/09/1902), era filho do português Francisco Antônio Louzada, ambos comerciantes de Acaraú, sob a razão Social Louzada & Filho. Estevão foi um importante político acarauense, sendo o primeiro intendente desse município após a queda da Monarquia. Casou-se a 30 de maio de 1873, na Matriz de Acaraú, com Francisca Júlia Regadas, filha do comerciante português José Domingues Regadas e Maria Izídia Ferreira (Araújo, 1971, p. 39; 42; 342). Já Vicente Pongitori foi um imigrante italiano que chegou a Acaraú em 1860, tornando-se um próspero comerciante e liderança política local. Pongitori e Estevão Lousada eram concunhados, uma vez que Vicente Pongitori casou-se com outra filha de José Domingues Regadas (Araújo, 1940, p. VI).

A população do distrito em 1891, um ano após sua criação apresentava o total de 581 pessoas. Destas, 298 eram homens e 283 mulheres. Dos homens, 38 sabiam ler e escrever e apenas 6 mulheres eram alfabetizadas. Já no século XX, em 1901, a sub-capatazia era da responsabilidade do Sr. Estevam Louzada. Em 1911, o Capitão Joaquim Marques dos Santos, aparece como agente e correspondente local do jornal O Rebate, de Sobral.

Praça da Matriz de Guriú.

A capela local tem como padroeiro Santo Antônio, e pertence ao Bispado de Tianguá. Já existia, ainda que primitivamente, em 5 de maio de 1890, segundo resposta do Conselho Municipal de Camocim a um questionamento realizado governador do estado (Dos Santos, 2019, p. 277). Entretanto, segundo Ruy Carvalho, só foi, de fato concluída somente em 1902, 17 anos antes da Igreja Matriz (Carvalho, 1991, p. 110). Melhoras significativas foram feitas na capela pelo padre José Augusto da Silva, que foi provisionado vigário de Camocim em 1906, chegando a ser eleito prefeito do município em 1919 (Costa, 1940, p. 176).

Em 1977 a "igreja foi reconstruída, houve a festa de Santo Antonio com a presença do Bispo [Dom Timóteo Francisco Nemésio Cordeiro] e monsenhor Inácio [Nogueira Magalhães]. Uma tradição do lugar é o Almoço dos Cachorros, "em homenagem a São Lázaro, promovido pela esposa do João Barros" (Camocim Pote de Histórias, 19/09/2025).

José Cândido de Araújo

Em 1991, o sociólogo Ruy Carvalho, em sua dissertação de mestrado sobre as vilas da região, realizou uma preciosa entrevista com o mais antigo morador de Guriú, o Sr. José Cândido de Araújo, então com 82 anos, a qual transcrevo na integralidade:

"Antigamente aqui não tinha morador. Os moradores moravam lá nos matos. Chamava-se Fazenda. Depois, os troncos de meu avô e de meu bisavô se colocaram aqui. Eles eram de Portugal. Vieram com a família deles e mais outras famílias: a família Franco, a família dos Afonsos — o pai de Raimundo Afonso — e outros também que não eram filhos daqui, que moravam no lugar dessa igreja. O Zé Vicente... Lá no Serrote tinha uma família Zé Vicente, mas esses daqui eram outro povo, e os de lá eram da cabocage, dessa raça de índio. Então, depois, eles moravam aqui. E toda boca da noite o povo vinha passear aqui: "Vamo passear lá nos Araújos!". Lá no Morro, que era o nome daqui. O primeiro nome daqui foi Morro.

Depois de Morro, tinha uns terrenos de meu avô, ali do lado de cima, que eram da família Jacinto. Eram uns poucos de irmãos. Aquela terra até o Mangue Seco antigamente era deles, sendo o terreno de meu avô mais por cá. Lá chamava Guriú e aqui chamava Morro. Então o pessoal foi vindo, e foi aumentando mais o povo. Aí botaram o nome daqui de Guriú. Lá era Guriuzim, aqui era o Guriú. E acolá morava o pessoal que era a cabocagem. Era acolá, na linha dos matos. Vinha de perto da Baixa Grande até acolá. Na derradeira ponta chamava-se Fazenda. Lá é Fazenda, aqui é o Guriú. E aqui aumentou até muita gente. Depois mudaram uma parte para o Serrote e outra para Camocim [...] 

De lá pra vir pra cá, só vinha até a metade da Baixa Grande. E eles vieram morando. A estrada era por aqui. Estrada não; eu conheci uma vereda. Passava mês que não vinha ninguém pra cá. A vereda... cê ia pra lá hoje, como era com amanhã, você vinha e tinha lugar que você num enxergava seu rasto. Rasto de caça, porco-do-mato, rasto de onça, de todo tamanho. Porque era uma mata, uma matona, madeira grossa. E hoje não tem mais: cabou-se.

Dos mais véi que tem ainda, sou eu, José Cândido de Araújo. Nossos troncos eram de Portugal. Agora, a família Araújo é misturada com Dias e Cruz. Esses Cruz que têm nas abas de Granja, por acolá... Um coronel muito vivo, coronel Luís da Cruz. Daqui do Guriú, os troncos dessa cabocage toda, tudo descende a Barros. E tem Barros no mundo todo: tem Barros nos Tucuns, tem Barros no Camocim, tem Barros aqui nesse meio-mundo todo" (Carvalho, 1991, p. 111-112).

Infelizmente, dada a limitação de fontes escritas, tenho pouco a acrescentar as palavras do Sr. José Cândido, de modo que preferi apenas reproduzi-las.

Abro aqui um rápido parêntese para comentar uma antiga tradição política do Município de Santana do Acaraú, registrado pelo Memorial da Paróquia de Santana, que consistia em mandar os candidatos derrotados "irem ao Guriú". Aparentemente, essa expressão foi popularizada no final do século XIX pelo Sr. Zezé Tomás, sobrinho do Padre Antônio Tomás, em função da mudança dos limites das Freguesias de Santana e da Barra do Acaraú. A Resolução nº 626, de 22 de dezembro de 1853, determinou como limite com o termo de Granja, justamente "do rio Guriú até a fasenda extrema, de Clemente Antônio inclusive com todo terreno Tucunduba de dentro". Dessa forma, Guriú tornou-se sinônimo de um lugar distante, como um exílio aos derrotados.

Caboclinho Marques

Um personagem controverso dos primórdios do Guriú foi o patriarca da Família Marques. Conforme o relato do Sr. José Cândido:

"[...] Depois chegou um pessoal aqui de fora, cujos troncos eram da Serra. Depois eles casaram nas famílias lá do Lago Grande e vieram se arrevestando, fizeram umas casinhas por aqui. Era a família Marque. Quando eles chegaram, eram mais vivos. Intentaram que aqui não tinha dono. Os Marque eram vivos e disseram: "Nós vamo se apossar disso aqui". Os outros eram bestas. Aí marcaram. Da donde a Marinha botou, eles tiraram uma légua de terra para dentro e ficaram mandando como donos. E foram pelejando até que tiveram ramo de rico. Depois Antônio Marque tirou uma légua de terra de um irmão dele e ainda mediu do marco para diante outra légua. Foi esbarrar no meio da mata, se apossando. Agora, quando ele chegou lá na marca que chama Barro, uns caras que eram lá dos Tucum botaram eles pra correr de lá. Mas depois eles foram entrando, porque compraram. O pessoal comprava terra daqueles proprietários do Lago Grande por um pedaço de fumo (Carvalho, 1991, p. 112).

Apesar de não estar claro se esse era realmente seu nome ou apenas um apelido, sabe-se que Caboclinho Marques e seu irmão Antônio Marques eram filhos de Manoel Marques da Costa (n. 04/07/1807) e Ignacia Maria do Nascimento (f. 24/08/1872), moradores do Acaraú. Caboclinho casou-se com um mulher identificada apenas por Zeza, e teve ao menos seis filhos: Francisco, Cotinha, Iraci, Edite, Clea, e Maria Helena (Freitas, 2006, p. 45). Era reconhecido como o proprietário da então Fazenda Guriú. 

Numa entrevista realizada pelo Sr. Osmundo Rodrigues Campos, em 04 de novembro de 1979, com os moradores locais José Ferreira da Cruz (Zé Cruz) e João Ferreira da Cruz, complementa as informações de José Cândido de Araújo, de que a "Família Marques, cujo patriarca Caboclinho Marques, foi o primeiro comerciante daquela região, além de Quinca Carvalho, que era seu cunhado(Camocim Pote de Histórias, 19/09/2025).

Caboclinho Marques.

Segundo o documentarista Alexandre Veras, Caboclinho Marques atuou como líder comunitário de pulso firme, sendo, até meados da década de cinquenta, sinônimo de mando no Guriú, local cujo destino sua família controlava com mãos de ferro (Veras, 2008, p. 24). No antigo casarão dos Marques funcionou, pelo menos até recentemente, a Associação Comunitária local.

A Salina do Sr. Solano

Na mesma entrevista, os antigos moradores rememoram a história do Sr. Solano, do Rio Grande do Norte, que veio juntamente com outros trabalhadores com a intenção de explorar uma salina na região. Essa história é corroborada pelo Sr. José Cândido, segundo o qual:

Solano chegou aqui em [mil novecentos e] oito, era em que eu nasci. Ele chegou em junho de oito, e eu nasci em julho, um mês adiante. Deles lá, branco só tinha dois que eu vi, foi o Chico Carreiro que morou no Parazim, e o Ze Carreiro, irmão dele. Tudo era negro da banda de Macau, Areia branca, Mossoró... E voltaram tudo. Foi Estevão Louzada quem passou o aterro no Pontal de Jurema. Uma vez eu cai no lago para pegar o chapéu dum camarada, bati com a água bem aqui (demarca com a mão em lâmina a altura do tórax), meus pés entrou assim, que quando eu fui arrancar, relou e coçou. Meu pai disse aschim: Meu fi, é o cascão véi do sal (Carvalho, 1991, p. 116).

No entanto, a grande abundância de caranguejo "sié" inviabilizou a empreitada, posto que este crustáceo furava as paredes da salina e estragava os cristalizadores. Vendo seus esforços de explorar a salina infrutíferos, Solano "abandonou o local com destino ignorado, deixando entretanto", além das benfeitorias (casa, catavento, etc), "vários trabalhadores que com ele vieram, entre eles: Chico Carneiro, Adolfo, Chico Nicolau, Gulino (pai do Abencio)".

Os Dramas Cantados de Guriú*

Em 2006 a pesquisadora Maria da Glória Freitas escreveu uma Tese de Doutorado sobre uma antiga tradição de Guriú, os Dramas Cantados. De acordo com a tradição oral preservada pelas antigas dramistas, os dramas cantados de Guriú tiveram origem entre 1940 e 1942, quando as filhas de Caboclinho Marques e D. Zeza retornaram de Fortaleza para a fazenda Guriú. Segundo o depoimento de D. Iraci Marques, elas se inspiraram nas representações teatrais do Colégio Santa Maria, no bairro Benfica, e adaptaram aquelas experiências à realidade da comunidade. A própria D. Zeza incentivou as filhas a criarem apresentações, reunindo músicas, diálogos e figurinos confeccionados artesanalmente. As primeiras encenações ocorreram na garagem da casa-grande da fazenda, com cobrança de ingressos e organização de um palco decorado, formando a primeira plateia de que se tem notícia em Guriú.

Ao longo das décadas de 1940, 1950 e 1960, a tradição consolidou-se por meio da transmissão oral entre gerações. Nomes como Otília (nascida em 1925), Maria César, Mundica, Rosa Carvalho, Rita Carvalho, Enilza, Nilda e Lourdes tornaram-se referências como dramistas e mestras, responsáveis por ensinar às meninas as canções, os gestos, as coreografias e a montagem dos espetáculos. Otília era reconhecida como guardiã de um vasto repertório de comédias de drama, enquanto Rosa Carvalho organizava grupos e viajava com as jovens para apresentações em outras localidades. As apresentações ultrapassavam os limites de Guriú e circulavam por comunidades como Mangue Seco, Córrego do Braço, Barrinha, Gijoca, Jericoacoara, Serrote da Jericoacoara, Lagoa do Carrasco e Corguinho, fortalecendo os vínculos culturais entre as localidades do litoral oeste cearense. 

Os palcos eram montados com tábuas e caixotes, os figurinos confeccionados com papel crepom e enfeitados manualmente, e a renda obtida com os ingressos era utilizada para custear novas apresentações e comprar materiais. A tradição permaneceu viva por aproximadamente sessenta anos, até entrar em declínio na década de 1990, em parte devido à chegada da televisão e às mudanças nos hábitos de lazer da comunidade. Segundo a autora, houve cerca de nove anos sem apresentações, até que os dramas voltaram a ser encenados em 1999, graças ao esforço de antigas dramistas e de uma nova geração interessada em recuperar essa manifestação cultural.

*Informações retiradas do trabalho Vidas Juntas Fabricando Palcos, de Maria da Glória Freitas.

Tatajuba, A Vila Soterrada

O termo Tatajuba faz referência a uma planta conhecida popularmente por pau amarelo (bagassa guianensis), outrora existente na região. Do tupi, significa literalmente pau de fogo (tata = fogo + yba = pau, madeira). Essa provavelmente era um dos chamados paus de cores tão cobiçados por corsários estrangeiros que vinham a costa negociar com os nativos desde, pelo menos, meados do século XVI (Girão, 1984, p. 36).

Reza a tradição, tanto pela oralidade quanto pelos resquícios arqueológicos que índios desciam da Serra da Ibiapaba durante as temporadas de colheita de frutos silvestres (especialmente caju), de caça e pesca e iam explorando o Rio Camocim, o Rio Ceará, até o Rio Grande do Norte e voltavam vice-versa. Os mais antigos moradores da vila contam que viam o deslocamento dessa tribo nessa passagem por Tatajuba, e que acampavam numa elevação que ficou conhecida como Morro dos Tremembés. Ainda hoje, essa presença pode ser notada pela presença das cascas de ostras no local do acampamento (Camocim Pote de Histórias, 21/12/2024).

Segundo a pesquisadora Eluziane Mendes, a história oral da comunidade tem por marco o ano de 1902, quando a ocupação deu origem a dois núcleos: Cabaceiras de Cima e Cabaceiras de Baixo. A primeira assim denominada por localizar-se à margem direita de uma gamboa, com topografia mais elevada; e a segunda, no lado esquerdo, com topografia mais baixa. A toponímia surgiu da existência de muitas plantas de cabaça (crescentia cujete) nas proximidades da praia, registrada por uma das primeiras famílias, assentada ao lugar, a Carneiro (Mendes, 2006, p. 36).

Ainda sobre este topônimo, a pesquisadora local Raimunda de Sousa Monteiro nos revela que os primeiros colonizadores da região eram pescadores, e tinham por hábito trazer cabaças cheias de água para se hidratar. Nos acampamentos desses pescadores, a margem da gamboa, teriam germinado várias sementes dando origem a vários pés de cabaças ou cabaceiras. Essa característica passou a ser referência e passou a dar nome ao local (A Tatajuba que o Vento Levou, 20/11/2016).

Além da família Carneiro, registra-se como primeiros moradores, o sr. Neuzinho, Chico Pescada e suas famílias, sucedidas pela família do Coronel Gregório Pedro Alexandrino, que se tornou o maior comerciante local, pois possuía um barco para realizar as transações de compra e venda de mercadorias e peixes entre Camocim e Tatajuba. Gregório Pedro, natural do lugar correguinho, foi uma figura de destaque na região de Tatajuba, sendo identificado como o primeiro proprietário de grande parte das terras onde esta foi construída. Atuou como líder comunitário e chegou a ser eleito vereador. Foi responsável, entre outras coisas, pela construção da primeira escola do lugar, existindo hoje uma unidade escolar com seu nome na nova vila.

Um depoimento colhido, em 2004, com a Sra. Maria Albuquerque Carneiro (Tia Bio), conta um pouco sobre os primórdio da comunidade:

"Eu tenho 76 anos. Nasci e me criei aqui. Meu pai, ele se engraçou com minha mãe e casou-se. Quando a gente veio morar lá no alto. Só que eu não me lembro a quanto tempo, que tempo, que ano papai casou-se. Mas, que nós veio pra cá, o filho mais velho é de 1927 e eu sendo de 1928. De lá nós saímos do Alto e viemos pra cá, na era de 1934. Era, também, do compade José Chico Gerevais. O morador aqui, era o papai [Gervásio Carneiro de Albuquerque], era o meu padrim Timóteo [Carneiro de Albuquerque]. Só tinha esses, quando a gente chegou aqui, eu só conheci uma casinha que o finado José Ivo tinha morado. Mas, os morador foi o meu pai e meu padrim, dois irmão" (Mendes, 2006, p. 38).

A depoente refere-se ao local denominado Alto, retratando o lugar onde se localizava a antiga Cabaceiras de Cima, e que, entre os primeiros moradores, estava sua família. Registra também a presença de Gilberto Carneiro de Albuquerque, outro irmão da mesma família.

Em 1925, estas famílias ergueram na Cabaceiras de Baixo uma pequena sala de oração em homenagem a Santo Antônio. Em 1948, capitaneadas pelo Sr. Gregório Pedroconstruíram uma igreja maior, de frente para o mar, num lugar mais alto, defronte a uma árvore de Tatajuba, o que teria motivado o novo topônimo, oficializado em 1950 pela Câmara Municipal de Camocim.

Segundo depoimento da Sra. Maria José de Araújo, "o nome de Tatajuba foi botado por um padre que celebrava aqui, o nome dele era Monsenhor Inácio [Nogueira Magalhães]. Ele perguntou como era o nome desse lugar e disseram que não tinha nome. Ele foi disse que ia dar o nome de Tatajuba" (A Tatajuba que o Vento Levou, 20/11/2016).

Os antigos moradores recordam também com certa saudosismo das várias celebrações religiosas, principalmente as festas de São Francisco, realizadas no dia 17 setembro, que atraía pessoas de todas as localidades da região. Segundo a Sra. Raimunda Onete Ferreira, as festas duravam três dias e eram animadas pelas cantorias e por pequenos parques de diversão.

Entretanto, a vila foi erguida numa área de dunas móveis que em seu movimento natural acabaram, paulatinamente, soterrando localidade. Esse fenômeno, ocorrido entre os anos de 1970 e 1979, foi agravado pelo vento forte e constante e a ausência de vegetação. Quando o processo de soterramento teve início, a então Vila de Tatajuba era um lugarejo em franco desenvolvimento, contando, além da igreja, com cerca de 150 casas, escola, posto policial, posto de saúde e alguns comércios.

Antiga Igreja de Tatajuba, já parcialmente soterrada.

Não se sabe ao certo o número de moradores atingidos, mas sabe-se que à época a vila tinha mais moradores do que a antiga Vila Serrote, atual Jericoacoara. A igreja foi a primeira a sentir os efeitos da ação do vento, que "soprou sete anos, dia e noite" (Maracatu, 20/11/2009). Diariamente os fiéis retiravam do seu interior, uma fina camada de areia que cobria a nave e o altar. Depois o processo foi se acelerando e todos os objetos foram sendo retirados, imagens, bancos, sino e outros objetos. Em seguida, a escola, o posto de saúde e dezenas de casas também desapareceram (Ceará em Fotos, 26/05/2026).

O depoimento de uma moradora local retrata o drama sofrido pelas famílias:

"A gente se levantava quatro horas da manhã pra tirar a terra lá de cima de casa, quando era cinco, passava para dentro, e quando  gente terminava de tirar a de dentro, a de fora tinha mais do a gente tinha tirado. Aí a gente ia lutar o resto do dia, quando era meio dia que a gente ia almoçar, almoçava mais terra do que a comida, chega estralava nos dentes. Depois do almoço a gente se deitava um pouco e botava um lençol por cima, demorava oito minutos e a gente já podia botar pra fora só de areia. Mas a gente só se mudou-se quando não podia mais, só passava por uma porta a outra estava tampada" (Canal ggmartins, 11/03/2009).

Em função do soterramento, por volta do ano de 1978, a população se dispersou para localidades próximas da antiga vila. A gamboa que existe no lugar teve seu curso deslocado e, resultou na divisão da vila em quatro núcleos: o de Tatajuba (também chamada de Nova Tatajuba e núcleo central), Vila São Francisco, Vila Nova e Vila da Baixa da Tatajuba (Mendes, 2006, p. 41). Nos anos 1980 iniciou-se a construção da atual igreja, cuja conclusão deu-se em 1982. Há apenas algumas centenas de metros da atual sede do distrito de Tatajuba, reconhecido pela Lei Municipal nº 1.716, de 12 de novembro de 2025, estão as ruínas de dezenas de casas de pescadores e de moradores da antiga comunidade.

Folclore e Lendas Locais

Um entrevista dada pela pesquisadora local Raimunda de Sousa Monteiro (D. Raimundinha) aos alunos do Colégio Estadual Prof. Ivan Pereira de Carvalho no ano 2016, registra algumas lendas correntes entre os antigos moradores de Tatajuba. Um parte delas gira em torno de uma grande duna de areia branca próxima a localidade, que se acredita encantada. Sob esta formação, teria havido em tempos imemoriais uma cidade, povoada por príncipes e princesas. Certa ocasião, teria havido um casamento entre uma das princesas locais, de nome Esmeralda, e um príncipe de outra região que teria acostado seu navio a povoação. Terminada a festa, constatou-se que o navio estava encalhado, sendo depois coberto pela areia assim como toda a cidade.

Ainda segundo a pesquisadora, os habitantes dessa cidade teria se tornado seres mitológicos, influenciando, inclusive no episódio do soterramento da Tatajuba Velha. Tais entidades ainda povoam o imaginário coletivo dos habitantes da vila, sendo registrados desde tempos antigos a presença de luzes e sons inexplicáveis. Relata ainda a existência da figura do "tarrafeiro", que interferiria negativamente nos frutos da pescaria. Uma episódio particularmente marcante foi de um pescador que teria sido perseguido, como já aconteceu com outros, por "um fogo" na beira da praia. Confrontando a aparição, jogou a tarrafa sobre o ser etéreo, que cresceu e o encarou de forma apavorante resultando em um trauma persistente e perda da voz (A Tatajuba que o Vento Levou, 20/11/2016).

O Naufrágio de Elba

Segundo Ruy Vasconcelos de Carvalho, um acontecimento marcantes na história recente de Tatajuba, foi o naufrágio da lancha Elba, ocorrido na década de 1980. A embarcação pertencia ao Sr. Osvaldo Mateus, vereador do distrito, capataz da colônia de pesca e proprietário da lancha, que fazia o transporte de passageiros e gêneros entre Camocim e Tatajuba. Durante a viagem, uma forte tempestade atingiu a embarcação; apesar de conseguir atravessar a barra do Lago Grande, seu destino, a lancha acabou sendo levada ao largo do Guriú, onde ocorreu o naufrágio. O episódio tornou-se um marco da memória coletiva da comunidade e foi transformado pelo pescador Burica em diversas narrativas em versos, constantemente reelaboradas, tornando-se um dos temas mais populares da tradição oral local (Carvalho, 1991).

Diego Carneiro

19 de julho de 2026 

Como citar esse texto:

CARNEIRO, Diego. Camocim e as Vilas Volantes. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 19 de julho de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/07/camocim-e-as-vilas-volantes.html

Referências

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